quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O adeus de um gigante, Lleyton Hewitt


O australiano Lleyton Hewitt fez hoje o seu último jogo como profissional. Despediu-se em casa contra o espanhol David Ferrer, na partida mais importante e emocionante do Aberto da Austrália deste ano. Hewitt era o último grande nome ainda em atividade de uma curta era deste esporte, aquela entre o fim do domínio de Pete Sampras e Andre Agassi e o início da ascensão de Roger Federer e Rafael Nadal (e posteriormente de Novak Djokovic).
Hewitt surgiu para o esporte ainda adolescente, no torneio de Adelaide em 1998, um preparativo para o Aberto da Austrália. Lá, antes mesmo de completar 17 anos, conquistou seu primeiro torneio profissional, gerando forte comoção e atenção na mídia australiana, que desde cedo percebeu o potencial do garoto. Chegou ao top 10 em 2000 e viveu o ápice em 2001, quando conquistou seu primeiro Grand Slam e substituiu Gustavo Kuerten como número um do mundo ao final da temporada. Muitos acreditavam estar assistindo ao surgimento de um dos maiores tenistas de todos os tempos quando Hewitt manteve seu domínio em 2002, vencendo Wimbledon e terminando novamente a temporada na primeira posição do ranking. Com a aposentadoria de Sampras e o declínio de Agassi, esperava-se naquele época que Hewitt e o americano Andy Roddick formassem uma nova dinastia do tênis, que duraria possivelmente uma década.
A partir de 2003, porém, surgiria uma nova estrela no esporte, o suíço Roger Federer, que jogaria toda a geração anterior numa espécie de ostracismo. Junto com Rafael Nadal, Federer jogou o nível do tênis em outro patamar que Lleyton Hewitt nunca conseguiria alcançar. O antes vitorioso australiano passou a conviver com vitórias esporádicas entre derrotas rotineiras. Acostumado com a ideia de que colecionaria Grand Slams e seria um dos, quem sabe, cinco maiores tenistas de todos os tempos, Hewitt ganhou seu último Grand Slam em 2002 aos 21 anos, tentando nos 14 anos restantes, em vão, alcançar o novo nível de jogo estabelecido por Federer e Nadal. Nenhum tenista vencedor de Slam jogou por tanto tempo depois de sua última conquista.
Até 2003, Hewitt era possivelmente um dos tenistas mais odiados do circuito. A sucessão de fracassos e seu esforço para continuar jogando mesmo assim, porém, mudaram sua imagem frente aos torcedores. Para pessoas como eu, que odiavam Hewitt na adolescência, ele passou a ser quase um símbolo de nostalgia de uma época de nossas vidas. Era como se as pessoas, acostumadas a vê-lo como o vilão que gritava Come On na cara dos adversários derrotados, passassem a enxergá-lo como o lutador que não desistia nunca frente a rivais superiores. Assistir Hewitt era como voltar no tempo. Com isto, Lleyton perdia partidas, mas sua persistência fez com que ganhasse a admiração que nunca teve dos fãs do esporte na época em que dominava o circuito.
O tênis neste curto período em que Hewitt brilhou, entre 2000 e 2003, estava longe de ter o nível de qualidade que possui hoje, mas era mais equilibrado e, de certa forma, mais divertido. Em quatro temporadas, seis tenistas foram número um no ranking: Andre Agassi, Marat Safin, Gustavo Kuerten, Lleyton Hewitt, Juan Carlos Ferrero e Andy Roddick. Para que se tenha uma ideia do equilíbrio que isto representava se compararmos com o que ocorre hoje, nas 12 temporadas seguintes, apenas três tenistas alcançaram este posto, Federer, Nadal e Djokovic. Com exceção de Andre Agassi, cujas glórias foram vividas quase todas nos anos 1990, os outros cinco tenistas entraram em decadência a partir da chegada de Federer e encerraram suas carreiras de forma até certo ponto discretas. Hewitt foi o último. Suas últimas temporadas, porém, não vão apagar seus feitos da juventude. Como dito, o fim de sua carreira marca o final de uma era no tênis que não foi tão brilhante como a atual. Mas que foi sem dúvida muito divertida. As conquistas e a personalidade do australiano serão inesquecíveis para os verdadeiros fãs do esporte.
Pedi a um amigo meu, torcedor fanático de Lleyton Hewitt, que me listasse as cinco maiores partidas do australiano. Juntei mais uma que acho que não poderia ficar fora.
1 ) Copa Davis 2003 – Semifinal – Hewitt 3x2 Federer (5-7, 2-6, 7-6, 7-5, 6-1)
Federer não era ainda o monstro que mudaria o esporte, mas já era o campeão de Wimbledon quando foi enfrentar Hewitt na semifinal da Davis na Austrália. Abriu rapidamente 2x0 no placar quando, numa reviravolta improvável, o australiano virou a partida de forma espetacular. Seria a última vez que Hewitt, a base de gritos, dominaria o suíço numa batalha mais mental do que física. O próprio Lleyton diz que esta foi a maior vitória de sua carreira.
2 ) US Open 2001 – Final – Hewitt 3x0 Sampras (7-6, 6-1, 6-1)
Pete Sampras já não era o tenista que dominou o Esporte nos anos 1990, mas ainda era capaz de chegar a uma final de Grand Slam. Apoiado pela torcida nova-iorquina, foi massacrado pelo jovem Hewitt na final, sofrendo possivelmente a derrota mais constrangedora de sua carreira. Hewitt era neste momento visto como o tenista que dominaria o esporte nos anos seguintes e poucos imaginavam que aquele seu primeiro Grand Slam seria apenas um de dois.
3 ) Copa Davis 2001 – Quartas de Final – Hewitt 3x0 Kuerten (7-6, 6-3, 7-6)
Gustavo Kuerten era número um do mundo e dominava como poucos a temporada de saibro quando o Brasil enfrentou a Austrália em Florianópolis em 2001. Os brasileiros prepararam uma quadra lentíssima, esperando que o talento de Guga no saibro os levasse à semifinal. Hewitt, porém, assombraria todos, chegando a uma performance inimaginável no saibro naquele final de semana. Jogando no tipo de piso que menos gostava, Hewitt dominou o rei do saibro da época, levando a Austrália à final daquele ano, em que seriam derrotados em casa de forma traumática para a França.
4 ) Aberto da Austrália 2008 – 3ª Rodada – Hewitt 3x2 Baghdatis (4-6, 7-5, 7-5, 6-7, 6-3)
Numa das últimas grandes atuações de Hewitt, ele bateu o favorito cipriota, finalista da competição em 2006, numa partida emocionante e que só terminou às 04:33 da manhã.
5 ) Masters Cup 2004 – Semifinal – Hewitt 2x0 Roddick (6-3, 6-2)
A grande rivalidade de Hewitt, sem dúvida, foi com o americano Andy Roddick. Em 2004, os dois já sofriam contra Roger Federer quando se enfrentaram na semifinal da Masters. Era contra Roddick que Hewitt usava com maestria sua capacidade de derrotar os adversários na batalha mental. Nesta partida, contra um dos maiores sacadores da história, Hewitt venceu os últimos 20 pontos, fazendo questão de gritar Come on na cara do adversário e da torcida americana em Houston ao final de cada um deles. Naquele dia, mais do que em qualquer outro, Hewitt demoliu um adversário emocionalmente.
6 ) Aberto da Austrália 2005 – Quarta Rodada – Hewitt 3x2 Nadal (7-5, 3-6, 1-6, 7-6(3), 6-2)
Rafael Nadal era um desconhecido de 17 anos quando enfrentou o ídolo local Hewitt no Aberto da Austrália em 2005. Poucos acreditaram quando o jovem espanhol abriu 2x1 e esteve perto de eliminar o australiano. Hewitt, porém, com uma persistência única e usando como nunca a torcida para desestabilizar o jovem adversário. Naquele ano, Lleyton chegaria pela única vez à final do Aberto da Austrália, sendo derrotado por Marat Safin em quatro sets.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A repressão policial e o MPL



As manifestações de junho 2013 começaram como pequenos protestos contra o aumento das passagens de transporte público organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo de R$ 3,00 para R$ 3,20. Continuaram pequenas até uma brutal repressão policial da PM paulista, que chocou a população da cidade. Lembro-me que esta manifestação duramente reprimida aconteceu numa quinta-feira e se marcou outra para segunda. Durante aquele fim de semana, nunca vi tanta gente se dispondo a participar de uma manifestação, não apenas contra o aumento da passagem, mas principalmente contra a repressão policial, como uma forma de defesa da liberdade de manifestação. O que se viu na semana seguinte foi a maior onda de protesto do país desde as Diretas Já, que se espalhou pelo país inteiro. O que aconteceu em seguida, creio eu, todos lembram. A principal consequência daquilo tudo foi um aumento significativo dos movimentos reacionários no país. Manifestações deixaram de ser mal vistas pela parcela da população mais direitista, que passaram também a tomar as ruas pedindo suas “mudanças”. Politicamente, o grande perdedor do movimento de 2013 foi o PT. Não nos esqueçamos que a hoje odiada presidente Dilma Roussef possuía 70% de aprovação antes daquele movimento, caindo para 30% na semana seguinte. Se o perdedor foi o PT, o vencedor foi o PSDB, claro, que foi visto como “mudança possível” por esta parcela direitista. Pensando nisso e considerando o cenário político instável da atualidade, a pergunta que fica é: A quem interessa repetir o que aconteceu em 2013?
Fernando Haddad talvez tenha sido o prefeito que mais implementou mudanças no transporte público de uma cidade na história do Brasil. Digo talvez porque tenho minhas dúvidas se ele foi mais importante do que Marta Suplicy em SP ou Jaime Lerner em Curitiba, mas isto no momento é o de menos. Em sua gestão, fez a implantação de inúmeros corredores de ônibus, garantiu gratuidade no transporte coletivo para estudantes e desempregados. Criou também o bilhete único mensal, que permite que um usuário pague um valor fixo mensalmente para uso irrestrito do transporte público neste período. No valor atual, uma pessoa que use dois transportes por dia, incluindo fim de semana, caso opte pelo bilhete mensal, terá gasto em um mês de 31 dias (período de validade do bilhete) R$ 2,26 por passagem. Caso o faça apenas em dias úteis de trabalho, terá gasto R$ 3,18, considerando um mês de 22 dias úteis. Nada disso, porém, importa para o MPL.
Como um piano de uma nota só, o MPL voltou às ruas tratando o aumento de 2016 da mesma forma como tratou a situação em 2013. Como um artista querendo reviver seus 15 minutos de fama, não se importa com a conjuntura política e social atual, muito menos com as possíveis consequências que suas novas manifestações podem trazer. O interesse maior é manter-se de alguma forma relevante. Nada faz tão bem para o ego do que criar um movimento que toma uma proporção nacional como aconteceu em 2013. Quem faz algo importante uma vez sonha em fazê-lo novamente. Os maiores prejudicados com o aumento para R$ 3,80, no cenário atual, foram as empresas que pagam vale transporte aos seus funcionários. Estudantes e desempregados, através da gratuidade, e trabalhadores sem vale transporte, através do bilhete único mensal, não foram prejudicados. Mas nada disso importa para o MPL, que enxerga nos gritos de R$ 3,80 a possibilidade de voltar a ter algum protagonismo.
Como em 2013, a Polícia Militar reprime barbaramente estes movimentos. Nesta semana, por exemplo, uma das passeatas foi reprimida antes de começar. Com qual interesse? Por que a PM repete em 2016 a mesma tática que culminou daquela forma em 2013? Voltamos à pergunta do primeiro parágrafo, quem foi o grande vencedor político do que aconteceu há 2 anos e meio?
O PSDB aposta no caos e não há mudança sem este, mesmo que seja uma mudança que não mude nada. Vivemos um momento político conturbado e trazer a população de volta às ruas, descontentes contra tudo e contra todos, pedindo melhorias nos serviços públicos e mudanças de todos os tipos, pode ser o que falta para garantir o impeachment de Dilma. Para que aquilo se repita, é necessário que o protesto do MPL tome as mesmas proporções que tomou em 2013. O MPL está fazendo a sua parte. A PM também.
Quem protesta contra tudo na verdade não está protestando por nada. Trazer a população de verde e amarelo para as ruas “obrigará” a classe política a apresentar alguma “mudança”. Nenhuma “mudança” seria mais agradável para esta massa verde e amarela do que a queda de Dilma. Completa-se assim o cenário de mudança pela continuidade.
O MPL, com sua sede de grandeza, é o instrumento perfeito para a manipulação. Não tiveram culpa, óbvio, do que aconteceu em 2013, ninguém poderia imaginar que aquilo poderia acontecer. Mas terão agora, em que sua sede de protagonismo o cegou sobre as enormes consequências que um movimento como aquele se repetisse. O PSDB aparece como manipulador perfeito, usando a PM para reprimir novamente protestos pequenos que podem incendiar o país. Mais do que isso, agindo dessa forma, Alckmin mantém sua popularidade, uma vez que seu eleitorado não se importa muito em ver jovens apanhando de policiais, e ainda prejudica ainda mais a imagem de Haddad, que nada pode fazer para conter esta repressão. Todo esperto precisa de um trouxa. O MPL se dispôs a ter este papel. É a esquerda disposta a implodir o governo de esquerda e favorecer o governo de direita.
Disse Marx que na história tudo acontece duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. O movimento de 2013 foi a tragédia, com o agrupamento e crescimento dos movimentos reacionários no Brasil. MPL e PM já estão cumprindo seus papéis para viver em 2016 a farsa. Só falta o agente final. Não são só 30 centavos...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

2015 / 2016 - A crise do brasileiro médio



2015 termina com a maior recessão econômica desde 1992, deixando um cenário nada animador para 2016. Crise política, econômica e uma sociedade rachada por um discurso muito mais próximo do ódio do que da união. O objetivo aqui é tratar esta crise não como algo momentâneo, mas como resultado de um modelo econômico expandido a partir de 1994, que acreditou que a melhora do nível do país estava quase que unicamente ligada à melhora no nível de consumo, sendo bem sucedido neste princípio raso durante 20 anos, mas que vive agora seu esgotamento. Não há nenhum interesse em desvalorizar as conquistas da estabilidade econômica obtida no governo tucano e, principalmente, dos avanços sociais obtidos na era petista. Pretende-se apenas mostrar como não se planejou um avanço na cidadania e como o lado consumidor sempre foi posto em primeiro plano.
O brasileiro médio é um consumidor voraz desprovido de autocrítica e de senso de reflexão. Sua principal motivação é a compra de produtos e serviços que, muito além de atender suas necessidades, possam servir para que ele se sinta e demonstre estar numa posição mais alta no conceito de estratificação social. Isto é verificado em certas situações insanas do ponto de vista lógico, como a troca do automóvel a cada 2 anos ou a compra de apartamentos cada vez menores e mais distantes, com prestações que duram uma vida, mas que se justificam na cabeça do comprador como qualidade de vida por ter uma piscina e uma academia. A grande vítima da crise de 2015, até o momento, é este brasileiro médio. Demitido por seu chefe na maioria das vezes incompetente, gestor em uma empresa gerida de forma ineficaz, terá que tirar seu filho da escola particular ruim em que o matriculou apenas pela segurança de tê-lo fora da escola pública, ficará 3 ou 4 anos com o mesmo carro e não sabe o que fazer com a prestação eterna de seu imóvel de 45 m² com varanda gourmet. Não possui a menor capacidade de enxergar-se como vítima de um modelo pouco sustentável de crescimento que engoliu a sociedade e seu único interesse é manter-se como ator passivo deste ciclo vicioso em que se sente vencedor ao realizar a tarefa de pagar as contas no dia 30.
Este brasileiro médio não se importa com a corrupção. Pode até fingir que está “indignado com a bandalheira”, mas só se sente incomodado mesmo quando percebe que ela não o beneficia. Não se sente culpado ao roubar TV a cabo, baixar aplicativos que o ensinem a fugir da lei seca, fazer download de filmes gratuitamente, falsificar carteiras de estudante ou comprar a carteira de motorista, entre outros. Não repreende o amigo que faz isso. Não se incomoda também com a corrupção na política, desde que isto não o atrapalhe na missão “sagrada” de pagar suas contas. Só lembra que a corrupção existe quando a economia vai mal e este é seu foco.
O Brasil é um país que funciona à base do jeitinho. PT e PSDB dividem o poder desde 1994, garantindo sua governabilidade através de alianças com o PMDB, obtidas através da distribuição de cargos e da criação de ministérios inúteis. Não deixa de ser irônico e simbólico que o período de maior estabilidade democrática da nossa história tenha se formado dessa forma e esteja em crise em parte graças à vontade do PMDB de ter mais. O brasileiro médio não se incomoda com isso. Sua única prioridade é manter a estabilidade do seu fetichista modelo carro – prestações – viagens à praia em feriados. A corrupção aparece como argumento nos momentos em que este brasileiro médio começa a achar que o governo não o está mais ajudando a consumir mais e que está mais difícil pagar suas contas. Não questiona a ineficácia do setor privado, pois isto seria de certa forma questionar a si mesmo e é fundamental colocar a culpa no “outro”, neste cenário representado pelo governo incapaz de continuar gerindo este modelo. Na sociedade brasileira, a corrupção é aquele mal que existe e se permite que exista, sendo usado como argumento fácil para criticar o governo de que não gostamos. Tucanos não se importam com o escândalo das privatizações e se chocam com o mensalão. Petistas vivem exatamente o inverso. No fundo não se importam com nenhum, apenas precisam de um argumento para criticar o governo que não gostam. O brasileiro médio age historicamente assim. Não se importava com a repressão e as história de tortura do governo Médici, pois achava que gozava das benesses do milagre econômico. A democracia só entrou na pauta quando a economia entrou em recessão, com a crise do petróleo fazendo desmoronar o projeto desenvolvimentista dos militares.
A era de ouro de consumo do brasileiro médio começou com o Plano Real, em 1994. A estabilização da economia foi o primeiro passo para o boom de consumo vivido especialmente nos anos 2000. Milhões de pessoas ascenderam a uma nova “classe C” e este fato foi muito mais propagado na mídia do que a verdadeira grande conquista do governo Lula, que foi o combate à miséria. Os dois governos, porém, foram incapazes de dar o passo mais importante, que era a expansão do conceito de cidadania no âmbito da educação de base. Não houve reversão no processo de desvalorização das ciências humanas, aquelas capazes de permitir o surgimento de uma sociedade mais pensante, autocrítica e reflexiva. Ampliou-se significativamente o número de vagas em universidades, mas se focando sempre apenas na geração de mão-de-obra em cursos como Administração e Marketing, de tal forma a agradar este brasileiro médio que enxerga também a educação como um produto a ser consumido.
O Brasil deveria aproveitar esta crise para debater este modelo econômico focado na ideia de consumo, em que o desenvolvimento social não é sustentado pela expansão da cidadania, e para questionar o funcionamento de seu modelo político à base da corrupção, um espelho da nossa sociedade aliás. Mas não o faz, porque seu cidadão médio não pensa, apenas age instintivamente pelo desejo de consumir mais. Tudo que ele quer é continuar comprando e pagando suas contas. O governo pode roubar, desde que não o atrapalhe neste ciclo vicioso de infelicidade e insignificância em que ninguém pensa. Não há um desejo coletivo real por uma sociedade melhor, apenas por um local em que se possa ser vítima da especulação imobiliário com mais tranquilidade.
2016 será um ano de alta tensão. Temos uma massa acéfala pronto para ser manipulada e com ódio, interessada no show midiático que se tornou o processo de impeachment. Ao incentivar um modelo de crescimento que enxerga o bem-estar social como algo fruto quase que única e exclusivamente do nível de consumo, o modelo tucano-petista estimulou uma sociedade cada vez mais individualista e supérflua, disposta a permitir a corrupção que o beneficie e revoltar-se com aquela que o deixa de fora quando o governo não agrada. O debate político se converteu num show de horrores, tratado como uma disputa entre torcidas. Não há um plano partidário de enfrentamento deste ciclo, o debate se concentra quase que exclusivamente em como fazê-lo voltar a funcionar, quando não há sustentabilidade a longo prazo para tal.
A primeira tentativa interessante de saída deste modelo tosco vem da prefeitura de SP. A gestão Haddad, voltada exclusivamente para o coletivo, foi abandonada por parte do PT, que o enxerga como responsável pela impopularidade do partido na cidade, quando a verdade está na recíproca. Enfrenta forte rejeição da torcida que se pinta de verde e amarelo para sair às ruas, o que é uma prova da incapacidade desta massa de enxergar a causa real dos seus problemas. Nada seria mais simbólico do que vê-lo perder para Celso Russomano, o defensor dos consumidores. O brasileiro médio não quer combater a corrupção. Também não quer saúde e educação. Só quer comprar cada vez mais. E pagar suas contas. Se possível, pegando menos trânsito.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Origens do totalitarismo


          

O título deste post é igual ao título de um livro clássico escrito pela filósofa judia alemã Hannah Arendt. Nele, a autora busca explicar como as pessoas se subjugaram à ideologia nazista e aceitaram passivamente os horrores de uma dominação totalitária. O totalitarismo, diz ela, não é fruto do acaso e sim resultado de anos de preparação ideológica, naquilo que o jornalista Paul Gourevitch, em sua obra sobre o genocídio de Ruanda dos anos 1990, chamou de ódio silencioso. Um processo histórico de rejeição aparentemente inofensiva criou um ambiente que permitiu que judeus perdessem gradativamente seus direitos de cidadania, chegando-se a um ponto em que a população geral estivesse preparada para aceitar um líder totalitário que conduzisse um genocídio contra o inimigo odiado por séculos. Todo regime totalitário é dependente do ódio, nenhum sentimento é mais facilmente usado para manipulação de massas.
Chico Buarque foi abordado num restaurante esta semana no Rio de Janeiro por um grupo de pessoas capitaneado por Álvaro Garnero Filho, que como o nome diz é filho do empresário apresentador de programas de viagem, e o rapper Tulio Dek, desconhecido musicalmente, mas famosinho no mundo das pseudo-celebridades por ter namorado a atriz global Cléo Pires. Os 3 não se conheciam, muito provavelmente nunca tinham se encontrado. Mas Garnero e Dek estavam com raiva de Chico. O motivo, suas ideologias políticas e seu apoio ao governo Dilma. A turma de Garnero foi tirar satisfação com o cantor com expressões como “você apoia bandidos”, “seu merda” e, finalmente, com “vai fugir Chico” no momento em que este chamou um táxi. A turma se sentiu não apenas no direito de incomodar uma pessoa que desconheciam questionando suas opiniões políticas como achavam que ele era obrigado a participar deste debate, “fugindo” do confronto.
Pessoas como Garnero não debatem conceitos, como ficou provado neste curto diálogo. Repetem frases feitas e xingamentos, questionando o estilo de vida de Chico Buarque, como se o fato dele defender melhor distribuição de renda, por exemplo, fosse um voto de pobreza. Não há espaço para reflexão e ideias, apenas para um ódio que neste caso se disfarça de ativismo político.
Nada é mais perigoso historicamente do que uma massa movida pelo ódio. Mais do que isso, um grupo de pessoas movido por este ódio e que é bajulado por tal. É assustador o número de pessoas que concorda com a ação de Garnero e a incentiva. As pessoas que praticam este tipo de ação são tratadas como justiceiras pelos que pensam iguais, aqueles que foram lá ‘ “disseram umas verdades”. Não há uma ação concreta da opinião pública condenando este tipo de atitude. As pessoas postam “Dilma, sua vaca” em redes sociais sem medo de nenhum tipo de punição e recebendo curtidas estimulantes de iguais. São as mesmas pessoas que reclamam, aliás, que o Brasil precisa de mais educação, sem entender o óbvio paradoxo entre o pedido feito e o tipo de xingamento que realizam.
Os opositores do atual governo foram às ruas e escolheram o verde e o amarelo como cores da sua indignação. Ao realizar esta escolha, colocaram-se como defensores da pátria e puseram todos os que estão do outro lado como inimigos do país. Simbolicamente é como se estivessem preparados para a guerra. O primeiro passo já foi dado, aborda-se e se incomoda uma pessoa que nada te fez de concreto apenas porque ela pensa diferente. Há o xingamento e o argumento típico de gente que quer brigar. “Vai fugir”?
A meu ver, o cenário totalitário já está assustadoramente preparado no Brasil. Há uma parcela significativa de pessoas movidas pelo ódio e com pouca capacidade de reflexão, movidas por um sentimento de pseudo-injustiça inflado por um empresariado bajulador, que critica impostos e aplaude subsídios. Pessoas com pouco conhecimento, mas que se julgam inteligentes e portadoras da noção do que são o bem contra o mal, não enxergando mais o rival como opositor, e sim como inimigo. Parte do projeto para afastar o atual governo democraticamente eleito do poder passa pela manipulação deste tipo de pessoa, que discerne bem e mal não por conceitos morais, mas pela vontade pessoal. O suposto moralismo disfarçado pelo discurso contra a corrupção logo é derrubado por atitudes como a praticadas contra Chico. Alvaro Garnero Filho acha que Buarque apoia um governo bandido. Quer fazer “justiça”. Qual o próximo passo? Hannah Arendt já nos contou.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A picaretagem de José Serra

 

No domingo 29/11 o senador José Serra publicou a foto acima da Avenida Paulista fechada para carros com o seguinte texto:
“Infelizes são os paulistanos! Dilma na presidência e Haddad na prefeitura. Vocês sabiam que os níveis de despreparo para governar de ambos se equivalem? Somos infelizes ao quadrado!
Hoje, domingo, fui visitar um amigo que mora perto da Avenida Paulista. A avenida foi fechada pelo prefeito, para lazer. E fica vazia, obviamente. No entorno dela, congestionamentos monumentais. Na ida, demorei meia hora para cruzar a Paulista. Na volta, mais quarenta minutos para sair do engarrafamento. Pensando bem a comparação com Haddad é injusta para Dilma.”
O texto é de uma picaretagem ímpar e mostra o quanto a má fé de um político pode jogar o nível de um debate lá embaixo.
Choveu muito em São Paulo neste dia. Muito. Caiu o mundo. E José Serra sabe disso. Diz estava visitando um amigo na região no dia e reclamou do trânsito. Podia ter ido de metrô, seria mais rápido. Mas independente disso, ele viu o que estava acontecendo na cidade e sabia o motivo da Paulista estar vazia. O Parque do Ibirapuera provavelmente estava vazio também. O senado quis usar isto para obter ganhos políticos. Não digo apenas que ele beirou o ridicularidade com este post, ele foi ridículo.
Tenho um grande respeito pela história José Serra. Vítima de duas ditaduras, construiu uma carreira política sólida. No seu período como ministro da Saúde, implementou o projeto dos genéricos que deveria ter a sua importância mais reconhecida do que é. O próprio PSDB não toca neste assunto, por algum motivo nunca vi Aécio falando sobre isto na eleição do ano passado. A quebra das patentes e a distribuição de remédios para os portadores de HIV foi elogiada em todo o mundo. Como governador de SP, adotou no metrô um projeto que havia sido implantado com sucesso pela prefeitura petista na capital, o bilhete único. Mostrava-se acima de picuinhas partidárias.  Este Serra, no entanto, parece não existir mais. O que existe é uma figura triste, disposta a usar qualquer tipo de picaretagem intelectual para ferir adversários políticos.

Fui à Paulista algumas vezes desde que começou este projeto e o que encontro é a apropriação daquele terreno por todo tipo de pessoa querendo se divertir. O espaço dos carros se transformou, num dia por semana, em local de entretenimento. São Paulo precisa de lazer e qualidade de vida. Qualquer pessoa tem liberdade para ser contrária a este projeto. Mas se o for, que o faça de jeito sério. Com este post, duvido que o senador Serra tenha ganho algum voto. O que fez foi prejudicar o debate sobre o assunto e manchar sua biografia. No próximo domingo, se for visitar de novo seu amigo, deveria ir de transporte público naquela região, é bem mais rápido. E se não estiver caindo o mundo como ontem, poderia passar na Paulista. Verá algo assim.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O PSEUDO INTELECTUAL PATRIOTA.


Temos várias pessoas no Brasil que sentem a necessidade de parecer que pensam fora da caixa, que têm uma visão única do mundo e que suas posições sobre diversos assuntos são revolucionárias e capazes de abrir a mente dos outros. Eu chamo de pseudo intelectuais. Dependendo da sua opinião eu serei um pseudo intelectual no final desse texto. Tudo bem, pode ser até verdade.

A última enxurrada de opiniões é sobre qual tragédia chorar. Estamos discutindo se é mais válido se entristecer por uma tragédia na França ou uma tragédia aqui em Minas Gerais. Vejo publicações nas redes sociais condenando a forma com que os brasileiros estão tratando a o ataque terrorista, colocando fotos de perfil com as cores da bandeira francesa ou compartilhando a súplica “pray for Paris”.
Os que questionaram o fato de que os outros estão mais preocupados com os franceses do que com os brasileiros não estão dando nenhuma aula de solidariedade e, muito menos, de amor ao próximo. Quantificar atrocidades é banalizar a morte e os supostos pensadores desse tipo de doutrina se colocam em um pedestal intelectual e social em que certamente não estão.

Comparar a tragédia de Paris com os atentados na Síria faz total sentido, por exemplo. Senti essa necessidade de "medir tragédias" quando analisei a cobertura da imprensa internacional sobre o atentado ao Charlie Hebdo e as atrocidades provocadas pelo Boko Haram na cidade de Baga (Nigéria), sendo que neste último a Anistia Internacional contabiliza em torno de 2 mil mortos. A diferença é que neste caso a revolta era mais com a imprensa do que com a população em geral.

O rompimento da barragem em Minas Gerais foi resultado de má gestão e negligência. Não existiu uma pessoa que propositalmente explodiu a barragem para prejudicar a cidade e seus habitantes. Foi um acidente em que 11 pessoas morreram de forma estúpida e a evitável, uma cidade foi destruída e milhares de famílias ficaram desabrigadas. A fauna e a flora da região levarão décadas para serem reconstruídas. Lamentável.

A comoção em torno do caso de Paris está baseada na clara vontade de um ser humano tirar a vida de outro. É a comprovação da falha da vida em sociedade, é a total descrença em um mundo melhor, pacífico ou tolerável. Atentados terroristas não devem ser comparados com acidentes nunca. O que os idiotas patriotas devem entender é que a divisão territorial é apenas uma linha imaginaria entre os países, que não importa se a tragédia é Mariana, em Paris ou em Baga, o que importa é que são vidas humanas desperdiçadas e SEMPRE um ato terrorista será mais grave que um acidente, pois o terrorismo poda a nossa esperança. O terror nos machuca física, mental e moralmente, abre feridas e mágoas que não curam.
Nem sempre pensar significa estar no lado oposto ao da maioria. Costumo dizer que nada é pior que o novo religioso e o novo ateu, já que os 2 acreditam que acabaram de descobrir uma verdade que os imbecis não enxergam. A necessidade de se expressar a qualquer custo faz com que as pessoas pensem de forma simplória e imediatista.

Ouvi nos últimos três dias todos os tipos de opiniões sem sentido que se possa imaginar. Há os que multiplicaram por 40 o número de mortos em Mariana apenas para basear sua tese ridícula. Outros se manifestaram com frases como: “Tanto valor para um país que nem conhecem”, “200 pessoas na boate Kiss e eu não vi ninguém em Paris chorando”. Tem gente fazendo relação dos refugiados sírios com o atentado.
Matar pessoas, seja lá quantas forem, com o objetivo de impor e calar é um crime contra a humanidade e a liberdade, não contra um parisiense.

Chore por Paris, chore por Baga, chore por Mariana. Esqueça as linhas do mapa.



Abaixo alguns tipos de absurdos vergonhosamente publicados:




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Nizan Guanaes e o fracasso do empresariado nacional



Nizan Guanaes possui uma coluna na Folha de São Paulo. Quem acompanha o blog sabe que ela já foi assunto num texto anterior. Esta coluna é baseada em textos otimistas e autobajuladores, típicos de um publicitário. Guanaes usa técnicas de venda e não há nenhum espaço para reflexão. Sua última coluna é essa http://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2015/11/1704220-atacar-os-problemas.shtml#_=_ e o autor tenta apresentar o capitalismo como salvação para os problemas nacionais, assumindo o empresariado o papel de salvador e o governo o papel de vilão neste teatro inventado.
O empresariado brasileiro é, em geral, incompetente. Digo em geral porque é óbvio que neste mar de mediocridade que impera em nosso empresariado há pessoas capazes. Mas, em geral, é composto por pessoas incompetentes. Neste texto farei esta generalização tendo isto em mente.
 O principal motivo, a meu ver, do mau estado de boa parte das empresas nacionais não está no governo e sim na má gestão delas. Nosso empresariado é individualista, mimado, arrogante e completamente incapaz de realizar qualquer tipo de autocrítica. Mais do que isto, tenta inventar falácias intelectuais em que seus interesses de classe se tornam interesses nacionais, devendo ser defendidos mesmo por aqueles que não fazem parte da mesma camada social. Guanaes, por exemplo, ataca as nossas leis trabalhistas, “enraizadas nos anos 30, que dificultam a criação de empregos”. Na linguagem do autor, a principal função do empresário é criar empregos e esta é a hipocrisia empresarial que mais me incomoda. A principal meta do empresário é ganhar dinheiro e não há nada de errado nisso. O erro está em vender a ideia de que a finalidade é criar empregos, quando na verdade é o lucro. Se uma pessoa como Guanaes puder trocar 10 empregados por uma máquina para manter seu bônus anual o fará, sem pensar nas consequências.
Um exemplo claro da má gestão das empresas brasileiras é o estados das companhias aéreas. Nossas passagens são caras e o serviço costuma ser muito ruim, mas mesmo assim os aviões estão quase sempre lotados. Elas recebem milhões em incentivos governamentais e, mesmo assim, estão quase quebradas. Outro exemplo é nossa indústria automobilística. Nossas cidades têm um trânsito infernal e mesmo assim esta indústria recebia milhões em subsídios para entupir ainda mais nossas capitais de veículos. Este lucro irreal ia em boa parte para os bônus dos gestores destas companhias que, a partir do momento em que deixaram de receber estes subsídios, passaram a demitir. Não há pensamento no longo prazo, o que se quer é garantir o bônus do final de ano.
Guanaes e o empresariado adotam uma retórica que eu já critiquei em um texto anterior, que é a de que o trabalhador deve ser grato ao patrão que lhe dá a chance de trabalhar, conceito que existe, a meu ver, como resquício do período de escravidão. A frase mais forte do texto de Guanaes, a meu ver, é “Quem constrói uma empresa constrói empregos e riqueza. Quem constrói uma empresa constrói um país.” Guanaes está errado. A única coisa capaz de gerar riqueza é o trabalho, sendo o trabalhador responsável pela geração da própria riqueza e de um adicional que será repassado ao seu patrão. Sendo assim, a riqueza do trabalhador é fruto do seu próprio esforço, enquanto a riqueza do patrão é resultado do esforço de outras pessoas. A lógica seria que o patrão tivesse gratidão pelo trabalhador, e não o inverso. Mas a lógica está corrompida, em parte pelo trabalho de fraude intelectual cometido pelo empresariado e comprado por um grande número de trabalhadores oprimidos que sonham em assumir o papel de opressores.
Nosso empresariado, especialmente os que compõem este grupo e são da minha geração, possui pouca cultura. São pessoas com poucas experiências de vida, formadas principalmente em viagens inúteis sustentadas pelos pais na juventude e em cursos de MBA pouco produtivos. São acostumados apenas à bajulação e não entendem que é no confronto de ideias que está a raiz para o conhecimento. Não querem aprender nada, querem apenas ensinar, mesmo não tendo muito o que dizer. Tente um dia ter uma conversa com um pouco mais de conteúdo com um deles e você verá o que acontece.
Este grupo é incapaz de realizar qualquer tipo de autocrítica e encontrou no governo o bode expiatório perfeito para todas as suas desgraças. A culpa nunca é sua, é sempre de alguém, este é o lema. Vejo CEOs de empresas bancadas pelo BNDES e que têm estatais como grandes clientes pregando um liberalismo em que o governo deve apenas dar subsídios, sem cobrar impostos. Nunca veremos, por exemplo, uma pessoa como Guanaes criticando os gastos milionários da Petrobrás em publicidade e questionando qual o sentido de uma estatal monopolista gastar tanta verba nisso.
O plano para transformar o governo em inimigo e o empresariado em salvação está dando certo. Vejo cada vez mais pessoas de classe média usando o adesivo de um pato amarelo e dizendo que não aguentam mais pagar impostos. Vejo estas mesmas pessoas financiando apartamentos minúsculos usando um banco estatal e sendo maltratadas diariamente por um chefe arrogante, mas mesmo assim acham que a salvação do país está neste e não naquele. 
A valorização do individualismo e da meritocracia faz parte deste processo de idolatria ao empresariado. Você deve supervalorizar qualquer conquista medíocre obtida e se sentir uma pessoa especial por qualquer motivo. A meritocracia nos ensina que temos o que merecemos, que quem tem mais merece mais e quem tem menos merece menos. Assim sendo, o empresário é rico porquê "merece" e tudo é fruto apenas de um esforço pessoal, não tendo importância alguma tudo o que veio antes de nós. Mas duvido que muitos empresários tenham estudado sociologia. Mais uma inversão da lógica, uma vez que numa sociedade capitalista a sua importância está na quantidade de dinheiro que você faz girar, e não na sua importância. Ou alguém discute que qualquer professor tem uma importância social muito maior do que um publicitário como Guanaes? A meritocracia faria sentido se estivesse relacionada à importância social da pessoa, mas não está.
A crise brasileira é uma crise de modelo. A ideia de que o bem-estar está unicamente ligado ao consumo deveria ser questionada. Discutimos muito o PIB e quase nada o IDH. Mas não é o que acha Guanaes. Ele acha que precisamos de mais capitalismo. O exemplo grego em seu texto mostra que para ele só há uma solução para esta crise. Aprofundá-la. Assusta-me o número de pessoas que concordam com isso. 
No mês passado a agência África de Guanaes se envolveu numa polêmica. Uma foto de toda sua equipe mostrava apenas pessoas brancas e muitos questionaram o fato de uma empresa com este nome só ter funcionários brancos. Guanaes e o empresariado brasileiro querem ensinar o país a melhorar. Deveriam começar olhando um pouco para as próprias empresas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A desigualdade racial no Brasil



A primeira etapa para a solução de um problema é o seu diagnostico. Alexandre Garcia num edital do Bom Dia Brasil há uma ou duas semanas negou a existência do racismo no Brasil até a criação das cotas raciais em universidades. Segundo ele, foram estas cotas criaram a divisão racial no Brasil. Desta forma, em sua visão, o problema não existia, é recente. Boa parte do seu público provavelmente acreditou. Numa sociedade em que a reflexão perde para o impulso e o texto foi subjugado pelo poder da imagem, não existe tempo para pensar. Precisa-se de alguém que faça isso pela maioria inerte e Alexandre Garcia cumpre este papel. Assume a posição de especialista que diz o que se deve pensar e concluir sobre um assunto. Não há espaço para debate em uma sociedade com pressa na realização de atividades inócuas e medrosa.
Sou um típico brasileiro branco de classe média, cercado em boa parte de pessoas brancas de classe média com típicos empregos de classe média. Boa parte delas são incapazes de enxergar que quase todos os seus colegas são brancos, que quase todos os seus chefes são brancos, que quase todos os restaurantes que frequentam só possuem pessoas brancas, assim como shoppings, casas noturnas, bares etc. E boa parte acredita que não há racismo no Brasil. E boa parte acredita na meritocracia. Em que momento perdeu-se a capacidade de pensar e de enxergar com o mínimo de reflexão o mundo que cerca?
O individualismo nos cega. O conceito propagado de meritocracia faz com que supervalorizamos qualquer conquista medíocre obtida e que achemos que ela é apenas fruto de algo conceituado como esforço pessoal. A falta de estudo de sociologia nas escolas na minha geração ajudou a criar uma geração egoísta que é incapaz de enxergar que somos frutos não apenas de nossas ações individuais, mas de tudo que aconteceu no nosso passado. Há todo um aparato intelectualmente fraudulento disposto a tornar o indivíduo cada vez mais arrogante e mesquinho. Para este tipo de indivíduo, basta um exemplo de sucesso (quase sempre o Pelé) para desqualificar qualquer tentativa séria de abordagem deste assunto. Não há choque com a violência causada pela desigualdade, o maior esforço é em negá-la, na maioria das vezes desqualificando a relação entre pobreza e cor da pele.
A escravidão foi o maior e mais importante crime já cometido no Brasil. Suas raízes permanecem vivas até hoje, 127 anos após o seu fim. Gerou uma desigualdade óbvia, mas “invisível” diante de uma geração incapaz de pensar observando o que está a sua volta. O primeiro passo para enfrentarmos esta questão é a aceitação que ela existe. Isto exige reflexão e noção de que há algo mais importante do que o próprio umbigo.
Tratar os desiguais de forma igual aumenta a desigualdade. Isto é um princípio jurídico e econômico. A população negra sofreu um crime perpetrado por um modelo econômico de séculos passados do qual fez parte o Estado brasileiro. Nenhum brasileiro vivo tem hoje alguma culpa por aquilo. Mas somos todos culpados se continuarmos incapazes de enxergar as consequências deste crime na nossa sociedade atual e se nada fizermos para consertá-la. O primeiro passo é o diagnóstico do que vemos e não notamos. A cumplicidade silenciosa também é criminosa, fruto da forma banal como enxergamos as injustiças à nossa volta.
As cotas raciais são o começo da solução e vem obtendo sucesso apesar de todo o aparato criado para desqualificá-las. Ver universidades brasileiras se diversificando é um início de alento para quem se sente agredido com esta situação. Se você acredita no que disse Alexandre Garcia, compre um livro de história do Brasil. E se acredita na propagada democracia racial brasileira, veja a foto que dá início ao texto. É do jogo entre Brasil e Colômbia nas quartas-de-final da copa de 2014 em Fortaleza. Segundo o IBGE, 76% da população desta cidade é negra. Para quem é capaz de enxergar o óbvio, esta foto diz tudo. Quem não é, faz parte do grande problema, o racismo silencioso de todos os dias.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O vício em sexo e o silêncio



Nossa sociedade é viciada em sexo. Nenhum vício é tão usado para dominar e alienar quanto este vício. Nenhum produto vende tanto. A publicidade que nos ronda deixa bem claro que não há felicidade possível sem uma boa vida sexual. Queira fazer sexo, sempre. Isto funciona principalmente para o sexo masculino. Toda propaganda mostra o macho alfa como exemplo. É o cara rico e gostosão comprando o carro fodão e ganhando em troca o sorriso de uma mulher gostosona. É o cara nem tão rico e nem tão gostosão ganhando o sorriso de uma mulher gostosona. Você só será feliz trepando, para isso, compre. Passamos mais tempo pensando em sexo do que em qualquer outro assunto.
O macho alfa nunca fracassa. Portanto, nunca broxa. Muita gente acha que a vida só vale a pena se nele houver sexo. Muita gente é estimulada a isso. Não há vida sem sucesso. Não há vida sem sexo. Como um viciado em cocaína disposto a tudo para atender o seu vício, estamos dispostos a tudo para conseguir uma ereção. Mesmo que isto arrisque nossa saúde.
Em 1998 surgiu o Viagra, remédio com grande eficácia no combate a disfunção erétil. Nos 3 anos seguintes, a Pfizer lucrou mais de US$ 1 bilhão de dólares com a venda deste produto. No Brasil, a venda deste produto e de similares hoje chega a 30 milhões de unidades por ano. Poucos produtos são tão lucrativos, afinal, nenhum é tão bem sucedido em explorar o nosso vício sexual quanto este. O principal efeito colateral deste remédio é o aumento do risco de ataque cardíaco e de AVC. Qual a frequência com que isto acontece? Não sabemos.
O jogador de basquete Lamar Odom foi internado esta semana após o uso excessivo de um produto similar ao Viagra durante uma orgia num prostíbulo nos EUA. Nada é mais sintomático do que um viciado em sexo estar disposto a pagar pessoas para que tenham relações sexuais com ele. Mais do que isso, ele precisava garantir a ereção, para isto tomou doses de Viagra. Está quase morrendo. Alguns sites noticiaram que foi por uso de Viagra, outros não.
Por que há um silêncio e uma falta de pesquisas sobre o número de pessoas vítimas deste tipo de medicamentos? Por que não temos nenhuma pesquisa séria sobre este assunto? Por que órgãos de imprensa não noticiaram que o ataque foi fruto de uso de medicamentos contra impotência? A resposta, a meu ver, é financeira.
Sexo vende e um produto que permite que o sexo aconteça tem um potencial financeiro gigantesco. Empresas farmacêuticas gastam milhões em publicidade e estão entre as maiores financiadoras das empresas de comunicação. Sexo é vida, repete-se sempre. Pode-se até noticiar que você deve procurar um médico, mas não se noticia se alguém morre por este assunto. Isto prejudicaria vendas. Por isso, não há números nem um rosto famoso que seja reconhecidamente vítima deste medicamento. Odom é o primeiro famoso que eu lembre, mas o assunto está sendo abafado. O que causou seu problema já não recebe a atenção que recebe a visita que recebeu no hospital de uma ex-namorada, da família Kardashian (não sei se escrevi certo). Provavelmente quando o assunto for tratado futuramente, Odom será objeto de piadas e não de conscientização.
Sexo é um vício e todo vício é uma forma de opressão. Todo viciado é um dominado, tanto pelo produto quanto pela pessoa que o fornece. Somos uma sociedade com um vício que não é debatido, pelo contrário, é estimulado, pois assim somos mais alienados e facilmente comandados. Passamos boa parte do tempo tratando do assunto sexo e em como necessariamente uma boa vida sexual significa felicidade. Muitos que recorrem a estes medicamentos não sabem os riscos que estão correndo, uma vez que o assunto não é tratado da forma como deveria por interesses do capital. Outros recorrem a estes produtos mesmo sabendo os riscos que estão correndo. No primeiro caso, há simples ignorância estimulada pela má fé de um sistema que coloca a exploração de um vício acima de qualquer outra coisa. No segundo caso, a questão é mais perigosa. Há pessoas dispostas a morrer para saciar seus desejos sexuais. Neste caso, o problema real e não discutido não está na falta de ereção. Está no fato de que muitos acreditam que a vida e tudo que ela oferece só vale a pena se houver sexo. Há uma inversão séria de valores. Invisível, não debatida, explorada e, acima de tudo, lucrativa. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

FELIZ DIA DO PROFESSOR


O governo de São Paulo fechará escolas.

Essa é a manchete dos veículos de comunicação nas últimas 2 semanas. Uma manchete que nos leva a pensar “Meu Deus! Que absurdo este governo está fazendo”. Como eu sou o cara do contraponto, estou aqui para combater as unanimidades e, principalmente, o desconhecimento de causa.
Sempre no blog tentamos encontrar coisas boas onde poucos enxergavam, além de tentar atacar os que eram idolatrados. Defendemos em alguns pontos o Haddad, a Dilma, a Mc Melody e seu pai. Criticamos o Aécio, o PMDB, os coxinhas, o Alckmin. Agora chegou a hora de defender... O Alckmin?!?

A manchete acima é tendenciosa e choca qualquer pessoa. Inicialmente quero dizer que a educação pública é, em geral, uma porcaria em todo o país. Estudantes cada vez menos preparados tentam sem sucesso um lugar na instituição pública de ensino que funciona, a Universidade. Infelizmente essa é uma área reservada para aquele que menos precisa e é mais preparado, o aluno de escola particular. Não por acaso nos últimos 20 anos a participação desse tipo e aluno no ensino estadual passou de 13% para 18%. Nesse mesmo período, a quantidade de alunos matriculados no ensino privado aumentou 22%, enquanto a de escola pública regrediu 15%. Se os alunos migram para o ensino privado é porque este é melhor. Triste. Devemos isso ao próprio governo tucano e a sua progressão continuada.

O governo alega que dará outra finalidade às escolas porque tem mais vagas do que precisa. Podem usar escolas vazias como creches, por exemplo. Além de remanejar alunos das escolas que serão fechadas, a Secretaria de Educação quer dividi-las em 3 tipos: de 1º ao 5º, de 6º ao 9º, além do Ensino Médio. Nesse ponto, não há como não defender a medida. Separar alunos por idade é a coisa mais sensata a ser feita e não precisamos de mais delongas.

O governo diz que temos mais vagas do que precisamos por 2 motivos, embora eu considere 3. Primeiro que há uma migração dos alunos de escola pública para a particular nas últimas décadas, como exposto acima. Segundo que os casais estão tendo menos filhos, não à toa o nosso país está ficando mais velho, e com isso são menos crianças nas escolas. O terceiro motivo é que a escola pública é uma merda mesmo, caso o contrário não teríamos o primeiro motivo.
Em uma rápida pesquisa em informações oficiais da Secretaria da Educação de SP e do IBGE, constatamos serem verdadeiras as 2 razões apresentadas pelo Sr. Geraldo. Além disso, o Estado de SP segue uma tendência nacional de transferência da Educação para as prefeituras. Hoje no Brasil 66,5% das matrículas em escolas públicas são municipais. Em SP a proporção está 51,3% para o Estado contra 48,7% para os Municípios. Em 1995 os municípios de SP possuíam 677 mil alunos, hoje são mais de 2,3 milhões. Na contramão o Estado que possuía 6,5 milhões hoje tem menos que 3,8 milhões. Além de receber os prédios do Estado, os Municípios também constroem suas unidades, resultando em mais vagas ociosas.

As matrículas no ano de 1995 somaram 8,2 milhões (público + privado), já em 2014 foram 7,4 milhões. Se observarmos que entre os censos de 1991 e 2010 a população do Estado de SP cresceu 31%, qual a explicação para que as matrículas gerais tenham se reduzido em 10%? A população tem menos filhos e está mais velha.
Para comprovar de forma mais detalhada como os alunos de escola pública estão migrando para a particular, observe que em 1995 tínhamos 7,2 milhões de alunos matriculados na escola pública contra 1 milhão do ensino pago. Hoje esses números mudaram para 6,1 milhões e 1,3 milhões, respectivamente. Para bom entendedor do blog, esses números bastam.
O governo está lá para cortar gastos excessivos e investir onde mais é necessário. Seja qual for a real intenção, para reinvestir na educação ou tampar rombos passados, o governo deve reduzir custos sobressalentes, pois esse é o meu e o seu dinheiro. Deus queira que essa economia se reverta em benefício para os alunos que estão lá estudando e que não fiquemos colocando dinheiro para garantir vagas que nunca serão preenchidas.

Eu acho que os argumentos da oposição são muito fracos. “O governo é ladrão” e “o governo quer você burro” são os mais toscos. Todo governo é ladrão, pois o sistema é ladrão, mas nem toda atitude do governo é para prejudicar a população. O Estado não vai acabar com as vagas, apenas com as escolas.

Ouvi em uma entrevista que os alunos são apegados emocionalmente às escolas e aos funcionários. Além de pouco importar, isso é mentira. Aluno é apegado aos seus amigos, que por sinal migrarão com ele para outra escola, caso necessário.

“Os alunos terão que estudar mais longe”. Pode ser que sim, pode ser que não, em todo caso será apenas 1,5Km de onde já estuda hoje, caminhando com tranquilidade são 15 minutos.

“As escolas estão superlotadas”. Eu estudei em escola pública por toda a vida, sempre com 40/ 45 alunos, o que eu considero um bom número se eles tiverem um pingo de educação e respeito com o professor. Nas escolas particulares não é diferente, mas se fizer merda lá, tá fora.

Quantidade de escolas não se traduz em qualidade de ensino. Hoje temos muitas escolas e o ensino é fraco. Prefiro um mundo com menos escolas e mais recursos, ou melhor, os mínimos recursos, coisa que não temos hoje. Computadores sucateados, internet que não funciona, laboratórios fechados e bibliotecas paupérrimas são as condições atuais das escolas de São Paulo.

Os grandes e verdadeiros opositores dessa medida são os funcionários da educação e suas associações de classe. Exceto os concursados, muita gente vai perder o trabalho. Diretores, inspetores e professores contratados serão demitidos e é isso o que realmente incomoda. A maior arma desse grupo é trazer os alunos e seus pais para o seu lado. Muitos votos, rapaz!

O aluno não quer mudar de escola, claro. Se ele estuda ali é porque gosta, é mais perto, mais fácil para ele. O aluno não quer mudar, ele pouco se importa se o governo vai economizar, ele é uma criança, ele é um adolescente, por isso mesmo esse é mais um argumento fraco. Ele quer porque ele quer... eu quero tanta coisa. Escolas de bairro para os menores, escolas de centro para os maiores, passado o impacto nessa geração tudo será muito normal, como ocorre nos EUA. Pegar ônibus não faz mal a ninguém e até faz bem.

Vamos cobrar melhoria no ensino e na remuneração dos professores. Vamos lutar para que essa economia seja reinvestida na educação. Não precisamos apenas olhar as manchetes e muito menos nos transformar em marionetes de pessoas que lutam apenas pela sua classe.