segunda-feira, 30 de julho de 2018

Neymar e a publicidade



O desenvolvimento do esporte está historicamente relacionado ao desenvolvimento da publicidade. O primeiro grande boom do esporte como algo maior do que uma simples competição entre times ou pessoas se deu nos anos 1930, quando estados totalitários europeus começaram a utilizá-lo como instrumento de propaganda. Após a guerra, os vencedores americanos e soviéticos continuariam fazendo dele instrumento da mesma forma durante todo o século 20. O segundo boom do esporte viria nos anos 1950 e 1960, com o surgimento e popularização da televisão. Este novo aparelho revolucionou nosso estilo de vida e, principalmente, a publicidade. Esta encontrou na televisão um instrumento gigantesco para chegar a um número inimaginável de pessoas, criando novas necessidades de consumo. Para vender mais, seria necessário criar figuras populares capazes de convencer consumidores de que eram incríveis o suficiente para que desejássemos utilizar os mesmos produtos que eles. Encontrou estas figuras principalmente no esporte e na arte pop. Não à toa a música, por exemplo, passou por grandes transformações a partir deste momento também.
A partir disso, não havia mais espaço para amadorismo no esporte. O tênis, esporte tradicional por excelência, foi o último a se adequar ao profissionalismo, em 1968. Nos anos 1970 e 1980, com o desenvolvimento da publicidade infantil, a ligação entre esporte e publicidade ganhou outros patamares. Foi mais ou menos a partir daí que entrou em ação a grande parceira da publicidade, a mídia. Era fundamental que o atleta fosse visto não apenas como alguém que era muito bom numa atividade banal e inútil, mas num “gênio”. Michael Jordan não era apenas um cara muito bom em acertar uma bola redonda dentro de um círculo, era um “gênio”. Ayrton Senna não era apenas alguém muito bom em correr rápido de carro, era um “gênio”. Desta forma, quando consumíamos algo que figuras como estas anunciavam não estávamos comprando algo normal, mas sim o produto usado por um “gênio”. O desodorante do “gênio”, a pasta de dente do “gênio”, a roupa do “gênio” etc. Mais do que isto, ligue sua TV em sei lá qual horário e veja o “gênio” em ação.
Foi neste período também que começou a surgir a mídia especializada. Gente que fazia faculdade e dedicava a vida a basicamente falar sobre pessoas praticando esporte. Gente que passou a se dedicar exclusivamente a analisar pessoas correndo atrás de uma bola, por exemplo. Pessoas na mídia que ganham a vida falando banalidades sobre falsos gênios, que no intervalo aparecem vendendo produtos que ajudam a pagar os salários dos especialistas das banalidades.
A banalidade hoje rende bilhões. Canais de TV, debates, gênios e principalmente publicidade. Temos gênios atrás de gênios. Mais do que isto, popularizou-se a expressão “melhor da história”. Messi, Cristiano Ronaldo, Roger Federer, Usain Bolt, Michael Phelps. Todos os “melhores da história” enquanto continuam vendendo. Em 20 anos teremos outros no lugar. No intervalo de um acalorado debate entre quem é o melhor da história, Messi ou Cristiano, apareceu uma propaganda de Cristiano se barbeando e de Messi comendo salgadinho.
A situação é tão inusitada que não há dúvidas de que os personagens tratados como gênios são incapazes hoje de se enxergarem de forma diferente. Li uma vez uma entrevista de Roger Federer em que ele dizia que se considerava um gênio. O suíço não se vê como alguém que é simplesmente muito bom em uma atividade bocó de dar raquetadas em bolinhas amarelas, ele realmente se acha um gênio. É o caso de Neymar.
Neymar é tratado como gênio desde que tem doze anos de idade. Não tenho dúvidas de que ele acredita que é um. Dificilmente ouve um não ou é convencido a fazer algo que não quer. A publicidade aprendeu a rentabilizar tudo. Até os fracassos. A Nextell teve uma boa repercussão ao trazer pessoas que tinham superado problemas pessoais. Por algum motivo achou que dava para aliar isto a um celular. A Gilette tentou fazer isto com Neymar também. Aparentemente não deu certo. O publicitário que teve a "brilhante" ideia de ligar a queda momentânea de Neymar ao ato de se barbear deve estar sofrendo.
As redes sociais estão representando um novo boom no esporte. E mudando a forma como atletas “geniais” e grande mídia se relacionam. A mídia tradicional está perdendo espaço para as redes sociais. A publicidade precisa cada vez menos dela para usar o seu atleta para vender. O “gênio” consegue ter um contato direto com os seus fãs sem precisar passar pelo jornalista especialista ou pelos apresentadores de TV dos programas de domingo. E a mídia tradicional está surtando por isso. O principal motivo para a má vontade com Neymar por parte desta mídia, a meu ver, é esta.
Neymar não deu nenhuma entrevista desde o fracasso na Copa. Falou apenas em suas redes sociais e na propaganda remunerada da Gilette. Certa vez vi um jornalista na TV dizendo que Neymar “tinha” que se declarar sobre a derrota para a Bélgica. Neymar não tem que nada. A declaração de Neymar para a propaganda é falsa? Tudo é. Se ela fosse dada no programa do Faustão ou no Luciano Huck, seria tão falsa quanto. E seria porque, não só ele, mas o mundo gira hoje em dia basicamente em torno da publicidade, que não faz nada diferente do que vender mentiras. Ações de filantropia, por exemplo, hoje se dedicam mais a promover a figura do doador do que a ideia de caridade. Neymar disse que ninguém sabe como é difícil esta no papel dele. Não duvido. Todos têm problemas e dificuldades. O ser humano é um ser egoísta, sempre acreditamos que nossos problemas são os piores, uma vez que são os únicos que sentimos na pele. Acho Neymar uma pessoa completamente vazia. Opinião pessoal. Isto é fruto do fato de que ele é tratado como gênio desde os doze anos por ser bom numa atividade que por si só é inútil. Uma pessoa que se acostumou a não ter opinião, porque isto pode atrapalhar as vendas. Mas a mídia precisa dele. Bajulava-o antes da Copa e voltará a bajular quando precisar dele para vender algo. Por enquanto está bravinha. Mas já já passa.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Alckmin x Bolsonaro - o sonho da direita



Antes de começar o texto verdadeiramente, gostaria de dizer que quase tudo que é escrito aqui é meio baseado em achismos. Daqueles tipos que as pessoas falam ou escrevem somente para depois terem a chance de dizer para os outros “eu avisei” caso realmente aconteça. E eu espero sinceramente estar errado nestas “previsões”.
O mercado e a grande mídia precisam da vitória de Alckmin. A eleição do candidato tucano é a legitimação de tudo que aconteceu no Brasil desde 2016. Seria como uma justificativa final. Alckmin poderia continuar as medidas regressivas de Temer com apoio das urnas. As mesmas forças que financiaram e praticaram o golpe contra Dilma Rousseff estão unidas em torno desta candidatura. A direita fisiológica que a imprensa insiste em chamar de “centrão”, por exemplo. As Igrejas que não pagam impostos e a bancada da bala fazem parte deste falso “centro”. A única turma que participou daquele golpe e não se uniu à candidatura Alckmin é a dos fascistas, que têm outro candidato. Aliás, o fato de que Bolsonaro tenha 19% e Alckmin tenha apenas 4% mostra bem como era a distribuição daquelas passeatas que a mídia vendeu como “familiares e pacíficas”.
Ir para o segundo turno com Bolsonaro é o grande sonho da turma que apoia Alckmin. Numa situação destas, quase todas as pessoas minimamente razoáveis votariam no tucano. Inclusive boa parte da esquerda, creio eu. Qualquer pessoa que for para o segundo turno contra Bolsonaro tem a chance de obter uma vitória em larga escala, algo como 65% a 35%, por exemplo. Nada seria mais consagrador do que chegar ao Planalto desta forma. Há, no entanto, três obstáculos para que isto aconteça: Marina, Ciro e Lula.
Marina será o obstáculo mais simples de ser vencido. O eleitorado de Marina é extremamente frágil e a impressão que tenho é que boa parte dele nem sabe direito porque está votando nela. Quer de alguma forma ser “diferente”. Basta a este eleitorado descobrir que Marina discorda dele em qualquer ponto para mudar de voto. Marina é, aliás, a verdadeira candidata de centro nesta eleição. A direita que finge querer um centro não a quer porque tem por ela os mesmos preconceitos que possuem contra Lula. Os seus eleitores mais progressistas desistirão dela quando ela expuser suas opiniões contrárias ao aborto e seus eleitores mais conservadores desistirão dela quando ela se mostrar progressista no que se refere a programas sociais. Apenas para dar dois exemplos. Qualquer propaganda mostrando que Marina eleita representaria falta de comida no prato pode ser suficiente para enfraquecer sua candidatura. Também não sei se Marina quer realmente ser presidente. A impressão que tenho às vezes é que ela se conformou em ser um personagem que aparece uma vez a cada quatro anos e passa o resto do tempo viajando e dando palestras, dizendo como com ela “tudo seria diferente”.
Para derrubar Ciro, a mídia terá um papel mais importante. Qualquer coisa que o ex-ministro do plano Real e ex-governador do Ceará disser que puder causar o mínimo de polêmica terá uma repercussão desproporcional. Darei dois exemplos. Nesta semana, Ciro foi por duas vezes a manchete de capa dos portais do Uol e da Globo.com. Numa delas, ele disse numa entrevista para uma rádio no MA que acreditava que Lula deveria ser solto. Em outra, reclamava da postura do PT em relação à sua candidatura. Os dois portais colocaram ESTAS duas notícias como capas ! Destaque principal do dia ! Ou seja, basicamente não havia nada mais importante acontecendo no mundo naquele momento do que estas falas de Ciro. Criam-se assim duas falácias. A primeira é de que Ciro poderia dar um indulto a Lula, o que não é nem previsto pela Constituição, afastando-o do eleitorado mais conservador. A segunda é a de que Ciro estaria brigando com o PT, afastando-o do eleitorado mais progressista. Tudo que o candidato do PDT disser será supervalorizado, especialmente aquilo que puder gerar qualquer polêmica.
Quanto à Lula, a aposta é em seu ego. Lula é egocêntrico e inegavelmente tem até razão para isto. Lula é o brasileiro vivo mais importante, sem dúvida a pessoa que mais influenciou o país nos últimos 50 anos. Está preso injustamente há 100 dias, sofrendo ataques incessantes da grande mídia e, mesmo assim, lidera as pesquisas com folga. Seria eleito se vivêssemos numa democracia séria. Se qualquer gerente de empresa privada quebrada já é egocêntrico por isso, imagine Lula? Se até o William Waack é egocêntrico, imagine alguém do tamanho de Lula? Fazendo uma pequena digressão sobre William Waack, aliás, vi outro dia um trecho de programa dele em que ele disse que o maior problema do Brasil é a impunidade. Concordo, num país sério Waack estaria preso pelo crime de racismo que cometeu. Voltando a Lula, ele provavelmente manterá sua candidatura até o prazo máximo de julgamento pelo TSE. Este tribunal fará o possível para adiar ao máximo a confirmação de sua não-candidatura, impedindo assim que Lula tenha tempo para transferir seus votos para outro(a) candidato(a).
Grande mídia, empresariado e judiciário dividirão suas tarefas na missão de fazer Alckmin decolar. A tarefa seria mais fácil se o eleitorado de Bolsonaro não fosse tão fanático. Os fascistas não querem tucanar novamente. Será preciso fazer que outros eleitorados tucanem então. O PSDB, que é possivelmente o maior responsável pelo crescimento da extrema-direita no país, tenta se vender como centro.  A direita que agora se diz horrorizada com o que diz o candidato fascista faz suas críticas por pura hipocrisia. Não sentiu vergonha de contar com ela na derrubada de um governo democraticamente eleito. Não pensará duas vezes antes de focar suas críticas em Ciro e Marina no caso de se confirmar o fato de que os fascistas não voltarão mais ao ninho tucano. Dinheiro para isto não faltará. Haja propaganda.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Brazilian Horror Story



Na semana de lançamentos das campanhas presidenciais, a mais importante e assustadora reportagem que li na "grande" mídia nos últimos tempos passava meio que despercebida pela maioria. O repórter da Revista Época Patrick Camporez conta aos poucos leitores da revista a experiência de uma escola estadual militarizada do estado de GO. Em julho de 2015, o governador de GO, Marconi Perillo do PSDB, transferiu a gestão de uma escola pública para a Polícia Militar. O que se lê no texto é bizarro e, numa era em que o bizarro tem se sobreposto, possivelmente foi visto com bons olhos por boa parte dos reduzidos leitores. Os militares transformaram a escola em quartel. Todos os alunos estão uniformizados como soldados, urram gritos de guerra nacionalistas e passam por uma inspeção na entrada. Nenhum tipo de individualidade, como corte de cabelo fora do padrão ou unha pintada, é aceito. Após a entrada, há uma segunda inspeção, realizada pelos próprios alunos. Eles são o tempo todo incentivados para a vigilância interna. Salas de aula passaram a se chamar “alas” e “pavilhões”, os mesmos termos utilizados para falar de cadeias. Os centros estudantis foram abolidos, bem como aulas de teatro e de dança.
Acredita o governador tucano Marconi Perillo que o plano está dando certo. O motivo apontado é apenas um, a nota do Enem. O desempenho estudantil, acha o governador, é medido apenas por uma prova de múltipla escolha e tudo vale para se melhorar este número. Inclusive transformar escola em prisão. É quase uma ditadura da estatística, afinal. Nenhuma comparação com outros projetos que também melhoraram em provas sem transformar alunos em presidiários é feita na matéria. Não se buscou entender, por exemplo, o modelo cearense que possui 77 das 100 melhores escolas públicas do país segundo o IDEB.
A escola é o primeiro lugar de socialização da maioria dos nossos jovens. Lá, eles deveriam encontrar um ambiente diverso, entrar no mundo. O que o modelo goiano está fazendo é exatamente o oposto, formando um exército de jovens autoritários e intransigentes, dispostos a dedurar em nome da pátria. Mais do que isto, transferiu a gestão do ensino para a corporação que deveria cuidar da segurança pública.
O plano do PSDB de GO é expandir este projeto para outras escolas do estado. Atualmente, 46 escolas-prisão com 53 mil “presidiários”, ou melhor, alunos, já existem no estado. Outros estados já seguem esta onda, especialmente na região Norte e Centro-Oeste.
No último domingo, Jair Bolsonaro lançou sua candidatura à presidência, com o apoio da advogada do impeachment, Janaína Paschoal. A alta aceitação da candidatura Bolsonaro está longe de ser o início de um processo de “fascistização” da sociedade brasileira. É apenas uma nova etapa. O eleitorado fascista se escondeu por muito tempo no simples antipetismo. Odiavam o que acontecia no governo Lula, que era o oposto do que ocorre na ideia da gestão Perillo. Ideias de igualdade de gênero, de cotas raciais para corrigir as desigualdades da nossa sociedade racista, distribuição de renda. É por isso que esta parte da sociedade odeia Lula. A suposta corrupção é apenas um disfarce. Na falta de um candidato que expusesse o mesmo ódio abertamente, esta parcela fascista da população apoiava qualquer um que concorresse contra Lula e contra o PT. O PSDB apareceu como principal opção, recebendo e aceitando por anos este eleitorado. A partir do impeachment sem crime, comando pela possível vice de Bolsonaro,  Janaína Paschoal, contratada do PSDB na época do processo, esta parcela se viu liberada para agir de forma mais independente, depredando exposições artísticas, por exemplo. Não à toa a candidatura de Bolsonaro ganha força a partir do afastamento de Dilma. Ele não teria 20% dos votos em 2014, afinal. Eu sinceramente acho que ele não ganhará neste ano. Acho e torço. O maior perigo é a forma como o PSDB vem se transformando para atrair o seu tipo de eleitor. Não há a menor dúvida que a experiência dos tucanos em GO visa atrair os bolsonetes de lá. Até onde o PSDB é capaz de ir, não se sabe. As coisas ocorrem gradualmente, passo-a-passo. Se uma hora este tipo de ideia triunfar no país, lembre-se da sessão do impeachment. E lembre-se também de Bolsonaro fazendo o gesto de arma junto a uma criança na semana passada. Esta foto foi tirada em Goiânia, aliás.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Dr. Bumbum e a ditadura da beleza



A bancária Lilian Calixto saiu de Cuiabá no dia 18/7 para realizar um procedimento estético no Rio de Janeiro. Aplicaria um implante nos glúteos com o médico Denis Furtado, que era conhecido no meio como “Dr. Bumbum”. O valor do procedimento seria de R$ 20 mil e ocorreu na casa do médico. Em decorrência de complicações decorrentes da cirurgia, Lilian morreria no domingo.
O Brasil realizou em 2017, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, um milhão e duzentas mil cirurgias estéticas. É o segundo país no mundo em que mais são realizados estes tipos de procedimentos, atrás apenas dos EUA. Segundo esta mesma instituição, mulheres representam 86% destas cirurgias. Os dois procedimentos mais comuns são lipoaspiração e implantação de silicone nos seios.
A principal característica do sistema em que vivemos é que ele precisa sempre nos manter de alguma forma infelizes. A principal arma da propaganda é mostrar como seríamos mais felizes se comprássemos aquilo que está sendo vendido. E nada vende mais do que a beleza. Ligamos a TV diariamente e somos bombardeados por pessoas lindas demonstrando felicidade. Desde cedo somos doutrinados a buscar o tão padrão de beleza e isto é multiplicado por infinito no caso feminino. Quando criança, as bonecas são quase sempre loiras e magras. As apresentadoras infantis são quase todas loiras e magras. Passando para a adolescência, programas com atrizes quase sempre loiras e magras disputando o galã e vendendo um estilo de vida consumista nos preenchem. Na vida adulta, apresentadoras de TV quase sempre loiras e magras nos confundem com fofocas sobre celebridades loiras e magras e publicidade de produtos de beleza entre uma notícia sobre crise econômica e outra. As revistas femininas quase sempre trazem em suas capas mulheres magras e loiras, em títulos como “Boa Forma” ou “Saúde”. Passamos a vida sendo bombardeados pela ditadura da beleza e tendo uma vida de merda graças aos padrões impostos por ela. Somos vítimas, mas ao mesmo tempo opressores, uma vez que também utilizamos estes padrões para julgar.
A infelicidade com o próprio corpo é uma das maiores formas de opressão social. Enquanto procurava matérias sobre o assunto para tentar escrever este texto, a que mais me assustou foi a conclusão de uma matéria do Estado de São Paulo sobre o assunto em dezembro de 2016: “As mulheres e homens podem começar o ano de 2017 mais bonitos e confiantes, pois quando se está bem exteriormente e interiormente, de corpo e alma, as coisas boas começam a surgir”. Todo oprimido é facilmente manipulado e a indústria lucra com isto. A sociedade é incentivada a tratar o assunto da forma o mais superficial possível. Quase todas as matérias que falam sobre a segunda colocação do Brasil no ranking de cirurgias plásticas no mundo as fazem tratando o assunto com orgulho.
Este dado é sinônimo de um grave problema social. Não nos aceitamos como somos. Cada vez mais pessoas, especialmente mulheres, são empurradas para mesas de cirurgia em nome de um padrão de beleza que não temos. Arriscam suas vidas (porque toda cirurgia tem um risco afinal) para se sentir mais aceitas por uma sociedade que não busca aceitar ninguém, que julga basicamente por posses e aparências.
O Brasil não sabe reconhecer e tratar suas doenças. A mídia não faz o seu papel. Ao invés de usar esta tragédia para debater nossa sociedade e abordar o que leva tantas mulheres a buscar o bisturi por razões estéticas, trata o caso com sensacionalismo. As bases para a busca de uma melhoria deste problema seriam o questionamento dos valores de uma sociedade consumista e a aposta em maior diversidade na representação das pessoas por parte da mídia. Mas ninguém parece interessado nisso. Beleza e infelicidade vendem. Fazem a economia girar. Numa sociedade dominada por este tipo de pensamento, casos como estes se repetirão. Dr. Bumbum será preso. E caso ele tenha agido de má fé neste caso, espero que continue preso. Mas a sociedade continuará sendo oprimida pelo assunto. Quem sabe não veremos ainda nesta década alguma matéria comemorando que o Brasil assumiu a primeira colocação neste triste ranking? 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Quando ondas autoritárias se tornam irreversíveis?




Um debate entre Bill Maher e Michael Moore na TV americana me trouxe uma possível reflexão sobre o Brasil. Debatendo a situação americana e os possíveis reflexos que o governo Trump pode ter para o futuro da democracia americana, o cineasta se perguntou qual foi o momento em que ficou claro que não havia mais volta. Ditaduras surgem como parte de um processo, mas algumas vezes há marcos que tiram suas máscaras. O incêndio do Reichstag, o assassinato de Sergei Kirov e o AI5 podem ser três exemplos. A reflexão que tive sobre o Brasil atual é se isto já aconteceu ou se ainda há alguma chance de volta.
As instituições brasileiras estão em frangalhos. O grande ídolo de uma parcela significativa da população é um juiz autoritário que sucessivas vezes desrespeita a lei. Sua idolatria com esta parcela da população só aumenta cada vez que ele toma estas atitudes. O maior líder popular e democrático dos últimos 40 anos está preso num processo fajuto de uma reforma que iria acontecer num apartamento que ele não quis comprar. Numa eleição sem ele, o líder nas pesquisas é um candidato com claras tendências fascistas, que defende entre outras coisas a prática de torturas, a violência contra homossexuais e a criminalização de movimentos sociais.  De certa forma nos acostumamos com isto. Ninguém parece muito chocado com o fato de um candidato destes ser líder e ter chance de ganhar.
A explosão deste movimento reacionário do Brasil se deu no dia do segundo turno em 2014. A reeleição de Dilma acordou monstros. Assim que sua vitória foi anunciada, especialmente em São Paulo, muitas pessoas usaram redes sociais para atacar a região Nordeste. Uma delas foi Coronel Telhada, deputado estadual mais votado pelo PSDB no Estado. Uma semana depois da eleição, um recém-fundado grupo de jovens que se dizem liberais, o MBL, marcou a primeira passeata pedindo o impeachment da presidenta que nem havia tomado posse ainda. O líder deste movimento, Kim Kataguiri, ganhou um espaço completamente desproporcional à sua importância na mídia, recebendo uma coluna na Folha de São Paulo e participando de diversos programas de TV para expor suas “ideias”. No segundo mês do segundo governo Dilma, a Câmara dos Deputados elegia Eduardo Cunha, um notório ladrão com pitadas de fanatismo religioso, para sua presidência. Em março, setenta e cinco dias após a posse de Dilma, uma manifestação gigantesca aconteceu em São Paulo. Apoiada pela mídia, que a anunciava a cada meia hora, e liderada pelo MBL, mais de um milhão de pessoas saíram às ruas na maior cidade do país. Diversas faixas de “Intervenção Militar Já”, “Volta da Monarquia” e até símbolos nazistas eram vistos e aceitos passivamente pela multidão, que provavelmente agrediria alguém que lá aparecesse com uma bandeira petista. O PT já era visto como uma ameaça maior por esta turma do que uma ditadura. Uma advogada obscura deste estado, ultra-direitista e fanática religiosa,  Janaína Paschoal, foi contratada pelo partido derrotado em 2014 (o PSDB de Coronel Telhada) para achar algum motivo que justificasse a abertura de um processo de impeachment. Descobriu uma possível assinatura de um decreto de gastos suplementares sem a aprovação do Congresso. Foi suficiente. Com a aprovação da abertura de processo pelo deputado ladrão e fanático religioso, a advogada fanática religiosa conseguiu levar a frente seu processo. Uma nova passeata foi marcada para março de 2016. Duas semanas antes desta passeata, o juiz Sérgio Moro liderou uma condução coercitiva do ex-presidente Lula. Seria a primeira vez que este juiz descumpriria abertamente a lei, uma vez que o ex-presidente não havia se recusado a atender a Justiça e não poderia ser vítima de uma condução coercitiva naquele momento. Preocupado com a perseguição ao ex-presidente e tentando salvar seu governo, a presidenta Dilma nomeou Lula para o ministério da Casa Civil. Revoltado com o fato de perder o caso que o estava tornando famoso, Moro simplesmente liberou na mídia várias conversas que havia grampeado do ex-presidente, entre elas uma dele com a presidenta, realizada após Lula já ter foro especial. Seria a segunda vez que o juiz descumpriria a lei. No final de semana da passeata, a revista Isto É trazia em sua capa a delação de Delcídio Amaral, em que ele “contava tudo”. Mais de um ano depois, provou-se que o “tudo” delatado pelo ex-senador era mentira, mas ninguém se importou com isto. A passeata foi um sucesso. Novamente mais de um milhão de pessoas em SP, entre elas gente pedindo intervenção militar, etc. A sessão do impeachment foi uma tortura. Deus, família e paranoias se destacaram nos discursos dos deputados.
Após o afastamento de Dilma, a segunda etapa seria impedir a candidatura de Lula. No final de 2016, o Supremo alterou a interpretação da Constituição para permitir que um juiz de primeira instância prendesse uma pessoa após sua condenação em segunda instância, mesmo que a Constituição diga o contrário. No primeiro semestre de 2017, numa acusação sem provas e baseada em delações obtidas a partir de prisões preventivas ilegais, Moro condenou Lula. Num processo com velocidade muito maior do que os demais, o Tribunal da Segunda Instância condenou também o ex-presidente, de forma unânime e com a mesma pena. A questão de ser unânime e com a mesma pena é fundamental neste caso, uma vez que qualquer divergência entre os magistrados permitiria um novo recurso da defesa de Lula. Antes mesmo que esta defesa apresentasse qualquer tipo de recurso na segunda instância, Moro decretou a prisão de Lula, afastando assim o ex-presidente do processo eleitoral que ele lidera.
A força de Bolsonaro vem deste processo. O fascismo destrói instituições. As instituições brasileiras não sobreviveram à onda paranoica e de ódio que derrubou uma presidenta incompetente, mas inocente, e prendeu o maior líder do país num processo farsesco, transformando o juiz que o conduziu em ídolo. Em algum momento, quando estivermos debatendo esta onda fascista no futuro, talvez encontremos, no caso brasileiro, o momento que Maher e Moore procuram quando debatem a situação americana.
Não é o meu caso. Há um dado pouco debatido no Brasil que é para mim a base para entendermos o que ocorre por aqui. Bolsonaro, mesmo no cenário com Lula, lidera entre os mais escolarizados. É o líder entre os que têm diploma de nível universitário. A educação no Brasil fracassou. Ao invés de formarmos pessoas dispostas a debater e melhorar o país, formamos uma elite egoísta, mesquinha e violenta. Pessoas mimadas que estão dispostas a tudo para ver suas vontades atendidas. A educação no Brasil se contenta em formar consumidores e não cidadãos. Pessoas que em geral não estão nem aí para valores democráticos. Há duas semanas, Bolsonaro foi aplaudido numa sessão com industriais ao dizer que transferiria o comando da economia a eles. Quem aplaude Bolsonaro por isso também aplaude o resto. A elite não se preocupa com o resto, até prefere um governo autoritário que tire do debate os “esquerdopatas que só enchem o saco”. Os que aplaudem Bolsonaro são os mesmos que aplaudem Moro. Talvez em algum destes aplausos esteja o momento-chave.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O racismo do youtuber e a marca humana



Toda vez que ocorre um escândalo com um destes youtubers, eu descubro que estou ficando velho. Nunca ouvi falar de nenhum. Para falar a verdade, não sei nem muito bem o que eles fazem. Posso estar errado, mas a impressão que tenho é que eles fazem vídeos meios sobre qualquer coisa que, por algum motivo que desconheço, fazem sucesso. Júlio Cocielo é um deles. Depois do seu escândalo de racismo, ele atingiu a minha bolha. Fui assistir algum vídeo dele, consegui por um minuto. Ele tinha (acho que tem ainda) um trilhão de visualizadores e patrocínios de marcas gigantescas, tipo Coca-Cola e McDonalds. Vi outros tweets dele e, aparentemente, ele é uma pessoa muito escrota. Faz anos que ele é racista, e ninguém, acho, falava nada.
Na semana passada, terminei de ler A Marca Humana, de Philip Roth. Trata-se, a meu ver, de uma das melhores obras sobre o impacto do racismo na sociedade americana. Conta a história de Coleman Silk, renomado professor universitário de letras clássicas que vê a carreira entrar em colapso após uma acusação de racismo. Durante uma aula, ele usa o termo “spooks” para se referir a um aluno que não comparece com frequência às aulas. “Spooks”, descobri no livro, era um termo utilizado nos anos 60 como gíria para fantasma, mas que, no mesmo período, ganhou uma conotação racista no Sul dos EUA. Negando que tenha usado o termo com esta conotação, uma vez que não sabia a cor da pele do aluno que não aparecia nas aulas, Coleman é afastado da faculdade e vê sua esposa ter um ataque cardíaco e morrer durante o processo de expulsão. Envolve-se, então, com uma faxineira analfabeta da mesma universidade, causando um novo escândalo no meio universitário e perdendo o contato com os filhos. Um pouco antes da metade do livro, descobrimos que Coleman possui um segredo. Ele é negro. Com a pele mais clara do que o restante da família, resolve se definir como branco num formulário para ingresso na Marinha (à época ainda não integrada) e mantêm este segredo até o final da vida. No final do livro, quando uma irmã dele aparece para seu funeral (Ernestine), ficamos sabendo que a prática era comum entre pessoas negras de pele mais clara nos EUA antes do movimento pelos direitos civis. Perguntada pelo autor sobre qual o julgamento que ela faz da atitude do irmão, Ernestine diz que não era o momento de julgar. Uma personagem muito importante do livro é Delphine Roux, professora jovem cuja ação é fundamental no processo de expulsão de Coleman da universidade. Em um dado momento, esta professora começa a enviar cartas anônimas para Coleman o ameaçando em decorrência do relacionamento dele com a faxineira. Mais para a frente, Delphine, a jovem liberal, decide enviar uma carta para um jornal em busca de um namorado e tenta encontrar algum jeito de deixar claro de forma implícita que está procurando alguém branco. Como as marcas que hoje se afastam do youtuber, Delphine só combate o racismo quando isto é de alguma forma útil para sua carreira. O afastamento de Coleman foi fundamental para sua ascensão na universidade.

O youtuber Julio é racista e somos uma sociedade de Delphines. Somos expostos diariamente a situações racistas e nada fazemos. O racismo silencioso. A atual novela das oito se passa na Bahia, onde 80% da população é negra. Na novela, quase todos os atores são brancos. Em quase todos os bares que vou, os clientes são brancos e os atendentes são negros. Nos lugares em que trabalhei, a maioria absoluta dos funcionários eram brancos, ao mesmo tempo em que a inscrição na parede de uma delas era “valorizamos a diversidade”. Quase toda vez que eu tentava abordar este assunto com meus colegas de trabalho brancos, eu era rechaçado. “Estava viajando.” Na minha turma de faculdade (pré-cotas), se não me engano, havia um aluno negro, numa turma de noventa. A maioria absoluta dos meus colegas brancos é contra as cotas. Costumam usar o exemplo deste um colega negro para dizer que “é possível”.
Brancos em geral adoram o exemplo do “um negro que consegue” para justificar a ausência de políticas que diminuam a gigantesca e visível desigualdade racial no país. O sucesso de Fernando Holiday entre eleitores brancos reacionários está aí para provar isto. De certa forma, tentam naturalizar o fato de que uma pessoa deve se esforçar mais do que a outra para conseguir a mesma coisa. Um negro dizendo que racismo é “frescura” é fundamental para justificar a situação triste que vivemos e serve como um bom argumento de autoridade para quem defende a sua manutenção.
Várias personalidades já apareceram para defender o youtuber Júlio do que chamam de “linchamento”. Danilo Gentili e Rafinha Bastos são dois exemplos. Racismo é um crime inafiançável segundo nossa Constituição. A lei não pegou. O brasileiro em geral não reconhece o racismo como crime. “É uma brincadeira”. Ninguém pede prisão para William Waack. O máximo que acontece com pessoas que cometem este tipo de crime é perder emprego ou patrocinadores. A emissora que demitiu Waack é a mesma, aliás, que faz uma novela na Bahia com atores negros. E que possui atualmente apenas um apresentador negro em toda sua programação atual. Alexandre Garcia, um dos poucos jornalistas que, como Waack tinha, tem liberdade quase total de opinar nos telejornais da Globo, disse durante o ocaso do governo Dilma que a gestão petista havia “inventado” o conceito de raça no Brasil, através do sistema de cotas. Disse isto sobre um país que por mais de 300 anos conviveu diretamente com a escravidão. Não houve nenhuma retratação oficial da emissora. O sistema de cotas que permite que as universidades sejam hoje, felizmente, lugares muito mais diversos do que aquelas da época em que estudei.
Raças não existem biologicamente. Mas existem historicamente. A desigualdade racial no Brasil é gritante e visível. Para combatê-la, é fundamental que a parcela branca da população enxergue os privilégios históricos decorrentes de sua cor de pele. É necessário abrir os olhos e ser capaz de enxergar minimamente a sociedade que nos cerca. É fundamental que a sociedade esteja a disposta a corrigir no presente os erros do passado. Uma sociedade que não o faz, apenas perpetua seus erros. Para que isto ocorra, precisamos combater com força não apenas Júlio Cocielo, mas também Alexandre Garcia. Exigir que o crime inafiançável seja tratado como crime inafiançável. E nos esforçarmos para não sermos como Delphine Roux.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Doria, Datena e o triunfo da mediocridade



Doria e Datena se uniram. Concorrendo ao governo do Estado, o publicitário lobista “não-político” precisava encontrar um tema para sua campanha e, buscando repetir seu sucesso da campanha anterior à Prefeitura, precisava fazer isto sem apresentar uma proposta real. Fez isto chamando para a chapa como candidato a senador o apresentador sanguinário recém filiado ao DEM, aquele que repete sensos comuns em programas violentos vespertinos, mantendo pessoas assustadas entre propagandas de seguradoras de carro e planos de saúde.
Como um jovem empreendedor que já fracassou em quatro empresas que abriu com o dinheiro do pai, João Doria Jr. fracassou em quase tudo que fez na vida. Vendido como “publicitário de sucesso”, não consegui encontrar pesquisando nenhuma propaganda importante ou inesquecível que tenha sido feita por ele. Tentou ser apresentador de TV, primeiro em um programa de entrevistas em que nunca saía do traço de audiência. Em seguida, substituindo Roberto Justus no “Aprendiz”, conduzindo as edições menos assistidas do programa. Conseguiu entrar na política através de uma empresa chamada “Lide” que ninguém sabe ao certo do que faz. Aparentemente se trata de uma empresa de lobby, cuja função é juntar políticos de todos os partidos, em sua maioria tucanos, com empresários do setor privado, facilitando assim a realização de “negócios”. Adotando um discurso anti participação estatal, a Lide fundou uma revista, que sobrevive graças à imunidade fiscal do papel utilizado para imprimi-la e de propagandas de governos tucanos espalhadas entre uma matéria de empreendedorismo e outra. Sua primeira tentativa de obter algum protagonismo na política veio no começo da gestão Dilma, com um movimento chamado “Cansei”. Tratava-se de um grupo formado por empresários e celebridades que tentava, já naquela época, criar um movimento político semelhante ao que viria a ser o MBL a partir de 2014. Após o impeachment da petista, Doria alcançaria aquele que seria possivelmente o seu primeiro sucesso real na vida. Em uma eleição marcada pela mediocridade, numa sociedade dividida pelo ódio, Doria se destacou. Comprou a vaga pelo PSDB paulista, pagando as dívidas de campanha que Alckmin havia deixado na eleição anterior, e fez uma campanha inegavelmente bem-sucedida. Sem apresentar qualquer coisa que se parecesse com um programa de governo, sem propostas sobre transporte público, segurança e educação, tendo basicamente uma proposta de curto prazo sobre saúde (o já esquecido Corujão da Saúde) e prometendo privatizar tudo que possível, foi eleito em primeiro turno. Sua gestão, como tudo que havia feito antes desta campanha, foi um fracasso. A ausência de projetos resultou em ausência de realizações e sua popularidade começou a despencar após o primeiro semestre. Com aquela esperteza típica de quem passa a vida inteira enganando, Doria soube sair da Prefeitura o mais rápido possível para fazer aquilo que aparentemente é a única coisa que sabe realmente fazer, campanha política para si mesmo. Tentou (e tenta até agora) passar a perna em Alckmin e ser candidato a presidente. Voltou a fracassar e lhe sobrou o Estado.
O tucano tentará repetir em 2018 as receitas do sucesso de dois anos antes. Buscará o discurso o mais vazio possível, evitará tocar em assuntos importantes e qualquer proposta mais complexa. O caminho para a vitória está em tornar a campanha o mais medíocre possível. Para isto, nada mais simbólico do que trazer para a campanha um nome como José Luiz Datena. Este, ao contrário de Doria, é inegavelmente bem-sucedido na área televisiva. Ex-repórter esportivo, alcançou grande êxito com a fórmula do medo. Ninguém soube como ele manter uma população assustada em frente à televisão em horários vespertinos, sempre vendendo porcarias entre uma notícia do mundo cão e outra. Poucas coisas mantêm um consumidor mais propenso a comprar do que o medo. A televisão aprendeu desenvolveu isto, tendo Datena como um dos seus mais importantes vendedores. Destacou-se também com um discurso “anti-poder”, ao mesmo tempo em que puxava o saco de quase todos os políticos que estavam no poder. Um dos seus slogans é que a tragédia é a “vida real”.
Pois bem, a “vida real” propagada por Datena será provavelmente o tema da eleição estadual. Trazendo o apresentador para sua chapa, Doria ganha espaço no tema de segurança pública da forma como sabe, sem apresentar proposta. Candidato pelo partido que assistiu a criação da maior organização criminosa do país em seus presídios, Doria desfilará pelo estado com Datena repetindo as frases do apresentador sobre o assunto. Provavelmente levará com eles Coronel Telhada, ícone da política sanguinária e deputado estadual mais votado do Estado na última eleição, que propôs em uma rede social a separação de SP do restante do país após a vitória de Dilma em 2014.
O PSDB foi fundado como partido de intelectuais social-democratas após o fim do regime militar e o fracasso do governo Sarney. Em SP era o partido de Franco Montoro e Mário Covas. Hoje se tornou o partido do lobista fracassado, do coronel preconceituoso e do apresentador sanguinário. Nada representa melhor a mediocridade do pensamento político em SP do que o rumo tomado pelo PSDB. Doria tenta usar o Estado como trampolim para levar sua mediocridade ao Planalto. Para realizar seu sonho, será necessário manter a população medíocre. Contará com a ajuda de Datena para isto.