segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Bolsonaro, a elite, a classe média e o Outro

 


Eu não escrevo sobre política com o intuito de convencer ninguém. Desisti disto em 2018. Quando senti que o argumento “ele defende abertamente a tortura” não era suficiente para convencer alguém a votar no adversário deste candidato, simplesmente desisti. Escrevo mais como desabafo. Mais do que isto, desconheço qualquer caminho de mudar no curto prazo o caminho que começou a se desenhar lá na Lava Jato e que culminou na eleição de 2018. Um país em que mais de 50% das pessoas votam num cara que defende a tortura, que exalta a ditadura e os ditadores, que mente sobre absolutamente todos os assuntos possíveis, é um país destinado à tragédia e a exportar a tragédia. Pode não ser agora, mas isto está perto. É até difícil falar que a “tragédia” virá enquanto ainda vivemos a maior tragédia da nossa geração. Mas ver que a maior tragédia da nossa geração não foi suficiente para que os olhos fossem abertos é sinal de que algo maior ainda está por vir. Porque é isto que Bolsonaro sabe fazer.

A característica básica do eleitorado bolsonarista é a total incapacidade de se colocar no lugar do Outro. Este Outro é uma instituição inexistente. Você nunca vai conseguir convencer um bolsonarista a se colocar no lugar deste Outro e eu basicamente acho que esta capacidade é necessária no momento do convencimento. A pessoa que é incapaz de se colocar no lugar de uma pessoa torturada, por exemplo, não é capaz de se incomodar com o candidato que promete torturar, uma vez que o torturado será o Outro. Tudo pode acontecer com este Outro, nada interessa. O que interessa, sei lá, são as tais das reformas. E isto serve também para o bolsonarista arrependido. Boa parte dos bolsonaristas arrependidos não se arrependeram porque adquiriram uma capacidade de se colocar no lugar do Outro, mas porque descobriram que o descaso do presidente a este Outro também se aplicava a eles. Enquanto Bolsonaro prometia torturar, matar ou expulsar do país os “petralhas”, os Outros, tudo estava ok. A Covid, porém, não atingiu apenas os petralhas, atingiu todos. Não atingiu apenas os Outros. Descobrir-se como parte deste Outro, porém, não é a mesma coisa que ser capaz de se colocar no lugar do Outro. Esta galera ainda ama o ministro da Justiça que queria colocar presos doentes para morrer em containers no começo da pandemia. O MBL, agora se dizendo anti-bolsonarista, segue fazendo campanha contra o padre que distribui comida para miseráveis na rua, porque isto “atrapalha os negócios”. Seguem incapazes da compaixão que apenas quem consegue se colocar no lugar do Outro é capaz de ter.

A elite e a classe média seguem com Bolsonaro. Após 600 mil mortos. Após a volta da inflação, após a explosão do número de miseráveis, após a volta do país ao mapa da fome, após a transformação do país em pária mundial. E segue porque Bolsonaro entregou a sua mais importante promessa de campanha, a miséria. Nós da classe média temos a vida bancada pela miséria. E incluo todos nós, mesmo os que não toleram este governo intolerável. É a miséria que garante a vida repleta de privilégios que temos. Todos os nossos privilégios são baratos porque há um verdadeiro exército de miseráveis precisando nos servir em busca da sobrevivência. A faxineira, o pedreiro, o entregador, o motorista. Gente morando em barracos, sem nenhuma proteção social, abandonados, enquanto vamos construindo grandes torres com varandas, piscinas, grades e seguranças privados, estes também em boa parte miseráveis.

O governo Lula transformou o combate à miséria em foco do país. Este combate inflacionou o custo dos privilégios da classe média e da elite. Elas são incapazes de entender a adoração que os mais pobres têm por Lula. O que o ex-presidente fez foi não apenas tirar o Brasil do Mapa da Fome. Isto já é algo gigantesco, a maior conquista que tínhamos tido na nossa história recente. Digo tínhamos tido porque a perdemos. O que ele fez também foi dar a estas pessoas o direito de dizer não. Nada é mais libertário do que dizer não sem temer consequências. Aquelas pessoas que passaram gerações aceitando qualquer trabalho para garantira a sobrevivência tinha agora acesso a uma ajuda governamental que já a garantia. Poderia começar a dizer não para as propostas absurdas que recebia desta elite, acostumada a receber um obrigado ao dar um prato de comida como pagamento para o pedreiro reformar sua casa. A elite e a classe média odeiam receber um não como resposta de alguém abaixo na hierarquia social. Acham que este é um ingrato. E é por isso que elas seguem apoiando o presidente que nos empurra de volta para a miséria. E está disposta a tudo para manter seus miseráveis na miséria. É muito bom voltar a ouvir um “sim, obrigado” depois de 13 anos ouvindo “não, por isso não saio de casa”.

O Outro está na miséria. Passando fome. A elite e a classe média não se importam. Demitem o funcionário para pagar o intercâmbio do filho. “Ele precisa estudar no exterior”. O salário da diarista foi reduzido, sobra mais dinheiro para as próximas férias na Europa. O Outro pode ser torturado. Foda-se o Outro. Bolsonaro criou seu exército. O exército dos “Eus”. Não há nada de “Nós” nele. Nem sempre o plural de “eu” é “nós”. Nós somos os Outros. O único caminho é o conflito. A mobilização. O espaço para conciliação acabou. Pode ser inclusive que já seja tarde demais. Nós, os Outros, estamos esperando a nossa hora. A hora em que o Outro da vez seremos nós. Porque sempre haverá um Outro a ser combatido. Eles vão sempre encontrar este Outro. Ter medo só adia o inadiável. Sempre...