quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bolsonaro, o trânsito e a sociedade de patetas malucos




O paulistano médio tem algumas paixões. As padarias com catraca, as academias espelhadas e a selfie no elevador estão entre elas. Mas nenhuma delas supera o carro e todo tipo de infelicidade e reclamações que ele permite. Nada no planeta, por exemplo, é mais chato do que paulistano falando sobre trânsito. As lamentações sobre a demora de duas horas para chegar ao trabalho, quase sempre causada pela “imprudência de algum motoqueiro”, o grande inimigo do motorista paulistano médio na guerra do trânsito. É lá também que o paulistano gosta de mostrar sua “esperteza”. Ver paulistanos falando sobre qual caminho fizeram para fugir do trânsito é um verdadeiro teste para qualquer tipo de paciência. “Ao invés de pegar, sei lá, a Marginal, eu entrei à direita na rua tal, virei à esquerda na avenida outra, segui reto num beco lá e consegui chegar... ufa, se não fosse isso, não sei que horas que eu chegaria”. O colega que seguiu na Marginal demorou mais cinco minutos.
O carro de certa forma simboliza e incentiva tudo que há de pior na nossa sociedade. É um símbolo da prisão em uma vida infeliz, abastecida através de stress, consumismo e status. Em geral, o motorista de carro é individualista, estressado, egoísta, irresponsável e incapaz de fazer uma autocrítica. Isto fica claro quando assistimos ou ouvimos a mídia voltada para o trânsito. Não sei como é em outros lugares, mas as informações da manhã do paulistano se resumem ao trânsito. “Marginal Pinheiros parada para resgate de um motoqueiro”. O foco não é na perda da vida, e sim no fato de que o trânsito está parado. Tem sempre um helicóptero voando e mostrando o trânsito parado do alto. Nas rádios são constantes aqueles barulhos da hélice de helicóptero noticiando a mesma notícia todo dia. Os repórteres sempre falam com pressa, sem que eu saiba muito bem a razão. Os seus ouvintes estão parados e a notícia é sempre a mesma. De certa forma eles incorporam o stress dos ouvintes e tem como função estimulá-lo. Stress vicia e um cidadão estressado é mais facilmente manipulado, especialmente para o consumo e para o ódio.
Para uma parcela significativa da população paulistana, a vida gira em torno do carro. O stress do trânsito no dia da semana se converte em stress procurando vaga de estacionamento no shopping no fim de semana, passando pela fuga das batidas policiais que procuram motoristas bêbados aos sábados à noite. Sim, o paulistano criou um aplicativo em que se compartilham informações sobre onde estão as blitz e fala sobre isto abertamente. O motorista paulistano está sempre certo. Há algum tempo, a mídia do trânsito cunhou o termo “indústria da multa” para falar sobre a ação “covarde e arbitrária” dos governantes que, olha só, buscavam punir os “bravos e valentes” motoristas que praticam infrações no trânsito. O mesmo cidadão “de bem” que reclama que a polícia não faz nada e pede leis mais duras contra todos os crimes enxerga de outra forma a situação quando a infração é cometida por ele. Numa situação bizarra, um motorista em alta velocidade diz que a culpa pela sua infração não é dele, e sim do radar que captou o momento. “Ele estava escondido”, “argumenta” o motorista, com o uso das aspas na palavra argumenta mais do que justificado. O mesmo paulistano que pede cadeia para tudo e para todos quer destruir o sistema que no trânsito pega e pune os infratores. Há na cidade um verdadeiro comércio de transferência de pontos entre motoristas. O mesmo cidadão de “bem” que pede responsabilidade aos crimes não pensa duas vezes antes de pagar alguém que aceite ficar com os pontos da infração.
O motorista paulistano é uma versão moderna do Pateta maluco. Neste episódio, o Pateta simplesmente se transforma ao entrar dentro de um automóvel, deixando de se tornar um dócil cidadão comum para se transformar num fera quando está atrás do volante. Mas na vida moderna a versão maluca do Pateta venceu. Ao ser uma das principais fontes de infelicidade na vida do paulistano médio, é também uma das suas maiores paixões e este cidadão está disposto a passar por cima de tudo para manter-se parado no trânsito e surtando. O primeiro político a perceber isto com maestria foi João Doria Jr. Nas eleições de 2016, Doria tinha como principal promessa de campanha o aumento da velocidade nas Marginais e a desinstalação de radares de velocidade. Seu antecessor, Fernando Haddad, havia reduzido de 90 para 70 km/h a velocidade permitida nestas vias e instalou radares para pegar quem não cumprisse a nova lei. As medidas de Haddad resultaram numa queda no número de acidentes, com redução no número de mortos e impacto positivo no trânsito. Embora a velocidade máxima tenha sido reduzida, a redução no trânsito em razão da queda no número de acidentes elevou a velocidade média da via, isto não segundo a gestão Haddad, mas segundo o órgão fiscalizador do governo do Estado, gerido pelo partido de Doria. Este não quis saber destes dados, disse que sua impressão era outra e, com base neste “argumento” maravilhoso, conquistou os corações dos paulistanos médios, sendo eleito no primeiro turno. Sua primeira ação no governo foi, como prometido, rever as medidas. Como resposta ao aumento no número de acidentes e mortes na via, a gestão Doria apostou na distribuição de panfletos e na colocação de duas ambulâncias no acostamento da via para, segundo palavras do prefeito, “atender as vítimas com maior agilidade e liberar o trânsito o mais rápido possível”.
O carro se sobrepõe à vida no conceito tosco de existência do paulistano médio. Durante as eleições de 2016, era quase impossível convencer motoristas paulistanos de que a redução de velocidade era algo bom com base no argumento da redução do número de mortos. Ninguém estava nem aí para isto. Passei a notar então que todas as campanhas de conscientização sobre o assunto não se baseiam na ideia de empatia pura e simples com o outro, e sim em fazer com que o “cidadão de bem” enxergue que ele pode ser a vítima que hoje ele despreza. Só há efeito se o motorista enxergar a “si” como vítima, enquanto for o “outro” a possibilidade de conscientização é mínima. Durante a mesma eleição, li uma análise que mostrava que um paulistano a velocidade de 90 km/h demoraria aproximadamente 2 minutos a menos para percorrer a Marginal se comparado a um paulistano a 70 km/h. Entre dois minutos e a vida de “outro”, o paulistano optou pelos dois minutos. “Acelera, São Paulo”.
O eleitor de Doria em 2016 votou em Bolsonaro em 2018. Os números dos dois na capital paulista são bem parecidos, embora eu ache que a comparação entre os dois não deve ser tão radical. Bolsonaro consegue ser muito pior do que Doria. Mas em alguns aspectos a gestão Bolsonaro leva ao país métodos que Doria tentou implantar na gestão paulistana e um deles é, sem dúvida, a completa ausência de preocupação com dados e com a opinião de analistas no momento da implantação de políticas públicas. Assim como Doria privilegiou seus achismos frente aos dados que comprovavam a eficácia da redução de velocidades na Marginal, Bolsonaro os ignorou completamente na sua nova empreitada a favor da matança nas estradas. Ignorar o conhecimento, aliás, é uma das marcas desta nova gestão. É assim no pacote anticrime do ministro Moro, nas “ideias” educacionais etc. Contrariando qualquer lógica e bom senso, Bolsonaro quer, entre outras coisas, aumentar o número de pontos na carteira que proíbem um motorista de continuar conduzindo, tirar a obrigatoriedade da cadeirinha de criança no banco de trás e acabar com a necessidade de exame toxicológico para motoristas profissionais. De verdade, basta pensar um pouco, bem pouquinho mesmo. Refiro-me com isto a pessoas que não são apoiadoras do atual governo, seria impossível exigir de quem ainda apoia algo tão difícil quanto o pensamento. Quem se beneficia com este tipo de medidas? Aumentar o número de pontos, os únicos beneficiados são aqueles que cometem muitas infrações e poderão cometer mais, certo? Retirar a obrigatoriedade do exame toxicológico só beneficia quem não passaria neste exame, certo? Mas podemos ficar “tranquilos”, uma vez que o caminhoneiro que não passaria neste exame também poderá portar uma arma.
Não há espaço para empatia na “nova política” de Doria e Bolsonaro. Nenhum de seus eleitores está preocupado com o óbvio aumento no número de acidentes e de mortes que as novas medidas do presidente vão ocasionar. Isto porque a morte e os acidentes impactam o “outro”, enquanto o benefício aparente é individual. “Posso tomar mais multa”, pensa o paulistano médio que, indiscutivelmente, conseguiu expandir sua visão de mundo para o restante do país. A “nova política” representa a ausência de empatia. Toda a sua plataforma é baseada no incentivo ao individualismo, algumas vezes travestido da palavra empreendedorismo, e na rejeição a qualquer coisa que pense no coletivo. O exemplo mais extremo é o do Rio de Janeiro, em que a sociedade aceita com um silêncio aprovador a matança que vem sido organizada pelo governador Wilson Witzel nas regiões mais pobres do estado. São Paulo “acelerou” e deixou alguns mortos no caminho. Agora é o Brasil que “acelera”. Em marcha ré.

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