quinta-feira, 30 de abril de 2020

E daí?




Eu não tenho dúvidas que boa parte das pessoas que me conhecem devem me considerar um “petralha”. Não vou entrar no mérito do tema. Sim, acredito que se colocarmos numa balança o governo petista fez mais bem do que mal ao país, mas reconheço que houve vários erros na gestão. O fato importante é que quase todo mundo me acha “petralha”. Pois bem, na última eleição presidencial, um dos candidatos disse no palanque que, caso eleito, iria metralhar os “petralhas”. Mais do que isto, disse que aqueles que não concordassem com ele seriam presos ou expulsos do país. Sendo um “petralha”, eu sou uma das pessoas que ele prometeu metralhar. Não concordando com absolutamente nada do que ele diz ou faz, sou uma das pessoas que ele prometeu expulsar ou prender. Qual a reação que os eleitores desta coisa tiveram em relação a mim naquele momento? Elas basicamente falaram: “E daí?”.
O presidente da República fez da perseguição aos gays quase que um slogan de sua carreira. Disse que preferia um filho morto a um filho gay. Defendeu que pais agredissem seus filhos caso notassem indícios de que a criança fosse gay. O número de agressões a gays subiu exponencialmente no país desde a eleição desta coisa que hoje nos governa. Sua vitória representou um incentivo à homofobia. Imagine viver num país em que a maioria das pessoas vota em alguém que te quer morto? Alguém que incentiva que você seja agredido? Esta é a realidade que a maior parte da população LGBT no Brasil vive desde outubro de 2018. Qual a reação dos eleitores desta coisa a estas agressões, a estes assassinatos, a este medo, a este sofimento? Algo muito próximo ao “E daí?”.
Durante a campanha, a coisa que atualmente preside o país elogiou o processo de genocídio indígena brasileiro. Só não elogiou mais porque, segundo ele, não fizemos como os americanos, que, segundo suas palavras, “mataram todo mundo”. A violência contra populações indígenas explodiu em seu governo. O agronegócio e o extrativismo invadem, com anuência do governo, reservas indígenas, expulsam populações e agridem os nativos. Aumentou o número de lideranças indígenas assassinadas. Qual a reação dos eleitores desta coisa quando o então candidato prometia fazer isto ou quando veem algo sobre o assunto? Algo muito próximo ao “E daí?”.
Durante a campanha, o candidato coisa fez diversas declarações racistas. Disse que quilombolas eram pesados por arrobas. Chamou a gigantesca desigualdade racial que vivemos de mimimi. “E daí?”. Estimulou a xenofobia contra imigrantes africanos e haitianos. “E daí?”. Disse a uma deputada que não a estuprava porque "ela não merecia". "E daí?". Disse que fraquejou ao ter uma filha mulher. "E daí?". Prometeu entrar em guerra contra a Venezuela, vizinho que não nos ameaça. “E daí?”. Disse que as universidades públicas eram um antro de vagabundos. “E daí?”. Seu filho disse que fecharia o Supremo com um cabo e um soldado. “E daí?”. Disse que o maior erro da ditadura foi ter matado “pouca gente”. “E daí?”.
O grande momento da carreira desta coisa que nos governa até chegar à presidência foi na sessão de impeachment de Dilma Rousseff, quando, em rede nacional, dedicou seu voto à figura que a tinha torturado na juventude. Um homem que enfiava ratos na vagina das presas por prazer sádico. “E daí?”.
Mais de cinco mil brasileiros já morreram durante a pandemia do Covid-19. Muitos ainda vão morrer. A coisa que nos preside faz tudo para boicotar os esforços para salvar vidas. Espalhou uma cura falsa, criou burocracias para liberar o dinheiro que permitiria que muitos trabalhadores informais ficassem em casa se cuidando, faz campanha quase que diária contra o isolamento, única saída para diminuir a tragédia. Todo o discurso genocida da coisa encontrou na Covid a chance de se realizar. A reação dele às mortes é chocante, mas não surpreendente. “E daí?” é a reação esperada e o que  o fez chegar ao cargo em que chegou. Nas poucas vezes em que tentou simular algum tipo de compaixão pelas vítimas da tragédia, tudo que conseguimos ver é cinismo. Muitos (não a maioria) dos que votaram nele se mostram arrependidos. Sentem na pele o que é ver a coisa que possui o maior cargo do país dizer “E daí?” para seus medos, dores e sofrimentos. Bem-vindo ao clube. Muita gente já sente isto desde 2018. Dois anos vivendo num país que diz “E daí?” para vocês. Respeito o arrependimento destas pessoas. Mas elas são cúmplices. Não dá para ser amigo de quem falou “E daí?” para tanta gente por tanto tempo. Simplesmente não dá.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Angústia



Tenho dormido cedo. Evitei notícias por uma semana. O pensamento não acontece de forma linear. Dois problemas se misturam. A verdade do universo e a prestação que vai vencer. Mais de um mês sem abraçar minha mãe. A NET cancelou minha internet. Eu odeio a NET. A internet gratuita da NET funciona no meu apartamento. Eu amo a NET. Um mês sem ver minha irmã. Um mês usando máscara. Doria e Covas falando todo dia. Fiquem em casa. Bruno deixou de ser apenas o neto de Mário. Vê-lo lutando todo dia enquanto tem câncer é um alento. Quatro anos do impeachment. Bruno votou a favor. Que merda. O dia em que os bárbaros iniciaram o ataque à Roma. Dilma caiu. Temer subiu. Depois caiu junto com Aécio. Os bárbaros se aproximam de Roma. O chefe dos bárbaros elogia a tortura em programas de subcelebridades. Os bárbaros cada vez mais perto. Lula é preso. Facada. Os bárbaros chegam à Roma. O juiz que prendeu Lula vira funcionário do bárbaro-mor. Lula é solto. Tarde demais. Quando exatamente se tornou tarde demais? Acho que faz tempo. Que Deus tenha misericórdia desta nação. Não teve.
Lave as mãos com água e sabão. Passe álcool gel. É difícil manter a mente sã. Bate Sol aqui das 7 às 11. Precisamos de 15 minutos por dia. Metrô 2 vezes por semana. Enchendo. O rapaz vende fone. Outro chocolate. Outro canta Bob Marley. O governo não os ajuda. 600 reais enrolados. O presidente queria dar 200. Morre gente todo dia. Acontece. Voltem ao trabalho. 1 milhão vão morrer sem restrições. 44 mil vão morrer se fizermos tudo certo. Morreram 2 mil. Faltam 42 mil se der tudo certo. 999998 se fizermos o que o presidente manda. Novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e oito. Novecentosenoventaenovemilnovecentosenoventaeoito. Ummilhão. Números. Como convencer as pessoas a ficarem em casa? Pessoas não são números.
Cinquenta e sete milhões setecentos e noventa e sete mil oitocentos e quarenta e sete brasileiros votaram no capitão. Saíram de casa num domingo e apertaram 17. Ditadura. Tortura. Armas. Machismo. Xenofobia. Submissão. Religião. Mito. O genocídio chegou mais rápido do que o previsto. Por quem dobram os sinos? Nenhum homem é uma ilha. Um chinês comendo um morcego. O príncipe da Inglaterra. A mesma doença.
Pedalada fiscal. Ainda não sei bem o que é isso. Algo como atraso ao repasse de verbas do governo para o público. Ou abertura de crédito suplementar sem a aprovação do Congresso. Sei lá. Quando se quer culpar alguém, inventa-se um crime. Reforma no triplex do Guarujá. O possível comprador não quis comprar. A reforma não aconteceu. Quando se quer culpar alguém, inventa-se um crime. Moro na XP. Fraude fiscal. Guedes na XP. Fraude fiscal. Quando se quer inocentar alguém, esconde-se o crime. O juiz trabalhando com a acusação. Invenção de provas. Manipulação de áudios. Quando se quer inocentar alguém, esconde-se o crime.
Temos que ficar em casa por nós. E pelos outros. Individualismo. Como convencer a ficar em casa pelos outros se só pensamos em nós. Mão invisível do mercado. Estado mínimo. Gastos públicos. Déficit fiscal. CPFs com problemas. Burocracia. Filas. A sociedade não faz nada por mim, por que devo fazer algo pela sociedade? Eu não faço nada pela sociedade, por que ela deve fazer algo por mim?
“Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.” B. Brecht
“A história, Stephen disse, é um pesadelo de que eu estou tentando acordar”. Carreatas na frente dos hospitais. Gente morrendo dentro. Gente matando fora. Bandeira do Brasil. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Ou ficar a pátria louca ou matar pelo Brasil. Nacionalismo. Militarismo. Xenofobia. Todo mundo sabe onde isso dá.
“Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera
Irá desaparecer feito fumaça. Então
Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.” D. Kharms
Vontade de viajar. Não queria mais. Agora quero. Conhecer Belém. A Chapada. Voltar pra Imbituba. A festa de 50 anos de casamento da minha tia ficou sei lá pra quando. O casamento do meu amigo pra dezembro. “Para” no escrito. “Pra” no falado. Algum dia “pra” vai ser aceito no escrito. Três quilos a menos. O próximo carnaval promete. O passeio de bicicleta.
Cruzou o limite do inaceitável. Trinta anos defendendo a tortura. Deveriam ter matado uns trinta mil, ele disse. Prefiro um filho morto a um filho gay, ele disse. Só vagabundo recebe bolsa família, ele disse. Aquele lá pesa não sei quantas arroubas, ele disse. Vamos metralhar os petralhas, ele disse. As minorias têm que se submeter às vontades da maioria, ele disse. Viva o cara que enfiava rato na vagina de mulheres para obter delações, ele disse. O que pensar de quem acha que só agora é inaceitável?
“Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde , ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.” Drummond
Capitão Nascimento enfiava a sacola na cabeça do favelado. A plateia vibrava vendo aquilo na tela grande. O nariz do torturado sangrava. O juiz mandou raspar a cabeça do político preso. Ele foi para a solitária. Delírio entre os jornalistas. Qual o tamanho da cela em que ele dorme? Sua refeição de hoje foi macarrão e salsicha. Delírio. O apresentador de TV celebra cada morte. CPFs cancelados. O governador falou para atirar na cabeça. Nove mortos em Paraisópolis. Gustavo Cruz Xavier, 14, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23.
“Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.” Szymborska
Não tinha sal no mercado. O fornecedor não entregou. Caminhoneiros ameaçam greve. Fila de carros nos postos. Chegou gasolina. Intervenção Militar Já. 2015. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. Intervenção Militar Já. 2016. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. Intervenção Militar Já. 2017. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. 2018. Tocam as trombetas do Apocalipse. Gritos na janela. Mito. Onde você estava quando a liberdade começou a ruir?
A Bolsa caiu com a chegada do fim do mundo. As bolsas da Ásia caíram mais de 10%. Onde investir? As pessoas estão comprando armas. O presidente e o juiz facilitaram a posse. Quem tentar roubar meu sal vai levar chumbo. Oitenta tiros mataram Evaldo Rosa. Excludente de ilicitude, disse o conje.
Aulas online. Zoom. Google Meet. Google Hangout. Espelhar tela. Não sabia nada disso há um mês. Fila na farmácia. Dipirona e AS estão em falta. Ligamos quando chegar. O remédio secreto do astronauta. A substância secreta produzida no laboratório secreto. Mais uma cura. Hidroxicloroquina. Fórmula: C18H26ClN3O. Massa molar: 335,872 g/mol. Mais uma cura. Azitromicina. Mais uma cura. Doria comunista. Maia comunista. Bill Gates comunista. Pronunciamento do presidente. A caixinha do remédio. Vamos orar. Soam as panelas.
Parasita. O cheiro. Os pobres se matando. No final, resolvem matar o rico. A vida no porão. Justus no navio. Voltem ao trabalho, ele disse. Reforma Trabalhista. Informalidade. Vamos crescer e gerar empregos. Não crescemos e não geramos empregos. É direito ou emprego, disse o presidente. Reforma da Previdência. Vamos crescer e gerar empregos. Não crescemos e não geramos empregos. É aposentadoria ou emprego, disse o presidente. É vida ou emprego, diz ele agora. Vamos metralhar os petralhas.
A cultura e o peido do palhaço. Moraes Moreira morreu. Viúva Porcina não se manifestou. Acabou Chorare é foda. O secretário ouvindo Wagner e imitando Goebbels. Faz só dois meses isso. É difícil se concentrar. Reclamava que não tinha tempo. Agora tenho, mas não sei o que fazer. Surto. Reflexões. O que seria da minha vida se tivesse seguido um caminho diferente?
“O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome” Drummond
Golfinhos em Veneza. Ar puro. A romantização da tragédia. Prisão preventiva como instrumento de tortura. Vai ficar preso até falar. O rato na vagina. O triunfo da ignorância. A violência como solução. Não teremos o que fazer com esses respiradores depois, disse o novo ministro. Como será nosso futuro? Mais um mês disso? Mais dois anos e meio disso? Ciclos no Brasil costumam durar 20 anos. Mais vinte anos disso?
Escolhemos nosso destino. O que teríamos sido? Não seremos. Somos isto. O filho que não fiz. O presidente que não escolhemos. A presidenta que não derrubamos. As crianças que não matamos. A renda que não distribuímos. Fome. Miséria. Doença. Tortura. Ignorância. Preconceito.
“Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.” C. Meireles

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A imbecilidade como religião



Não há na história republicana do Brasil um fenômeno político semelhante a Jair Bolsonaro. Ele é único e original. Por isto é tão perigoso e desesperador. Ninguém sabe ao certo como enfrentá-lo, embora seja bem previsível no que isto vai dar.
O sentimento que os fãs de Bolsonaro têm por ele é religioso. A submissão é total. Ao contrário dos outros líderes populares que o Brasil já teve, como Vargas e Lula, Bolsonaro não entregou nenhuma melhora material em suas vidas. A vida de ninguém melhorou graças a Bolsonaro, nem mesmo a dos mais ricos. O fascínio que Bolsonaro exerce sobre estas pessoas é de caráter mais metafísico. Bolsonaro as libertou. Bolsonaro libertou os imbecis, fez com que eles se sentissem valorizados, e por isto estes imbecis estão dispostos a matar e morrer por ele.
Os imbecis se enxergam em Bolsonaro. Todos tivemos Bolsonaros em nossa vida. O tio que falava merda, o colega de trabalho que achava que a solução era matar todo mundo, o colega de escola que fugia de livros, mas opinava sobre tudo. Bolsonaro deu a estas pessoas a representação. É um prazer gigantesco para eles ver alguém com as características do ex-capitão chegar ao topo. Eles passaram a vida estando errados. De repente, sentem que estão certos. O ego inflou.
A imbecilidade se tornou ideologia. Não importa qual o assunto, neste meio liderado pelo presidente vai prevalecer sempre a opinião mais imbecil. A mamadeira de piroca. O kit gay. A mudança de sexo em crianças. A doutrinação comunista nas faculdades públicas. Nada disso existe. Bolsonaro “salvou” o mundo disso. Não importa que nada disso exista. Lembre-se que, mesmo após termos ido ao espaço, ainda achamos que existe um Senhor no céu que controla tudo que fazemos, que sabe o que pensamos e vê o que fazemos, que nos mandará para o inferno se formos desobedientes, mas que nos ama. O inferno. Não é tão difícil assim acreditar no capitão.
 Toda a carreira de Bolsonaro é uma ode à imbecilidade e à mediocridade. Capitão, foi afastado do exército por planejar um atentado frustrado. Deputado por 28 anos, não entregou nenhum projeto relevante, não participou de nenhuma comissão importante. Seu papel era ser a voz dos frustrados e falar merda.  Do mesmo jeito que agora fala sem saber sobre a cloroquina, passou uma década sendo o convidado polêmico de programas de subcelebridades. Não sabia nada sobre nenhum assunto, mas opinava. Quase sempre com uma frase pronta que agradasse o senso comum. O Bolsonaro da tela contentava o Bolsonaro do sofá, frustrado por uma vida que não se realizou. O sucesso de Bolsonaro é o sucesso dessa gente.
O capitalismo gera frustração. Muito raramente somos o que queremos ser. A vida adulta é uma enorme decepção se não fugirmos do ciclo imposto. O trabalho nos faz infelizes. O trânsito nos faz infelizes. O casamento nos faz infelizes. A solidão nos faz infelizes. O medo nos faz infelizes. Queremos comprar mais do que temos. Fazemos dívidas. Ficamos no trabalho para pagar estas dívidas. Queremos uma casa maior. Queremos um carro novo. Queremos ganhar mais para gastar mais. Odiamos nosso trabalho. Odiamos nosso chefe. Odiamos nossa vida. Precisamos de um culpado. Que tal o governo? Que tudo exploda.
Tudo explodiu. Bolsonaro foi eleito sem prometer empregos, saúde, moradia ou qualquer melhora real na vida. Suas promessas principais na campanha foram matar e expulsar a oposição, entrar em guerra com a Venezuela, fazer as minorias se submeterem às maiorias, legalizar a tortura, perseguir homossexuais, retirar direitos sociais e corromper a democracia. Mais da metade do país votou neste projeto. Mais da metade do país se dispôs a matar com Bolsonaro.
Uma boa parte desta mais da metade se mostra também disposta a morrer por Bolsonaro. O crème de la crème da imbecilidade. Você não morreria por seu libertador? Os imbecis morreriam. Se outros vão morrer pela imbecilidade deles, não importa. Você não lembra das promessas do presidente? Você acha mesmo que esta gente vai ser convencida a ficar em casa porque pessoas vão morrer? Elas não deixaram isso claro na urna?
Talvez o único personagem histórico brasileiro que possa ser comparado a Bolsonaro, por incrível que pareça, seja Antônio Conselheiro. Ao menos no que se refere à ideia de que seus seguidores estão dispostos a ir até o fim pelo líder. A diferença é que a “Nova Canudos” não defende os direitos dos miseráveis e esfomeados. A “Nova Canudos” quer criar o paraíso dos imbecis. Se a antiga Canudos foi massacrada pela elite pelas forças da elite do Sudeste, a "Nova Canudos" conta com o apoio desta mesma elite para massacrar.
Evangélicos compram com mais facilidade o discurso de Bolsonaro. Não é diferente do discurso dos pastores e também cria um sentimento de pertencimento a algo. Os imbecis se encontraram em Bolsonaro e pela primeira vez sentem que têm razão. Ganhar uma eleição para estas pessoas, afinal, é ter razão. Lutarão até a morte para continuarem tendo razão. “Viva a cloroquina”.
Todos os dados possíveis comprovam que o Brasil nunca foi tão bom quanto no período entre 1994 e 2014. Avançamos em todas as áreas possíveis, com estabilidade democrática. Mostrar dado para imbecil é tão infrutífero quanto questionar a fé de alguém. Citar ciência para os imbecis é perda de tempo. Eles triunfaram achando. E vão continuar achando.
O Brasil não soube enxergar Bolsonaro como o inimigo a ser batido. Que pena. Pessoas como ele só saem do poder depois de muita destruição. Quem não conhece a história tende a repetir seus erros. Não acho que algo como ele já tenha acontecido. A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Não acho que algo como ele já tenha acontecido. Vivemos a tragédia.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Quantas vidas valem um hambúrguer?




Eu nunca tinha ouvido falar dessa porra desse restaurante Madero até semana passada. Não sei nem se é assim que se escreve o nome dessa merda. Há mais ou menos dois anos que eu estou bastante por fora do que acontece neste mundo de classe média. Para quem não me conhece, o meu atual estágio é de decadência financeira, o que significa que eu não faço a menor ideia do que está acontecendo no mundo gastronômico da classe média. Em algum dia de março de 2018, num belo dia ensolarado, eu olhei para o ambiente de escritório em que eu trabalhava e pensei “que merda, hein?”. Aquele dia havia começado com o diretor da área analisando currículos e apareceu um venezuelano se candidatando a uma vaga de Logística. “O bom deste é que podemos oferecer um salário menor, ele deve estar morrendo de fome e vai aceitar qualquer coisa”, disse o diretor. Era a época em que a prisão de Lula estava próxima, a galera estava em êxtase e era um inferno ser basicamente o único a ver a grande hecatombe que se aproximava. Resolvi pedir as contas e viver a vida de outra forma.
Assim como eu no primeiro parágrafo, as pessoas adoram falar sobre si mesmas. Há uma relação hierárquica aqui no Brasil em que a pessoa mais rica dá conselhos para pessoas mais pobres. Por algum motivo, queremos ser a pessoa que está acima de nós e queremos que a pessoa que está abaixo queira ser como nós. Eu fui assim por muito tempo. “Compre menos roupa e economize um pouco de dinheiro”, dizia eu para um colega meu. Por que eu fazia isso? Comprar roupa o fazia feliz, afinal. Porque por algum motivo eu achava que podia. Ouvimos atentamente quem está “acima” e falamos para quem está “abaixo”. É isto que leva pessoas que não tem absolutamente nada a dizer a querer opinar sobre assuntos que não entendem, tipo este merda do Madero ou aquele bosta da Havan. Cem por cento do que essa gente diz é merda, mas elas continuam falando e tendo repercussão. Por quê? Porque eles, como empresários bem sucedidos, foram acostumados com a ideia de que eles têm o poder de fala e, mais do que isto, nós que estamos abaixo na pirâmide social, estamos acostumados a dar espaço para estes merdas falarem. A porra do véio da Havan não consegue completar uma frase com início, meio e fim, mas lá está ele optando sobre tudo.
Eu não como hambúrguer. Nunca entendi muito bem o amor que as pessoas sentem por hambúrguer. A classe média gosta mesmo de hambúrguer e sair para comer hambúrguer é tipo um evento. As pessoas saem de casa apenas para fazer isto. Junto com carro, hambúrguer é o assunto popular que mais me entristece quando surge numa conversa, porque eu fico boiando completamente. Minha mãe mora no centro de SP e na frente da casa dela abriu uma Z Deli. Eu nunca tinha ouvido falar desse restaurante e estava todo mundo extremamente animado. “É a mesma marca que tem em Pinheiros”, me diziam todos. Eu não vou para Pinheiros, acho meio longe. A Z Deli é tão famosa que virou ponto de referência. “Minha mãe mora perto da Z Deli, sabe?”. “Sim, sei! Adoro lá”! O centro de SP está virando uma grande hamburgueria cercada por barbearias hipsters.
Pelo que li, o dono do Madero ficou rico fazendo hambúrguer. Fazer hambúrguer é o que justifica a sua existência e é o que deu a ele direito de opinar sobre qualquer assunto em nossa sociedade hierarquizada. Ele leva o seu hambúrguer bastante a sério. O capitalismo como vivemos deu ao cara que faz hambúrguer um poder de opinar sobre saúde pública. Ele acha que se pessoas tiverem que morrer para que ele continue fazendo hambúrguer, tudo bem. A vida vale menos que o hambúrguer. Resolveu tentar convencer a sociedade disto. Não é o único. Roberto Justus fez o mesmo, citando “estatísticas”. “Se dez ou quinze mil pessoas tiverem que morrer, paciência, não podemos parar a economia”, disse Justus. Aos 65 anos, Justus faz parte do grupo de risco, mas não se sente assim. “Tenho pulmão bom”, ele disse. Aparentemente pôr botox e usar sapatênis o fizeram realmente acreditar que ele é jovem.
O Brasil nos últimos anos consagrou o achismo. A opinião “polêmica”, normalmente uma opinião de merda, se sobrepôs à opinião do especialista. Ela dá mais audiência. Em 2018 consagramos o merda-mor. Anos dando opiniões de merda sobre todos os assuntos possíveis levaram Jair Bolsonaro à presidência. Ele passou anos sendo o convidado favorito de programas de subcelebridades que davam espaço a suas barbaridades para ganhar um pontinho a mais de audiência. Não ser especialista em nada e não procurar conhecimento se tornaram as duas “qualidades” preponderantes de Bolsonaro. O merda do Madero, o véio da Havan e Roberto Justus logo se identificaram com o então candidato à presidência. “Ele fala umas verdades”, diziam eles. Uma coisa muito doida de quem só pensa merda é que em um determinado momento eles começam a achar que a merda é a verdade. A pessoa passa anos falando merda e sendo procurada para falar merda, chega a ser até natural que ela se transforme em uma enorme merda. E mais do que isto, quando você consagra uma pessoa que só fala merda à presidência da República, ou incentiva este tipo de empresário a opinar sobre tudo, eles se enxergam quase numa missão moral de espalhar a merda.
Bolsonaro criou um personagem “polêmico”. Ele é o cara que ganhou destaque na mídia se opondo a especialistas e falando merda. Saiu de capitão frustrado a presidente da República fazendo só isso, se opondo a especialistas e falando merda. Quando uma pessoa cresce na vida se opondo a especialistas e falando merda, a tendência é que no topo ela continuará se opondo a especialistas e falando merda. O mesmo serve para outras profissões, aliás. Se o cara subiu na vida fritando hambúrguer e falando merda, ele vai seguir esta receita de sucesso até o fim. Em 2018, o país em hipnose tinha diversos especialistas na luta pela presidência. Haddad, o especialista em educação. Marina, a especialista em meio-ambiente que tinha como vice o idealizador do SUS. Ciro Gomes, um dos ministros do Plano Real. Alckmin, governador do maior estado do país que manteve as finanças do Estado estáveis numa baita crise econômica. Todos eles contra um cara que só fala merda. Optamos pela merda.
O boleto veio em 2020. Na maior crise da humanidade desde 1945, somos governados por um completo imbecil. Bolsonaro faz neste momento aquilo que fez na carreira toda. Espalha merda, estimula o ódio e é “polêmico”. Conta com o apoio de empresários merdeiros como ele. Pessoas que colocam hambúrgueres na frente de vidas. Quantas vidas valem um hambúrguer? E lá está uma parcela da classe média seguindo o conselho desses empresários e do presidente e convocando boicote à opinião dos especialistas, em carreatas em que não têm coragem de sair dos carros.
Viveremos o período mais difícil e marcante das nossas existências. Nada será como antes. Cada um terá uma tragédia pessoal, grande ou pequena, nessa gigante tragédia coletiva. Alguns de nós perderão parentes e amigos, outros perderão empregos, ninguém sairá ileso. Sofreremos e nos transformaremos. Vamos chorar como nunca. Veremos nossas mazelas sociais expostas como nunca. Como convencer, afinal, as pessoas a ficar em casa num país que tem toda sua proteção social voltada para o trabalho formal e que passou os últimos anos estimulando a informalidade? Por que não discutimos isto antes? Porque estávamos perdendo tempo dando espaço a pessoas que só falam merda. Há duas lições iniciais deste sofrimento coletivo. A primeira é que será necessário voltar a dar espaço ao conhecimento nos debates públicos. A segunda é que a única forma de sair disso será coletiva. Todos terão que fazer sua  parte. Qualquer sofrimento econômico é pequeno perto da tragédia coletiva. Não reclame dos privilégios que perder. Este privilégio perdido está salvando vidas. Há coisas mais importantes na vida do que pagar boletos. Seja a pessoa que será tratada como heroína pelas gerações futuras. Temos dois caminhos a seguir. Podemos ser a sociedade que parou para salvar vidas. Ou podemos ser a sociedade que transformou um milhão de mortes em estatística e saiu para comer hambúrguer. O que queremos ser? Especialistas estimam a perda de mais de um milhão de vidas se não fizermos nada e de 44 mil se optarmos pelo isolamento coletivo. Faça parte deste esforço heroico, tenha do que se orgulhar no futuro. E lembre-se, o ser humano é um só. O chinês em Wuhan, a rainha da Inglaterra, o merda que faz hambúrguer, o leitor ou leitora deste texto.
Fique em casa o máximo possível. Ajude quem precisar e não puder sair. Faça sua parte. Ouça os especialistas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

"Cara, você não vai acreditar", os dois 15 de março e o inferno




“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o capitão que virou presidente depois de passar três décadas como deputado exaltando a ditadura e a tortura quer dar um golpe de estado.
“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o general que ameaçou fechar o Supremo caso ele soltasse durante o processo eleitoral o candidato que venceria o capitão do parágrafo acima no processo eleitoral quer dar um golpe de estado.
“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o deputado federal filho do capitão presidente que disse que para fechar o Supremo bastava um tanque e um cabo quer dar um golpe de Estado.
“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o juiz que se consagrou desrespeitando a lei “para pegar bandido” e se aliou ao capitão quer dar um golpe de estado.
“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o presidente que quando deputado exaltava o trabalho das milícias policiais que aterrorizam o RJ está incentivando a expansão destas milícias para outros estados e quer usar esta turma para dar um golpe de estado.
“Cara, você não vai acreditar”. Parece que o ministro da economia que enxerga o Chile de Pinochet como exemplo a ser seguido quer dar um golpe de estado.
Em 15/03/2020, esta turma da pesada estará nas ruas. Se não eles, a trupe que mobilizam. A pauta é pedir um golpe de estado. A passeata ocorrerá exatos quatro anos após a maior passeata pelo impeachment de Dilma. Alguns vão chorar e espernear, mas são as mesmas pessoas. Todas as pautas que serão apresentadas em 2020 já estavam lá em 2016. Aquele foi o primeiro passo.
O ataque às instituições começou lá. O 15/03/2020 começou no dia em que Moro vazou uma conversa que havia gravado ilegalmente envolvendo a presidenta da República. Fez isto e não sofreu nenhuma punição. Na mesma semana, vazou para uma revista semanal a delação de um ex-senador sem provas e que não seria aceita alguns anos depois. Também não sofreu nenhuma punição por isso.
Ao contrário do que muita gente diz, o autoritarismo se instala passo a passo. Não é algo que vem de repente. As instituições vão sendo gradualmente atacadas até o momento em que o ataque final parece inevitável, mesmo para quem o sofre. Há dez anos, por exemplo, seria um escândalo imaginar que um capitão idólatra da ditadura seria eleito presidente. Em 2018, foi aceito com normalidade. Notem como a tática é semanalmente criar algum tipo de notícia que ameace a implantação de uma ditadura.
O Brasil nunca teve apego à democracia. O verdadeiro apego é aquele em que colocamos a defesa destes valores acima de qualquer necessidade punitivista. E não falo apenas do absurdo e simbólico caso de Lula, preso e afastado das eleições por um processo duvidoso (para dizer o mínimo) comandado por um juiz que viraria ministro do candidato que só foi eleito graças a esta prisão. Em qualquer lugar sério este processo já estaria cancelado e teria recomeçado apenas por isso, mas não aqui, isto foi normalizado. Mas falo também de outras prisões. Falo da prisão de Sérgio Cabral, claramente corrupto aliás, mas que foi colocado em prisão preventiva sem nenhuma base que a justificasse e cujas imagens preso serviram para saciar o sentimento de vingança. Não se passa por cima de um processo legal para prender bandidos. Democracia é um processo. Falo também de Luiz Fernando Pezão, que também acredito ser corrupto, mas que teve a prisão declarada enquanto exercia um cargo para o qual havia sido democraticamente eleito por um juiz de primeira instância, passando um ano preso de forma preventiva sem ter sido nenhuma vez ouvido sobre o processo. Sim, falo de uma pessoa que passou um ano preso e não teve direito à defesa. Falo dos nomes do PSDB presos por Moro durante o processo eleitoral de 2018, prisões que facilitaram as eleições de Ratinho JR no PR e de Ronaldo Caiado em GO, ambos aliados de Bolsonaro e de Moro. Falo também da bizarra prisão de Michel Temer, a quem considero um golpista fdp, mas preso de forma circense sem  nenhuma base le gal. Defender a democracia significa defender direitos para todos, mesmo para os que não gostamos. Não diria nem "mesmo", diria principalmente.
Tivemos em 2018 que fazer uma escolha que deveria ser a mais fácil do mundo. Era fácil pra caralho, aliás. Toda eleição em que existe alguém democrático contra alguém não democrático, temos isto que chamo de escolha fácil pra caralho. Ganhou a escolha errada. Venceu o capitão. Venceu um projeto que representava o ressentimento. Venceu o candidato que fez carreira falando absurdos em programas de subcelebridades, que enalteceu o genocídio indígena, que fez piadas racistas, que disse que teve uma filha mulher porque deu uma fraquejada, cujo vice disse que o problema do Brasil eram os filhos de mães solteiras cujas famílias eram desregradas, que chamava os beneficiados do Bolsa Família de vagabundos, que disse que o maior erro da ditadura militar foi não ter matado mais, que exaltou um torturador em rede nacional enquanto julgava a torturada, que durante a campanha ameaçou abertamente invadir um país vizinho.
Houve um momento em que um novo golpe de estado no Brasil parecia impossível. Não parece mais. Cada vez mais coisas impossíveis acontecem. A prisão de Lula já foi impossível em algum momento. A eleição do capitão também foi. Vivemos num país em que uma vitória em eleição não significa uma simples vitória, significa estar certo. A mensagem que o país recebeu em outubro de 2018 foi que tudo aquilo que Bolsonaro diz está certo. E esta gente se acha certa há muito tempo. Desde que esta loucura começou, em 2015. E não importa as vitórias que tenham, quanto mais vencem, mais ansiosos e nervosos ficam. Eles continuam emburrados, basicamente porque é tudo que sabem ser. A destruição de um inimigo implica necessariamente na criação de um novo inimigo, é uma espécie de guerra total. A força que os motiva é o ódio e a única coisa que ele consegue fazer é destruir. Notem que todo o programa do governo Bolsonaro implica em destruição. Não há nada realmente sendo construído. Não ache que o 15/03/2020 seja o final do filme, é apenas uma etapa, assim como o 15/03/2016. A história cobra. É clichê, eu sei, mas quem não conhece a própria história sempre repete os mesmos erros. Também é clichê dizer que “eu avisei”. E não serve para nada dizer que “eu avisei”, aliás. Mas que “eu avisei”, eu avisei. Se você é do tipo que acordou para o inferno apenas agora, seja bem-vindo. Antes tarde do que mais tarde. Há quem já notou este inferno há quatro anos.

P.S.: A passeata que também ocorreu em 15/03 ocorreu em 2015, e não em 2016 como está no texto. A passeata de 2016 ocorreu no dia 13/03.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A influência de Dedé e o Comando Maluco no governo Bolsonaro



Há exatos quinze anos, estreava aquele que o tempo mostraria ser o mais importante e influente programa de televisão deste início de século no Brasil: Dedé e o Comando Maluco. Antes de falar o porquê de este programa ser tão importante, é necessário que falemos um pouco sobre a trajetória de Dedé Santana.
Consagrado em Os Trapalhões, Dedé Santana sempre foi o humorista que não teve graça. Mais do que isto, sua função no programa era não ter graça. Eterno coadjuvante, ele era a escada, o que preparava a piada para que os outros se destacassem. Sem ter muito que mostrar, foi perdendo espaço após as mortes de Zacarias e Mussum, até o momento em que foi substituído por algum ator de Malhação no papel de coadjuvante humilhado por Didi. Perdido, encontrou primeiro um caminho na música evangélica, caminho, aliás, seguido por muitos outros artistas sem talento durante a decadência. Tudo mudaria, porém, em 2005.
Disposto a divulgar seu parque de diversões, Beto Carrero comprou um horário matutino no SBT e resolveu fazer um programa de humor com sede no parque. Sem tanta verba, viu no recém-evangélico desempregado Dedé Santana uma boa oportunidade de ter um rosto razoavelmente famoso pagando pouco. E foi assim que surgiu a “obra-prima” Dedé e o Comando Maluco.
Tendo como premissa inicial a ideia de que Dedé Santana seria um general contratado por Beto Carrero para proteger e desvendar crimes cometidos no parque, o programa revolucionou a televisão brasileira com uma série de novidades. A primeira era a completa ausência de roteiro. O telespectador tinha a impressão de que não havia uma história escrita. Abandonou-se também qualquer tipo de linearidade, com não apenas as cenas não tendo relação entre si, mas com os diálogos dentro da mesma cena não possuindo nenhum nexo. O elenco era todo formado por amadores sem experiência ou talento, havia uma música que tocava a cada situação “engraçada” e o final parecia abrupto. Digo que parecia, porque no fundo todo o programa era assim, uma vez que não havia nexo nenhum em nada que acontecia no programa. A experiência durou três anos, com o programa sendo encerrado após a morte de Beto Carrero. Dedé Santana, porém, pôde mostrar o seu “valor”, uma vez que o programa chegou a liderar as audiências aos domingos de manhã, especialmente quando tinha a sorte de concorrer com corridas de Fórmula 1. Dedé seria recontratado pela Globo logo depois da nova demissão e teria mais alguns anos realizando o papel para o qual foi destinado, ser a escada sem graça de Renato Aragão.
Um empresário rico contratando um humorista sem graça e sem talento para fazer um programa sem nexo com atores despreparados e inexperientes. A televisão trazia com treze anos de antecedência o que seria o governo Bolsonaro. Basta trocarmos Beto Carrero por Mercado, Dedé por Bolsonaro e Comando Maluco por... bom, pode manter o nome Comando Maluco, e temos um belo exemplo de como a arte é capaz de antecipar a realidade.
Cansado dos anos de contrariedade com um governo que tinha como foco a inclusão de minorias e o combate à desigualdade, o tal do Mercado resolveu se aliar a um capitão muito doido. Completamente despreparado, Bolsonaro transformou a ignorância em sua maior “qualidade” durante a campanha de 2018. Usando da fama obtida através de participações polêmicas em programas de subcelebridades, Bolsonaro soube como ninguém cativar o público que transformara Dedé e o Comando Maluco em líder de audiência. Eleito graças às mais doidas teorias da conspiração e paranoias, estimulando a violência como solução fácil para todos os problemas e humilhando minorias, Bolsonaro apressou-se em formar um ministério que muito lembrou o Comando Maluco de Dedé Santana. Inimigo da ciência e de qualquer tipo de conhecimento, o novo presidente optou por figuras inexperientes, com produção acadêmica nula, coadjuvantes ressentidos e com visão de mundo parecida com a sua para guiar os rumos do país. Apelidou estas pessoas de “especialistas sem ideologia”. Para Ministro da Fazenda, o “especialista” é um economista sem nenhuma experiência na área pública e sem nenhuma produção científica, mas que diz as coisas que o Beto Carrero Mercado gosta. Para Ministro da Justiça, escolheu um juiz de primeira instância, consagrado com sentenças que muito lembram o roteiro de Dedé e o Comando Maluco, uma vez que também não têm início meio e fim, sem experiência em Segurança Pública, incapaz de citar um livro que tenha lido e que tem como principais referências na área que hoje comanda personagens de filmes de Hollywood. Para ministro da Educação, escolheu outro economista que era o pior aluno da turma, também sem nenhuma experiência na área, que toda semana se destaca por uma nova trapalhada típica do Comando Maluco. Para ministra dos Direitos Humanos, uma pastora que ninguém sabe ao certo o que fazia antes do governo e que baseia todo seu conhecimento “científico” na Bíblia. Para ministro da Tecnologia, um astronauta que faz palestras vestido com uniforme da Nasa, apesar de ter ido ao espaço num acordo entre Brasil e Rússia, também sem experiência alguma na área pública, e que parece ser o mais razoável do Comando Maluco pois diz que a Terra é redonda. Ainda vai ser expulso do Comando por isso.
Na semana passada, criador e criatura se encontraram em Brasília. O ex-humorista coadjuvante ressentido encontrou o ex-capitão coadjuvante ressentido. Um dos assuntos tratados no encontro foi o fim da meia-entrada para estudantes em eventos culturais. Sim, o destino de um instrumento que, embora muitas vezes mal usado, facilita o acesso de estudantes à cultura, será decidido por um ex-capitão fracassado que tem como livro favorito a biografia de um torturador sanguinário. Dedé Santana se disse surpreso com a ideia numa entrevista depois do encontro. Disse basicamente que achou que o encontro era só um almoço. Bom, quem nunca foi parar em frias querendo só comer, aliás. Independente disso, sua parte para o futuro do país Dedé Santana já fez. Vivemos num grande Dedé e o Comando Maluco, um presente distópico em que nossa educação é destruída por um imbecil lunático, em que nossa justiça é estraçalhada por um ignorante revanchista tratado como justiceiro acima das leis, em que a ideia de educação sexual é substituída pelas sandices de uma pastora evangélica. Vivemos como num roteiro mal escrito, em que as coisas acontecem aparentemente sem relação com nada, em que tudo parece ser uma surpresa. Tudo isto com a aprovação do Beto Carrero Mercado, que colocou todas as suas fichas nesta maluquice. Estes tocam a vida normalmente enquanto compram ações de empresas de armas e de outras que lucram com a destruição do setor público. Quando a situação explodir, estes que hoje investem no Comando Maluco já não estarão por aqui. Terão fugido do parque. Por enquanto seguem rindo bastante. Acham Dedé e o Comando Maluco engraçado.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Sofrimento do Jovem Enzo



Em algum momento entre o final da década de 1980 e começo da década de 1990, nascia o pequeno Enzo no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Filho único de pai engenheiro e mãe advogada, Enzo foi matriculado já criança em uma boa escola particular, mas sempre teve um desempenho escolar medíocre. Desde cedo apresentava uma forte preguiça intelectual. Sempre detestou ler, sua matéria favorita na escola era educação física. Com pai e mãe fora, passava boa parte do dia com a empregada e com seu filho, a quem de vez em quando emprestava algum brinquedo a mando da mãe. Foi criado ouvindo e concordando com as reclamações da mãe sobre os custos da empregada, que tinham subido muito quando a profissão foi registada. Também via o pai reclamando do aumento do preço do trabalho dos pedreiros, que “agora não saem mais de casa por qualquer merreca não, onde já se viu?”. A adolescência foi marcada pelas primeiras viagens à Disney com os pais, pelas reclamações sobre o governo e pela manutenção do desempenho ruim na escola. Porém, sempre rolava aquela colinha básica e um cinco bola pulava da cartola. A rejeição à leitura prosseguiu na adolescência. “Livro é muito longo e chato, demora um tempão para ler”, dizia o jovem Enzo, que em seguida justificava que preferia filmes ou séries. Aos 17 anos, chegou o esperado momento de tentar entrar na faculdade. Sem nenhum talento ou gosto específico, Enzo tinha dúvidas entre administração de empresas ou publicidade. “São duas carreiras que dão emprego bom e que não precisa ler muito”, pensava Enzo, que via na faculdade uma oportunidade de cumprir seu destino: trabalhar de terno em um escritório com ar condicionado e mandar em pessoas. Enzo já estava acostumado em mandar. O jovem tentou entrar na universidade pública, mas não foi bem sucedido. Havia 150 vagas e Enzo ficou na posição 2349. Enzo e família, porém, responsabilizaram a política de cotas pelo fracasso. “Está muito difícil”, dizia Enzo. “Por que devo ser punido só por ser mais rico? Devemos ter as mesmas oportunidades !”, reclamava o jovem, contando com apoio irrestrito da família nas críticas. Não podendo entrar na universidade pública, Enzo ingressou em uma cara universidade privada, que não cobrava história no vestibular. Enzo sempre achou o estudo da história uma tolice. “De que adianta ficar olhando pro passado?”, dizia Enzo a cada nota baixa nas provas desta matéria na escola. Ao ingressar na faculdade, Enzo recebeu do pai o primeiro carro de presente, cuja entrega foi acompanhada da frase “Você merece”.
“Eu mereço”, pensou Enzo ao estacionar o carro na faculdade pela primeira vez. Sua história acadêmica foi marcada pelo álcool, pelas festas e pelo desempenho ruim nas notas. Mas, mais uma vez, o cinco salvador sempre caía do céu. Vieram uma ou outra DP, mas Enzo não se importava. Quem pagava a faculdade era o pai e o boleto nem passava na mão dele. No começo do quarto ano, Enzo fez um intercâmbio na Europa. Ficou encantado. “Lá é tudo limpo e as pessoas respiram cultura”, disse Enzo numa conversa com a mãe. Aqui no Brasil, Enzo nunca visitou um museu ou uma biblioteca, antes ou depois da Europa. Voltando, a experiência do intercâmbio o ajudou a conseguir o primeiro emprego como trainee em uma agência de publicidade. A vida profissional tornou Enzo ainda mais agressivo e competitivo. Enzo sabia que era necessário ser submisso ao Enzo de cima e submeter o Enzo de baixo. Saía toda sexta para o happy hour com os Enzos da empresa e enchia a cara. Chegava cedo e saía tarde, ainda que não soubesse muito bem explicar o que realmente fazia no trabalho. Decorou muitos termos em inglês. Resolveu após a faculdade fazer um MBA em gestão de pessoas para ampliar seus “conhecimentos”. Encontrou lá vários Enzos, formando uma boa base de contatos.
Enzo começou a se interessar por política em 2013. “O gigante acordou”, dizia Enzo, que se mobilizou como nunca em 2014 para tirar do poder “aquele bando de ladrão que quebrou o país”. Foi inicialmente mal sucedido, mas não desistiu. “Enzo sempre tem o que quer”, é seu lema até hoje. A preguiça para a leitura, sua característica mais importante, prosseguiu na vida adulta, e Enzo começou a se informar através do youtube. “Dá pra aprender muito nestes vídeos de dois minutos”, dizia Enzo à época. Enzo encontrou no MBL e no Partido Novo duas instituições que o representavam. Bastava um vídeo e pronto, Enzo era o especialista. Em 2015 e 2016, lá estava Enzo nas ruas, com a camisa da seleção brasileira, ao lado das pessoas que pediam intervenção militar já, para “salvar o país”. “Vá pra Venezuela”, dizia Enzo para o filho da empregada quando este tentava conversar sobre política.
Em 2018, Enzo entrou de cabeça na candidatura de João Amoedo. Perto do fim do primeiro turno, porém, embarcou com tudo na candidatura do capitão. “Tudo menos o PT”, dizia Enzo. Apaixonado por Paulo Guedes e Sérgio Moro, Enzo não discorda tanto assim do presidente. Pelo contrário, acha que ele fala umas boas verdades. “Tem que acabar com o mimimi”. Defendeu a Reforma da Previdência e o Pacote Anticrime do Ministro da Justiça. Enzo nunca teve problemas com a justiça. Teve uma ou outra dor de cabeça com a questão da lei seca. Foi parado em blitz duas vezes, mas se recusou a fazer o teste do bafômetro. Depois disso, baixou um aplicativo criado por um outro Enzo em que Enzos se avisam onde há blitz, podendo assim fugir. Enzo odeia a “indústria da multa”. “É revoltante este governo querer tirar nosso dinheiro escondendo radares”, diz ele. Perdeu a carteira por excesso de multas duas vezes. Na primeira vez conseguiu jogar os pontos na carteira de um estagiário do pai. Na segunda, contratou uma empresa para limpar seu nome. Em todos os outros setores, porém, Enzo acha que o problema é a falta de fiscalização e de polícia. Adora ver Sérgio Moro atropelando a lei para pegar os “bandidos do PT”. “Os fins justificam os meios”, repete Enzo. Ele viu esta frase em algum vídeo do MBL e achou forte, bonita. Não vê a hora de comprar uma arma e já se matriculou em uma escola de tiro.
Aproveitando a Reforma Trabalhista, a agência em que Enzo trabalhava o demitiu com um acordo, pagando assim uma multa menor. Enzo compreendeu. “É muito difícil ser chefe no Brasil”. A primeira ideia de Enzo foi empreender. Após algum tempo, porém, Enzo descobriu que não sabe fazer nada, não tem muito o que oferecer na verdade. Cansado, Enzo concluiu que o Brasil é um país que não oferece mais oportunidades para pessoas como ele. “O Brasil ficou pequeno demais para mim”, pensa Enzo. “Preciso de um lugar que me dê o valor que mereço”. Bisneto de italianos, Enzo começou o processo para obtenção do passaporte italiano. Ele não sabe muito sobre a Itália e tem preguiça de aprender o idioma, mas isto é o de menos. Sem tempo para coisas burocráticas, Enzo contratou uma empresa que vai cuidar de todos os trâmites. Conseguiu este contato com o mesmo Enzo que indicou a empresa que limpava os pontos da carteira de motorista, aliás. Antes de ir para a Itália, porém, Enzo vai tirar seis meses sabáticos para surfar na Tailândia. Ele está muito cansado e estressado. Não pretende voltar mais. Boa viagem, Enzo.


domingo, 15 de dezembro de 2019

A Faria Lima e a vida de merda




A literatura é repleta de obras que conseguem de maneira perfeita refletir a imagem de uma determinada época. São obras que eu costumo dizer que se tornaram verdadeiros documentos. Minha Vida de Menina de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant) é uma desta obras. O livro é tão bom que às vezes até dá vontade de chorar por saber que algo assim existe. A autora tinha entre 13 e 15 anos quando escreveu este diário que, mais do que falar sobre a própria vida, consegue ser um retrato do Brasil do final do séc. XIX. A decadência das cidades mineiras, o racismo, a situação dos negros no momento pós-abolição, a falta de valor dado ao trabalho manual (a forma como sua família acredita que trabalhar é algo feio, ao mesmo tempo que um conhecido que mora numa cidade maior diz que por lá é o inverso), a religiosidade, está tudo lá, contado de uma forma ao mesmo tempo rica e inocente, sem arranjos mais intelectualizados e rimas ricas, numa linguagem completamente acessível. Uma criança questionando a realidade dura construída pelos adultos e à qual ela também estaria presa pelo resto da vida. O cinema brasileiro também consegue fazer isto às vezes. Dois Filhos de Francisco usa a história da dupla Zezé di Camargo e Luciano como mote para contar algo geral, a história de milhões de brasileiros que realizaram o êxodo rural nos anos 1950 e 1960. A cena dos Camargo chegando na grande capital e indo morar num barraco sem nenhuma condição, mas ao mesmo tempo fascinados com a eletricidade e brincando de acender e apagar a luz é de um simbolismo profundo. Assim como a famosa cena da piscina da personagem de Regina Casé em Que Horas Ela Volta, ela consegue ter representação social. Se na primeira é a saída do campo para a cidade, na segunda é a libertação da empregada doméstica que naturalizava a opressão que sofria. Anos de histórias de multidões conseguem ser resumidos de forma sublime em poucos segundos.
Na nossa história, a arte que mais conseguiu ter estes momentos é a música. Desde Noel Rosa com Papo de Botequim e Adoniran Barbosa com Despejo na Favela e Saudosa Maloca, chegando a Racionais MCs nos anos 1990 e ao funk ostentação dos anos 2000 e 2010. Nenhum movimento cultural do Brasil deste século conseguiu ser tão representativo quanto o funk ostentação. Suas músicas são verdadeiros documentos. Todas as coisas boas e ruins do governo Lula estão lá. As pessoas felizes porque estão podendo consumir. Mas felizes só por isso. Vida Loka de MC Rodolfinho é sem dúvida a música da década.
Nesta última semana tivemos uma reportagem que consegue de forma incrível criar este tipo de documento. A reportagem da revista Veja sobre os “Faria Limers” deveria ser leitura obrigatória em escolas e universidades. Está tudo lá. O Brasil que criou Bolsonaro, a elie desconectada da realidade, a bolha, a desigualdade, a alienação, o stress, a infelicidade, o alcoolismo, as tentativas de fuga, o machismo, a homofobia, tudo está lá.
O empresário cristão que votou em Bolsonaro “por causa de Paulo Guedes”. Preconceito, autoritarismo e violência travestidos de uma suposta racionalidade econômica. O investidor da bolsa que se orgulha de trabalhar 20 horas e de ter insônia porque só pensa em trabalho e não tem tempo para a esposa. A mulher homossexual que teve que se adaptar ao ambiente homofóbico para prosseguir e que não vê nada de errado nisso, aceitando o papel de oprimida aceita que se torna argumento do opressor. A falta de negros nos ambientes de trabalho tratada com naturalidade. Os ambientes “descolados” e caros, frequentados por pessoas “diferenciadas”. As táticas de Google e Facebook para destruir qualquer possibilidade de vida pessoal de seus funcionários, presos a um ambiente de trabalho “divertido”, em que não receber tíquete é visto como algo bom e em que alimentos são levados até os funcionários para que eles não tenham que sair do local de trabalho mesmo na hora do almoço. A prisão moderna e voluntária. A empresária que diz que “dinheiro é liberdade”, ao mesmo tempo em que não enxerga que está totalmente presa a um estilo de vida vazio graças a este pensamento. A outra empresária que teve que pedir a um estagiário que apresentasse seu trabalho, pois os homens com que trabalha não estavam dispostos a ouvi-la. E com a mesma justificativa da homossexual vítima de homofobia, de que o caminho é a adaptação e não a contestação. Os escapismos. A infelicidade com o trabalho e a tentativa de encaixar outras atividades para não ter que pensar no assunto. A academia, a ioga, a bebedeira nos happy hours ou as viagens milionárias para qualquer lugar longe durante as férias. Tudo isto sem esquecer o trabalho, se der para aproveitar estes momentos para fazer um “contato”, melhor. Não há mais vida pessoal desligada da profissional, todos os conhecimentos e decisões são pensadas tendo um foco profissional, o conceito de amizade perdendo espaço para a ideia de que contato. Um simples passeio passa a ter como foco “fazer contatos”. Tudo vale para se manter na vida de merda guiada por um estilo de vida dominado por um trabalho alienante e infeliz. A vida num escritório, na frente de um computador e de uma planilha de excell ou de uma apresentação de Power Point é a causa maior da infelicidade, mas é justificada pois é ela que gera o salário que permitirá o consumo de bens e serviços que visam a diminuir a infelicidade causada por este trabalho. A terapia, a academia de dois mil reais, a cerveja artesanal no bar descolado, a roupa cara que permite julgar e ser julgado. O trânsito de merda. Está tudo lá. Só faltou a história do grupo de empresários viciados em prostituição e fascinados com o “poder” da compra do sexo, mas aí já seria pesado demais.
As pessoas bem sucedidas e suas vidas de merda. Todo um ciclo criado para que estas pessoas enxerguem a vida de merda como algo normal ou sinônimo de sucesso. Todas as pessoas da matéria, ao mesmo tempo em que deixam claro que são estressadas, dormem pouco e são deprimidas, fazem o possível para fingir que não sabem disso e acham o estilo demais. E a reportagem deixa isto claro.
Ao contrário do que a maioria das pessoas da minha bolha pensam, eu não acho que os eleitores de Jair Bolsonaro estejam arrependidos de seus votos. Quase todos as pessoas que votaram em Bolsonaro têm vidas de merda. E coloquei este “quase” porque juro que não estou radical. São pessoas que em geral estão infelizes e querem que tudo se foda. Pessoas com vidas de merda se chocam ao ver outros que fogem do ciclo merdal. A principal promessa de Bolsonaro foi expandir a vida de merda. Fazer com que ela chegue ao maior número de pessoas possível. O Faria Limer pode até fingir que “votou em Paulo Guedes”. Mas adora ver a merda se espalhando. Bolsonaro está entregando o que prometeu. E o Faria Limer segue indo para a ioga na segunda, para o Outback na terça, para a academia na quarta, para o puteiro na quinta e enchendo a cara nas sextas de happy hour. Leia a matéria. Está tudo lá.       

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O Ano 1




No dia 9/12 aconteceu no Congresso um evento chamado de “Faça Sempre a Coisa Certa”, tendo como principal estrela o ministro da Justiça Sérgio Moro. O evento foi um daqueles grandes nadas que pessoas poderosas realizam às vezes para preencher o tempo e fazer propaganda pessoal. Completamente irrelevante. Mesmo assim, o tal evento mereceu uma reportagem de mais de dez minutos no Jornal Nacional. As falas de Moro eram sempre precedidas das de um jornalista de voz grossa e confiável, que explicava o que você deveria entender da fala do ministro. “Moro voltou a criticar o Supremo pela decisão de rever a possibilidade de prisão em segunda instância, que segundo o ministro aumenta a possibilidade de impunidade”, para em seguida vir Moro e dizer basicamente a mesma coisa. Nenhuma pessoa do Supremo com opinião distinta apareceu para apresentar um contraponto e rebater o ministro. A opinião era dada como verdade absoluta. Na mesma semana em que Moro ganhou dez minutos de exposição num evento que não significa nada, o ministro tentou utilizar seu cargo para impedir a perda de mandato de uma senadora próxima a ele, a “Moro de saias” e posou para uma foto com um busto dele feito com balas feito pelo lobby da indústria das armas. As duas notícias tiveram espaço mínimo na mesma emissora que dedicou dez minutos ao evento que não significava nada.
A Lava Jato em seu projeto de poder soube muito bem utilizar a mídia. Utilizou três meios em três plataformas diferentes como cúmplices. A TV Globo na mídia televisiva, a revista Isto É na mídia impressa e o site O Antagonista na internet. A Globo e a Isto É eram usadas para vazamentos mais bombásticos e que exigissem reação imediata, enquanto O Antagonista era usado para as “notícias” mais circenses e menores, para a destruição do dia a dia e para manter os lavajatistas lunáticos entretidos. Foi na Globo que Moro vazou as já clássicas conversas telefônicas com Lula, sempre seguindo a lógica da voz grossa e masculina dizendo antes o que o espectador deveria entender do que veria. “Neste áudio, Dilma diz a Lula que entregará nomeação de ministério para protegê-lo de possível prisão”, disse a voz de Bonner enquanto uma versão do áudio fazia parecer isto. Neste ano, um documento da Vaza Jato mostrou que Moro havia editado aquele áudio, escondendo os momentos em que ficava provada que a tese não era verdadeira. O Jornal Nacional preferiu não noticiar este fato, assim como as demais revelações da Vaza Jato. Alegou-se que o material de Greenwald fora obtido por “meios irregulares”.
A Isto É é uma revista irrelevante. Ainda não fechou as portas graças a compras de publicidade do governo de SP. Não é à toa que o governador de SP, João Doria Jr., recebe todo ano o prêmio de “Brasileiro do Ano” da revista. Foi na Isto É que Moro vazou a delação premiada de Delcídio Amaral, às vésperas da maior manifestação pelo impeachment. Um fundo preto, a cara de Delcídio e uma manchete do tipo “Lula e Dilma sabiam de tudo”. Foi provavelmente uma das últimas vezes em que uma edição da Isto É deu lucro, com movimentos empresarias e de governos à época oposicionistas comprando edições para distribuição. Dois anos depois, a bombástica delação de Delcídio não seria aceita pela Justiça por falta de provas. Não houve nenhuma retratação da Isto É. Mas seria indiferente se houvesse, uma vez que ninguém mais lê a revista.
O Antagonista sim é relevante. O site se tornou uma espécie de “porto seguro” da extrema-direita. O radicalismo realmente confia neste site. Em entrevista à revista Piauí no meio do ano passado, o futuro vice-presidente Hamilton Mourão disse que era o único meio de imprensa em que confiava. O site se tornou uma espécie de porta-voz oficial de Moro na imprensa. A Vaza Jato liberou documentos que comprovam isto. Para negá-los, Moro soltou uma nota oficial no site do Antagonista. Se  aa função da Globo é cobrir os eventos insignificantes, cabe ao Antagonista fazer o trabalho sujo. Chamar Greenwald de Verdevaldo, convocar campanhas de ameaças ao Supremo, humilhar Lula, soltar ameaças disfarçadas de notícia. Foi através deste site que Moro espalhou boatos de prisão contra o jornalista que o acusava. O principal acionista do Antagonista é a Empiricus, grupo de investimento que alcançou fama neste ano com a infame propaganda de Betina. Trata-se de um dos muitos grupos que se especializam na realização de pirâmides no sistema financeiro brasileiro, algo que dará muita merda num futuro não tão distante. Uma das principais denúncias da Vaza Jato é que Moro e Dallagnol utilizavam empresas de fachada de palestras, comandadas por suas esposas (ou “conjes”) para lavar dinheiro e ameaçar denunciados. Empresas que topassem financiar palestras dos dois e de outros membros da Lava Jato seriam poupadas nas acusações. O setor bancário é o maior cliente das palestras dos dois. Foi poupado da Lava Jato, mesmo que seja impossível imaginar que todo o dinheiro envolvido na corrupção circularia sem a participação destas instituições.
Moro chegou ao governo aclamado. Menos de uma semana antes da eleição foi anunciado como ministro da Justiça. Paulo Guedes e Hamilton Mourão já disseram publicamente que o convite a Moro já havia sido realizado antes do processo eleitoral, ficando claro que Moro já sabia que ganharia um emprego de Bolsonaro quando liberou informações sigilosas que comprometiam a candidatura de seu rival, Fernando Haddad. Alguns meses depois, os processos liberados contra Haddad foram arquivados por falta de prova. Moro foi tratado como especialista no assunto Justiça e Segurança Pública, mesmo que não tenha nenhuma contribuição realmente relevante ao assunto.
Sua primeira medida como ministro foi assinar o decreto das armas, cujo objetivo era facilitar a posse de armas. Seu comprometimento com a causa bélica levou o lobby das armas a presenteá-lo com a “bela” homenagem nesta semana. Ainda no começo do governo, Moro apresentou o “Pacote Anticrime”, a mais clara tentativa de legitimação de práticas fascistas apresentada neste governo. O Pacote de Moro previa, entre outras coisas, a liberação da violência policial, garantindo a impunidade ao policial que cometesse abusos e alegasse “forte emoção”, o tal do excludente de ilicitude, o quase fim das restrições ao uso de prisões preventivas e do habeas corpus. Nem a ditadura foi tão longe. O Congresso conseguiu barrar os maiores absurdos, mas Moro não vai desistir. Conta com os amigos da imprensa para isto. Moro é também o “cão de guarda” de Bolsonaro. Aparelhou a PF de forma a ameaçar inimigos do presidente. Uma semana depois da briga do presidente com seu ex-partido, a PF invadiu a casa do presidente do PSL numa investigação sobre candidatos laranjas. Também ameaçou publicamente o porteiro que teria falado com Bolsonaro no dia da morte de Marielle Franco e tenta federalizar a investigação para proteger membros da família do presidente, que aparentemente podem estar envolvidos no crime.
Moro subiu na vida explorando o ódio a Lula e aos políticos. Ninguém se importou muito quando Moro e sua turma destruíram o devido processo legal no “combate à corrupção”. Afinal, é “normal” que o juiz converse foram dos autos com o promotor. Se usou Lula e os políticos para o primeiro passo, tenta usar o Supremo para o segundo. A prisão em Segunda Instância é tão importante porque permite que Moro e o baixo clero do Judiciário condenem sem passar pelo crivo do Supremo. Eles têm o poder de mandar prender e soltar. Inventaram alguns slogans para defender este tema, como “a segunda instância garante a impunidade” ou “a segunda instância é um privilégio”. Não importa que dados comprovem exatamente o contrário. A maior parte das pessoas que têm penas revistas em última instância é pobre e a maior parte dos recursos que chegam ao Supremo vem da Defensoria Pública. Estas pessoas são a maioria. Mas não há dado que sobreviva a um bom slogan e a uma mídia comprometida. Simplesmente não há apresentação de dados quando o assunto é este. O que há é Moro repetindo falsos sensos comuns. Não há espaço para opinião daqueles que são contra a prisão em Segunda Instância, que são tratados como demônios. Gilmar Mendes, principal voz do nosso judiciário atual quando o assunto é humanização da lei, é tratado como vilão por ser a figura que solta pessoas. Justiça passou a ser vista como punição e liberdade como impunidade. Não há uma semana em que Moro não faça alguma acusação ao Supremo. Neste ano, inclusive, o ministro inflou e elogiou manifestações que pediam seu fechamento.
Moro é inimigo das regras e do estado democrático de direito porque ele o atrapalha. Numa das conversas da Vaza Jato, Dallagnol propõe a criação de um monumento à Lava Jato em que uma figura masculina representando a justiça derruba dois pilares representando Executivo e Legislativo. O único que ficaria de pé é o Judiciário. Mas Moro quer derrubar o Judiciário também.
O segredo está nos detalhes. Nenhuma pessoa soube usar tão bem os moralismos para ambição pessoal como Moro. A Lei da Ficha Limpa veio assim. A população entrou de cabeça no projeto que deu ao baixo clero do Judiciário o direito de decidir quem pode ou não concorrer numa eleição. A delação premiada a mesma coisa. A sociedade aplaudiu quando este mesmo baixo clero ganhou um instrumento de tortura que garantiu veracidade a roteiros já pré-estabelecidos e a condenações já decididas antes da existência de um processo. Este, aliás, tornou-se um mero detalhe, uma burocracia. No projeto anticrime aprovado, mesmo que sem os maiores absurdos propostos por Moro, há um item preocupante. Não há mais possibilidade de recursos em liberdade para pessoas presas por crimes hediondos. Não há como ser contra isto, não é? Pois bem, é fato que o próximo passo do ministro será a qualificação de corrupção como crime hediondo.
Moro é o maior risco à nossa democracia. É mais perigoso do que Bolsonaro. Toda sua ascensão se fez à base da destruição do estado democrático de direito. Moro legitimou na justiça a ideia de ausência de direito pleno à defesa e de imparcialidade do juiz. “Não falo com condenados”, disse ele numa entrevista mesmo tendo uma profissão, juiz, que basicamente o obriga a falar com condenados. Sim, um juiz deve ouvir de forma imparcial também o condenado. Transformou a delação premiada em instrumento de tortura. Todo o seu primeiro ano no ministério repetiu no governo suas táticas na magistratura. Qualquer boa ação sua, verdadeira ou não, é hiperpropagandeada, enquanto suas ações ruins ficam debaixo dos panos. Moro chegou ao poder mentindo e manipulando. É um criminoso. Não teria razão para mudar agora. O ano 2 será ainda pior.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A Vale, o Flamengo e a Polícia Militar de SP




Em 25/01/2019 rompeu a barragem da mineradora Vale na cidade de Brumadinho. Entre mortos e desaparecidos, computam-se 393 pessoas. A Vale sabia do risco de rompimento da barragem de Brumadinho desde 2017, mas nada vez. Calculou riscos e decidiu que era financeiramente mais vantajoso arriscar do que parar a produção e arrumar os problemas da barragem. As 393 pessoas já tinham as vidas precificadas. Assim que ocorreu o acidente, uma das primeiras preocupações do ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, e do governador de MG, Romeu Zema, ambos do Partido Novo, foi defender a Vale e dizer que seria muito custoso para a região a interrupção das operações da empresa. As ações da Vale sofreram forte queda no instante do acidente, chegando a um valor de R$ 41,59. No momento em que este texto é escrito, um pouco mais de dez meses após a tragédia, as ações da Vale valem R$ 50,71. Quem apostou na Vale logo após a tragédia teve uma rentabilidade de aproximadamente 25%. Até o momento, a Vale gastou R$ 1,6 bilhão em indenizações e despesas com a tragédia. Neste valor não está incluso o dinheiro gasto em publicidade para melhorar a imagem da empresa. O lucro líquido da Vale em 2018 foi de R$ 26,65 bilhões. Até o momento, as 393 vidas custaram 6% do lucro de um ano da empresa. Nenhuma pessoa da Vale foi responsabilizada criminalmente até o momento pela tragédia.
Em 08/02/2019 ocorreu o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 10 jovens das categorias de base. O acidente ocorreu num alojamento provisório. Improvisaram-se containers e um curto circuito num ar condicionado sem manutenção causou a tragédia. Colocar crianças em containers era uma opção mais barata do que coloca-las em hotéis, por exemplo. Até o momento, não houve acerto de indenização para as famílias das vítimas. O valor oferecido pelo clube foi de R$ 400 mil a cada família mais um salário mínimo por mês pelos próximos dez anos. O Flamengo propôs pagar aproximadamente um pouco mais de R$ 5 milhões como indenização pela tragédia, proposta não aceita pelas famílias. O Flamengo gastou em 2019 mais de R$ 200 milhões em contratações. Apenas na contratação de Arrascaeta pagou R$ 80 milhões. A economia na indenização das famílias dos mortos no container coincide com a gastança no time de futebol profissional. Dentro de campo, o Flamengo que colocou jovens para dormirem em containers improvisados ganhou tudo. Venceu o Brasileiro depois de dez anos e a Libertadores depois de 38. “O Flamengo é um exemplo de gestão”, diz o comentarista animado. “O Flamengo pôs a casa em ordem”, diz o outro. Colocar jovens para dormir em container e não pagar a indenização das famílias é apenas um detalhe no futebol mercantilista. Em qualquer lugar sério, o Flamengo estaria com as atividades suspensas por três anos. Por aqui, “o Flamengo é o Brasil no mundial do Catar”. Até o momento, nenhuma pessoa foi responsabilizada criminalmente pela tragédia.
Em 01/12/2019 aconteceu uma tragédia num baile funk no bairro de Paraisópolis, em São Paulo. Cinco policiais, argumentando que buscavam dois suspeitos, barbarizaram e causaram o caos num evento com milhares de pessoas, causando pisoteamento. Imagens chocantes mostram o grau da barbárie dos policiais, que cercaram jovens em ruelas e os espancaram mesmo eles estando desarmados e não apresentando risco algum. Outra imagem mostra um policial rindo enquanto dá cacetadas em jovens passando com medo. Nos dias seguintes à tragédia, todas as manifestações públicas do governador do Estado, João Doria Jr., foram para proteger os policiais. Nenhuma manifestação de dor ou de solidariedade às vítimas, nada. O governador duvidou das imagens que mostravam a barbárie e não decretou luto oficial. Disse que a política pública de repressão aos pancadões e de criminalização do funk vai continuar. Dois dias depois, Doria compareceu a um evento da Revista Isto É em que foi premiado como gestor público do ano. Disse ele ao receber o prêmio: “O que mais precisamos no Brasil é Justiça, obediência e é isso que São Paulo faz”. No dia seguinte à premiação, o ex-presidente FHC elogiou João Doria, dizendo que ele é “uma das vozes racionais do Brasil polarizado”. De seu apartamento em Higienópolis, o ex-presidente não vê e não se importa com as dores de Paraisópolis.
Doria trouxe para a política as melhores e mais modernas técnicas da publicidade. Ele é um produto e o eleitor não é tratado como cidadão e sim como consumidor. Doria vai ajustando o seu produto, no caso a si mesmo, para se adequar àquilo que o consumidor quer comprar. Em 2018, o consumidor/eleitor quis a barbárie. A principal promessa de Doria na campanha eleitoral foi colocar a polícia para matar. “Mandar bandido para o cemitério”, foram as palavras ditas pelo então candidato, que também prometeu pagar os melhores advogados na defesa de policiais que fossem processados por abusos cometidos em operações. Amigo de Doria, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, trabalha incessantemente para diminuir as futuras dívidas que Doria possa contrair caso resolva cumprir sua promessa. O tal do “excludente de ilicitude”, que basicamente foi o carro-chefe de Moro em seu primeiro ano de gestão, praticamente elimina a possibilidade de punição a policiais que cometam erros. O excludente não foi aprovado, mas Moro não vai desistir e a lei nunca foi exatamente um problema para ele. Uma em cada três mortes violentas ocorridas em São Paulo é causada pela PM. No RJ, a situação é tão grave quanto, com a polícia batendo recordes de mortes e com o crescimento do domínio das milícias, já elogiadas pelo atual presidente, Jair Bolsonaro, quando ele era deputado. Em 2018 o eleitor brasileiro pediu por barbárie. Em 2019 os eleitos estão entregando o que foi pedido.
O acionista da Vale, o torcedor do Flamengo e o eleitor de Doria não têm do que reclamar em 2019. Ganharam dinheiro, títulos e viram a polícia “apavorar” os funkeiros que incomodam. E a barbárie está só começando. Ela já está precificada. Na foto vocês veem Dennys Guilherme dos Santos de 16 anos. Umas das vítimas de Paraisópolis. Uma das vítimas da política de Doria. Uma das vítimas do Brasil.