domingo, 16 de julho de 2023

"Super" Xuxa e o Baixo Astral

 


Tenho às vezes a impressão de que algumas notícias aparentemente inocentes e irrelevantes são mais importantes e relevantes do que notícias aparentemente importantes e relevantes. Reforma Tributária, inelegibilidade do genocida, gado agredindo Xandão. Mas a notícia que mais me chamou a atenção foi a briga de Xuxa e Marlene Matos.

Possivelmente não há pessoa mais improvável na história da mídia brasileira. Não há história de sucesso mais improvável que a dela. Mulher num país machista. Negra num país racista. Nordestina num país em que o Sul-Sudeste trata com menosprezo a região Nordeste. Homossexual num país homofóbico. Obesa num país gordofóbico. Marlene é o tipo de pessoa que o Brasil oprime. É o perfil de pessoa que o Brasil silencia. Acho um mistério como uma pessoa como ela conseguiu triunfar num país tão preconceituoso como o Brasil e num ambiente em que estes preconceitos são tão aflorados quanto a televisão brasileira dos anos 1980.

Com exceção ao fato de ser mulher, Xuxa é todo o oposto de Marlene. A branca. Sulista. Heterossexual ex-namorada dos dois atletas mais importantes da história do país. Símbolo sexual. O choque entre Marlene e Xuxa é mais do que um choque entre duas personalidades. É o choque entre dois mundos.

Eu tenho pouco interesse em geral por biografias. Não sei muita coisa fora o já dito sobre Marlene. Procurei algo sobre a vida de Marlene quando a ideia deste texto surgiu e achei pouca coisa de muito interessante. O mais relevante é que ela entrou na Globo como datilógrafa. Deve ter ralado MUITO para chegar à diretora de um programa de televisão. Sei bastante sobre Xuxa. Sei o nome da sua filha, dos seus namorados e conheço um monte de música que ela cantou. Xuxa nunca foi boa atriz, nem boa cantora. Seus filmes foram sucesso de bilheteria e seus discos são recordes de venda até hoje. Xuxa nunca precisou ser tão boa, sua principal qualidade foi ter “carisma”. E o “carisma” é, em geral, algo muito restrito a um grupo de pessoas no Brasil. Ninguém nunca se interessou muito por Marlene. Todo mundo sempre se interessou por Xuxa.

Xuxa passou boa parte da sua vida sendo debiloide. Aparentemente está mudando. Um privilégio que pessoas brancas têm é de ter mais tempo para aprender. Pessoas negras não têm tanta sorte. Em geral, elas não podem errar.

Marlene não podia errar quando apostou todas as suas fichas na jovem Xuxa nos anos 1980. Entrou de cabeça, era a sua chance. A única chance. O que ela fez exatamente? Não sei. Ninguém parece muito interessado em saber e Marlene não parece estar a fim de contar. Xuxa está lançando um documentário para contar sua versão sobre a história. Parece que vai fazer sucesso.

O encontro de Xuxa e Marlene Mattos foi transmitido pelo “Fantástico”. O parto de Xuxa também. Marlene chocou Xuxa ao dizer que “não mudaria nada do que fez”. Ainda não sabemos ao certo o que Marlene fez. E provavelmente não veremos sua versão dos fatos. O Brasil nunca se interessou muito pela versão das Marlenes, afinal. Mas faz todo sentido que ela não queira mudar nada do que fez. Marlene é mulher num país que há 5 anos elegeu como presidente uma pessoa que dizia que ter filhas mulheres era sinal de fraquejada. Marlene é negra num país que há 5 anos elegeu como presidente uma pessoa que ria ao dizer que pessoas negras deveriam ser pesadas em arrobas. Marlene é maranhense num país que há 5 anos elegeu como presidente uma pessoa que dizia que a melhor coisa que existia no Maranhão era um presídio superlotado onde ocorrera naquela semana uma chacina. Marlene é homossexual num país que há 5 anos elegeu como presidente uma pessoa que defendia que crianças deveriam ser agredidas pelos pais caso demonstrassem inclinações homoafetivas. Marlene é a pessoa sem boa aparência num país que há 5 anos elegeu como presidente uma pessoa que disse que não estupraria uma então colega deputada porque ela era feia e não merecia. Marlene não tem que mudar nada. É todo o resto que tem que mudar. Xuxa mudou bastante. Inclusive a ponto de trabalhar aberta e corajosamente contra a reeleição deste presidente no ano passado. Mas não mudou a ponto de entender totalmente seus privilégios e de se colocar no lugar de Marlene. 

Marlene disse a Xuxa em seu encontro que “o mundo não é feito de flores”. Não, definitivamente não é. O documentário provavelmente transformará Marlene, a grande responsável pelo sucesso de Xuxa, em vilã. Marlene não parece muito preocupada com isto. Ela já está acostumada. O Brasil já está acostumado. A barbárie se converteu em costume. E é difícil abandonar mais de 500 anos de costumes.


terça-feira, 11 de abril de 2023

Angústia

 


Este blog funciona para mim como uma espécie de terapia. Clarice Lispector (e juro que foi ela mesmo quem disse) certa vez disse que palavras devem ser ditas ou escritas, senão elas te devoram. Os últimos anos foram muito angustiantes para mim e este blog me ajudou muito. A nova etapa da angústia e distopia brasileira parece ser a onda de ataques a escolas. Não há nada que indique que isto não vá virar uma epidemia, principalmente porque o país escolheu tratar este problema da pior forma possível, que é considerar estes ataques resultado de pura e simples maldade individual. Ela está lá, sem dúvida. Mas há algo mais acontecendo.

Torcida organizada. Igreja evangélica. Bolsonarismo. Todos estão em busca de uma noção de pertencimento. Um grupo do qual você faça parte e sinta que há algo acontecendo. Pode ser torcer para um time. Pode ser rezar para um suposto senhor que mora no céu e vê tudo que você faz. Pode ser se vestir de verde-e-amarelo e sair pelas ruas berrando todo tipo de barbaridade. A verdade é que um grupo de jovens encontrou nesta loucura nas escolas um grupo de pertencimento. Eles estão em redes sociais sendo incentivados a praticar estes atos absurdos e enxergam na realização dos mesmos uma chance de fazer algo que dê algum sentido a uma vida insignificante. Encontram na mais pura maldade uma voz. Palavras devem ser ditas ou escritas, senão elas te devoram. Ninguém quer ouvi-los. Ninguém quer lê-los. Eles estão sendo devorados. E resolveram levar outros juntos.

O Brasil se tornou uma cópia tosca dos EUA. A impressão que tenho é que tudo de mais tosco que existe lá está vindo para cá. Mais do que isto, somos incapazes de olhar os exemplos de lá e entender como agir por aqui. Todo mundo sabia que estes lunáticos bolsonaristas invadiriam o Congresso em algum momento. Nada foi feito. Agora é a hora de importar o que há de pior por lá, estes massacres em escolas. Duas lições de lá: Pena de morte não adianta. O Texas, estado com maior número de massacres nesta década, tem pena de morte. Não apenas isto, a maior parte das pessoas que praticam estes ataques se suicidam ou tentam se suicidar após fazê-los. Eles enxergam a morte como uma libertação. Os massacres são um último grito, algo para tornar a própria morte algo grandioso. Algo do tipo “morri, mas trouxe outros juntos”. Não li muitos detalhes sobre os ataques recentes em escolas brasileiras. Para um pai de um filho de um ano é uma tortura ver isto acontecendo. Mas acho bem provável que o suicídio estivesse nos planos dos que praticaram os ataques, talvez eles tenham sido capturados antes. Ameaçar de matar pessoas que tocaram o foda-se a tal ponto para a vida não é um bom plano. A segunda lição: armar a população (professores neste caso) não vai dar certo. Numa sociedade doente como a nossa, deixar uma pessoa armada numa sala de aula é pedir para mais merdas acontecerem.

Trocentas são as causas deste tipo de tragédia. É como a queda de um avião. Óbvio que há o componente maldade. Mas há também o componente exclusão. O componente silêncio. O componente competição, que cria uma sociedade de perdedores. Há principalmente o componente ódio, tão estimulado pelo grupo político que nos governou entre 2018 e 2022. E teremos que achar um jeito de lidar com isto. Normalizamos a barbárie diariamente. Com este tipo de barbárie ainda não estamos normalizados. Espero que não copiemos também isto dos EUA, mas acredito que copiaremos. A pandemia tirou a minha capacidade de achar que podemos resolver as coisas coletivamente. É cada um por si. Até a hora em que a tragédia bater na porta de casa. Seja tomando o tiro. Seja puxando o gatilho.


sexta-feira, 10 de março de 2023

A Educação no governo petista

 


Um fenômeno tipicamente brasileiro é o voto de pessoas instruídas na extrema-direita. O Brasil é um dos únicos lugares do mundo em que a probabilidade de uma pessoa votar em candidatos fascistas aumenta de acordo com o seu grau de escolaridade. Digo um dos únicos porque a mesma coisa aconteceu na última eleição presidencial chilena. Talvez isto seja um fenômeno latino-americano, mas temos que esperar.

Mais do que um instrumento de inclusão, a educação sempre foi vista no Brasil como um meio de diferenciação. Aquele que se instrui se acha melhor do que o que não teve instrução, e a sociedade faz tudo para confirmar este sentimento. Prisão especial para quem tem ensino superior, liberação do serviço militar, entre outras coisas. Mais do que tudo, uma parte significativa das pessoas que busca o ensino superior procura esta diferenciação.

A formidável inclusão de pessoas em cursos superiores nos governos Lula e Dilma não foi completada por formação política. Uma boa parte das pessoas que alcançou cursos superiores neste período, principalmente aqueles que entraram em universidades privadas, não enxerga esta conquista como fruto de uma luta política, mas sim como fruto de uma conquista pessoal. Algo do tipo “eu me matei de trabalhar, paguei o curso, o mérito é todo meu”. Para estas pessoas, o diploma só faz algum sentido se vier seguido por aumento salarial e emprego melhor. Como em MUITAS situações isto não veio, o novo diplomado se sentiu frustrado, encontrando no fascismo a válvula de escape para esta frustração.

Há também, claro, a rejeição daqueles que já frequentavam universidades e que perderam sua exclusividade. Pessoas que odeiam as cotas sociais. Nada frustra mais pessoas acostumadas com a exclusividade do que perdê-la. Vejamos o exemplo dos aeroportos, o rancor que a nossa elite teve em ter que dividir o avião com pessoas que ela acha que deveriam pegar ônibus. São pessoas que estão amando este novo mundo em que um moleque de bicicleta faz as suas compras no mercado por 10 reais, por exemplo. Pessoas que acham que vale a pena votar num maníaco psicopata porque ele vai privatizar a Eletrobrás. Pessoas ruins que de certa forma usam a educação para chamar a sua crueldade de racionalidade.

Poucas coisas sofrem mais com discurso vazio do que a educação. Às vezes mesmo pessoas claramente bem intencionadas, como Tábata Amaral, se perdem ao achar que o simples investimento em educação basta, ou que acreditam que a função da educação seja a formação de lideranças. Uma visão individualista.

 Mais do que investir em educação, é preciso mudar o conceito de educação. Por anos, inclusive durante os governos petistas, a educação brasileira seguiu a lógica de que sua função era simplesmente formar mão-de-obra qualificada para o mercado. As últimas décadas foram marcadas pela desvalorização das ciências humanas. Não à toa o programa Ciências sem Fronteiras não contemplou ciências humanas. O Brasil não se interessou em enviar filósofos ou sociólogos para estudarem fora, apenas engenheiros. Educação sem formação política e sem formação para a cidadania não forma uma sociedade melhor. Pelo contrário. O Brasil que gerou Bolsonaro é a prova disso. Dilma Rousseff era inclusive contrária à inclusão de filosofia e sociologia na grade curricular das escolas. Foi impedida de realizar estas retiradas pelo PT, cabendo a Temer realizar a tarefa.

Ainda não ficou totalmente claro qual o caminho que o novo governo petista seguirá na área educacional, se o PT entende os erros que cometeu nesta área. Erros estes, para deixar claro, que são menores do que os enormes acertos. Por enquanto, a área está sob comando do PT-CE, governo mais bem-sucedido na área educacional nas últimas décadas e onde a experiência fascista dos últimos cinco anos não vingou. Uma esperança.

A experiência de destruição do tecido social vivida com a Lava-Jato e com Bolsonaro deveria nos levar a uma forte reflexão e reconstrução de toda a sociedade. Um processo semelhante à desnazificação alemã. E este processo pela educação. Mas não pela educação que tínhamos e que de certa forma estimulou o fascismo. Um novo tipo de educação, que forme cidadãos e que pense na sociedade como um todo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O primeiro semestre de 1998

 


1998. Muitas vezes eu acho que idealizo o primeiro semestre de 1998. Mas toda vez que penso numa época muito feliz, eu volto ao primeiro semestre de 1998. O U2 veio para o Brasil. A Copa foi legal. Teve o meu primeiro beijo. Minha primeira viagem de avião. Teve o gol do Didi. Teve o gol do Oseas. Teve Titanic. E principalmente, teve o que se seguiu no segundo semestre de 1998. Se eu acho que idealizo o primeiro semestre de 1998, não tenho dúvidas de que o segundo semestre de 1998 foi uma merda. Foi quando perdi meu pai. Sempre que penso no primeiro semestre de 1998, penso no meu pai saudável. Claro que ele não estava saudável, ele já tinha câncer há uns 10 anos. Mas na minha memória ficou saudável. Eu tinha 14 anos e já faz tempo afinal. O segundo semestre foi só tristeza.

O gol do Didi. Tinham se passado uns 20 minutos do segundo tempo da final do Campeonato Paulista entre São Paulo x Corinthians. O Timão havia vencido o primeiro jogo por 1x0 ou 2x1, não lembro, jogava pelo empate, e o tricolor vencia o segundo jogo por 1x0, com um gol do Raí, que tinha voltado para o SP depois de uma passagem em Paris e fazia seu primeiro jogo na volta. Didi era o pior jogador do Corinthians. Um atacante horroroso. Eu sou palmeirense e meu pai era corintiano. Como eu enchi o saco do meu pai por causa deste cara. Muito. Eis que aos 20 do segundo tempo (ou algo do tipo), Didi recebe a bola pela esquerda, na entrada da área. Corta o zagueiro e com o pé direito chuta a bola por cobertura. Há um tipo de gol no futebol que eu gosto muito, que é aquele cujo chute faz o tempo parar. Gols por cobertura têm esta característica. No curto período em que a bola saiu do pé de Didi e foi na direção do ângulo do gol defendido pelo jovem Rogério Ceni, a Terra parou de girar. Neste segundo, todas as pessoas assistindo ao jogo aspiraram o ar com força, um som meio “fffff”, até a bola estufar a rede e vir a explosão. Eu assistia o jogo na sala, andar de baixo, e meu pai no quarto, andar de cima, de um sobrado cujo piso era de madeira, a casa inteira ouvia quando alguém andava. Meu pai, embora na minha memória estivesse saudável, já estava doente e não saia muito do quarto. Pois eis que quando a bola entra, não ouço nenhum grito. Só ouço um “tum”, que era levantando da cama, seguido por mais alguns “tum” de seus passos indo até a escada e uns “tum” mais forte dele descendo a escada. Meu pai chega na sala vermelho, suado, com um sorriso que eu nunca mais esqueceria e grita “CHUPA”. O SP viria a ganhar o jogo e o campeonato, mas o que ficou para mim deste jogo foi o gol do Didi. Às vezes penso que se eu pudesse mudar o resultado de um evento esportivo na história do mundo, seria o desta final do Paulista. Não consigo imaginar o que meu pai faria se o Corinthians tivesse sido campeão com aquele gol do Didi. Mas o título se tornou o de menos na minha memória. Alguns dias depois, o Palmeiras ganhou a Copa do Brasil com um gol improvável de Oseas no último lance do jogo. Até hoje não sei como aquela bola entrou. Havia chegado a hora de devolver a meu pai a visita. Desta vez era eu quem fazia o “tum tum tum” em direção ao seu quarto. Lá chegando, encontrei meu pai feliz e de pé. Ele me abraçou e me deu parabéns. Eu não sabia, mas de certa forma ele começava a se despedir.

Titanic. Não sei se depois daquilo houve algo semelhante no cinema. E digo não sei porque sou ignorante sobre cinema mesmo. Não faço ideia do que está acontecendo desde que filmes de heróis ocuparam as salas. Há um tempo, antes da pandemia, eu trabalhei numa Wizard em Itapevi e a escola conseguiu ingressos gratuitos para seus alunos assistirem Os Vingadores. Foi uma loucura. Talvez tenha sido algo semelhante ao que foi com Titanic. Não sei. Mas bom, para falar do que foi Titanic no meu 1998, é necessário passar por duas personagens do meu 1998, Tatinha e Aninha. Eu era apaixonadinho pelas duas. Ora por uma, ora pela outra, ora pelas duas. Eu me apaixonava bastante em 1998. Tatinha e Aninha eram duas pessoas que, como o diminutivo mostra, eram pequenas e andavam sempre juntas. Tatinha era a nerd da turma e Aninha era sua melhor amiga esforçada que passava aos trancos e barrancos. A paixonete por Tatinha é fácil de explicar. Eu era nerd, ela era nerd, pronto, isto bastava para que eu nos imaginasse juntos. Já Aninha era um pessoa mais interessante. A primeira coisa sobre ela é que ela tinha uma autoestima tão baixa quanto à minha à época. A segunda é que ela tinha uma mãe tão controladora e competitiva quanto a minha. Toda vez que existia alguma competição na escola que exigia alguma participação materna, eu ficava em primeiro e ela em segundo, ou vice-versa. Lembro uma vez em que houve uma competição para ver qual aluno levava mais latinhas para reciclagem. Aninha liderava até o último dia, quando minha mãe apareceu com uma caralhada de latinhas. Venci. Meus prêmios foram um boné e uma bola que perdi no mesmo dia. A terceira característica de Aninha é que ela tinha uma letra linda. Uma vez fui ajudá-la em algum texto de história, estava absolutamente tudo errado, mas a letra era linda. Tenho planos de ser professor e serei do tipo que darei pontos a alunos com letras bonitas. Tenho uma certa queda por talentos que perderam espaço. E a quarta característica de Aninha é que ela era obsessiva-compulsiva. Não faço ideia de onde isto a levou na vida, mas ela mergulhava com intensidade em tudo. E mergulhou no Titanic.

Aninha ia duas vezes por semana ao cinema assistir Titanic. Eu achava incrível porque eu ainda não havia nem conseguido ingresso para ver o filme e ela dizia que tinha ido de novo. Aninha mergulhou também em Di Caprio. Tinha absolutamente tudo sobre ele. A ponto de ir ao cinema repetidas vezes assistir O Homem da Máscara de Ferro. No mesmo ano de Titanic, saiu este outro filme com o Di Caprio e é tipo o pior filme de todos os tempos. É tipo muito muito ruim. E ela ia ver. Não apenas isto. Tinha alguma rádio de SP que tocava My Heart Will Go On uma vez a cada hora. Uma vez a cada hora. E My Heart Will Go On, possivelmente a pior música de todos os tempos. Pois Aninha passava o dia inteiro ouvindo esta rádio para não perder a música sendo tocada naquela hora específica. Ficava ouvindo um walkman escondida durante as aulas, se ferrou algumas vezes por isto aliás. Um belo dia, alguém perguntou a ela se ela não tinha comprado o CD com esta música. Ela respondeu que sim, e este alguém perguntou por quê ela não ficava ouvindo o CD ao invés de esperar a música tocar na rádio a cada hora. Aninha respondeu com um gemido. Ela sabia que o cara que perguntou não seria capaz de entender que esperar a música tocar na rádio é bem mais legal.

Minha mãe estava desesperada para ver Titanic. Ela já não ia mais ao cinema, achava caro e ver em casa na fita cassete era mais confortável. Mas ela não aguentava mais. Queria ver Titanic. Minha família já estava numa fase mais shoppinglizada da vida. Até 1995, eu morava num apartamento na Santa Cecília, depois fomos para um sobrado no Cambuci. Engraçado é que a minha vida de certa forma se fechou depois que saí do centro. Antes fazia tudo por lá. No Cambuci, tudo se tornou mais “perigoso”. Cinema só no shopping. Mas eis que minha mãe não conseguia ingresso de jeito nenhum. Contei a história de Aninha e ela xingou a coitada. Chamou-a de mentirosa. Um belo sábado minha mãe falou: “Chega!”. Me puxou pelo braço e disse: “Hoje vamos ver Titanic”. Sua solução foi ir no Cine Ipiranga.

O Cine Ipiranga. Joia da era de ouro do cinema paulistano nos anos 1950, em franca decadência nos anos 1990. A sala tinha lugar para 1.200 pessoas, 1.500 com o andar de cima aberto. Lá chegando, a fila dava uma volta no quarteirão. Após uma hora e meia, ingresso comprado, mas para a sessão seguinte. Teríamos que esperar mais 2 horas e meia para entrar. Sentamos e esperamos, na sala de espera do cinema. Minha mãe vai ao banheiro e, então, o inesperado acontece. Uma adolescente da minha idade senta ao meu lado e me oferece pipoca. Vou repetir. Uma adolescente da minha idade senta ao meu lado e me oferece pipoca. Isto nunca mais aconteceu na minha vida. Acho que nunca mais acontecerá. Eu travei, ao mesmo tempo que me apaixonei instantaneamente pela menina. A minha versão adolescente se apaixonava automaticamente por qualquer garota que demonstrasse qualquer interesse em mim. Ainda travado, respondi que não e me levantei. Passei uns 2 anos para superar este não. Na saída do cinema, vi a menina beijando um outro cara. Prometi que nunca mais recusaria uma pipoca. Um mês depois desta sessão eu daria meu primeiro beijo. Aconteceu com uma menina chamada Claudia, durante o trailler de Missão Impossível, ao som de Bed of Roses do Bon Jovi. Depois dividimos uma pipoca.

Pois bem, entramos no cinema. A parte de cima estava fechada para reforma. Mas por algum erro, o cinema havia vendido 1.500 ingressos para 1.200 lugares. Superlotação rolando, a galera sentando em todo canto, de repente alguém fala “Vamos invadir lá em cima”. Correria. Gritos. Porta caindo. Gritos. Com a parte de cima já ocupada, começa a cantoria “se o filme não começar, ole ole olá, o pau vai quebrar”. Ao nosso lado na sala, uma senhora que estava lá para assistir ao filme pela quarta vez. No trailer ela começa a chorar. “O que houve?”, pergunta minha mãe. “Estou pensando no final”, responde ela.

Assistir filme no Cine Ipiranga era uma experiência totalmente diferente do que já era minha experiência cinematográfica e do que seria no futuro. Não havia espaço para silêncio. Era gritaria e festa o tempo todo. “Corno vagabundo” quando aparecia o vilão. “Gostosa” quando aparecia Kate Winslet. “Lindo” quando aparecia Di Caprio. O barulho na hora em que Di Caprio desenha Kate Winslet sem roupa me lembrou o gol de Didi. Gostei daquilo. Até o fim do cinema, ia ao Ipiranga assistir filmes quando este tipo de atmosfera fosse “permitida”. Filmes do Eddie Murphy, por exemplo. Fim do filme. Choro e desespero na sala. Minha mãe vira para a sua vizinha de cadeira que chorava copiosamente e diz “não gostei, esperava mais”. Eu tinha certeza que ela falaria isso. Na volta compro uma pipoca com bacon do pipoqueiro na frente do cinema e pegamos um táxi. Minha mãe passa o caminho inteiro falando mal do filme com o taxista. Eu pensava na garota da pipoca.

Um pouco depois, minha primeira viagem de avião. Viagem de formatura da oitava série para as Serras Gaúchas. Toda vez que penso no primeiro semestre de 1998, penso que eu era rico. Fui a primeira pessoa da família a viajar de avião. A Copa rolava durante esta viagem. A Copa na adolescência / infância. Não há nada melhor. Tive um filho em 2022, se tiver que escolher uma Copa para o Brasil ganhar, que seja 2030, quando ele tiver 8 anos. Eu tinha 10 quando o Brasil ganhou em 1994. Tinha 14 quando perdeu em 1998. Isto foi em julho. Dois dias depois da final, eu e minha irmã viajamos para visitar uma tia em Santa Cruz do Rio Pardo. Quatro horas de viagem na ida, quatro na volta. Meu pai e minha mãe foram nos levar na rodoviária. Ficaram esperando o ônibus sair. Meu pai estava de boina e cachecol. Ele sorria. Quando voltamos duas semanas depois, apenas minha mãe foi nos buscar. Começava o segundo semestre de 1998.


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

O Ex-presidiário

 


O ex-presidiário passou 580 dias preso. Um pouco antes da sua prisão, foi levado à força para um depoimento sem ter se negado a ser chamado, numa tentativa de humilhação pública. Sua esposa faleceu um pouco depois. Já preso, perdeu seu irmão e seu neto. Foi impedido de acompanhar o funeral do primeiro. Foi escoltado para o funeral do segundo, onde foi impedido de conversar com boa parte das pessoas. No ano eleitoral de 2018, quando liderava as pesquisas, foi impedido de concorrer e de dar entrevistas. Ficou incomunicável. Viu o juiz que o condenou manipular este processo eleitoral e ser anunciado ministro do candidato que venceu graças à sua prisão dois dias depois da disputa. Ainda ficou quase um ano preso após esta primeira demonstração clara e pública de parcialidade. Viu se tornarem públicas mensagens mostrando este juiz combinando o processo com a acusação, e continuou preso mesmo assim. Após 580 dias, 1 ano e 215 dias, foi solto.

Para entender o que ex-presidiário passou, é necessário ter empatia. Mas quem não tem empatia nem pelos 700.000 mortos na pandemia definitivamente não terá empatia pelo ex-presidiário. Quem não desconsidera votar num cara que boicotou o processo de vacinação e que imitou gente sem ar morreu por dentro. Não é mais capaz de se colocar no lugar de outro ser humano. Tudo o que restou a esta pessoa é rancor e ódio. Ódio que não diminuiu pelo ex-presidiário conforme ele sofria. Pelo contrário, só aumentou. Uma necessidade de vê-lo sofrendo e humilhado que nunca será sanada. O ódio é assim. O eleitor do atual presidente funciona deste jeito. Quanto mais vence, mais ódio sente. Derrubar Dilma não reduziu o ódio. Eleger isto que nos governa não diminuiu o ódio. Pelo contrário, só criou um complexo de perseguição para tentar justificar a enorme incompetência deste governo bisonho.

Se aqueles que prenderam o ex-presidiário sentem cada vez mais ódio, o ex-presidiário só quer pensar no futuro. Demonstra quase indiferença a seu algoz. Tenta reconstruir um país destruído, muitas vezes com o apoio de pessoas que celebraram sua prisão. Seu vice é um deles. O ex-presidiário não tem tempo a perder com o passado e com o ex-juiz que passa o dia inteiro demonstrando sua parcialidade em redes sociais. Tudo que sobrou ao ex-juiz é tentar usar o ex-presidiário como escada. É tudo que ele e muita gente fez na vida. Odiar o ex-presidiário se tornou uma indústria lucrativa. Desumanizá-lo também. Quase uma linha de produção de ódio.

O ex-presidiário tem companhia na lista de ex-presidiários que definiram a nossa história. Nelson Mandela foi um ex-presidiário. Marthin Luther King foi um ex-presidiário. Gandhi foi um ex-presidiário. Rosa Parks foi uma ex-presidiária. A figura ícone construída pela nossa República, Tiradentes, foi um ex-presidiário. Todos estes ex-presidiários saíram maiores do que entraram no presídio. Todos foram presos em processos farsescos e as suas libertações (exceto Tiradentes, que foi executado) representaram o início do fim de injustiças históricas. Todos eles têm prisões que representam mais do que sofrimentos pessoais, representam sofrimentos coletivos.

O ex-presidiário não tem tempo para sentir ódio nem rancor. Sua mensagem é de futuro e de esperança, ao mesmo tempo em que lembra de um passado não distante em que mostramos que podemos ser melhores. Enquanto seus adversários berram, xingam e ofendem, o ex-presidiário busca a conciliação. O ex-presidiário é o que há de melhor entre nós. Que consiga reconstruir o país. Como Mandela e Gandhi, seus companheiros na designação “ex-presidiários” fizeram. O país tem muito a aprender com Luiz Inácio Lula da Silva. Ao menos o que sobrou de vida neste país.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Bolsonaro e o Senhor das Moscas

 


Em O Senhor das Moscas, obra clássica de William Golding, um avião cai em uma ilha e os únicos sobreviventes são um grupo de garotos, que tentam a partir disto criar um tipo de autogoverno. O poder é dividido basicamente entre dois garotos, Ralph, mais racional, e Jack, o líder da caça. Em um determinado momento, Jack consegue convencer os demais garotos da existência de um monstro, contrariando Ralph, que sempre diz que este não existe. O medo em relação a esta fera inexistente se torna o foco do grupo e é a principal arma para a tomada de poder de Jack. Enquanto a paranoia vai tomando conta do grupo, Ralph estipula que os garotos devem montar um sinal de fogo para o caso de algum navio passar perto. Seria a forma deles mostrarem que estão ali e serem salvos. Os garotos se revezariam em turnos noturnos para impedir que o fogo fosse apagado. Em um determinado dia, na vez de Jack olhar o fogo, ele convence as demais crianças a sair para caçar. Com o descuidado de Jack, o fogo e apaga, e bem neste dia um navio passa ao lado da ilha. No dia seguinte, as crianças refazem o sinal, ao que Ralph responde “mas agora o navio já passou”.

A principal arma de Bolsonaro para vencer a eleição de 2022 é a caça ao monstro inexistente. Daqui até outubro ele vai investir em todo tipo de paranoia. O PT vai fechar templos evangélicos, o PT vai mudar o sexo de crianças nas escolas, estamos enfrentando uma ameaça comunista, dinheiro cubano vem em caixa de uísque para ajudar o Lula, os globalistas, vacinas causam AIDS etc. Deu certo em 2018.

Foi linda a carta pela democracia lida na Faculdade de Direito da USP na semana passada. Ela seria ainda mais linda em 2018. Pena que o navio já passou. O sinal de fogo só foi aceso quatro anos depois de quando deveria ter sido aceso. Bolsonaro fez exatamente o que prometeu na campanha de 2018. Chego até a arriscar dizer que na verdade fez menos. Ainda não iniciou uma guerra contra a Venezuela, nem tirou o Brasil da ONU. Apenas as palavras não foram suficientes para que o fogo fosse aceso. Foram necessários os 600 mil mortos da pandemia e o descaso único de um presidente que ria imitando pessoas sem ar enquanto as UTIs estavam superlotadas e que atrasava propositalmente a compra de vacinas, estimulando em seguida seus seguidores a não toma-las.

Bolsonaro foi muito bem-sucedido em continuar a tática da Lava Jato de apropriação dos símbolos nacionais para sua causa. Ao fazer isto, todos os que estão contra ele deixam de ser apenas adversários, tornam-se inimigos da pátria. Fez com a bandeira, com o hino, e agora conseguiu com o 7 de setembro. Pelo segundo ano seguido, promete um golpe de estado na data da independência. A primeira tentativa não foi suficiente para que as instituições o barrassem. Ele tentou, deu errado, mas está aí. Uma hora dá certo. O lado bom de ter como prioridade à caça a um monstro inexistente é que você nunca o encontra, portanto pode manter seus seguidores dominados e com medo eternamente. Desta vez, ao menos, mais gente acendeu o sinal de fogo. O problema é que o navio já passou. Agora resta torcer para que ele passe de novo.


terça-feira, 26 de julho de 2022

Higienópolis

 


Morar no centro sem morar no centro. Esta é a grande qualidade que possui a região de Higienópolis segundo aqueles que moram ou querem morar lá. O bairro é central, mas não é aquela zona que é o centro. Já foi assim em sua construção. Higienópolis foi um dos primeiros bairros planejados do Brasil. Grandes produtores rurais buscavam se estabelecer na capital que crescia, mas numa região só deles. A escolha por lá se deu por dois motivos: a proximidade já citada em relação ao centro, onde ficavam as melhores opções de entretenimento e a Bolsa de Valores, e a topografia. Se hoje a preocupação central de quem mora na região é assalto, naquela época eram doenças, principalmente a varíola. A elite brasileira, tendo já a elite paulista como líder, colocava em prática na época um projeto de embranquecimento da população, tentando atrair imigrantes especialmente italianos para trabalhar nos campos e nas recém-inauguradas fábricas. Junto com os italianos veio a doença, que se espalhava com maior facilidade pois estes eram basicamente jogados amontoados no bairro do Bixiga. Higienópolis foi o primeiro bairro com saneamento básico na história do Brasil, mostrando que a elite já possuía lá o tipo de pensamento que marcou a sua relação com o Brasil, que é resolver o problema para ela, e o resto que se foda. Hoje, em 2022, Guarulhos, a segunda maior cidade do estado, trata 4% de seu esgoto, jogando o resto no rio Tietê. 35 milhões de brasileiros não tem acesso à água tratada, enquanto 100 milhões seguem sem acesso à esgoto. A elite paulistana construiu sua cidade da higiene e deixou o resto abandonado.

Ser latifundiário no Brasil nesta época significava basicamente que você era beneficiário direto do sistema de escravidão. Basicamente não havia mobilidade social, então não é uma generalização tão perigosa a se fazer. Sempre que você abrir um livro e ler “barão do café” pense em escravocrata. O Brasil seria um lugar bem melhor se escolhesse os termos certos para descrever as coisas. Isto quer dizer que Higienópolis foi basicamente um bairro criado por e para escravocratas no momento em que a escravidão havia, ao menos no papel, acabado, e em que a aristocracia escravocrata brasileira buscava novas formas de viver, explorar e continuar prosperando. Basicamente toda a elite paulista e brasileira à época era formada por estas pessoas, havia tido pouco tempo para que alguns poucos prosperassem na indústria, por exemplo. Toda a intelectualidade paulistana era formada por estas pessoas. A Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo, foi realizada basicamente por herdeiros de escravocratas. Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral são três exemplos de “filhos de latifundiários”. O papel desta herança escravocrata, aliás, foi muito pouco abordado no centenário da Semana. De certa forma o “pensamento paulistano”, se é que isto existe, foi moldado por herdeiros do escravismo. E isto não significa tirar o valor cultural do movimento. Significa apenas tirar o pano desta eterna mancha em nossa história. Significa entender que o escravismo está em tudo. Até hoje, quase todas as nossas relações são baseadas nisto. A intelectualidade paulistana nunca se esforçou para resolver esta desigualdade. É simbólico que a USP tenha sido uma das últimas universidades públicas do país a adotar o sistema de cotas.

Nos anos 1920 o bairro de Higienópolis se desenvolveu. Uma epidemia de febre amarela assolou a cidade de Campinas, forçando 75% dos seus habitantes a mudar de cidade. A elite campineira veio para cá, para o meio dos seus pares, naquela ilha de prosperidade e saneamento construída em meio ao caos. Em 1929 a casa caiu. Ou começou a cair, literalmente. Com a quebra da Bolsa de NY, a elite agrária paulistana começava a viver sua decadência. Com os donos endividados, os casarões de Higienópolis começaram a cair para dar lugar a prédios, o primeiro exatamente em 1933, um ano após a derrota desta mesma elite paulistana na guerra contra o governo federal. Com a revolução de 1930, o desenvolvimento sub-desenvolvimentista paulistano perdeu espaço para um novo país. A geração de 1922 foi superada pelo regionalismo. SP nunca perdoou a derrota. Não há uma Avenida Getúlio Vergas em SP. Mas há uma rodovia dos Bandeirantes. A arquitetura escravocrata dos casarões que lembravam fazendas deu lugar a um novo tipo de arquitetura, mantendo porém o quartinho de empregada. Décadence avec élégance. Até hoje, passeando pela região e chegando até a Paulista, achamos uns casarões destes perdidos, quase sempre caindo aos pedaços. A especulação imobiliária deve pirar com isto.

Morar no centro sem morar no centro. Este segue sendo o sonho realizado dos novos habitantes do bairro. Mais de cem anos depois de sua construção, segue sendo o objetivo. Se a arquitetura da cidade hoje é dominada por hiper condomínios com lógica semelhante à de um presídio-empresa de luxo, com grades e isolamentos separando a cidade do seu mundinho, Higienópolis tem uma barreira invisível, o Minhocão. Do lado de lá, tudo é feio. Do lado de cá, tudo é lindo. Há muitos poucos mendigos em Higienópolis, por exemplo. Os que aparecem logo desaparecem. Ninguém sabe a razão, mesmo que todos saibam a razão. O sentimento dos habitantes de Higienópolis quando um mendigo some não é de preocupação, é de alívio. Pessoas cujo desaparecimento geram alívio normalmente desaparecem. O grau de barbárie de uma sociedade pode ser medido pelo grau de alívio que esta sente quando há estes desaparecimentos. Higienópolis pode até ter saneamento básico, mas não resolveu os problemas básicos de barbárie em que foi construído.

A mulher da Casa Abandonada é uma caricatura, e as pessoas amam estes personagens. Ela pode se tornar o bode expiatório. Ela é um problema, mas está longe de ser o problema. O problema hoje não está no casarão abandonado. Está na cobertura do prédio ao lado. Ou na cobertura do prédio que será construído quando o bairro se livrar da mulher. Ela ter feito uma mulher de escrava por trinta anos não é problema para a vizinhança. Esta provavelmente via o que acontecia e não enxergava problema algum. Pelo contrário, rolava identificação. A mulher da Casa Abandonada é a "tia do interior". Higienópolis se incomoda com ela agora porque ela é um entrave ao seu desenvolvimento. E porque ela traz sujeira. E se tem uma coisa que Higienópolis detesta desde o seu início é sujeira. Mas podridão da mulher é a mesma do bairro. Boa parte dos habitantes do bairro ainda pertence a herdeiros daquela turma que construiu o bairro. O problema está em todo um sistema que segue beneficiando esta turma, que se recusa a fazer um acerto de contas. Se um dia ela começar, terá que começar por Higienópolis. 

 

 


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Quando éramos reis

 


Muito raramente os textos que escrevo ficam tão bons no papel quanto parecem ser na minha cabeça. A razão principal é a ansiedade. Eu quase nunca dou a um texto o tempo para que eu o melhore na minha cabeça. É quase sempre o impulso. E também quase nunca os reviso. Escrevo para um blog que pouca gente lê textos que funcionam mais como uma terapia, um desabafo, do que qualquer outra coisa. Na minha cabeça eu tenho um texto não escrito que acho brilhante sobre a relação entre a Copa do Mundo e o país. Não é a à toa que a seleção de 1958 surgiu ao mesmo tempo da Bossa Nova. Não é à toa que a seleção de 1982, possivelmente a melhor seleção não-campeã que tivemos, tenha tido o mesmo destino derrotado do movimento das Diretas-Já, dois anos depois. A derrota bonita segue sendo uma derrota. Mas segue sendo bonita. Não é à toa que a seleção de 1994 surgiu no ano do Plano Real. Vencer a inflação a qualquer custo após sucessivas derrotas. Vencer a Copa do Mundo a qualquer custo depois de sucessivas derrotas. Vencemos. Não é à toa que a seleção de 2002 venceu em 2002. Ronaldo renasceu no ano em que o Brasil optou por renascer. Em algumas coisas o renascimento deu bem certo. Em outras deu bem errado. Não é à toa que a hecatombe de 2014 antecedeu a hecatombe de 2016-2018. No momento em que o Brasil deveria mostrar ao mundo sua força, tudo desandou. O 7x1 se tornaria a metáfora perfeita do país. Cada dia um 7x1 diferente.

Eu tinha 18 anos em 2002. Uma das melhores memórias que tenho daquela Copa é que eu estudava num Cursinho pré-vestibulares cheio de estudantes coreanos e eles enlouqueceram na Copa. Roubaram muito para a Coreia naquela Copa e eu adorei isto. Foi lindo ver aqueles coreanos nerds e obcecados por uma vaga na faculdade de engenharia surtando e enchendo a cara por causa de algo tão besta quanto onze homens correndo atrás de uma bola. Metade da minha sala faltou na aula para assistir a semi entre Coreia x Alemanha. Eu não faltei. Me arrependo. Não lembro do que era a aula, mas provavelmente me lembraria da ida ao bar com os coreanos.

Chegar numa final de Copa do Mundo parecia algo fácil para a minha geração. Chegamos com um time zoado em 1994. Quase ganhamos em 1998 com um técnico que não sabia o nome de quase nenhum dos jogadores adversários. Depois procurem uma entrevista do Vampeta em que ele comenta a preleção do Zagallo para as quartas-de-final contra a Dinamarca. Ganhamos em 2002 com um time desacreditado, que um ano antes tinha perdido para Honduras na Copa América. Ronaldinho surgiu, Ronaldo ressurgiu, Rivaldo teve sua última explosão. Roberto Carlos, Cafu, putaquepariu, que time bom. O Brasil jogou quase sempre às 8 da manhã, lembro que eram os únicos dias de folga no Cursinho. Tínhamos aula até de sábado. Uma coisa interessante que acho quando lembro do Cursinho é que naquela época eu não fazia ideia do que queria fazer da vida. Com o tempo percebi que é uma temeridade exigir de um garoto de 18 anos que escolha o que fazer da vida. Mas aos 38 sigo sem saber. Em 20 anos, descobri mais o que não quero do que o que quero. Ou falhei em transformar o que gosto em profissão. Ou vai ver simplesmente não arranjei alguém para me pagar para fazer o que gosto. Bom, decidi no fim das contas fazer economia. Encontrei na faculdade vários como eu. Não é tão incomum não saber o que quer da vida. Não é tão incomum não descobrir.

Naquele ano votei pela primeira vez para presidente. Meu voto foi em Lula. Foi a única vez que votei nele. Este arrependimento é maior do que o arrependimento do bar dos coreanos. Vai ver na vida vamos juntando arrependimentos. Ou damos valor quando perdemos. Do mesmo jeito que parecia ser fácil chegar em final de Copa do Mundo, parecia ser fácil viver em democracia. Minha geração não lutou por ela, não soube preservá-la. Em 2002, o segundo turno foi entre Lula e José Serra. A direita votava num economista ex-ministro da Saúde que lutou pela quebra das patentes dos remédios contra HIV, tornando o Brasil exemplo no Mundo. Regina Duarte apareceu em sua campanha dizendo que tinha “medo” de Lula. Duas décadas depois, a Regina Duarte que fazia campanha para o cara que ajudou a transformar o Brasil em modelo na luta contra o HIV se tornou ministra do cara que diz que vacina transmite HIV. Saudade de 2002. Passei uma década votando no partido de José Serra. Típico de um jovem privilegiado incapaz de sair da própria bolha, que não busca ver as mudanças. Um jovem que aos 18 anos fazia Cursinho, afinal. Foi preciso muita merda acontecer para que eu saísse do discurso de ódio que a direita ia já implantando a partir de 2003. Às vezes sinto que o João de 2006 embarcaria fácil no discurso de uma coisa como o MBL e me xingo. Me arrependo pelo que faria. Ainda bem que não fiz. Deu tempo.

18 anos. Quando temos 18 anos, 20 anos parece uma vida inteira. Quando temos 38, 20 anos não parece tanto tempo assim. Às vezes parece até mesmo ontem. Aos 58 anos, sabe-se lá o que pensarei sobre 20 anos. Impossível prever. Se voltasse a 2002, a primeira coisa que faria seria ir ao bar com os coreanos. E conversaria com o João de 2002. Não seria necessário mostrar o 2022 sombrio para convencê-lo a mudar. Talvez bastaria fazê-lo olhar à sua volta.

2022 o Brasil vai em busca do hexa. Vai em busca de redenção. Novamente na Ásia. Novamente nas urnas. Fomos incapazes de criar uma renovação e a nossa esperança em 2002 é a mesma de 2022. É Lula. Muito raramente os textos que escrevo ficam tão bons no papel quanto parecem ser na minha cabeça. A razão principal é a ansiedade. Eu quase nunca dou a um texto o tempo para que eu o melhore na minha cabeça. É quase sempre o impulso. E também quase nunca os reviso. Escrevo para um blog que pouca gente lê textos que funcionam mais como uma terapia, um desabafo, do que qualquer outra coisa. Na minha cabeça eu tenho um texto não escrito que acho brilhante sobre a relação entre Lula e o país. Sua ascensão foi a ascensão do país. Sua queda nos levou ao buraco. Sua ressurreição pode ser a nossa ressurreição. É paradoxal ter esperança no futuro olhando tanto para o passado. Mas é o que sobrou, quando não há perspectiva no presente. Ninguém entende tanto de recomeço quanto ele. Ronaldo recomeçou apenas uma vez. A vida de Lula é a vida dos recomeços. Que o Brasil recomece com ele.



terça-feira, 28 de junho de 2022

A decadência de Nelson Piquet

 


É realmente difícil convencer um idiota bem-sucedido profissionalmente de que ele é um idiota. Em geral porque ele se cerca de pessoas que o bajulam. Mas também porque o idiota bem-sucedido acredita que o próprio sucesso profissional é uma prova de que ele não é idiota. Nelson Piquet era muito bom no que fazia. Muito muito bom. Foi três vezes campeão do mundo. Ganhou mais de vinte corridas. Deu sorte de ser muito bom numa atividade que, embora não muito relevante para a humanidade, uma parte significativa de nós leva a sério, a corrida de automóvel. Além de muito bom no que faz, Piquet sempre foi muito, mas muito idiota. Ele é tão, mas tão idiota, que ele consegue ser mais idiota do que foi bom piloto. Piquet tem três títulos mundiais de Fórmula 1. Se houvesse título mundial de idiotice, é possível que Piquet tivesse mais do que sete títulos mundiais nesta categoria. 

Piquet sempre se esforçou para ser o mais idiota possível. Sempre que perguntado sobre um assunto ou sobre uma pessoa, o objetivo de Piquet sempre foi dar a resposta mais idiota possível. Ele acha isto engraçado. É comum entre pessoas bem-sucedidas e idiotas responder perguntas destas forma. Quem trabalha no setor privado conhece bem aquele diretor que adora falar palavrões desnecessários e xingar o mais alto possível. Faz parte do que eles enxergam como poder. Não à toa Piquet ou este tipo de diretor se identificam tanto com o atual presidente da República. Na sua fala sobre Hamilton, Piquet poderia escolher muitos adjetivos. Poderia apenas dizer que Hamilton foi agressivo. Mas não, fez questão de explicitar seu racismo. Fez porque é adepto do quanto mais idiota melhor. Fez porque acha engraçado. Fez porque se sente poderoso ao fazer isto.

Piquet sempre se sentiu um tanto quanto injustiçado pelo público brasileiro. Ao mesmo tempo em que ganhava nas pistas, surgiu outro piloto brasileiro tão bom ou melhor e com mais carisma. Acontece. O idiota foi se tornando cada vez mais rancoroso e amargo. Era hiper falante até seu filho protagonizar o maior vexame possivelmente da história do esporte. Nelsinho Piquet herdou a idiotice, mas não o talento do pai. Ficou um tempo quieto. Mas quis o destino que Piquet se tornasse sogro de um novo fenômeno do mesmo esporte. Voltou com a corda toda. Recuperou a força e a energia. Força e energia que usa para falar merda.

O Brasil tratou por muito tempo gente como Piquet como engraçada. Suas barbaridades eram tratadas como “polêmicas”. Frases de “gênio”. Precisamos parar, aliás, com esta história de que piloto de Fórmula 1 é gênio. Não é. Schumacher não foi. Senna não foi. Eles são muito bons no que fazem. Mas gênio era, sei lá, o Da Vinci. À exceção de Hamilton, a Fórmula 1 nunca teve um atleta relevante para o planeta. A Fórmula 1 é cheia em geral de playboys mimados de famílias ricas totalmente alienados da sociedade. A Fórmula 1, entre outras coisas, corria na África do Sul nos anos 1980, durante o apartheid. Hamilton é relevante não apenas pelos sete títulos ou pelos recordes que bate, mas por ser possivelmente o primeiro piloto de Fórmula 1 não completamente alienado que eu lembre. Hamilton se interessa pela sociedade, entende o papel que pode ter como agente transformador e seus sete títulos mundiais, mais do que o fim, são o meio para que sua mensagem seja passada. É possivelmente o atleta mais relevante da sua geração. É o que Muhammad Ali foi nos anos 1960, Billie Jean King nos anos 1970, Maradona nos anos 1980, as irmãs Williams nos anos 2000, entre outros. Consegue fazer seu talento na atividade irrelevante ser relevante. Voltando ao Brasil, as barbaridades de Piquet foram sempre tratadas como humor pela mídia brasileira. Como as barbaridades do antigo deputado federal, aliás. “Olha que engraçado, ele falou que a ditadura deveria ter matado uns 30 mil”. Pessoas como Piquet se sentem realmente ameaçadas com a modernidade. Não sabem não ser idiotas e temem que a queda do idiota-mor seja a queda do próprio estilo de vida, baseado em privilégios e preconceitos.

O piloto Nelson Piquet está na história do esporte. A pessoa Nelson Piquet caminha rumo à irrelevância. O ex-piloto muito bom se tornou uma figura triste e rancorosa que só aparece na mídia falando merda ou servindo de chofer para um genocida aloprado. Não foi vítima de ninguém. Escolheu o seu caminho. Basta olhar para a cara de Piquet e notar como ele é infeliz. Pessoas como ele vão para a irrelevância sempre do mesmo jeito. Reclamando e ofendendo. E com um olhar triste, servindo de condutor para um idiota ainda mais idiota do que ele. Piquet já conhece de certa forma o ostracismo no país em que nasceu. Tanto que a frase racista que proferiu contra Hamilton demorou 6 meses para aparecer. Ninguém liga para o que ele fala. Agora deve conhecer o ostracismo na categoria que o consagrou como piloto. Este não existe mais. O que sobrou foi esta tristeza. A demonstração do impacto que o rancor pode causar em um ser humano.

domingo, 26 de junho de 2022

Bolsonaro e o empoderamento dos imbecis

 


O Brasil sempre foi uma merda. Uma máquina de moer gente. Um país fundado com a ideia de utilizar mão-de-obra escrava para produzir açúcar. Sim, para produzir açúcar. Europeu queria consumir açúcar, veio para cá e começou a escravizar nativos para isto. Descobriu que podia transformar escravo em mercadoria e começou a escravizar pessoas na África e trazer para cá. Tudo para produzir açúcar. Açúcar... Daí surgimos e até hoje isto somos, europeus escravizando nativos e africanos para produzir açúcar para a Europa. Troque açúcar por café. Depois por soja. “O agro é a riqueza do país”, diz o slogan enquanto a fome e a miséria aumentam. “O agro carrega o país nas costas”, diz o analista econômico no país em que mercados começaram a trancar carne com cadeado. Melhorou um pouco por um breve período, mas no fundo sempre foi isto aí.

Os bolsonaristas sempre foram escrotos. Sempre foram esta gente de merda que hoje escreve e fala este monte de asneiras por aí. A diferença é que hoje estão empoderados. E o que os empoderou foi a vitória de Bolsonaro. Antes daquilo, eles tinham alguma vergonha de expor explicitamente suas visões de mundo. E esta vergonha era algo que, se comparamos com o que temos hoje, era bom. A pessoa ter vergonha de falar merda ao menos mostrava que ela tinha alguma noção de que aquilo era uma merda. Ver alguém como Bolsonaro chegar ao poder de certa forma os libertou. Eles viram alguém como ele chegar ao topo, ser eleito com 55% dos votos. Sentiram-se aceitos. Bolsonaro foi eleito deixando claro ser um completo imbecil. Trata-se de uma pessoa sem nenhuma qualidade, completamente incapaz de sentir qualquer tipo de empatia. Obteve fama falando merda em programas de subcelebridades, exaltando a ditadura militar e a tortura, não teve sequer um projeto significativo aprovado em 28 anos de mandato como deputado. Não importa. Bolsonaro não foi eleito pelas suas qualidades, mas pelos seus defeitos. Ou ao menos pelo que gente minimamente decente considera defeito. Prometeu em campanha prender, expulsar ou matar opositores, ofendeu minorias, defendeu extermínios, estimulou todo tipo de violência possível. Quando mais merda fazia e prometia, mais se tornava um mito. Durante a maior tragédia coletiva da nossa história, debochou do sofrimento de milhares que perderam a vida e dos milhões que sofreram com estas mortes. Enquanto a miséria avança, roda o país passeando de moto em motociatas bizarras. Quanto mais ele é idiota, mais os bolsonaristas se sentem livres para fazer o mesmo. É bom ser livre. Não é à toa que para estes imbecis Bolsonaro representa a “liberdade”. “Liberdade” para esta gente é ofender, ameaçar e oprimir. Quanto mais ofendem, ameaçam e oprimem, mais se sentem “livres”. A “liberdade” para eles é algo individual, o coletivo não existe.

Na ausência de coletividade, eles encontraram o seu coletivo. A sua noção de pertencimento. Vestem a camisa da seleção. São o Brasil e o Brasil é deles. Qualquer um que se oponha é inimigo da pátria. Pessoas que puderam deixar de fingir que eram civilizadas e que ganharam o apelido de “patriotas” por isto. Reginas Duartes celebrando a ditadura. “A gente cantava as musiquinhas", disse ela nesta exaltação ao período em que, ao mesmo tempo em que ela cantava as musiquinhas, milhares eram torturados em porões clandestinos. Saudade. E mais do que isto, encontraram um mercado muito fértil e pronto para ser explorado. Esta turma estava desde sempre louca para consumir muita merda e todo um grupo de pessoas ganhou espaço na mídia. Pessoas irrelevantes. Antônia Fontedemerda nunca fez nada de relevante. Nada. Tem 2 milhões de seguidores só falando merda. O tal do Adrilles. Por que estes caras têm tanto espaço? Porque há todo um público disposto a comprá-los. Que sente prazer vendo a opressão ao vivo. Quase goza vendo o opressor chiliquento. 

"Bolsonaro fala umas verdades". Bolsonaro fala o que pensa. A primeira frase merece aspas, a segunda não. Porque Bolsonaro realmente fala o que pensa, mas isto não é suficiente para que seja verdade. Pensar merda e falar merda não te torna alguém verdadeiro. Te torna apenas um merda. Este simples conceito talvez impediria que vivêssemos o que vivemos. Mas falar merda é lucrativo.

Não importa o que gente como Fontedemerda, Adrilles, Constantino, Narloch, a jogadora de vôlei ou o escambau façam. Leo Dias pode até perder o emprego agora. Adrilles também perdeu quando fez o gesto nazista. Depois de um tempo voltou para Jovem Pan. Constantino também o perdeu quando disse que culparia sua filha se ela fosse estuprada. Depois voltou para a Jovem Pan. Alexandre Garcia saiu da CNN quando defendia a cloroquina contra a Covid. Lá está a Jovem Pan para unir esta turma. Sempre defendendo a barbárie. Sempre falando de “liberdade”. Falam de “liberdade” porque eles sim se sentem mais livres. Livres como nunca. Ou no caso do Brasil, como quase sempre. O mito os “libertou”. E eles farão o demônio para não voltar para a caixinha.