domingo, 13 de fevereiro de 2022

A barbárie e o cancelamento

 


Em 25/03/2021, a apresentadora Xuxa Meneghel deu uma entrevista à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em que defendeu que presidiários fossem utilizados como cobaias para testes de empresas farmacêuticas. Disse Xuxa que, assim eles “serviriam para alguma coisa”. Xuxa não foi repreendida por nenhuma pessoa participando da entrevista. No dia seguinte, após polêmica em redes sociais, Xuxa se desculpou pelo que disse. Dizer que presos deveriam ser usados como cobaias no teste de remédios não foi suficiente para prejudicar muito a carreira de Xuxa.

A desumanização do inimigo é uma das muitos características do regime nazista. É mais fácil eliminar um ser humano quando ele foi descaracterizado como tal. Pensamentos e comportamentos tipicamente nazistas fazem parte do senso comum brasileiro. Em dezembro de 2021, o apresentador Ratinho disse que uma deputada federal deveria ser metralhada por causa de um projeto de lei que buscava tornar os termos da declaração do casamento mais inclusivos. Sugeriu que a deputada fosse “eliminada”. Após polêmica em redes sociais, o apresentador se recusou a falar novamente sobre o tema. Antes desta “polêmica”, Ratinho se destacou por diversas outras barbaridades, como dizer que resolveria os problemas dos presídios superlotados no Brasil com um botijão de gás.

Em fevereiro de 2014, Rachel Sheherazade defendeu em TV aberto o linchamento de um garoto que havia sido amarrado por um grupo de pessoas que o acusavam de roubar celulares. “Quem gosta de ladrão, que o leve para casa”. Sheherazade nunca se desculpou pela fala. Não teve a carreira prejudicada, pelo contrário, tornou-se porta-voz da extrema-direita brasileira, cargo que perdeu quando começou a criticar o atual presidente. Mas afirma segue sem se arrepender do que disse. Em fevereiro de 2022, o congolês Moïse Kibagames foi linchado por um grupo que comanda milícias donas de quiosques em praias no RJ. A barbárie não começou ontem.

O nazismo adora este termos. “Eliminar”. A violência é a solução para tudo. Por isto a tara pelo militarismo, pela polícia. Justiça é vingança. Não há categoria de pessoas mais desumanizada no Brasil do que a dos presidiários. Com eles, pode-se tudo. É necessário legitimar a barbárie e a eliminação dos oponentes, e esta é uma das funções da cadeia. O presidiário não pode ser ouvido e não tem direitos. Por isto é tão importante o apelido de “ex-presidiário” a Lula, aquele que pode derrotar os dois projetos de extrema-direita, que na verdade são um só.

O jornalista Merval Pereira escreveu em fevereiro de 2022 que Moro foi um juiz parcial, mas que isto não é um problema, que imparcialidade não existe. Democracia é um processo e o nazismo seduz com algumas quebras de burocracia. Depois cria outras, de tal forma a tornar toda a sociedade cúmplice de seus crimes. Mas a primeira etapa é reclamar dos processos que tornam a democracia possível. Direito à defesa e presunção de inocência são dois deles.

Transformar seres humanos em cobaias é uma característica nazista. Eliminar oponentes políticos é uma característica nazista. Defender justiçamento de uma maioria contra um suspeito é uma característica nazista. Legitimar uma condenação praticada por um juiz parcial é uma característica nazista. Possivelmente Xuxa, Ratinho, Rachel e Merval processariam alguém que os chamasse de nazistas. Assim como Kim Kataguiri está fazendo. Kim, o líder de um movimento que estimulou alunos a filmarem professores, que invadiu hospitais durante a pandemia e que perseguiu um padre que distribui comida para miseráveis nas ruas de SP. Ser chamado de nazista ofende. O mesmo Kim que defendeu a censura a uma exposição de arte defende a criação de um Partido nazista no Brasil porque isto é “liberdade de expressão”.

No Brasil, o senso comum possui muitas características nazistas. Quase todo mundo tem o tiozão que fala absurdos no almoço. Não é à toa que o Brasil elegeu quem elegeu em 2018. Bolsonaro prometeu metralhar os opositores, como Ratinho. Prometeu legalizar a tortura, como Rachel. Prometeu endurecer penas para tornar a punição “mais fácil”, como quer Merval. Não tenho dúvidas de que apoiaria uma proposta como a de Xuxa. Entre outros absurdos. Comparou em comício na Hebraica os quilombolas a bois, dizendo que eles eram pesados em arrobas. Disse que preferia um filho morto a um filho gay. Disse que não estupraria uma deputada porque ela era feia. Elogiou a chacina em um presídio. Foi aplaudido ao homenagear um torturador em rede nacional. São muitos os absurdos.

O maior absurdo foi ele ter recebido mais de 50% dos votos. Como isto aconteceu? Foi muito tempo de desumanização. Bolsonaro possuía o senso comum. O processo de desbolsonarização do Brasil exigirá humanização. Exigirá muito cancelamento. Ele será nossa principal arma. Qualquer “bola fora” deve sofrer cancelamento. Qualquer. É necessário que uma parcela da população entenda que não pode falar o que quer usando o termo “polêmica” como disfarce. Não pode haver mais espaço para isto. Rachel, Xuxa, Merval e Ratinho não foram cancelados. O cancelamento teria sido o basta. Poderia ter evitado Bolsonaro.

O  processo de humanização precisa passar pela forma como lidamos com a nossa situação prisional. É o grande símbolo da nossa barbárie. A semana já mostrou que o Brasil não aceita a ideia de que um partido nazista exista, e isto é muito bom. Agora é necessário que o Brasil trabalhe para não aceitar também as ideias nazistas.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O Pacto

 


O Pacto com o Diabo nunca pode ser desfeito. Uma vez que você vendeu a sua alma, já era. Não depende mais da sua vontade. Será pela eternidade.

O diabo não existe. E ele está em todo lugar. Está dentro de nós. Precisa apenas de um clique para nos ocupar. Aí já era. Virá a vitória. Virá a derrota. Virá o arrependimento. Virá a culpa. Mas aí já era.

Algumas vezes eu já senti que estive em presença demoníaca. Numa aula, conversava com um aluno sobre sei lá o quê e o papo acabou parando na tragédia de Brumadinho. “Ganhei muito dinheiro naquele dia, professor”, disse o aluno. “Como assim?”, perguntou o professor. “Quando vi aquilo, pus uma grana nas ações da Vale”, replicou o aluno sorrindo. O diabo sorria.

Em 17/04/2016, o diabo sorriu em rede nacional. Subiu no palanque, virou para a câmera e homenageou o torturador. “Perderam em 1964, perderam em 2016”, disse o diabo. Apenas um deputado cuspiu no diabo. Boa parte dos restantes aplaudiu. As ruas aplaudiram. O Pacto já estava feito. Alguns se arrependeriam depois. Mas já não depende mais da vontade deles.

A grande arma do diabo é dizer aquilo que a pessoa quer escutar. Todos temos nosso ponto fraco. E queremos soluções simples. O diabo às vezes nos oferece a simplicidade. Seduz com tolices e com noções comuns. “Eu não gosto de corruptos”, disse o diabo. Não que ele se importe com isto. Isto é o de menos. “Eu também não gosto”, pensou o seduzido. “Temos que prender todos os corruptos”, disse o diabo. “É isso aí”, disse o seduzido. Numa sociedade em que todo mundo é culpado todo mundo acha que é o único inocente. É muito fácil convencer o “único inocente” de que o outro é culpado. Basta um boato. O boato vira denúncia. O diabo faz o resto.

O diabo assume a face que o seduzido deseja. Pode ser o tiozão que fala “a real”. Pode ser o juiz que manda prender e que chama direito de defesa de “formalidade”. Pode ser o tecnocrata do mercado financeiro que diz que você vai ganhar muito dinheiro se o cara mais pobre perder os direitos trabalhistas.

O Pacto está em todo lugar. O Pacto é a nossa história. É o bandeirante matando o indígena. É o senhor de engenho chicoteando o negro e estuprando a negra. É a Vale soterrando pessoas em Minas Gerais e garantindo o lucro do acionista em São Paulo. É o militar colocando um rato na vagina da militante presa. É o cidadão de classe média que vê o presídio superlotado e acha isto justo. “Queremos Justiça”. Quem faz o Pacto sempre se acha um “injustiçado”. Ele é o único inocente, afinal. E sempre acha que “merece” o que conseguiu depois do Pacto. A história do Brasil é uma sucessão de tragédia cometidas em nome de uma parcela da população que ou apoia ou opta por um silêncio criminoso enquanto o crime é cometido. Uma hora a ficha cai. Mas quando cai, já era. Já não tem mais alma. A coragem para desfazer o Pacto exige alma. A solução não virá de quem a perdeu.


domingo, 30 de janeiro de 2022

Não desfaça amizades por politica

 


Nunca desfiz uma amizade por causa de política. Sou contra a autonomia do Banco Central, tenho muitos amigos que são a favor. Sou contra algumas privatizações e a favor de outras, tenho amigos que são a favor das algumas e contra as outras. Fui contra a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista, mas não acho que uma pessoa que tenha sido a favor seja mau caráter. Nunca desfiz e jamais desfaria uma amizade por causa disto. Já mudei muito de opinião sobre política. Já votei no PT, no PSDB e depois voltei a votar no PT. Já cheguei até a votar no Garotinho, olha minha tosquice. O que acontece no Brasil desde a Lava Jato e com a gestão de Bolsonaro nada tem a ver com política. Tem a ver com humanidade. Tem a ver com caráter.

Quem vota em um candidato que defende a tortura não tem caráter;

Quem vota em um candidato que diz que crianças gays devem ser agredidas pelos pais não tem caráter;

Quem vota em um candidato que diz que opositores devem ser presos ou metralhados não tem caráter;

Quem vota em um candidato que diz que quilombolas devem ser pesados em arrobas não tem caráter;

Quem apoia um candidato que, governando o país na maior tragédia de nossa geração, imita caçoando pessoas sem ar, morrendo, não tem caráter;

Quem apoia um candidato que sabidamente criou um gabinete para criar e espalhar notícias falsas não tem caráter;

Quem apoia um candidato que louva a Ditadura Militar e diz que seu erro foi ter matado “pouca gente” não tem caráter;

 Quem apoia um candidato que boicota abertamente a vacinação é mau caráter;

Quem apoia um candidato que diz que as pessoas que recebem auxílios de renda são vagabundas é mau caráter;

Quem apoia um candidato que abertamente defende o genocídio indígena, que disse que o grande erro brasileiro foi não ter feito o que foi feito nos EUA, em que eles foram dizimados, é mau caráter;

Quem apoia um candidato que diversas vezes já manifestou o seu desprezo por mulheres é mau caráter;

Quem apoia um candidato que diz que a melhor coisa que existe no Maranhão é um presídio em que havia acabado de ocorrer uma chacina é mau caráter;

Quem apoia um candidato cujo vice disse que o problema do Brasil eram os filhos de mãe solteira é mau caráter;

Quem vota em um candidato que exalta um torturador em rede nacional no processo de julgamento de sua vítima é mau caráter;

Quem vota a favor de um candidato que promete dar licença às forças policiais para que elas matem suspeitos é mau caráter;

Quem silencia frente a tudo isto e opta pela neutralidade não tem caráter.

Desfiz minha amizade com boa parte das pessoas do meio que votaram em Bolsonaro em 2018. E também com as que votaram nulo. Em alguns pontos acho que estas são até piores. Ao não votarem em Bolsonaro, elas se mostraram capazes de entender que ele era ruim. Mas ao não votarem em Haddad, mostraram que acham que qualquer uma destas coisas que citei é tão grave quanto corrupção na Petrobrás ou um apartamento no Guarujá. Ser corrupto é o menor dos crimes de Bolsonaro. Ele é muito corrupto, mas isto não é pior do que nada que citei. Se Bolsonaro não fosse ladrão, continuaria sendo pior do que o pior corrupto do mundo. Por política nunca desfiz amizades. Desfiz pela defesa de direitos humanos. A eleição de 2018 foi sobre isto. A eleição 2022 será sobre isto. Qualquer outro assunto é perda de tempo. Coisa de mau caráter querendo disfarçar o próprio mau caratismo. Assim como em 2018, a eleição não será sobre esquerda e direita. Será sobre humanidade e barbárie.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O juiz e o Exército

 


A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 foi possível graças à união de duas forças retrógradas e fascistas, uma de natureza militar, liderada pelo próprio ex-capitão, e outra vinda das primeiras instâncias do Poder Judiciária, liderada por Sérgio Moro, ambas igualmente reacionárias e autoritárias. Se nos anos 1960 estes dois grupos não tinham problema em simplesmente dar um golpe, no novo século estas forças tentam dar uma aparência de legalidade à tomada de poder. É necessário que haja eleições, mesmo que elas sejam uma farsa. Coube a Moro o papel de impedir a candidatura de Lula, candidato que venceria as eleições, e de manipular processos de forma a ajudar os parceiros do projeto. Foi assim nas eleições estaduais de Rio de Janeiro, Paraná e Goiás. Coube ao Exército o papel de ameaçar as instituições que poderiam impedir que a farsa se concretizasse. Um país que aceita que um militar ameace dar um golpe de Estado por Twitter já se rendeu. A aliança ficou clara quando Moro aceitou tornar-se ministro da Justiça do governo que ajudou a eleger. Em qualquer lugar sério, o fato de o juiz prender o primeiro colocado e depois virar ministro do segundo já seria suficiente para que a fraude fosse denunciada. Por aqui não foi. No fundo porque quem apoiou isto sempre soube o que estava acontecendo.

Bolsonaro e Moro não se separaram por diferenças de visão de mundo, mas sim por ambições pessoais. Moro não fico puto porque Bolsonaro interveio na Polícia Federal, mas sim porque ele, Moro, não conseguiu intervir. Disse diversas vezes que havia sido uma promessa do presidente que as indicações da Polícia Federal seriam dele. Não tem nada a ver com independência. Moro não era e não é contra a interferência do governo no órgão, desde que a interferência seja dele. Até sair do governo, Moro não mostrou nenhuma discordância em relação ao rumo do governo durante a pandemia. Até elogiou o então chefe por comprar cloroquina mais barata da Índia.

A saída de Moro do governo poderia levar a uma cisão na aliança entre militares e baixo clero do Judiciário. Não levou, e isto me surpreendeu. O baixo clero do Judiciário não desembarcou do governo junto com o ex-líder. É importante lembrar que este baixo clero do Judiciário foi fundamental na desestabilização dos dois governos anteriores, de Dilma e Temer. Os dois não conseguiam fazer nada, nem escolher ministros, que ações na primeira instância travavam as nomeações. Bolsonaro segue até hoje fazendo e acontecendo sem que nada aconteça na primeira instância. Um caso emblemático deste apoio é a situação do ex-ministro Ricardo Salles, que deixou o governo quando seus crimes eram investigados pelo Supremo porque sabe que na primeira instância nada acontecerá.

O governo Bolsonaro, obviamente, fracassou. Não tinha como dar certo. Colocar um maníaco, lunático e psicopata que nunca escondeu sua psicopatia no poder não tinha como dar certo, afinal. Junte-se à personalidade do presidente a maior pandemia dos últimos cem anos e vivemos a maior tragédia da nossa geração enquanto o presidente passeava de jet ski, corria atrás de ema, promovia aglomerações e festas, boicotava a vacina e mentia. Mentia e mente muito e o tempo todo. Chegou ao governo assim e não tem razão para mudar agora que está no topo. Uma parte dos aliados deste projeto, vendo a possibilidade de derrota do projeto, resolveu desembarcar de Bolsonaro. E Moro parece estar ganhando espaço entre os militares.

Vemos um número considerável de militares de alta cúpula abandonando o presidente agora que o barco afunda. Como ratos. Todos eles se apresentado como “exemplos de responsabilidade” enquanto o governo que apoiaram segue cumprindo sua promessa de matar. A cartinha de Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa, surge neste contexto. Estes militares estão entrando de cabeça na candidatura de Moro. General Santos Cruz, um dos que ameaçou golpe de Estado se o STF revisse a prisão em segunda instância em 2018, e ex-ministro do governo Bolsonaro, é um dos chefes de campanha de Moro. Se Bolsonaro conseguiu manter o apoio na primeira instância do Judiciário no divórcio em 2020, Moro agora avança entre os militares. Eles enxergam no ministro a chance de prosseguir no poder e de continuar o projeto, personalizando a tragédia em Bolsonaro. "Ele nos enganou", dizem estes dois grupos que apoiaram o candidato que prometeu matar ou expulsar opositores, entrar em guerra contra a Venezuela e que disse que a ditadura matou pouco, que deveria ter matado "uns 30 mil".

“A democracia é uma concessão do Exército”. Assim pensa Bolsonaro. Assim pensa a cúpula do Exército. Eles acham que estão fazendo um favor permitindo que a democracia exista. 2018 serviu para mostrar que ela já não existe mais. Nenhuma democracia existe em um lugar em que um militar ameaça um golpe de Estado e não é preso por isso. É importante tem isto em mente na eleição de 2022. Ela não vai acabar com a eleição de Lula. Os grupos de Bolsonaro e Moro não estarão dispostos a conceder. Esta turma não voltará para o quartel. E isto exigirá uma mobilização do que restou de democracia que não se resumirá ao dia da eleição e à festa na noite da vitória. Exigirá um esforço de reconstrução. E se destruir foi fácil, a reconstrução durará décadas. 

Bolsonaro era o plano A. Moro é o plano B. Esta turma pode até aceitar a posse de Lula. Mas estão desde já trabalhando no plano C.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Barra Torres, a Anvisa e as pessoas que não prestam

 


É importante ter uma coisa em mente. Nenhuma pessoa que tenha aceitado participar do governo Bolsonaro em qualquer momento presta. Bolsonaro foi um deputado de trabalho quase nulo e insignificante durante 28 anos de mandato, ganhou fama participando de programas de subcelebridade e de humor, que deram espaço para seu lunatismo em troca de audiência. Chegou ao poder graças a um processo de destruição exercido por membros corruptos do judiciário aliados a setores da grande mídia dispostos a tudo para evitar que a esquerda continuasse no poder. Seus momentos de maior “destaque” em sua carreira político estão sempre ligados a manifestação de algum preconceito. Negros, mulheres, movimentos sociais e principalmente gays. Disse que crianças gays deveriam apanhar, que preferia um filho morto a um filho gay. Disse que o maior erro da ditadura foi “matar pouco”. Em sua campanha presidencial, prometeu matar ou expulsar do país os seus opositores. Também prometeu entrar em guerra contra um país vizinho que nada nos fez e tirar o Brasil da ONU. Repetindo, qualquer pessoa que tenha aceitado trabalhar em um governo que tenha sido eleito com estas propostas não presta. Qualquer pessoa com acesso à informação que não tenha feito oposição a este governo desde o dia em que ele foi eleito deve ser vista com desconfiança. O horror não começou com a pandemia.

Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa, é um picareta. Mesmo que tivesse presidido a Anvisa com técnica e competência, seria um picareta. Pelo simples fato de ter feito parte deste governo. Ele é almirante e foi um dos muitos militares incompetentes e inexperientes na gestão pública a assumir um cargo relevante. Sua gestão na Anvisa foi marcada pela liberação de um número nunca antes visto de agrotóxicos e pela burocracia na liberação (ou não de vacinas), na maior parte das vezes agradando Jair Bolsonaro.

A Anvisa fez tudo que pode para não liberar ou atrasar a Coronavac. Se não fosse a ação dura e correta do governador de São Paulo, João Doria Jr., e a pressão intensa da sociedade, a liberação da vacina possivelmente não teria acontecido. Se não fosse a Coronavac, estaríamos hoje ainda mais fodidos do que já estamos. Bolsonaro só aceitou comprar as outras vacinas quando Doria começou a vacinar com a Coronavac em SP e quando Lula voltou a ter direitos políticos. Até agora, a Anvisa não liberou a mesma vacina, a única que pode ser produzida em território nacional, para aplicação em crianças. Argumentos burocráticos. Mesmos argumentos que foram usados para não liberar a Sputnik, vacina usada em boa parte da América Latina e que já havia sido negociada pelos governadores do Nordeste, todos adversários do presidente. Muitas vidas teriam sido salvas se a Anvisa tivesse liberado o medicamento. A ideia de que a Anvisa trabalhou bem nas vacinas durante a pandemia é uma falácia. Na maior parte do tempo foi aliada de Bolsonaro no processo de criação de entraves na vacinação.

Em março de 2020, pandemia começando, Bolsonaro fazendo merda, lá estava Barra Torres participando de manifestação com o presidente. Ambos sem máscara. Festejando a tragédia que se anunciava. Pessoas como Barra Torres não estão acostumadas a cobranças pelo que fazem. Elas são muitas. As “enganadas”. As que dizem que votaram em Bolsonaro porque achavam que ele era “diferente”. Diferente sem dúvida ele é. Nada é mais diferente do que correr atrás de uma ema com um remédio que não tem eficácia durante uma pandemia. Nada é mais diferente do que boicotar a vacinação infantil. Nada é mais diferente do que gravar vídeo caçoando de pessoas sem ar no ápice da tragédia. Barra Torres e os imbecis que queriam alguém “diferente” para “acabar com tudo isto daí” tiveram a missão duplamente cumprida. Ele é diferente e acabou com tudo. Não sobrou nada.

Uma parte da cúpula do Exército, vendo o barco afundar, resolveu cair fora. Estão tentando embarcar na candidatura de Sérgio Moro, maior responsável pela eleição de Bolsonaro. Nada mais natural do que isto. Personalizar a tragédia em Bolsonaro e governar sem ele. Gente que tem o autoritarismo na veia. A aliança jurídico-militar. O juiz que prendeu o primeiro colocado e se tornou ministro do segundo, junto com os generais que ameaçaram dar um golpe de Estado caso o Supremo não mantivesse a decisão. Um bolsonarismo sem Bolsonaro. A cartinha de Barra Torres nada tem a ver com divergências com Bolsonaro. Tem a ver com um movimento político. Assim como o seu processo de "beatificação". Movimento de gente que em 2018 estava na rua celebrando a tragédia que começava. Gente que não acha que estava errada. Gente que não presta.


domingo, 9 de janeiro de 2022

A Reforma Trabalhista foi uma bosta

 


É muito fácil encontrar uma pessoa e responsabilizá-la por todas as nossas mazelas. Jair Bolsonaro é a pior pessoa do mundo, mas é fruto de uma sociedade doente, uma sociedade em que mais da metade dos eleitores topou ser cúmplice de um projeto de governo lunático e assassino. Mais do que isto, uma sociedade que fez tudo que pôde para permitir que esta pessoa chegasse ao poder, prendendo num processo completamente fajuto aquele que impediria este maníaco de chegar ao poder. Sim, a prisão de Lula custou vidas. Bolsonaro é sem dúvida o maior responsável pelo fracasso brasileiro na contenção da Covid. Fez o inferno para atrapalhar qualquer medida que impedisse a propagação do vírus e salvasse vidas. Boicotou as medidas de distanciamento social, incentivou aglomerações, atrasou o máximo que pôde o pagamento do auxílio que permitiria aos autônomos fazer algum tipo quarentena por algum período com alguma estabilidade financeira, caçoou dos doentes, atrapalhou a compra de vacinas, espalhou notícias falsas sobre as mesmas, incentivou o uso de um remédio ineficaz. Fez o diabo e não foi afastado. Em qualquer país minimamente decente, a classe política e a sociedade teriam se unido para tirar este maníaco do poder quando ficasse claro que a sua loucura significaria a morte de milhares de pessoas. Mas o país que fez impeachment por causa de um Fiat Elba e que inventou um crime chamado “pedalada fiscal” foi incapaz de realizar este impeachment. Como dito, Bolsonaro é fruto de uma sociedade doente.

Isto dito, uma outra causa importantíssima do nosso fracasso em salvar vidas foi a precariedade do trabalho. Quase a metade da população ativa brasileira trabalha na informalidade (40,6%). Temos um sistema de proteção social montado para proteger apenas os trabalhadores formais. Previdência, seguro-desemprego e auxílio-doença, apenas quem tem carteira assinada tem estes direitos. Estes 40,6% inicialmente tiveram sua renda reduzida basicamente a zero no começo da pandemia e a um pouco mais de metade de um salário mínimo após o auxílio emergencial que chegou atrasado. R$ 600 ou R$ 1200 ajudaram, mas não dá para um pai ou para uma mãe de família ficar em casa com este valor. Uma lição que a sociedade deveria retirar disto é que precisamos urgentemente trazer esta multidão para o sistema de proteção social, e isto se faz expandindo-o para os sem carteira assinada ou incentivando a contratação com carteira assinada.

Antes de falar mal desta bosta de Reforma, é importante dizer que a precarização do trabalho não é fruto da Reforma Trabalhista. Sempre fomos um lugar de trabalho precarizado. Não há nada mais insano do ponto de vista lógico, por exemplo, do que esta maluquice de MEI. Pare para pensar, por favor. Uma pessoa se cadastra como uma empresa, tendo a si mesma como proprietária e única funcionária, trabalha muitas vezes para uma única empresa e é tratada como uma fornecedora, e não como uma trabalhadora. A relação trabalhador x empresa se transforma em uma relação empresa x empresa, e o trabalhador-empresa que jogou pela janela todos os seus direitos em nome disto é enganado pela ideia de que vai pagar menos imposto. Se você acredita realmente que ter MEI é melhor para você, você está sendo enganado. Simplesmente não é. Chegamos ao ponto em que empresas simplesmente não aceitam mais contratar trabalhadores sem que eles sejam MEI. A MEI que ficou em casa durante a pandemia faliu. E o ministro da Fazenda maníaco do governo maníaco disse que não ia fazer nada para ajudar pequenas empresas porque elas não geram emprego. Vai se foder. O Brasil passou anos estimulando a ideia de que o trabalhador deve ser individualizado e qualquer tipo de união entre eles foi demonizada. Os sindicatos foram basicamente demolidos. Uma boa parte dos trabalhadores, os de classe média principalmente, foram convencidos da ideia de que qualquer dinheiro que seja gasto por alguma coletividade era roubo. Taxa sindical e imposto. Ele foi acostumado a lutar por si e se afastar destas coisas. Foi despolitizado. O grande problema da Reforma de 2017, fora o fato de que ela foi feita por um governo sem legitimidade e por um vice que foi eleito numa chapa que prometera o contrário, foi que com ela o Estado deu um gigante passo para reconhecer que esta realidade é “moderna” e que o problema não está na ausência de direitos trabalhistas deste mundo de pessoas, mas nos direitos daqueles que os têm. Não só nada é feito para incluir aqueles que não têm direitos como parte do sistema de proteção social, como ainda estimula que mais pessoas saiam deste sistema. Incentivou terceirização e prometeu empregos fictícios enquanto facilitou e barateou as demissões. Os empregos não vieram, o crescimento não veio, e isto me parece meio óbvio. O país não vai crescer tornando a vida das pessoas uma bosta.

Não gosto de dizer que deveríamos tirar um ensinamento da pandemia. Acho que às vezes isto acaba servindo para romantizar a tragédia. Mas é fato que a pandemia deveria ter servido para mostrar que nenhum ser humano é uma ilha. A saída para a pandemia era, e ainda é, coletiva. Não adiantava (e não adianta) apenas você ficar em casa do mesmo jeito que não adianta apenas você tomar vacina. É necessário que todos façam a sua parte para que a solução seja alcançada. Não há sucesso individual, apenas coletivo. Não adianta se fechar numa porra de um condomínio, morar no último andar, colocar 5 trancas na porta, contratar seguranças armados, viajar duas vezes por ano, pagar um plano de saúde, trocar de carro uma vez por ano, pôr o filho para aprender inglês. Uma hora a conta pelo seu egoísmo vai chegar. E vai chegar na forma de medo. E vai chegar na forma de demissão e falência. Vai chegar na forma de violência. Sua vida não ficará melhor enquanto você não pensar no coletivo e não entender que este individualismo nos leva a barbárie. A pandemia não vai acabar com você ficando em casa, mas com o garoto precarizado rodando a cidade de bicicleta para trazer o seu hambúrguer. A sociedade não vai melhorar enquanto este garoto não estiver recebendo o suficiente para ter uma vida decente e tendo um Estado que garanta a sua proteção caso algo o impeça de trabalhar.

Vivemos em uma sociedade em que o último presidente eleito recebeu mais de 50% dos votos prometendo prender e matar oponentes. Pessoas que votam em alguém assim perderam qualquer capacidade de enxergar o outro, e por isto é fundamental restabelecer os laços de comunidade. E o mundo do trabalho é um dos focos disto. O outro trabalhador deve ser visto como colega e não como concorrente. O coletivo precisa estar preparado para ajudar os mais carentes e falhamos fortemente nesta missão durante a pandemia. Uma possível revogação da Reforma Trabalhista seria um passo fundamental para iniciar uma nova era no Brasil. Um país que precisa ser reconciliado e reconstruído. O Brasil precisa de paz, e a paz só é obtida compartilhando.

E na boa, a Reforma foi uma bosta. Está tudo uma bosta. Se você acha que ela foi um avanço, na boa, não foi avanço porra nenhuma. Acorda e olha para o que está ao seu redor.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Djokovic e Austrália: O imbecil e a truculência

 


Novak Djokovic é um imbecil. Esta é a causa inicial da confusão que o deixou preso em um aeroporto na Austrália. Todas as pessoas que estão se recusando a tomar a vacina por um motivo que não seja muito sério são imbecis. Todas. E “não querer” não é um motivo sério. São pessoas que estão colocando em risco a saúde pública por egoísmo e ignorância. E quando a gente fala de Djokovic, a gente fala de bastante ignorância. A esposa do tenista, Jelena, foi bloqueada por alguns dias no Instagram no começo da pandemia por compartilhar um vídeo que dizia que a Covid era transmitida pela rede 5G. Djokovic não é responsável pelo que a esposa posta, claro, mas sua atitudes durante a pandemia mostram que é bem provável que ele compartilhe este tipo de maluquice. É um grau muito elevado de tosquice.

Djokovic é um tipo específico e perigoso de idiota: o idiota bem-sucedido. Djokovic é possivelmente o melhor tenista de todos os tempos. O maior campeão da modalidade, mobiliza uma multidão de fãs por onde vai. Isto significa que muito provavelmente Djokovic não deve ouvir um não na vida desde os 18 anos. Pessoas bem-sucedidas normalmente se cercam de pessoas que aplaudem tudo que elas fazem, e quando esta pessoa é idiota ela normalmente se cerca de idiotas. Estas pessoas idiotas provavelmente aplaudiram a ideia idiota do idiota do Djokovic de organizar um torneio idiota durante a primeira onda da pandemia. E quando a gente fala de uma pessoa bem-sucedida e idiota, um dos maiores problemas é que ela acha que o fato de ser bem-sucedida é uma prova clara de que ela não é idiota. O dinheiro e a fama trazem tudo que ele quer, portanto se ele quer ficar sem tomar vacina, ele acha que pode.

Dentre as muitas coisas que me incomodam muito na pessoas que são anti-vacinas é a forma como elas simplesmente não querem lidar com nenhuma consequência da sua escolha. Não sei de nenhum país em que as pessoas estejam realmente sendo obrigadas a tomar vacina. Talvez a China, mas não sei. Ninguém está sendo preso ou tendo a casa invadida por não tomar vacina. Elas só estão, com razão, enfrentando restrições. Num momento de pandemia, é totalmente racional que pessoas que façam a escolha de não tomar a vacina sofram algumas restrições enquanto a doença persistir. Primeiro pela falta de vontade de participar do esforço coletivo para superá-la, e segundo pelo risco sanitário que ela representa. Não quer tomar a vacina, então se isole enquanto a pandemia durar.

Isto não tem nada a ver com o conceito real de liberdade. Liberdade é uma conquista coletiva. Se você acha que liberdade é fazer o que você quer e quando quer enquanto outra pessoa está se fodendo porque você faz isto, você está errado. Isto não é liberdade, é privilégio. Não há liberdade real enquanto a sua suposta “liberdade” individual foi possível graças a exploração e opressão de outras pessoas. Você não está curtindo sua liberdade quando vai fazer curso em Amsterdã pago pelo pai enquanto sua família paga uma miséria à sua empregada doméstica. Você está curtindo seu privilégio. A liberdade real só existe quando obtida por todos e para todos e é uma luta constante de todos. A ideia atual de liberdade está muito ligada a comércio e à realização de vontade. “Você é livre porque compra o quer e faz o que quer”. Não. Quando você compra uma roupa barata feita por mão-de-obra escrava você não está sendo livre porque escolheu comprar aquela roupa, você está sendo um instrumento de opressão. Liberdade não é olhar apenas para o próprio umbigo. É pensar nas consequências coletivas de suas escolhas. É meter uma vacina no braço quando a sociedade precisa.

Isto dito, o governo da Austrália está agindo de forma babaca. A Austrália tem toda a razão, toda toda, toda memo, ao exigir que apenas pessoas vacinadas entrem em seu país. É o que países governados por gente minimamente decente fazem. Porém a Austrália LIBEROU a entrada de Djokovic. Ele só entrou no avião quando a liberação foi dada. A decisão do governo australiano gerou mal-estar, óbvio, e só depois disso é que Djokovic foi barrado no aeroporto por um suposto problema no visto. Um problema que provavelmente não existe, porque ninguém diz ao certo qual é. Djokovic conseguiu a liberação para entrar através de uma regra de exceção, sem que ninguém também explicasse em qual ponto desta regra ele entrou. Ser um idiota bem-sucedido, talvez. Mas o certo é que a liberação aconteceu e pará-lo no aeroporto fazendo publicidade política disto é um ato de truculência. Se aceitaram a ida dele, que aceitem a entrada e lidem com a consequência ao invés de fazer este show patético agora.

Há um certo populismo que se alimenta de duas coisas. A primeira é a truculência contra pessoas ricas, que muitas vezes serve para justificar as ações cometidas diariamente contra pessoas pobres. Aqui no Brasil, muitas vezes analistas aplaudiam a Lava-Jato porque “pela primeira vez víamos pessoas ricas presas no Brasil”. Não se importavam com a truculência das ações e com as inúmeras e claras arbitrariedades cometidas pela operação. Ao invés de buscarmos uma sociedade mais humana, passamos a aplaudir a expansão da desumanidade e aplaudíamos cada vez que Sérgio Cabral era humilhado por juízes justiceiros. A porta do horror se abriu. Uma segunda é a truculência com estrangeiros, com pessoas que vem achando que “aqui é bagunça”. Vimos isto aqui no Brasil na ação da Anvisa em Brasil x Argentina, quando a agência parou a partida porque quatro jogadores argentinos estariam no país irregularmente, quando teve todas as oportunidades de resolver o assunto antes da partida e impedir o circo. Até hoje a Anvisa não apresentou os supostos documentos falsificados dos argentinos, mas ninguém foi atrás disso. Ninguém quer ir atrás ou impedir o circo. Pelo contrário, monta-se tudo para realizar o circo. A Anvisa conseguiu ter sua ação transmitida ao vivo em rede nacional e foi ovacionada pela sociedade sedenta por “justiça”.

O primeiro-ministro da Austrália já se pronunciou em rede social dizendo que na Austrália as regras servem para todos e aquilo que já sabemos. Está sendo aplaudido. Todos estão errados. E normalmente quando todos estão errados, todos acham que estão certos. Djokovic é um imbecil. O pior tipo de imbecil. Mas neste caso está sendo vítima de truculência. O fato de sermos todos vítimas de seu egoísmo e de sua ignorância não deveria permitir que fossemos favorável à humilhação que ele está sofrendo. Até o maior dos imbecis deve ter algum direito assegurado e não pode ser usado como brinquedo por um governo buscando autopromoção.   


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O último ano

 


O último ano chegou. Pelo menos não consigo imaginar uma situação diferente. Uma vez tentei imaginar como será se eu acordar na última segunda de outubro e descobrir que isto vai continuar. Não vai. Não é possível.

O Brasil passou desde 2016 por um processo de auto implosão que eu sinceramente  não conheço igual. Era inimaginável. Tá, houve sim papel americano na Lava Jato. Mas todo o processo de destruição foi praticado por agentes nacionais. Foi a grande mídia nacional, o Judiciário nacional, a classe média nacional e, principalmente, o eleitorado nacional. Não conheço nenhum caso em que uma pessoa tão abjeta como Bolsonaro tenha chegado ao poder com mais da metade dos votos da população. Foi o Brasil que fodeu o Brasil. Ok, houve toda a fraude para tirar Lula do páreo, mas ok, mesmo assim, é inacreditável que a saída de uma pessoa do processo tenha sido suficiente para que a pior pessoa do mundo se tornasse presidente. Nos últimos seis anos assistimos a destruição do sistema democrático, de quase todo o aparato público, da proteção social, da presunção de inocência, do direito à defesa, do sentimento de sociedade. Sim, porque uma sociedade que escolhe um candidato que ameaça matar ou expulsar seus opositores não existe mais. Uma sociedade que não tira do poder uma pessoa que caçoa das vítimas da maior tragédia da geração não existe mais. Uma sociedade que sucumbiu, em que a relação com o outro não é marcada pela empatia e pela solidariedade, mas pelo medo e pela desconfiança.

01/01/23 será um dia de festa. Mas não se engane, o que acontecerá neste ano de 22 é algo inimaginável. Com base em antecedentes históricos, podemos perceber que o último ano de governos de pessoas como Bolsonaro costumam ser o pior. O que será pior do que o que vivemos desde 2016? Algo que ainda não sabemos. Mas quanto mais Bolsonaro e sua turma perceberem que a casa deles está caindo, maiores serão as loucuras e maiores serão as radicalizações? O que é mais radical do que atrapalhar vacinação de criança? Não sei. Bolsonaro joga com o inimaginável. Ele é o “diferente”. Será o “diferente” até o fim.

2022 será bem foda. Os dois nomes de 2016 farão o possível para que o último ano não seja o último ano. Vão fazer o possível para não perderem o que “conquistaram”. Sim, eles veem o Brasil atual como fruto de uma “conquista”. Em algum momento o juiz e o capitão vão se unir novamente. Falando de lei e de ordem. Falando de prender e matar. Fustigando o caos. Dê uma olhada na rede social do juiz. É apenas caos disfarçado por slogans de algum marqueteiro especialista em autoajuda. Tentarão repetir 2018. Mas desta vez vão perder. E se esta turma só soube semear o caos enquanto estava ganhando, você vai ver o que farão quando perderem. Imagine o que serão os dois meses entre a vitória e a posse do Lula? Com Bolsonaro presidente... Não dá para imaginar. 

A reconstrução exige paz. E a paz não se faz conversando com os amigos, e sim com os adversários. O metalúrgico e o médico entenderam isto. Quando duas pessoas minimamente civilizadas, dá para imaginar o que vai acontecer. A reconstrução passa por este gesto. Mas até lá, teremos que viver o último ano do Horror. E ele será mais horroroso do que nunca. Inimaginável até para quem o viveu até agora. 2023 será o ano da paz. Mas 2022 será o último da guerra. O pior.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Ronaldo e Cruzeiro: a conta que não fecha e os outros 10%

 


A cena do jovem Ronaldo jogando no Cruzeiro aos 17 anos dá lugar ao consagrado e bem-sucedido Ronaldo comprando o seu clube de origem 27 anos depois é comovente. Exemplo de como o mundo dá voltas. E eu confesso que sempre me comovo com essas histórias de gente que sai da pobreza e prospera. A história é tão linda, mas tão linda, que praticamente nos impede de ver que nada neste lance de Ronaldo comprar o Cruzeiro faz sentido.

Ronaldo pagou R$ 400 milhões por 90% do Cruzeiro. Pagou para quem? Esta é apenas a primeira pergunta sem resposta. Uma semana antes desta venda do sujeito indeterminado para Ronaldo, o Cruzeiro havia sido transformado em SAF, Sociedade Anônima do Futebol. Que porra é essa? Até pesquisei. Quem quiser a explicação técnica, é só dar um Google. Mas no fundo não passa de mais um dos muitos trambiques de gente rica querendo evitar imposto. O Cruzeiro passou a ser um Cruzeiro SAF e alguns dias depois foi vendido para Ronaldo por estes R$ 400 milhões. Ninguém tem muito interesse em saber quem vendeu. O dono da XP participou da negociação (se é que ela houve) e ficou animado com o negócio, disse que ele é apenas o primeiro e já disse que o Botafogo será o próximo time a ser transformado em SAF. Como ele sabe disso? Por que exatamente a XP está participando disto? Ninguém sabe.

Ronaldo tem, segundo o Deus-Google, uma fortuna estimada em R$ 800 milhões. Grana que para mim parece ser algo infinito. Gastou metade desta fortuna para comprar 90% da Cruzeiro SAF. Se isto é muito ou não, não sei. Há alguns sonhos que não tem preço, não sei o quanto comprar o clube que o revelou representa para Ronaldo. Os R$ 400 milhões que sobraram continuam sendo grana infinita. Não é aí que a conta não fecha, mas sim no que vem depois. Ronaldo usou para comprar a Cruzeiro SAF uma empresa sua sediada na Espanha chamada Tara Sports, que possui um patrimônio declarado de R$ 120 milhões. Como que uma empresa de R$ 120 milhões compra uma outra de R$ 400 milhões? Mais do que isto, Ronaldo assumiu com a Cruzeiro SAF uma dívida de R$ 1 bilhão que ele deve pagar em 10 anos. Como uma pessoa que tem agora R$ 400 milhões vai pagar R$ 1 bilhão em 10 anos? É muito dinheiro infinito em contas que não fecham. A XP entende disto.

 A compra do Cruzeiro por Ronaldo foi o assunto da semana, quase sem nenhum tipo de questionamento. Inventou-se até um carinho especial de Ronaldo pelo clube mineiro. Não lembro de já ter visto alguma declaração carinhosa de Ronaldo em relação ao time que o revelou. Nunca o vi num jogo do Cruzeiro e acho que as únicas vezes que ele voltou a Belo Horizonte na vida foram em jogos da seleção em que ele jogou e no 7x1 que ele comentou pela Globo. Clube ter dono é a nova ideia de modernidade. O grande exemplo é o futebol inglês, tão amado pelos comentaristas de TV a cabo. Os clubes ingleses, porém, não existem para dar lucro. Pelo contrário, eles querem é gastar. Boa parte dos clubes ingleses têm como proprietários mafiosos bilionários jogando dinheiro fora ou lavando dinheiro. Gente que gasta os R$ 400 milhões de Ronaldo em uma festa. O Chelsea pertence ao milionário russo Roman Abramovich, que enriqueceu com negócios ilícitos com o governo russo, comprando a preço de banana empresas que eram públicas no fim da URSS e fugiu da Rússia quando descobriram as mutretas. Sua fortuna é de R$ 60 bilhões. É infinito elevado a infinito. O Manchester City pertence a um membro da família real dos Emirados Árabes Unidos, este com R$ 130 bilhões. Infinito elevado a infinito vezes dois mais dez. O Leicester é um clube mais tranquilo, pertence a uma família tailandesa que controla lojas de duty-frees com fortuna de R$ 30 bilhões. Infinito dividido por dois. É gente que basicamente quer brincar, torrar e lavar dinheiro, ficar famoso e ganhar cidadania europeia. O Reino Unido concede cidadania a qualquer estrangeiro que chegue disposto a investir R$ 8 milhões no país. Quando chega um mafioso destes, concede cidadania e título de nobreza.

Esta maluquice se expandiu para outros países. O Atlético de Madri basicamente pertence ao governo do Azerbaijão. O PSG pertence a grupos ligados à monarquia do Qatar. Outros clubes optaram por um caminho diferente, vendendo ações na Bolsa de Valores. Manchester United, Liverpool e Borussia Dortmund são três exemplos. Este último, quando ia para uma partida pelas quartas-de-final da Copa dos Campeões de 2017, foi vítima de um ataque terrorista. O ônibus com seus jogadores foi atacado e as ações do clube despencaram naquela tarde. No dia seguinte, o autor do ataque foi encontrado. Era um russo que havia vendido ações do clube no dia anterior e queria recomprá-las a um preço menor após o atentado.

O torcedor brasileiro ainda é meio refratário à ideia de clube ter dono. Digo ainda pois não me parece ser nada que uma boa campanha de marketing não mude. Jornalistas chamando isto de modernidade é o primeiro passo. Colocar figuras como Ronaldo como proprietário é outra. Ganha mais simpatia do que se o clube fosse comprado por algum destes picaretas do mercado financeiro. Pelo cara da XP, por exemplo, que aparentemente está liderando o saldão de clubes. É possível que nos próximos meses vejamos, sei lá, o Jairzinho comprando o Botafogo, o Renato Gaúcho comprando o Grêmio, Neymar comprando o Santos etc. A conta não vai fechar. Mas não importa se esta conta não fecha. Estes caras são só a embalagem. O sonho é ver futebol negociado na Bolsa de Valores. Imagine ver o Flamengo administrado como o Vale? O que vai ser quando a decisão do título brasileiro significar valorização ou desvalorização na Bolsa? Ou que uma zebra signifique gente ganhando ou perdendo muito de uma hora para a outra? Na cabeça desta turma, o mundo funciona desta forma.

A lógica da transformação de clubes em empresas é a mesma das privatizações. Você precariza, paga muita gente para fazer publicidade negativa, depois apresenta esta operação como única solução. A resposta para o que está acontecendo não está nos 90% de Ronaldo. Está nos 10% dos outros. Os 10% da turma da XP.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Liberdade após Absolvição em Segunda Instância

 


Após muito tempo de luta, o ex-juiz alcançou seu objetivo. Chegou lá. Já no primeiro dia de mandato realizou seu sonho. Primeiro dia, o primeiro decreto. Assim que tomou posse. Decretada, finalmente, a Prisão após Condenação em Segunda Instância. Ó, quanta alegria. Fome, miséria, inflação, desemprego, pandemia. Mas o ex-juiz conseguiu convencer, com o apoio dos cúmplices de sempre, que o maior problema era a não possibilidade de Prisão após Condenação em Segunda Instância. Fez até uma cerimônia para entrega do decreto. Os cúmplices apareceram saltitando na TV. Sonho realizado.

O ex-juiz fez questão de assinar as primeiras prisões após a nova lei. Teoricamente não pode mais mandar gente para a cadeia, mas se o ex-juiz não precisava cumprir a lei quando era juiz, imagine agora que é líder supremo? Mandar gente para a cadeia é a única coisa que ele sabe fazer, aliás. Não foi eleito pelos seus dons políticos e econômicos. Quem quisesse isto que votasse em político, afinal. Quem votou em quem bota gente na cadeia quer gente na cadeia, afinal.

Afinal. O ex-juiz conseguiu convencer o país. O nosso maior problema é falta de gente na cadeia. O resto é consequência. Pôr gente na cadeia era sua mostra de produtividade. Na época em que era juiz, quando precisava mostrar que era eficiente, falava quanta gente tinha colocado na cadeia. Pessoas enjauladas. Números. Produtividade. No mesmo Pacote Anticrime, com maiúscula, colocou um bônus financeiro para juízes que batessem a meta de prender gente. Um incentivozinho. Também tranquilizou policiais com o excludente de ilicitude. Se não der para prender, mate. Ou melhor, quando for na periferia, se não der para matar, prenda.

Um mês se passou e o ex-juiz olhava para o horizonte pela janela do Palácio. Sentia-se vazio. Foi tanto tempo focado na Prisão em Segunda Instância que não sabia mais ao certo pelo que lutar. Foi aí que veio a ideia. Chegou a hora de lutar pela Prisão após Condenação em Primeira Instância. Sim! Como não pensara nisto antes? Dá pra pôr mais gente na cadeia e mais rápido. Bandido não vai ter vez. E lá recomeçou o ex-juiz sua nova campanha. Seus súditos e cúmplices saudaram a nova ideia, vibraram. Passeatas. Moralismos. Aprovação. Aumento na produtividade.

Um mês se passou e o ex-juiz olhava para o horizonte pela janela do Palácio. Sentia-se vazio. Foi tanto tempo focado na Prisão em Primeira Instância que não sabia mais ao certo pelo que lutar. Foi aí que veio a ideia. Chegou a hora de lutar pela Prisão sem Condenação. Sim ! Como não pensara nisto antes? Dá pra pôr mais gente na cadeia e mais rápido. Esse papo de direito à defesa é coisa de quem defende bandido. Presunção de inocência? Bobagem. O cidadão de bem quer andar tranquilo na rua e para isso tem que pôr bandido na cadeia. Se prender inocente, acontece. E lá recomeçou o ex-juiz sua nova campanha. Seus súditos e cúmplices saudaram a nova ideia, vibraram. Passeatas. Moralismos. Preconceitos. Aprovação.

Um mês se passou e o ex-juiz olhava para o horizonte pela janela do Palácio. Sentia-se vazio. Foi tanto tempo focado na Prisão sem julgamento que não sabia mais ao certo pelo que lutar. Foi aí que veio a ideia. Chegou a hora de lutar pela Liberdade apenas após a Absolvição em Primeira Instância. Sim ! Como não pensara nisto antes? Dá pra pôr mais gente na cadeia e mais rápido. Ninguém mais leva este lance de presunção de inocência a sério mesmo. E todo mundo é culpado de alguma coisa mesmo. Para que denúncias? Basta fuçar. Prende e depois descobre o porquê. Exigir uma denúncia estava atrapalhando o combate à impunidade,  assim disse o ex-juiz na televisão, para festa de seus cúmplices e súditos. Junto com esta lei, passou uma outra que permite o uso legal dos presidiários como mão-de-obra escrava. Assim eles poderão devolver a sociedade tudo que eles consomem enquanto estão enjaulados. A Bolsa de Valores subiu com a proposta do ex-juiz. Usar mão-de-obra escrava vai atrair novos investimento, disse o economista da XP, que também comemorou a ausência de burocracia que desinchou o Estado e permitiu que mais gente pudesse ser presa e aproveitada pela turma da Faria Lima. Várias start-ups investindo em presídios privados começam a surgir e aplicativos de caça a presos surgem. O governo cria uma nova lei de incentivo a indicação de possíveis presos. Quem fizer pouco ponto e não contribuir será preso. Ou melhor, não será solto. Preso já estamos todos.

Um mês se passou e o ex-juiz olhava para o horizonte pela janela do Palácio. Sentia-se vazio. Foi tanto tempo focado na Liberdade após Absolvição em Primeira Instância que não sabia mais ao certo pelo que lutar. Foi aí que veio a ideia. Chegou a hora de lutar pela Liberdade apenas após a Absolvição em Segunda Instância. Sim ! Como não pensara nisto antes? Muita gente estava conseguindo sair da cadeia após a primeira absolvição. Não, isto não pode ! É preciso criar uma nova barreira para impedir que a turma saia da cadeia muito fácil só porque é inocente. Não pode. Tem que passar por uma nova instância. Para impedir novas impunidades, o ex-juiz conseguiu aprovar o fim da Defensoria Pública. Essa turma só servia para encher o saco. Conseguiu aprovar também uma nova lei que transforma desemprego em crime. A Bolsa de Valores vibrou com mais este sinal do governo.

Um mês se passou e o ex-juiz olhava para o horizonte pela janela do Palácio. Sentia-se vazio. Foi tanto tempo focado na Liberdade após Absolvição em Segunda Instância que não sabia mais ao certo pelo que lutar. Foi aí que veio a ideia...