sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Cemitérios, finados, pai e Vitória 2x3 Corinthians

 


Eu sempre achei que uma das coisas mais feias que existe nas cidades grandes são estes cemitérios de pedra. Eles contam muito sobre o que nos tornamos. Não basta mais os esforços para nos diferenciarmos em vida, passamos a buscar a diferenciação na morte. Isto, claro, sempre existiu. Basta ver as pirâmides do Egito, afinal. Mas desde o século XIX, possivelmente, houve uma massificação deste processo. Algumas pessoas constroem verdadeiros mini templos em seus jazigos. Acho brega e prepotente.

Meu pai faleceu no dia 02/11/1998. Todo ano meu pai me levava ao cemitério no feriado de Finados, era um feriado sagrado para ele. O túmulo da família dele fica no cemitério São Paulo, que é um deste cemitério de pedra feios que existem espalhados por aqui.  Na entrada, temos os túmulos das pessoas mais importantes, com seus pequenos templos de gesso feito por artistas talentosos, mas de mau gosto. O túmulo da família do meu fica um pouco depois do centro do cemitério. Você sobre, entra a esquerda num corredor que não sei se tem nome, em dado momento entra à direita, sobre mais um pouco, e chega. Fica ao lado de uma pia, que sempre foi o meu ponto de referência naquele labirinto.

Eu tinha 14 anos quando meu pai morreu de câncer, o que quer dizer que ele esteve doente basicamente em todo período que convivemos neste planeta. Eu era completamente adaptado ao fato de ter um pai doente e achava totalmente normais as idas e vindas do hospital. Não sei se toda pessoa é assim antes de perder alguma pessoa próxima que ama, mas eu achava completamente impossível que meu pai morresse. Mesmo com câncer, esta ideia nunca tinha me passado pela cabeça. Coisas claras indicando que ele estava partindo aconteciam sem que eu me ligasse disso. 02/11/1998 foi uma segunda-feira e na sexta-feira todas as irmãs dele que moravam no interior vieram visitá-lo. No sábado ele foi para o hospital e no domingo um tio me levou para aquela que seria minha última visita a ele. Meu pai ainda não havia sido sedado e nossa última conversa foi sobre o jogo Vitória 2x3 Corinthians pelo Campeonato Brasileiro de 1998. Às vezes eu acho que sou a única pessoa no mundo que lembra que este jogo existiu.

Meu pai era corintiano fanático. Em 1977, por exemplo, ele simplesmente não conseguiu assistir ao terceiro e decisivo jogo da final contra a Ponte Preta. Trancou-se no cinema e se isolou do mundo numa sessão do filme O Inferno na Torre. Ele faz parte daquela geração que chamo de corintianos azarados. Até 1998, o Corinthians era basicamente uma porcaria. Era campeão de vez em nunca. A juventude dele foi vivida nos 23 anos de fila. Foi neste ano que o Corinthians ganhou o segundo título brasileiro, já sem ele vendo. De lá para cá, o Corinthians ganhou tudo. Penso nele cada vez que o Corinthians ganha algo, aliás.

A grande marca deste Vitória 2x3 Corinthians pelo Campeonato Brasileiro de 1998 é que o segundo tempo foi até os 60 minutos. Não lembro por quê, só lembro que foi até os 60 minutos porque esta foi a última coisa que disse a meu pai. Ele acordou, sorriu, perguntou quanto tinha sido o jogo, eu respondi “3x2, e o segundo tempo foi até os 60 minutos” e ele voltou a dormir. Ele já estava respirando por aparelhos, mas isto não foi o suficiente para me tirar da bolha. Eu só percebi que meu pai estava morrendo quando encontrei a minha irmã no mesmo dia. Ela tinha ido viajar com a equipe de basquete da universidade e voltou ao saber o que estava acontecendo. Assim que ela voltou, olhei nos olhos dela e a abracei, e neste abraço minha ficha caiu. Fui com ela ao hospital e bateu o desespero quando soube que meu já estava sedado e não acordaria mais. Um dos motivos deste desespero era ter que conviver com o fato de que minhas últimas palavras a ele não seriam “eu te amo”, mas “o jogo foi até os 60 minutos do segundo tempo”.

Minha relação com a morte foi totalmente moldada por este evento. Se antes eu achava que ninguém do meu mundo iria morrer, a partir daquele momento eu passei a achar que elas iam morrer a qualquer momento. Na semana passada, por exemplo, liguei para minha irmã e ela me respondeu que tinha ido dar uma volta de bicicleta, que me ligava na volta. Eram 18:00 e ela me ligou às 20:00. Eu passei estas duas horas com o telefone em cima da perna. Deixei de morar com a minha mãe há 5 anos e pelo menos uma vez a cada seis meses eu faço uma visita surpresa porque ela não atendeu ao telefone. Uma característica minha, por exemplo, é que muito raramente uma briga comigo dura mais de um dia. Para que eu não peça desculpas, mesmo estando certo, é necessário que o assunto seja muito importante e que eu esteja muito certo. E política é um destes assuntos importantes, para deixar claro. No momento atual, em que somos governados por um genocida lunático cercado de um grupo de fanático, não apenas se pode como se deve brigar por política. É um dever moral. Se estas duas características não estiverem presentes na briga, eu peço desculpas em umas duas horas, mesmo estando certo. Não há nada pior, aliás, do que quando peço desculpas para uma pessoa, mesmo sabendo que eu estava certo, e esta pessoa não as aceita.

Quando eu ia ao cemitério com meu pai no dia de Finados, uma das coisas que me fascinava naquele labirinto de pedras era ver as plaquinhas dos mortos, especialmente quando aparecia alguém que tinha nascido em mil oitocentos e bolinhas. Achava fascinante que pudesse ter havido vida cem anos antes de eu nascer. E começava a achar fascinante que haveria vida cem anos depois de eu nascer. Eu sempre tive noção de que ia morrer, apesar de achar que meu pai nunca morreria. Foi no dia 02/11/1998 que eu passei a ser confrontado com o dia 07/05/2024. Meu pai morreu de câncer de próstata, meu avô morreu de câncer de próstata e, a partir deste dia, o conselho que mais recebi na vida foi: “Não se esqueça que você precisa começar a fazer os exames aos 40 anos”. Achava este conselho uma bobagem quando tinha 14 anos. Agora tenho 36. Quando eu tinha 14, parecia que o dia em que eu teria 40 estava muito longe. Me aproximo dos 40 e agora acho que o dia em que eu tinha 14 está tão perto.

Cada uma daquelas plaquinhas tem uma vida repleta de acasos. Sou do tipo que acha que é ele que rege nossas vidas, antes mesmo de nascermos. Por exemplo, um dos grandes acasos da minha vida aconteceu trinta anos antes de eu nascer, quando meu pai ganhou na loteria. Não era o prêmio de loteria de hoje, claro, mas garantiu uma série de regalias a ele e boa parte dos privilégios da minha vida. Com este dinheiro, meu pai comprou uma casa no Cambuci, para a qual eu, minha mãe e minha irmã nos mudamos nos anos 1990 e que vendemos em 2011, comprando o apartamento em que minha mãe mora. Parece simples, mas demorei muito tempo para perceber o papel da sorte e do privilégio na minha vida. Defendia com unhas e dentes a meritocracia, gostava de pensar que tinha “direito” as coisas que tenho porque trabalhei muito por elas. Bobagem gigantesca. Boa parte delas veio por um golpe de sorte.

Meu pai tinha duas famílias. Não vou entrar no mérito de como isto aconteceu, mas entre estas duas famílias rolou aquela briga quase clichê que acontece quando alguém nesta situação morre. Para quem gosta de brincar com o acaso, como eu, esta briga foi determinada lá em algum ano dos 1950, quando cinco bolinhas determinaram o futuro de um ser que nasceria em 1984. Uns dez anos depois da morte do meu pai, eu percebi que ele tinha sido um filho da puta na história. Lembrem-se que claramente sou uma pessoa que demora muito para perceber as coisas. Descobri isto convivendo com uma pessoa que tinha vivido uma situação inversa à minha. Eu sou fruto da segunda família e esta pessoa era da primeira. Até aquele dia, eu nunca tinha me posto no lugar da família que tinha sido enganada. Foi uma merda de período que durou uns dois anos. Passou numa conversa aleatória. Nunca toquei neste assunto com ninguém, até um dia em que numa viagem de carro com minha irmã resolvi mencionar algo do tipo com a minha irmã. Perguntei, sem usar estes termos, claro, se ela não achava que meu pai tinha sido um filho da puta na história. A resposta da minha irmã foi: “Não vale a pena pensar nisso”. Foi libertador. Nem sempre vale a pena pensar nas coisas, afinal. Se meu pai foi um filho da puta, ele pagou por isto tendo filhos que se odeiam e que entram em guerra por causa de imóveis. Deve ser a pior sensação do mundo.

Na época em que meu pai morreu, eu era viciado em comprar CDs. Era minha paixão, usava todo meu dinheiro nisto. Na semana de 02/11/1998, comprei dois CDs. Uma coletânea dos Ramones e um CD especial que o U2 lançou exatamente naquele dia. Era uma coletânea com as músicas deles dos anos 1980, com numeração especial. Meu pai faleceu na noite de 01 para 02/11 e minha irmã resolveu me levar neste lançamento como primeira tentativa de tocar a vida. Foi uma enorme bobagem. Eu nunca consegui ouvir estes dois CDs direito na vida e passei a relacioná-los diretamente ao evento da morte do meu pai. Em 2018, resolvi me livrar destes CDs. Isto aconteceu assistindo ao programa Gol, o Grande Momento do Futebol. Eu sempre saía aos domingos, gostava de curtir a Paulista aos domingos. Naquele dia choveu e eu estava de ressaca, resolvi ver TV. Bem naquele dia, por algum motivo X, a Bandeirantes resolveu passar os gols daquele jogo. Fazia uns 15 anos que não chorava por aquele assunto, e lá estava o Corinthians x Vitória de 1998 arrancando as lágrimas de um assunto que eu julgava cicatrizado. Naquele momento, estava decidido que ia me livrar dos CDs. Na segunda de manhã, atrasei no trabalho porque passei num sebo do centro. Recebi R$ 5 pelos CDs. Comprei dois pães-de-queijo. De certa forma, eu achava que manter aqueles CDs era uma obrigação, que eu precisava me manter preso àquele momento, que precisava me punir por não ter tido uma última conversa decente com meu pai. Me libertei. Senti que o acaso me libertou. A chuva do domingo, o produtor do Gol, o Grande Momento passando estes gols de um jogo que não significou nada para ninguém bem naquele dia, na minha cabeça tudo aquilo foi um sinal. “Não vale a pena pensar nisso”.

Superar não é esquecer, é aprender a conviver com as lembranças. Nunca vai cicatrizar. Toda vez que o Vitória é rebaixado no Campeonato Brasileiro sinto um enorme alívio. Um ano sem o jogo. Mas por mais que venda os CDs no sebo, o 02/11/1998 estará sempre na minha vida. Como o sentimento triste no dia dos pais. E seguirá sendo assim, para o bem e para o mal. Saber que a pessoa que amamos não era perfeita, mas que isto não é motivo para deixarmos de amá-las. Saber que cada plaquinha do cemitério de pedra ainda vive em alguém e que daqui a cem anos eu viverei em alguém. A vida é um ciclo regido pelo acaso. Um ciclo de aprendizado e de traumas. Vivemos a maior tragédia coletiva da nossa geração, com mais de 100 mil mortos de Covid nos últimos cinco meses e com mil pessoas morrendo por dia. Enquanto há um esforço para naturalizar a tragédia, para seguir a vida como se isto fosse uma “gripezinha”, só consigo pensar no meu pai. Colocar-se no lugar do outro é uma forma de entender a dor. A minha dor é a dor do outro. A dor do outro é a minha. 


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Ozônio no rabo dos outros é refresco


Em um novo capítulo deste conto que mistura surrealismo, tragédia e comédia pastelão que se tornou o Brasil, ganhou espaço nesta semana um novo “tratamento” para a Covid-19: enfiar ozônio no cu. Embora ainda não tenha ganho o apoio oficial do governo e do presidente, os defensores do ozônio no cu já foram recebidos pelo atual eterno provisório ministro da Saúde. Parece ser questão de tempo para que o presidente embarque na campanha pelo ozônio no cu.

Eu não sei vocês, mas às vezes eu fico pensando se é a mesma pessoa que cria estas histórias e que de certa forma fica se divertindo ao ver até onde elas podem ir neste manicômio que virou o Brasil. Tipo, será que um dia um cara não pensou: “vamos inventar que o PT quer criar uma mamadeira no formato de piroca para ver se as pessoas acreditam”, rindo e se animando ao ver que as pessoas acreditaram? Será que este mesmo cara depois não inventou “vamos dizer que querem mudar o sexo das crianças nas escolas para ver se eles são imbecis o suficiente para acreditar” e mais uma vez viu sua história ir para frente? Agora este mesmo cara pode ter decidido “vamos dar um passo além, vamos ver se as pessoas estão dispostas a enfiar ozônio no próprio cu se a gente inventar que, sei lá, cura o coronavirus?” Já consagrada, a ideia ganhará o sucesso final com o apoio do presidente, o Messias da imbecilidade.

A porcentagem de pessoas que se cura da Covid-19 é algo em torno de 95%. A porcentagem de pessoas que se cura da Covid-19 usando cloroquina é de 95%. Já para o ozônio no cu, também deve ser de 95%, isto considerando que não haja algum efeito colateral que reduza esta taxa e que, sei lá, mate a pessoa. Não deve fazer bem, afinal, enfiar ozônio no cu. O fato é que a maioria das pessoas com Covid-19 que enfiarem ozônio no cu se curarão da doença, obviamente não graças ao ozônio no cu, mas apesar dele. Mesmo assim, porém, elas realmente acreditarão que foi este produto que salvou suas vidas. Elas dirão aos conhecidos: “fiquei doente, mas foi só colocar ozônio no cu que melhorei”. A pessoa que ouvir a história correrá aos conhecidos dizendo “conheço um cara que teve Covid-19, enfiou ozônio no cu e melhorou na hora” e assim uma verdadeira corrente de ode ao ozônio no cu tomará conta do manicômio. É provável que em poucas semanas já veremos Osmar Terra com espaço na Globonews e na CNN defendendo o uso do ozônio para cu, para desespero de algum especialista em medicina que verá sua opinião igualada a de um fanático imbecil.

Pode ser ignorância minha, mas eu não sei nem onde vende ozônio, se é fácil comprar e se existe um ozônio específico para cus. Mas se eu tivesse loja de alguma coisa, já estaria estocando o produto para atender esta nova demanda. Não sei se tem empresa que comercializa ozônio para cu na Bolsa de Valores, mas se houver, minha dica é que os investidores corram em busca destes valiosos papéis, especialmente se o presidente embarcar na campanha. Quem fizer isto ganhará mais dinheiro do que no boom dos bitcoins. Ozônio para cu e armas, os dois produtos que mais valorizaram no governo Bolsonaro.

Há umas duas ou três semanas, aconteceu aquela que eu achava que seria a cena mais bizarra deste manicômio que é o Brasil durante a pandemia. Numa quinta-feira ensolarada, lá estava o presidente do país correndo atrás de uma ema que o havia bicado, mostrando uma caixa de remédio que, embora já tenha a ineficácia para o tratamento da Covid mais do que comprovada, ele jura que é a cura para a pandemia. Eu estava errado. A história do ozônio no cu consegue ser ainda mais bizarra do que isto e não duvido nada que em duas ou três semanas veremos o presidente correndo atrás da ema para aplicar um pouco de ozônio no cu dela. Eu tenho estado errado há muito tempo, aliás. Achava que era impossível que o Brasil elegesse um completo imbecil insignificante como presidente, que o país se uniria contra ele caso esta possibilidade existisse. Eu estava errado. Achei também que esta enorme tragédia, sem querer romantizá-la, iria de alguma forma restaurar algum espírito de coletividade em nossa sociedade individualizada, que todos veriam como ações individuais podem trazer consequências negativas, achei que o conhecimento seria valorizado, que todos faríamos uma autocrítica sobre nossos comportamentos nos últimos anos. Eu estava errado. Ao invés disso, estamos reabrindo lojas, escolas e voltando partidas de futebol enquanto mais de mil pessoas morrem por dia. Eu achava que a pandemia seria uma chance de humanizar uma sociedade que se desumanizou pelo ódio da última década, processo este que chegou ao ápice na eleição de 2018, com a vitória de um candidato que possui todos os preconceitos possíveis, que ameaçou guerra contra vizinhos que não nos ameaçam e que prometeu matar ou expulsar do país aqueles que não concordassem com ele. Eu estava errado. Ao invés disso, estamos enfiando ozônio no cu. Talvez já façamos isto deste outubro de 2018. Naquele momento tínhamos duas opções, a civilização e a barbárie, representada dois anos depois pelo ozônio no cu. Venceu o ozônio no cu.





quarta-feira, 1 de julho de 2020

Bonde do Mengão Sem Freio



Os últimos anos têm me mostrado que eu sou a pessoa mais otimista e ingênuo do mundo. A tragédia que vivemos na pandemia é a prova disto. Eu juro que, sem querer romantizar a enorme tragédia, achava que de certa forma sairíamos mais forte como sociedade após viver esta enorme tragédia coletiva. Eu realmente acreditava que esta tragédia criaria uma rede de solidariedade e que entenderíamos que somos a mesma coisa. Que sentiríamos como nossa cada perda humana que ocorresse e que entenderíamos que a vida é mais importante do que o trabalho ou do que qualquer mercadoria. Achei realmente que a sociedade iria debater de forma séria a situação dos trabalhadores precários, rever nosso programa de proteção social e rediscutir o papel do estado no processo de reparação de desigualdades históricas e distribuição de riqueza. Isto claramente não vai ocorrer. O cada um por si vai até piorar depois da pandemia. Além das enormes vidas humanas perdidas, nossa sociedade perdeu qualquer vestígio que restava de humanidade e trucidou qualquer tipo de esperança que eu ainda tinha. O Brasil lida com a pandemia da mesma forma que lidou com todas as suas mazelas em sua história. Chegamos a um ponto em que de certa forma vamos fingir que ela não existe. A tragédia entrou no Brasil através da elite que trouxe a doença da Europa e, enquanto ela estava concentrada nesta classe social, havia o consenso de que era necessário fechar tudo. A partir do momento em que a elite e classe média se salvaram e a doença se espalhou entre a camada mais pobre, acabou o consenso. Os grupos dominantes agora pressionam pela abertura do comércio. Enquanto os pobres literalmente se matarão, pegando transporte público lotado, para garantir o seu sustento, elite e classe média ficarão em casa aproveitando os benefícios do home office. O número de mortos nunca foi tão alto. Recordes a cada dia. Mas a galera cansou de ficar em casa. Salvar vidas não é tão importante quanto curtir uma festa ou uma praia. Formamos uma classe média que, em geral, é totalmente incapaz de fazer qualquer tipo de sacrifício em nome do bem estar social. 
Cometi o mesmo erro em 2018. Passei a eleição inteiro tranquilo, achando impossível que Jair Bolsonaro e seu projeto fascista recebessem mais de 50% dos votos. Qualquer um que for para o segundo turno com ele, pensava este inocente eu, venceria. Formaríamos uma frente ampla contra o fascismo. Isto se ele for para o segundo turno, pensava o inocente eu. Na hora do vamos ver, pensava o inocente eu, a galera vai votar no Alckmin. Quando eu abri os olhos, Bolsonaro quase ganhou no primeiro turno e levou com facilidade no segundo. Abri os olhos não só para isto, mas para o fato da minha vida ser rodeada de Bolsonaros. Os parentes racistas que diziam que bandido bom era bandido morto. Os colegas da faculdade de economia que defendiam a unhas e dentes seus privilégios. Os colegas de trabalho que possuíam asco pelo conhecimento e que passavam o dia fazendo piadas homofóbicas. Bolsonaro já havia ganho antes mesmo de existir. Ele foi a personificação de um Brasil que cansou de fingir que tinha algum tipo de civilidade. Não é à toa que o elogio que alguns eleitores faziam a Bolsonaro é que “ele diz umas verdades”. A verdade se tornou um conceito aberto e, sem dúvida, no mundo destas pessoas, Bolsonaro realmente diz umas verdades. Quem vivia numa mentira era eu. Numa bolha de inocência. E continuei nela em 2020.
São vários os símbolos da era que vivemos. A ignorância, o ódio, o preconceito e, sem dúvida nenhuma, o Flamengo. No ano passado, morreram no clube nove jovens da categoria de base, queimados enquanto dormiam dentro de containers. O clube não foi punido e faz o possível para adiar o pagamento de indenizações às famílias das vítimas, indenizações que não chegam a ser igual ao salário pago ao técnico Jorge Jesus. No mesmo ano desta tragédia, o Flamengo se orgulha daquele que seus torcedores chamam de “melhor ano da história do clube”. Liberta e brasileirão no mesmo fim de semana! Sobre a tragédia, a torcida se acostumou. No meio desta enorme tragédia coletiva que vivemos, a prioridade do Flamengo foi a volta do futebol. Não tenho conhecimento de nenhuma contribuição que o Flamengo tenha dado à sociedade neste período. A prioridade é voltar a jogar bola. O argumento é que eles, o Flamengo, garantiram todo o protocolo de segurança. Foda-se que os outros clubes não tiveram a mesma oportunidade e foda-se que à volta do clube centenas de pessoas morrem diariamente. “Não temos nada a ver com isso”, diz a mensagem implícita do clube. Passou por cima das leis municipais, voltando a treinar antes do permitido, forçou a volta do campeonato mais insignificante do mundo, o carioca, e se aproximou do presidente facínora para obter uma melhor negociação nos direitos televisivos. Pressiona também para a maluquice final, a volta do público aos estádios. Quem pegar pegou. O Flamengo tem como proteger seus atletas. Embora não tenha protegido os nove do ninho.
O futebol nos idiotizou. Isto foi fruto de um trabalho mercadológico que enalteceu a idiotice futebolística. Toda vez que vemos uma matéria de alguém fazendo algo idiota por “amor ao clube” somos direcionados a achar aquilo demais. Lembro das matérias de corintianos vendendo tudo para ir ver um jogo no Japão e a galera pensando “uau, que demais”. Hoje chegamos a um novo momento, em que estes idiotas são completamente manipulados por todo tipo de interesse. O Flamengo formou um verdadeiro exército de imbecis, cuja noção de felicidade é baseada única e exclusivamente nos interesses do clube, mesmo que isto signifique risco à saúde pública e união a um projeto de governo fascista. O Flamengo não é o único time a fazer isto, aliás. O Palmeiras, por exemplo, conta com a anuência de sua torcida num estranho projeto de uma esquisitíssima instituição financeira que também puxa o saco do governo facínora. O problema é que nenhum clube o faz de forma tão desumana e forte como o Flamengo e nenhum tem a força que o Flamengo tem demonstrado. O Brasil se transformou no Bonde do Mengão sem Freio. Um bonde que vai, sem freio, rumo ao abismo. É uma distopia digna dos piores filmes de terror o que virou o Brasil e o papel do futebol neste horror. Enquanto o Flamengo reestreava num jogo sem público e sem transmissão pelo campeonato carioca no Maracanã, quatro pessoas morriam de corona no hospital de campanha ao lado. Mil e duzentas pessoas morreram apenas ontem na pandemia. Sessenta mil morreram no total. Quantas mais vão morrer? Não sabemos. Em agosto, volta o Brasileirão.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Você é pessoa física ou pessoa jurídica?



A principal causa do fracasso brasileiro no combate ao coronavírus é o culto ao individualismo. Num momento em que enfrentamos uma pandemia que exigia trabalho em equipe e preocupação com o outro, fomos, em geral, simplesmente incapazes de realizar este  grande esforço coletivo. Cada um por si e todos se fodendo. Não à toa o único país que foi mais incompetente que o Brasil no combate à pandemia, os EUA, é o único que consegue ser ainda mais radical nesta ode ao individualismo. Como, num país como o Brasil, convencer milhões que seria necessário fazer sacrifícios pelo bem coletivo? Como convencer milhões que foram completamente abandonados pela sociedade e cujo dia a dia é um combate pela sobrevivência a lutar uma luta por aqueles que nunca se importaram com eles? Não rolou. Ou então rolou do jeito que estamos acostumados, de forma tosca.
A grande tragédia brasileira exposta pela pandemia é a informalização do trabalho. Mais da metade dos nossos trabalhadores está jogada no mercado de trabalho sem nenhum tipo de apoio ou proteção social. Sempre foi assim, mas a partir da Reforma Trabalhista passamos, como sociedade, a enxergar nisto uma qualidade. Ao invés de combater a informalidade e trazer as pessoas para a proteção da formalidade, passamos a facilitar a informalização. A isto deu-se o nome de produtividade. O empresariado brasileiro, em boa parte formada por empresários que incentivam a população a furar a quarentena, pois para eles a morte de milhares de pessoas não justifica o fechamento da economia, foi bem sucedido em fazer crer que contrataria mais se pagasse menos tributos trabalhistas. Não contratou. Provavelmente pôs este dinheiro no mercado imobiliário de Miami.
Um dos absurdos com os quais nos acostumamos é com a ideia de que o trabalhador é uma pessoa jurídica. Abandonamos o CPF para nos tornarmos CNPJ. Ao nos convertermos em empresa, desumanizamo-nos. Passamos a nos enxergar como empresa e a ver no outro trabalhador não mais um colega, com lutas e dilemas semelhantes, mas como um concorrente. Não queremos mais nos unir a este outro trabalhador na luta por melhorias de trabalho, queremos ver esta outra “empresa” falida e fora do mercado. A instituição que servia para unir os trabalhadores, o sindicato, passou a ser demonizada. Perdeu sua função de existência. O trabalhador, que antes ficava enfurecido de ter que pagar a contribuição sindical, agora é uma feliz empresa que paga sorrindo um contador. Ao invés de holerite, emitimos uma nota fiscal. Toda esta transformação rompeu os laços que ligavam os trabalhadores e, mais do que isto, eles passaram a se enxergar como uma empresa que negocia em pé de igualdade com o patrão. Se ele passou a ver o antigo colega trabalhador como inimigo na concorrência, o patrão passou a ser visto como o cliente a ser bajulado. Aquele que nos trocará em qualquer situação de discordância e que poderá achar um concorrente disposto a me substituir de um dia para o outro. Tudo isto foi chamado de produtividade.
No mundo econômico em que as empresas foram convertidas em clientes e em que os trabalhadores foram convertidos em pequenas empresas fornecedoras não mais de mão-de-obra, mas de um “serviço”, os grandes aplicativos de entrega se tornaram uma verdadeira vitrine. A partir destes serviços, um grupo de investidores converteu milhares de jovens (ou não tão jovens assim) pobres em fornecedores de serviço, sem nenhum tipo de direito e concorrendo entre si. Recebem cada vez menos e trabalham cada vez mais, o mundo dos sonhos dos defensores desta visão de “produtividade”. Deu certo. O cliente adora uma promoção de entrega grátis. É muito bom receber um sanduíche sem ter que pagar o trabalho do entregador de bicicleta, afinal. Enquanto a classe média fica em casa pedindo sanduíche, esta galera está na rua arriscando suas vidas. O nome disso? “Produtividade”.
A eleição de alguém como Bolsonaro é como uma queda de avião. São vários motivos e vários culpados. E ela é um sintoma de uma grave doença social, a desumanização. Somos completamente incapazes de fazer algo pensando no próximo e isto foi desenhado nos últimos anos. Como pedir ao homem convertido em empresa que se preocupe com algo diferente do que sua taxa de lucro? Empresa quer mais é que seu concorrente se foda. Parte deste processo explica a força de um discurso de sucateamento e destruição dos serviços estatais. Cada serviço estatal significa uma chance a menos de lucro para o homem-empresa. Ontem passou no Senado o projeto de privatização do sistema de saneamento. O homem-empresa não se importa com o fato de que este sistema não será universal. No mundo em que até o homem se transformou em empresa e tem como função gerar lucro, fazer o mesmo com a água é detalhe. É produtividade. O Brasil não aprendeu porra nenhuma com a tragédia.
A chegada da pandemia no Brasil se deu pela elite que trouxe a doença da Europa. Com as mortes concentradas neste extrato social, resolvemos fechar tudo. Três meses depois, a doença parece controlada entre a elite, mas dizimando as comunidades mais pobres. Fechamos quando a doença matava 50 por dia. Estamos reabrindo com a doença matando 1300 por dia. A morte está chegando àqueles que a sociedade se habitou a ver mortos. Àqueles que a sociedade já naturalizou a morte. Eles já não têm água limpa. Continuarão não tendo. Mas desta vez o homem-empresa ganhará mais dinheiro ainda com isto. O homem-empresa está com pressa. A economia não pode quebrar. Definitivamente, somos uma experiência humana que deu muito errado. Normalizamos todos os tipos de absurdo.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

A sociedade de costumes




O Brasil possui uma característica própria de lidar com seus problemas e tragédias, o tornar-se acostumado. Nós não resolvemos quase nada. Acostumamo-nos aos problemas de tal maneira que em determinado momento paramos de enxergá-lo. É o que está acontecendo com a questão da Covid-19. Ficamos acostumados à ideia de que morrem mais de mil pessoas por dia da doença. O que outrora nos comovia, deixou de nos comover. E o fim da comoção tornou desnecessários para uma boa parte das pessoas os sacrifícios da quarentena. Esconder os problemas, apagá-los, é uma forma de evitar os sacrifícios para suas reais resoluções, especialmente para a classe média e para a elite.
Numa sociedade que escolheu ignorar problemas para impedir a solução, aqueles que os apontam são logo marginalizados ou convertidos em “terroristas”. Temos um grave problema de terras. O maior produtor de alimentos do mundo possui gente passando fome. Um grupo surgiu e apontou a existência deste problema, o MST. Logo foi marginalizado. Chamado de radical. Impedir que eles cheguem até as pessoas é uma forma de impedir que o problema seja percebido pela massa preocupa em trabalhar, consumir, pagar contas e dormir. A existência do sistema requer que estas pessoas estejam preocupadas com isto e façam tudo para manter esta roda do trabalhar, consumir, pagar contas e dormir rodando. O mesmo acontece com a questão da gentrificação e da especulação imobiliária. Temos um grave déficit habitacional em SP, preços explodindo de tal forma que uma pessoa de classe média precisa de 30 anos para comprar um apartamento pequeno. O MTST aponta este problema e logo recebe a mesma taxação que o MST. É importante impedir que aqueles que enxergam o problema tenham algum acesso aos meios de informação para continuar no mundo de fantasias em que o problema não existe, condição fundamental para aqueles que se beneficiam deste problema.
O Brasil nada fez por mais de um século para corrigir os efeitos nefastos de sua maior tragédia, a escravidão. Apenas nos anos 2000, governos estaduais e federal adotaram medidas de ações afirmativas que criara cotas em universidades públicas para enfrentar este problema. A classe média e a elite branca logo se escandalizaram, e  o principal argumento que elas apresentaram era que o problema não existia, estava sendo inventado. O Brasil, diziam eles, é uma democracia racial. A classe média e a elite brasileira são verdadeiramente incapazes de realizar qualquer tipo de sacrifício para solucionar qualquer problema e para isto é fundamental sua negação. Somos uma democracia racial justa e feliz, e nela impera a meritocracia, dizem eles. A mesma coisa acontece quando se fala de qualquer medida de distribuição de renda. Classe média e elite surtaram quando surgiu o Bolsa-Família, que salvou milhões de brasileiros de fome nas últimas duas décadas. O argumento era sempre meritocrático, do tipo temos que dar a vara e ensinar a pescar, e não dar o peixe. Argumento típico, aliás, de quem não sabe nem pescar nem o que fazer com o peixe. Argumento de gente que paga alguém para pescar e para cozinhar o peixe. A elite e a classe média brasileira resolveram construir prédios cada vez mais altos, com cada vez mais grades e cercas, com cada vez mais seguranças, normalmente pessoas pobres, exatamente para continuar a não enxergar os problemas. É mais fácil tomar uma taça de vinho e fazer um churrasco na varanda olhando de cima.
A quarentena no Brasil foi um fracasso. Há dois motivos principais para isto. O primeiro foi o boicote da elite empresarial e do presidente da República que a representa. Eles fizeram tudo para causar o caos. Como dito em parágrafo anterior, são pessoas incapazes de realizar qualquer tipo de sacrifício. Quando eles falam sobre o impacto da economia, eles estão falando do próprio bolso. Eles estão se lixando para o resto. A primeira coisa que farão quando isto acabar é ir embora para Miami ou para a Europa. A segunda causa é a precarização do trabalho. Passamos os últimos quatro anos fazendo o possível para destruir o sistema de proteção social ao trabalhador. Quase todo nosso sistema de proteção é voltado ao trabalho formal. É ele que tem aposentadoria, INSS, seguro-desemprego e que pode ficar em casa nesta situação. Nada fizemos, nada, para criar algum tipo de proteção às pessoas que perderam a formalidade. Empurramos milhões para a tragédia dizendo que isto era produtivo. Como cobrar de uma pessoa que precisa trabalhar de dia para jantar à noite que ela fique em casa? O governo federal e a elite fizeram tudo para boicotar o pagamento da renda emergencial. Isto feito, estão desesperadas para parar de pagar. Já reduziram pela metade para os próximos dois meses e, em seguida, como num passe de mágica, o problema mais uma vez deixará de existir. É gostoso pagar pouco para receber o almoço pedido no Ifood, afinal. Quando não tem taxa de entrega, melhor.
Uma das principais causas da tragédia que vivemos é que a elite e classe média conseguiram nos últimos anos empurrar para a sociedade que tudo pode ser feito, menos aumentar impostos. A solução para todos os problemas está apenas nos gastos e não na receita, então vamos cortando tudo. Investimento em saúde, em educação, em moradia. Tudo isto explodindo agora. Tudo isto sem ser falado. Mais do que o cansaço pela quarentena, o que classe média e elite não aguentam mais é fazer sacrifício. Três meses já foi tempo de mais, encheu o saco. Eles querem consumir e explorar. Uma das primeiras coisas que vai abrir em SP serão os shoppings centers. Não há nada mais inútil e perigoso neste momento do que abrir os shopping. Mas foda-se.
Sou uma pessoa branca de classe média e conversar com as pessoas que fizeram parte do meu mundo até 2016 é desesperador. Principalmente porque me enxergo nelas. Eu fui por muito tempo aquilo que critico. O emprego de merda para financiar as bebedeiras nos fins de semana e viagens cada vez mais caras, os olhos fechados. Frequentava lugares em que toda a clientela era branca e em que todos os atendentes eram negros. Dizia que racismo não existia. Trabalhava num ambiente em que basicamente só havia pessoas brancas, apenas o pessoal de limpeza e de segurança era negro. Dizia que racismo não existia. Uma conversa em 2014 abriu meus olhos. Conversava com um amigo parecido comigo num bar, numa mesa com outros amigos. Ele contava, rindo, que um colega iria pagar sua empregada doméstica para que ela votasse em Aécio. Todo mundo riu. Eu não. Não dormi duas noites. O problema passou a existir e minha vida mudou. O que eu seria sem este momento? Isto me assusta.
Todos nós perderemos pessoas próximas nos próximos meses. E tudo começou lá atrás, na eleição do genocida. E quando podíamos impedir a concretização da tragédia, resolvemos abrir os shoppings. Os três meses não parecerão nada quando a pessoa próxima partir. Esta é a única dor que mesmo uma sociedade de merda como a nossa não consegue se acostumar. Podíamos evitar. Mas ficar em casa encheu o saco. E a economia precisa rodar. A Bolsa de Valores está animada com o reaquecimento da economia. É fundamental para esta turma que os problemas sigam sem existir. Está triste? "Faça terapia, vai resolver." 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

A falsa simetria




Nada no mundo é pior do que Bolsonaro. Ele se tornou a referência do que é ruim. Toda vez que alguém fala alguma merda ele logo é comparado ao presidente. “Ele é tipo Bolsonaro”. Mas, repito, não há nada pior do que Bolsonaro. Nada. Este tipo de comparação é muito comum entre as pessoas que estão arrependidas por terem votado no capitão ou que optaram pelo voto nulo no segundo turno em 2018. Como uma tentativa de aliviar a mente da culpa que sentem (ou que ao menos deveriam sentir se tivessem vergonha na cara), elas vibram quando alguém do PT fala alguma bobagem comparável às inúmeras ditas por Bolsonaro. Foi assim com Lula na semana passada. Lula disse uma grande bobagem e merece ser criticado por isto. Reconheceu o erro e inegavelmente tem crédito para que as desculpas sejam aceitas. Mas não adianta. Para boa parte dos “arrependidos” ou “nulos”, isto foi suficiente para tentar aliviar a mente. “Viu, eles são a mesma coisa”, eles disseram. Não são.
A seita dos “arrependidos e nulos” gosta de classificar o mundo a partir da palavra seita. Há uma seita lulista e uma seita bolsonarista, segundo eles. Não entrarei no mérito do termo escolhido. Inclusive os aceitarei nesta análise com o objetivo de torná-la mais fácil. Sim, a seita lulista ama Lula. E o principal motivo para isto é a melhora que o seu governo trouxe para a vida dos integrantes desta seita ou para a vida de pessoas próximas. É a senhora que passou a vida lavando a roupa no tanque e conseguiu comprar uma máquina de lavar. O garoto que nos anos 2000 se tornou o primeiro integrante da família a fazer faculdade. É a empregada doméstica que teve seus direitos reconhecidos após décadas de abandono. A família da pequena cidade que teve a luz elétrica chegando em seu município. O pedreiro que, graças ao Bolsa Família, não precisou mais se sujeitar a aceitar qualquer trabalho para não passar fome. As pessoas que puderam ir de avião visitar seus parentes em cidades distantes, não precisando mais ficar três dias dentro de um ônibus. Milhares de pessoas excluídas que tiveram no governo Lula a primeira chance de colocar a cabeça para fora d’água. Que ganharam voz. O sentimento que nutre a seita lulista é a gratidão.
O mesmo não acontece na seita bolsonarista. Bolsonaro sempre foi a figura que berrava contra tudo isto. Bolsonaro deu voz à patroa que ficou puta em ter que pagar FGTS para a empregada. À elite que não gostou de dividir avião com a ralé. O mercado financeiro que não aguenta mais direitos trabalhistas. Toda a linguagem de Bolsonaro era destrutiva. O Bolsa Família era coisa de vagabundo, as cotas deveriam ser abolidas (em um dado momento ele disse que brasileiro tinha que acabar com esta tara por faculdade), os direitos trabalhistas abolidos. Ele nunca propôs construir nada. Repito, toda sua linguagem era voltada para a destruição. Deputado insignificante, ganhou fama em programas de subcelebridades e de “humor”, aqueles em que normalmente pessoas de classe média alta saíam por aí apavorando pessoas pobres (Lembro de um quadro do Pânico em que um cara ia na praia tirar sarro de pessoas que ele julgava feias). Bolsonaro estava sempre bravo e humilhando. Lutava contra o “politicamente correto”, termo criado por pessoas escrotas para justificar a própria escrotice. Encontrou eco em milhões de pessoas frustradas e rancorosas. Pessoas que não tiveram suas vidas materiais pioradas no governo petista, mas que se incomodaram em ver os pobres se aproximando. Bolsonaro deu voz a todos os preconceitos não muito escondidos em nossa sociedade. Racista, homofóbico, machista. “Tudo mimimi”. Desvaloriza a ciência e o conhecimento. Enxerga a própria burrice como qualidade. Exalta a tortura. Lembra da classe média vibrando com Capitão Nascimento colocando uma sacola na cabeça de negro pobre na favela? Ninguém fechou os olhos vendo aquilo na tela grande. A morte sempre foi a principal promessa de Bolsonaro. Desde antes da campanha, aliás. Enquanto Lula organizava as greves que representaram no fim dos anos 1970 o início da mobilização que resultaria no movimento pelas Diretas-Já, Bolsonaro organizava atentados nos quartéis. Diria anos depois que o maior erro da ditadura foi não ter matado pelo menos uns trinta mil. Suas maiores promessas de campanha foram metralhar a oposição, expulsar os descontentes e liberar o porte de armas. Se o sentimento que move a seita lulista é a gratidão, o que move a seita bolsonarista é o rancor. É o ódio. Notem que seus eleitores fiéis seguem furiosos. E continuarão assim. Este ódio é a única coisa que os move, sua razão de existir.
Críticas podem sim ser feitas ao governo de Lula. É fato que foram inúmeros os escândalos de corrupção, frutos principalmente de alianças que tornaram possíveis a governabilidade. Se a corrupção é a maior crítica que podemos fazer ao governo Lula, ela é a menor das críticas que podemos fazer ao atual governo. Bolsonaro seria um monstro mesmo se não fosse corrupto. Numa sociedade com o mínimo de decência, não precisaríamos nem ter que mostrar que Bolsonaro é corrupto. E é. Desde sempre. Quem diz que não sabia que Bolsonaro é corrupto é alienado, burro ou cínico. Ou mais de um destes adjetivos ao mesmo tempo. É bandidinho. Roubava o salário dos próprios funcionários no gabinete. Isto deveria ser irrelevante.
Durante a Lava Jato, criou-se uma narrativa em que a corrupção era a pior coisa do mundo e tudo valia a pena para combatê-la. Assim a sociedade aplaudiu as inúmeras agressões da operação contra o estado democrático de direito, o direito à defesa e a presunção de inocência. Conduções coercitivas transformadas em shows televisivos, prisões preventivas convertidas em instrumentos de tortura para obtenção de delações, nem sempre verdadeiras. O movimento de rancor e ódio encontrou na Lava Jato o seu instrumento de “justiça”. Completou o processo com a eleição do idiota.
Lula nunca chegou perto de representar os riscos de ruptura democrática que Bolsonaro representa. Não só ele, mas ninguém. Sempre lutou dentro das regras. Lutou contra o impeachment de sua sucessora, mas aceitou o resultado, mesmo que o processo tenha sido completamente fajuto. Aceitou sua prisão injusta e lutou contra ela sempre dentro da lei, nos tribunais. Passou mais de um ano preso, foi impedido de ver o enterro de seu irmão e quase não pôde se despedir de seu neto. Saiu e mesmo assim não prega o ódio. Não vai ser um “ainda bem” mal dito que vai estragar isto. E também não é este “ainda bem” que o tornou comparável ao monstro que foi eleito. Quem ajudou a elegê-lo é cúmplice, pois todos os crimes já estavam anunciados. Todos os arrependidos são bem-vindos, desde que honestos na luta.
Em 2019, a Argentina viveu uma situação até que parecida com a do Brasil de 2018. Não digo que muito parecida porque Macri é muito melhor que Bolsonaro. Mesmo assim, Macri aceitou uma posição submissa a Bolsonaro e não recusou seu apoio. Assim como no Brasil, a Argentina teve alguém classificado como “poste” como adversário destas forças reacionárias. Assim como no Brasil, o “poste” era um professor. A Argentina escolheu o professor. Durante a pandemia, morreram por lá 508 pessoas. No Brasil, o país que escolheu o capitão genocida, morreram 26.704 pessoas. E contando. Cada país fez sua escolha. Enquanto o professor uniu o país, apostou na ciência e prioriza salvar vidas, o capitão espalha notícias falsas, minimiza a dor daqueles que perderam entes queridos e estimula as pessoas a arriscarem a vida com o apoio de empresários igualmente imbecis. O que esperar de um cara que teve como momento mais famoso uma homenagem a um torturador em rede nacional? Igualar Bolsonaro a qualquer coisa é normalizá-lo. Ele não é normal. É pior que tudo. É o triunfo do ódio. Parar de normalizá-lo é o primeiro passo para tentarmos sair deste abismo em que caímos.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

ME AJUDA, LUCIANO!



Há uma classe de pessoas denominada isentões. Ser isento é um adjetivo, por si só, definidor, porém eu acho que o termo isentão foi criado para destacar pessoas que evitam escolher um lado mesmo que motivos para o contrário caiam em suas cabeças. É muito complicado manter um pé em cada canoa na descida do rio, você quer os bônus de cada lado e também que se julgar livre para criticar ambos.
Um caso que se tornou chacota, embora eu tenha extremo respeito pela figura na história, é o de Marina Silva. Marina foi declarada de extremo centro, tamanha a isenção em suas falas e dubiedade nas suas ações. Marina é incapaz de responder uma questão diretamente, parece a todo momento navegar nas duas canoas. Uma vez perguntada se era de direita, de esquerda ou de centro, Marina respondeu que estava à frente.

Uma marca de todos os isentões envolvidos na política dos últimos anos é colocar Bolsonaro e Lula como iguais de lados opostos, bem como seus apoiadores. O jornal O Estado de São Paulo publicou em 2018, pouco antes do segundo turno, o editorial mais vexatório possível e que até hoje é revisitado. O texto UMA ESCOLHA MUITO DIFÍCIL queria demonstrar como seria complicada a decisão do eleitorado nacional ao escolher entre Fernando Haddad, professor universitário, advogado, mestre em economia e doutor em filosofia, e o deputado Jair Bolsonaro, militar. Um ano e meio depois do editorial jornalistas do Estadão foram agredidos em um ato pró Bolsonaro em Brasília.
Colocar Bolsonaro e Lula no mesmo balaio é sempre uma tática para dizer não possui lado, de que o seu partido é o Brasil, que não tem político de estimação. Chegamos, então, ao personagem principal do texto. O apresentador Luciano Huck tuitou nessa semana o seguinte:

“Assustador. Duas das principais autoridades do país seguem frias na semana que vms chegar a 20 mil mortos. Sensibilidade zero. Nenhuma palavra de carinho c/ as famílias vítimas da pandemia. Um preocupado c/ o tamanho do Estado. O outro c/ a tubaína. O Brasil está descoordenado”.

Bolsonaro fez uma piada com cloroquina e tubaína, seguida de riso frouxo. Lula quis dar ênfase à importância do Estado para a população. Luciano Huck tratou de colocar esses dois aspectos no mesmo tuite. Assustador mesmo, Luciano.

O apresentador global está há anos construindo a sua imagem pública baseado no assistencialismo televisivo. Ele foi muito bom em construir a imagem de que ajuda as pessoas, quando na verdade compra histórias de pessoas paupérrimas para garantir 30, 40 ou 60 minutos de audiência, dando em troca uma reforma no carro, na casa, ou um prêmio qualquer em dinheiro. Eu costumo dizer que é muito difícil encontrar a caridade pura, já que se você faz o bem mas o conta para uma pessoa sequer estará tentando lucrar algo com aquilo, mesmo que seja apenas afeto ou reconhecimento. O Caldeirão do Huck possui dois objetivos: gerar lucro e criar a imagem perfeita do apresentador caridoso. No caso de Luciano é assim, lucro e caridade cabem sim no mesmo tuite.

A abordagem de Lula sobre a importância do Estado é necessária simplesmente pelo fato de estarmos em uma pandemia, e de que 75% da população depende exclusivamente do SUS. O Sistema Único de Saúde é realmente singular, já que está pronto para atender 210 milhões de habitantes, bem como qualquer estrangeiro em nosso território. Isso é incomparável no mundo.
A afirmação da saúde como primordial para a população brasileira na Constituição de 1988, com a posterior criação do SUS, é uma conquista de importância incalculável para o bem estar social. Estamos em um momento de avanço dos serviços privados sobre os públicos. Seja na saúde, na educação, nos bancos ou na segurança, o sucateamento do Estado é o objetivo dos conglomerados para empurrar goela a baixo a solução particular. Luciano é um liberal convicto, pensa que o Estado exige demais das pessoas através da cobrança de impostos, assim como eu penso. No meu caso, entretanto, acredito que os impostos sobre o consumo devem ser mitigados em prol dos impostos sobre fortunas e grandes heranças. Luciano é contra mais impostos sobre grandes fortunas e sobre heranças, afinal é herdeiro e rico. O pensamento liberal do apresentador é de tornar o Brasil um grande Caldeirão, onde os ricos ficam com as grandes receitas de publicidade enquanto os pobres recebem migalhas, após concluírem alguma gincana pitoresca.

Huck tem realmente uma relação de amor e ódio com o Estado. Em 2003 a sua pousada em Fernando de Noronha foi interditada pelo Ibama. Em 2007 foi acusado de outro crime ambiental pela prefeitura de Angra dos Reis e foi obrigado a paralisar a construção do seu deck, da sua garagem de barcos e da sua praia artificial, porém um ano depois foi beneficiado por um decreto do Sérgio Cabral que alterava a legislação ambiental, decreto que ficou conhecido como “Lei Luciano Huck”. Os advogados de Huck trabalhavam no escritório de Adriana Anselmo, esposa de Cabral. Em 2013 o liberal Huck adquiriu um empréstimo de 17 milhões de reais do BNDES, com juros de 3% ao ano, para comprar um jatinho particular. Está aí o Estado criando problemas e soluções para a vida do pobre milionário.

Até os isentões precisam se posicionar algumas vezes. Marina Silva declarou voto em Haddad na escolha muito difícil de 2018, já Luciano Huck, no mesmo cenário, disse: “Eu não voto no PT, eu nunca votei no PT e eu não vou votar no PT”.

Qual será o plano de saúde da família Huck?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

E daí?




Eu não tenho dúvidas que boa parte das pessoas que me conhecem devem me considerar um “petralha”. Não vou entrar no mérito do tema. Sim, acredito que se colocarmos numa balança o governo petista fez mais bem do que mal ao país, mas reconheço que houve vários erros na gestão. O fato importante é que quase todo mundo me acha “petralha”. Pois bem, na última eleição presidencial, um dos candidatos disse no palanque que, caso eleito, iria metralhar os “petralhas”. Mais do que isto, disse que aqueles que não concordassem com ele seriam presos ou expulsos do país. Sendo um “petralha”, eu sou uma das pessoas que ele prometeu metralhar. Não concordando com absolutamente nada do que ele diz ou faz, sou uma das pessoas que ele prometeu expulsar ou prender. Qual a reação que os eleitores desta coisa tiveram em relação a mim naquele momento? Elas basicamente falaram: “E daí?”.
O presidente da República fez da perseguição aos gays quase que um slogan de sua carreira. Disse que preferia um filho morto a um filho gay. Defendeu que pais agredissem seus filhos caso notassem indícios de que a criança fosse gay. O número de agressões a gays subiu exponencialmente no país desde a eleição desta coisa que hoje nos governa. Sua vitória representou um incentivo à homofobia. Imagine viver num país em que a maioria das pessoas vota em alguém que te quer morto? Alguém que incentiva que você seja agredido? Esta é a realidade que a maior parte da população LGBT no Brasil vive desde outubro de 2018. Qual a reação dos eleitores desta coisa a estas agressões, a estes assassinatos, a este medo, a este sofimento? Algo muito próximo ao “E daí?”.
Durante a campanha, a coisa que atualmente preside o país elogiou o processo de genocídio indígena brasileiro. Só não elogiou mais porque, segundo ele, não fizemos como os americanos, que, segundo suas palavras, “mataram todo mundo”. A violência contra populações indígenas explodiu em seu governo. O agronegócio e o extrativismo invadem, com anuência do governo, reservas indígenas, expulsam populações e agridem os nativos. Aumentou o número de lideranças indígenas assassinadas. Qual a reação dos eleitores desta coisa quando o então candidato prometia fazer isto ou quando veem algo sobre o assunto? Algo muito próximo ao “E daí?”.
Durante a campanha, o candidato coisa fez diversas declarações racistas. Disse que quilombolas eram pesados por arrobas. Chamou a gigantesca desigualdade racial que vivemos de mimimi. “E daí?”. Estimulou a xenofobia contra imigrantes africanos e haitianos. “E daí?”. Disse a uma deputada que não a estuprava porque "ela não merecia". "E daí?". Disse que fraquejou ao ter uma filha mulher. "E daí?". Prometeu entrar em guerra contra a Venezuela, vizinho que não nos ameaça. “E daí?”. Disse que as universidades públicas eram um antro de vagabundos. “E daí?”. Seu filho disse que fecharia o Supremo com um cabo e um soldado. “E daí?”. Disse que o maior erro da ditadura foi ter matado “pouca gente”. “E daí?”.
O grande momento da carreira desta coisa que nos governa até chegar à presidência foi na sessão de impeachment de Dilma Rousseff, quando, em rede nacional, dedicou seu voto à figura que a tinha torturado na juventude. Um homem que enfiava ratos na vagina das presas por prazer sádico. “E daí?”.
Mais de cinco mil brasileiros já morreram durante a pandemia do Covid-19. Muitos ainda vão morrer. A coisa que nos preside faz tudo para boicotar os esforços para salvar vidas. Espalhou uma cura falsa, criou burocracias para liberar o dinheiro que permitiria que muitos trabalhadores informais ficassem em casa se cuidando, faz campanha quase que diária contra o isolamento, única saída para diminuir a tragédia. Todo o discurso genocida da coisa encontrou na Covid a chance de se realizar. A reação dele às mortes é chocante, mas não surpreendente. “E daí?” é a reação esperada e o que  o fez chegar ao cargo em que chegou. Nas poucas vezes em que tentou simular algum tipo de compaixão pelas vítimas da tragédia, tudo que conseguimos ver é cinismo. Muitos (não a maioria) dos que votaram nele se mostram arrependidos. Sentem na pele o que é ver a coisa que possui o maior cargo do país dizer “E daí?” para seus medos, dores e sofrimentos. Bem-vindo ao clube. Muita gente já sente isto desde 2018. Dois anos vivendo num país que diz “E daí?” para vocês. Respeito o arrependimento destas pessoas. Mas elas são cúmplices. Não dá para ser amigo de quem falou “E daí?” para tanta gente por tanto tempo. Simplesmente não dá.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Angústia



Tenho dormido cedo. Evitei notícias por uma semana. O pensamento não acontece de forma linear. Dois problemas se misturam. A verdade do universo e a prestação que vai vencer. Mais de um mês sem abraçar minha mãe. A NET cancelou minha internet. Eu odeio a NET. A internet gratuita da NET funciona no meu apartamento. Eu amo a NET. Um mês sem ver minha irmã. Um mês usando máscara. Doria e Covas falando todo dia. Fiquem em casa. Bruno deixou de ser apenas o neto de Mário. Vê-lo lutando todo dia enquanto tem câncer é um alento. Quatro anos do impeachment. Bruno votou a favor. Que merda. O dia em que os bárbaros iniciaram o ataque à Roma. Dilma caiu. Temer subiu. Depois caiu junto com Aécio. Os bárbaros se aproximam de Roma. O chefe dos bárbaros elogia a tortura em programas de subcelebridades. Os bárbaros cada vez mais perto. Lula é preso. Facada. Os bárbaros chegam à Roma. O juiz que prendeu Lula vira funcionário do bárbaro-mor. Lula é solto. Tarde demais. Quando exatamente se tornou tarde demais? Acho que faz tempo. Que Deus tenha misericórdia desta nação. Não teve.
Lave as mãos com água e sabão. Passe álcool gel. É difícil manter a mente sã. Bate Sol aqui das 7 às 11. Precisamos de 15 minutos por dia. Metrô 2 vezes por semana. Enchendo. O rapaz vende fone. Outro chocolate. Outro canta Bob Marley. O governo não os ajuda. 600 reais enrolados. O presidente queria dar 200. Morre gente todo dia. Acontece. Voltem ao trabalho. 1 milhão vão morrer sem restrições. 44 mil vão morrer se fizermos tudo certo. Morreram 2 mil. Faltam 42 mil se der tudo certo. 999998 se fizermos o que o presidente manda. Novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e oito. Novecentosenoventaenovemilnovecentosenoventaeoito. Ummilhão. Números. Como convencer as pessoas a ficarem em casa? Pessoas não são números.
Cinquenta e sete milhões setecentos e noventa e sete mil oitocentos e quarenta e sete brasileiros votaram no capitão. Saíram de casa num domingo e apertaram 17. Ditadura. Tortura. Armas. Machismo. Xenofobia. Submissão. Religião. Mito. O genocídio chegou mais rápido do que o previsto. Por quem dobram os sinos? Nenhum homem é uma ilha. Um chinês comendo um morcego. O príncipe da Inglaterra. A mesma doença.
Pedalada fiscal. Ainda não sei bem o que é isso. Algo como atraso ao repasse de verbas do governo para o público. Ou abertura de crédito suplementar sem a aprovação do Congresso. Sei lá. Quando se quer culpar alguém, inventa-se um crime. Reforma no triplex do Guarujá. O possível comprador não quis comprar. A reforma não aconteceu. Quando se quer culpar alguém, inventa-se um crime. Moro na XP. Fraude fiscal. Guedes na XP. Fraude fiscal. Quando se quer inocentar alguém, esconde-se o crime. O juiz trabalhando com a acusação. Invenção de provas. Manipulação de áudios. Quando se quer inocentar alguém, esconde-se o crime.
Temos que ficar em casa por nós. E pelos outros. Individualismo. Como convencer a ficar em casa pelos outros se só pensamos em nós. Mão invisível do mercado. Estado mínimo. Gastos públicos. Déficit fiscal. CPFs com problemas. Burocracia. Filas. A sociedade não faz nada por mim, por que devo fazer algo pela sociedade? Eu não faço nada pela sociedade, por que ela deve fazer algo por mim?
“Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.” B. Brecht
“A história, Stephen disse, é um pesadelo de que eu estou tentando acordar”. Carreatas na frente dos hospitais. Gente morrendo dentro. Gente matando fora. Bandeira do Brasil. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Ou ficar a pátria louca ou matar pelo Brasil. Nacionalismo. Militarismo. Xenofobia. Todo mundo sabe onde isso dá.
“Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera
Irá desaparecer feito fumaça. Então
Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.” D. Kharms
Vontade de viajar. Não queria mais. Agora quero. Conhecer Belém. A Chapada. Voltar pra Imbituba. A festa de 50 anos de casamento da minha tia ficou sei lá pra quando. O casamento do meu amigo pra dezembro. “Para” no escrito. “Pra” no falado. Algum dia “pra” vai ser aceito no escrito. Três quilos a menos. O próximo carnaval promete. O passeio de bicicleta.
Cruzou o limite do inaceitável. Trinta anos defendendo a tortura. Deveriam ter matado uns trinta mil, ele disse. Prefiro um filho morto a um filho gay, ele disse. Só vagabundo recebe bolsa família, ele disse. Aquele lá pesa não sei quantas arroubas, ele disse. Vamos metralhar os petralhas, ele disse. As minorias têm que se submeter às vontades da maioria, ele disse. Viva o cara que enfiava rato na vagina de mulheres para obter delações, ele disse. O que pensar de quem acha que só agora é inaceitável?
“Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde , ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.” Drummond
Capitão Nascimento enfiava a sacola na cabeça do favelado. A plateia vibrava vendo aquilo na tela grande. O nariz do torturado sangrava. O juiz mandou raspar a cabeça do político preso. Ele foi para a solitária. Delírio entre os jornalistas. Qual o tamanho da cela em que ele dorme? Sua refeição de hoje foi macarrão e salsicha. Delírio. O apresentador de TV celebra cada morte. CPFs cancelados. O governador falou para atirar na cabeça. Nove mortos em Paraisópolis. Gustavo Cruz Xavier, 14, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23.
“Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.” Szymborska
Não tinha sal no mercado. O fornecedor não entregou. Caminhoneiros ameaçam greve. Fila de carros nos postos. Chegou gasolina. Intervenção Militar Já. 2015. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. Intervenção Militar Já. 2016. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. Intervenção Militar Já. 2017. Eles são a minoria, disse a jornalista. A passeata tem crianças e idosos e transcorre pacificamente. 2018. Tocam as trombetas do Apocalipse. Gritos na janela. Mito. Onde você estava quando a liberdade começou a ruir?
A Bolsa caiu com a chegada do fim do mundo. As bolsas da Ásia caíram mais de 10%. Onde investir? As pessoas estão comprando armas. O presidente e o juiz facilitaram a posse. Quem tentar roubar meu sal vai levar chumbo. Oitenta tiros mataram Evaldo Rosa. Excludente de ilicitude, disse o conje.
Aulas online. Zoom. Google Meet. Google Hangout. Espelhar tela. Não sabia nada disso há um mês. Fila na farmácia. Dipirona e AS estão em falta. Ligamos quando chegar. O remédio secreto do astronauta. A substância secreta produzida no laboratório secreto. Mais uma cura. Hidroxicloroquina. Fórmula: C18H26ClN3O. Massa molar: 335,872 g/mol. Mais uma cura. Azitromicina. Mais uma cura. Doria comunista. Maia comunista. Bill Gates comunista. Pronunciamento do presidente. A caixinha do remédio. Vamos orar. Soam as panelas.
Parasita. O cheiro. Os pobres se matando. No final, resolvem matar o rico. A vida no porão. Justus no navio. Voltem ao trabalho, ele disse. Reforma Trabalhista. Informalidade. Vamos crescer e gerar empregos. Não crescemos e não geramos empregos. É direito ou emprego, disse o presidente. Reforma da Previdência. Vamos crescer e gerar empregos. Não crescemos e não geramos empregos. É aposentadoria ou emprego, disse o presidente. É vida ou emprego, diz ele agora. Vamos metralhar os petralhas.
A cultura e o peido do palhaço. Moraes Moreira morreu. Viúva Porcina não se manifestou. Acabou Chorare é foda. O secretário ouvindo Wagner e imitando Goebbels. Faz só dois meses isso. É difícil se concentrar. Reclamava que não tinha tempo. Agora tenho, mas não sei o que fazer. Surto. Reflexões. O que seria da minha vida se tivesse seguido um caminho diferente?
“O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome” Drummond
Golfinhos em Veneza. Ar puro. A romantização da tragédia. Prisão preventiva como instrumento de tortura. Vai ficar preso até falar. O rato na vagina. O triunfo da ignorância. A violência como solução. Não teremos o que fazer com esses respiradores depois, disse o novo ministro. Como será nosso futuro? Mais um mês disso? Mais dois anos e meio disso? Ciclos no Brasil costumam durar 20 anos. Mais vinte anos disso?
Escolhemos nosso destino. O que teríamos sido? Não seremos. Somos isto. O filho que não fiz. O presidente que não escolhemos. A presidenta que não derrubamos. As crianças que não matamos. A renda que não distribuímos. Fome. Miséria. Doença. Tortura. Ignorância. Preconceito.
“Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.” C. Meireles

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A imbecilidade como religião



Não há na história republicana do Brasil um fenômeno político semelhante a Jair Bolsonaro. Ele é único e original. Por isto é tão perigoso e desesperador. Ninguém sabe ao certo como enfrentá-lo, embora seja bem previsível no que isto vai dar.
O sentimento que os fãs de Bolsonaro têm por ele é religioso. A submissão é total. Ao contrário dos outros líderes populares que o Brasil já teve, como Vargas e Lula, Bolsonaro não entregou nenhuma melhora material em suas vidas. A vida de ninguém melhorou graças a Bolsonaro, nem mesmo a dos mais ricos. O fascínio que Bolsonaro exerce sobre estas pessoas é de caráter mais metafísico. Bolsonaro as libertou. Bolsonaro libertou os imbecis, fez com que eles se sentissem valorizados, e por isto estes imbecis estão dispostos a matar e morrer por ele.
Os imbecis se enxergam em Bolsonaro. Todos tivemos Bolsonaros em nossa vida. O tio que falava merda, o colega de trabalho que achava que a solução era matar todo mundo, o colega de escola que fugia de livros, mas opinava sobre tudo. Bolsonaro deu a estas pessoas a representação. É um prazer gigantesco para eles ver alguém com as características do ex-capitão chegar ao topo. Eles passaram a vida estando errados. De repente, sentem que estão certos. O ego inflou.
A imbecilidade se tornou ideologia. Não importa qual o assunto, neste meio liderado pelo presidente vai prevalecer sempre a opinião mais imbecil. A mamadeira de piroca. O kit gay. A mudança de sexo em crianças. A doutrinação comunista nas faculdades públicas. Nada disso existe. Bolsonaro “salvou” o mundo disso. Não importa que nada disso exista. Lembre-se que, mesmo após termos ido ao espaço, ainda achamos que existe um Senhor no céu que controla tudo que fazemos, que sabe o que pensamos e vê o que fazemos, que nos mandará para o inferno se formos desobedientes, mas que nos ama. O inferno. Não é tão difícil assim acreditar no capitão.
 Toda a carreira de Bolsonaro é uma ode à imbecilidade e à mediocridade. Capitão, foi afastado do exército por planejar um atentado frustrado. Deputado por 28 anos, não entregou nenhum projeto relevante, não participou de nenhuma comissão importante. Seu papel era ser a voz dos frustrados e falar merda.  Do mesmo jeito que agora fala sem saber sobre a cloroquina, passou uma década sendo o convidado polêmico de programas de subcelebridades. Não sabia nada sobre nenhum assunto, mas opinava. Quase sempre com uma frase pronta que agradasse o senso comum. O Bolsonaro da tela contentava o Bolsonaro do sofá, frustrado por uma vida que não se realizou. O sucesso de Bolsonaro é o sucesso dessa gente.
O capitalismo gera frustração. Muito raramente somos o que queremos ser. A vida adulta é uma enorme decepção se não fugirmos do ciclo imposto. O trabalho nos faz infelizes. O trânsito nos faz infelizes. O casamento nos faz infelizes. A solidão nos faz infelizes. O medo nos faz infelizes. Queremos comprar mais do que temos. Fazemos dívidas. Ficamos no trabalho para pagar estas dívidas. Queremos uma casa maior. Queremos um carro novo. Queremos ganhar mais para gastar mais. Odiamos nosso trabalho. Odiamos nosso chefe. Odiamos nossa vida. Precisamos de um culpado. Que tal o governo? Que tudo exploda.
Tudo explodiu. Bolsonaro foi eleito sem prometer empregos, saúde, moradia ou qualquer melhora real na vida. Suas promessas principais na campanha foram matar e expulsar a oposição, entrar em guerra com a Venezuela, fazer as minorias se submeterem às maiorias, legalizar a tortura, perseguir homossexuais, retirar direitos sociais e corromper a democracia. Mais da metade do país votou neste projeto. Mais da metade do país se dispôs a matar com Bolsonaro.
Uma boa parte desta mais da metade se mostra também disposta a morrer por Bolsonaro. O crème de la crème da imbecilidade. Você não morreria por seu libertador? Os imbecis morreriam. Se outros vão morrer pela imbecilidade deles, não importa. Você não lembra das promessas do presidente? Você acha mesmo que esta gente vai ser convencida a ficar em casa porque pessoas vão morrer? Elas não deixaram isso claro na urna?
Talvez o único personagem histórico brasileiro que possa ser comparado a Bolsonaro, por incrível que pareça, seja Antônio Conselheiro. Ao menos no que se refere à ideia de que seus seguidores estão dispostos a ir até o fim pelo líder. A diferença é que a “Nova Canudos” não defende os direitos dos miseráveis e esfomeados. A “Nova Canudos” quer criar o paraíso dos imbecis. Se a antiga Canudos foi massacrada pela elite pelas forças da elite do Sudeste, a "Nova Canudos" conta com o apoio desta mesma elite para massacrar.
Evangélicos compram com mais facilidade o discurso de Bolsonaro. Não é diferente do discurso dos pastores e também cria um sentimento de pertencimento a algo. Os imbecis se encontraram em Bolsonaro e pela primeira vez sentem que têm razão. Ganhar uma eleição para estas pessoas, afinal, é ter razão. Lutarão até a morte para continuarem tendo razão. “Viva a cloroquina”.
Todos os dados possíveis comprovam que o Brasil nunca foi tão bom quanto no período entre 1994 e 2014. Avançamos em todas as áreas possíveis, com estabilidade democrática. Mostrar dado para imbecil é tão infrutífero quanto questionar a fé de alguém. Citar ciência para os imbecis é perda de tempo. Eles triunfaram achando. E vão continuar achando.
O Brasil não soube enxergar Bolsonaro como o inimigo a ser batido. Que pena. Pessoas como ele só saem do poder depois de muita destruição. Quem não conhece a história tende a repetir seus erros. Não acho que algo como ele já tenha acontecido. A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Não acho que algo como ele já tenha acontecido. Vivemos a tragédia.