quinta-feira, 5 de julho de 2018

O racismo do youtuber e a marca humana



Toda vez que ocorre um escândalo com um destes youtubers, eu descubro que estou ficando velho. Nunca ouvi falar de nenhum. Para falar a verdade, não sei nem muito bem o que eles fazem. Posso estar errado, mas a impressão que tenho é que eles fazem vídeos meios sobre qualquer coisa que, por algum motivo que desconheço, fazem sucesso. Júlio Cocielo é um deles. Depois do seu escândalo de racismo, ele atingiu a minha bolha. Fui assistir algum vídeo dele, consegui por um minuto. Ele tinha (acho que tem ainda) um trilhão de visualizadores e patrocínios de marcas gigantescas, tipo Coca-Cola e McDonalds. Vi outros tweets dele e, aparentemente, ele é uma pessoa muito escrota. Faz anos que ele é racista, e ninguém, acho, falava nada.
Na semana passada, terminei de ler A Marca Humana, de Philip Roth. Trata-se, a meu ver, de uma das melhores obras sobre o impacto do racismo na sociedade americana. Conta a história de Coleman Silk, renomado professor universitário de letras clássicas que vê a carreira entrar em colapso após uma acusação de racismo. Durante uma aula, ele usa o termo “spooks” para se referir a um aluno que não comparece com frequência às aulas. “Spooks”, descobri no livro, era um termo utilizado nos anos 60 como gíria para fantasma, mas que, no mesmo período, ganhou uma conotação racista no Sul dos EUA. Negando que tenha usado o termo com esta conotação, uma vez que não sabia a cor da pele do aluno que não aparecia nas aulas, Coleman é afastado da faculdade e vê sua esposa ter um ataque cardíaco e morrer durante o processo de expulsão. Envolve-se, então, com uma faxineira analfabeta da mesma universidade, causando um novo escândalo no meio universitário e perdendo o contato com os filhos. Um pouco antes da metade do livro, descobrimos que Coleman possui um segredo. Ele é negro. Com a pele mais clara do que o restante da família, resolve se definir como branco num formulário para ingresso na Marinha (à época ainda não integrada) e mantêm este segredo até o final da vida. No final do livro, quando uma irmã dele aparece para seu funeral (Ernestine), ficamos sabendo que a prática era comum entre pessoas negras de pele mais clara nos EUA antes do movimento pelos direitos civis. Perguntada pelo autor sobre qual o julgamento que ela faz da atitude do irmão, Ernestine diz que não era o momento de julgar. Uma personagem muito importante do livro é Delphine Roux, professora jovem cuja ação é fundamental no processo de expulsão de Coleman da universidade. Em um dado momento, esta professora começa a enviar cartas anônimas para Coleman o ameaçando em decorrência do relacionamento dele com a faxineira. Mais para a frente, Delphine, a jovem liberal, decide enviar uma carta para um jornal em busca de um namorado e tenta encontrar algum jeito de deixar claro de forma implícita que está procurando alguém branco. Como as marcas que hoje se afastam do youtuber, Delphine só combate o racismo quando isto é de alguma forma útil para sua carreira. O afastamento de Coleman foi fundamental para sua ascensão na universidade.

O youtuber Julio é racista e somos uma sociedade de Delphines. Somos expostos diariamente a situações racistas e nada fazemos. O racismo silencioso. A atual novela das oito se passa na Bahia, onde 80% da população é negra. Na novela, quase todos os atores são brancos. Em quase todos os bares que vou, os clientes são brancos e os atendentes são negros. Nos lugares em que trabalhei, a maioria absoluta dos funcionários eram brancos, ao mesmo tempo em que a inscrição na parede de uma delas era “valorizamos a diversidade”. Quase toda vez que eu tentava abordar este assunto com meus colegas de trabalho brancos, eu era rechaçado. “Estava viajando.” Na minha turma de faculdade (pré-cotas), se não me engano, havia um aluno negro, numa turma de noventa. A maioria absoluta dos meus colegas brancos é contra as cotas. Costumam usar o exemplo deste um colega negro para dizer que “é possível”.
Brancos em geral adoram o exemplo do “um negro que consegue” para justificar a ausência de políticas que diminuam a gigantesca e visível desigualdade racial no país. O sucesso de Fernando Holiday entre eleitores brancos reacionários está aí para provar isto. De certa forma, tentam naturalizar o fato de que uma pessoa deve se esforçar mais do que a outra para conseguir a mesma coisa. Um negro dizendo que racismo é “frescura” é fundamental para justificar a situação triste que vivemos e serve como um bom argumento de autoridade para quem defende a sua manutenção.
Várias personalidades já apareceram para defender o youtuber Júlio do que chamam de “linchamento”. Danilo Gentili e Rafinha Bastos são dois exemplos. Racismo é um crime inafiançável segundo nossa Constituição. A lei não pegou. O brasileiro em geral não reconhece o racismo como crime. “É uma brincadeira”. Ninguém pede prisão para William Waack. O máximo que acontece com pessoas que cometem este tipo de crime é perder emprego ou patrocinadores. A emissora que demitiu Waack é a mesma, aliás, que faz uma novela na Bahia com atores negros. E que possui atualmente apenas um apresentador negro em toda sua programação atual. Alexandre Garcia, um dos poucos jornalistas que, como Waack tinha, tem liberdade quase total de opinar nos telejornais da Globo, disse durante o ocaso do governo Dilma que a gestão petista havia “inventado” o conceito de raça no Brasil, através do sistema de cotas. Disse isto sobre um país que por mais de 300 anos conviveu diretamente com a escravidão. Não houve nenhuma retratação oficial da emissora. O sistema de cotas que permite que as universidades sejam hoje, felizmente, lugares muito mais diversos do que aquelas da época em que estudei.
Raças não existem biologicamente. Mas existem historicamente. A desigualdade racial no Brasil é gritante e visível. Para combatê-la, é fundamental que a parcela branca da população enxergue os privilégios históricos decorrentes de sua cor de pele. É necessário abrir os olhos e ser capaz de enxergar minimamente a sociedade que nos cerca. É fundamental que a sociedade esteja a disposta a corrigir no presente os erros do passado. Uma sociedade que não o faz, apenas perpetua seus erros. Para que isto ocorra, precisamos combater com força não apenas Júlio Cocielo, mas também Alexandre Garcia. Exigir que o crime inafiançável seja tratado como crime inafiançável. E nos esforçarmos para não sermos como Delphine Roux.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Doria, Datena e o triunfo da mediocridade



Doria e Datena se uniram. Concorrendo ao governo do Estado, o publicitário lobista “não-político” precisava encontrar um tema para sua campanha e, buscando repetir seu sucesso da campanha anterior à Prefeitura, precisava fazer isto sem apresentar uma proposta real. Fez isto chamando para a chapa como candidato a senador o apresentador sanguinário recém filiado ao DEM, aquele que repete sensos comuns em programas violentos vespertinos, mantendo pessoas assustadas entre propagandas de seguradoras de carro e planos de saúde.
Como um jovem empreendedor que já fracassou em quatro empresas que abriu com o dinheiro do pai, João Doria Jr. fracassou em quase tudo que fez na vida. Vendido como “publicitário de sucesso”, não consegui encontrar pesquisando nenhuma propaganda importante ou inesquecível que tenha sido feita por ele. Tentou ser apresentador de TV, primeiro em um programa de entrevistas em que nunca saía do traço de audiência. Em seguida, substituindo Roberto Justus no “Aprendiz”, conduzindo as edições menos assistidas do programa. Conseguiu entrar na política através de uma empresa chamada “Lide” que ninguém sabe ao certo do que faz. Aparentemente se trata de uma empresa de lobby, cuja função é juntar políticos de todos os partidos, em sua maioria tucanos, com empresários do setor privado, facilitando assim a realização de “negócios”. Adotando um discurso anti participação estatal, a Lide fundou uma revista, que sobrevive graças à imunidade fiscal do papel utilizado para imprimi-la e de propagandas de governos tucanos espalhadas entre uma matéria de empreendedorismo e outra. Sua primeira tentativa de obter algum protagonismo na política veio no começo da gestão Dilma, com um movimento chamado “Cansei”. Tratava-se de um grupo formado por empresários e celebridades que tentava, já naquela época, criar um movimento político semelhante ao que viria a ser o MBL a partir de 2014. Após o impeachment da petista, Doria alcançaria aquele que seria possivelmente o seu primeiro sucesso real na vida. Em uma eleição marcada pela mediocridade, numa sociedade dividida pelo ódio, Doria se destacou. Comprou a vaga pelo PSDB paulista, pagando as dívidas de campanha que Alckmin havia deixado na eleição anterior, e fez uma campanha inegavelmente bem-sucedida. Sem apresentar qualquer coisa que se parecesse com um programa de governo, sem propostas sobre transporte público, segurança e educação, tendo basicamente uma proposta de curto prazo sobre saúde (o já esquecido Corujão da Saúde) e prometendo privatizar tudo que possível, foi eleito em primeiro turno. Sua gestão, como tudo que havia feito antes desta campanha, foi um fracasso. A ausência de projetos resultou em ausência de realizações e sua popularidade começou a despencar após o primeiro semestre. Com aquela esperteza típica de quem passa a vida inteira enganando, Doria soube sair da Prefeitura o mais rápido possível para fazer aquilo que aparentemente é a única coisa que sabe realmente fazer, campanha política para si mesmo. Tentou (e tenta até agora) passar a perna em Alckmin e ser candidato a presidente. Voltou a fracassar e lhe sobrou o Estado.
O tucano tentará repetir em 2018 as receitas do sucesso de dois anos antes. Buscará o discurso o mais vazio possível, evitará tocar em assuntos importantes e qualquer proposta mais complexa. O caminho para a vitória está em tornar a campanha o mais medíocre possível. Para isto, nada mais simbólico do que trazer para a campanha um nome como José Luiz Datena. Este, ao contrário de Doria, é inegavelmente bem-sucedido na área televisiva. Ex-repórter esportivo, alcançou grande êxito com a fórmula do medo. Ninguém soube como ele manter uma população assustada em frente à televisão em horários vespertinos, sempre vendendo porcarias entre uma notícia do mundo cão e outra. Poucas coisas mantêm um consumidor mais propenso a comprar do que o medo. A televisão aprendeu desenvolveu isto, tendo Datena como um dos seus mais importantes vendedores. Destacou-se também com um discurso “anti-poder”, ao mesmo tempo em que puxava o saco de quase todos os políticos que estavam no poder. Um dos seus slogans é que a tragédia é a “vida real”.
Pois bem, a “vida real” propagada por Datena será provavelmente o tema da eleição estadual. Trazendo o apresentador para sua chapa, Doria ganha espaço no tema de segurança pública da forma como sabe, sem apresentar proposta. Candidato pelo partido que assistiu a criação da maior organização criminosa do país em seus presídios, Doria desfilará pelo estado com Datena repetindo as frases do apresentador sobre o assunto. Provavelmente levará com eles Coronel Telhada, ícone da política sanguinária e deputado estadual mais votado do Estado na última eleição, que propôs em uma rede social a separação de SP do restante do país após a vitória de Dilma em 2014.
O PSDB foi fundado como partido de intelectuais social-democratas após o fim do regime militar e o fracasso do governo Sarney. Em SP era o partido de Franco Montoro e Mário Covas. Hoje se tornou o partido do lobista fracassado, do coronel preconceituoso e do apresentador sanguinário. Nada representa melhor a mediocridade do pensamento político em SP do que o rumo tomado pelo PSDB. Doria tenta usar o Estado como trampolim para levar sua mediocridade ao Planalto. Para realizar seu sonho, será necessário manter a população medíocre. Contará com a ajuda de Datena para isto.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Gratidão - A chave para entender a liderança de Lula



Faltando praticamente três meses para a eleição presidencial, o ex-presidente Lula lidera com folga as pesquisas presidenciais. Segundo o Ibope, o petista possui 33% dos votos contra 37% dos outros candidatos somados. Quase três meses após sua prisão, que foi precedida de quatro anos de perseguição midiática, com capas de revistas semanais e “analistas políticos” de emissoras de TV o tratando como o “maior bandido possível”, condução coercitiva feita de forma ilegal, divulgação de conversa telefônica feita de forma ilegal, mudança de interpretação na lei para prendê-lo o mais rápido possível etc, um terço do eleitorado brasileiro insiste em querer votar no ex-presidente caso lhe seja dada esta oportunidade. O objetivo deste texto é tentar entender as razões que levam o eleitorado brasileiro a desejar a volta de Lula ao Palácio do Planalto.
Entender. Esta deveria ser a base das análises políticas brasileiras, mas não o é. Cada eleitorado representa um fenômeno social. O que as pessoas que votam em cada candidato querem dizer. Muito poucas análises que tenho lido buscam falar isto. Bolsonaro como fruto de uma amargura da elite, descontente com a ascensão social de uma parte da sociedade na era petista. Marina como fruto de pessoas que não sabem exatamente o que querem e buscam uma opção que pareça viável. Ciro como a esquerda que respeita Lula, mas tenta fugir da dependência do petista. O fracasso de Alckmin como símbolo da decadência paulista.
Lula será a figura central do processo eleitoral, preso ou solto. Assistindo as sabatinas aos outros candidatos até o momento, a questão Lula é sempre abordada. Lula é o segundo maior estadista da história republicana do país. Isto é fato independente da opinião positiva ou negativa que se tenha sobre a sua figura. Creio que apenas Vargas tenha sido mais importante do que ele. O Brasil viveu transformações sociais únicas em sua história durante sua gestão. Acreditando ou não nas acusações que lhe são feitas pela turma do Power Point, entender estas mudanças é a base para compreender o fenômeno que faz com que o ex-presidente siga liderando em condições tão adversas.
O Bolsa-Família tirou o Brasil do mapa da fome mundial. É um programa pioneiro que foi imitado em seguida por outros lugares, inclusive a Itália. Fez a economia de municípios pequenos do interior do país girar. Libertou milhões do que chamo de necessidade de aceitar  trabalhos análogos à escravidão. Pessoas que antes tinham que aceitar qualquer trabalho desumano em troca de um prato de comida ganharam a inédita liberdade de dizer não. O Bolsa Família inflacionou o valor dos trabalhos braçais a que classe média e elite estavam acostumadas a pagar quase nada. Esta última frase ajuda a explicar a popularidade de Bolsonaro entre os mais ricos, aliás.
O Prouni permitiu que milhões de jovens pobres tivessem acesso ao ensino superior. Críticas à forma como o programa garantiu o lucro a empresários do ramo são justas, claro, mas é necessária uma incapacidade única de sentir empatia para não compreender o que isto significou para famílias que viam pela primeira vez seus filhos ingressando num curso superior. O que significava para uma mãe ver o filho realizar o sonho outrora irrealizável de ter um diploma. No mesmo período tivemos a criação do sistema de cotas nas universidades públicas, extremamente criticada pela mídia conservadora que hoje começa a valorizar seus resultados muito positivos, sem que esta mesma mídia, claro, faça alguma autocrítica sobre as acusações falsas que fizera ao programa.
O salário mínimo em 2002 comprava meia cesta básica. No final de 2010, comprava três cestas básicas e meia. Um poder de compra real que cresceu 600% num intervalo de oito anos. O trabalhador que recebia o mínimo garantido por lei de seu patrão podia com este salário não apenas sobreviver, mas podia gastar com outras coisas. Compra de eletrodomésticos, por exemplo. Poupança. Consumo, fazendo a economia girar.
Li certa vez numa entrevista de Thales Ab’Saber que em qualquer país com uma classe capitalista nacional e intelectualmente desenvolvida Lula seria tratado por esta classe dominante como herói. Não houve, argumenta ele, presidente mais capitalista em nossa história do que Lula, uma vez que ele incluiu milhões de pessoas no mercado consumidor. A nova classe C. No Brasil isto não ocorre e qualquer política de distribuição de renda é vista como “comunismo” por uma parcela significativa e lunática da elite.
Lula é uma figura política gigante em nossa história e há uma gratidão enorme de uma parcela da população em relação a ele. Gratidão não é algo que pode ser derrubado com denúncias sobre tríplex ou sítio em Atibaia. Por mais que se tente desmerecer seu eleitorado, Lula segue forte. E sua popularidade nos dá esperança. Numa sociedade dividida e que vê o crescimento também inegável de um candidato fascista e sem propostas, que só conseguem aparecer graças a um discurso de ódio, cuja violência é estimulada por uma parcela amarga da elite, do judiciário e da mídia, Lula segue liderando. Cada candidato, a meu ver, representa um sentimento. Numa época triste como a nossa, temos alguma esperança ao ver que o sentimento que ainda lidera é o da gratidão.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O típico eleitor de Bolsonaro é infeliz



Muito se fala sobre a onda de ódio que toma conta do Brasil, a forma como este ódio foi inflado e manipulado pela mídia e pelas elites para derrubar o governo petista e sobre como este movimento gerou a candidatura de Jair Bolsonaro. O outro fenômeno, porém, que é pouco abordado sobre o sucesso da candidatura fascista nas eleições de 2018 é a representação que ela traz da infelicidade que tomou conta de um setor da sociedade brasileira, especialmente dos brancos de classe média.
O típico eleitor de Jair Bolsonaro é infeliz. Também é branco e de classe média. Mas é principalmente alguém infeliz. Sou uma pessoa branca e de classe média (mas não sou eleitor do fascista ignorante, quero distância deste povo aliás), conheço pessoas da minha idade e mais velhas que vão votar em Bolsonaro (de alguns já consegui me afastar, de outros ainda não), e todas elas têm a infelicidade como característica maior. Se você conhecer alguém que também vai votar nele, veja se esta(s) pessoa (s) não possuem estas características.
O eleitor de Bolsonaro está sempre reclamando. Desde sempre. Eles nunca acham que a vida é justa com eles e são sempre vítima do mundo. Sempre acham que deveriam estar em um lugar melhor, ser mais reconhecidos. São arrogantes e se consideram conhecedores de todos os assuntos, mesmo sendo incapazes de terem concentração para, sei lá, ler um livro. São pessoas com muitas certezas e poucas dúvidas, principalmente quando criticam algo. O embasamento destas pessoas costuma vir basicamente de achismos, quase nunca há uma fonte intelectualmente respeitada. Dificilmente falam bem de alguém que não seja de si mesmos e estão sempre competindo. Resumindo, sempre se colocam no papel de vítimas.
O vitimismo opressor de pessoas brancas de classe média talvez seja o termo que melhor explica o processo atual do Brasil. O privilegiado que, ao mesmo tempo em que parece não enxergar os próprios privilégios, sabe de forma instintiva que a base da sua existência está em defendê-los. O privilegiado que acima de tudo teme a igualdade, pois sabe que esta mostraria sua mediocridade. São pessoas que não seriam nada sem seus privilégios, pois efetivamente não sabem fazer nada. Tudo que conseguiram é fruto deste privilégio, disfarçado num discurso fajuto de meritocracia.
A maioria das pessoas brancas e de classe média que eu conheço estão um pouco perdidas na vida (e eu me incluo neste grupo, aliás, embora eu tenha felizmente seguido um caminho diferente). Fomos uma geração criada com a ideia de que éramos “especiais”. Todos chegaríamos aos 35/40 com a vida de comercial de margarina. Agora estão quase todos ou em empregos de merda ou se matando para conseguir um emprego de merda. Fomos criados para sermos competitivos e “vencedores”, um período que chamo de ditadura da vitória. Por isso há, em pessoas que possuem os mesmos privilégios que eu tive, um forte sentimento de derrota. A maioria é incapaz de culpar a si mesmo e às próprias escolhas por estas derrotas, é mais fácil culpar o “outro”. Também são incapazes de refletir sobre o estilo de vida que levam e sobre uma possível forma de mudá-lo. Só sabem culpar uma sociedade na qual se sentem de alguma forma superiores, incapazes de enxergar a própria mediocridade. As vítimas mais fáceis são aqueles que de alguma forma melhoraram nos últimos anos, as minorias, mesmo que estas ainda estejam muito longe de terem os mesmos privilégios. Para isto, criam uma série de paranoias. Não à toa tantas pessoas brancas e de classe média espalham notícias falsas. É fácil se acreditar numa paranoia quando se vive numa.
As redes sociais de alguma forma uniram esta gente. Estas pessoas podem ser infelizes, julgando e xingando juntas. Só conseguem esboçar alguma alegria através de deboche e humilhação. O movimento que derrubou Dilma era de gente branca e de classe média. O eleitorado de Bolsonaro é branco e de classe média. São as mesmas pessoas. Elas não se importam com a ausência de conhecimento, truculência, boçalidade e arrogância do candidato fascista, porque se reconhecem nestas características. Bolsonaro faz aquilo que elas sabem fazer, ele grita e ofende. E é infeliz.
Este tipo de pessoa está infeliz há muito tempo. E continuará sendo infeliz, independente do que ocorrer. Eles continuarão procurando alguém para culpar pela vida infeliz. É só isso que eles sabem ser. A próxima meta é conquistar o Brasil. Desta forma, podem fazer aquilo que mais gostam, espalhar infelicidade.


domingo, 29 de abril de 2018

A última partida de um país que já não existia



Uma declaração atrapalhada do porta-voz do Partido Comunista da Alemanha Oriental no final da tarde de 9 de novembro de 1989 resultaria, na noite daquele mesmo dia, na queda do Muro de Berlim. Ninguém estava muito preparado para o que ocorreria a partir daquilo. Isto inclui a Federação Austríaca de Futebol e a prefeitura de Viena. Na semana seguinte após a queda do muro, estava marcada a partida entre Áustria e Alemanha Oriental, que definiria quem ficaria com uma vaga para a Copa do Mundo de 1990. Mais de 50 mil alemães orientais aproveitaram a fronteira recém-aberta e foram para Viena assistir a partida, tornando basicamente a equipe uma local estando fora de casa. A Alemanha Oriental perdeu o jogo e ficou fora do Mundial.
A desclassificação alemã oriental acabaria sendo muito importante para o futuro da sociedade alemã. A partir do começo de 1990, começou a crescer nos dois países a ideia de reunificação das Alemanhas, projeto que foi logo incorporado pelo governo alemão ocidental. A campanha e o posterior título da Alemanha Ocidental na Copa da Itália foi parte fundamental do processo de criação de uma unidade entre duas sociedades tão distintas durante aquele ano. Isto certamente não teria acontecido se os alemães orientais tivessem a sua seleção na mesma competição.
Com o apoio americano e aproveitando o sentimento criado pelo futebol, os governos alemães decidiram marcar um plebiscito nas duas nações para votar a reunificação. Para convencer o governo soviético, o governo alemão ocidental deu basicamente uma montanha de dinheiro para a URSS e assinou um documento se comprometendo a manter os monumentos em homenagem aos soldados soviéticos mortos na Segunda Guerra que até hoje existem em território alemão. França e Inglaterra eram contrárias à reunificação, mas EUA e URSS deixaram bem claro que seriam eles que decidiriam. Marcou-se o plebiscito para o início de setembro e a proposta de unificação venceu com mais de 80% dos votos.
Após isto, seria necessário escolher uma data em que a reunificação oficial ocorreria e a escolha foi a mais pragmática possível. Optou-se por 3 de outubro, basicamente porque o primeiro final de semana deste mês costuma ser o último antes da chegada do inverno e o governo alemão desejava que a data fosse o grande dia de celebração nacional nos anos posteriores, com festa nas ruas. Era muito importante que o 3 de outubro fosse gigantesco e superasse o 9 de novembro como data oficial da reunificação. O dia 9 de novembro coincide com o aniversário da Noites dos Cristais em 1938 na Alemanha nazista, e existia o temor no governo alemão de que a transformação deste dia em feriado facilitasse a existência de manifestações da extrema-direita celebrando o triste evento.
A Alemanha Oriental, assim, passou o mês de setembro de 1990 como “país-fantasma”, com data marcada para deixar de existir. No final deste mês, a seleção de futebol deste país perto de ser extinto tinha um amistoso marcado contra a Bélgica em Bruxelas. Contrariando a opinião pública dos dois países, Bélgica e Alemanha Oriental decidiram manter o amistoso. Difícil, porém, foi encontrar jogadores na quase extinta Rep. Democrática Alemã que se dispusessem a participar deste evento. Após inúmeras convocações e recusas, a Alemanha Oriental conseguiu arranjar doze jogadores que toparam jogar, sendo que nenhum deles era goleiro. Um meio-campo foi improvisado na posição. Um destes jogadores era Matthias Sammer. Principal nome da seleção alemã oriental à época, Sammer seria o grande nome do primeiro título da Alemanha unificada na Eurocopa de 1996 e último alemão a ganhar a Bola de Ouro, no mesmo ano.
Num dia frio e chuvoso, a seleção da Alemanha Oriental entrava com apenas um jogador reserva e sem técnico num estádio vazio belga para fazer sua última partida. A Bélgica massacraria a seleção alemã oriental durante todo o primeiro tempo, mas por aqueles motivos que apenas o futebol explica, não conseguiu fazer o gol graças à atuação do meio-campo improvisado no gol. E, para surpresa geral de todos, no começo do primeiro tempo Sammer abriu o placar para o país em extinção. O gol de Sammer gerou um enorme interesse na partida dentro da Alemanha Oriental, algo do tipo “não acredito nisso” e calcula-se que a quantidade de TVs que ligaram na partida multiplicou-se por sete nos cinco minutos seguintes ao gol. Aguentando a pressão, a Alemanha Oriental faria 2x0 no final do jogo, com o mesmo Sammer. O final desta partida resultou em lágrimas e numa comoção espontânea nas ruas da Alemanha Oriental. Muitos consideram que esta partida deu início ao movimento que chamam de “ostalgie”, uma certa nostalgia que alemães orientais têm de seu antigo país. Uma multidão receberia os doze jogadores após a partida.
A reunificação alemã foi de certa forma cruel com o futebol alemão oriental. Os clubes do antigo país, outrora competitivos nas competições europeias, foram destruídos pela incapacidade de competir com os milionários times do antigo vizinho do Ocidente. A partida citada acima transformou Sammer no maior ídolo esportivo na região que era a Alemanha Oriental. Isto até hoje. Para se ter uma ideia, a contratação de Sammer pelo Borussia Dortmund em 1991 transformou o Borussia em time de maior torcida naquela região, situação que permanece inalterada atualmente. Durante os anos 2010, o Bayern de Munique inclusive contratou Sammer para o cargo de diretor técnico, com o objetivo de conquistar o mercado alemão oriental. Não deu certo. O futebol naquela região passa hoje por um suspiro graças ao investimento financeiro que a Red Bull faz no clube da cidade de Leipzig, mas ainda muito longe de conseguir enfrentar os poderosos clubes do Ocidente.
A Alemanha possui quatro Copas do Mundo, sendo duas muito simbólicas para eles, 1954 e 1990. Ganhou três Eurocopas. Participou de algumas das partidas mais marcantes da história. Final de 1966 contra a Inglaterra, semifinal de 1970 contra a Itália, semifinal de 1982 contra a França, 7x1 no Brasil em 2014. Para quase metade do país, porém, o jogo mais marcante segue sendo um amistoso insignificante disputado num estádio vazio na Bélgica em 1990. Um dia em que doze jogadores jogaram com dignidade por um país que praticamente não existia. Apenas pela honra e por respeito ao passado.

domingo, 22 de abril de 2018

A inversão da relação causa-consequência no país da pós-verdade



A principal característica do momento de judicialização da política brasileira é a inversão da relação causa-consequência. Desde 2015, a consequência aparece antes da causa, que é criada e se ajusta para a obtenção do objetivo procurado. Os dois exemplos que darei neste texto são o impeachment de Dilma Roussef e a prisão de Lula. Em seguida, procurarei mostrar o papel da mídia em naturalizar esta inversão e como ela se adequa ao período da pós-verdade.
Dilma Roussef assumiu seu segundo mandato em janeiro de 2015. Em março do mesmo ano, aproximadamente 75 dias após esta posse, mais de um milhão de pessoas foram à Avenida Paulista pedir o seu impeachment. Meios da grande mídia, mercado financeiro e membros do Judiciário apoiaram a passeata. Já se sabia qual era a consequência desejada, mas ainda faltava criar uma causa que a justificasse legalmente. Para isto, inventou-se um crime de responsabilidade fiscal. Dilma teria cometido a tal das pedaladas fiscais, atrasando o pagamento do governo a bancos públicos para supostamente melhorar o balanço. Não há nenhum indício comprobatório de que a presidente efetivamente houvesse ordenado isto a seus ministros e o suposto crime havia sido cometido na gestão anterior. A Constituição deixa claro que é necessária comprovação de intenção do presidente no cometimento do crime e que este só pode ser julgado por coisas que aconteceram no atual mandato. Mas foda-se. É o que conseguiram achar como suposta causa para justificar a consequência que já desejavam. É o que legitimaria a farsa. A mídia fez seu papel de convencer a população que lá havia um motivo. Durante a votação na Câmara, ficou claro que ninguém estava nem aí para o suposto motivo. Família, Deus, maçonaria, corretores de seguros, Sérgio Moro, general torturador, economia, tudo foi citado, menos o tal crime. No fundo, ele era completamente insignificante.
A segunda consequência pedida naquela mesma passeata era a prisão de Lula. Eles ainda não sabiam o porquê a queriam, apenas a queriam. A maioria das respostas era “porque ele é ladrão”, seguido por gritos de “viva Cunha”. Mais uma vez, era necessário encontrar uma causa que justificasse esta consequência. Durante o clamor desta parcela da população, o dono de uma empreiteira foi preso. Após quase um ano em prisão preventiva, depois de negar várias vezes o envolvimento do ex-presidente a quem se buscava culpar, aceitou delatá-lo. Disse que tentou vender um apartamento para ele e que, como acreditava que a venda ocorreria, reformou este imóvel e depois cobraria este valor em reforma. Note que a situação é tão bizarra que não é o imóvel que seria a propina, mas a reforma do mesmo. Lula desistiu da compra, todo o sistema de propina é uma mera suposição, mas foda-se. Num dos interrogatórios contra Lula, Sérgio Moro perguntou sobre a instalação de um elevador no imóvel da discórdia. Usou sempre verbos no passado, indicando que a instalação deste elevador aconteceu e que seria uma das grandes “provas” de que este processo no futuro do pretérito era real. Nesta semana, um grupo do MTST ocupou o imóvel e descobriu-se que não há nenhum elevador ou indícios de que uma reforma tenha ocorrido por lá nos últimos tempos. Durante todo este período, nenhum órgão de mídia se interessou por um furo de reportagem de visitar o apartamento. Mais do que isto, o juiz do caso não permitiu que a defesa vistoriasse o imóvel prova da acusação. Uma situação bizarra.
Na era da inversão da relação causa-consequência, a simples existência de um processo já é o suficiente para que se legitime a realização de uma vontade, neste caso de punição. Dilma foi afastada e Lula foi preso pela vontade de um grupo de pessoas poderosas, a partir de causas forjadas que foram inventadas depois das consequências. O judiciário politizado fez sua parte de criar processos a partir destas invenções. A mídia fez sua parte ao endeusar este judiciário, tornando seus membros heróis nacionais e reinterpretando o sentido da palavra Justiça. Vivemos um período em que a vontade de alguns se sobrepõe sobre a verdade. Judiciário conservador, elitista e retrógrado, mercado financeiro rentista, mídia que faz o jogo desta turma. Cada um fazendo sua parte. O Brasil se tornou o país das causas inventadas. O país da pós-verdade.

sábado, 7 de abril de 2018

A era do absurdo e o futuro do pretérito



Antes de começar o texto, GOSTARIA de pedir desculpas pelo título. E deixar claro que todas as vezes que um verbo for utilizado no futuro do pretérito, utilizarei caixa alta.
Vivemos uma era de absurdos. E uma das principais características desta era é que o criminoso é considerado culpado pela opinião pública, e chamo de opinião pública a grande mídia e aqueles por ela manipulados, antes mesmo de que haja algum crime minimamente verificado. Escolhe-se um culpado e depois se procura o crime. Utilizarei nisso naquilo que chamo de tese dois exemplos: o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.
Dilma foi eleita em outubro de 2014 e uma semana após sua eleição ocorreu a primeira passeata pedindo seu impeachment. Embora pequena, já era uma manifestação demonstrando a incapacidade de uma parcela da população, especialmente em SP, incapaz de aceitar a derrota nas urnas. Eles já queriam o impeachment, mesmo que ainda não soubessem qual motivo seria capaz de “legitimar”, mesmo que de forma fajuta, suas vontades. Em março, dois meses e meio depois da posse, a passeata pequena se tornou gigantesca. Mais de um milhão de pessoas vestindo verde-e-amarelo, clamavam por impeachment. Junto a eles, pessoas pedindo intervenção militar, a volta da monarquia e utilizando símbolos nazistas. Depois desta passeata, cresceu na opinião pública a ideia de que era possível o impeachment da presidenta. Para isto, era necessário achar um crime. Nisto, apareceu uma advogada lunática, segundo a qual Dilma TERIA cometido um crime de pedalada fiscal. TERIA atrasado o repasse de dinheiro do governo para estatais para melhorar os números governamentais. Qualquer coisa que parecesse um crime SERIA suficiente para justificar o processo e o deputado mais bandido da história do mundo comandou o processo que resultou no afastamento de Dilma.
Um segundo pedido daquela passeata de pessoas em verde-e-amarelo que continha gente pedindo intervenção militar, a volta da monarquia e utilizando símbolos nazistas era a prisão de Lula. Ninguém sabia qual era o crime, mas queriam Lula na cadeia de qualquer jeito. Ele era ladrão e pronto. Para isto, seria necessário inventar um crime. Talvez no futuro alguém entenda o quão bizarro isto é, mas Lula SERIA condenado três anos depois pelo seguinte crime. A OAS era dona de um prédio e queria vender um apartamento para Lula. Isto na época em que o ex-presidente era a pessoa mais popular no Brasil. Para aumentar a possibilidade de venda, a OAS fez uma reforma neste apartamento, esperando que isto aumentasse as possibilidades de sucesso da venda. Lula visitou o apartamento com sua esposa. Esta gostou do imóvel, mas Lula não. Disse que não havia sentido um casal idoso comprar um tríplex. Alguns anos depois, um juiz tentando agradar a esta opinião pública que já tinha um culpado sem ter crime PRENDERIA o dono dessa construtora. O juiz manteve o empreiteiro preso até que ele o ajudasse a criar um crime. Dois anos depois, o empreiteiro fez sua parte para sair da cadeia. Disse ele em delação premiada que a reforma do apartamento que jamais foi de Lula SERIA uma propina. Lula RECEBERIA o apartamento e em troca FARIA lobby da construtora sabe-se lá onde. Lula SERIA considerado dono com base única e exclusivamente em delações. Não há documento algum que comprove sua posse. É como se eu juntasse algumas pessoas e dissesse que o apartamento em que você leitor(a) mora não é seu. Mesmo sem ter documento algum, isto SERIA suficiente neste mundo bizarro criado para condenar Lula. Se testemunhos servem para provar a posse, também servem para provar a ausência de posse, afinal.
Uma pessoa está na cadeia por um crime inventado. Por um crime do futuro do pretérito. A mídia repete à exaustão que o processo legal foi seguido. Como se o processo legal fosse suficiente para justificar a condenação por um crime que não existe, a não ser no futuro do pretérito. Mandela foi condenado por um processo legal. Luther King também. O processo não diz nada se aquilo que o motivou foi uma farsa. Para que esta farsa tivesse sucesso, a atuação da grande mídia foi fundamental. Anos repetindo mentiras para que elas ficassem gravadas na mente de boa parte da população como verdade. A revista Isto É trazia Lula vestido de presidiário antes mesmo do tal processo no futuro do pretérito existisse. A revista Veja contava em sua capa sobre um suposto plano que Lula TERIA para fugir para a Itália. A lei nunca foi tão descumprida na condenação de alguém como foi no caso de Lula. Mas já é claro que não há mais lei, afinal. A base da legislação, a presunção de inocência, já foi pro saco nesta época punitivista.
Na última pesquisa presidencial, Lula, o condenado no futuro do pretérito, aparece em primeiro. A turma do verde-e-amarelo diz que é porque o povo é burro. Eu acho que é pelo contrário, o povo é muito inteligente e de certa forma percebe a farsa. Vivemos o pior Brasil da nossa geração enquanto a mídia não se cansa de afirmar que ESTARÍAMOS avançando. O antigo segundo colocado que agora chega à liderança é Jair Bolsonaro, o fascista. Esta turma do verde-e-amarelo já conseguiu realizar seus dois primeiros pedidos. Dilma fora e Lula na cadeia. Qual será? O Rio já vive sob intervenção militar. É o futuro do pretérito comandando uma era de absurdos.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Maluf, Lula e o punitivismo como instrumento do fascismo



Paulo Maluf é um filho da puta. Creio que poucas pessoas tenham dúvidas sobre isso. Roubou, mentiu, apoiou uma ditadura. Paulo Maluf merece ser tratado com dignidade. Foi preso aos 86 anos. Com câncer. Uma parte da sociedade comemorou seu sofrimento. “Está sendo feita justiça”. Maluf conseguiu um habeas corpus. Revolta. “Injustiça e impunidade”. Não interessa que o ex-governador esteja em prisão domiciliar e tenha os bens bloqueados. Apenas a privação total da liberdade é vista como uma forma de se fazer justiça. Justiça é igual a sofrimento e humilhação.
Paulo Maluf é claramente culpado. Mesmo ele merece ser tratado com dignidade. Está no fim da vida e não há sentido em impedir que viva o final de sua vida com o mínimo de qualidade. Mesmo as pessoas menos decentes devem receber um tratamento decente no final da vida. Não há sentido em prisão que não seja domiciliar para pessoas em idade avançada e que não representam perigo à sociedade. Não é o caso do médico Roger Abdelmassih, cuja liberdade claramente representa um risco. Mas no caso de Maluf, serviu apenas como prazer para gente que perdeu qualquer capacidade de empatia humana. Não deixa de ser curioso que Maluf tenha feito parte da sua carreira estimulando este ódio e punitivismo. “Lugar de bandido é na cadeia”. Nada melhor do que aproveitar o caso de Maluf para se mostrar diferente de Maluf. Sejamos melhores que este tipo de pensamento. Infelizmente não somos.
Uma das maiores marcas do avanço do fascismo no Brasil é a tara por punição. As pessoas estão com ódio e querem ver sofrimento. Cada foto de político sendo preso pela Lava Jato, raspando o cabelo e tirando foto com cara de tristeza causa festa na turma do verde-e-amarelo. Pessoas saem nas ruas com as cores do país pedindo o fim da impunidade. Comemoram cada prisão e reclamam de todo habeas corpus. Prisão igual a justiça, liberdade igual a  impunidade. Sérgio Moro, ídolo da turma fascista, mostrou em entrevista na TV o número de pessoas que colocou na cadeia como sinal de competência. Não deu importância aos casos em que suas decisões condenatórias foram revertidas em outras instâncias. Inversão da presunção de inocência, agora todos são culpados até que se prove o contrário. Estímulo às delações, que são premiadas até no nome e são consideradas por si só uma prova. Prisões preventivas eternas. Tudo estimulado por uma mídia que aposta no medo e no ódio de forma comercial. Pessoas com medo ficam em casa e consomem. Na falta do que gostar, o ódio une e permite a manipulação. Pessoas deste tipo se consideram patriotas. Elas dizem amar seu país. Como elas o amam, todas que não concordam são automaticamente inimigas da pátria. Apropriaram-se dos símbolos nacionais e os utilizam para gritar por sua visão tosca de justiça.
Amanhã Lula possivelmente será preso. Quem acompanha este blog sabe minha opinião sobre o processo do ex-presidente. Ele foi, a meu ver, condenado sem provas, num processo farsesco que se transformou num circo midiático. Está sendo preso antes do julgamento em última instância, numa clara afronta à Constituição. Quem assistiu à análise do seu habeas corpus preventivo no Supremo pôde notar, caso ainda consiga pensar, o grau de bizarrice que tomou conta do Poder Judiciário. O voto do ministro Barroso, por exemplo, parecia vindo do programa do Datena. O ódio impede a turma do verde-e-amarelo fascista de ter qualquer empatia humana. Lula não é visto como um senhor de 74 anos sobrevivente de um câncer. É alguém que deve sofrer e cujas imagens na prisão significarão regozijos de alegria nesta turma. Apenas gente doente se alegra ao ver sofrimento. Uma prisão domiciliar do senhor de 74 anos não basta para quem o odeia. Mesmo que eu o achasse culpado, como acho que é o caso de Maluf, não conseguiria ficar feliz. Sinto-me humano por isso.
Somos uma sociedade doente. Pessoas que só sabem berrar e odiar estão vencendo todas desde o impeachment. Estão conseguindo impor sua visão de país. Nunca estivemos pior, mas para eles estamos melhorando. “Sendo salvos”. Tiraram o monstro da jaula e ele não para de crescer. Na boa, estamos fudidos...

quarta-feira, 4 de abril de 2018

O Evangelho segundo Deltan Dallagnol



Não há nada mais perigoso para um Estado laico do que um membro do Poder Judiciário que seja fanático religioso. O fanatismo cega e faz com que a pessoa aja não de acordo com a racionalidade das regras institucionais estabelecidas democraticamente, mas sim através de uma fé pessoal baseada em subjetividades em vontades pessoais. O fanático religioso é de certa forma alguém que se compara a Deus, que acredita que a figura divina está sempre ao seu lado. Por estar sempre ao lado do Ser superior, o fanático sente que O representa, sendo assim a sua vontade igual à vontade divina. Estando com Deus o tempo todo, o fanático se vê como estando sempre com a razão e tendo como função transformar a sua vontade, que afinal é a vontade divida, em realidade. É isto que explica, a meu ver, o grande número de fanáticos religiosos que no Brasil atual saem pedindo a morte e a prisão de quase tudo que se mexe para, aos domingos, comungar e rezar. Para esta gente, Deus no fundo não passa de um argumento de autoridade para justificar interesses pessoais, uma abstração cuja companhia permite tudo, especialmente o ódio. Jair Bolsonaro, por exemplo, poucos segundos após homenagear um torturador na sessão de impeachment de Dilma, disse que seu voto era em nome de Deus. Não há contradição na cabeça destes fanáticos, uma vez que o fanatismo não dá espaço para reflexão. Todo fanático se acredita um Deus, uma vez que trata sua vontade como vontade divina e se enxerga como um executor dos desejos do Ser maior que está sempre ao seu lado. Sociedades em que fanáticos religiosos chegam ao poder tendem a ser reacionárias e preconceituosas. Não há espaço para o respeito à diversidade com alguém que se considera um Deus. Quando se está com Deus, se é igual a ele, logo se atingiu a perfeição. Todo fanático é intolerante. Todo fanático se sente livre para odiar.
Deltan Dallagnol é um fanático religioso. Fala mais sobre a Bíblia do que sobre a Constituição. Descreve-se em sua conta no Twitter como alguém temente a Deus. Nesta semana, Dallagnol disse jejuar e orar para que uma pessoa fosse presa. O Deus de Dallagnol, portanto, é alguém punitivista. Considerando que Dallagnol acredita que suas vontades sejam também as vontades do Deus em que arduamente acredita, temos outras características desta representação divina. Dallagnol é contra o habeas corpus e a favor da liberação quase irrestrita das prisões preventivas. Provavelmente acredita que Deus está do seu lado nestas empreitadas. O Deus de Dallagnol não quer persão, o Deus de Dallagnol quer prisão. O Deus de Dallagnol, porém, não se opõe aos privilégios da casta judiciária, uma vez que sua ovelha mais importante recebe auxílio moradia mesmo morando na cidade em que trabalha. Dallagnol não faz jejum por distribuição de renda, igualdade ou paz. Tampouco ora para aprender a usar um Power Pont. Passa fome e reza apenas para pedir punição. Dallagnol quer vingança e não enxerga contradição em utilizar-se de sua crença divina para pedir o sofrimento de alguém, sem entrar no mérito de saber se esta punição é justa ou não. Quem lê este blog sabe minha opinião, mas o que está em pauta aqui é o uso de Deus com objetivos punitivistas.
É óbvio que cada pessoa pode ter sua interpretação de lei e suas crenças. O que é assustador é ver a quantidade de pessoas semelhantes a Dallagnol que fazem parte do nosso atual Poder Judiciário e que usam suas crenças para manipular a classe média que está com ódio de tudo, menos do que define como Deus. Marcelo Bretas, juiz da Lava Jato no Rio, elogiou o procurador fiel e também disse orar junto com seu irmão. Este recebe dois auxílios moradia, uma vez que sua esposa também é juíza.
O fanático religioso perde a capacidade de qualquer autocrítica. Somos uma sociedade que aos poucos é dominada por este fanatismo. Deus está em todos os discursos, principalmente nos que defendem o ódio. Não há espaço para amor e compreensão. Uma sociedade em que pessoas dessas julgam e condenam não é mais capaz de discernir certo de errado. Uma sociedade que utiliza estas figuras como exemplo não tem futuro. É medonho como pessoas que se dizem conscientes toparam se unir a este tipo de gente, sem olhar na história para onde as sociedades caminham quando seguem este caminho. Todo governo totalitário de direita se apoia no fanatismo religioso. Bem-vindo à República Fundamentalista do Brasil.

quarta-feira, 7 de março de 2018

O fim da gestão Doria parte 2 - O ex-prefeito em atividade



Falta um pouco menos de um mês para aquela que deve ser possivelmente a melhor notícia política do ano: João Doria Jr. deixará de ser prefeito de SP. Pinta como favorito ao governo de SP, mas o certo é que ao menos passaremos um pouco mais de oito meses sem que Doria ocupe nenhum cargo público. Na atual situação que vivemos, qualquer alívio de curto prazo deve ser comemorado.
O último mês da gestão Doria começou com alguns exemplos que mostram as grandes características desta curta e polêmica gestão. Nunca tivemos um administrador municipal que usasse tanto o cargo para atender seus interesses pessoais. Um dos seus últimos atos como prefeito demonstra isso. Doria assinou um decreto que garante segurança especial paga pelo município aos ex-prefeitos. Não quer perder a mordomia, afinal. (P.S.: No dia seguinte à publicação deste texto, graças à forte pressão da opinião pública, Doria alterou o decreto, decidindo que a segurança bancada pelo município passaria a valer apenas para o próximo ex-prefeito).
No último domingo, Doria esteve no Pacaembu acompanhando o jogo entre Santos e Corinthians. No momento em que houve a queda de luz durante a partida, Doria saiu fugindo da imprensa, não queria nenhum tipo de questionamento. Recusou-se a realizar uma entrevista para falar sobre o assunto e no dia seguinte divulgou uma nota, em que dizia que as frequentes quedas de energia no estádio (foram três neste ano) eram uma prova de que ele deve ser privatizado. Sem entrar por enquanto no mérito de questionar se a privatização é correta ou não, acho que posso afirmar que é fato que enquanto o estádio pertencer à Prefeitura, ela possui a obrigação de garantir que o seu funcionamento ocorra com qualidade. Foi uma tentativa patética de tentar transformar um erro de sua administração em argumento para a venda do bem público e uma incapacidade completa de assumir seu erro.
Doria não possui respeito algum pelo conceito de bem público. O seu plano de privatizações mostra isto. O prefeito colocou tudo num grande “pacote” e tratou da mesma forma a venda de um bem como o Anhembi e de um bem como o Ibirapuera, que têm significados e importâncias completamente diferentes para a vida da cidade. Ele é incapaz de tratar cada caso de forma específica porque para ele bem público é, no fundo, a mesma coisa, tendo que ser simplesmente repassado para o setor privado para “gerar lucro”. Lazer e qualidade de vida não significam nada na forma como o prefeito enxerga as coisas. No caso do Ibirapuera, Doria disse na mesma entrevista, na mesma, que o parque continuaria sendo um espaço para uso livre e que muitos amigos seus donos de restaurantes importantes já o haviam procurado para construir filiais de seus estabelecimentos dentro do parque, tornando o ambiente um local mais exclusivo. Outro caso em que Doria apresenta uma argumentação absurda atrás da outra é na venda de Interlagos. A principal “ameaça” do prefeito é que se o autódromo não for vendido, São Paulo poderá perder a Fórmula 1, e que o modelo de autódromo público está acabando no mundo. Dezesseis das vinte corridas de Fórmula 1 do ano, porém, ocorrem em autódromos públicos. Mais do que isto, o prefeito foi até Abu Dhabi gravar um vídeo para mostrar como uma gestão diferente e privada poderia trazer melhores resultados. O autódromo de Abu Dhabi é estatal. Além disso, o governo de lá não tem a preocupação que há por aqui, uma vez que a corrida serve muito mais como propaganda da riqueza local do que como evento esportivo. No ápice da sandice, Doria propõe a construção de um hotel no meio do autódromo de Interlagos. Por fim, o prefeito diz que a privatização permitiria que o autódromo fosse alugado para grupos de milionários que quisessem disputar corridas entre si, coisa que já acontece hoje. Num só vídeo, Doria demonstrou arrogância e desconhecimento tanto do lugar que administra quanto do lugar que visita. Eu, particularmente, sou contra a realização da Fórmula 1 em SP. Não acho que a cidade deva fornecer um subsídio tão grande ao setor hoteleiro. Sou também contra a privatização, acredito que o lugar deveria ser aberto ao público e transformado num parque. Mas o que mais me incomoda é a falta de debate, estimulada pelo tratamento de “pacotão” dado por Doria sobre o assunto. O prefeito chegou também a ir à China para oferecer os bens públicos paulistanos por lá. A maioria das empresas que o recebeu por lá é estatal.
Neste final de gestão também, Doria está apresentando uma das mais destrutivas mudanças de itinerários do transporte público da história da cidade, com o fim de um grande número de linhas, especialmente na periferia. Junto com a extinção do bilhete único semanal e com a quase extinção do bilhete único mensal, serão seus grandes legados nesta área. 
Aumento da velocidade nas marginais que resultou em aumento no número de mortos. Ação desastrada e mal planejada na cracolândia, contrariando a opinião de especialistas, espalhando os usuários pela cidade e dificultando seu tratamento. Fim do projeto da gestão anterior de incorporação de usuários de crack ao mercado de trabalho, colocando no lugar um mal sucedido projeto em parceria com o setor privado, que resultou em zero contratações após o período de experiência. Fim da Virada Cultural. Mudanças no premiado Plano Diretor de Haddad para agradar à especulação imobiliária. Redução de ciclovias. Queda no número de ações de zeladoria urbana. Nenhum projeto significativo na área educacional. Não cumprimento da promessa de contratação de mil médicos. Tudo isso em um ano e três meses.
Viagens. Doria já entrou na prefeitura sem vontade de ser prefeito. Queria usá-la apenas como um trampolim. Embarcando na onda antipetista, Doria tentou aproveitar o momento e saiu passeando pelo país e pelo mundo, tentando emplacar uma candidatura presidencial. Recebeu apoio entusiasmado dos seus amigos do setor empresarial, mas no fim não rolou. Sua incapacidade de gerar resultados derrubou sua jornada. Vai ter que se contentar com o governo do estado por um tempo. Vai apostar no marketing e na rejeição a Lula para tentar chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Slogans fáceis e que não representam absolutamente nada, tipo "Cidade Linda". Em SP isto é suficiente, o eleitor paulista continua medíocre, muito provavelmente vai embarcar novamente na aventura Doria. Esta gestão entrará para a história como um momento triste em que um milionário improdutivo e egocêntrico foi capaz de manipular uma massa rancorosa em nome dos seus interesses pessoais. Resta aproveitar estes oito meses.