sábado, 4 de maio de 2019

Bolsonaro, as universidades e o pensamento




Tenho a opinião pessoal de que o atual presidente Jair Bolsonaro é uma pessoa que não possui nenhuma qualidade. Não há nada nele que, na minha visão de mundo, seja digno de algum elogio. Ficou provado no ano passado, porém, que a maioria do país não concorda comigo, afinal ele foi eleito com 55% dos votos e uma parcela da população realmente o chama de “mito”.           Qualidade é sem dúvida nenhuma um conceito subjetivo. O que é uma qualidade para mim pode não ser para outra pessoa. Com este objetivo, conversei nesta semana com alguns eleitores do capitão com os quais a vida me impede de simplesmente cortar relações e tentei descobrir qual a qualidade que eles viram nesta pessoa e que eu, com a minha visão de mundo, sou incapaz de enxergar. Sem dúvida nenhuma, a principal “qualidade” que estes eleitores viram em Bolsonaro, a principal característica do presidente com a qual eles se identificam, é a ignorância.
Não me lembro se eram treze ou catorze candidatos na eleição presidencial do ano passado. O que me lembro é que claramente Bolsonaro era o único que não apresentava conhecimento algum sobre nenhum assunto. Pelo contrário, fazia questão de expor e até de se orgulhar sobre sua mais completa ausência de sabedoria em todas as áreas imagináveis. Bolsonaro nunca produziu e deixa claro que é incapaz de produzir algo em qualquer área. Seja produzir um prego ou escrever um texto com começo, meio e fim. É sem dúvida esta a característica que mais atraiu o eleitorado brasileiro para esta candidatura. Aconteceu uma identificação de uma massa incapaz de pensar e que apresentava uma relação de rancor com qualquer tipo de conhecimento. É por isso que esta parcela da população não apenas silencia, mas no fundo aprova as ações contra as universidades que o governo liderado pelo capitão adotou na última semana. É a vingança contra os “arrogantes” detentores dos saberes que o eleitorado de Bolsonaro tanto menospreza.
Um governo como o de Bolsonaro só funciona em situações em que a maioria da população se mostra incapaz de pensar. A mente humana vive em eterno conflito entre o pensamento e o instinto. Somos animais, temos um instinto que muitas vezes nos leva à destruição, e a função do pensamento, da racionalidade, é de certa forma controlar estes instintos em nome do bem-estar geral. É por isso que este governo está sempre apelando aos instintos da massa que controla e combatendo aqueles que pensam e podem gerar a reflexão sobre os absurdos que acontecem. Todo governo autoritário se apega a símbolos e outras bobagens que estimulam o instinto. É a bandeira subindo, o hino tocando, a caneta de um real sendo usada para assinar o termo de posse. O nacionalismo é um dos alicerces da mediocridade e encontra seu ápice na guerra. Na mesma semana em que anunciou cortes contra as universidades formadoras do saber e do pensamento, o governo Bolsonaro aumento o tom de ameaça de invasão contra a Venezuela. Nada mais simbólico.
O processo de destruição do pensamento no Brasil vive um apogeu desde a Lava-Jato. Todo mundo é contra corrupção, afinal.  Foi apelando aos instintos que a Operação pôde várias vezes enfrentar a Constituição, que nada mais é do que um documento racional tentando controlar instintos e desejos de vingança. Há dois exemplos disso envolvendo Sérgio Cabral, ex-governador do RJ. Cabral é um merda, isto é claro para todos. Por isso pessoas como ele são tão importantes para regimes autoritários incentivarem o sentimento de vingança e se mostrarem como únicos capazes de atender a sanha revanchista da massa. Num depoimento ao juiz Marcelo Bretas, Cabral foi questionado se não deveria se preocupar com as origens do dinheiro que usava para comprar joias para sua esposa. O ex-governador respondeu que não e contrapôs dizendo que o exemplo era a esposa do juiz Bretas, vendedora de joias, que vendia seus produtos a Cabral sem perguntar qual a origem do dinheiro. Isto foi o suficiente para Bretas ordenar que Cabral fosse colocado em solitária e transferido de cadeia, ficando longe da família. A mídia fez festa. Cenas de Cabral sendo arrastado até a solitária, discutindo com guardas e sofrendo outros tipos de humilhação fizeram a festa da galera. “Bem-feito”, dizia a jornalista com cara de revoltada. Uma sociedade pensante, porém, acharia estranho o fato de que a esposa do juiz que julga o réu era fornecedora deste. Mais do que isto, beneficiou-se do esquema de corrupção que agora o juiz julga. Um segundo exemplo vem de uma delação em que Cabral foi acusado de receber propina do grupo dono da concessão das empresas de transporte municipal da cidade do RJ a cada vez que acontecia um aumento de passagem. Mais revolta. “Até nisso, ele roubava”. Cabral, porém, era governador e quem decide o preço da passagem de ônibus no munícipio é o prefeito. Como Cabral teria interferido num assunto que não é de seu domínio?
É o pensamento que permite que uma sociedade diferencie justiça de vingança. É o pensamento também que permite que enxerguemos a diferença entre um crime individual e um crime cometido por um agente de força pública, que usa esta força em nosso nome. É o pensamento que é capaz de nos levar a um sentimento de revolta quando vemos o número de assassinatos cometidos por agentes do Estado explodir no Rio de Janeiro e em São Paulo. E é por isso que Bolsonaro e sua turma tanto o enxergam como o principal inimigo a ser combatido. É o pensamento que permite que enxerguemos coisas que parecem óbvias, como a parcialidade de um juiz que prende o principal candidato à presidência e recebe como prêmio por esta prisão um cargo de ministro do antigo segundo colocado que se tornou vencedor.
Poucas coisas são mais simbólicas do período que vivemos quanto uma discussão via twitter acontecida na mesma semana em que o governo anunciou os cortes às universidades entre o jornalista Augusto Nunes, porta-voz extra-oficial do bolsonarismo na rádio Jovem Pan, e Guilherme Boulos. Boulos, diz o jornalista, “nunca trabalhou na vida”. Boulos é professor universitário desde os 23 anos. exerce esta profissão há mais de 15 anos. Nunes sabe disso. Mas ser professor, no seu conceito de mundo, não é algo que deva ser classificado como trabalho. O professor gera conhecimento e pensamento, coisas que no mundo bolsonarista para nada servem. Só atrapalham.
A classe média nas grandes cidades é extremamente ignorante e preguiçosa para tudo que envolva pensamento. Não é à toa que o mercado de livros no Brasil sofreu uma grande queda nas vendas no ano passado. Somos um país de pessoas que “não têm tempo de ler”. A base do domínio se dá através desta classe. Bolsonaro de certa forma libertou estas pessoas. Por muito tempo, elas tinham vergonha da própria ignorância. O jogo mudou. A ignorância, a partir de Bolsonaro, tornou-se motivo de orgulho e elas podem tranquilamente bradar contra aqueles que têm conhecimento.
Não há preconceito que resista ao pensamento. Todo preconceituoso está preso ao preconceito e o pensamento liberta. Bolsonaro é inimigo, por exemplo, dos profissionais de história. Porque olhar para o passado nos faz pensar. O Brasil está preso. Bolsonaro nada mais é do que o carcereiro-mor que controlará está grande prisão enquanto a maioria for incapaz de pensar. Seu sucesso depende da destruição do pensamento. Os sábios são inimigos, apresentados como “improdutivos”. E isto não é a “cortina de fumaça”. É a prioridade do governo. Bolsonaro não resiste a cinco minutos de reflexão. Impedir esta reflexão de acontecer é a chave para o capitão e sua turma conseguirem se sustentar no poder por um longo período. Convencer as pessoas a pensar é a chave para vencer este período nebuloso. Como? Não sei bem. É difícil convencer alguém que não pensa há muito tempo a pensar. O Brasil perdeu essa prática.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

O comentarista de Nova Iorque




Durante as eleições de 2018, formou-se um debate na Globo News com o objetivo de discutir o voto do eleitorado nordestino. Buscavam entender por quê, em geral, os eleitores daquela região não haviam se rendido ao “atraente” discurso do capitão psicótico que havia seduzido o eleitorado do restante do  país com suas “brilhantes” propostas de perseguição às minorias, liberação das armas e combate aos profissionais de educação. Na mesa e no vídeo para o debate estavam a apresentadora e mais um convidado em SP, um correspondente no RJ, uma correspondente em Brasília e um correspondente em Nova Iorque. Nenhum correspondente no Nordeste participava de um debate sobre o comportamento do eleitorado nordestino. Naquela mesa formada por pessoas que não sabiam muito bem do que estavam falando, foi o comentarista de Nova Iorque que “matou a charada”. “O Bolsa-Família”, disse o engravatado nova-iorquino, recebendo aplausos do restante do falso debate, em que todos pensavam basicamente da mesma maneira.
A impressão que tenho é que a principal função do comentarista de Nova Iorque nas nossas emissoras é ser o especialista em tudo, condição adquirida pelo fato dele morar na cidade que é o sonho de consumo dos consumidores do tipo de produto que estes meios de comunicação. “Se ele mora em Nova Iorque, é porque deve ser bom”, pensa o telespectador de classe média que liga neste tipo de telejornal para saber como está o mercado de ações, no qual ele não investe, ou quais argumentos ele deve usar para defender uma reforma da previdência que vai prejudica-lo. É fundamental, apenas para o comentarista de Nova Iorque, que a sua imagem mostre a cidade ao fundo. Enquanto os comentaristas de outras cidades aparecem num estúdio fechado, o comentarista de Nova Iorque, na maioria das vezes, tem a cidade ao fundo para mostrar que sim, ele realmente está lá. “Como somos chiques”.
Não importa o assunto e a distância do local, o comentarista de Nova Iorque sempre está lá para dizer “a verdade”. A Guerra da Ucrânia, o conflito no Iêmen, o processo de sucessão no Partido Comunista Chinês. Estes lugares são bem distantes de Nova Iorque, mas bem, é normal que o público ache que o comentarista de Nova Iorque tenha mais condições de falar sobre estes assuntos, uma vez que ele está em Nova Iorque. Nesta semana, o assunto que dominou a mídia foi, mais uma vez, a Venezuela. Aparentemente tão perto, praticamente nenhum órgão de imprensa brasileiro, de nenhuma ideologia, se deu ao trabalho de tentar colocar um jornalista para fazer a cobertura in loco da situação. Lá estava, então, o correspondente de Nova Iorque para nos contar a “realidade” da situação a uma distância maior do que o Brasil. Lá estava ele falando que na Venezuela há mendigos, pessoas passam fome e há filas quilométricas de desempregados buscando um emprego informal. Não, não era de São Paulo, era da Venezuela que ele falava mesmo.
É óbvio que é importante ter um comentarista em Nova Iorque. É o centro do país mais rico do mundo e qualquer coisa que aconteça nos EUA tem grande influência por aqui. Dificilmente o capitão psicótico teria sido eleito por aqui sem antes o empresário psicótico ter sido eleito lá. O que questiono é a preguiça dos órgãos da nossa mídia em ir até o local onde a informação realmente está acontecendo e a forma como este comentarista simboliza o triunfo social da aparência sobre a essência.
Há outros simbolismos no comentarista de Nova Iorque. Acho impressionante como, em geral, o brasileiro nova-iorquino é progressista quando o assunto é EUA e reaça, ou no mínimo covarde frente ao reaça, quando o assunto é Brasil. Cada massacre em escola nos EUA é suficiente para um árduo debate na conexão SP-DF-RJ-NY sobre a situação das armas nos EUA e o forte lobby que existe por lá. Quando o ministro da Justiça por aqui facilitou a posse de armas no primeiro mês de governo, quase nada foi dito sobre o assunto. Aliás, fico imaginando a reação do correspondente de Nova Iorque se, digamos, um juiz condenasse Hillary pelo rolo dos e-mails que decidiu a eleição americana em 2016 e, como prêmio, ganhasse de Trump um ministério e a promessa de vaga na Suprema Corte Americana. O correspondente de Nova Iorque iria surtar.
O brasileiro de classe média do Sudeste e do Sul se sente próximo de Nova Iorque. Os filmes que assistem se passam lá, as séries idem, as músicas contam a realidade de lá. É por isso que acham normal ver mais correspondentes em Nova Iorque do que nas cidades nordestinos. Este brasileiro, porém, por mais que se sinta nova iorquino, está mais para um texano. Tem a mesma visão neurótica, violenta e preconceituosa. O capitão psicótico é uma prova disso. 
Por último, a emissora do correspondente de Nova Iorque proibiu que fosse mencionada em sua programação uma entrevista dada pelo grande inimigo do capitão psicótico, preso pelo juiz que foi premiado com o ministério da Justiça. Provavelmente o correspondente de Nova Iorque leu muito sobre esta entrevista em jornais nova iorquinos. Não pode, porém, opinar sobre ela no trabalho em que é o “especialista”. A moral é que não importa o quanto você estuda, onde você mora, nem o quanto você ganha. No final das contas, você só vai poder dizer aquilo que seu chefe quer. É por isso que é “corajoso”, por exemplo, ao denunciar o lobby das armas por lá, mas silencia quando o mesmo acontece por aqui. O correspondente de Nova Iorque tem Nova Iorque ao fundo, um belo terno e provavelmente um belo salário. Mas só cumpre ordens.

domingo, 14 de abril de 2019

A grave situação da "Venezuela"



A situação está cada vez mais dramática na “Venezuela” e sinto que a mídia e as pessoas de certa forma normalizaram a situação. No relato a seguir, descreveremos alguns dos últimos eventos que servem para mostrar o tamanho do drama vivido pelos “venezuelanos”.
Na semana passada, em “Maracaibo”, segundo maior cidade do país, membros do exército executaram, com oitenta tiro, isto mesmo que você leu, oitenta tiros, o carro de uma família que foi considerada suspeita. Questionados sobre o assunto, o presidente da “Venezuela” disse que não houve crime algum e o ministro da Justiça disse que este tipo de erro, nas palavras dele, “pode acontecer”.
A última eleição na “Venezuela” foi bem esquisita. O líder da oposição, segundo as pesquisas, venceria as eleições com tranquilidade, mas foi afastado da disputa e preso por um processo altamente duvidoso, conduzido pelo juiz que receberia como prêmio o cargo de ministro da Justiça do governo eleito graças a esta prisão, o mesmo ministro que diz que o assassinato de um homem inocente por um ataque de oitenta tiros das forças armadas “pode acontecer”. Ainda nesta eleição, conselheiros da ONU recomendaram à “Venezuela” que o país permitisse a candidatura do líder da oposição, mas a “Venezuela” se recusou a atender a recomendação.
A carreira do presidente da “Venezuela” é marcada por declarações absurdas. Entre outras coisas, ele defende a ditadura ocorrida no país em décadas passadas, assim como elogia os ditadores paraguaios e chilenos. Disse que o maior erro da ditadura “venezuelana” foi ter “matado pouco”. Além disso, tem diversas declarações machistas, racistas e homofóbicas. Se uma criança for homossexual, diz o presidente da “Venezuela”, ela deve apanhar. Sua campanha foi financiada por boa parte do empresariado nacional e contou com o apoio de notícias falsas espalhadas em redes sociais. Disse em um discurso que iria “metralhar a oposição” e que a obrigação das minorias é “se curvar às maiorias”. Não à toa usou como slogan de campanha o mesmo slogan da Alemanha nazista, “Venezuela über alles”.
Após tomar posse, uma das primeiras medidas do presidente da “Venezuela” foi facilitar a posse de armas no país. Quem redigiu este decreto foi o ministro da Justiça, aquele que era juiz e que disse que assassinatos cometidos por forças públicas “podem acontecer”. No dia anterior a este decreto, o ministro recebeu os representantes das empresas “venezuelanas” produtoras de armas, mas não quis comentar publicamente esta reunião. Foi decidido que cada família “venezuelana” pode ter quatro armas em casa. Mais ou menos na mesma época, este ministro propôs um “pacote anticrime”, cuja principal proposta é afastar a possibilidade de punição para qualquer membro de força pública que cometa um “excesso” em operações policiais. Basta, por exemplo, que este agente diga que a pessoa alvejada e morta era “suspeita” para que ele não sofra nenhum processo caso cometa um crime. Isto se aplicaria facilmente ao caso dos oitenta tiros de “Maracaibo”, por exemplo. Ainda também no começo do governo, o ministro “venezuelano”, com o total apoio do presidente, propôs repetir na educação o mesmo plano de ação que prendeu o líder da oposição. O presidente da “Venezuela” coloca a “limpeza” na educação como prioridade da sua gestão. Um dos objetivos do atual ministro da educação, exposto publicamente, é acabar com faculdades de ciências humanas nas regiões mais pobres do país. O presidente já anunciou que quer colocar critérios ideológicos na aprovação de pessoas para mestrado, já disse que vai vistoriar a prova de acesso às faculdades públicas e, com esta operação de “caça às irregularidades” na educação procura buscar algo contra o seu adversário nas eleições do ano passado, um ex-ministro da educação do líder preso. Abrir uma operação para investigar um crime que não se sabe qual é algo típico de regimes autoritários.
A operação comandada pelo ministro da justiça “venezuelano” que resultou na prisão do líder da oposição gerou espaço para o surgimento de outros políticos. O atual governador de “Maracaibo”, local onde aconteceu o crime citado no primeiro parágrafo, é um ex-juiz amigo pessoal deste juiz-ministro. Sua principal promessa de campanha era a contratação de snipers para atirar na “cabecinha” de qualquer pessoa suspeita. O número de mortos em ações policiais na cidade de “Maracaibo” bateu recordes desde de que ele assumiu a província e ele já se disse um grande defensor do projeto de lei do seu ministro amigo.
No ano passado, uma vereadora de oposição da cidade de “Maracaibo” foi assassinada. Ela denunciava a atuação de milícias policiais na cidade, que haviam dominado a prática do crime organizado. O atual presidente, que era deputado por “Maracaibo” já deu declarações de que é favorável a estas milícias e são muitas as suspeitas de que há relacionamento próximo entre ele e milicianos. O principal suspeito do assassinato da vereadora, preso no começo do ano, era vizinho e amigo do presidente. O atual governador de “Maracaibo”, durante sua campanha, participou de um evento em que uma placa em homenagem a esta vereadora era quebrada e em que seu nome era xingado.
Outros absurdos acontecem no governo “venezuelano”. A figura “intelectual” mais influente do governo é um guru bizarro morando na Virgínia, sem formação em nada. Todo ministério se curva a ele, incluindo o ministro da Economia, que o chamou de “líder da nossa revolução”. As relações exteriores da “Venezuela” passam por um momento de tensão, com o governo rompendo com aliados estratégicos. “Fazemos parte”, diz o ministro das Relações Exteriores da “Venezuela”, de uma “guerra contra o comunismo”. Estas situações, porém, não parecem preocupar tanto a mídia “venezuelana”, que foca na tentativa de reforma da previdência e na situação das ações da “PDVSA”, a petrolífera “venezuelana”.
A elite “venezuelana” quer premiar o presidente da “Venezuela” com o prêmio de “venezuelano” do ano. O prêmio, ironicamente, é entregue em Nova York, patrocinado pelas principais empresas “venezuelanas” e teve como últimos vencedores o atual ministro da justiça, aquele, o juiz que prendeu o opositor, liberou as armas e quer liberar a matança policial, e o ex-prefeito de “Caracas”, atual governador da província e que foi eleito basicamente com a mesma proposta que elegeu o governador da província de “Maracaibo”. O local do evento, o Museu de História Natural de NY, já anunciou que quer rever a realização do evento em sua sede e o prefeito nova-iorquino disse que o presidente da “Venezuela” é uma vergonha com sua visão de mundo. Isto é apenas uma mostra de como o Brasil é visto no mundo deste que esta turma horrorosa assumiu o poder. Em outros lugares estamos nos tornando a vergonha mundial. Quem sabe lendo como “Venezuela” a ficha caia para aqueles que ainda permanecem cegos e calados.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Os oitenta tiros e a precificação da vida





Setenta e oito é o número de disparos que a polícia alemã praticou durante todo o ano de 2018. Oitenta é o número de disparos que a força militar brasileira praticou contra o carro conduzido pelo segurança e músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no bairro de Guadalupe, no Rio de Janeiro. No carro, estavam Evaldo, a esposa, a afilhada de 13 anos e o filho de 7 anos. A força militar que assassinou o segurança e músico disse que realizou a operação porque ele era um suspeito. Não conseguiram dizer suspeito exatamente de quê. Nenhuma arma foi encontrada no veículo. Evaldo, como quase todas as vítimas de violência policial no Brasil, era negro.
Na semana anterior aos oitenta tiros, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, deu uma entrevista chocante ao jornal O Globo, em que afirmava que a utilização de snipers para o “abate”, sim, este é o temo, “abate”, de suspeitos já estava sendo realizada no estado do RJ, apenas, segundo suas palavras, “não estava sendo divulgada”. Sem querer entrar no mérito ou no significado psicológico da divulgação de algo que “não está sendo divulgado”, o governador do terceiro maior estado do país basicamente anunciou e se gabou da prática de um crime. Na mesma entrevista, Witzel afirmou, com um sorriso de canto nos lábios, que não se importava com o número recorde de mortes em operações envolvendo policiais ou outros agentes de força pública entre os meses de janeiro e de fevereiro deste ano. Matar era a principal promessa de campanha de Witzel. Contratar snipers para “mirar na cabecinha” era o seu lema. A repercussão da entrevista do governador foi nula. Após o caso, desta semana,  o falante Witzel disse que não tinha nada a declarar sobre o caso dos oitenta tiros que mataram Evaldo.
Na mesma semana, preocupado com o avanço de Witzel entre o eleitorado de extrema-direita nacional, foi a vez de João Doria utilizar a matança como instrumento político. Uma operação policial na cidade de Guararema resultou na morte de dez bandidos. O objetivo aqui não é discutir se os mortos neste caso estavam fazendo algo errado ou não. A questão, que ninguém fez, é como bandidos tão fortemente armados (segundo o governo do estado) foram tão facilmente trucidados na operação. Fora isso, a forma como a polícia agiu mostra que se sabia previamente que o crime ocorreria, havendo outras formas de impedir sua ocorrência sem o derramamento de sangue. Mas sangue dá voto. Doria precisava mostrar que sua polícia é “efetiva” e a “efetividade” para o público do programa do Datena se dá com bandidos mortos. A audiência seria menor numa reportagem do tipo “polícia impede assalto em Guararema”. Possivelmente a reportagem não teria nem dois minutos. Polícia matando, isso sim dá ibope. Doria é publicitário e sua especialidade é entregar o que o consumidor quer. Já havia percebido isto na eleição, em que repetia que na sua gestão a polícia iria atirar para matar. No mesmo dia da ação dos oitenta tiros no Rio, Doria condecorou os policiais que atuaram no caso de Guararema. “A nossa polícia manda para o cemitério”, disse o governador no evento.
Tanto Witzel quanto Doria agem fora da lei ao incentivar que agentes públicos usem instrumentos letais sem que seja a última opção. Isto é aparentemente um “detalhe”, uma vez que os dois divulgam seus crimes abertamente e contam com o silêncio conivente da opinião pública. Mas é um “detalhe” que pode incomodar. Pensando nisso, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, lançou há pouco mais de um mês seu pacote anticrime que, entre outras coisas, legaliza a ação de agentes públicos nos moldes já praticados por Witzel e Doria e, mais do que isto, afasta qualquer risco de punição a este agente público caso ele cometa um erro. Basta que ele diga que estava sob forte emoção ou que se tratava de um suspeito. A partir do projeto de Moro, por exemplo, os militares que assassinaram Evaldo não correriam nenhum risco de processo, uma vez que alegaram que o pai no carro com sua esposa e duas crianças era um suspeito.
O Brasil é um país racista. Carregamos na nossa pele, todos nós, uma herança sangrenta e vergonhosa da escravidão. Os militares assassinos acharam que Evaldo era suspeito apenas porque ele era negro. O mesmo vem acontecendo com boa parte dos suspeitos mortos pela polícia de Witzel. Negros são vítimas de quase todo abuso cometido por policiais. Nossa elite e nossa mídia são praticamente toda formadas por brancos. Eles não se importam com Evaldo. O segredo do sucesso social para eles está na economicidade da vida. Preocupe-se com seu emprego e com o pagamento das suas contas, vendem eles. Foda-se o resto. Toda análise é feita com base no que pensa o mercado financeiro, “os investidores”. Às vezes eles estão felizes, às vezes estão tristes. De certa forma, este é o governo do mercado financeiro. É simbólico que o novo ministro da Educação, com experiência zero na área, venha da área financeira. A visão de mundo desta turma está em precificar. Eles precificam tudo. A vida de pessoas como Evaldo, no mundo guiado por esta gente, tem um preço muito baixo. Os assassinatos cometidos pelas polícias de Doria e Witzel não derrubam ações. 
Doria, Witzel e Moro não estão juntos apenas nesta empreitada. Segundo levantamento, atualmente quarenta por cento dos presos no Brasil ainda aguardam julgamento final, ou seja, estão presos ilegalmente, uma vez que a Constituição deixa claro que uma pessoa só é culpada após este julgamento em última instância. Moro lidera a pressão sobre o STF para que a prisão em segunda instância seja definitivamente estabelecida. Doria e Witzel têm planos de privatizações de prisões, em que o valor pago às empresas gestoras das cadeias seria calculado a partir do número de presos. Mais prisões, mais dinheiro para o investidor, sendo a presunção de inocência um chato entrave para tão lucrativo investimento. Está precificado. A mesma coisa ocorreu na facilitação do porte de armas liderada por Moro. Não foi por acaso que ele recebeu os lobistas da Taurus no dia anterior do decreto. Sacou?
Enquanto Doria, Witzel e Moro exercitam a matança, a preocupação dos precificadores está na Reforma da Previdência. “É ela que vai gerar empregos”, dizem os precificadores para convencer a população. É o mesmo argumento usado na Reforma Trabalhista. Os telespectadores precificados consomem esta ideia. A grande característica deste mundo em que pessoas são mercadorias precificadas é que, como mercadorias, perdemos a característica humana da empatia. Mais do que isto, tornamo-nos animais violentos, incapazes de refletir sobre crimes cometidos pelo Estado e sobre a nossa culpa e nosso papel nestes atos violentos. Não é à toa que nossa sociedade sucumbiu a um projeto de governo que tem como símbolo a arma. Não é à toa que nossa opinião pública assiste bovinamente às ações lideradas por Doria, Moro, Witzel e Bolsonaro.
A elite precificadora fará seu evento anual em Nova York em algumas semanas. Todos os precificadores estarão lá. Será entregue o prêmio de brasileiro do ano numa cerimônia deste evento. O vencedor deste ano será Jair Bolsonaro, chefe do ministro que lançou o pacote que libera a matança oficial. O ministro, aliás, foi o vencedor do ano passado. No ano retrasado, o vencedor foi João Doria Jr. É possível, neste ritmo, que o vencedor do ano que vem seja Witzel. O Brasil da extrema-direita já está precificado.


P.S.: Ver imagens da família destruída pela ação da força pública no Rio me parte o coração. Um crime cometido por agentes públicos é um crime cometido por toda a sociedade, que aceita passivamente esta situação e, mais do que isto colocou no poder pessoas que se mostram compromissadas com a ideia de converter o Brasil num estado assassino.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A Donnelley e o papel das editoras nas falências no mercado de impressão



A RR Donnelley, uma das maiores gráficas do país, anunciou sua falência no último domingo, pegando de surpresa funcionários, clientes, fornecedores e até mesmo o governo, pois se trata da gráfica que realiza a impressão do ENEM. A Donnelley não seguiu o caminho “normal” de empresas em dificuldade financeira, que é entrar com pedido de recuperação judicial antes de dar o passo definitivo. A RR Donnelley é uma multinacional de matriz americana, com fábricas espalhadas pelo mundo e não há dúvidas de que a matriz possui força financeira para arcar com os compromissos da empresa daqui. Por que então se resolveu fechar a empresa do nada, deixando funcionários sem receber salários e direitos trabalhistas, fornecedores sem pagamento, clientes sem seus produtos e o país com risco sério de não ter a prova do ENEM impressa a tempo? Por um motivo simples, eles não estão nem aí para nada disso.
Em geral, o empresariado é formado por pessoas extremamente individualistas e totalmente incapazes de enxergar que eles fazem parte de um todo, que chamamos de mercado, que precisa da existência de diferentes atores  para funcionar de forma sustentável. Trabalhei por mais de uma década em editoras e posso afirmar sem medo que não há responsabilidade maior na quebradeira de toda a cadeia do mercado impresso do que as das editoras.
Do ponto de vista do fornecimento, as editoras ajudaram as grandes redes, especialmente Saraiva e Cultura, a destruir as pequenas livrarias que eram fundamentais para o negócio. Fizeram isto dando descontos especiais a estas redes, com o argumento de que eram os principais clientes, e dando prazos de pagamentos a perder de vista. As Lojas Americanas, uma das maiores clientes do mercado editorial, por exemplo, trabalhava com o surreal prazo de 210 dias para pagamento e sempre atrasava, não recebendo nenhuma retaliação das editoras.  Pois bem, agora temos Saraiva e Cultura quebrando, as Lojas Americanas não pagando e as editoras pequenas quase inexistindo, fruto da política das editoras de ajudar as grandes redes a destruí-las. A visão de curto prazo e a despreocupação com a sustentabilidade do mercado por parte das editoras há seis ou sete anos criaram um cenário em que hoje as editoras estão ficando sem ter para quem vender.
Do ponto de vista do fornecimento, as editoras ajudaram a Suzano, maior fornecedora de papel do país, a basicamente destruir o mercado de fornecimento de papel por pequenas distribuidoras. Eram elas que garantiam a sustentabilidade do mercado principalmente através da importação, que criava uma concorrência para o monopólio de produção da Suzano. Há mais ou menos seis ou sete anos, a Suzano decidiu que era hora de agir contra estas pequenas distribuidoras. Passou a praticar algo semelhante a um dumping na venda de papel da própria distribuidora e começou a importar papel para revender a baixo custo. Era muito claro que este processo tinha como objetivo controlar o mercado e que num futuro não tão distante, com o monopólio reestabelecido, os preços iriam para a estratosfera e as editoras estariam nas mãos da empresa. Pois as editoras e seus gestores com visão de curto prazo entraram no jogo. Entupiram a Suzano de pedidos e quebraram as distribuidoras, não tendo hoje para onde correr no mercado nacional.
Na história das quebradeiras das gráficas, nenhuma tem mais destaque do que a da Prol, que creio que tenha sido a “pioneira” do quebra-quebra entre grandes empresas do setor. A Prol era uma das maiores gráficas do Brasil, gerida por seu fundador, que resolveu transmitir a gestão a seu filho para tentar curtir a vida. O filho fez aquilo que quase todo jovem rico formado em MBAs faz quando assume uma empresa, quebrou-a. O pai tentou reassumir e pediu recuperação judicial. Neste período, a Prol passou a praticar preços inexplicavelmente baixos, que claramente não eram sustentáveis, com o objetivo de tentar adiar ao máximo o fim. As editoras, mais uma vez despreocupadas com a ideia de sustentabilidade, entupiram a Prol de pedidos. Este processo fez com que as concorrentes da Prol, até então saudáveis financeiramente, passassem a enfrentar problemas. A recuperação judicial da Prol causou a quebradeira de diversas gráficas pequenas. Um belo dia, durante a recuperação, a Prol foi fechada. A justiça descobriu que seus donos estavam transferindo o dinheiro das dívidas para contas secretas no exterior. Funcionários ficaram sem salário, clientes sem produto, fornecedores sem pagamento. Do mesmo jeito que a Donnelley. O filho do dono da Prol, após o fracasso da sua gestão, foi curtir uma viagem para “colocar a cabeça no lugar”. Seus funcionários seguem sem receber.
As editoras são as grandes responsáveis pelas quebradeiras envolvendo todo o processo produtivo do setor. A falta de visão do todo e de longo prazo criou um cenário em que hoje elas praticamente não têm de quem comprar papel, não tem quem imprima o material e não têm pra quem vender. Isto é fruto em parte de uma gestão feita por profissionais doutrinados em faculdades e MBAs ruins, que só conseguem enxergar o preço na hora da escolha e fecha o olho para qualquer preocupação com sustentabilidade. Há seis ou sete anos, enquanto diretores recebiam bônus, era muito claro que a conta iria chegar. A conta chegou.
Deixo aqui minha solidariedade aos profissionais da Prol e da Donnelley, que se dedicaram às empresas e que são as maiores vítimas dos golpes aplicados por este empresariado tosco que comanda as empresas brasileiras. A situação da Donnelley foi tão bizarra que os funcionários não puderam entrar nem para retirar os pertences pessoais. Em um lugar sério, toda a alta diretoria da empresa seria processada judicialmente. Não acho que é o que acontecerá por aqui. É bem provável que o CEO da Donnelley já esteja pensando numas férias. Precisa "colocar a cabeça no lugar"

terça-feira, 2 de abril de 2019

Os crimes de Witzel e o silêncio da sociedade




O governador do Rio Wilson Witzel deu uma entrevista aterrorizante no último domingo para o jornal O Globo. Diz o governador que sua promessa de utilizar snipers para “abater” suspeitos já está sendo cumprida, apenas não está sendo divulgada. Fora o paradoxo de o governador divulgar que algo não é divulgado, temos o chefe do Executivo do segundo maior estado do país confessando um crime. Sim, Witzel é um criminoso e, o pior, foi eleito deste jeito. São inúmeros os crimes que Witzel já cometeu desde a campanha e que segue cometendo depois de assumir o cargo. Apologia à tortura e ao assassinato e, de acordo com a entrevista dada ao Globo, não apenas a apologia, mas o assassinato como ato.
Witzel tem forte relação com os juízes da Lava-Jato, sendo amigo pessoal de Marcelo Bretas, chefe da operação no Rio. Foi eleito com apoio e interferência da operação, que divulgou durante a eleição delações sem prova contra seu principal concorrente, Eduardo Paes. Sérgio Moro, ministro da Justiça e chefe supremo da operação, teve como segunda medida (a primeira foi a facilitação da posse de armas) do seu mandato um pacote de leis que, entre outras coisas, praticamente legaliza o tipo de atitude que Witzel está dizendo cometer no Rio de Janeiro. Segundo o pacote de Moro, um policial terá o direito de “abater” qualquer pessoa suspeita, sem correr o risco de sofrer um processo caso se verifique que não havia risco na situação. Independentemente da opinião sobre o pacote (que eu considero absurdo) e de debates humanitários, o fato é que a própria existência do pacote mostra que hoje este tipo de operação hoje é ILEGAL. É errado do ponto de vista humano e do ponto de vista legal. Enquanto este absurdo não for votado e transformado em lei, isto simplesmente não pode acontecer não apenas do ponto de vista humano, mas do ponto de vista legal.
Moro e Witzel não têm muito apego ao ponto de vista humano ou legal. O próprio uso do termo “abater” já mostra que os dois não são capazes de enxergar naquelas pessoas seres humanos, tratam-nas como gado. Desumanizar a vítima é a principal arma de governos totalitários na preparação de genocídios. A forma como a Lava-Jato se destacou foi exatamente atropelando as leis que garantem o estado democrático de direito. Presunção de inocência e direito à defesa (os dois alicerces da democracia) são meros detalhes no projeto de poder destas pessoas. Assistimos passivamente um dos primeiros passos, a transformação da prisão preventiva ilegal em instrumento de tortura psicológica para a obtenção de delações. O suspeito não tem direito constitucional na cabeça do governador. Deve ser sumariamente condenado à morte (pena não prevista na Constituição) pelo agente do Estado. O fato da lei não permitir isto não os impede de agir. Lembro-me de uma entrevista de Moro no Roda Viva na semana em que o Supremo iria votar a interpretação que permitia a prisão na segunda instância. Moro, após fazer ameaças veladas à juíza Rosa Weber, cujo voto era o decisivo na votação, disse que, em caso de derrota no Supremo, iria entrar com um pedido de PEC para alterar a constituição e permitir a prisão neste momento. Ao dizer que era necessária uma PEC, Moro assumiu que a Constituição atualmente simplesmente não permite esta prisão. Mas a vontade dele e da sua turma está acima da lei. Moro e Witzel nada mais fazem do que utilizar no Executivo as mesmas táticas que os levaram ao topo. O desrespeito à lei e o incentivo à ideia de que justiça se faz com vingança. A lei não ter sido mudada é apenas um detalhe que não impede o tipo de operação que Moro e Witzel defendem.
Ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, carrasco nazista responsável pelo transporte de milhões de judeus para campos de concentração durante a segunda guerra, Hannah Arendt surpreendeu ao dizer que Eichmann era uma pessoa “normal”. Era um burocrata da vida, incapaz de pensar e de discernir o certo do errado, estando feliz apenas por cumprir ordens sem entender que ela trazia uma responsabilidade. A sociedade, deixa Arendt implícito no livro Eichmann em Jerusalém, repetirá os erros totalitários se formar cidadãos incapazes de pensar. A entrevista de Witzel não trouxe repercussão alguma. Na mesma entrevista em que afirma com orgulho que assassinatos estão sendo cometidos por agentes públicos de forma sumária e bárbara, sem a garantia de nenhum direito à vítima, o governador diz não se importar com o aumento gigantesco no número de mortos vítimas de ações policiais nos três meses de seu governo. Pelo contrário, sente até certo orgulho disto. A sociedade tende a personalizar culpas. Ao silenciar em relação aos crimes cometidos e confessados por Witzel, ela se torna cúmplice. O crime cometido por um agente público é um crime cometido em nosso nome e, por isso, somos todos culpados. É isto que diferencia o crime de um bandido individual, que o cometeu em seu nome, do crime do agente público, cometido pelo coletivo. Quando o agente público descumpre a lei, não respeita os direitos humanos e é incentivado pelo chefe do Executivo a fazer isto, já deixamos de viver num estado democrático de direito. O fascismo nos anos 1930 foi instalado por pessoas assim, que iam contando com a anuência silenciosa da sociedade a cada passo criminoso efetuado pelos agentes públicos, até o momento em que os crimes eram tão corriqueiros que se transformam na lei. Aqueles que tentam atrapalhar este processo são transformados em inimigos a serem derrubados. O homem que teria impedido esta turma de chegar ao poder central está preso. A nova etapa é derrubar o Supremo, órgão que possivelmente decretará a ilegalidade do pacote assassino de Moro e Witzel. É a etapa que vivemos por aqui. Não é à toa que o governo a que Moro serve tem o mesmo slogan da Alemanha dos anos 1930. Deutschland über alles. Brasil acima de tudo. Acostumar-se com o silêncio é parte do crime. Quem silencia é criminoso.

segunda-feira, 25 de março de 2019

A insignificância do "eu avisei"



Eu tenho um tio que tem uma bem-sucedida fábrica de vidros. Ele chegou do PR em SP sem absolutamente nada há aproximadamente 45 anos e construiu sua vida a partir dessa fábrica. Há mais ou menos cinco anos, uma das suas filhas, formada na ESPM, foi fazer um estágio na fábrica e tentou implantar algumas mudanças. O meu tio trabalha da mesma forma há 45 anos. Isto quer dizer, por exemplo, que ele controle estoque e faz toda a contabilidade a mão em folhas de papel sulfite. Minha prima tentou mostrar o maravilhoso mundo do excel para ele. Não deu certo. Meu tio ainda faz todos os pagamentos a fornecedores e funcionários em dinheiro. Isto quer dizer que ele vai ao banco todo dia, fala com o seu gerente, pega o dinheiro físico e anda com ele para lá e para cá. Mais ou menos como a Nina naquele episódio de Avenida Brasil em que ela é roubada por um motoqueiro. Minha prima tentou ensiná-lo a utilizar as transferências bancárias. Não deu certo. Após outras tentativas, minha prima e meu tio desencanaram do estágio em menos de três meses. Disse meu tio, “faço as mesmas coisas há 45 anos e veja aonde cheguei”. Não há por que mudar, pensa ele, uma vez que ele é bem-sucedido no negócio.
Jair Bolsonaro é uma pessoa bem-sucedida nos negócios. Ninguém se torna presidente da República sem ser de certa forma bem-sucedido. Para entender a presidência de Bolsonaro, é fundamental vermos a forma como ele alcançou o sucesso.
Bolsonaro jamais produziu nada. E quando eu digo nada, não quero dizer algo importante ou grande, refiro-me mesmo a coisas pequenas ou insignificantes. Bolsonaro nunca produziu um parafuso que seja ou escreveu algum pequeno texto relevante. Sua existência é um enorme vazio. Aposentado de forma compulsório pelo Exército após um fracassado atentado, Bolsonaro ingressou na política e conquistou uma vaga de deputado como representante de uma categoria, a dos militares. A incapacidade de produzir ou criar qualquer coisa de relevante que ele já havia apresentado na vida anterior à política foi levada ao Congresso. Durante os 28 anos de mandato, não produziu e não participou de nada minimamente importante. E olha que muita coisa importante aconteceu enquanto Bolsonaro nada fazia no Congresso. Tivemos o Plano Real (ele votou contra), o Bolsa Família (que ele combateu), o Prouni (também combatido por ele), entre outras mudanças significativas. Bolsonaro encontrou outra forma de alcançar fama e sucesso na vida política, algo que pudesse mantê-lo no Congresso levando a vida de vagabundo que sempre gostou: falar merda. Falando em termos econômicos, havia uma grande demanda não atendida em parcela significativa da população disposta a consumir merda. Bolsonaro preencheu este vácuo. Foram anos aparecendo em programas de TV de merda com o objetivo de falar merda. O esquema era sempre o mesmo: algum assunto “polêmico” e Bolsonaro opinando. O então deputado não é especialista em nenhum assunto. Os programas de TV não queriam alguém que entendesse do assunto, o que queriam era alguém que falasse merda, e ninguém de adequa melhor ao papel de espalhar merda do que Bolsonaro.
De certa forma, Bolsonaro foi o precursor da grande era de distribuição de merda que viria com o desenvolvimento das redes sociais. Não é à toa que ele foi quem melhor conseguiu se adaptar a este novo momento. Na comunicação via Twitter não há espaço para ideias e reflexão, apenas para “lacrações”. E nada lacra mais do que falar merda. E foi assim, não produzindo nada, sem criação intelectual alguma, apenas falando muita merda, que Bolsonaro chegou ao topo. Do mesmo jeito que meu tio não vê sentido em mudar sua forma de trabalhar, uma vez que ela o levou ao sucesso, é impossível pedir agora a Bolsonaro que ele pare de falar merda e efetivamente produza algo real e concreto. Ele alcançou o sucesso sendo vagabundo e falando merda.
Ser improdutivo e falar merda não exigem diálogo ou companheirismo. Sendo assim, Bolsonaro passou os 28 anos no Congresso dialogando basicamente apenas com seus filhos, tão improdutivo e faladores de merda quanto ele. Desta forma, não vai se acostumar agora à ideia de que deve negociar com o Congresso, ceder e escutar. Tudo que o levou ao sucesso foi o inverso. Por que ele iria escutar especialistas ou estudar qualquer assunto se a sua fama veio exatamente do fato de que ele é o cara que fala merda para os especialistas e é incapaz de estudar qualquer coisa?
Com raras exceções, Bolsonaro chamou pessoas exatamente como ele para o ministério. Na Justiça, temos a turma da Lava Jato. Esta turma se tornou bem-sucedida realizando prisões ilegais, utilizando prisões preventivas como forma de tortura psicológica e quebrando todo tipo de lei possível. Não é agora que vão se “submeter” à lei, afinal.  Moro passou anos sendo aplaudido por descumprir a lei.  Destruir instituições estimulando o revanchismo e o populismo penal. Foi assim que esta turma subiu, é assim que ela quer manter o topo. “Derrubem o Supremo”, eles dizem. Onde já se viu impedir que a operação abra uma fundação privada com o dinheiro que foi supostamente roubado da Petrobrás? No ministério do meio ambiente, temos um Bolsonaro com grife. Nunca produziu nada, a não ser um diploma falso de Yale. Na educação, Ricardo Velez, indicado de Olavo de Carvalho, trava a grande luta contra tudo que Bolsonaro não representa e detesta: conhecimento e pensamento.
A primeira coisa para se enfrentar um regime como o que Bolsonaro e Moro tentam impor ao país é ser diferente deles. Estude, reflita e pensa. Produza reflexão e conhecimento. Pare de dizer “eu avisei”. Ninguém se importa com isso, apenas o seu ego. As pessoas que você avisou votaram neste governo que aí está. Ele está sendo exatamente do jeito que elas queriam. Ao invés de avisar, tente dialogar (uso “tente” porque tenho plena noção de que há casos em que é impossível). E não comemore cada vez que um eleitor de Bolsonaro se ferrar. Defenda as causas humanitárias e de defesa das minorias. Combata as opressões. Lute contra o pacote fascista de Moro. Lute contra a visão tosca de geopolítica mundial de Ernesto Araújo. Lute contra a destruição educacional da turma de Olavo. Defenda as instituições democráticas, mesmo que isto signifique defender alguém claramente filho-da-puta como Temer. O que você avisou já não nos interessa mais. O que interessa é a luta. Há uma vida real acontecendo enquanto você comemora o fato, por exemplo, de produtores rurais gaúchos, quase todos eleitores de Bolsonaro no ano passado, terem perdido 48% das suas exportações porque o governo em que eles votaram está arrumando brigas com a China e com os países árabes. Aproveite as brechas que o vendedor de merda dá para uma aproximação com aqueles que compraram a merda no ano passado. E isto não se obtém falando “Eu avisei”.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Justus, a falsa grávida e a geração do julgamento




Não sei exatamente em qual temporada do Aprendiz aconteceu esta prova. Eram três mulheres, as três finalistas. Elas tinham ido para Santiago e de repente apareceu o Roberto Justus num helicóptero, usando óculos escuros, acompanhado de uns seguranças. Uma aparição meio divina. Na prova que ele anunciaria a seguir, as três mulheres teriam que arrumar um jeito de voltar de Santiago para São Paulo sem dinheiro. Teriam alguém da produção acompanhando só pra pagar as refeições e a hospedagem. Ganharia quem chegasse  primeiro. Não lembro exatamente o que aconteceu com a mulher que terminou em segundo. O que me recordo é da primeira e da terceira. A terceira colocada foi correndo para a rodoviária dizendo simplesmente que queria voltar para o Brasil e que estava sem dinheiro. Implorou e conseguiu convencer o dono da empresa rodoviária a dar-lhe um lugar num ônibus que estava meio vazio. A primeira colocada foi até o aeroporto, inventou que havia sido assaltada, estava grávida e tinha que voltar pro Brasil para ver um parente doente. Conseguiu rapidamente doações que lhe permitiram comprar a passagem de volta. Enquanto ela já estava no Brasil, a terceira colocada cruzava os Andes, maravilhada com a paisagem e sem saber que estava prestes a ser humilhada em rede nacional pelo julgador supremo do programa, Roberto Justus.
Por algum motivo, enxergo neste momento sinais da transformação que acontecia em minha vida. Fazia faculdade de economia naquela época e praticamente toda sala assistia ao programa. No dia seguinte a esta prova, todos, menos eu, estavam tirando sarro da mulher que foi à rodoviária. Eu disse que teria feito a mesma coisa. Acho mais legal viajar de ônibus e a experiência que a terceira colocada deve ter tido foi mais engrandecedora do que a da primeira colocada. Também disse que eu provavelmente teria ficado mais tempo por lá e que nem sempre o caminho mais rápido para as coisas é o mais legal. Vencer é ter a experiência mais enriquecedora. Isto sem contar no fato de que a primeira colocado havia claramente enganado os outros, mas não há espaço para este tipo de reflexão no “mundo dos espertos”. Meus colegas perguntaram se eu estava fumando maconha.
Realities shows criam uma identificação entre o público e o opressor. Talvez não criam, mas explicitam a forma como este laço existe. Na faculdade, éramos jovens de classe média que se humilhavam em dinâmicas de grupo ridículas assistindo a um programa em que jovens de classe média se humilhavam numa grande dinâmica de grupo filmada para tentar um emprego. A bizarrice era que não nos identificávamos com as pessoas que passavam pela mesma situação que nós, mas sim com aquela que as humilhava e as julgava, no caso Justus. Comentávamos os erros dos participantes com a mesma empáfia do empresário. Assim age a inversão de valores. A reação que meus colegas tinham sobre a mulher que pegou o ônibus para vir de Santiago foi a mesma que Justus apresentou na reunião.
A grande sacada de Realities shows é que de certa forma eles transformam o público em “Deus”. Somos onipresentes, oniscientes e, em alguns, onipotentes. É assim no Big Brother, em que vemos, julgamos e punimos quase como no Velho Testamento. Num Reality como O Aprendiz, falta-nos a onipotência, exercida pelo apresentador. Há uma correlação entre este programa e o desenvolvimento da ideia do empreendedor como o salvador da modernidade,  a figura dotada da máxima admiração. Não é à toa que o cargo mais importante do mundo hoje é ocupado pelo apresentador da versão americana do programa, Donald Trump. Ele é o cara que na TV valorizava o bem-feito, punia o mau-feito e julgava pela população. O “Deus” dos telespectadores. Na época em que eu assistia, Roberto Justus apareceu numa pesquisa como a pessoa mais admirada entre jovens brasileiros.
Tenho a impressão que ninguém sabe ao certo o que Justus faz. Sei que o pai dele foi o empreiteiro que construiu Brasília. Tudo nele me parece meio falso. É uma pessoa que se transformou num produto. Sei que ele ficou famoso namorando mulheres famosas e que tem uma das profissões mais inúteis do planeta, publicitário. A parte mais curiosa dos publicitários é que eles realmente acreditam nas mentiras que contam. Eles realmente não sabem que não servem para nada. Lembro-me de debater um dia com um, sem utilizar estes termos, claro, mas ele me perguntou o que seria do mundo sem os publicitários. Eu disse que seria ou a mesma coisa, ou melhor. Ele disse que eu não tinha entendido nada. Sigo sem entender.
A minha ficha sobre o meu papel no mundo como público deste tipo de porcarias veio na edição seguinte. Lá estava eu fascinado novamente com o super empresário humilhando jovens de terno e gravata sonhando com um emprego. A equipe vencedora teve como prêmio pela vitória na prova uma viagem de navio em que teriam que assistir a um show de Roberto Justus. Poucas coisas no mundo são piores do que Justus cantando. Lá estavam os jovens na beira do palco ouvindo Justus cantar I’ve got you under my skin se esforçando ao extremo para fazer caras de que estavam adorando. Um dos rapazes merecia inclusive um Emmy pela atuação neste episódio. Ele deveria abandonar o papo furado de empreendedorismo e partir pra vida artística. Exatamente no dia seguinte meu chefe me chamou para conversar. Ele havia viajado no final de semana e havia comprado um jet ski. Não há, na minha opinião, nada mais imbecil no mundo do que jet ski na praia. Nada. Talvez golfe, mas no golfe não há risco de contusão de inocentes. Mas acho uma babaquice pegar um terreno gigantesco e colocar pequenos buracos no chão para ricos tentarem colocar uma bolinha como entretenimento. Se eu virasse presidente, meu primeiro ato seria a desapropriação de todos os campos de golpe e a transformação deles em terrenos para moradia popular. Mas não ganharia com esta proposta. Afinal, ganhou o cara que como primeira medida facilitou a posse de armas. Mas voltando ao jet ski, eu passei uns longos 10 minutos ouvindo meu chefe se vangloriar pelo assunto que acho o mais babaca do mundo, jet ski. Quando saí da reunião pensei, bom, eu sou um dos jovens sorrindo ouvindo o Roberto Justus cantar.
Quase duas décadas depois dos realities shows, de certa forma nossas vidas se transformaram em um. Estamos sempre julgando e sendo julgados. Acho que não passo dois ou três dias seguidos sem avaliar alguém. Pode ser com uma nota de 0 a 10 ou com carinhas. Como foi sua experiência? Como foi sua compra? Julgar enche o saco e nos impede de pensar. Respondemos “como foi sua viagem?” sem ter ideia de como é a vida do motorista. Julgar menos e pensar mais é o caminho. Ou deveria ser,  mas de certa forma Justus nos doutrinou. Os jovens metidos a empreendedores da década passada são os adultos de hoje. E eles estão fazendo muita merda. A mulher que simulou a gravidez para enganar os que passavam no aeroporto já era um prenúncio do que viveríamos uma década depois. Não tinha como uma geração formada por admiradores do Roberto Justus dar certo, afinal.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Bolsonaro não enganou seus eleitores



Bolsonaro não enganou seus eleitores. Não sei se um bom texto começa com a repetição do seu título, mas sinceramente não consigo pensar num começo melhor. Bolsonaro se apresentou como candidato tendo como “currículo” vinte e oito anos de um mandato como deputado federal completamente insignificante, em que se “destacou” graças a bizarrices espalhadas na mídia sensacionalista. É o político que ia no Superpop ou no CQC falar merda, gerando um ou dois pontos a mais de audiência. Não entende absolutamente nada sobre nenhum assunto, aproveitou seu mandato para ofender o maior número de pessoas possíveis, lutou contra o conhecimento, o respeito e a inclusão. É como presidente aquilo que foi como deputado.
O presidente Bolsonaro não tem nenhuma qualidade. Nenhuma. Tanto pessoal quanto profissional. Profissionalmente, é um ex-militar vagabundo e preguiçoso que saiu do Exército porque planejou um atentado malsucedido. Como pessoa, as principais “qualidades” que seus súditos adoram espalhar são que ele é “bom pai, autêntico e fala o que pensa”. Sobre ser bom pai, criou uns filhos de merda. Todos os seus filhos são brucutus ignorantes e insignificantes. Nenhum presta para nada ou é capaz de produzir algo minimamente relevante. Sobre ser autêntico e falar o que pensa, isto não é uma qualidade se você só pensa bosta. Aliás, se você só pensa bosta, não seja autêntico.
Muita gente pensa bosta. E votou neste imbecil. Este é o problema real. Numa eleição com trocentos candidatos preparados, a maioria da sociedade se identificou com o autêntico que só fala bosta. O ex-ministro da Educação que colocou milhares de jovens na Universidade não foi páreo para o imbecil que acha que o problema da Educação é a “mamadeira de piroca”. A ex-ministra do Meio Ambiente, autoridade mundial no assunto, que enfrentou todo tipo de dificuldade e preconceito, não foi páreo para o babaca que disse que teve uma filha mulher porque deu uma fraquejada. O ex-ministro da fazenda do Plano Real não conseguiu conter o avanço do idiota que acha criança gay deve apanhar dos pais. O ex-governador médico de SP com seu governo fiscalmente respeitável não conseguiu deter a besta que quer impedir que jovens tenham acesso a educação sexual. Tínhamos muitas opções, à esquerda e à direita. As pessoas escolheram a que tinha como “qualidade” falar bosta.
É complicado convencer alguém que se destacou falando e fazendo bosta a de repente parar de falar e fazer bosta. Coloquemo-nos no lugar de Jair Bolsonaro. Um ex-capitão rejeitado que ganhou fãs e notoriedade falando e fazendo bosta. Chegou assim ao topo. Como manter-se lá? Falando e fazendo ainda mais bosta, ora pois.
Quem acha que o eleitor de Bolsonaro está arrependido da escolha que fez vive fechado numa bolha e/ou é muito inocente. Ele está sendo exatamente o que prometeu. Um culto ao preconceito, à ignorância, à violência, ao machismo e à repressão sexual. Cada frase ou gesto seu que incentive estes cinco temas gera verdadeiros orgasmos em seus seguidores. O problema não é apenas Bolsonaro, é sim principalmente a sociedade que o elegeu.
Assim como seus eleitores, Bolsonaro adora acusar os adversários (vistos como inimigos) daquilo que faz. Chama todos de mentirosos enquanto espalha fake news. Faz pose de vítima enquanto chama tudo de vitimismo. Assina a posse com uma caneta Bic para mostrar humildade, enquanto eleva em sei lá quantos porcento os gastos com cartão corporativo. É uma das táticas típicas do fascismo.
Bolsonaro e seus eleitores não gostam de especialistas. Passaram anos sucumbindo às vontades daqueles que entendem. Paulo Freire não entende de educação, dizem eles. Quem entende é o Frota. Marina Silva não entende de meio ambiente. Quem entende é o rapaz do Partido Novo que inventou um diploma falso em Yale. Somos um país de Damares. De pessoas lunáticas e ignorantes querendo impor sua ignorância de forma truculenta. Bolsonaro evita debates. É incapaz de passar mais de um minuto falando sobre um assunto. Já tinha deixado isto claro na eleição. Segue a fórmula que deu certo agora. Seus eleitores também são incapazes de passar mais de um minuto prestando atenção, afinal. A comunicação deles é toda feita por memes.
A sociedade é a culpada. A sociedade que aceitou cegamente a forma como a Lava-Jato atropelou a lei. A sociedade que viu o juiz que prendeu o presidente virtualmente eleito e ganhou como prêmio um ministério. A sociedade que aprova o projeto deste mesmo ministro de legalizar os crimes cometidos por agentes do estado. A sociedade que aprova a facilitação do posse de armas. Numa eleição com tantas opções decentes, quem votou em Bolsonaro está tendo exatamente o que queria. Um imbecil truculento e preconceituoso. Somos uma sociedade truculenta e preconceituosa. 

quarta-feira, 6 de março de 2019

Sobre mentiras e má memória para nomes




Eu confesso que acho criança mentindo uma coisa legal e bonitinha. Quando a mentira é inofensiva, claro. Poucas coisas são tão divertidas do que deixar uma criança mentindo só pra ver onde ela é capaz de chegar. Conheço uma criança que, por exemplo, vai mentindo até chegar um momento em que ela diz “agora não sei mais o que inventar”, simplesmente sorri e sai andando.
Eu tive algumas mentiras engraçadas na minha infância, quase sempre quebrando coisas. Lembro-me que uma vez destruí a cortina do quarto dos meus pais brincando de Tarzan. A minha desculpa nesta situação era sempre que eu estava no meu cantinho quieto quando de repente, “puf, caiu”. A mesma brilhante desculpa usei quando quebrei uma lâmpada usando uma raquete de madeira vagabunda. Nunca dava muito certo, mas torço muito para, se um dia eu tiver um filho, ele tente usar comigo as mesmas mentiras toscas e mal preparadas. Vou me divertir muito.
Talvez por isso que eu esteja longe de ser o que chamo de “ditador da verdade”. Mentiras inofensivas são necessárias no meu dia-a-dia. Nunca direi a verdade se ela for desnecessária e tiver como único intuito a agressão. Pessoas que se dizem extremamente “verdadeiras” costumam ser hipócritas e agressivas. Não tenho muito saco para elas. Costumam ser também pessoas perigosas, uma vez que realmente acreditam no que dizem. Quando eu digo que realmente acreditam quero dizer que elas estão prontas para ofender por qualquer motivo. São as que mais mentem e estão dispostas a tudo para manter uma mentira de pé.. Repetem coisas do tipo “digo mesmo” e acham que as pessoas são obrigadas a ouvi-las quando elas têm “verdades a dizer”. Ninguém é obrigado a te escutar. Em situação alguma. Em nenhuma mesmo. Lembre-se sempre que as pessoas têm todo o direito de não querer saber o que você acha ou pensa. Pense se ela realmente precisa ouvir o que você tem a dizer antes de dizer algo. 
Decore nomes de pessoas. Esta é uma dica importante para a vida. Sempre que você conhecer alguém, preste realmente atenção no ato da apresentação. Somos extremamente seletivos no momento em que fazemos isto. Outro dia descobri uma mentira que contava para mim mesmo e que nem de longe é bonitinha ou inofensiva como as que contava na infância. Eu passei 34 anos da minha vida dizendo para mim mesmo que era ruim com nomes. Não sou, nunca fui.
Toda escrotice social pode ser verificada na relação que nosso cérebro tem com nomes de pessoas. Escolhemos quais nomes vamos decorar a partir de interesses pessoais. Normalmente quando vamos conhecer alguém que julgamos “importante” inclusive já sabemos o nome desta pessoa antes de conhecê-la. O nome surge neste caso como forma de submissão. Minha relação com nomes mudou há duas semanas, quando fui conhecer algumas pessoas para um projeto educacional em que estou começando a trabalhar. Cumprimentei as pessoas e fui conversar com uma delas. Ela estava de mau humor, provavelmente um pouco cansada de jovens de classe média chegando naquela região metidos a donos de todo conhecimento e querendo “salvar o mundo”. Falei sobre meus planos e ela me respondeu que achava curioso que eu tivesse tantos planos sem conhecer a realidade da região e sem saber nada sobre os alunos. Concordei e, na despedida, perguntei novamente o nome dela, pedindo desculpa por ser “ruim com nomes”. Ela respondeu, de forma irônica, que não havia problemas, eles já estavam acostumados com pessoas “ruins de nomes”. Era algo que eu precisava ouvir. Fui lá para ensinar, aprendi uma lição pra vida.
Tenho excelente memória. Sei o nome de todos os campeões brasileiros, da Libertadores e da Copa dos Campeões. Sei os campeões paulistas desde 1959, por algum motivo meu cérebro travou com o ano de 1958. Não sou ruim de nomes. Passei 34 anos achando isto. Uma mentira que servia para disfarçar minha escrotice. Recordando minha vida, sempre fui muito seletivo nesta “escolha”. Na empresa, por exemplo, sabia o nome daquele diretor que havia cumprimentado uma vez na vida, mas não sabia o nome da senhora que vinha todo dia no mesmo horário passar um pano na minha mesa. Nome é visibilidade. Temos que parar de tratar pessoas como seres invisíveis. Não é algo insignificante que pode ser esquecido. Há um significado social para este esquecimento.
O Brasil vive um dos momentos mais bizarros da sua história. Há um claro processo de destruição da verdade. Reinterpretação cafajeste de fatos. Compulsão mentirosa. E não é uma que se assemelhe àquelas que cometemos em nossa infância. Compulsão porque ela não acaba nunca. Marielle Franco foi vítima de mentiras mesmo depois de morta. Jean Wyllys segue sendo vítima de mentiras mesmo depois de ter saído do Brasil. Na semana passada, espalhou-se a notícia de que Lula, quando presidente, teria vetado a distribuição pública de vacinas contra a doença que viria a matar seu neto. Trata-se de uma mentira. A nossa sociedade é incapaz de não mentir mesmo em momentos que envolvem muito sofrimento pessoal.
As pessoas sabem que estão mentindo. Quem espalha este tipo de mentira sabe que está mentindo. Do mesmo jeito que eu sabia que mentia quando dizia que era ruim de nomes. Ao contrário do que é dito, não acho de verdade que há inocência entre as pessoas que espalham notícias falsas. Elas simplesmente não se importam. O atual presidente da República não se importa em espalhar notícias falsas, assim como seus filhos. Seus adoradores sabem que ele está mentindo e se identificam com ele em parte por isso. As pessoas em geral vivem mentiras. Empregos maçantes, casamentos infelizes, competição desmedida, puxa-saquismo, tudo isto fantasiado de fotos felizes em redes sociais. Muito tempo da vida fingindo. Bolsonaro é apenas o assustador símbolo disto. O tipo de monstro que uma sociedade viciada em mentiras cria. Tornamo-nos uma sociedade de falsos profetas da verdade. Não é à toa que Bolsonaro, o mais mentiroso de todos, adora acusar o mundo de “fake News”. O mesmo ocorre com muitas pessoas que são tão doentes quanto ele.
A cura só pode vir com a reflexão. As semanas após uma conversa me fez ver como passei anos mentindo sobre a má memória com nomes. Reflexão. O único jeito de sairmos desta maluquice em que vivemos. Somos todos vítimas e culpados na sociedade que gerou o monstrengo. O simples fato de não ter votado nele e ter compartilhado a #elenão não te torna inocente. Não será fácil sair disto. Mas o caminho é conversar. Prestar atenção no nome das pessoas é um bom começo. Ninguém vai te escutar seriamente se você não estiver disposto a dedicar um espaço do seu cérebro para seu nome.