quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O Hino Nacional e o Gênero Neutro

 


Quinta era dia de Hino Nacional na escola onde eu estudava. Todxs xs jovens enfileiradxs de acordo com a turma e o tamanho cantavam a plenos pulmões o “Ouviram do Ipiranga”. Era possivelmente o momento mais chato da semana. Eu era o nerd da turma e ser nerd nos anos 1990 significava ser impopular e disciplinado. Eu seguia todas as regras possíveis da escola católica em que estudava e possivelmente sabia cantar todo o Hino Nacional certinho, coisa que provavelmente não sei mais fazer. Não sei se hoje é assim, uma vez que ser nerd meio que entrou na moda, mas nos anos 1990 o sonho de todx nerd era em algum momento se rebelar. Tinha até um filme que passava na Sessão da Tarde, A Revolta dos Nerds. As escolas naquela época valorizavam muito a decoreba e eu passava muito tempo em casa decorando coisas para ser o melhor aluno da turma. Este é um dos motivos, aliás, para ter tanta gente na minha geração formada, com mestrado e sei lá mais o que, mas que é extremamente burra, tipo o Abraham Weintraub. Deu certo, decorei muita coisa, mas às vezes sobrava tempo para pensar e bastava cinco segundos de reflexão mínima para perceber que aquilo de cantar o hino nacional era uma enorme besteira. Na minha vida de ginásio, houve dois momentos em que tentei me rebelar. Um foi na educação física. Embora eu fosse nerd, eu não era tão ruim assim em educação física, eu era mediano. Algumas vezes, a aula consistia numa corrida em torno da escola. Se não me engano eram dez voltas, os alunos bons as faziam em 8 minutos, eu fazia em 10, os alunos ruins não completavam. O motivo era um ponto cego que havia atrás da quadra. Os alunos ruins davam uma ou duas voltas e depois paravam lá para fazer um piquenique.  Presunto, queijo e guaraná Bacana de abacaxi. Um belo dia resolvi me juntar a eles. Aquela corrida era uma merda, afinal. Preparei-me uma semana para o ato de arrojo. Não dormi à noite. No dia eu estava ansioso e tremia ao olhar para o sanduíche embrulhado em papel laminado que havia preparado para a ocasião. Escondi-o dentro do casaco e comecei a corrida encapotado, mesmo com uma temperatura beirando os trinta graus. Dei uma, duas voltas, na terceira parei. Os alunos que realizavam o piquenique me olharam com cara de surpresa. “O que você quer?”. Respondi tremendo que queria me juntar a eles, com medo de não ser aceito. “Ah, senta aí” foi a resposta de um deles enquanto servia meu copo de guaraná Bacana. Fiquei por cinco minutos que pareceram meia hora. O tempo passa realmente devagar para um nerd cometendo indisciplina. Depois que comi metade do sanduíche voltei a correr. Ao completar a volta, o professor me olhou com cara de desgosto. Nada era pior para um nerd dos anos 1990 do que a cara descontente da autoridade. Alguns não escaparam disto até hoje. Fiz faculdade de economia nos anos 2000 com um grupo de pessoas que eram como eu e elas são assim até hoje. Na corrida seguinte fiz o meu melhor tempo, nove minutos e quarenta e cinco segundos. Foi a única vez que corri abaixo dos dez minutos. A segunda rebelião foi num dia de Hino Nacional. Um grupo de alunxs se escondia na sala de aula na hora do hino e um dia resolvi me juntar a elxs. Sim, aquilo era tão, mas tão chato que xs alunxs ruins IAM para a sala de aula mais cedo para escapar. A impressão que eu tinha é que se houvesse apenas duas opções no mundo, estudar ou cantar o hino, todo mundo ia querer estudar e teríamos a melhor turma do planeta. Fiz uma vez e ninguém percebeu. Era a mesma coisa, presunto, queijo e guaraná Bacana de abacaxi. Fiquei feliz, me senti um cara malvado. Na segunda semana, enquanto traçava um belo sanduíche de mortadela, a casa caiu. A inspetora chegou e acabou com a festa. Como castigo, na semana seguinte eu tive que fazer a coisa mais chata dentre as mais chatas do mundo, ser o aluno que hasteava a bandeira. A escola inteira ficava olhando para você e, mais do que isto, você tinha que cantar realmente o hino certinho. A coordenadora dava olhares feios a cada erro.

Eu acho que sei cantar certinho só a primeira parte do hino nacional, que é a que toca nos jogos de futebol. A partir do “Deitado eternamente em berço esplêndido” eu já não sei mais direito como é. Acho que quase todo mundo é assim, percebi isto no dia em que tive que fui dispensado do exército. Um grande silêncio se fez na hora do “Deitado eternamente em berço esplêndido”. O esporte é o único espaço em que o hino nacional ainda faz algum sentido. Esta história de levar hino, bandeira e o escambau a sério já causou muita tragédia. Eu era fascinado por futebol na infância e na adolescência, isto me levou a estudar hinos nacionais e posso afirmar que, com exceção talvez do hino da Dinamarca, o Brasil tem o pior hino nacional entre os países que disputam competições futebolísticas. O hino da independência é bem mais legal. Eu ainda acho que o Brasil teria ganho a Copa de 1998 se os jogadores cantassem “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” ao invés de “fulguras o Brasil florão da América”. Que porra é fulguras? Eu nunca usei esta palavra na vida e deduzo que quase ninguém a tenha usado também. Hoje em dia, embora eu ache legal xs jogadorxs perfiladxs cantando o hino, mesmo em eventos esportivos acho meio bizarro, não pelxs jogadorxs, mas pela torcida. Lembro-me que assisti a um jogo do Brasil na copa de 2010 na firma e na hora do hino um colega que respeito muito colocou a mão no coração e berrou a plenos pulmões o “Ouviram do Ipiranga”, olhando feio e criticando o desrespeito daquelxs que não faziam o mesmo. Que coisa estranha um marmanjo colocando a mão no peito para cantar. Normalmente quando isto acontece alguma enorme merda se aproxima. Vejamos as manifestações de 2015 e 2016, por exemplo.

A principal razão de detestar o nosso hino nacional é que ele foi feito por uma elite para ser repetido, mas não para ser compreendido. Quase ninguém faz a menor ideia do que está sendo cantado, a composição foi feita pensando quase exclusivamente na forma e não no conteúdo. Fiz um vestibular em que o exercício da prova de português era colocar o hino nacional na ordem direta e isto mostra o quanto ele é errado. Fazendo este exercício fiquei com a impressão de que o hino é daquele jeito exatamente porque se a galera prestar atenção vai ver que é uma porcaria. Ele é como a linguagem do mundo jurídico. Uma elite a criou para que a população ficasse completamente afastada do processo, não a compreendesse e assim ela mantivesse seu poder. Algumas vezes eu assisto processos judiciais nos EUA, por exemplo, e mesmo longe de ter o conhecimento linguístico do inglês que tenho do português, sinto que entendo mais o que é dito lá do que o que é dito aqui. A elite brasileira não se esforça em nada para ser entendida, criou uma espécie de mundo próprio em que a linguagem é usada para a dominação e o hino nacional é de certa forma um símbolo disto. É uma vergonha completa que umx juizx condene uma pessoa sem que esta entenda o que elx está dizendo. E a vergonha é para quem condena e não para o condenado.

Detestar o hino não me faz detestar o Brasil, pelo contrário. O país tem MUITA coisa boa e não podemos nos esquecer disto, por mais difícil que isto seja quando uma coisa como a que temos atualmente nos presidindo chega ao poder com a anuência de 60% da população (contando os que votaram nele e os que votaram nulo). Há algumas coisas no Brasil que são tão boas que às vezes eu até acredito que são resultado de alguma força superior, sei lá. A literatura brasileira entre os anos 1920 e 1960 é uma delas. Drummond, Graciliano, Manuel Bandeira, Clarice, Rachel de Queiroz, Guimarães, João Cabral, entre outrxs, todxs elxs existiram na mesma região do planeta meio que ao mesmo tempo. Acho que, sei lá, em 1950 todxs estavam vivos e produzindo ao mesmo tempo. Acho isto surreal, é tão bom que não dá para acreditar que é verdade. Uma outra pessoa que me faz sentir isto é um cara chamado Herbert Caro. Ele foi o tradutor das obras do Thomas Mann para o português. Judeu alemão, ele fugiu da Alemanha com a ascensão dos nazistas ao poder, aprendeu português e se tornou tradutor. As traduções que ele fez da Montanha Mágica e de Doutor Fausto são surreais. As pessoas que dominam os dois idiomas com as quais já conversei sobre o assunto dizem que ele melhorou o texto original. É maravilhoso. Um terceiro exemplo é o Cartola. Às vezes fico uns seis meses sem escutar Preciso me Encontrar e quando escuto tenho a impressão de que foram os dois minutos mais bonitos da história. Eu sei que a letra não é dele, é do Candeia, mas mesmo assim, puta que pariu, que coisa linda essa músico com ele cantando. O último exemplo é a seleção brasileira feminina de basquete dos anos 1980-90. É realmente inacreditável que Hortência, Paula e Janeth tenham jogado ao mesmo tempo e no mesmo time. Poucas coisas no mundo esportivo são tão bonitas quanto o movimento de arremesso da Hortência. Lembro apenas do controle de bola do Maradona e do movimento de pernas do Ali como coisas tão belas. Uma coisa legal destes exemplos que dei é que provavelmente só a gente sabe ou pode saber que isto existe. Só a gente é capaz de ler e realmente entender Drummond e Bandeira ou de entender o quanto a obra do Cartola é bonita. Claro que todo país tem isto. Mas lembrar disto me torna menos angustiado com relação ao nosso presente. Bolsonaro em algum momento vai para a lata de lixo, como Médici foi. A Rachel de Queiroz vai ficar. Isto me alivia um pouco.

A principal função da linguagem é a comunicação. Entender e ser entendido. A elite, em geral, é extremamente conservadora em relação à linguagem, como é em relação a tudo, porque a linguagem funciona para ela como uma forma de dominação. O que ela chama de “português correto” é aquele que permite que esta relação siga funcionando. É ela que impõe o que chamo de “ditadura da gramática”, em que uma série de regras tenta definir como as pessoas devem se comunicar em determinada língua. Isto funciona em certos ambientes, é óbvio, mas não no cotidiano. O português correto sem aspas é aquele em que todxs xs participantes da conversa são capazes de compreender e participar. Se você é capaz de ser compreendidx por uma pessoa, mas quer falar “bonito” e desta forma é incompreendidx, o problema é você e não a outra pessoa. Por isso não há nada mais errado do que uma sessão do Supremo. Aquilo é o português mais errado possível, porque boa parte dxs envolvidxs não consegue entender um caralho do que é dito. A língua é um ser vivo em eterna transformação e isto é lindo. O pretérito mais que perfeito simples, por exemplo, morreu. Ninguém, à exceção talvez dxs juízxs do Supremo, diz “eu falara”. O certo na realidade é “eu tinha falado”. “Eu tinha falado” está sempre certo, “eu falara” pode até estar certo em situações específicas, mas é provável que esteja errado. Parto do pressuposto que numa conversa informal se algo não é compreendido a culpa é sempre do falante, e não do ouvinte. É apenas uma opinião pessoal. 

Linguagem também é arte e neste caso tudo vale. Para mim, tudo que se propõe a ser arte deve ser encarado como arte. Nenhum argumento é mais escroto do que “isto não é arte”. Podemos falar que tal coisa é boa ou ruim, de acordo com gostos pessoais, mas nunca falar que algo não é arte. Ler Drummond é descobrir algo novo a cada leitura. Já li A Um Hotel em Demolição, meu poema favorito dele, uma quinhentas mil vezes e cada vez que leio percebo algo novo em ritmo, em rima ou em referência. Dxs poetas brasileirxs o que mais me encanta no momento é João Cabral de Melo Neto, porque ele consegue fazer algo que julgo sublime, que é escrever textos profundos de forma simples. Vejam esta coisa linda que se segue:


A educação pela pedra, 1965

Uma educação pela pedra: por lições;

Para aprender da pedra, frequentá-la;

Captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

Ao que flui e a fluir, a ser maleada;

A de poética, sua carnadura concreta;

A de economia, seu adensar-se compacta:

Lições da pedra (de fora para dentro,

Cartilha muda), para quem soletrá-la.

 

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

E se lecionasse, não ensinaria nada;

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

Uma pedra de nascença, entranha a alma.


Olha que coisa linda ! A quantidade de coisas que ele consegue passar usando palavras simples. Pedra, por exemplo, oito vezes nas dezesseis linhas do poema, cada uma com um significado diferente. Nada é mais lindo do que o sublime alcançado pela simplicidade. E nada é mais feio do que o feio alcançado na tentativa de ser complexo. Um hino, afinal, é arte ou comunicação? Pode ser as duas coisas. O hino nacional brasileiro falha nas duas.

Já na linguagem para comunicação, o meu conceito de beleza é diferente. O bonito é aquilo que alcança x ouvintx. Não há nada pior no mundo do que uma pessoa que corrige as outras em conversas informais. Elas são tão chatas quanto o nosso hino nacional. Uma coisa que eu acho maravilhosa que vem acontecendo no português de São Paulo é a morte da conjugação no presente. Você fala, ele fala, nós falamos, vocês falam, eles falam. Todas estas conjugações estão sendo substituídas por “fala”. Você fala, ele fala, nós fala, vocês fala, eles fala. Eu acho lindo como a evolução de uma língua é incontrolável e leva sempre à maior facilidade. A única conjugação que está sobrevivendo no presente é a da primeira pessoa. A gente não pode falar “eu fala”, para todas as outras pessoas isto funciona. Já No pretérito imperfeito a morte da conjugação está acontecendo em todas as pessoas. Eu falava, você falava, ele falava, nós falava, vocês falava, eles falava. E sim, repito, isto é lindo. É lindo porque facilita a comunicação. Isto vai chegar na língua escrita algum dia? Não faço ideia. Provavelmente não. A língua escrita tem a função de conectar pessoas que falam “idiomas diferentes”. Mas é libertário falar nós falava. Porque o “mos” não serve para nada. O “nós” já especifica qual a pessoa que estamos utilizando afinal.

Vivemos numa sociedade opressora em que a linguagem é usada para dominar e está inserida num todo opressor. E parte desta opressão está ligada à ideia dos gêneros. Em português (e em todas as línguas latinas, que eu saiba), o pronome do plural em situações que não sejam exclusivamente femininas é o masculino. Como disse Paulo Freire, se numa sala tivermos 100 pessoas, sendo 99 mulheres e 1 homem, usaremos o pronome masculino “eles”. Isto quer dizer algo? Sim, quer ! Pelo simples motivo de que tudo quer dizer algo. Por que usamos o termo “denegrir” como ofensa? Porque somos uma sociedade racista e a língua reflete o nosso racismo. A luta contra o racismo pede sim mudanças na língua. Sociedades se transformam e línguas não são dados fixos. Elas não apenas podem como devem seguir transformações sociais. O “o” e o “a” podem não mais serem capazes de atender todas as necessidades sociais e faz todo sentido imaginar que surja um “e” ou um “x”. E mais do que isto, se isto ocorrer, é função da pessoa que fala se adequar ao desejo da pessoa que não mais se reconhece como “o” ou “a”. Uma pessoa tem o direito de escolher qual artigo a define. As mudanças na língua acontecem não apenas para facilitar, mas também para incluir e para libertar. O gênero neutro é uma libertação. Se a pessoa que ser “x”, chame-a de “x”. O nome disto é educação. Todos temos um papel na sociedade de opressores e oprimidos. Cabe a quem herda os privilégios de séculos de opressão ouvir e se adequar as demandas dos oprimidos. E não reclame de como isto será difícil. Perceba o quanto para você tudo é mais fácil. É assim que criaremos uma sociedade melhor. Vida longa ao X.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A capa da Isto É e a sociedade psicopata

 


Em 28/10/2018 um psicopata foi eleito presidente do Brasil. Já tivemos outros psicopatas ocupando este cargo em nossa história, Médici talvez seja o principal exemplo. Mas nunca havíamos tido um psicopata chegando ao poder através do voto popular, com a chancela da maior parte da população. Aproximadamente 60% da população votou no psicopata ou então anulou o voto. Mais do que ser psicopata, Bolsonaro chegou ao poder com uma trajetória e uma campanha psicopatas. Até aquele momento, nossa sociedade tinha eleito apenas seres humanos sem esta patologia, com qualidades e defeitos, para o cargo mais alto da nação. Todos somos assim, afinal. Alardeamos nossas qualidades e tentamos esconder nossos defeitos. Políticos são como nós. Bolsonaro foi o primeiro a, sem ter qualidades para apresentar, converteu o que qualquer sociedade não psicopata considera ser defeitos inaceitáveis em qualidades. Não, Bolsonaro não tem qualidades de verdade. Nem mesmo aquelas qualidades de classe média, tipo ser “trabalhador, bom pai e bom marido”. Ele é um vagabundo, criou filhos vagabundos e já afirmou em entrevista que tinha um apartamento em Brasília exclusivamente para “comer mulher”. Em sua campanha presidencial, Bolsonaro fez o que havia feito a vida toda como deputado: prometeu metralhar a oposição, destruir reservas indígenas, exaltou torturadores, foi machista, racista, homofóbico. Apresentou uma visão de mundo paranoica, prometeu tirar o Brasil da ONU e do Mercosul, criou uma rede de notícias falsas que transformou a vida de seus adversários num inferno. Não há justificativa para o voto em Bolsonaro. Sim, houve diversos casos de corrupção no governo petista, não vou entrar no mérito da veracidade ou não das acusações. Mesmo que a pessoa assumisse que Haddad, Alckmin, Ciro e os outros fossem corruptos, entre um corrupto e um psicopata qualquer pessoa que não tenha perdido a humanidade vota no corrupto. “Ah, mas Bolsonaro se aliou a projetos econômicos liberais e eu defendo privatização, votei no Paulo Guedes !”. Não importa, entre um psicopata e um não-psicopata, o voto deve ser no não-psicopata. Sempre que há uma eleição, o que uma sociedade razoável faz é separar psicopatas de não-psicopatas, excluindo-se inicialmente a possibilidade de voto nos psicopatas, analisando a partir daí as propostas dos não-psicopatas. Um pouco mais de dois anos depois, principalmente após a pandemia, vemos o fenômeno do arrependimento de uma parte das pessoas que votaram no psicopata. O psicopata, afinal, agiu neste período de pandemia como um psicopata. Uma parcela das população não se importava com a psicopatia do psicopata quando a vítima eram os “outros”. Negros, pobres, índios, movimentos sociais, enquanto estas eram as vítimas, não importava. Temos diversos monumentos espalhados por SP que homenageiam assassinos de índios pela cidade, mas isto não incomoda a sociedade. Os arrependidos começaram a se importar quando viram que eles também não importavam para o psicopata. Ele não se importa também com a sua mãe de 70 anos ou com o seu avô de 90 anos. “Todos temos que morrer”, disse o psicopata. Ele vai pescar, tira férias e promove aglomerações enquanto vivemos a maior tragédia da nossa geração. De repente, uma parcela da população aliada ao psicopata descobriu que do mesmo jeito que a economia importa mais do que a vida do indígena, do negro, do operário, do camponês, ela também importa mais do que a vida do parente idoso e doente. A economia não pode parar, mas seu parente pode morrer. As lojas não vão fechar porque sua mãe pode morrer. As pessoas continuam querendo ir para a balada mesmo com 200 mil mortos na pandemia, com o incentivo do presidente. “Temos que entender que a vida não tem valor infinito”, disse certa vez Nelson Teich, um dos ex-ministros da Saúde durante este caos. Para eles não importa. Realmente não importa.

Antes do triunfo do psicopata nas urnas em 2018, tivemos o triunfo de um psicopata nas telonas dos cinemas nacionais em 2007. A sociedade vibrou com o Capitão Nascimento. Víamos em tela grande um homem branco vestindo farda botando terror na “bandidagem”. Nascimento torturava, mentia, matava, mas foi visto pela sociedade como o herói. Não revi o filme para este texto, mas acredito que todas as suas vítimas eram negras e pobres. Nenhuma delas tinha chance de defesa ou direito a um julgamento justo. A nenhuma delas era dada oportunidade de recuperação. Nascimento chegava e matava. Duas cenas ficam na memória. Na primeira, Nascimento e sua gangue invadem a casa de uma pessoa de forma ilegal, começam a revirar sua casa e encontram um par de tênis caro. Mesmo sem nunca ter conversado com o investigado, sem saber o que ele fazia e quem ele era, isto já é suficiente para que Nascimento deduza que ele é “bandido”. O mesmo que acontece com os diversos relatos de pessoas negras que foram abordadas por policiais na rua que desconfiaram porque ela estava em um carro. Festa no cinema da classe média. “Como Nascimento é esperto”. Na cena seguinte, o “bandido” é levado para um canto, Nascimento e sua gangue colocam um saco em sua cabeça e vemos as veias do nariz do negro pobre e favelado explodindo na tela grande. Nascimento consegue desta forma a informação que precisava e larga o jovem torturado em qualquer canto. Como se abandona um saco de lixo. Nascimento não enxerga naquela pessoa um ser humano. No enredo do filme, Nascimento quer procurar uma nova pessoa para substituí-lo no cargo de psicopata-mor no BOPE. O escolhido é o jovem Matias, mas antes Nascimento precisa realizar o processo de desumanizá-lo. É isto que passamos duas horas vendo na tela. Na cena seguinte à descrita anteriormente, Nascimento e Matias encontram o traficante graças à informação do jovem torturado e o encurralam. Com a arma de Matias apontada para sua cabeça, o traficante pede ao policial que ele não atire na cabeça, “para não estragar o enterro”. O filme acaba com Matias atirando na cabeça. O processo de desumanização de Matias termina. O processo de desumanização do público segue. Nascimento é o "herói". Abre-se espaço para o surgimento de um “Nascimento da vida real”.

No mesmo ano de 2007, em outubro, o apresentador Luciano Huck foi assaltado em SP. Os assaltantes levaram seu relógio de R$ 48 mil. Eis o que escreveu o apresentador em sua coluna no jornal Folha de São Paulo no dia seguinte: "Onde está a polícia? Onde está a 'Elite da tropa'? Quem sabe até a 'Tropa de elite'! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade". Nascimento era a solução. Segundo o global, ele recuperaria o relógio. Isto é, segundo ele, “discutir segurança pública de verdade”. Como Nascimento o recuperaria? Todos sabem, enfiaria um saco de plástico na cabeça do assaltante ou simplesmente daria um tiro na sua cabeça. Huck estava disposto a ver algumas pessoas morrerem para poder andar em “paz”. A vida dos assaltantes valia menos que este relógio. É óbvio que os assaltantes deveriam ser presos pelo roubo cometido, mas não era exatamente isto que Huck queria ao clamar por Nascimento. Não lembro se Nascimento realiza alguma prisão no filme, aliás. Se em 2007 Huck pedia que um psicopata matasse o ladrão de seu relógio, em 2018 apoiou o psicopata-candidato no segundo turno. Viu no homem que exaltava torturadores a chance de “ressignificar a política”. Bom, a política foi ressignificada.

Em dezembro de 2019, a revista Isto É elegeu o governador João Doria Jr como brasileiro do ano na política. Na semana anterior ao prêmio, a polícia militar chefiada por Doria havia matado nove jovens negros durante um baile funk na favela de Paraisópolis. Doria foi eleito governador em 2018 surfando na onda da psicopatia. Tendo uma gestão mal avaliada na capital, onde era prefeito, ele se transformou durante a campanha numa versão Daslu do psicopata que liderava a corrida presidencial. Chamou seu adversário, que foi vice do governo do seu padrinho político, de comunista, disse que este iria transformar SP na “Venezuela” e que em seu governo a polícia mandaria os bandidos para o cemitério. Prometeu autorizar policiais a atirarem para matar, na cabeça. Disse também que pagaria de seu próprio bolso os melhores advogados para defender policiais que fossem processados por crimes cometidos enquanto “trabalhassem”. Os policiais de Paraisópolis acreditaram na promessa. Não sei se Doria cumpriu a promessa de pagar os melhores advogados aos policiais, só sei que um ano após o massacre nenhum deles foi punido. Assim falou João Doria Jr na entrega do prêmio: ““Queria começar homenageando os familiares das nove pessoas que faleceram nessa tragédia em Paraisópolis e também a minha solidariedade aos amigos e familiares como governador de São Paulo. Iremos apurar tudo o que aconteceu para que não haja impunidade”. Um ano depois, Doria se recusou a receber um grupo de familiares que o procurou para cobrar punição aos envolvidos no crime.

A mesma Isto É havia criado o prêmio de juiz do ano em 2017. O premiado foi Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça do psicopata. Disse ele na premiação: ““Em 2018, devemos rever em quem vamos votar. Isso será um ponto decisivo na mudança do nosso País”. Assim como Huck, Moro queria ressignificar a política. Para dar uma forcinha neste processo de “ressignificação”, prendeu o candidato que liderava a corrida eleitoral e que representava o maior risco à eleição do psicopata. No segundo turno da eleição, tornou pública uma série de delações sem provas com acusações contra o adversário do psicopata, delações que viriam a ser consideradas falsas posteriormente. Nesta época, disse o atual ministro da Economia, Moro já havia se encontrado com o psicopata e combinado com ele que assumiria o ministério da Justiça do novo governo, cuja eleição já era dada como certa. Como ministro, Moro se desentendeu com o psicopata quando este não quis deixá-lo escolher o chefe da Polícia Federal. Exaltação à tortura, racismo, homofobia, machismo, ameaças físicas a opositores, nada disso incomodou Moro. O que o incomodou foi não poder escolher o chefe da Polícia Federal. Como último ato em sua atuação como ministro, Moro trabalhou para que presos com pouco periculosidade ou com problemas de saúde tivessem direito à prisão preventiva durante a pandemia. A solução apresentada pelo ex-ministro era o aluguel de containers para colocar estes presos caso eles ficassem doentes.  

Doria, Moro, Huck. Todos eles agora querem criar uma frente ampla para enfrentar o psicopata que puseram no poder em 2022. A Isto É desta semana traz na capa uma foto em que Capitão Nascimento segura o colarinho de Bolsonaro e grita “pede pra sair!”. O “político do ano”, o “juiz do ano”, o “apresentador de TV do ano”. Todos juntos com o “herói” fictício tão real na nossa tragédia diária. Uma ressignificação da ressignificação. Sem abandonar o componente principal desta loucura que vivemos, a psicopatia.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O prédio do Jaguaré

 


A sexta-feira que antecedia o Natal era dia de festa no prédio do Jaguaré. Aquele dia começava a ser o assunto do mundo em que eu fazia parte na empresa pelo menos um mês antes. Eu trabalhava em compras e fornecedores nos enchiam de bebidas como brinde de fim de ano, numa relação que hoje considero um tanto quanto estranha. Eles adoravam nos dar uísques, que eu basicamente acho a pior bebida do mundo. Acho meio de mau gosto, provavelmente por causa de um tio viciado em bingo que eu tinha quando era criança. A imagem dele com um copo de uísque e um cigarro na mão enquanto esperava o número 32 ficou sempre associada a esta bebida para mim. Boa parte dos fornecedores lembrava este meu tio, aliás. Homens de classe média de terno, barrigudos e falando merda. Pareciam tão inofensivos à época. Era extremamente libertário poder encher a cara uma vez por ano no ambiente repressor de trabalho.

A festa da Editora era extremamente tosca. Eu trabalhava no setor editorial e ele está em crise pelo menos desde 2005, o que significava que nunca havia dinheiro para gastar nesta festa. Na verdade o evento ainda existia apenas porque o diretor geral da empresa era um péssimo DJ e tinha nesta festa um dos poucos eventos em que podia obrigar pessoas a escutá-lo. Sua seleção de músicas era tudo que havia de pior. Tenho pavor de gente que gosta de Jota Quest. A alimentação da festa lembrava uma festa de criança de 7 anos. Carne louca e cachorro quente na bisnaguinha. A cerveja era a que tinha sobrado de uma outra festa que a Editora organizava em outubro para celebrar uma revista de celebridades. Normalmente alguma marca ruim patrocinava o evento, isto quer dizer que tínhamos Bavaria e 1808 chocas animando a noite. Como tínhamos todo aquele arsenal de bebida dado pelos fornecedores, conseguíamos escapar da sobra de outubro. E naquele dia tínhamos muito síndrome do pequeno poder. Éramos todos fodidos de um departamento completamente negligenciado pela empresa, mas naquele dia tínhamos as bebidas no porta-malas. “Só vamos dividir com quem é gente fina com a gente”, pensávamos nós enquanto andávamos poderosos pelos corredores da firma.

A festa tinha dois momentos. O primeiro começava às 19 horas. Era o momento da obrigação. Espero que a descrição inicial tenha mostrado o quão tosca a festa era. Isto significava que a parte mais chique da empresa odiava o evento e não via a hora de ir embora. Gerentes, diretores, publicitários, jornalistas, todos odiavam aquela palhaçada. Mas tinham que ficar para serem vistos pelo chefe mais próximo e pelo diretor-geral DJ. Ele fazia um discurso anual que deveria acontecer às 20.30, mas que atrasava pelo menos uma hora. Este discurso era uma coisa surreal que já de certa forma previa o que seria o Brasil a partir de 2016. Todo ano começava com a frase “Boa noite, primeiramente peço desculpas pelo atraso” e a isto se seguia uma série de paranoias, mentiras e autobajulação. A empresa tinha, mais uma vez, calado todos os críticos que queriam vê-la no chão, iria valorizar os funcionários no ano seguinte e era um ótimo lugar para trabalhar. Ninguém queria derrubar a empresa, janeiro teria corte e todo mundo estava meio deprimido, mas mesmo assim cada palavrão e xingamento causava júbilo na elite da empresa, formada, como já dito, por gerentes, diretores, publicitários e jornalistas. Ao fim do discurso, seguia-se o DJ, mas isto era demais até para esta elite. A obrigação já estava cumprida, agora era hora de ir para casa ou aproveitar a noite para encontrar o/a amante. Na frente da editora tinha um motel que bombava nesta noite.

Para nós que ficávamos, a noite começava neste momento. Já estávamos alegres, mas a partir de agora ninguém é de ninguém. A moça do planejamento vai sair carregada, o rapaz do jurídico vai vomitar, o casal de jovens aprendizes vai se pegar no sofá. Era libertário. A isto se seguiam os outros 364 dias do ano...

Eu entrei pela primeira vez no prédio do Jaguaré aos 20 anos, no longínquo ano de 2004. O prédio era extremamente diferente dos locais em que eu fazia entrevistas de estágio. Na época fui direto para o processo de seleção que era num galpão caindo aos pedaços depois do estacionamento. Devia ter umas 300 pessoas naquele dia disputando umas 15 vagas de estágio. Seria o meu primeiro contato com o que há de pior no mundo, o departamento de RH. Sairia deste prédio apenas em 2015.

Por 11 anos, este prédio foi um dos centros da minha vida. Foi provavelmente o lugar que mais frequentei na vida depois das minhas casas. A beleza das festas da Editora é que elas conseguiam ser tão toscas quanto o prédio. Era tudo tosco e meio caindo aos pedaços. Quando entrávamos no prédio a primeira coisa que víamos era a entrada e de cara já tínhamos um galpão abandonado convertido em estacionamento. À direita tínhamos o restaurante e a lanchonete, à esquerda o prédio principal e ao fundo diversos galpões, alguns abandonados, outros convertidos em centros de treinamento e convenção, num deles aconteciam as festas. No meio deles, vários outros estacionamentos. A principal característica da empresa era a verticalização. Era uma empresa extremamente hierarquizada. Gerentes e diretores tinham direito a um estacionamento coberto (volta e meia caia uma telha lá, aliás), o resto da empresa guerreava por uma vaguinha mais perto do prédio. O coordenador promovido a gerente ganhava um adesivo novo no carro, dando a ele acesso a este novo estacionamento. Foda-se que era uma porra de um galpão abandonado que podia cair a qualquer momento, já era o suficiente para diferenciá-lo do restante. Havia, além disso, uma vaga de estacionamento que era a hiper especial, a do diretor-geral DJ. Ele era o único que podia parar o carro dentro do subsolo e tinha, pasmem, um elevador exclusivo. Dos quatro elevadores do prédio, um parava exclusivamente no subsolo e no último andar, porque o diretor-geral não queria correr o risco de encontrar nos outros 364 dias do ano o seu público da festa de fim de ano. Este elevador era liberado para o térreo quando algum político importante vinha visitá-lo. Lembro-me de Marta Suplicy e Sérgio Cabral visitando a editora e tendo a honra de pegar este elevador. Diz a lenda que era um elevador maior aliás, mas isto não posso confirmar. Li uma vez em algum lugar que empresas em que o diretor-geral costuma ficar no último andar são uma merda, são locais em que este costuma se enxergar como um “Deus” que está acima de tudo controlando. Faz sentido.

O transporte público era bastante escasso. O que nos restava era a estação de trem separada do prédio por uma ponte, que era tipo o lugar mais perigoso do mundo. Não há uma pessoa que fizesse aquele caminho que não tenha sido assaltada ao menos uma vez. Para escapar disso, tínhamos que pegar um ônibus para atravessar a ponte. Basicamente pagávamos uma passagem para descer no ponto seguinte. Uma destas pessoas assaltadas foi esta que escreve. Levaram o rádio da motorola que a empresa havia fornecido aos funcionários e por isso tive que abrir um BO. Chegando na delegacia mais próxima, o delegado disse que eu tinha que abrir o BO na delegacia mais perto da minha casa. Isto era uma sexta à noite. No sábado tentei ir na delegacia da Santa Cecília, mas BO eles só abriam de segunda. Na segunda lá fui eu. No caminho de ida, vi um carro sendo roubado na frente da delegacia. Lá chegando, quando passei meu endereço, o delegado disse que eu deveria abrir o BO na delegacia da Sé, que era mais próxima do meu endereço do que a da Santa Cecília. Na delegacia da Sé, por sua vez, o delegado me perguntou onde tinha sido o assalto. Eu respondi que foi na Ponte do Jaguaré e ele me disse que então eu deveria abrir o BO lá. Eu repliquei que o delegado de lá havia me dito na sexta que eu deveria abrir o BO na delegacia mais próxima da minha casa. “Ele disse isto porque é um filho da puta”, disse o delegado da Sé. Voltando para a delegacia do Jaguaré, encontrei um plantonista que aceitou fazer o meu BO, após o seguinte diálogo:

- Onde você foi assaltado?

- Na ponte do Jaguaré.

- Puta, lá é foda. Não sei por que vocês insistem em atravessar aquela porra a pé.

- É foda mesmo...

- Quando foi o assalto?

- Na sexta.

- E porque você não fez o BO na sexta, caralho?

Não havia nada na região do prédio do Jaguaré. Tudo que havia era o motel que bombava na sexta que antecedia o Natal e uma churrascaria, que era o único lugar em que era possível fazer uma confraternização entre colegas e onde os fornecedores nos levavam para almoçar. Ìamos tanto lá que conhecíamos a personalidade dos garçons. O cara que cortava a picanha era mal humorado. Uma certa vez não quis me servir carne porque eu ainda tinha um pedaço no prato. No dia fiquei contrariado, mas hoje com a sabedoria que a distância do tempo dá, percebo que ele estava certo. Nós adorávamos o cara que servia carne de cordeiro. Ele era tão bonzinho que dava vontade de pedir a carne de cordeiro só por causa dele. Mas ao mesmo tempo, aprendemos depois que a pior coisa do mundo era pedir este cordeiro, porque ele começaria a aparecer a cada cinco minutos oferecendo a carne.

Em 2015 saímos do prédio do Jaguaré. A negociação pela renovação do aluguel ia bem, até o momento em que por algum motivo o ego do diretor-geral foi ferido. Mudamos para o Itaim. Uma nova realidade nos esperava. Bares de cerveja artesanal, restaurantes com comidas naturais etc. A maluquice em que entrou o Brasil a partir daquele ano, porém, logo me fez começar a ter saudade do isolamento no Jaguaré. Ter que ir todo dia para o Itaim naquela época era saber que o pior estava por vir. Lembro-me de uma época em que não podíamos usar vermelho para ir trabalhar porque corríamos risco de ser xingados. E isto é sério, aconteceu mesmo. O dia em que Sérgio Moro liberou as conversas grampeadas ilegalmente de Dilma e Lula foi o mais bizarro. Eu estava na rua indo encontrar uns amigos neste dia. De repente, do nada, um monte de homem branco e velho começa a sair na varanda de casa e a gritar com camisas e bandeiras do Brasil. Entro num bar para ver o que aconteceu e vejo um plantão da Globo ao vivo com o palácio do planalto cercado por gente branca com ódio. Ainda não tinha ouvido as conversas, mas naquele dia pensei: “fodeu”. Encontrei em seguida um futuro ex-amigo animado e revoltado com a novidade.

- Acho que o Lula se fodeu, hahahaha, disse ele.

- Você já ouviu as conversas?

- Já sim, vou te mandar.

Após ouvir, eu disse:

- Não tem nada nesta porra.

- Eu também achei que não.

- Então por que você tá tão feliz?

- Porque ninguém tá percebendo que não tem nada e o Lula vai se foder hahahahaha

Ele estava certo. Não só Lula se fodeu. Moro continuou atropelando a lei, prendeu Lula ajudou a eleger um capitão fascista, virou ministro dele e hoje temos 200.000 mortos na pandemia.

O prédio do Jaguaré representa na minha vida tudo que é anterior a isto. O prédio do Jaguaré é o Brasil do metalúrgico e da guerrilheira que focavam na distribuição de renda. O prédio do Itaim é o Brasil do cinismo. O prédio do Jaguaré é o local em que muitos jovens de Osasco tiveram sua primeira oportunidade profissional. O prédio do Itaim é este Brasil sendo descontruído, mas se achando mais chique. A Editora entrou na merda após a mudança. Revistas foram fechadas, funcionários demitidos, tudo deu errado. Mas com mais glamour.

Entrei no prédio do Jaguaré aos 20 anos. Saí de lá aos 31. Muita coisa aconteceu na minha vida tendo lá como pano de fundo. Me formei, me apaixonei, fiz merda, algumas consertei, outras não, vivi. A maior parte das pessoas do meu mundo atual conheci no prédio do Jaguaré. Há algumas semanas um amigo passou lá e o prédio está basicamente abandonado. Ninguém quis o ponto após a saída da Editora e o prédio que foi por onze anos um dos centros da minha vida é hoje um episódio de “A Terra sem Ninguém”. Simboliza uma parte da minha vida que se foi. Aquele prédio das festas de fim de ano. Saudades das bisnaguinhas de cachorro quente e das Bavarias. Saudade do país do metalúrgico. Podia até ser meio tosco e ter defeitos. Mas funcionava do seu jeito.