quarta-feira, 4 de maio de 2016

A matemática dos votos pró-impeachment entre dos deputados



O jornal O Estado de São Paulo possui uma ferramenta muito interessante para análise da atuação dos deputados e senadores no Congresso. No site estadaodados.com/basometro conseguimos encontrar o voto dos congressistas em todas as votações desde o primeiro governo de Lula, com a porcentagem de vezes em que cada um votou a favor do governo.

Com base nisso, foi montada uma análise numérica com a atuação de todos os deputados que votaram a favor do impeachment durante o segundo governo de Dilma Rousseff, que teve início em 01/01/2015 e provavelmente terminará na semana que vem. Os números de cada deputado podem ser encontrados ao final deste texto.

Os deputados foram divididos em 3 grupos:

Grupo A: Votaram a favor do governo em menos de 40% das votações;
Grupo B: Votaram a favor do governo em mais de 40% e menos de 70% das votações;
Grupo C: Votaram com o governo em mais de 70% das votações.

Dos 367 votos a favor do impeachment, 148 estão no grupo C (40,3%), 97 no grupo B (26,4%) e 122 no grupo A (33,2%).

Partido / Grupo
A
B
C
DEM
75%
21%
4%
PDT
17%
17%
67%
PEN
0%
100%
0%
PHS
17%
0%
83%
PMB
0%
100%
0%
PMDB
8%
19%
73%
PP
18%
26%
55%
PPS
100%
0%
0%
PR
4%
12%
85%
PRB
5%
5%
91%
PROS
0%
75%
25%
PSB
14%
79%
7%
PSC
40%
60%
0%
PSD
11%
44%
44%
PSDB
94%
4%
2%
PSL
50%
50%
0%
PTB
14%
36%
50%
PTdoB
0%
50%
50%
PTN
25%
25%
50%
PV
17%
50%
33%
Rede
0%
100%
0%
SD
79%
14%
7%

Dos partidos, os com maior porcentagem de deputados votando a favor do impeachment, mesmo estando no grupo dos que apoiaram o governo em mais de 70% das votações, são PRB (91%), PR (85%) e PHS (83%), embora este último possua apenas 6 deputados.

Abaixo, a lista dos 10 deputados que mais apoiaram o governo Dilma e que mesmo assim votaram a favor do impeachment, com a justificativa dada por cada um na sessão de afastamento:

1 – Aguinaldo Ribeiro PP/PB – 94% - “Sr. Presidente, hoje não é um dia de homenagem, não é um dia de celebração, é um dia de lamento. E todos nós, todas as forças políticas que aqui estão, devemos ter responsabilidade, a partir de amanhã, com o futuro do nosso País. Eu respeitei democraticamente, como Líder do meu partido, a maioria absoluta que fechou a questão. Eu sou líder da maioria, não sou líder de minoria. Por isso, sigo o meu partido pela admissibilidade desse processo.”

2 – Hugo Leal PSB/RJ – 94% - “Sr. Presidente, eu gostaria de lembrar a todos os brasileiros e brasileiras que nós temos ainda um País de responsabilidades que espera por nós. Nós não podemos esquecer o Brasil. Eu, nesta sessão especial, quero fazer também uma homenagem póstuma ao saudoso Eduardo Campos, do partido ao qual estou filiado. Nós não vamos desistir do Brasil! Eu voto sim, Sr. Presidente."

3 – Edinho Araújo PMDB / SP – 94% - “Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, celebrando a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães, as liberdades individuais com o povo nas ruas, o fortalecimento das instituições brasileiras, pelo Brasil, por São Paulo, por São José do Rio Preto e região, por esta e pelas futuras gerações, para renovar as esperanças do povo brasileiro e pedindo a Deus que abençoe este País, o meu voto é sim."

4 - José Augusto Curvo PSD / MT – 92% - “Sr. Presidente, em 1992, eu estava nesta Casa e votei sim, junto com o povo brasileiro. Pelo meu povo honrado de Mato Grosso, pelo Governador Pedro Taques, homem sério e honesto, pela minha família Curvo — meu pai completa 100 anos este ano —, pela minha esposa, meu neto, e em memória dos meus dois filhos falecidos Rodolfo e Roland, eu voto sim."

5 - Nelson Meurer PP/PR – 91% - “Sr. Presidente, pela minha família, pelo meu querido Município de Francisco Beltrão, pelo meu querido sudoeste do Paraná, pelos meus eleitores do meu Estado, voto sim."
6  - Toninho Wandscheer PROS/PR – 91% - “Em memória do meu pai, Paulo Wandscheer, que, tenho certeza, estaria mandando — ele nem pediria; ele mandaria — eu votar pela minha cidade, Fazenda Rio Grande, pelo meu Estado do Paraná, pela minha família e pelo meu Brasil querido, eu voto sim.”

7 – Jony Marcos PRB/SE – 91% - “Sras. e Srs. Deputados, povo do meu grandioso Estado de Sergipe —o menor Estado do Brasil, Estado que eu amo, Estado maravilhoso —, povo brasileiro, o meu partido, o Partido Republicano Brasileiro, do qual eu sou fundador e que é presidido pelo nosso Presidente Marcos Pereira, tomou um posicionamento;e todos nós Deputados decidimos acompanhar o posicionamento, a direção dada pelo nosso Presidente. Eu sou o último Deputado do PRB que vota nesta noite e devo dizer a todos que vou honrar osmeus companheiros e acompanhar o voto de todos os 21 Deputados que me antecederam aqui nesta tribuna. Voto sim, Sr. Presidente.”

8 – Ricardo Barros PP/PR – 89% - “Sr. Presidente, pela unidade do Partido Progressista, que fechou questão em relação ao impeachment, pelos progressistas da minha família: Maria Victoria, Cida Borghetti, Silvio Barros, pelos paranaenses que represento e pela minha Maringá, o meu voto é sim.”

9 – Pedro Paulo PMDB/RJ – 89% - “Senhoras e senhores de todo o Brasil, com a esperança de ver o País sair da crise, é preciso mudar. Pelo meu Rio de Janeiro, pelo Brasil, eu voto sim.”

10 – Alfredo Nascimento PR/AM – 89% - “Sr. Presidente, como sabe V.Exa., eu presido nacionalmente o Partido da República. Em uma reunião da executiva do nosso partido, realizada de forma democrática, majoritariamente o partido decidiu encaminhar o voto não. Em respeito ao meu partido, em respeito aos meus colegas Parlamentares, quero comunicar a esta Casa que renuncio ao meu mandato de Presidente Nacional do Partido da República, porque entendo o meu voto de forma diferente. O meu voto, Sr. Presidente, entendo que não pertence ao Governo, não pertence à Oposição, não pertence ao meu partido e sequer pertence a mim. O meu voto pertence ao povo do Amazonas, que me colocou na vida pública hámais de 30 anos, vida pública da qual eu me orgulho muito, e majoritariamente o povo do meu Estado do Amazonas vota pelo impedimento. Eu voto sim, Presidente.”

Em SP, foram 23 deputados que apoiaram o governo em mais de 70% das votações e que votaram a favor do impeachment. Dentre eles, destaca-se Celso Russomano do PRB, favorito na disputa da Prefeitura, que apoiou o governo em 85% das votações e deu a seguinte justificativa: “Sr. Presidente, o meu Estado, o Estado de São Paulo, me deu a honra de ser o Deputado mais votado do Brasil, com 1.524.286 votos. Não poderia, de forma nenhuma, de forma nenhuma, fazer com que o povo do meu Estado se decepcionasse comigo. Pelo meu Estado, pela família brasileira, pela minha família, meus filhos, a geração dos meus filhos e a geração dos meus netos, eu voto sim ao impeachment, Sr. Presidente.”

Justificativas como a de Russomano exemplificam de maneira perfeita a forma como muitos políticos fingem representar seus eleitores, mas pensam apenas no seu próprio interesse. Para não “decepcionar” seu eleitorado, ele votou a favor do impeachment, mas até que ponto não “decepcionou” este eleitorado ao apoiar o governo de forma tão clara durante o curto mandato, uma vez que ele julga que seu eleitorado é de oposição? Inimaginável o que será um cara destes na Prefeitura.

Abaixo a lista de deputados de SP que votaram a favor do impeachment e tem votação pró-governo acima de 70%:

Deputado
Partido
Estado
Votos pró-governo (%)
Edinho Araújo
PMDB
SP
94
Marcio Alvino
PR
SP
88
Milton Monti
PR
SP
88
Antonio Bulhões
PRB
SP
87
Miguel Lombardi
PR
SP
87
Roberto alves
PRB
SP
86
Celso Russomano
PRB
SP
85
Renata Abreu
PTN
SP
85
Sérgio Reis
PRB
SP
83
Herculano Passos
PSD
SP
82
Marcelo Squasoni
PRB
SP
82
Tiririca
PR
SP
81
Vinicius Carvalho
PRB
SP
80
Beto Mansur
PRB
SP
79
Capitão Augusto
PR
SP
78
Paulo Maluf
PP
SP
78
Ricardo Izar
PP
SP
78
Nelson Marquezeli
PTB
SP
77
Fausto Pinato
PP
SP
76
Baleia Rossi
PMDB
SP
74
Goulart
PSD
SP
74
Guilherme Mussi
PP
SP
74

Uma outra conclusão possível de tirar destes números é que é falsa a ideia, propagada especialmente por revoltados sem conteúdo, de que o governo Dilma não teve “oposição real” até o estouro desta insanidade de impeachment. O histórico de votos de PSDB – DEM – PPS – SD provam isto.

Por último, não é esta oposição que derrubou o governo. Quem o derrubou foi a grande aliança formada por partidos que estarão em qualquer governo, seja ele popular ou não. PMDB – PP – PR – PRB – PTB – PSD são partidos cuja única “ideologia” é a fisiologia. Precisavam aliar-se a um dos lados, PT ou PSDB para governar. No governo Temer não precisarão mais. E são os maiores interessados num governo parlamentarista, em que a decisão sobre o chefe do Executivo passaria para o Parlamento.

Na planilha abaixo com os votos de todos os deputados há alguns em branco. São deputados que não participaram de nenhuma votação no governo Dilma e o presidente da Câmara.

Deputado
Partido
Estado
Votos pró-governo (%)
Fláviano Melo
PMDB
AC
77
Jéssica Sales
PMDB
AC
73
Alan Rick
PRB
AC
71
Rocha
PSDB
AC
25
Maurício Lessa
PR
AL
87
Arthur Lira
PP
AL
76
Cícero Almeida
PMDB
AL
69
Marx Beltrão
PMDB
AL
65
JHS
PSB
AL
39
Pedro Vilela
PSDB
AL
27
Alfredo Nascimento
PR
AM
88
Silas Câmara
PRB
AM
78
Átila Lins
PSD
AM
77
Marcos Rotta
PMDB
AM
75
Conceição Sampaio
PP
AM
66
Hissa Abrahão
PDT
AM
36
Pauderney Avelino
DEM
AM
27
Arthur Virgílio Bisneto
PSDB
AM
25
Andre Abdon
PP
AP
87
Cabuçu Borges
PMDB
AP
79
Marcos Reategui
PSD
AP
58
Márcio Marinho
PRB
BA
85
Tia Eron
PRB
BA
79
Uldurico Junior
PV
BA
75
Lucio Vieira Filho
PMDB
BA
62
Irmão Lázaro
PSC
BA
55
Benito Gama
PTB
BA
45
Erivelton Santanta
PEN
BA
44
Claudio Cajado
DEM
BA
39
Paulo Azi
DEM
BA
36
Elmar Nascimento
DEM
BA
35
José Carlos Aleluia
DEM
BA
35
Arthur Oliveira Maia
PPS
BA
34
Jutahy Jnuior
PSDB
BA
30
Antonio Imbassahy
PSDB
BA
28
João Gualberto
PSDB
BA
25
Adail Carneniro
PP
CE
77
Ronaldo Martins
PRB
CE
68
Cabo Sabino
PR
CE
67
Danilo Forte
PSB
CE
52
Gerecias Noronha
SD
CE
46
Vitor Valim
PMDB
CE
40
Moises Rodrigues
PMDB
CE
31
Moroni Torgan
DEM
CE
29
Raimundo Gomes de Matos
PSDB
CE
29
Rogério Rosso
PSD
DF
81
Laerte Bessa
PR
DF
80
Roney Nemer
PP
DF
75
Ronaldo Fonseca
PROS
DF
65
Augusto Carvalho
SD
DF
35
Alberto Fraga
DEM
DF
29
Izalci
PSDB
DF
28
Dr. Jorge Silva
PHS
ES
84
Lelo Coimbra
PMDB
ES
74
Sergio Vidigal
PDT
ES
73
Marcos Vicente
PP
ES
63
Paulo Folleto
PSB
ES
53
Evair de Mello
PV
ES
51
Carlos Manato
SD
ES
34
Max Filho
PSDB
ES
27
Magda Mofatto
PR
GO
85
Daniel Vilela
PMDB
GO
82
Pedro Chaves
PMDB
GO
82
Jovair Arantes
PTB
GO
78
Flávia Morais
PDT
GO
74
Heuler Cruvinel
PSD
GO
69
Thiago Peixoto
PSD
GO
50
Alexandre Baldy
PTN
GO
34
Lucio Vergilio
SD
GO
34
Roberto Balestra
PP
GO
33
Marcos Abrão
PPS
GO
31
João Campos
PRB
GO
29
Célio Silveira
PSDB
GO
28
Giuseppe Vecci
PSDB
GO
27
Fábio Souza
PSDB
GO
26
Delegado Waldir
PR
GO
24
Cleber Verde
PRB
MA
88
Alberto Filho
PMDB
MA
84
André Fufuca
PP
MA
76
Sarney Filho
PV
MA
76
Victor Mendes
PSD
MA
71
Hildo Rocha
PMDB
MA
68
Juscelino Filho
DEM
MA
66
José Reinaldo
PSB
MA
53
Eliziane Gama
PPS
MA
34
João Castelo
PSDB
MA
30
Saraiva Felipe
PMDB
MG
85
Franklin Lima
PP
MG
84
Luis Tibe
PTdoB
MG
84
Bilar Pinto
PR
MG
83
Rodrigo Pacheco
PMDB
MG
83
Mauro Lopes
PMDB
MG
81
Del. Edson Moreira
PR
MG
80
Diego Andrade
PSD
MG
80
Newton Cardoso JR.
PMDB
MG
80
Fábio Ramalho
PMDB
MG
79
Leonardo Quintão
PMDB
MG
77
Marcelo Aro
PHS
MG
76
Toninho Pinheiro
PP
MG
76
Luiz Fernando Faria
PP
MG
75
Marcelo Álvaro Antônio
PR
MG
74
Subtenente Gonzaga
PDT
MG
73
Marcos Montes
PDS
MG
72
Laudivio Carvalho
SD
MG
71
Lincoln Portela
PRB
MG
70
Mário Heringer
PDT
MG
67
Jaime Martins
PSD
MG
66
Eros Biondini
PROS
MG
63
Dâmina Pereira
PSL
MG
60
Weliton Prado
PMB
MG
53
Dimas Fabiano
PP
MG
51
Tenente Lúcio
PSB
MG
51
Raquel Muniz
PSD
MG
47
Misael Varella
DEM
MG
45
Renzo Bras
PP
MG
43
Stefano Aguair
PSD
MG
43
Júlio Delgado
PSB
MG
41
Bonifácio de Andrada
PSDB
MG
39
Carlos Melles
DEM
MG
35
Eduardo Barbosa
PSDB
MG
33
Odelmo Leão
PP
MG
31
Zé Silva
SD
MG
31
Marcus Pestana
PSDB
MG
30
Paulo Abi Ackel
PSDB
MG
29
Caio Narcio
PSDB
MG
28
Rodrigo de Castro
PSDB
MG
28
Domingos Sávio
PSDB
MG
26
Carlos Marun
PMDB
MS
78
Geraldo Resende
PSDB
MS
70
Teresa Cristina
PSB
MS
50
Elizeu Dionisio
PSDB
MS
49
Mandeta
DEM
MS
27
José augusto Curvo
PSD
MT
92
Carlos Bezerra
PMDB
MT
87
Fabio Garcia
PSB
MT
46
Adilson Sachetti
PSB
MT
41
Prof. Victorio Galli
PSC
MT
41
Nilton Leitão
PSDB
MT
26
Jose Priante
PMDB
PA
87
Francisco Chapadinha
PTN
PA
70
Joaquim Passarinho
PSD
PA
69
Del. Éder Mauro
PSD
PA
68
Josué Bengston
PTB
PA
65
Julia Marinho
PSC
PA
47
Arnaldo Jordy
PPS
PA
37
Wladimir Costa
SD
PA
35
Hélio Leite
DEM
PA
31
Nilson Pinto
PSDB
PA
28
Aguinaldo Ribeiro
PP
PB
94
Hugo Motta
PMDB
PB
83
Wilson Filho
PTB
PB
81
Rômulo Gouveia
PSD
PB
80
Manoel Jr.
PMDB
PB
77
Veneziano Vital do Rêgo
PMDB
PB
75
Benjamin Maranhão
SD
PB
32
Efraim Filho
DEM
PB
27
Pedro Vinha Lima
PSDB
PB
26
Anderson Ferreira
PR
PE
84
Jorge Corte Real
PTB
PE
80
Eduardo da Fonte
PP
PE
73
Kaio Maniçoba
PMDB
PE
71
Fernando Coelho Filho
PSB
PE
50
Tadeu Alencar
PSB
PE
49
João Fernando Coutinho
PSB
PE
48
Marinaldo Rosendo
PSB
PE
45
Gonzaga Patriota
PSB
PE
42
Pastor Eurico
PHS
PE
36
Jarbas Vasconcelos
PMDB
PE
33
Betinho Gomes
PSDB
PE
31
Bruno araújo
PSDB
PE
29
Daniel Coelho
PSDB
PE
28
Mendonça Filho
DEM
PE
28
Augusto Coutinho
SD
PE
25
André de Paula
PSD
PE

Danilo Cabral
PSB
PE

Iracema Portela
PP
PI
79
Julio Cesar
PSD
PI
79
Átila Lira
PSB
PI
68
Heráclito Fortes
PSB
PI
42
Rodrigo Martins
PSB
PI
38
Nelson Meurer
PP
PR
91
Toninho Wandscheer
PROS
PR
91
Ricardo Barros
PP
PR
89
Diego Garcia
PHS
PR
84
Luiz Nishimori
PR
PR
81
Sergio Souza
PMDB
PR
80
João Arruda
PMDB
PR
79
Alex Canziani
PTB
PR
78
Giacobo
PR
PR
76
Dilceu Sperafico
PP
PR
73
Osmar Serraglio
PMDB
PR
73
Evandro Roman
PSD
PR
71
Chsriane de Souza Yared
PR
PR
70
Takayama
PSC
PR
63
Hermes Parcianello
PMDB
PR
55
Leopoldo Meyer
PSB
PR
45
Luciano Ducci
PSB
PR
43
Leandre
PV
PR
39
Paulo Martins
PSDB
PR
38
Marcelo Belinati
PP
PR
33
Rubens Bueno
PPS
PR
32
Fernando Francischini
SD
PR
31
Alfredo Kaefer
PSL
PR
30
Sandro Alex
PSD
PR
30
Luis Carlos Hauly
PSDB
PR
29
Nelson Padovani
PSDB
PR
29
Hugo Leal
PSB
RJ
94
Pedro Paulo
PMDB
RJ
89
Washington Reis
PMDB
RJ
87
Altineu Cortes
PMDB
RJ
83
Roberto Sales
PRB
RJ
82
Simão Sessim
PP
RJ
82
Alexandre Valle
PR
RJ
81
Rosangela Gomes
PRB
RJ
81
Luis Carlos Ramos
PTN
RJ
78
Francisco Floiano
DEM
RJ
76
Marcelo Matos
PHS
RJ
76
Dr. João
PR
RJ
75
Soraya Santos
PMDB
RJ
75
Fernando Jordão
PMDB
RJ
74
Paulo Feijó
PR
RJ
74
Indio da Costa
PSD
RJ
73
Julio Lopes
PP
RJ
64
Marcos Soares
DEM
RJ
63
Felipe Bornier
PROS
RJ
58
Deley
PTB
RJ
55
Alexandre Serfiotis
PMDB
RJ
51
Sóstenes Cavalcante
DEM
RJ
45
Cabo Daciolo
PTdoB
RJ
42
Miro Teixeira
Rede
RJ
42
Rodrigo Maia
DEM
RJ
39
Aureo
SD
RJ
33
Ezequiel Teixeira
PTN
RJ
32
Otavio Leite
PSDB
RJ
28
Cristiane Brasil
PTB
RJ
26
Jair Bolsonaro
PSC
RJ
23
Arolde de Oliveira
PSC
RJ

Eduardo Cunha
PMDB
RJ

Marco Antônio Cabral
PMDB
RJ

Sergio Zveiter
PMDB
RJ

Walter Alves
PMDB
RN
81
Fábio Faria
PSD
RN
80
Rafael Mota
PSB
RN
80
Beto Rosado
PP
RN
66
Antônio Jacome
PTN
RN
56
Felipe Maia
DEM
RN
29
Rogério Marinho
PSDB
RN
28
Luiz Cláudio
PR
RO
84
Lucio Mosquini
PMDB
RO
83
Lindomar Garçon
PRB
RO
82
Nilton Capixaba
PTB
RO
74
Mariana Raupp
PMDB
RO
73
Marcos Rogério
DEM
RO
59
Expedito Netto
PDS
RO
42
Mariana Carvalho
PSDB
RO
29
Remídio Monai
PR
RR
83
Hiran Gonçalves
PP
RR
81
Jhonathan de Jesus
PRB
RR
78
Carlos Andrade
PHS
RR
73
Maria Helena
PSB
RR
60
Abel Mesquita Jr.
DEM
RR
58
Sheridan
PSDB
RR
27
Luis Carlos Busato
PTB
RS
84
Carlos Gomes
PRB
RS
76
Giovani Cherini
PDT
RS
76
Mauro Pereira
PMDB
RS
73
Darcísio Perondi
PMDB
RS
70
José Fogaça
PMDB
RS
67
Renato Molling
PP
RS
67
Danrlei
PSD
RS
66
Ronaldo Nogueira
PTB
RS
64
João Derly
Rede
RS
63
Osmar Terra
PMDB
RS
53
Alceu Moreira
PMDB
RS
50
José Otávio Germano
PP
RS
50
Sérgio Moraes
PTB
RS
47
José Stedile
PSB
RS
45
Heitor Chuch
PSB
RS
44
Afonso Hamm
PP
RS
42
Covatti Filho
PP
RS
37
Luiz Carlos Heinze
PP
RS
30
Nelson Marchezan Jr
PSDB
RS
30
Onyx Lorenzoni
DEM
RS
24
Jeronimo Goergen
PP
RS
22
Celso Maldaner
PMDB
SC
82
Ronaldo Benedet
PMDB
SC
82
Mauro Mariani
PMDB
SC
78
Jorginho Mello
PR
SC
74
Rogério Peninha Mendonça
PMDB
SC
74
Cesar Souza
PSD
SC
67
João Rodrigues
PSD
SC
51
Valdir Colatto
PMDB
SC
50
Jorge Boeira
PP
SC
41
Espiridião Amin
PP
SC
39
Carmen Zanotto
PPS
SC
31
Geovania de Sá
PSDB
SC
25
Marco Tebaldi
PSDB
SC
25
João Paulo Kleinubing
PSD
SC
0
Jony Marcos
PRB
SE
91
Fábio Reis
PMDB
SE
76
Andre Moura
PSC
SE
58
Adelson Barreto
PR
SE
54
Valadares Filho
PSB
SE
49
Laercio Oliveira
SD
SE
39
Edinho Araújo
PMDB
SP
94
Marcio Alvino
PR
SP
88
Milton Monti
PR
SP
88
Antonio Bulhões
PRB
SP
87
Miguel Lombardi
PR
SP
87
Roberto alves
PRB
SP
86
Celso Russomano
PRB
SP
85
Renata Abreu
PTN
SP
85
Sérgio Reis
PRB
SP
83
Herculano Passos
PSD
SP
82
Marcelo Squasoni
PRB
SP
82
Tiririca
PR
SP
81
Vinicius Carvalho
PRB
SP
80
Beto Mansur
PRB
SP
79
Capitão Augusto
PR
SP
78
Paulo Maluf
PP
SP
78
Ricardo Izar
PP
SP
78
Nelson Marquezeli
PTB
SP
77
Fausto Pinato
PP
SP
76
Baleia Rossi
PMDB
SP
74
Goulart
PSD
SP
74
Guilherme Mussi
PP
SP
74
Paulo Freire
PR
SP
62
Roberto de Lucena
PV
SP
57
Dr. Sinval Malheiros
PTN
SP
56
Luiz Lauro Filho
PSB
SP
53
Jefferson Campos
PSD
SP
51
Duarte Nogueira
PSDB
SP
50
Major Olimpio
SD
SP
50
Evandro Gussi
PV
SP
47
Keiko Ota
PSB
SP
46
Pr. Marco Feliciano
PSC
SP
41
Mis. José Olimpio
DEM
SP
39
Flavinho
PSB
SP
36
Arnaldo Faria de Sá
PTB
SP
35
Paulo Pereira da Silva
SD
SP
35
Rodrigo Garcia
DEM
SP
35
Bruna Furlan
PSDB
SP
33
Vitor Lippi
PSDB
SP
32
Gilberto Nascimento
PSC
SP
31
Alexandre Leite
DEM
SP
29
Eli Correa Filho
DEM
SP
29
João Paulo Papa
PSDB
SP
29
Jorge Tadeu Mudalen
DEM
SP
29
Mara Gabrili
PSDB
SP
29
Samuel Moreira
PSDB
SP
29
Vanderlei Macris
PSDB
SP
29
Bruno Covas
PSDB
SP
28
Miguel Haddad
PSDB
SP
28
Ricardo Tripoli
PSDB
SP
28
Silvio Torres
PSDB
SP
28
Carlos Sampaio
PSDB
SP
27
Alex Manente
PPS
SP
26
Eduardo Cury
PSDB
SP
25
Eduardo Bolsonaro
PSC
SP
24
Arnaldo Jardim
PPS
SP
0
Floriano Pesaro
PSDB
SP

Lázaro Botelho
PP
TO
83
Josi Nunes
PMDB
TO
82
Carlos Henrique Gaguim
PTN
TO
81
Dulce Miranda
PMDB
TO
79
Cesar Halum
PRB
TO
77
Prof. Dorinha
DEM
TO
32


segunda-feira, 21 de março de 2016

Mensagem aos democratas conscientes


Inicialmente, gostaria de dizer que este texto é uma perda de tempo para aqueles que seguem Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Ronaldo Caiado ou outros filhotes da ditadura. Infelizmente, as pessoas nesta situação já estão corrompidas no curto prazo e, a meu ver, não há argumento lógico capaz de fazê-las entender o perigo do momento em que vivemos, em que há uma clara guinada rumo a um autoritarismo de direita. Escrevo este texto para você, democrata, que terá em 2018 a chance de expressar clara e honestamente qual o seu desejo. Você, que em 2018 poderá optar pela continuidade, votando no candidato do PT, que muito provavelmente será o ex-presidente Lula, ou que votará em algumas das opções de mudança democrática, compostas pelo candidato do PSDB, provavelmente o senador Aécio Neves ou o governador Geraldo Alckmin (posteriormente falarei sobre o flerte perigoso que o PSDB tenta com este movimento autoritário e sobre o significado da expulsão destes dois políticos na última manifestação), pela ex-ministra Marina Silva ou pelo ex-governador Ciro Gomes (cuja discussão com um grupinho fascista na frente da casa do seu irmão foi um ato de heroísmo). Você, que contente ou descontente poderá dar um rumo diferente a nosso futuro. Você que pode, por exemplo, fazer o que fizeram os argentinos. Pessoalmente sou contra quase todas as medidas adotadas pelo governo Macri e as táticas adotadas pela mídia portenha naquela eleição, mas é inegável que ele possui um governo legítimo e que representa a vontade da maioria das pessoas daquele país. Ele possui a característica mais importante que um presidente pode ter, a legitimidade, sem a qual qualquer governo democrático entra em risco. Escrevo para você que possui conhecimento e discernimento histórico para compreender a gravidade do significado desta massa vestindo verde-e-amarelo, que considera todos que não fazem parte do seu grupo como inimigos da pátria e que vem realizando uma verdadeira caça às bruxas. Você que entende a fragilidade do nosso modelo democrático e a importância em mantê-lo.
Convido você a uma reflexão sobre o que aconteceu na última semana, especialmente na quarta-feira, data da nomeação de Lula como ministro da Casa Civil e das divulgações, logo em seguida, de grampos telefônicos de legalidade muito questionável envolvendo o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma. Há duas semanas, o juiz Sérgio Moro, sem muito embasamento legal, solicitou a tal da condução coercitiva do ex-presidente. Digo sem embasamento porque a lei permite isto apenas para casos em que há risco de fuga ou demonstração de obstrução das investigações por parte do investigado. Aquilo serviu como combustível para a mídia incendiar os protestos marcados para o domingo seguinte, ao mesmo tempo em que a FIESP entrou de vez na luta pelo impeachment. Peço que você se recorde qual a posição da FIESP em outros momentos históricos da nação, como 1964, e se questione quais os interesses que esta instituição sempre defendeu. Pois bem, tivemos as manifestações, gigantescas, com coisas que qualquer pessoa sensata considera bizarras. Enquanto Aécio Neves e Geraldo Alckmin, que de alguma forma ainda representam uma oposição democrática ao governo atual, sem perceber o perigo que eles próprios estão correndo, foram vaiados e escorraçados da passeata, outras figuras como Bolsonaro e Feliciano foram aplaudidas e ovacionadas. Enquanto pessoas que ousassem passar perto das manifestações usando camisetas vermelhas eram agredidas covardemente por uma maioria inflamada, outras usando faixas de apoio a uma possível intervenção militar recebiam um silêncio aprovador. Tudo isto acontecendo com uma mídia repetindo exaustivamente a frase: “a manifestação é pacífica, com idosos e crianças e frases em defesa do juiz Sergio Moro”. Você que tem conhecimento histórico e que sempre se perguntou como algo do tipo aconteceu em 1964, não lembrou de nada?
Três dias depois, numa manobra de certa forma desesperada, a presidente Dilma colocou o ex-presidente Lula no cargo de ministro da Casa Civil, numa atitude que sem dúvida nenhuma pode ter moralidade questionada, mas cuja legalidade é indiscutível. A mídia começou a vender a ideia de que aquilo era sinal de impunidade, pois Lula sairia da alçada do “justiceiro da nação” Sérgio Moro. Começou a propagar a ideia de que ser julgado pelo Supremo seria sinal de impunidade, o mesmo Supremo que esta mesma mídia tratava como bastião da justiça no processo do mensalão e que muito provavelmente não terá com Lula nenhuma boa vontade. Pois bem, a massa já estava inflamada quando, aproximadamente às 18:00, as emissoras de televisão começaram a noticiar que o juiz Moro havia liberado grampos telefônicos do ex-presidente, sempre com manchetes do tipo “Grampo mostra Lula tentando obstruir a justiça”, “Lula chamada Supremo de covarde”, entre outras. A massa verde-e-amarela saiu revoltada pelas ruas das grandes capitais, exigindo a renúncia da presidenta e encontrando na FIESP, para quem é aqui de São Paulo, o ponto de encontro para sua raiva. Ao mesmo tempo, a mídia continuava transmitindo as gravações, sempre com uma narração dizendo o que você deveria entender dos quinze segundos editados que seriam transmitidos em seguida para, após isto, mostrar uma massa verde-e-amarela na frente do Congresso, como se fosse a tomada da Bastilha. Confesso que cheguei em casa e, assustado com o que tinha visto na rua, com gente berrando e buzinando, fui ouvir as gravações do juiz Moro inteiras e sem edição. Da primeira vez que ouvi achei estranho, pois não havia nada lá que me parecesse comprometedor. Enviei o áudio para uma amiga minha, que julgo ser consciente, eleitora do Aécio, e que estava revoltada, para saber se a minha preferência política não estava interferindo na minha compreensão. Ela enxergou da mesma forma que eu e passou a agir com mais serenidade sobre tudo que está acontecendo.
Buscou-se, a meu ver, criar-se uma situação de caos social que forçasse a renúncia da presidenta Dilma. A renúncia é a única forma de mudança de governo atual que represente alguma “legitimidade”, por mais que a mídia não trate o impeachment, na atual situação, como golpe político. Aí pergunto a vocês, qual o sentido de tudo aquilo? Qual o sentido de termos uma mídia editando um áudio daquela forma? Mais do que isto, qual o sentido de um juiz federal revelar desta forma um grampo telefônico? E qual o sentido da FIESP, naquele dia e naquela situação, mudar a sua iluminação que pedia impeachment para pedir renúncia?
O que vimos naquela noite foi um show de horrores. Notícias de pessoas sendo agredidas pelas ruas por causa da cor da roupa ou até mesmo da bicicleta se repetiam, enquanto a grande mídia insistia em chamar aquelas movimentações de “pacíficas”. A mesma mídia, que revoltada lançava como manchete que uma gravação em que Lula pedia a alguém que conversasse com a ministra Rosa Weber era um sinal claro de tentativa de influência na justiça, ficava em silêncio com as fotos de José Serra almoçando com o ministro Gilmar Mendes na quarta, mesmo ministro que bloquearia a posse de Lula como ministro dois dias depois.
Peço que você, leitor consciente, reflita seriamente sobre tudo que está acontecendo. E mais do que isto, questione o real interesse destes dois grupos, mídia e FIESP em combater a corrupção. A grande mídia que ficou em silêncio sepulcral sobre as obras da Copa do Mundo, por exemplo, e que lucrou horrores com a realização do Mundial. A mesma mídia que não questiona, no meio destes escândalos da Petrobrás, qual o sentido desta empresa que possui monopólio gastar tanto dinheiro em Publicidade. A FIESP, que nunca demonstrou nenhum apreço histórico pela democracia e por qualquer tipo de governo que realizasse algum tipo de distribuição de riquezas, cujo interesse é apenas econômico na manutenção de privilégios de uma classe. Pergunto mais, qual o sentido em incentivar a população a não se sentir representada pelos poderes executivo e legislativo, escolhidos democraticamente, mas sim representada pelo Poder Judiciário, único não escolhido pela população e que todos sabemos ser aristocrático e também corrompido.
Peço que você compare a situação atual a de 1964. Mesmo. Você será capaz de compreender que a única diferença entre as situações é a falta de vontade do exército em participar. Isto obriga os descontentes a criar alguma forma de derrubar este governo inventando algum mecanismo legal, e a mídia tem feito seu papel no convencimento de uma massa despolitizada. Cabe a nós, democratas, impedir que isto aconteça.
A corrupção é um problema muito sério em nosso país, desde sempre. Deve ser combatida de forma apartidária. Vivemos, porém, o momento de um conflito maior, entre democracia e autoritarismo. Regimes deste segundo tipo nunca foram bem sucedidos em combatê-la e todo nosso esforço neste momento deve ser para impedir que percamos todas as conquistas democráticas obtidas nos últimos 30 anos. Peço que você reflita sobre a seriedade que é a liberação ilegal de um grampo telefônico através da mídia e aceitação disso por parte significativa da população, disposta a passar por cima da lei para punir alguém. Mais do que isso, a transformação de um juiz que já se mostrou autoritário em herói da pátria e a forma acrítica como a mídia o trata.
O momento não é de divisão. É de união entre todos aqueles que respeitam a democracia, goste-se ou não da presidenta Dilma. A crise econômica é séria. Tenho vários amigos que perderam o emprego neste último ano e que estão com grande dificuldade em encontrar outro. Crises econômicas, porém, são passageiras. Em quatro ou cinco anos estaremos no rumo e em apenas dois teremos a chance de mudar a política econômica através da mudança de governo, de forma limpa e legítima. O autoritarismo, porém, não passa tão rápido. Na última vez em que a grande mídia e o empresariado se uniram para manipular a classe média e derrubar um governo democrático, precisamos de mais de 20 anos para retornar à democracia. Peço que você lembre as muitas vidas perdidas e multiladas neste período e na responsabilidade que temos de impedir que isto aconteça novamente.
Por último, peço àqueles que já se conscientizaram do que está acontecendo, contentes ou descontentes com o governo, que se manifestem. Há uma grande manifestação de “Bolsonetes” para constranger aqueles que defendem a democracia, chamando-os de “defensores de bandidos”. A manifestação dos conscientes neste momento é uma obrigação. Para que não convivamos com a culpa daqueles que perceberam o que estava acontecendo em 1964 ou em outros momentos históricos em que algo parecido ocorreu e optaram pelo silêncio. Cada ser politizado e consciente que fica em silêncio é uma vitória para aqueles que pretendem destruir nossa frágil democracia. Ficar em silêncio agora por opção pode fazer com que todos tenham que ficar em silêncio no futuro. Desta vez não mais por opção.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O adeus de um gigante, Lleyton Hewitt


O australiano Lleyton Hewitt fez hoje o seu último jogo como profissional. Despediu-se em casa contra o espanhol David Ferrer, na partida mais importante e emocionante do Aberto da Austrália deste ano. Hewitt era o último grande nome ainda em atividade de uma curta era deste esporte, aquela entre o fim do domínio de Pete Sampras e Andre Agassi e o início da ascensão de Roger Federer e Rafael Nadal (e posteriormente de Novak Djokovic).
Hewitt surgiu para o esporte ainda adolescente, no torneio de Adelaide em 1998, um preparativo para o Aberto da Austrália. Lá, antes mesmo de completar 17 anos, conquistou seu primeiro torneio profissional, gerando forte comoção e atenção na mídia australiana, que desde cedo percebeu o potencial do garoto. Chegou ao top 10 em 2000 e viveu o ápice em 2001, quando conquistou seu primeiro Grand Slam e substituiu Gustavo Kuerten como número um do mundo ao final da temporada. Muitos acreditavam estar assistindo ao surgimento de um dos maiores tenistas de todos os tempos quando Hewitt manteve seu domínio em 2002, vencendo Wimbledon e terminando novamente a temporada na primeira posição do ranking. Com a aposentadoria de Sampras e o declínio de Agassi, esperava-se naquele época que Hewitt e o americano Andy Roddick formassem uma nova dinastia do tênis, que duraria possivelmente uma década.
A partir de 2003, porém, surgiria uma nova estrela no esporte, o suíço Roger Federer, que jogaria toda a geração anterior numa espécie de ostracismo. Junto com Rafael Nadal, Federer jogou o nível do tênis em outro patamar que Lleyton Hewitt nunca conseguiria alcançar. O antes vitorioso australiano passou a conviver com vitórias esporádicas entre derrotas rotineiras. Acostumado com a ideia de que colecionaria Grand Slams e seria um dos, quem sabe, cinco maiores tenistas de todos os tempos, Hewitt ganhou seu último Grand Slam em 2002 aos 21 anos, tentando nos 14 anos restantes, em vão, alcançar o novo nível de jogo estabelecido por Federer e Nadal. Nenhum tenista vencedor de Slam jogou por tanto tempo depois de sua última conquista.
Até 2003, Hewitt era possivelmente um dos tenistas mais odiados do circuito. A sucessão de fracassos e seu esforço para continuar jogando mesmo assim, porém, mudaram sua imagem frente aos torcedores. Para pessoas como eu, que odiavam Hewitt na adolescência, ele passou a ser quase um símbolo de nostalgia de uma época de nossas vidas. Era como se as pessoas, acostumadas a vê-lo como o vilão que gritava Come On na cara dos adversários derrotados, passassem a enxergá-lo como o lutador que não desistia nunca frente a rivais superiores. Assistir Hewitt era como voltar no tempo. Com isto, Lleyton perdia partidas, mas sua persistência fez com que ganhasse a admiração que nunca teve dos fãs do esporte na época em que dominava o circuito.
O tênis neste curto período em que Hewitt brilhou, entre 2000 e 2003, estava longe de ter o nível de qualidade que possui hoje, mas era mais equilibrado e, de certa forma, mais divertido. Em quatro temporadas, seis tenistas foram número um no ranking: Andre Agassi, Marat Safin, Gustavo Kuerten, Lleyton Hewitt, Juan Carlos Ferrero e Andy Roddick. Para que se tenha uma ideia do equilíbrio que isto representava se compararmos com o que ocorre hoje, nas 12 temporadas seguintes, apenas três tenistas alcançaram este posto, Federer, Nadal e Djokovic. Com exceção de Andre Agassi, cujas glórias foram vividas quase todas nos anos 1990, os outros cinco tenistas entraram em decadência a partir da chegada de Federer e encerraram suas carreiras de forma até certo ponto discretas. Hewitt foi o último. Suas últimas temporadas, porém, não vão apagar seus feitos da juventude. Como dito, o fim de sua carreira marca o final de uma era no tênis que não foi tão brilhante como a atual. Mas que foi sem dúvida muito divertida. As conquistas e a personalidade do australiano serão inesquecíveis para os verdadeiros fãs do esporte.
Pedi a um amigo meu, torcedor fanático de Lleyton Hewitt, que me listasse as cinco maiores partidas do australiano. Juntei mais uma que acho que não poderia ficar fora.
1 ) Copa Davis 2003 – Semifinal – Hewitt 3x2 Federer (5-7, 2-6, 7-6, 7-5, 6-1)
Federer não era ainda o monstro que mudaria o esporte, mas já era o campeão de Wimbledon quando foi enfrentar Hewitt na semifinal da Davis na Austrália. Abriu rapidamente 2x0 no placar quando, numa reviravolta improvável, o australiano virou a partida de forma espetacular. Seria a última vez que Hewitt, a base de gritos, dominaria o suíço numa batalha mais mental do que física. O próprio Lleyton diz que esta foi a maior vitória de sua carreira.
2 ) US Open 2001 – Final – Hewitt 3x0 Sampras (7-6, 6-1, 6-1)
Pete Sampras já não era o tenista que dominou o Esporte nos anos 1990, mas ainda era capaz de chegar a uma final de Grand Slam. Apoiado pela torcida nova-iorquina, foi massacrado pelo jovem Hewitt na final, sofrendo possivelmente a derrota mais constrangedora de sua carreira. Hewitt era neste momento visto como o tenista que dominaria o esporte nos anos seguintes e poucos imaginavam que aquele seu primeiro Grand Slam seria apenas um de dois.
3 ) Copa Davis 2001 – Quartas de Final – Hewitt 3x0 Kuerten (7-6, 6-3, 7-6)
Gustavo Kuerten era número um do mundo e dominava como poucos a temporada de saibro quando o Brasil enfrentou a Austrália em Florianópolis em 2001. Os brasileiros prepararam uma quadra lentíssima, esperando que o talento de Guga no saibro os levasse à semifinal. Hewitt, porém, assombraria todos, chegando a uma performance inimaginável no saibro naquele final de semana. Jogando no tipo de piso que menos gostava, Hewitt dominou o rei do saibro da época, levando a Austrália à final daquele ano, em que seriam derrotados em casa de forma traumática para a França.
4 ) Aberto da Austrália 2008 – 3ª Rodada – Hewitt 3x2 Baghdatis (4-6, 7-5, 7-5, 6-7, 6-3)
Numa das últimas grandes atuações de Hewitt, ele bateu o favorito cipriota, finalista da competição em 2006, numa partida emocionante e que só terminou às 04:33 da manhã.
5 ) Masters Cup 2004 – Semifinal – Hewitt 2x0 Roddick (6-3, 6-2)
A grande rivalidade de Hewitt, sem dúvida, foi com o americano Andy Roddick. Em 2004, os dois já sofriam contra Roger Federer quando se enfrentaram na semifinal da Masters. Era contra Roddick que Hewitt usava com maestria sua capacidade de derrotar os adversários na batalha mental. Nesta partida, contra um dos maiores sacadores da história, Hewitt venceu os últimos 20 pontos, fazendo questão de gritar Come on na cara do adversário e da torcida americana em Houston ao final de cada um deles. Naquele dia, mais do que em qualquer outro, Hewitt demoliu um adversário emocionalmente.
6 ) Aberto da Austrália 2005 – Quarta Rodada – Hewitt 3x2 Nadal (7-5, 3-6, 1-6, 7-6(3), 6-2)
Rafael Nadal era um desconhecido de 17 anos quando enfrentou o ídolo local Hewitt no Aberto da Austrália em 2005. Poucos acreditaram quando o jovem espanhol abriu 2x1 e esteve perto de eliminar o australiano. Hewitt, porém, com uma persistência única e usando como nunca a torcida para desestabilizar o jovem adversário. Naquele ano, Lleyton chegaria pela única vez à final do Aberto da Austrália, sendo derrotado por Marat Safin em quatro sets.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A repressão policial e o MPL



As manifestações de junho 2013 começaram como pequenos protestos contra o aumento das passagens de transporte público organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo de R$ 3,00 para R$ 3,20. Continuaram pequenas até uma brutal repressão policial da PM paulista, que chocou a população da cidade. Lembro-me que esta manifestação duramente reprimida aconteceu numa quinta-feira e se marcou outra para segunda. Durante aquele fim de semana, nunca vi tanta gente se dispondo a participar de uma manifestação, não apenas contra o aumento da passagem, mas principalmente contra a repressão policial, como uma forma de defesa da liberdade de manifestação. O que se viu na semana seguinte foi a maior onda de protesto do país desde as Diretas Já, que se espalhou pelo país inteiro. O que aconteceu em seguida, creio eu, todos lembram. A principal consequência daquilo tudo foi um aumento significativo dos movimentos reacionários no país. Manifestações deixaram de ser mal vistas pela parcela da população mais direitista, que passaram também a tomar as ruas pedindo suas “mudanças”. Politicamente, o grande perdedor do movimento de 2013 foi o PT. Não nos esqueçamos que a hoje odiada presidente Dilma Roussef possuía 70% de aprovação antes daquele movimento, caindo para 30% na semana seguinte. Se o perdedor foi o PT, o vencedor foi o PSDB, claro, que foi visto como “mudança possível” por esta parcela direitista. Pensando nisso e considerando o cenário político instável da atualidade, a pergunta que fica é: A quem interessa repetir o que aconteceu em 2013?
Fernando Haddad talvez tenha sido o prefeito que mais implementou mudanças no transporte público de uma cidade na história do Brasil. Digo talvez porque tenho minhas dúvidas se ele foi mais importante do que Marta Suplicy em SP ou Jaime Lerner em Curitiba, mas isto no momento é o de menos. Em sua gestão, fez a implantação de inúmeros corredores de ônibus, garantiu gratuidade no transporte coletivo para estudantes e desempregados. Criou também o bilhete único mensal, que permite que um usuário pague um valor fixo mensalmente para uso irrestrito do transporte público neste período. No valor atual, uma pessoa que use dois transportes por dia, incluindo fim de semana, caso opte pelo bilhete mensal, terá gasto em um mês de 31 dias (período de validade do bilhete) R$ 2,26 por passagem. Caso o faça apenas em dias úteis de trabalho, terá gasto R$ 3,18, considerando um mês de 22 dias úteis. Nada disso, porém, importa para o MPL.
Como um piano de uma nota só, o MPL voltou às ruas tratando o aumento de 2016 da mesma forma como tratou a situação em 2013. Como um artista querendo reviver seus 15 minutos de fama, não se importa com a conjuntura política e social atual, muito menos com as possíveis consequências que suas novas manifestações podem trazer. O interesse maior é manter-se de alguma forma relevante. Nada faz tão bem para o ego do que criar um movimento que toma uma proporção nacional como aconteceu em 2013. Quem faz algo importante uma vez sonha em fazê-lo novamente. Os maiores prejudicados com o aumento para R$ 3,80, no cenário atual, foram as empresas que pagam vale transporte aos seus funcionários. Estudantes e desempregados, através da gratuidade, e trabalhadores sem vale transporte, através do bilhete único mensal, não foram prejudicados. Mas nada disso importa para o MPL, que enxerga nos gritos de R$ 3,80 a possibilidade de voltar a ter algum protagonismo.
Como em 2013, a Polícia Militar reprime barbaramente estes movimentos. Nesta semana, por exemplo, uma das passeatas foi reprimida antes de começar. Com qual interesse? Por que a PM repete em 2016 a mesma tática que culminou daquela forma em 2013? Voltamos à pergunta do primeiro parágrafo, quem foi o grande vencedor político do que aconteceu há 2 anos e meio?
O PSDB aposta no caos e não há mudança sem este, mesmo que seja uma mudança que não mude nada. Vivemos um momento político conturbado e trazer a população de volta às ruas, descontentes contra tudo e contra todos, pedindo melhorias nos serviços públicos e mudanças de todos os tipos, pode ser o que falta para garantir o impeachment de Dilma. Para que aquilo se repita, é necessário que o protesto do MPL tome as mesmas proporções que tomou em 2013. O MPL está fazendo a sua parte. A PM também.
Quem protesta contra tudo na verdade não está protestando por nada. Trazer a população de verde e amarelo para as ruas “obrigará” a classe política a apresentar alguma “mudança”. Nenhuma “mudança” seria mais agradável para esta massa verde e amarela do que a queda de Dilma. Completa-se assim o cenário de mudança pela continuidade.
O MPL, com sua sede de grandeza, é o instrumento perfeito para a manipulação. Não tiveram culpa, óbvio, do que aconteceu em 2013, ninguém poderia imaginar que aquilo poderia acontecer. Mas terão agora, em que sua sede de protagonismo o cegou sobre as enormes consequências que um movimento como aquele se repetisse. O PSDB aparece como manipulador perfeito, usando a PM para reprimir novamente protestos pequenos que podem incendiar o país. Mais do que isso, agindo dessa forma, Alckmin mantém sua popularidade, uma vez que seu eleitorado não se importa muito em ver jovens apanhando de policiais, e ainda prejudica ainda mais a imagem de Haddad, que nada pode fazer para conter esta repressão. Todo esperto precisa de um trouxa. O MPL se dispôs a ter este papel. É a esquerda disposta a implodir o governo de esquerda e favorecer o governo de direita.
Disse Marx que na história tudo acontece duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. O movimento de 2013 foi a tragédia, com o agrupamento e crescimento dos movimentos reacionários no Brasil. MPL e PM já estão cumprindo seus papéis para viver em 2016 a farsa. Só falta o agente final. Não são só 30 centavos...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

2015 / 2016 - A crise do brasileiro médio



2015 termina com a maior recessão econômica desde 1992, deixando um cenário nada animador para 2016. Crise política, econômica e uma sociedade rachada por um discurso muito mais próximo do ódio do que da união. O objetivo aqui é tratar esta crise não como algo momentâneo, mas como resultado de um modelo econômico expandido a partir de 1994, que acreditou que a melhora do nível do país estava quase que unicamente ligada à melhora no nível de consumo, sendo bem sucedido neste princípio raso durante 20 anos, mas que vive agora seu esgotamento. Não há nenhum interesse em desvalorizar as conquistas da estabilidade econômica obtida no governo tucano e, principalmente, dos avanços sociais obtidos na era petista. Pretende-se apenas mostrar como não se planejou um avanço na cidadania e como o lado consumidor sempre foi posto em primeiro plano.
O brasileiro médio é um consumidor voraz desprovido de autocrítica e de senso de reflexão. Sua principal motivação é a compra de produtos e serviços que, muito além de atender suas necessidades, possam servir para que ele se sinta e demonstre estar numa posição mais alta no conceito de estratificação social. Isto é verificado em certas situações insanas do ponto de vista lógico, como a troca do automóvel a cada 2 anos ou a compra de apartamentos cada vez menores e mais distantes, com prestações que duram uma vida, mas que se justificam na cabeça do comprador como qualidade de vida por ter uma piscina e uma academia. A grande vítima da crise de 2015, até o momento, é este brasileiro médio. Demitido por seu chefe na maioria das vezes incompetente, gestor em uma empresa gerida de forma ineficaz, terá que tirar seu filho da escola particular ruim em que o matriculou apenas pela segurança de tê-lo fora da escola pública, ficará 3 ou 4 anos com o mesmo carro e não sabe o que fazer com a prestação eterna de seu imóvel de 45 m² com varanda gourmet. Não possui a menor capacidade de enxergar-se como vítima de um modelo pouco sustentável de crescimento que engoliu a sociedade e seu único interesse é manter-se como ator passivo deste ciclo vicioso em que se sente vencedor ao realizar a tarefa de pagar as contas no dia 30.
Este brasileiro médio não se importa com a corrupção. Pode até fingir que está “indignado com a bandalheira”, mas só se sente incomodado mesmo quando percebe que ela não o beneficia. Não se sente culpado ao roubar TV a cabo, baixar aplicativos que o ensinem a fugir da lei seca, fazer download de filmes gratuitamente, falsificar carteiras de estudante ou comprar a carteira de motorista, entre outros. Não repreende o amigo que faz isso. Não se incomoda também com a corrupção na política, desde que isto não o atrapalhe na missão “sagrada” de pagar suas contas. Só lembra que a corrupção existe quando a economia vai mal e este é seu foco.
O Brasil é um país que funciona à base do jeitinho. PT e PSDB dividem o poder desde 1994, garantindo sua governabilidade através de alianças com o PMDB, obtidas através da distribuição de cargos e da criação de ministérios inúteis. Não deixa de ser irônico e simbólico que o período de maior estabilidade democrática da nossa história tenha se formado dessa forma e esteja em crise em parte graças à vontade do PMDB de ter mais. O brasileiro médio não se incomoda com isso. Sua única prioridade é manter a estabilidade do seu fetichista modelo carro – prestações – viagens à praia em feriados. A corrupção aparece como argumento nos momentos em que este brasileiro médio começa a achar que o governo não o está mais ajudando a consumir mais e que está mais difícil pagar suas contas. Não questiona a ineficácia do setor privado, pois isto seria de certa forma questionar a si mesmo e é fundamental colocar a culpa no “outro”, neste cenário representado pelo governo incapaz de continuar gerindo este modelo. Na sociedade brasileira, a corrupção é aquele mal que existe e se permite que exista, sendo usado como argumento fácil para criticar o governo de que não gostamos. Tucanos não se importam com o escândalo das privatizações e se chocam com o mensalão. Petistas vivem exatamente o inverso. No fundo não se importam com nenhum, apenas precisam de um argumento para criticar o governo que não gostam. O brasileiro médio age historicamente assim. Não se importava com a repressão e as história de tortura do governo Médici, pois achava que gozava das benesses do milagre econômico. A democracia só entrou na pauta quando a economia entrou em recessão, com a crise do petróleo fazendo desmoronar o projeto desenvolvimentista dos militares.
A era de ouro de consumo do brasileiro médio começou com o Plano Real, em 1994. A estabilização da economia foi o primeiro passo para o boom de consumo vivido especialmente nos anos 2000. Milhões de pessoas ascenderam a uma nova “classe C” e este fato foi muito mais propagado na mídia do que a verdadeira grande conquista do governo Lula, que foi o combate à miséria. Os dois governos, porém, foram incapazes de dar o passo mais importante, que era a expansão do conceito de cidadania no âmbito da educação de base. Não houve reversão no processo de desvalorização das ciências humanas, aquelas capazes de permitir o surgimento de uma sociedade mais pensante, autocrítica e reflexiva. Ampliou-se significativamente o número de vagas em universidades, mas se focando sempre apenas na geração de mão-de-obra em cursos como Administração e Marketing, de tal forma a agradar este brasileiro médio que enxerga também a educação como um produto a ser consumido.
O Brasil deveria aproveitar esta crise para debater este modelo econômico focado na ideia de consumo, em que o desenvolvimento social não é sustentado pela expansão da cidadania, e para questionar o funcionamento de seu modelo político à base da corrupção, um espelho da nossa sociedade aliás. Mas não o faz, porque seu cidadão médio não pensa, apenas age instintivamente pelo desejo de consumir mais. Tudo que ele quer é continuar comprando e pagando suas contas. O governo pode roubar, desde que não o atrapalhe neste ciclo vicioso de infelicidade e insignificância em que ninguém pensa. Não há um desejo coletivo real por uma sociedade melhor, apenas por um local em que se possa ser vítima da especulação imobiliário com mais tranquilidade.
2016 será um ano de alta tensão. Temos uma massa acéfala pronto para ser manipulada e com ódio, interessada no show midiático que se tornou o processo de impeachment. Ao incentivar um modelo de crescimento que enxerga o bem-estar social como algo fruto quase que única e exclusivamente do nível de consumo, o modelo tucano-petista estimulou uma sociedade cada vez mais individualista e supérflua, disposta a permitir a corrupção que o beneficie e revoltar-se com aquela que o deixa de fora quando o governo não agrada. O debate político se converteu num show de horrores, tratado como uma disputa entre torcidas. Não há um plano partidário de enfrentamento deste ciclo, o debate se concentra quase que exclusivamente em como fazê-lo voltar a funcionar, quando não há sustentabilidade a longo prazo para tal.
A primeira tentativa interessante de saída deste modelo tosco vem da prefeitura de SP. A gestão Haddad, voltada exclusivamente para o coletivo, foi abandonada por parte do PT, que o enxerga como responsável pela impopularidade do partido na cidade, quando a verdade está na recíproca. Enfrenta forte rejeição da torcida que se pinta de verde e amarelo para sair às ruas, o que é uma prova da incapacidade desta massa de enxergar a causa real dos seus problemas. Nada seria mais simbólico do que vê-lo perder para Celso Russomano, o defensor dos consumidores. O brasileiro médio não quer combater a corrupção. Também não quer saúde e educação. Só quer comprar cada vez mais. E pagar suas contas. Se possível, pegando menos trânsito.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Origens do totalitarismo


          

O título deste post é igual ao título de um livro clássico escrito pela filósofa judia alemã Hannah Arendt. Nele, a autora busca explicar como as pessoas se subjugaram à ideologia nazista e aceitaram passivamente os horrores de uma dominação totalitária. O totalitarismo, diz ela, não é fruto do acaso e sim resultado de anos de preparação ideológica, naquilo que o jornalista Paul Gourevitch, em sua obra sobre o genocídio de Ruanda dos anos 1990, chamou de ódio silencioso. Um processo histórico de rejeição aparentemente inofensiva criou um ambiente que permitiu que judeus perdessem gradativamente seus direitos de cidadania, chegando-se a um ponto em que a população geral estivesse preparada para aceitar um líder totalitário que conduzisse um genocídio contra o inimigo odiado por séculos. Todo regime totalitário é dependente do ódio, nenhum sentimento é mais facilmente usado para manipulação de massas.
Chico Buarque foi abordado num restaurante esta semana no Rio de Janeiro por um grupo de pessoas capitaneado por Álvaro Garnero Filho, que como o nome diz é filho do empresário apresentador de programas de viagem, e o rapper Tulio Dek, desconhecido musicalmente, mas famosinho no mundo das pseudo-celebridades por ter namorado a atriz global Cléo Pires. Os 3 não se conheciam, muito provavelmente nunca tinham se encontrado. Mas Garnero e Dek estavam com raiva de Chico. O motivo, suas ideologias políticas e seu apoio ao governo Dilma. A turma de Garnero foi tirar satisfação com o cantor com expressões como “você apoia bandidos”, “seu merda” e, finalmente, com “vai fugir Chico” no momento em que este chamou um táxi. A turma se sentiu não apenas no direito de incomodar uma pessoa que desconheciam questionando suas opiniões políticas como achavam que ele era obrigado a participar deste debate, “fugindo” do confronto.
Pessoas como Garnero não debatem conceitos, como ficou provado neste curto diálogo. Repetem frases feitas e xingamentos, questionando o estilo de vida de Chico Buarque, como se o fato dele defender melhor distribuição de renda, por exemplo, fosse um voto de pobreza. Não há espaço para reflexão e ideias, apenas para um ódio que neste caso se disfarça de ativismo político.
Nada é mais perigoso historicamente do que uma massa movida pelo ódio. Mais do que isso, um grupo de pessoas movido por este ódio e que é bajulado por tal. É assustador o número de pessoas que concorda com a ação de Garnero e a incentiva. As pessoas que praticam este tipo de ação são tratadas como justiceiras pelos que pensam iguais, aqueles que foram lá ‘ “disseram umas verdades”. Não há uma ação concreta da opinião pública condenando este tipo de atitude. As pessoas postam “Dilma, sua vaca” em redes sociais sem medo de nenhum tipo de punição e recebendo curtidas estimulantes de iguais. São as mesmas pessoas que reclamam, aliás, que o Brasil precisa de mais educação, sem entender o óbvio paradoxo entre o pedido feito e o tipo de xingamento que realizam.
Os opositores do atual governo foram às ruas e escolheram o verde e o amarelo como cores da sua indignação. Ao realizar esta escolha, colocaram-se como defensores da pátria e puseram todos os que estão do outro lado como inimigos do país. Simbolicamente é como se estivessem preparados para a guerra. O primeiro passo já foi dado, aborda-se e se incomoda uma pessoa que nada te fez de concreto apenas porque ela pensa diferente. Há o xingamento e o argumento típico de gente que quer brigar. “Vai fugir”?
A meu ver, o cenário totalitário já está assustadoramente preparado no Brasil. Há uma parcela significativa de pessoas movidas pelo ódio e com pouca capacidade de reflexão, movidas por um sentimento de pseudo-injustiça inflado por um empresariado bajulador, que critica impostos e aplaude subsídios. Pessoas com pouco conhecimento, mas que se julgam inteligentes e portadoras da noção do que são o bem contra o mal, não enxergando mais o rival como opositor, e sim como inimigo. Parte do projeto para afastar o atual governo democraticamente eleito do poder passa pela manipulação deste tipo de pessoa, que discerne bem e mal não por conceitos morais, mas pela vontade pessoal. O suposto moralismo disfarçado pelo discurso contra a corrupção logo é derrubado por atitudes como a praticadas contra Chico. Alvaro Garnero Filho acha que Buarque apoia um governo bandido. Quer fazer “justiça”. Qual o próximo passo? Hannah Arendt já nos contou.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A picaretagem de José Serra

 

No domingo 29/11 o senador José Serra publicou a foto acima da Avenida Paulista fechada para carros com o seguinte texto:
“Infelizes são os paulistanos! Dilma na presidência e Haddad na prefeitura. Vocês sabiam que os níveis de despreparo para governar de ambos se equivalem? Somos infelizes ao quadrado!
Hoje, domingo, fui visitar um amigo que mora perto da Avenida Paulista. A avenida foi fechada pelo prefeito, para lazer. E fica vazia, obviamente. No entorno dela, congestionamentos monumentais. Na ida, demorei meia hora para cruzar a Paulista. Na volta, mais quarenta minutos para sair do engarrafamento. Pensando bem a comparação com Haddad é injusta para Dilma.”
O texto é de uma picaretagem ímpar e mostra o quanto a má fé de um político pode jogar o nível de um debate lá embaixo.
Choveu muito em São Paulo neste dia. Muito. Caiu o mundo. E José Serra sabe disso. Diz estava visitando um amigo na região no dia e reclamou do trânsito. Podia ter ido de metrô, seria mais rápido. Mas independente disso, ele viu o que estava acontecendo na cidade e sabia o motivo da Paulista estar vazia. O Parque do Ibirapuera provavelmente estava vazio também. O senado quis usar isto para obter ganhos políticos. Não digo apenas que ele beirou o ridicularidade com este post, ele foi ridículo.
Tenho um grande respeito pela história José Serra. Vítima de duas ditaduras, construiu uma carreira política sólida. No seu período como ministro da Saúde, implementou o projeto dos genéricos que deveria ter a sua importância mais reconhecida do que é. O próprio PSDB não toca neste assunto, por algum motivo nunca vi Aécio falando sobre isto na eleição do ano passado. A quebra das patentes e a distribuição de remédios para os portadores de HIV foi elogiada em todo o mundo. Como governador de SP, adotou no metrô um projeto que havia sido implantado com sucesso pela prefeitura petista na capital, o bilhete único. Mostrava-se acima de picuinhas partidárias.  Este Serra, no entanto, parece não existir mais. O que existe é uma figura triste, disposta a usar qualquer tipo de picaretagem intelectual para ferir adversários políticos.

Fui à Paulista algumas vezes desde que começou este projeto e o que encontro é a apropriação daquele terreno por todo tipo de pessoa querendo se divertir. O espaço dos carros se transformou, num dia por semana, em local de entretenimento. São Paulo precisa de lazer e qualidade de vida. Qualquer pessoa tem liberdade para ser contrária a este projeto. Mas se o for, que o faça de jeito sério. Com este post, duvido que o senador Serra tenha ganho algum voto. O que fez foi prejudicar o debate sobre o assunto e manchar sua biografia. No próximo domingo, se for visitar de novo seu amigo, deveria ir de transporte público naquela região, é bem mais rápido. E se não estiver caindo o mundo como ontem, poderia passar na Paulista. Verá algo assim.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O PSEUDO INTELECTUAL PATRIOTA.


Temos várias pessoas no Brasil que sentem a necessidade de parecer que pensam fora da caixa, que têm uma visão única do mundo e que suas posições sobre diversos assuntos são revolucionárias e capazes de abrir a mente dos outros. Eu chamo de pseudo intelectuais. Dependendo da sua opinião eu serei um pseudo intelectual no final desse texto. Tudo bem, pode ser até verdade.

A última enxurrada de opiniões é sobre qual tragédia chorar. Estamos discutindo se é mais válido se entristecer por uma tragédia na França ou uma tragédia aqui em Minas Gerais. Vejo publicações nas redes sociais condenando a forma com que os brasileiros estão tratando a o ataque terrorista, colocando fotos de perfil com as cores da bandeira francesa ou compartilhando a súplica “pray for Paris”.
Os que questionaram o fato de que os outros estão mais preocupados com os franceses do que com os brasileiros não estão dando nenhuma aula de solidariedade e, muito menos, de amor ao próximo. Quantificar atrocidades é banalizar a morte e os supostos pensadores desse tipo de doutrina se colocam em um pedestal intelectual e social em que certamente não estão.

Comparar a tragédia de Paris com os atentados na Síria faz total sentido, por exemplo. Senti essa necessidade de "medir tragédias" quando analisei a cobertura da imprensa internacional sobre o atentado ao Charlie Hebdo e as atrocidades provocadas pelo Boko Haram na cidade de Baga (Nigéria), sendo que neste último a Anistia Internacional contabiliza em torno de 2 mil mortos. A diferença é que neste caso a revolta era mais com a imprensa do que com a população em geral.

O rompimento da barragem em Minas Gerais foi resultado de má gestão e negligência. Não existiu uma pessoa que propositalmente explodiu a barragem para prejudicar a cidade e seus habitantes. Foi um acidente em que 11 pessoas morreram de forma estúpida e a evitável, uma cidade foi destruída e milhares de famílias ficaram desabrigadas. A fauna e a flora da região levarão décadas para serem reconstruídas. Lamentável.

A comoção em torno do caso de Paris está baseada na clara vontade de um ser humano tirar a vida de outro. É a comprovação da falha da vida em sociedade, é a total descrença em um mundo melhor, pacífico ou tolerável. Atentados terroristas não devem ser comparados com acidentes nunca. O que os idiotas patriotas devem entender é que a divisão territorial é apenas uma linha imaginaria entre os países, que não importa se a tragédia é Mariana, em Paris ou em Baga, o que importa é que são vidas humanas desperdiçadas e SEMPRE um ato terrorista será mais grave que um acidente, pois o terrorismo poda a nossa esperança. O terror nos machuca física, mental e moralmente, abre feridas e mágoas que não curam.
Nem sempre pensar significa estar no lado oposto ao da maioria. Costumo dizer que nada é pior que o novo religioso e o novo ateu, já que os 2 acreditam que acabaram de descobrir uma verdade que os imbecis não enxergam. A necessidade de se expressar a qualquer custo faz com que as pessoas pensem de forma simplória e imediatista.

Ouvi nos últimos três dias todos os tipos de opiniões sem sentido que se possa imaginar. Há os que multiplicaram por 40 o número de mortos em Mariana apenas para basear sua tese ridícula. Outros se manifestaram com frases como: “Tanto valor para um país que nem conhecem”, “200 pessoas na boate Kiss e eu não vi ninguém em Paris chorando”. Tem gente fazendo relação dos refugiados sírios com o atentado.
Matar pessoas, seja lá quantas forem, com o objetivo de impor e calar é um crime contra a humanidade e a liberdade, não contra um parisiense.

Chore por Paris, chore por Baga, chore por Mariana. Esqueça as linhas do mapa.



Abaixo alguns tipos de absurdos vergonhosamente publicados:




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Nizan Guanaes e o fracasso do empresariado nacional



Nizan Guanaes possui uma coluna na Folha de São Paulo. Quem acompanha o blog sabe que ela já foi assunto num texto anterior. Esta coluna é baseada em textos otimistas e autobajuladores, típicos de um publicitário. Guanaes usa técnicas de venda e não há nenhum espaço para reflexão. Sua última coluna é essa http://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2015/11/1704220-atacar-os-problemas.shtml#_=_ e o autor tenta apresentar o capitalismo como salvação para os problemas nacionais, assumindo o empresariado o papel de salvador e o governo o papel de vilão neste teatro inventado.
O empresariado brasileiro é, em geral, incompetente. Digo em geral porque é óbvio que neste mar de mediocridade que impera em nosso empresariado há pessoas capazes. Mas, em geral, é composto por pessoas incompetentes. Neste texto farei esta generalização tendo isto em mente.
 O principal motivo, a meu ver, do mau estado de boa parte das empresas nacionais não está no governo e sim na má gestão delas. Nosso empresariado é individualista, mimado, arrogante e completamente incapaz de realizar qualquer tipo de autocrítica. Mais do que isto, tenta inventar falácias intelectuais em que seus interesses de classe se tornam interesses nacionais, devendo ser defendidos mesmo por aqueles que não fazem parte da mesma camada social. Guanaes, por exemplo, ataca as nossas leis trabalhistas, “enraizadas nos anos 30, que dificultam a criação de empregos”. Na linguagem do autor, a principal função do empresário é criar empregos e esta é a hipocrisia empresarial que mais me incomoda. A principal meta do empresário é ganhar dinheiro e não há nada de errado nisso. O erro está em vender a ideia de que a finalidade é criar empregos, quando na verdade é o lucro. Se uma pessoa como Guanaes puder trocar 10 empregados por uma máquina para manter seu bônus anual o fará, sem pensar nas consequências.
Um exemplo claro da má gestão das empresas brasileiras é o estados das companhias aéreas. Nossas passagens são caras e o serviço costuma ser muito ruim, mas mesmo assim os aviões estão quase sempre lotados. Elas recebem milhões em incentivos governamentais e, mesmo assim, estão quase quebradas. Outro exemplo é nossa indústria automobilística. Nossas cidades têm um trânsito infernal e mesmo assim esta indústria recebia milhões em subsídios para entupir ainda mais nossas capitais de veículos. Este lucro irreal ia em boa parte para os bônus dos gestores destas companhias que, a partir do momento em que deixaram de receber estes subsídios, passaram a demitir. Não há pensamento no longo prazo, o que se quer é garantir o bônus do final de ano.
Guanaes e o empresariado adotam uma retórica que eu já critiquei em um texto anterior, que é a de que o trabalhador deve ser grato ao patrão que lhe dá a chance de trabalhar, conceito que existe, a meu ver, como resquício do período de escravidão. A frase mais forte do texto de Guanaes, a meu ver, é “Quem constrói uma empresa constrói empregos e riqueza. Quem constrói uma empresa constrói um país.” Guanaes está errado. A única coisa capaz de gerar riqueza é o trabalho, sendo o trabalhador responsável pela geração da própria riqueza e de um adicional que será repassado ao seu patrão. Sendo assim, a riqueza do trabalhador é fruto do seu próprio esforço, enquanto a riqueza do patrão é resultado do esforço de outras pessoas. A lógica seria que o patrão tivesse gratidão pelo trabalhador, e não o inverso. Mas a lógica está corrompida, em parte pelo trabalho de fraude intelectual cometido pelo empresariado e comprado por um grande número de trabalhadores oprimidos que sonham em assumir o papel de opressores.
Nosso empresariado, especialmente os que compõem este grupo e são da minha geração, possui pouca cultura. São pessoas com poucas experiências de vida, formadas principalmente em viagens inúteis sustentadas pelos pais na juventude e em cursos de MBA pouco produtivos. São acostumados apenas à bajulação e não entendem que é no confronto de ideias que está a raiz para o conhecimento. Não querem aprender nada, querem apenas ensinar, mesmo não tendo muito o que dizer. Tente um dia ter uma conversa com um pouco mais de conteúdo com um deles e você verá o que acontece.
Este grupo é incapaz de realizar qualquer tipo de autocrítica e encontrou no governo o bode expiatório perfeito para todas as suas desgraças. A culpa nunca é sua, é sempre de alguém, este é o lema. Vejo CEOs de empresas bancadas pelo BNDES e que têm estatais como grandes clientes pregando um liberalismo em que o governo deve apenas dar subsídios, sem cobrar impostos. Nunca veremos, por exemplo, uma pessoa como Guanaes criticando os gastos milionários da Petrobrás em publicidade e questionando qual o sentido de uma estatal monopolista gastar tanta verba nisso.
O plano para transformar o governo em inimigo e o empresariado em salvação está dando certo. Vejo cada vez mais pessoas de classe média usando o adesivo de um pato amarelo e dizendo que não aguentam mais pagar impostos. Vejo estas mesmas pessoas financiando apartamentos minúsculos usando um banco estatal e sendo maltratadas diariamente por um chefe arrogante, mas mesmo assim acham que a salvação do país está neste e não naquele. 
A valorização do individualismo e da meritocracia faz parte deste processo de idolatria ao empresariado. Você deve supervalorizar qualquer conquista medíocre obtida e se sentir uma pessoa especial por qualquer motivo. A meritocracia nos ensina que temos o que merecemos, que quem tem mais merece mais e quem tem menos merece menos. Assim sendo, o empresário é rico porquê "merece" e tudo é fruto apenas de um esforço pessoal, não tendo importância alguma tudo o que veio antes de nós. Mas duvido que muitos empresários tenham estudado sociologia. Mais uma inversão da lógica, uma vez que numa sociedade capitalista a sua importância está na quantidade de dinheiro que você faz girar, e não na sua importância. Ou alguém discute que qualquer professor tem uma importância social muito maior do que um publicitário como Guanaes? A meritocracia faria sentido se estivesse relacionada à importância social da pessoa, mas não está.
A crise brasileira é uma crise de modelo. A ideia de que o bem-estar está unicamente ligado ao consumo deveria ser questionada. Discutimos muito o PIB e quase nada o IDH. Mas não é o que acha Guanaes. Ele acha que precisamos de mais capitalismo. O exemplo grego em seu texto mostra que para ele só há uma solução para esta crise. Aprofundá-la. Assusta-me o número de pessoas que concordam com isso. 
No mês passado a agência África de Guanaes se envolveu numa polêmica. Uma foto de toda sua equipe mostrava apenas pessoas brancas e muitos questionaram o fato de uma empresa com este nome só ter funcionários brancos. Guanaes e o empresariado brasileiro querem ensinar o país a melhorar. Deveriam começar olhando um pouco para as próprias empresas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A desigualdade racial no Brasil



A primeira etapa para a solução de um problema é o seu diagnostico. Alexandre Garcia num edital do Bom Dia Brasil há uma ou duas semanas negou a existência do racismo no Brasil até a criação das cotas raciais em universidades. Segundo ele, foram estas cotas criaram a divisão racial no Brasil. Desta forma, em sua visão, o problema não existia, é recente. Boa parte do seu público provavelmente acreditou. Numa sociedade em que a reflexão perde para o impulso e o texto foi subjugado pelo poder da imagem, não existe tempo para pensar. Precisa-se de alguém que faça isso pela maioria inerte e Alexandre Garcia cumpre este papel. Assume a posição de especialista que diz o que se deve pensar e concluir sobre um assunto. Não há espaço para debate em uma sociedade com pressa na realização de atividades inócuas e medrosa.
Sou um típico brasileiro branco de classe média, cercado em boa parte de pessoas brancas de classe média com típicos empregos de classe média. Boa parte delas são incapazes de enxergar que quase todos os seus colegas são brancos, que quase todos os seus chefes são brancos, que quase todos os restaurantes que frequentam só possuem pessoas brancas, assim como shoppings, casas noturnas, bares etc. E boa parte acredita que não há racismo no Brasil. E boa parte acredita na meritocracia. Em que momento perdeu-se a capacidade de pensar e de enxergar com o mínimo de reflexão o mundo que cerca?
O individualismo nos cega. O conceito propagado de meritocracia faz com que supervalorizamos qualquer conquista medíocre obtida e que achemos que ela é apenas fruto de algo conceituado como esforço pessoal. A falta de estudo de sociologia nas escolas na minha geração ajudou a criar uma geração egoísta que é incapaz de enxergar que somos frutos não apenas de nossas ações individuais, mas de tudo que aconteceu no nosso passado. Há todo um aparato intelectualmente fraudulento disposto a tornar o indivíduo cada vez mais arrogante e mesquinho. Para este tipo de indivíduo, basta um exemplo de sucesso (quase sempre o Pelé) para desqualificar qualquer tentativa séria de abordagem deste assunto. Não há choque com a violência causada pela desigualdade, o maior esforço é em negá-la, na maioria das vezes desqualificando a relação entre pobreza e cor da pele.
A escravidão foi o maior e mais importante crime já cometido no Brasil. Suas raízes permanecem vivas até hoje, 127 anos após o seu fim. Gerou uma desigualdade óbvia, mas “invisível” diante de uma geração incapaz de pensar observando o que está a sua volta. O primeiro passo para enfrentarmos esta questão é a aceitação que ela existe. Isto exige reflexão e noção de que há algo mais importante do que o próprio umbigo.
Tratar os desiguais de forma igual aumenta a desigualdade. Isto é um princípio jurídico e econômico. A população negra sofreu um crime perpetrado por um modelo econômico de séculos passados do qual fez parte o Estado brasileiro. Nenhum brasileiro vivo tem hoje alguma culpa por aquilo. Mas somos todos culpados se continuarmos incapazes de enxergar as consequências deste crime na nossa sociedade atual e se nada fizermos para consertá-la. O primeiro passo é o diagnóstico do que vemos e não notamos. A cumplicidade silenciosa também é criminosa, fruto da forma banal como enxergamos as injustiças à nossa volta.
As cotas raciais são o começo da solução e vem obtendo sucesso apesar de todo o aparato criado para desqualificá-las. Ver universidades brasileiras se diversificando é um início de alento para quem se sente agredido com esta situação. Se você acredita no que disse Alexandre Garcia, compre um livro de história do Brasil. E se acredita na propagada democracia racial brasileira, veja a foto que dá início ao texto. É do jogo entre Brasil e Colômbia nas quartas-de-final da copa de 2014 em Fortaleza. Segundo o IBGE, 76% da população desta cidade é negra. Para quem é capaz de enxergar o óbvio, esta foto diz tudo. Quem não é, faz parte do grande problema, o racismo silencioso de todos os dias.