terça-feira, 14 de abril de 2015

São Paulo e a extinção da CLT



Segue abaixo o voto de cada deputado paulista na votação do Projeto de Lei que permite a terceirização de todos os setores de uma empresa, que na prática pode significar o fim das leis trabalhistas como as conhecemos:

Deputado
UF
Voto
Partido
Alexandre Leite
SP
Sim
DEM
Eli Côrrea Filho
SP
Sim
DEM
Jorge Tadeu Mudalen
SP
Sim
DEM
Orlando Silva
SP
Não
PC do B
Major Olimpio
SP
Sim
PDT
Baleia Rossi
SP
Sim
PMDB
Guilherme Mussi
SP
Sim
PP
Missionário José Olimpio
SP
Sim
PP
Paulo Maluf
SP
Sim
PP
Alex Manente
SP
Sim
PPS
Roberto Freire
SP
Sim
PPS
Capitão Augusto
SP
Sim
PR
Marcio Alvino
SP
Sim
PR
Miguel Lombardi
SP
Sim
PR
Milton Monti
SP
Sim
PR
Tiririca
SP
Não
PR
Antonio Bulhões
SP
Não
PR
Beto Mansur
SP
Sim
PR
Fausto Pinato
SP
Sim
PR
Marcelo Squassoni
SP
Sim
PR
Vinicius Carvalho
SP
Sim
PR
Flavinho
SP
Sim
PSB
Keiko Ota
SP
Sim
PSB
Luiz Lauro Filho
SP
Sim
PSB
Luiza Erundina
SP
Não
PSB
Gilberto Nascimento
SP
Sim
PSC
Pr. Marco Feliciano
SP
Não
PSC
Goulart
SP
Sim
PSD
Herculano Passos
SP
Sim
PSD
Jefferson Campos
SP
Sim
PSD
Ricardo Izar
SP
Sim
PSD
Walter Ihoshi
SP
Sim
PSD
Bruna Furlan
SP
Sim
PSDB
Bruno Covas
SP
Sim
PSDB
Eduardo Cury
SP
Sim
PSDB
João Paulo Papa
SP
Sim
PSDB
Lobbe Neto
SP
Sim
PSDB
Mara Gabrilli
SP
Não
PSDB
Miguel Haddad
SP
Sim
PSDB
Ricardo Tripoli
SP
Sim
PSDB
Samuel Moreira
SP
Sim
PSDB
Silvio Torres
SP
Sim
PSDB
Vitor Lippi
SP
Sim
PSDB
Ivan Valente
SP
Não
PSOL
Ana Perugini
SP
Não
PT
Andres Sanchez
SP
Não
PT
Arlindo Chinaglia
SP
Não
PT
Carlos Zarattini
SP
Não
PT
José Mentor
SP
Não
PT
Nilto Tatto
SP
Não
PT
Paulo Teixeira
SP
Não
PT
Valmir Prascidelli
SP
Não
PT
Vicente Candido
SP
Não
PT
Vicentinho
SP
Não
PT
Arnaldo Faria de Sá
SP
Não
PTB
Nelson Marquezelli
SP
Sim
PTB
Renata Abreu
SP
Sim
PTN
Evandro Gussi
SP
Sim
PV
William Woo
SP
Sim
PV
Paulo Pereira da Silva
SP
Sim
SOL

Alguns comentários:
- Todos os candidatos do PT votaram não. Mesmo assim o projeto foi aprovado com facilidade. O PT tem a presidência da República, mas já não governa. Dilma se tornou quase uma figura decorativa.
- A única deputada do PSDB-SP a votar contra este projeto foi Mara Gabrili. Para quem não a conhece, ela é deputada desde 2011, defendendo acima de tudo a causa dos deficientes físicos. Em muitos momentos, ajudou o PT na confecção de Medidas Provisórias facilitando o acesso de deficientes ao Pronatec e ao Minha Casa Minha Vida. Mara odeia o PT. Seu pai era dono de uma empresa de ônibus em Santo André, que segundo ela foi destruída por um processo de corrupção engendrado pela prefeitura comandada por Celso Daniel em 2001. O prefeito seria assassinado no ano seguinte, para muitos por tentar desmontar este esquema, e o pai de Mara sofreu um aneurisma no mesmo ano. Para quem se interessar, a deputada deu um depoimento comovente sobre o assunto numa Comissão do Congresso, que vocês podem assistir abaixo.


Mais do que qualquer pessoa, Mara tem motivo para ter ódio do PT, mas este ódio não a cega a ponto de impedi-la de discernir o certo do errado. Mara Gabrili é uma deputada que orgulha São Paulo. Que as pessoas saibam reconhecer a sua coragem.
- Quase todos os deputados que não possuem interesses patronais e cuja popularidade está acima do Partido votaram contra este projeto, independente de juízo de valor dos outros projetos que defendem. Mara Gabrili, cujo exemplo já foi citado, Pastor Marco Feliciano, defensor dos evangélicos (achar que se deve misturar religião e política é MUITO mais perigoso do que qualquer coisa, mas isso não está em pauta neste texto), Luiza Erundina, defensora histórica de causas sociais, e Tiririca, defensor de si mesmo, são os melhores exemplos. Todos votaram contra o interesse patronal dos respectivos partidos.
- Roberto Freire, grande nome político do país, antigo líder do Partido Comunista, votou a favor. Uma pena.
- No domingo seguinte à votação desta lei, milhares de pessoas saíram às ruas de SP. Elas saíram contra o único partido grande que votou CONTRA esta lei. A água está acabando, estamos no meio de uma epidemia de dengue e com um Congresso querendo acabar com os direitos trabalhistas. Mas a única coisa que boa parte dos descontentes da Paulista sabia fazer era pedir a saída da presidente.
- Ao final da eleição no ano passado, muitos paulistas acreditavam que outras regiões do Brasil não sabiam votar. A posição dos deputados paulistas, escolhidos pela mesma população que “não suporta mais esta bandalheira”, mostra que falta autocrítica. Antes de criticar o voto alheio, pense no seu. Se você é a favor de férias e décimo-terceiro, Bruno Covas não te representa. As pessoas de classe media que comemoraram a aprovação deste projeto de lei apenas porque ele representou mais uma derrota para o PT precisam de terapia. Urgente.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

OS BRASILEIROS SÃO OS OUTROS!



Não escrevo há muito tempo aqui, mas o mais novo britânico da música me trouxe a inspiração. Todos nós pudemos nos deliciar com as belas palavras escritas por Sir Ed Motta em sua conta no Facebook no último dia 09, quando se utilizou de diversos adjetivos bem bacanas para se referir ao povo brasileiro. Simplório, caipira, burro, coitado, indígena (em tom depreciativo), bicho, intolerante, ignorante e pedreiro (novamente em tom depreciativo). Durante o texto, as palavras em negrito + itálico são as escritas por Ed Motta.

Não faço o político e não vou me candidatar a nada no próximo ano, então entendo que ele queira dar uma dica ao seu público sobre o seu show, avisando que não quer ouvir algo parecido com o desgastado “toca Raul!” no meio de sua apresentação, mas ele escolheu a pior (ou não) das maneiras de fazer isso.
É claro que o nosso artista quis aparecer, e conseguiu. Do Greenpeace ao Estado Islâmico se sabe que as redes sociais são as armas mais rápidas e devastadoras do nosso tempo e que atingem a todos de maneira instantânea e democrática. Ser escroto na rede dá um upgrade nessa instantaneidade, pois é o que o público mundial gosta e é o que está me motivando para movimentar meus dedos nesse momento.

Estamos acostumados a ver as pessoas fazerem tipo. O político faz tipo que é “do povo”, mas sabemos que a maioria não é. O Gugu faz o tipo que se importa com as pessoas, mas não é assim. Petista faz tipo que é de esquerda, tucano que pensa em pobres. O Ed Motta faz o tipo intelectual intimista, mas adora repercutir por aí, adora se promover pela via mais fácil causando a revolta popular. Uma pessoa tão culta como ele iria imaginar que alguém da “turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil, público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa gritar nome de time” antes de ir ao seu concerto iria entrar no seu site ou nas suas redes sociais para saber como se portar? O pedreiro iria comprar o ingresso, ir ao show, gritar Vai Curíntia e pronto.
Qual o único motivo que sobra? Sim, uma jogada de marketing às avessas. Toda extrema minoria ao decidir radicalizar consegue crescer. Levy Fidelix fez isso na última eleição presidencial, já que com o seu discurso infame contra gays ele passou de 58 mil (2010) para 447 mil votos (2014). O problema é que esse tipo de radicalismo limita a pessoa. O Sr. Levy Fidelix não vai virar presidente ou governador por conta da sua rejeição popular. Sir Ed Motta, o britânico, nunca vai vender como o corporativista Caetano Veloso, mas para ele está bom. Confesso que não tenho fontes confiáveis, apenas o Wikipédia, mas os últimos 7 discos venderam uma média de 40 mil cópias com vendas cada vez menores do ano 2000 para cá. Se o Levy encontrou 450 mil pessoas que concordam com ele, o britânico encontrará alguns babacas que partilham de seus adjetivos aos conterrâneos e que certamente o financiarão para que continue distribuindo preconceitos online.

Sir Ed esquece que vem de um país de povo humilde, com tradições e costumes muito diferentes dos europeus. A grande maioria das pessoas não teve, como ele, condição de abandonar os estudos na adolescência para se dedicar a fazer o que gosta, e muito menos passar uma temporada em Nova York aos 19 anos. Não há problema em informar o público sobre a vertente do espetáculo, que se trata de um show com músicas do novo disco em inglês, ou até mesmo dizer que não vai falar em português. O problema é a rotulação, é classificar como povo simplório quem gosta de outros estilos musicais, usa roupas apertadas ou não tem dinheiro para comprar cervejas caras. Talvez se fosse apenas o texto eu nem estaria o criticando tanto, mas os comentários são de dar nojo e aliados ao histórico do cidadão, o qualificam como um cretino, arrogante, reacionário e preconceituoso.
Em 2011 Sir Ed publicou o seguinte: "O sul do Brasil, como é bom, tem dignidade isso aqui. Frutas vermelhas, clima frio, gente bonita. (...) povo feio o brasileiro. Em avião, dá vontade chorar. Mas chega no Sul ou São Paulo e tem gente bonita compondo o ambiente".

Não é a primeira vez que o cara é agressivo sem a menor necessidade. Como vi em um dos comentários acerca da polêmica atual: Negro, gordo, careca e preconceituoso, como pode?
E realmente é essa a pergunta do milhão. Um cara que se enquadra em boa parte dos rótulos que a sociedade erroneamente mais condena sai por aí rotulando pessoas pela sua aparência, local de nascimento ou gosto musical? Talvez seja esse tipo de pessoa que o Tim Maia (Pobre, negro, gordo e usuário de drogas) tenha visto no sobrinho bem antes de tudo isso, quando disse: “Meu sobrinho Ed Motta ficou besta pra caramba. Se deixar, ele manda o Tim Maia pra casa do cacete!”.
No Brasil a minha audiência não é de pedreiro, não é popular. Pedreiro vai assistir filme do David Lynch? Pedreiro frequenta bons restaurantes? Pudemos julgar pelas últimas vendagens, que nem o pedreiro e nem o mais alto executivo nascido em berço de ouro aprovam seu trabalho. Espero que o Brasil siga um de seus conselhos e não perca tempo com você e com os seus temas complexos e cheios de acordes.

O agora europeu Ed Motta se esquece do passado e que já tocou em programas que devem estar bem abaixo do seu nível intelectual e social. Não sei o que ele deve ter pensado do auditório do Faustão ou do Raul Gil, ou quando ele viu a sua música virar tema de novela. Vi um vídeo dele no programa da Fátima Bernardes, o Encontro, em que as pessoas batiam palmas enquanto ele cantava... Deve ter sido horrível para ele, um crime contra a sua arte.

O saudoso Nelson Rodrigues citaria hoje em sua coluna, novamente, o complexo de vira-lata do brasileiro. Se perguntaria porque o Sir Ed Motta ao invés de ajudar a mudar esse conceito faz exatamente o contrário, se traveste de europeu para criticar uma pátria que já o faz por natureza. O que ele espera dos shows dele na Europa é um público local ou que possa ser equiparado a este. Brasileiros revestidos de cultura branca europeia são bem vindos para assistir um show com vários elementos de música negra.

Por fim, quem já leu Maus, de Art Spiegelman, conseguirá notar a semelhança entre o nosso artista e o personagem judeu ex-prisioneiro do regime nazista que não entra no taxi guiado por um negro nos EUA. Embora eu ache que o melhor paralelo seja o Brasil colonial, em que um escravo encontrava ouro ou diamante, comprava a sua liberdade e, pasmem, comprava alguns escravos também. Sir Ed Motta já comprou a sua liberdade há muito tempo, mas não deixaremos que ele nos compre, chutaremos a bunda dele antes.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Federer é o melhor de todos os tempos. Mas Nadal é melhor do que ele.



Tinha 17 anos quando assisti a uma partida de Roger Federer pela primeira vez. Ainda estava na onda de Gustavo Kuerten quando o jovem e desconhecido suíço enfrentou o heptacampeão Pete Sampras em Wimbledon 2001. Já havia apenas ouvido falar dele e só comecei a assistir ao jogo com mais atenção quando Federer ganhou o primeiro set. Três horas depois, Sampras era derrotado pela primeira vez em Wimbledon desde 1996 e o tênis tinha sua nova estrela ascendente, com apenas 20 anos de idade.
                No ano seguinte, Federer já estava no top 10 e em 2003 venceu seu primeiro Grand Slam, também em Wimbledon. Ao vencer o Aberto da Austrália em 2004, assumiu a primeira posição do ranking e estava claro para todos que acompanhavam o esporte que ele ficaria por lá muito tempo. Ele era MUITO melhor do que TODOS que estavam no circuito. Assisti-lo jogar era um prazer. Elegante, ele tinha uma facilidade absurda para jogar tênis. Não acredito que ninguém tenha como vocação dar raquetadas em bolinhas amarelas, mas Federer é a prova de que este meu argumento é furado. Ele realmente nasceu com o dom para fazer isso. Todos os seus golpes eram perfeitos, sacava, voleava, de fundo de quadra, tudo. Até eu que tenho certa tendência a torcer sempre pelo pior, me encantei em ver alguém tão bom e que dominaria um esporte por tanto tempo. Era o substituto de Michael Jordan como ícone do esporte mundial.
                No mesmo ano, Federer chegaria invicto ao quinto torneio do ano, o Masters de Miami, onde enfrentaria na primeira rodada um adolescente espanhol que ninguém sabia direito quem era. Seu nome era Rafael Nadal e seu estilo de jogo era totalmente contrário ao de Federer. Desengonçado, ele sacava mal, era incapaz de ir a rede, seu jogo era físico, correria para chegar em todas as bolas, golpes feios (que me desculpem os fãs de Nadal, mas nada é mais chato do que vê-lo jogar a bola para o alto e sair correndo). Sua única vantagem era ser canhoto. Por aquilo que julguei como um acidente de percurso, Nadal venceu o suíço naquele dia com certa facilidade. A surpresa foi grande para todos, mas creio que ninguém levou aquele jogo muito a sério.
                Nadal só reapareceria em um grande jogo um ano depois, chegando na final do mesmo torneio de Miami contra o mesmo Roger Federer. Para minha surpresa, Nadal ganhou os 2 primeiros sets e estava a caminho de vencer novamente o suíço. Como alguém com um jogo tão “feio” pode bater o “artista” de novo, pensei eu? Federer virou, e na minha cabeça tinha descoberto uma forma de bater aquele espanhol atrevido. Após este torneio, começou a temporada de saibro e Nadal explodiu. Ganhou todos os jogos que fez no saibro, incluindo uma semifinal de Roland Garros contra Roger Federer e começaria o domínio assombroso que dura praticamente até hoje. De lá para cá foram 9 títulos em Roland Garros em 10 torneios disputados.
                Já assumindo que Nadal, apesar se seu estilo pouco vistoso, poderia destronar Federer no saibro, piso que não é o favorito do suíço, eu julgava impossível que o espanhol pudesse ameaçar o número 1 do mundo e meu tenista predileto em todos os tempos em qualquer outro piso. Tenistas de saibro normalmente não conseguiam nada muito significativo em outros pisos, que o diga meu ídolo de adolescência Gustavo Kuerten. O saibro era como uma “temporada a parte” no tênis, em minha cabeça seriam 3 meses por ano em que sofreria ao ver Federer tendo dificuldades para bater Nadal na terra, e um completo passeio do suíço no restante da temporada. Foi assim em 2005, mas em 2006 Nadal já conseguiu chegar à sua primeira final de Wimbledon. O meu esforço em desmerecer o adversário do meu ídolo me impediu de enxergar a grande qualidade do espanhol: a persistência. Nadal era (e é) capaz de se esforçar como ninguém e trabalhou muito para aprender a jogar na grama. Para minha alegria, Federer ganhou com certa facilidade aquela final, vencendo novamente em 2007, mas dessa vez numa batalha de 5 sets. Aquilo já me preocupava, pois era notório que o jogo “feio” de Nadal incomodava cada vez mais Federer. Os jogos estavam cada vez mais fáceis para Nadal no saibro e mais difíceis para Federer na grama, por mais que torcedores de Federer, como eu, não enxergassem o óbvio.
                Em 2008, 1 mês após massacrar Federer de forma humilhante em Roland Garros, os dois repetiriam a final em Wimbledon, naquele que muitos consideram o maior jogo de todos os tempos. Após um dia inteiro, interrupções e 5 sets, Nadal venceria Federer no “território do suíço”. Senti uma tristeza muito grande, mas ainda não entendia que Nadal poderia ser melhor do que ele. A certeza viria só no começo de 2009. Os dois se enfrentariam novamente na final do Aberto da Austrália e mais uma vez a vitória foi de Nadal. Na cerimônia de premiação, Federer chorou. Para mim, ele teve a mesma sensação que eu tive aquele dia. Ele era o mais talentoso, mas não era o melhor. O outro o tinha superado, com base na persistência e na força mental.
                Daquele dia para cá, Federer e Nadal ganharam outro rival, o sérvio Novak Djokovic, que, embora multi campeão, nunca chegou no patamar dos dois. Mas sem dúvida compõe com eles o trio responsável pela “era de ouro” do tênis masculino. O nível de jogo dos três é tão superior a tudo que já foi visto que o grande risco do tênis é ficar chato para os fãs quando eles pararem.
                Voltando à rivalidade apenas entre Federer e Nadal, vamos analisar por números:
1)      Federer tem 17 Grand Slams contra 14 de Nadal;
2)      Federer tem 302 semanas como número um do mundo, contra 141 de Nadal;
3)      Federer tem 84 títulos no total contra 65 de Nadal;
4)      Nadal tem 24 vitórias contra 10 de Federer no confronto direto;
5)      Nadal tem 27 títulos em Masters 1000 contra 23 de Federer

Nadal é 6 anos mais novo do que o suíço, mas se machuca muito. Mesmo assim, vejo uma grande probabilidade de que ele passe Federer em todos os números acima, exceto em semanas como número 1.
Hoje Federer é o grande campeão da história. E Nadal é o cara que ganha dele. Essa é a conclusão simples que tiro 11 anos depois daquele primeiro jogo em Miami e que tanto dói para um fã de Federer como eu. É inacreditável que alguém tenha se esforçado tanto que conseguiu ser melhor do que o tenista mais talentoso. Por mais que meu lado torcedor e fã do tênis bem jogado sofra e lute contra, isto é fato. A partir daquele jogo de 2009, finalmente enxerguei que torço para alguém pior numa rivalidade. Como torcer pelo Palmeiras contra o Corinthians. Mas não faz mal.
Se você é federista como eu, renda-se. Ou assuma o paradoxo. Federer é o melhor de todos os tempos. Mas Nadal é melhor do que ele.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Não seja saudosista, intervenção militar jamais


O Regime Militar foi uma catástrofe em praticamente todos os âmbitos. Não “apenas” no campo dos direitos humanos, em que uma pessoa poderia ser torturada por ter uma opinião e em que REALMENTE havia censura. Numa era desumana como a nossa, em que as pessoas não se enxergam como indivíduos com algum tipo de subjetividade, e sim como partes da engrenagem racional de uma máquina que nunca pode parar, direitos humanos ficam num segundo plano. Boa parte das pessoas realmente acredita que argumentos econômicos devem se sobrepor a isso e não se chocam com a foto título deste post. Por isso, evitarei abordar este assunto óbvio. Para elas, um crescimento econômico justificaria a barbárie que foi a ditadura de 1964, especialmente entre 1968 e 1977. Mas nem isto ocorreu.
                O Regime terminou em 1985 deixando o país com uma taxa de inflação nunca vista, que Sarney viria a piorar. Esta taxa era de 228,93 % ao ano. Em 1964, foi de 91,8% ao ano. Fica fácil concluir que falhou neste sentido, certo? Se você é do tipo que quer estabilidade econômica, não seja saudosista.
                Quanto à corrupção, outra pauta dos manifestantes, basta dizer que a ditadura militar criou Paulo Maluf e José Sarney, grandes símbolos do país neste quesito. O Regime especializou-se em grandes obras públicas faraônicas, algumas delas necessárias e bem-sucedidas, como Itaipu, outras nem tanto, como a Transamazônica, hoje quase totalmente comida pelas florestas. As condições de trabalho eram sub-humanas, com relatos assustadores de operários mortos durante a construção da ponte Rio-Niterói, cujos corpos foram simplesmente concretados. Foi durante a ditadura também que se construíram boa parte dos grandes estádios públicos do país, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Se você é daqueles que é contra gastos públicos e que postou no facebook durante a Copa “menos estádios e mais hospitais”, não seja saudosista.
                Sobre educação, o Regime Militar foi responsável pelo total sucateamento do ensino público. Quando você encontrar alguém idoso que lhe disser “na minha época a escola pública era boa”, saiba que isto era antes ou no começo do Regime Militar. Depois disse, degringolou. Uma prova disso é que, nas eleições de 1989, 5 anos após o regime, metade da população brasileira não tinha acesso a praticamente nenhuma informação, a ponto de não saber o nome do presidente da República. Se você é do tipo que acha que o maior problema do Brasil é educação, não seja saudosista.
                Quanto à burocracia, o Regime Militar separou, no final dos anos 70, o estado de Mato Grosso em 2. O objetivo era aumentar o número de senadores daquele estado de 3 para 6, garantindo a maioria para a Arena (Partido dos Militares) no Senado. Se você é do tipo que acha que temos que reduzir burocracias, não seja saudosista.
                Para não ficar só em críticas, do ponto de vista social houve duas enormes conquistas durante o regime, mais especificamente no governo Geisel. Foram aprovadas as leis que permitiam o divórcio e o bebê de proveta. O ato foi extremamente corajoso. Assuntos “normais” para nós hoje em dia, estes temas geraram debates tão acalorados à época quanto legalização do aborto e do casamento gay. Possivelmente as pessoas que odeiam tudo e todos e carregam estas faixas não sabem disso. Mesmo neste caso, então, não seja saudosista.
                Falando especificamente sobre a manifestação de ontem, não falarei muito sobre os clichês óbvios dos dois lados. Tanto o lado que repete o quanto manifestações pacíficas são importantes para a democracia quanto o lado que repete que é absurdo fazer um protesto em março contra uma presidente que assumiu para o seu segundo mandato em janeiro. Nem toda manifestação faz bem à democracia como o PT fez o mesmo tipo de passeata contra FHC, três meses após a posse deste. A grande marca desta passeata foi a reação bovina dos manifestantes “de bem” às faixas de “Intervenção Militar Já”. É lógico que este tipo de ideia é coisa de uma minoria. Porém, boa parte da maioria dessas pessoas “de bem” que estavam à volta nada fizeram para criticar aquilo. Para dar um exemplo, um rapaz com a camisa do PT foi esculachado por todos que estavam perto no MASP. O mesmo não ocorreu com os que apareciam na televisão vestindo preto com faixas pedindo a volta dos militares. O grau de ódio é tão grande que a revolta é maior com quem está do outro lado do que com que quer acabar com a democracia. A grande marca da barbárie é a não aceitação do diferente. Ontem ficou claro que um grande número de pessoas prefere que alguém acabe com o jogo a continuar vendo o outro lado ganhar. Não enxergo nenhuma melhora possível no país a partir de amanhã. O que vi ontem foi uma série de pessoas ingênuas e apolitizadas, repetindo palavras de ordem como se estivessem num estádio de futebol. A mídia pode até tentar dizer que a manifestação foi por reforma política, mas não vi nenhum manifestante usando este termo. O que eles querem é a saída de Dilma, pura e simplesmente, alguns com Intervenção Militar, outros não. O problema para essa massa está na pessoa e não no processo. Elas todas estariam felizes em casa vendo futebol se o Congresso fosse o mesmo, mas o presidente fosse outro. E nada oferece mais riscos do que uma massa despolitizada e arrogante, que tem seu ego bajulado por uma mídia que os apresenta como “patriotas querendo salvar a nação”, com baixo grau de conhecimento histórico. Gente acostumada a vitórias, que enxerga o adversário como inimigo. O protesto aconteceu exatamente 30 anos após a posse não realizada de Tancredo Neves, início do maior período realmente democrático de nossa história. Paradoxal.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O problema é o PMDB



A base da democracia brasileira pós-impeachment de Collor foi feita com PT e PSDB governando com o “auxílio” do PMDB. Este partido sempre foi situação desde 1985, talvez com exceção do governo Collor, que não à toa não tinha apoio no Congresso e foi derrubado. Nesta época, com Ulysses ainda vivo, ainda existia algum resquício de ética ao maior partido do Brasil. Depois disso, não existiu mais.
 Este sistema, com alternância de poder sustentada pelo PMDB, é a grande causa da crise política que vivemos. O país não interessa a este partido, em que qualquer ideologia é ausente, a busca é apenas poder e cargos. É impossível um governo não ser corrupto enquanto houver participação do PMDB. Dos 3 presidentes eleitos com esta aliança, FHC, Lula e Dilma, a última é a que menos sabe “negociar” com o PMDB. “Negociar”, neste caso, significa dar ministérios e verbas para a roubalheira. Nesta época de dificuldade, o partido sai da sombra e lidera o ataque da base aliada à presidente eleita. O objetivo aqui é explicar como chegamos nessa situação histórica pós-ditadura.
                A origem do PMDB é o antigo MDB, partido de oposição à Arena no Regime Militar. Com a derrota das Diretas Já no Congresso, o já novo PMDB se aliou a uma parte do PDS (antiga Arena) que fundou o PFL, formando a chapa Tancredo-Sarney para o Colégio Eleitoral de 1985. Tancredo ganhou, morreu, e Sarney, antigo presidente do partido dos militares, assumiu o governo da nova democracia chefiada pelo PMDB. O Brasil do governo Sarney foi uma enorme bagunça. Qualquer pessoa que diga, nestes momentos de ódio, que o Brasil de hoje  vive seu pior momento o faz por uma das três razões a seguir: falta de memória, falta de conhecimento ou má fé. Instabilidade econômica, violência e corrupção foram as três marcas do único governo chefiado pelo PMDB. Originalmente o governo deveria acabar em 1988, mas Sarney conseguiu do Congresso mais um ano de governo graças à distribuição de rádios para deputados país a fora, algumas delas para Aécio Neves, novo “paladino da justiça e dos bons costumes” de parte do eleitorado. Completamente desgastado, o PMDB teve resultados pífios na eleição presidencial de 1989, com Ulysses Guimarães, o senhor-diretas, terminando num melancólico 7º lugar.
                Um ano antes, uma ala mais séria do PMDB, inconformada com os rumos que o partido tomou após a chegada ao poder, resolveu sair e fundar outra sigla, com o objetivo de reestabelecer certa conduta e ética. Este partido é o PSDB. Em boa parte do final dos anos 80 / começo dos anos 90, PT e PSDB caminharam juntos. O PSDB apoiou o PT no segundo turno contra Collor em 1989 e nas eleições municipais de 1992 apoiou Eduardo Suplicy e Benedita da Silva em São Paulo e Rio de Janeiro. Um ano depois, começaria a ruptura.
                O impeachment de Collor levou ao poder Itamar Franco, político excêntrico e completamente despreparado para o cargo. A grande qualidade de Itamar era ter noção do próprio despreparo. Ao sentar-se na cadeira outrora ocupada pelo caçador de marajás, Itamar se preocupou em procurar alguém para governar o país enquanto ia para festinhas com mulheres sem calcinha. Inicialmente tentou o PT, entregando um ministério a Luiz Erundina. Mas o PT nunca aceitou ser coadjuvante e recusou a oferta, inclusive expulsando a ex-prefeita de São Paulo do partido. Itamar procurou em seguida o antigo PMDB sério, o PSDB, que aceitou a tarefa. FHC se tornou ministro da Fazenda, lançou o Plano Real e virou presidente logo em seguida, como todos sabem.
                A amizade entre PT e PSDB começou a ruir quando este último chegou ao poder. Para conseguir maioria no Congresso, o PSDB se aliou a dois partidos, PFL e PMDB. A mesma aliança da chapa Tancredo-Sarney, que voltava ao governo dessa vez sem o desgaste de ser a linha de frente. Como todo governo deste país, o governo FHC foi corrupto. Mas melhorou o país. É inegável que o país estava melhor nos anos 90 do que nos anos 80. Só se nega isto por uma das 3 razões a seguir: falta de memória, falta de conhecimento ou má fé. Mesma má fé mostrada por FHC quando, um mês após a reeleição em 1998, em que uma das suas promessas era manter a paridade R$ e US$ em 1 para 1, desvalorizou o real em mais de 100 %.
                Nesta época, embora já brigadinhos, PT e PSDB ainda conseguiam fazer alianças contra forças verdadeiramente conservadoras. O PSDB apoiou o PT no segundo turno das eleições municipais de São Paulo em 1996 e 2000, e o PT apoiou o PSDB no segundo turno das eleições estaduais de SP em 1998. Foi a partir de 2002, com a vitória de Lula, a rivalidade se acentuou.
                Lula tentou fazer, para conseguir governar, as mesmas alianças que FHC fizera. Chamou o PMDB para governar junto, mas não conseguiu atrair o PFL. Não fez tanta diferença, uma vez que boa parte do PFL migrou para o PMDB em busca de cargos. Como todo governo deste país, o governo Lula foi corrupto. E também foi um período de incríveis avanços na área social e o Brasil dos anos 2000 foi melhor do que o Brasil dos anos 90. Um número nunca visto de brasileiros entrou na faculdade e milhões saíram da pobreza extrema. Só se nega isto por uma das 3 razões a seguir: falta de memória, falta de conhecimento ou má fé. O mensalão em nada se diferenciou da distribuição de cargos ao PMDB por apoio, a menos a meu ver.
                Com ódio de Lula, a parte mais conservadora do eleitorado nacional enxergou no PSDB a única possibilidade de afastar o PT do governo. Com isto, o partido fundado com os princípios da social-democracia europeia se “endireitou”. Mário Covas deve se revirar no túmulo ao ver Coronel Telhada no partido que ajudou a fundar.
                Lula conseguiu fazer sua sucessora, Dilma Roussef, uma burocrata sem carisma e sem a capacidade de fazer política de seus dois antecessores. Ela não ouve e também não está tão disposta a ceder às pressões do PMDB. Isto significa menos cargos e mais pressão. E também menos corrupção. Só se nega isto por uma das 3 razões a seguir: falta de memória, falta de conhecimento ou má fé. O PMDB está faminto e talvez disposto a voltar para a linha de frente. O impeachment de Dilma significaria isto.
                A crise política de hoje é fruto da cisão entre PT e PSDB quando ambos passaram a lutar pelo poder. Atualmente o ódio entre os dois lados é maior do que qualquer coisa. Não tenho dúvidas, por exemplo, de que PT ou PSDB apoiariam Russomano nas eleições de 2012, caso Haddad ou Serra ficassem fora da segunda etapa da disputa. Ao invés de procurar o entendimento com alguém sério, ambos buscaram alianças com a máfia PMDB. Se você vai às ruas bater panela no domingo, não o faça pelo que representa Dilma. Faça pelo que representa Temer. O verdadeiro problema é ele. O modelo que permite que o PMDB seja a sombra de quem está governando faliu. Que PT e PSDB percebam isso antes de se matarem.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O esporte e a construção de mitos


 


               Adoro esporte, mas parto do pressuposto de que nenhum atleta é gênio. Nenhum atleta muda o mundo ou vai ser lembrado, sei lá, daqui a 200 anos. Roger Federer ou Michael Jordan são tão insignificantes para o mundo quanto eu. A transformação do atleta em mito tem muito mais a ver com marketing do que com qualquer outra coisa.
                Até os anos 30, com exceção do boxe e talvez do automobilismo, todo esporte era amador. Os atletas tinham empregos “normais” e praticavam seu esporte no fim de semana quase como um hobby. O principal motivo para isso é que aquilo não gerava dinheiro, ninguém havia notado o potencial de manipulação de tudo aquilo. Os primeiros a notar esta capacidade do esporte foram os alemães, no período nazista. Na Olimpíada de Berlim, em 1936, o esporte teve uma importância nunca vista até então, com o esforço nazista em transformar os atletas alemães em mitos capazes de demonstrar a superioridade germânica sendo recompensados.  
                Junto com a propaganda política, talvez o uso do esporte como instrumento de manipulação tenha sido a grande influência nazista no pós-guerra, mesmo com a derrota. Cada lado vencedor o fez de uma forma. O lado soviético passou a usar o esporte basicamente da mesma forma como faziam os nazistas, usando vitórias individuais de atletas como vitórias de todo o sistema. Buscar medalhas nos Jogos Olímpicos era questão de estado. Na Alemanha Oriental, por exemplo, gastou-se em certo período mais em esporte do que em saúde. No lado capitalista, além da mesma manipulação, surgia algo novo, o uso do esporte pelas grandes corporações. Percebeu-se, a partir dos anos 60, que atletas poderiam ter uma capacidade única de vender produtos. Para isso, seria necessário um grande trabalho de marketing para converter pessoas que chutavam bolas ou que as jogavam num alvo redondo ou que davam raquetadas em heróis para o grande público. Em seguida, transformá-los em gênios, para assim convencer este mesmo público a comprar os produtos “usados” por estas figuras geniais.
                A explosão do esporte como instrumento para venda de quinquilharias no Ocidente se deu com o boom de consumismo nos EUA nos anos 1980. Assim como o Brasil nos anos Lula, o crescimento nos EUA durante este período se deu basicamente pelo consumo e empresas passaram a usar como nunca atletas como garotos-propagandas. Surgia nessa época o grande marco desta fase, Michael Jordan. Grande campeão, transformado em gênio por conseguir como ninguém colocar bolas em cestas, Jordan vendia de tudo e muito. E, ao gerar muito dinheiro, ganhava muito dinheiro, gerando uma possibilidade de ascensão social nunca vista. O efeito Jordan chegou a outros esportes e no Brasil talvez tenha tido um paralelo à mesma época em Ayrton Senna, transformado em gênio por dirigir carros mais rápido do que os outros. O esporte era engolido pela sociedade do espetáculo.
As práticas de doping já eram conhecidas nos países socialistas, que em boa parte das vezes utilizavam substâncias proibidas quase como uma política estatal. Foi neste período, porém, em boa parte como consequência do movimento inédito de dinheiro que o esporte passou a gerar, que os primeiros casos de doping começaram a surgir entre atletas de alto escalão de potências ocidentais. Ben Johnson, corredor canadense, foi o primeiro grande nome a rodar com substâncias proibidas. Mais dinheiro trazia novas exigências e a cobrança por melhores resultados atingia níveis que levavam a pressão a atletas à estratosfera. O atleta passou a ser um produto, que só vendia através da vitória. Ganhar significava salários milionários e numa sociedade cada vez mais competitiva, o público buscava algo que as aproximasse das vitórias que não conseguia na vida. Ao comprar um tênis de Jordan, mesmo a pessoa mais “derrotada” do mundo se sentia próxima do ídolo vencedor. A “magia” da competitividade é essa, a vitória é o objetivo principal e ao mesmo tempo em que apenas 1 em cada 1000 vencem, sempre nos enxergamos no vencedor e não no derrotado. Quase todo mundo que conheço, embora passe uma vida sendo esculachado por chefes escrotos e realizando trabalhos desgostosos, identifica-se com o vencedor Roger Federer e não com o cara que ele derrotou com facilidade na primeira rodada do US Open. A identificação é com as vitórias de Senna e não com as trapalhadas de Barrichello.
Nos anos 90, tivemos uma explosão de atletas “gênios” e marketeiros. Ronaldo, Armstrong, Agassi, Schumacher, todos vendendo horrores a cada vitória. Tênis, fast-foods, desodorantes, todo tipo de porcaria era anunciada por estes mitos e comprada por seus súditos mortais. Para convencer o público a comprar o atleta deveria ser uma pessoa perfeita. Todo atleta de ponta, por exemplo, passou a ter uma organização filantrópica e a anunciá-la com toda pompa possível.  Ao mesmo tempo em que eram cobrados por melhores resultados, não podiam errar. Humanos erram, o grande gênio que nasceu com o dom de chutar uma bola num retângulo não. Armstrong, ciclista vencedor, por exemplo, construiu uma verdadeira indústria para dopá-lo e passou de herói a vilão quando sua trapaça foi descoberta.
Neste cenário surge Anderson Silva. Menino de origem humilde, encontrou no mais bruto dos esportes uma saída para sua pobreza. Bom demais no que fazia, entrou no ciclo da fortuna e foi convertido em herói por uma mídia sedenta por garotos-propagandas e por um público desesperado para se enxergar em qualquer coisa que represente vitória numa vida cada vez mais desumana. Não só tratado como herói, Anderson passou a se enxergar como um, o que é muito comum. Se todo mundo te bajula e diz que você é importante, a tendência é que você acredite. Ganhava tudo, até que um pelo dia perdeu, depois quebrou a perna e programou uma volta triunfal. Nesta volta, sucumbiu a enorme pressão de ser herói e de ter que corresponder a todos os milhões de patrocinadores que poderiam cancelar seus contratos milionários em caso de derrota. Provavelmente conhecerá a rejeição de todos que o bajularam.
No atual esporte profissional, dominado pela propaganda, é muita ingenuidade acreditar claramente que alguém está livre destas substâncias. Um jogador brasileiro sai magricela da Europa e lá ganha não sei quantos quilos em massa muscular. Um tenista famoso se machuca uma vez por ano, passa 4 meses fora e volta ganhando tudo. O velocista bate recorde em todas as competições. São tratados como heróis, mas são tão humanos como nós,  com a mesma predisposição aos erros em momentos de pressão. Anderson Silva não é vilão nem herói. É só uma pessoa como nós. A verdadeira identificação e encontro com o seu público competitivo e consumista não acontecia quando ele socava alguém inferior. Acontece agora.