terça-feira, 14 de agosto de 2018

Digressões sobre o Tinder, o churrasco e uma sociedade escrota


Ingressei no Tinder um tempo depois de terminar um namoro e descobrir que não tinha o menor pique para a típica vida de solteiro novamente. Balada se tornou algo muito próximo do insuportável para mim. Pessoalmente, não posso negar que o aplicativo seja muito bom para conhecer gente legal, afinal é muito bom conversar com uma pessoa antes de sair com ela. Dá pra pelo menos saber que você não está saindo com uma pessoa idiota e, bom, pelo menos um gostou da aparência do outro. Para alguém tímido, isto é realmente fundamental. O Tinder é também, porém, um interessante instrumento para análises sociais.
No Tinder somos todos tratados como mercadoria. Desde o momento em que ingressamos. O mecanismo de gostei ou não gostei vem com um v verde para gostei e um x vermelho para não gostei. As fotos vão aparecendo em sequência e você “guarda” as pessoas das quais a aparência gostou e simplesmente descarta aquelas que não gostou. Com um X ou com um deslize do dedo para a esquerda. Como uma vassoura, você varre pessoas da sua vida baseando-se basicamente na aparência delas.
A escolha das suas fotos é o primeiro e mais fundamental passo nestes aplicativos. É o momento em que você vende o seu produto. “Queiram me conhecer”, é o que cada foto diz. Nelas você mostra não apenas o que gosta de si mesmo, mas o que quer que a outra pessoa também goste. A primeira coisa que percebi pelo Tinder é que as pessoas gostam de mostrar viagens. Creio que as paisagens mais frequentemente vistas no aplicativo são a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade. Viagens mostram alguma independência financeira e um suposto conhecimento do mundo. “Venha me conhecer, eu tô bem de grana e tenho cultura”. Fotos brincando na neve são muito comuns também. Nem sempre representam isto, claro, mas é o que tentam representar. Sociedade das aparências afinal. Outro tipo de foto frequente é a com animais dopados, especialmente no zoológico de Buenos Aires. Pessoalmente acho esta foto clássica de extremo mau gosto, mas acho que de certa forma as pessoas querem mostrar que são “destemidas”. Assim como nas fotos pulando de paraquedas. Tentativa de se mostrar uma pessoa aventureira. Muitas fotos de pessoas correndo e felizes. “Sou saudável”. Por último, uma foto muito frequente da minha experiência nestes aplicativos é a de pessoas numa festa tomando vinho. “Gosto de curtir a vida”, esta foto quer dizer.
Quando você entra no Tinder, as primeiras informações que você põe são idade e profissão. Não lembro se é no Tinder, no Happn ou nos dois, mas lembro que pelo menos no Happn a profissão é a única coisa que aparece junto com sua foto. Eu, por exemplo, sou o João economista. Nossa sociedade é vazia e na maioria das vezes a única coisa que temos realmente a apresentar é o nosso trabalho. Somos o que fazemos e queremos logo de cara saber o que a outra pessoa faz. O Brasil é um país hierárquico e escroto, muito raramente as pessoas querem muito contato com gente que não tenha um “emprego legal”. Pelo menos aquelas que usam estes aplicativos. Caso você tenha interesse, na hora que você clica na foto da pessoa pode ser que tenha uma pequena biografia escrita por ela. A minha, por exemplo, estava em branco. Mas lê-las era interessante, as pessoas muitas vezes escreviam o que gostam e o que não gostam de fazer. Entre mulheres, por exemplo, pude concluir que o fumo se tornou uma atividade muito impopular. As duas coisas que mais me impressionavam pela frequência, porém, eram: “Dê um X se você for casado” (maior frequência) e “Não me mande fotos de pau” (menor frequência).
Curioso sobre o assunto, fui conversar com uma amiga minha que usa estes aplicativos para tentar entender também como é o perfil dos homens que aparecem para ela na rede. Concordamos que eu passaria uma tarde vendo as fotos e dando X depois de ler as biografias. Ela ficou do meu lado, porque não queria que eu desperdiçasse “algum gatinho” que aparecesse. A primeira pergunta que fiz foi sobre essa questão de aparecer muito homem casado. Ela respondeu apenas que “sim”. Sobre a questão das fotos de paus, ela foi mais incisiva. “Siiiiim. É uma verdadeira epidemia masculina. Vocês homens realmente deveriam conversar entre si sobre isso”.
Pude ver que há muitas semelhanças e algumas diferenças entre a forma como homens e mulheres se vendem nestes aplicativos. Torre Eiffel, Estátua da Liberdade, neve, fotos correndo e bebidas fazem parte do cardápio. Duas diferenças, porém, chamaram a minha atenção. Uma era esperada. Homens adoram colocar fotos de carros, especialmente no salão do automóvel. Tentei refletir sobre o motivo de homens acharem sensual estarem ao lado de um veículo que claramente não é deles e nunca será. A única resposta possível que achei é que isto pode demonstrar “ambição”. Algo do tipo “quero ter este carro e dedicarei minha vida a isto. Venha comigo nesta jornada”. A segunda diferença, porém, eu não imaginava que existia. Homens adoram colocar fotos participando ou organizando churrascos.
Perguntei à minha amiga se era sempre assim e ela disse que nunca tinha reparado nisso. Louco por reflexões inúteis, pus-me a pensar sobre o significado do churrasco naquelas fotos. O enigma começou a ser desfeito na minha cabeça no último sábado. Estava num aniversário, sentado meio num canto com uma cerveja, quando numa conversa da qual eu não fazia parte ouvi um homem gay dizer: “Não sei porque homem hétero gosta tanto de churrasco”. Mais tarde, conversando com outra pessoa, descobri que aquele homem tinha organizado um churrasco na final da Copa do Mundo e disse, após o evento, que a partir daquele dia todas as suas festas teriam o formato de churrasco. Segundo ele, sempre aparece um homem hétero no evento que se propõe a cuidar da churrasqueira, permitindo a ele curtir a própria festa.
Numa conversa com um ex-chefe (o mesmo que citei no texto anterior aliás), lembro-me de uma conversa que tivemos sobre investimentos. Eu sou o “João economista”, mas pouca gente sabe que eu sou possivelmente o pior economista do mundo e com alguma frequência me procuram para pedir dicas sobre este assunto. Ele havia acabado de terminar as prestações de um apartamento. Viciado em dívidas, porém, estava querendo usar o apartamento recém-pago para dar entrada em outro, com o dobro do preço. O principal motivo apontado pelo ex-chefe é que ele queria ter uma varanda gourmet com churrasqueira, para ter um espaço para chamar uns amigos e “assar uma carne”. Respondi falando que ele deveria tirar um mês de férias e torrar uma grana numa viagem muito foda com a esposa. Acho que ele não me ouviu.
Pensando nas minhas experiências de churrasco, lembrei-me de um que a minha mãe organizou no quintal quando eu era criança. Um tio meu compareceu e houve um debate entre ele e minha mãe sobre quem deveria conduzir a churrasqueira. Meu tio venceu com o seguinte argumento “Gina, eu tenho mais de 30 anos de experiência com churrasco”. Eu acho que não sei fazer churrasco. Nunca organizei um. Acho que deve ser basicamente jogar fogo num carvão e deixar a carne temperada lá. Mas deve ter mais coisas. Lembrei-me também de uma vez que disse numa mesa de amigos que eu nunca tinha feito um churrasco na vida. Um deles me chamou de filhinho de mamãe por isso. Foi com esta lembrança que de alguma forma consegui começar a resolver a charada na minha cabeça.
Sou realmente filhinho de mamãe. Fui uma pessoa que nunca fez nada na infância e na adolescência. E meu amigo descobriu isto apenas porque eu disse que nunca tinha organizado um churrasco na vida. Ele basicamente descreveu 18 anos da minha vida com esta informação. Talvez seja isto que homens queiram dizer com esta foto. “Sou tão independente que sei fazer um churrasco”. Talvez falte isto para minha existência, ser capaz de assar uma carne.
O Tinder foi aos poucos perdendo espaço para o Happn. O motivo é que as pessoas mais ricas, bonitas etc. não estavam gostando da popularização do aplicativo. Muitas pessoas que não tinham ido para a Torre Eiffel ou para a Estátua da Liberdade começaram a aparecer e gerou um incômodo. Descartar com um X não era mais suficiente, era necessário criar outro aplicativo em que estas pessoas não estivessem. Desta forma, surgiu o Happn. Mais ou menos como Orkut e Facebook. Mais ou menos como educação, saúde e aposentadoria, aliás. A educação pública era boa. Mais pessoas começaram a ter acesso. Pessoas ricas e de classe média começaram a tirar seus filhos da escola pública e as colocaram nas privadas. Sem interesse governamental, a escola pública degringolou. A saúde pública era boa. Mais pessoas começaram a ter acesso. Pessoas ricas e de classe média começaram a pagar planos de saúde para não ter que usar o mesmo espaço do povão. Sem interesse governamental, a saúde pública degringolou. Agora é a vez da aposentadoria. Os bancos, grandes financiadores das campanhas eleitorais junto com as empreiteiras, já estão lucrando horrores com a corrida da classe média para a previdência privada. Contam com o apoio da grande mídia, que tem nestes bancos seus principais apoiadores publicitários. É tudo uma roda de escrotidão. Do assunto mais sério ao assunto mais banal, como o Tinder. Nossa sociedade gosta de exclusividade, status e aparência. E também de churrasco.

domingo, 12 de agosto de 2018

Reflexões de uma vida medíocre



Decidi que não farei revisão neste texto. Peço já antecipadamente desculpas pelos erros de português. Não sei exatamente em qual momento da história a palavra medíocre ganhou a conotação negativa que possui hoje. Por puro achismo, acredito que tenha sido a partir dos séculos 18 e 19 e com o desenvolvimento do capitalismo. Acho que foi neste momento que a ideia de ser o melhor em algo passou a embutir algum mérito. Até este momento, seu destino estava basicamente traçado a partir do momento em que você nasceu. Não que seja muito diferente hoje em dia, mas pelo menos há alguma chance de mudança de status. O certo é que em algum momento da história ser mediano passou a ser algo ruim. Os dois personagens principais de dois dos mais importantes livros do século 19 estão em eterna luta contra a própria mediocridade. Julien de Sorel em O Vermelho e o Negro e Rodion Raskolnikov em Crime e Castigo têm em comum a obsessão por Napoleão, o homem do povo capaz de feitos incríveis e buscam, através de atos extremos, igualarem-se ao líder francês e escapar da mediocridade.
Considero-me uma pessoa medíocre, no que se refere à raiz média da palavra. Mas cada hora uso o termo com uma conotação. Vivo em ambientes compostos por pessoas medíocres. Conheço muito pouca gente que é realmente boa em algo e que ao mesmo tempo tenha alguma importância social. Quase todos que conheço nesta condição são médicos e professores, possivelmente duas das atividades mais importantes em nossa sociedade. Não tenho a honra de conhecer pessoas de outras profissões que realmente admiro muito e sem as quais nossa vida entraria em rápido colapso. Garis e bombeiros, por exemplo. Não sei o nome de nenhum dos bombeiros que tentou salvar vidas no prédio que desabou no Paissandú. A característica mais importante da mediocridade é a incapacidade de reconhecer os verdadeiros heróis.
Sou economista e quase todos os meus colegas de profissão são medíocres. Tenho amizade com vários e admiração apenas por dois, que nem meus amigos são. A principal característica da minha profissão é tentar colocar tudo em números e, a partir deles, julgar se as coisas estão melhorando. O PIB brasileiro cresceu 1% no último ano, logo estamos melhorando. O número de jovens abandonando as faculdades aumentou, mas estamos melhorando. A mortalidade infantil aumentou, mas estamos melhorando. Meio milhão de pessoas está presa sem julgamento por crimes muitas vezes ridículos, mas estamos melhorando. Li outro dia que brasileiros ricos estão desencanando do Brasil e se mudando para Portugal. Isto está criando uma nova necessidade entre os arquitetos portugueses, que é o desenho de prédios com elevador de serviço, uma vez que brasileiros ricos não se sentem bem dividindo o elevador com pessoas de um nível abaixo. É a exportação de mediocridade.
Trabalhei por doze anos numa editora de grande porte. Durante dez anos ficamos num mesmo prédio, que tinha quatro elevadores. Um era de serviço, dois eram para os funcionários e um quarto era exclusivo para o diretor geral da empresa. Ele só era acessível no subsolo e no sétimo andar, onde ficava a sala da diretoria. Este diretor geral tinha um cozinheiro exclusivo para ele, que víamos frequentemente utilizando o restaurante dos demais funcionários. Ele não podia comer a comida que cozinhava para o diretor geral e seus convidados. Toda vez que uma autoridade ia visita-lo, o elevador do subsolo era programado para atender o térreo. O único funcionário que podia parar o carro no subsolo era ele. Acho que talvez um ou outro diretor talvez parasse o carro lá também, mas não me lembro exatamente. Havia outros dois estacionamentos na empresa, um coberto, exclusivo para os outros diretores e gerentes, e um descoberto, liberado para os demais funcionários. Tinha umas poucas vagas cobertas neste estacionamento geral, as vagas eram basicamente de quem chegasse antes. Lembro-me de um caso interessante de um então coordenador que criticava bastante o diretor geral nas fofocas de café por causa do tal do elevador exclusivo. Quando foi promovido a gerente, parou o carro no novo estacionamento coberto a partir do primeiro dia. A mediocridade é contagiosa, afinal.
Facilmente nos acostumamos a privilégios, a ponto de rapidamente deixarmos de enxerga-los como tal. A maioria das pessoas que conheço tem vidas sem propósito ou sentido. Especialmente no que se refere à “vida profissional”. Odeio este termo. Passamos mais tempo no trabalho do que na “vida real”. Não acho que uma pessoa possa ser algo no trabalho e outra coisa fora dele. Mas enfim. Um fenômeno interessante de se observar em empresas é o dos funcionários que odeiam o trabalho e morrem de medo da demissão. Infelicidade com o presente e medo de que o futuro seja pior. A chave para entender o momento pelo qual o Brasil passa por estes dois sentimentos, infelicidade e medo. Numa eleição de sentimentos, talvez o único que possa enfrenta-los é a ideia de esperança, e aparentemente apenas uma candidatura percebeu isto. Mas não falarei mais de política hoje.
Queria ter algum tipo de dado para saber quantas pessoas conseguem chegar ao fim dos textos que escrevo. O que consigo saber a partir do que o Google fornece é que o título é fundamental para atrair leitores. Pensei em nomear este texto como “Suzanne von Richtofen sai da cadeia para aproveitar o dia dos pais”, mas mudei de ideia. Todo dia das mães e dos pais esta manchete ganha os grandes portais. Provavelmente gera muito clique. A mediocridade gosta de sensacionalismos, afinal.
A grande arma dos medíocres é arrumar alguma forma de justificar a própria infelicidade e os fracassos. Vivemos numa grande prisão de infelicidade e medo. A principal forma de nos manter nesta prisão vem com o consumismo. Trabalhos que não gostamos para comprar coisas que não precisamos, afinal. Nada como uma prestação de trinta anos para comprar um apartamento com varanda gourmet num bairro planejado para te tornar um eterno escravo. Trinta anos são basicamente o que há de melhor na vida, facilmente trocado por um imóvel. Comprar apartamento é a melhor forma que a classe média encontrou de foder com a própria vida. A segunda é o automóvel. O desespero para seguir devendo é tão grande que a maioria das pessoas que conheço corre para trocar de veículo assim que ele acaba de ser pago.
Conheço até hoje uma pessoa que rompeu verdadeiramente com o que chamo de ciclo da prisão consumista. É um ex-colega da empresa do elevador exclusivo do chefe. Até hoje, quando encontro o pessoal que trabalhava comigo lá, falamos sobre ele com uma mistura de deboche e inveja. O deboche é a grande arma do medíocre contra o que é diferente e questionador. O deboche não tem outra função que tentar humilhar alguém, não há nenhum convite à reflexão. Medíocres não gostam de refletir.  
Participei por muito tempo de aplicativos de relacionamentos pela internet. Depois do momento em que perguntamos se a outra pessoa está bem, normalmente perguntamos o que a pessoa faz da vida. A resposta é quase sempre a profissão. Não me lembro se no Happn ou no Tinder a profissão já vem abaixo da fotinho que você curte ou não. Comecei usando Tinder, até o momento em que um amigo meu me recomendou o Happn. Descobri que era para onde as “minas gatas” estavam indo. Uma das minhas paqueras disse que havia saído do Tinder porque estava muito “povão” e só tinha gente feia. Conheço muita gente, aliás, que ao elogiar um local em que vai à noite diz que lá só tem “gente bonita”. Os aplicativos levam para a internet a escrotização da vida real. Quando saí do Happn, aparentemente ele já estava ficando ultrapassado, segundo o mesmo amigo que o havia recomendado. As pessoas bonitas e ricas estavam cansando de lá e tinham criado um novo aplicativo, cujo nome não sei.
Foi mais ou menos assim com tudo em nossa história. Podemos utilizar a educação como exemplo. Ela era exclusiva da elite. Com o tempo, o povão começou a ter acesso às escolas públicas e a classe média e a elite buscaram o setor privado para se diferenciar. O governo, basicamente a serviço destas duas classes, pôde assim deixar de investir no setor. Buscando maior diferenciação, elite e classe média começaram a ingressar em universidades e diplomas passaram a ser o grande diferencial no mercado de trabalho. Os anos 2000 representaram o momento de grande acesso de uma parcela gigantesca de pessoas pobres às universidades. Foi o momento também de explosão dos cursos de MBA entre pessoas de classe média e ricas. Como o diploma deixou de ser o diferencial, criaram-se novos cursos, a maioria inútil, apenas para diferenciar aqueles que têm condições de pagá-los. Nada se desenvolve com base na inclusão, apenas na exclusão.
Na empresa do elevador exclusivo, estávamos no café das fofocas uma vez eu, um colega e nosso chefe, falando sobre alguma eleição que não lembro o ano. Disse nosso chefe que não conhecia nenhuma pessoa que havia estudado graças ao Prouni. O meu colega, que estava a frente do chefe, havia estudado graças a este programa. Por que o nosso chefe não sabia disso? É simples, porque nunca havia se interessado em ouvir o que seu funcionário tinha a dizer. Pessoas de uma hierarquia acima nunca se interessam em aprender com as experiências de quem está abaixo. Qualquer sociedade de caráter exclusivista como a nossa é assim. Lembro-me que este mesmo colega me disse uma vez se eu já tinha notado que sabíamos o nome de um diretor de outro andar com o qual não tínhamos nenhum contato, mas não sabíamos o nome da senhora que limpava o nosso andar todo dia.
No começo do texto, disse que não sabia o nome de nenhum gari. Digo isto porque sou medíocre. Estou dedicando 2018 a tentar sair da prisão. Está difícil. Dizia Nietzsche, mais ou menos desse jeito, não lembro a citação correta, que toda vez que você decidir fazer algo da sua vida, vá até o fim, pois a vida fará o possível para que você volte atrás. A hora é de seguir em frente.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Glória a Deus - A análise do pior debate de todos os tempos



Um lunático lendo a Bíblia nas considerações finais. Este foi o principal momento daquele que considero o pior debate da história da política brasileira. Ao menos dentre os que eu assisti. A minha frase favorita sobre o que ocorre no Brasil desde 2014 é “o Brasil tomou LSD e o efeito não passa”. Não sei quem é o(a) autor(a) da frase. A noite de ontem foi mais um momento do efeito que não passa.
Quase ninguém assistiu ao debate. Durante a sua exibição, a Band estava em quarto lugar na audiência, atrás inclusive do Programa do Ratinho. A emissora comemorava durante a transmissão a grande repercussão que o debate possuía nas redes sociais, repercussão causada em grande parte pelo uso de robôs por quase todas as candidaturas.
Ricardo Boechat foi muito mal como âncora. Permitiu que candidatos fugissem completamente ao tema das perguntas e tentou fazer uma piadinha constrangedora com um dos candidatos. Confundiu-se sobre as regras. Os demais jornalistas fizeram perguntas fracas.
A forma como debates são montados no Brasil não permite nada diferente de respostas vagas e simplistas sobre temas extremamente complexos. Não há como debater uma Reforma Educacional em um minuto e meio com quarenta e cinco segundo de réplica. Só há espaço para Alckmin repetir o slogan de “escola em tempo integral”, que promete e não cumpre em SP nestes dez milênios em que comanda o Estado, ou para Bolsonaro falar sobre o assustador, bizarro e medonho projeto de militarizar as escolas públicas, que o PSDB de Alckmin tem utilizado em Goiás.
As redes sociais terão um papel preponderante nesta eleição, talvez rivalizando com a televisão pela primeira vez. Aparentemente os publicitários do candidato fascista foram os únicos que perceberam isto até o momento, talvez por falta de opção. Em toda resposta, o candidato fascista buscava criar um vídeo de um minuto e meio para ser compartilhado em redes sociais com termos como “lacrou”. “Destaca-se” a ideia de armar a população. O formato de debates é ideal para sua visão de mundo distorcida, preconceituosa e para suas “propostas”. Corram para as montanhas.
O desempenho de Álvaro Dias foi medonho. Baseado neste debate, é realmente inacreditável que ele já tenha sido governador de um Estado. A pergunta parecia ser uma mera formalidade para o candidato, que respondia sobre o que lhe dava na telha. Se Cabo Daciolo aposta no “Glória a Deus”, Dias aposta no “Glória a Moro”, algo semelhante ao que Doria tenta fazer em SP. Prometeu que, se eleito, transformará Moro em Ministro da Justiça. Não se sabe se já falou com o juiz sobre o assunto. Apostar no “Deus” da Lava-Jato para atrair os fascistas lunáticos que o amam parece ser a única tática entre a repetição do pior slogan da história da política: “Abra o olho”. O lado interessante é a contradição, uma vez que, ao mesmo tempo em que repete que a Lava Jato deve agir livremente da política, sem interferência do governo, o plano de trazer Moro para o governo é exatamente para que este passe a interferir na operação.
Alckmin pareceu ser o alvo principal dos demais candidatos. Num dos poucos momentos interessantes do debate para mim, apontou o pluripartidarismo (no que se refere ao elevado número de partido, e não ao modelo em si) como principal problema político do país, no que está certo. Infelizmente, não houve interesse dos demais candidatos em aprofundar o assunto. Nos demais momentos, foi o Alckmin de sempre. Assisto-o em debates desde 2002 e é sempre a mesma coisa. Repetição eterna de coisas que não fez como se fossem slogans. Foi o que teve mais tempo e não conseguiu chamar a atenção em momento algum.
Marina foi Marina. Proporá um debate sobre todos os assuntos, enquanto busca fugir de todos os assuntos mais espinhosos. Um outro momento que poderia ser bom no debate foi quando ela e Ciro começaram a dialogar sobre a transposição do Rio São Francisco. Infelizmente não houve tempo para que o diálogo fosse longe, provavelmente deram espaço para Cabo Daciolo falar sobre Deus ou Álvaro Dias dar um sorriso assustador.
Boulos se mostrou muito articulado, mas falhou na tentativa de confrontar abertamente mais vezes os candidatos da direita, especialmente Alckmin. Não teve oportunidade para isto. Merece créditos por ter trazido a pauta a discussão sobre o aborto. E também teve a coragem de chamar o candidato fascista de racista e misógino, coisa que nenhum outro fez, uma semana depois do vice deste candidato ter dito a frase mais racista da eleição. Combater o fascismo deveria ser o foco de qualquer sociedade decente. O pior debate da história, porém, mostrou mais uma vez que já deixamos de ser isto.
Ciro tenta se encontrar após o fracasso de suas táticas de campanha. É, a meu ver, muito bem preparado, mas não consegue falar numa linguagem popular. Ganhou pontos comigo ao acusar o golpe em 2016, mas perdeu ao tentar elogiar Moro. Foi também muito pouco perguntado.
Por último, o grande vencedor do pior debate da história. Cabo Daciolo se mostrou o pior candidato desta eleição, isto tendo como concorrente Bolsonaro. Foi o candidato mais comentado no dia seguinte. A maioria das pessoas que conheço riu de todas as sandices que ele disse. Também já rimos de Bolsonaro quando ele começou. Se a tragédia total se aproxima, já temos um candidato à farsa. Um país que não conhece sua própria história permite que dois personagens deste tipo surjam. Que Deus nos salve.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O fim da Editora Abril



A Editora Abril promoveu hoje mais um corte de títulos e de funcionários. Títulos tradicionais como Elle, Mundo Estranho e Casa Claudia deixam de existir. Fechamentos de títulos têm sido recorrentes na Abril desde a morte de Roberto Civita. Goste-se ou não, Civita tinha um certo amor pelo negócio. Após seu falecimento, a gestão da Abril foi terceirizada pela família a jovens do mundo financeiro que, bom, fazem aquilo que eles sabem fazer. Cortam e demitem. Se algo não dá resultado, não procure achar um jeito de tornar aquilo lucrativo, simplesmente feche. É a base de toda “teoria de negócios do MBA”, afinal. Primeiro você terceiriza e se livra de responsabilidades. Arrume alguém para culpar. Depois feche, apresentando sempre números.
Trabalhei por muito tempo no setor editorial. Era como trabalhar numa fábrica de discos de vinil no final dos anos 1980. Ou como trabalhar numa fábrica de vídeo cassete no final dos anos 1990. A ideia é sempre tentar adiar o inadiável. Mais do que isto, na maioria das vezes o foco não era no produto. Lembro-me de uma promoção tida como “bem-sucedida” em que as pessoas compravam a assinatura de uma ou mais revistas em aeroportos e ganhavam como “brinde” uma mala de viagens. Ninguém estava interessado na revista, mas sim na mala. As pessoas na empresa achavam totalmente normal que uma editora estivesse vendendo malas. Era assim também com facas, DVDs e todos os outros tipos de “brindes” que apareciam.
As revistas perderam quase toda a relevância no nosso mundo. E o pior é que se contentaram com isto. Dos assuntos que me interesso, sinto que a revista Piauí é a única que traz conteúdo minimamente relevante. Posso estar errado sobre outros meios, mas o que sinto é que não é muito diferente. A revista VIP, por exemplo, fechada hoje, era um grande desperdício de árvores, com todo o respeito aos profissionais que lá trabalhavam. O mesmo acontece com a revista GQ, sua concorrente.
Poucos ambientes são tão pouco diversos quanto as redações das revistas. Usando novamente o local em que eu trabalhava como base, a revista do público jovem descolado era feita por jovens brancos de classe média descolados, que se vestiam sempre da mesma forma descolada para falar sobre jovens brancos de classe média brancos descolados. A revista feminina chique era basicamente feita por mulheres brancas de classe média escrevendo sobre vida de mulheres brancas de classe média. A revista de negócios era basicamente feita por jovens engravatados brancos sobre investimentos para jovens engravatados brancos. Aliás, se tem uma coisa que me diverte são essas revistas de editoras falidas ensinando gestão. Editoras são ambientes extremamente conservadores num mundo em transformação. Não conseguem entender que o momento exige diversidade. As grandes editoras não percebem que o público quer histórias melhores e mais interessantes. Tenho um amigo que participou da produção de “Jeremias” para o grupo Maurício de Souza. Ele é negro e o grupo teve a inteligência de convidar pessoas negras para escrever uma história sobre o único personagem negro do grupo. A história é um sucesso de vendas, provavelmente o maior sucesso do grupo nos últimos tempos. Isto fez com que o grupo o convidasse para reuniões sobre outros materiais. Este meu amigo me contou das dificuldades que as pessoas brancas têm em entendê-lo. O conflito de ideias e de mundo é fundamental para gerar um bom trabalho.
Não há ambiente mais egocêntrico do que redação de revista. Como as redações são repletas de pessoas iguais, elas estão sempre se bajulando e se achando geniais. Lembro-me de uma conversa com um fotógrafo de revista de celebridades que se achava um gênio e tratava todo mundo mal porque era paparazzi, possivelmente o trabalho mais babaca e inútil do mundo (Desculpe se você for paparazzi). A falta de diversidade leva a uma ausência de críticas que os impedem de enxergar a inutilidade do próprio trabalho.
Os “gênios” do mercado financeiro que assumiram as gestões das grandes editoras apostaram no meio digital. A principal característica do meio digital é que nele não é necessária a existência de um intermediário entre aquele que tem a opinião ou a informação e o leitor que a consome. Ao investir no mundo digital, as editoras apostaram num meio em que não são necessárias. Apenas no meio impresso é necessária uma empresa que junte a informação e a opinião de vários jornalistas e as junte de forma econômica.
O cenário é triste. As três maiores revistas semanais de informação, por exemplo, sobrevivem graças à publicidade de estatais e à compra de assinaturas realizada por governos estaduais e municipais. A responsabilidade maior é da má qualidade do conteúdo. Diversidade, papel e gente que gosta do meio no comando. São os três caminhos para a salvação das editoras. Elas apostam no contrário.  Quem sabe as revistas voltem daqui a 30 anos, mais ou menos como acontece com o vinil agora. Como relíquias para um público retrô.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

As redes sociais e a desintegração da democracia



Assisti ontem uma entrevista de Aldous Huxley realizada pouco após o lançamento de Admirável Mundo Novo. O autor foi questionado sobre qual seria para ele a grande ameaça à democracia no mundo moderno. Sua resposta foi: avanço tecnológico. Embora o autor se referisse muito mais a ideia de vigilância completa que este avanço traria, sem ter ideia de que algo como redes sociais pudesse existir algum dia, talvez estejamos no processo de verificação de que o inglês estivesse certo em sua previsão.
Não dá pra dizer que esta é a eleição das redes sociais. Ainda vivemos num país em que o maior instrumento de informação é a televisão. Mas sem dúvidas o impacto destas redes cresce a cada eleição. Já foi assim em 2014, 2016 e agora em 2018. E continuará sendo assim até que, provavelmente, em algum momento estas redes superem a televisão. A forma como a campanha é feita nos dois meios é totalmente distinta.
Os candidatos começaram a participar das sabatinas feitas por emissoras de TV. Já assisti às realizadas na TV Cultura, na Globonews, na Bandeirantes e na Gazeta. A conclusão a que cheguei é que na verdade quase ninguém assiste a estas sabatinas. Elas servem atualmente apenas para duas coisas. Para o jornalista tentar aparecer e ganhar prestígio é a primeira. E para que o candidato ou a candidata tentem criar pequenos momentos de no máximo dois minutos que possam ser usados em redes sociais.
Rede social não serve para refletir. Serve para que grupos se fechem entre si e vivam em mundos paralelos. Isto se faz com radicalismo e agressividade. A maioria dos vídeos de política compartilhados, independente do lado, vem sempre com verbos como “lacrar”, “humilhar”, “destruir” e “calar”. Candidato A humilha jornalista “petralha”. Candidato B destrói argumentos de jornalista “imperialista”. Os candidatos mais preparados vão a estas sabatinas atrás disso.
Seguindo esta lógica, ninguém tem ido tão mal nestas sabatinas quanto Alckmin. Os motivos são dois. O primeiro é que ele não tem o perfil de quem sabe se impor da forma como os consumidores das redes sociais exigem. Muito raramente ele “lacra” ou “humilha”. A segunda é que sem dúvida ele é o candidato favorito de todos os grandes meios de comunicação, tendo assim uma entrevista mais fácil e sem confrontos do que os demais. Isto o prejudica, pois é a partir destes confrontos que surgem os vídeos que tanto sucesso fazem nas redes sociais. A repercussão que ele tem tido destas entrevistas é zero, ainda mais se compararmos com o que acontece com o candidato fascista.
Tenho poucas dúvidas de que a escolha de Ana Amélia como sua vice tem a ver com isto. A senadora pelo RS é membro do MBL, possivelmente a maior fábrica de notícias falsas da internet brasileira. Se Alckmin não sabe “lacrar”, Ana Amélia sabe. A senadora ganhou grande popularidade com um vídeo em que confunde a emissora árabe Al Jazeera com o grupo terrorista Al Qaeda e em que destila preconceitos contra os praticantes do islamismo. A escolha de Ana Amélia dará forças para Alckmin nesta guerra. Fará o trabalho da “lacração”.
Não há dúvidas de que nas grandes cidades as redes sociais impactam mais do que em outras regiões. Os resultados das eleições municipais de 2016 já comprovam isto, com a vitória de candidatos que souberam muito bem utilizá-las. Em SP ganhou um palhaço egocêntrico que soube como ninguém entender que o eleitorado queria soluções fáceis e gritos de ódio em vídeo de um minuto e meio. Algo semelhante aconteceu em Porto Alegre. No RJ ganhou um pastor evangélico, em BH um presidente de clube de futebol, ambos com pouco tempo de TV, mas fazendo uma forte campanha nas redes sociais. Não à toa em quase todas as capitais das regiões Sul e Sudeste a liderança pertence ao candidato fascista.
As redes sociais nos fecharam em bolhas. Lemos apenas coisas com as quais concordamos e vídeos curtos contendo o que chamamos de “verdades absolutas”, ou “lacração”. Não adianta tentar explicar para um bolsonete quais os impactos que a escravidão tem até hoje sobre a nossa sociedade. Ele acha que o que o candidato fascista disse é verdade e está cercado de pessoas que pensam como ele. Tentei numa discussão por Facebook argumentar com um deles utilizando um trecho do Abolicionismo de Joaquim Nabuco. Recebi como resposta um meme feito pelo MBL com risos. Somos estimulados à intransigência. Qual o caminho? Não faço ideia. Mas vendo o que acontece no mundo, não tenho dúvidas de que estamos longe do fim. A democracia se desintegra.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A grande mídia e o candidato fascista



O candidato fascista foi ao Roda Viva e falou um monte de asneiras. Amanhã vai à sabatina da Globo News e provavelmente repetirá as mesmas asneiras. Os jornalistas, completamente incapazes de lidarem com ele, ficarão chocados.
O candidato fascista disse, basicamente, que a escravidão é uma farsa e que não há consequências atuais dela na nossa sociedade. Que ele “não tem culpa” e que não foi obra do branco europeu. Leandro Narloch diz a mesma coisa no best seller “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”.  O livro se tornou a base para toda pessoa idiota que quer repetir idiotices sobre a história do país. Boa parte do sucesso da obra se deve à Revista Veja, na qual Narloch trabalhava e que divulgou o livro a exaustão, como uma visão alternativa da história àquela que “os comunistas ensinavam”. Até ano passado, Narloch tinha uma coluna chamada “Caçador de Mitos” no site da revista em que, vejam só, ele caçava notícias “falsas” na mídia, que segundo ele tinham conotação “esquerdista”. Thaís Oyama, chefe de redação da revista Veja, era uma das entrevistadoras do candidato fascista e sua foto horrorizada com a resposta do fascista sobre a escravidão se tornou meme. A chefe da revista que tornou best seller o livro em que o candidato fascista “aprendeu” a sua visão de história agora se diz horrorizada. Algum dos canais de TV a cabo, vejam só, resolveu transformar o livro de Narloch em programa de TV. Vários historiadores deram depoimentos ao canal SEM SABER que era para um programa sobre este livro. Tipo pegadinha. Quando souberam, tiveram que entrar na justiça para impedir que suas imagens fossem utilizadas para propagar um programa sobre um livro que é ridicularizado no meio acadêmico. Este meio, aliás, é predominantemente de esquerda. Na grande mídia, porém, apenas dois historiadores possuem algum espaço, coincidentemente os dois de direita: O “caçador de mitos” Narloch e Marco Antônio Villa. A mídia não se chocou em nenhum momento com isto.
O candidato fascista disse também que iria resolver o problema da Rocinha metralhando. Mais choque entre os jornalistas. Ratinho, há anos, diz que resolveria o problema das cadeias com um botijão de gás. Rachel Sheherazade defendeu a tortura a um menor que havia praticado um furto. Ambos fazem isto na segunda maior emissora de TV do país. José Luiz Datena, quase candidato ao senado por SP, passa as tardes usando o termo “guerra” para se referir à violência urbana nas nossas grandes cidades. Pedindo ação do Exército. A mídia não se chocou em nenhum momento com isto.
O candidato fascista desmereceu o programa de cotas, causando desconforto no jornalista do Globo. Alexandre Garcia, um dos poucos jornalistas da emissora do grupo que possui total liberdade de opinião, disse num editorial que o sistema de cotas estava inventando o racismo no país. A mesma emissora faz uma novela na Bahia praticamente sem atores negros. Não possui praticamente nenhum apresentador negro. A mídia não se chocou em nenhum momento com isto.
Qualquer tentativa de diversificar a mídia era chamada de “censura”. Órgãos de grande mídia agora entram na justiça para impedir que Intercept, El País e BBC trabalhem no Brasil.
O candidato fascista contou um outro monte de mentiras. A Revista Veja de Oyama trouxe em sua capa há alguns anos uma capa que falava que Cuba havia enviado dinheiro para campanhas petistas em caixas de uísque. Era mentira e não houve retratação. A Revista Isto É trouxe na capa da semana anterior à passeata que foi fundamental para a queda de Dilma a delação do ex-senador Delcídio Amaral. Esta delação não foi homologada pela Justiça porque era falsa. Não houve retratação.
O candidato fascista é fruto de anos de histeria antipetista infladas pela mídia. Todos os absurdos que ele diz foram espalhados pela grande mídia por anos com o objetivo de enfraquecer a gestão petista. O Judiciário, diziam, estava sendo “aparelhado”, este mesmo Judiciário que hoje vota contra o PT praticamente sempre. O programa do governo de discutir igualdade de gênero e combater o preconceito nas escolas foi chamado de kit gay e a mídia repetia que “estavam ensinado as crianças a serem gays”.
O candidato fascista é fruto de um processo de emburrecimento e paranoia financiado pela grande mídia, que agora se diz chocada. As mentiras, loucuras e agressões já estavam aí há muito tempo. A mídia lida com o monstro que criou. Thais Oyama deveria enxergar nas asneiras do candidato fascista o “bom serviço” da revista para a qual trabalha. “Deu certo”. O único candidato que venceria o candidato fascista está preso num processo esquisito. O juiz que o prendeu disse que teme que o resultado das eleições possa atrapalhar seu trabalho. A grande mídia ainda não se choca com o juiz que vê na democracia um empecilho. Ainda...

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Neymar e a publicidade



O desenvolvimento do esporte está historicamente relacionado ao desenvolvimento da publicidade. O primeiro grande boom do esporte como algo maior do que uma simples competição entre times ou pessoas se deu nos anos 1930, quando estados totalitários europeus começaram a utilizá-lo como instrumento de propaganda. Após a guerra, os vencedores americanos e soviéticos continuariam fazendo dele instrumento da mesma forma durante todo o século 20. O segundo boom do esporte viria nos anos 1950 e 1960, com o surgimento e popularização da televisão. Este novo aparelho revolucionou nosso estilo de vida e, principalmente, a publicidade. Esta encontrou na televisão um instrumento gigantesco para chegar a um número inimaginável de pessoas, criando novas necessidades de consumo. Para vender mais, seria necessário criar figuras populares capazes de convencer consumidores de que eram incríveis o suficiente para que desejássemos utilizar os mesmos produtos que eles. Encontrou estas figuras principalmente no esporte e na arte pop. Não à toa a música, por exemplo, passou por grandes transformações a partir deste momento também.
A partir disso, não havia mais espaço para amadorismo no esporte. O tênis, esporte tradicional por excelência, foi o último a se adequar ao profissionalismo, em 1968. Nos anos 1970 e 1980, com o desenvolvimento da publicidade infantil, a ligação entre esporte e publicidade ganhou outros patamares. Foi mais ou menos a partir daí que entrou em ação a grande parceira da publicidade, a mídia. Era fundamental que o atleta fosse visto não apenas como alguém que era muito bom numa atividade banal e inútil, mas num “gênio”. Michael Jordan não era apenas um cara muito bom em acertar uma bola redonda dentro de um círculo, era um “gênio”. Ayrton Senna não era apenas alguém muito bom em correr rápido de carro, era um “gênio”. Desta forma, quando consumíamos algo que figuras como estas anunciavam não estávamos comprando algo normal, mas sim o produto usado por um “gênio”. O desodorante do “gênio”, a pasta de dente do “gênio”, a roupa do “gênio” etc. Mais do que isto, ligue sua TV em sei lá qual horário e veja o “gênio” em ação.
Foi neste período também que começou a surgir a mídia especializada. Gente que fazia faculdade e dedicava a vida a basicamente falar sobre pessoas praticando esporte. Gente que passou a se dedicar exclusivamente a analisar pessoas correndo atrás de uma bola, por exemplo. Pessoas na mídia que ganham a vida falando banalidades sobre falsos gênios, que no intervalo aparecem vendendo produtos que ajudam a pagar os salários dos especialistas das banalidades.
A banalidade hoje rende bilhões. Canais de TV, debates, gênios e principalmente publicidade. Temos gênios atrás de gênios. Mais do que isto, popularizou-se a expressão “melhor da história”. Messi, Cristiano Ronaldo, Roger Federer, Usain Bolt, Michael Phelps. Todos os “melhores da história” enquanto continuam vendendo. Em 20 anos teremos outros no lugar. No intervalo de um acalorado debate entre quem é o melhor da história, Messi ou Cristiano, apareceu uma propaganda de Cristiano se barbeando e de Messi comendo salgadinho.
A situação é tão inusitada que não há dúvidas de que os personagens tratados como gênios são incapazes hoje de se enxergarem de forma diferente. Li uma vez uma entrevista de Roger Federer em que ele dizia que se considerava um gênio. O suíço não se vê como alguém que é simplesmente muito bom em uma atividade bocó de dar raquetadas em bolinhas amarelas, ele realmente se acha um gênio. É o caso de Neymar.
Neymar é tratado como gênio desde que tem doze anos de idade. Não tenho dúvidas de que ele acredita que é um. Dificilmente ouve um não ou é convencido a fazer algo que não quer. A publicidade aprendeu a rentabilizar tudo. Até os fracassos. A Nextell teve uma boa repercussão ao trazer pessoas que tinham superado problemas pessoais. Por algum motivo achou que dava para aliar isto a um celular. A Gilette tentou fazer isto com Neymar também. Aparentemente não deu certo. O publicitário que teve a "brilhante" ideia de ligar a queda momentânea de Neymar ao ato de se barbear deve estar sofrendo.
As redes sociais estão representando um novo boom no esporte. E mudando a forma como atletas “geniais” e grande mídia se relacionam. A mídia tradicional está perdendo espaço para as redes sociais. A publicidade precisa cada vez menos dela para usar o seu atleta para vender. O “gênio” consegue ter um contato direto com os seus fãs sem precisar passar pelo jornalista especialista ou pelos apresentadores de TV dos programas de domingo. E a mídia tradicional está surtando por isso. O principal motivo para a má vontade com Neymar por parte desta mídia, a meu ver, é esta.
Neymar não deu nenhuma entrevista desde o fracasso na Copa. Falou apenas em suas redes sociais e na propaganda remunerada da Gilette. Certa vez vi um jornalista na TV dizendo que Neymar “tinha” que se declarar sobre a derrota para a Bélgica. Neymar não tem que nada. A declaração de Neymar para a propaganda é falsa? Tudo é. Se ela fosse dada no programa do Faustão ou no Luciano Huck, seria tão falsa quanto. E seria porque, não só ele, mas o mundo gira hoje em dia basicamente em torno da publicidade, que não faz nada diferente do que vender mentiras. Ações de filantropia, por exemplo, hoje se dedicam mais a promover a figura do doador do que a ideia de caridade. Neymar disse que ninguém sabe como é difícil esta no papel dele. Não duvido. Todos têm problemas e dificuldades. O ser humano é um ser egoísta, sempre acreditamos que nossos problemas são os piores, uma vez que são os únicos que sentimos na pele. Acho Neymar uma pessoa completamente vazia. Opinião pessoal. Isto é fruto do fato de que ele é tratado como gênio desde os doze anos por ser bom numa atividade que por si só é inútil. Uma pessoa que se acostumou a não ter opinião, porque isto pode atrapalhar as vendas. Mas a mídia precisa dele. Bajulava-o antes da Copa e voltará a bajular quando precisar dele para vender algo. Por enquanto está bravinha. Mas já já passa.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Alckmin x Bolsonaro - o sonho da direita



Antes de começar o texto verdadeiramente, gostaria de dizer que quase tudo que é escrito aqui é meio baseado em achismos. Daqueles tipos que as pessoas falam ou escrevem somente para depois terem a chance de dizer para os outros “eu avisei” caso realmente aconteça. E eu espero sinceramente estar errado nestas “previsões”.
O mercado e a grande mídia precisam da vitória de Alckmin. A eleição do candidato tucano é a legitimação de tudo que aconteceu no Brasil desde 2016. Seria como uma justificativa final. Alckmin poderia continuar as medidas regressivas de Temer com apoio das urnas. As mesmas forças que financiaram e praticaram o golpe contra Dilma Rousseff estão unidas em torno desta candidatura. A direita fisiológica que a imprensa insiste em chamar de “centrão”, por exemplo. As Igrejas que não pagam impostos e a bancada da bala fazem parte deste falso “centro”. A única turma que participou daquele golpe e não se uniu à candidatura Alckmin é a dos fascistas, que têm outro candidato. Aliás, o fato de que Bolsonaro tenha 19% e Alckmin tenha apenas 4% mostra bem como era a distribuição daquelas passeatas que a mídia vendeu como “familiares e pacíficas”.
Ir para o segundo turno com Bolsonaro é o grande sonho da turma que apoia Alckmin. Numa situação destas, quase todas as pessoas minimamente razoáveis votariam no tucano. Inclusive boa parte da esquerda, creio eu. Qualquer pessoa que for para o segundo turno contra Bolsonaro tem a chance de obter uma vitória em larga escala, algo como 65% a 35%, por exemplo. Nada seria mais consagrador do que chegar ao Planalto desta forma. Há, no entanto, três obstáculos para que isto aconteça: Marina, Ciro e Lula.
Marina será o obstáculo mais simples de ser vencido. O eleitorado de Marina é extremamente frágil e a impressão que tenho é que boa parte dele nem sabe direito porque está votando nela. Quer de alguma forma ser “diferente”. Basta a este eleitorado descobrir que Marina discorda dele em qualquer ponto para mudar de voto. Marina é, aliás, a verdadeira candidata de centro nesta eleição. A direita que finge querer um centro não a quer porque tem por ela os mesmos preconceitos que possuem contra Lula. Os seus eleitores mais progressistas desistirão dela quando ela expuser suas opiniões contrárias ao aborto e seus eleitores mais conservadores desistirão dela quando ela se mostrar progressista no que se refere a programas sociais. Apenas para dar dois exemplos. Qualquer propaganda mostrando que Marina eleita representaria falta de comida no prato pode ser suficiente para enfraquecer sua candidatura. Também não sei se Marina quer realmente ser presidente. A impressão que tenho às vezes é que ela se conformou em ser um personagem que aparece uma vez a cada quatro anos e passa o resto do tempo viajando e dando palestras, dizendo como com ela “tudo seria diferente”.
Para derrubar Ciro, a mídia terá um papel mais importante. Qualquer coisa que o ex-ministro do plano Real e ex-governador do Ceará disser que puder causar o mínimo de polêmica terá uma repercussão desproporcional. Darei dois exemplos. Nesta semana, Ciro foi por duas vezes a manchete de capa dos portais do Uol e da Globo.com. Numa delas, ele disse numa entrevista para uma rádio no MA que acreditava que Lula deveria ser solto. Em outra, reclamava da postura do PT em relação à sua candidatura. Os dois portais colocaram ESTAS duas notícias como capas ! Destaque principal do dia ! Ou seja, basicamente não havia nada mais importante acontecendo no mundo naquele momento do que estas falas de Ciro. Criam-se assim duas falácias. A primeira é de que Ciro poderia dar um indulto a Lula, o que não é nem previsto pela Constituição, afastando-o do eleitorado mais conservador. A segunda é a de que Ciro estaria brigando com o PT, afastando-o do eleitorado mais progressista. Tudo que o candidato do PDT disser será supervalorizado, especialmente aquilo que puder gerar qualquer polêmica.
Quanto à Lula, a aposta é em seu ego. Lula é egocêntrico e inegavelmente tem até razão para isto. Lula é o brasileiro vivo mais importante, sem dúvida a pessoa que mais influenciou o país nos últimos 50 anos. Está preso injustamente há 100 dias, sofrendo ataques incessantes da grande mídia e, mesmo assim, lidera as pesquisas com folga. Seria eleito se vivêssemos numa democracia séria. Se qualquer gerente de empresa privada quebrada já é egocêntrico por isso, imagine Lula? Se até o William Waack é egocêntrico, imagine alguém do tamanho de Lula? Fazendo uma pequena digressão sobre William Waack, aliás, vi outro dia um trecho de programa dele em que ele disse que o maior problema do Brasil é a impunidade. Concordo, num país sério Waack estaria preso pelo crime de racismo que cometeu. Voltando a Lula, ele provavelmente manterá sua candidatura até o prazo máximo de julgamento pelo TSE. Este tribunal fará o possível para adiar ao máximo a confirmação de sua não-candidatura, impedindo assim que Lula tenha tempo para transferir seus votos para outro(a) candidato(a).
Grande mídia, empresariado e judiciário dividirão suas tarefas na missão de fazer Alckmin decolar. A tarefa seria mais fácil se o eleitorado de Bolsonaro não fosse tão fanático. Os fascistas não querem tucanar novamente. Será preciso fazer que outros eleitorados tucanem então. O PSDB, que é possivelmente o maior responsável pelo crescimento da extrema-direita no país, tenta se vender como centro.  A direita que agora se diz horrorizada com o que diz o candidato fascista faz suas críticas por pura hipocrisia. Não sentiu vergonha de contar com ela na derrubada de um governo democraticamente eleito. Não pensará duas vezes antes de focar suas críticas em Ciro e Marina no caso de se confirmar o fato de que os fascistas não voltarão mais ao ninho tucano. Dinheiro para isto não faltará. Haja propaganda.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Brazilian Horror Story



Na semana de lançamentos das campanhas presidenciais, a mais importante e assustadora reportagem que li na "grande" mídia nos últimos tempos passava meio que despercebida pela maioria. O repórter da Revista Época Patrick Camporez conta aos poucos leitores da revista a experiência de uma escola estadual militarizada do estado de GO. Em julho de 2015, o governador de GO, Marconi Perillo do PSDB, transferiu a gestão de uma escola pública para a Polícia Militar. O que se lê no texto é bizarro e, numa era em que o bizarro tem se sobreposto, possivelmente foi visto com bons olhos por boa parte dos reduzidos leitores. Os militares transformaram a escola em quartel. Todos os alunos estão uniformizados como soldados, urram gritos de guerra nacionalistas e passam por uma inspeção na entrada. Nenhum tipo de individualidade, como corte de cabelo fora do padrão ou unha pintada, é aceito. Após a entrada, há uma segunda inspeção, realizada pelos próprios alunos. Eles são o tempo todo incentivados para a vigilância interna. Salas de aula passaram a se chamar “alas” e “pavilhões”, os mesmos termos utilizados para falar de cadeias. Os centros estudantis foram abolidos, bem como aulas de teatro e de dança.
Acredita o governador tucano Marconi Perillo que o plano está dando certo. O motivo apontado é apenas um, a nota do Enem. O desempenho estudantil, acha o governador, é medido apenas por uma prova de múltipla escolha e tudo vale para se melhorar este número. Inclusive transformar escola em prisão. É quase uma ditadura da estatística, afinal. Nenhuma comparação com outros projetos que também melhoraram em provas sem transformar alunos em presidiários é feita na matéria. Não se buscou entender, por exemplo, o modelo cearense que possui 77 das 100 melhores escolas públicas do país segundo o IDEB.
A escola é o primeiro lugar de socialização da maioria dos nossos jovens. Lá, eles deveriam encontrar um ambiente diverso, entrar no mundo. O que o modelo goiano está fazendo é exatamente o oposto, formando um exército de jovens autoritários e intransigentes, dispostos a dedurar em nome da pátria. Mais do que isto, transferiu a gestão do ensino para a corporação que deveria cuidar da segurança pública.
O plano do PSDB de GO é expandir este projeto para outras escolas do estado. Atualmente, 46 escolas-prisão com 53 mil “presidiários”, ou melhor, alunos, já existem no estado. Outros estados já seguem esta onda, especialmente na região Norte e Centro-Oeste.
No último domingo, Jair Bolsonaro lançou sua candidatura à presidência, com o apoio da advogada do impeachment, Janaína Paschoal. A alta aceitação da candidatura Bolsonaro está longe de ser o início de um processo de “fascistização” da sociedade brasileira. É apenas uma nova etapa. O eleitorado fascista se escondeu por muito tempo no simples antipetismo. Odiavam o que acontecia no governo Lula, que era o oposto do que ocorre na ideia da gestão Perillo. Ideias de igualdade de gênero, de cotas raciais para corrigir as desigualdades da nossa sociedade racista, distribuição de renda. É por isso que esta parte da sociedade odeia Lula. A suposta corrupção é apenas um disfarce. Na falta de um candidato que expusesse o mesmo ódio abertamente, esta parcela fascista da população apoiava qualquer um que concorresse contra Lula e contra o PT. O PSDB apareceu como principal opção, recebendo e aceitando por anos este eleitorado. A partir do impeachment sem crime, comando pela possível vice de Bolsonaro,  Janaína Paschoal, contratada do PSDB na época do processo, esta parcela se viu liberada para agir de forma mais independente, depredando exposições artísticas, por exemplo. Não à toa a candidatura de Bolsonaro ganha força a partir do afastamento de Dilma. Ele não teria 20% dos votos em 2014, afinal. Eu sinceramente acho que ele não ganhará neste ano. Acho e torço. O maior perigo é a forma como o PSDB vem se transformando para atrair o seu tipo de eleitor. Não há a menor dúvida que a experiência dos tucanos em GO visa atrair os bolsonetes de lá. Até onde o PSDB é capaz de ir, não se sabe. As coisas ocorrem gradualmente, passo-a-passo. Se uma hora este tipo de ideia triunfar no país, lembre-se da sessão do impeachment. E lembre-se também de Bolsonaro fazendo o gesto de arma junto a uma criança na semana passada. Esta foto foi tirada em Goiânia, aliás.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Dr. Bumbum e a ditadura da beleza



A bancária Lilian Calixto saiu de Cuiabá no dia 18/7 para realizar um procedimento estético no Rio de Janeiro. Aplicaria um implante nos glúteos com o médico Denis Furtado, que era conhecido no meio como “Dr. Bumbum”. O valor do procedimento seria de R$ 20 mil e ocorreu na casa do médico. Em decorrência de complicações decorrentes da cirurgia, Lilian morreria no domingo.
O Brasil realizou em 2017, segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, um milhão e duzentas mil cirurgias estéticas. É o segundo país no mundo em que mais são realizados estes tipos de procedimentos, atrás apenas dos EUA. Segundo esta mesma instituição, mulheres representam 86% destas cirurgias. Os dois procedimentos mais comuns são lipoaspiração e implantação de silicone nos seios.
A principal característica do sistema em que vivemos é que ele precisa sempre nos manter de alguma forma infelizes. A principal arma da propaganda é mostrar como seríamos mais felizes se comprássemos aquilo que está sendo vendido. E nada vende mais do que a beleza. Ligamos a TV diariamente e somos bombardeados por pessoas lindas demonstrando felicidade. Desde cedo somos doutrinados a buscar o tão padrão de beleza e isto é multiplicado por infinito no caso feminino. Quando criança, as bonecas são quase sempre loiras e magras. As apresentadoras infantis são quase todas loiras e magras. Passando para a adolescência, programas com atrizes quase sempre loiras e magras disputando o galã e vendendo um estilo de vida consumista nos preenchem. Na vida adulta, apresentadoras de TV quase sempre loiras e magras nos confundem com fofocas sobre celebridades loiras e magras e publicidade de produtos de beleza entre uma notícia sobre crise econômica e outra. As revistas femininas quase sempre trazem em suas capas mulheres magras e loiras, em títulos como “Boa Forma” ou “Saúde”. Passamos a vida sendo bombardeados pela ditadura da beleza e tendo uma vida de merda graças aos padrões impostos por ela. Somos vítimas, mas ao mesmo tempo opressores, uma vez que também utilizamos estes padrões para julgar.
A infelicidade com o próprio corpo é uma das maiores formas de opressão social. Enquanto procurava matérias sobre o assunto para tentar escrever este texto, a que mais me assustou foi a conclusão de uma matéria do Estado de São Paulo sobre o assunto em dezembro de 2016: “As mulheres e homens podem começar o ano de 2017 mais bonitos e confiantes, pois quando se está bem exteriormente e interiormente, de corpo e alma, as coisas boas começam a surgir”. Todo oprimido é facilmente manipulado e a indústria lucra com isto. A sociedade é incentivada a tratar o assunto da forma o mais superficial possível. Quase todas as matérias que falam sobre a segunda colocação do Brasil no ranking de cirurgias plásticas no mundo as fazem tratando o assunto com orgulho.
Este dado é sinônimo de um grave problema social. Não nos aceitamos como somos. Cada vez mais pessoas, especialmente mulheres, são empurradas para mesas de cirurgia em nome de um padrão de beleza que não temos. Arriscam suas vidas (porque toda cirurgia tem um risco afinal) para se sentir mais aceitas por uma sociedade que não busca aceitar ninguém, que julga basicamente por posses e aparências.
O Brasil não sabe reconhecer e tratar suas doenças. A mídia não faz o seu papel. Ao invés de usar esta tragédia para debater nossa sociedade e abordar o que leva tantas mulheres a buscar o bisturi por razões estéticas, trata o caso com sensacionalismo. As bases para a busca de uma melhoria deste problema seriam o questionamento dos valores de uma sociedade consumista e a aposta em maior diversidade na representação das pessoas por parte da mídia. Mas ninguém parece interessado nisso. Beleza e infelicidade vendem. Fazem a economia girar. Numa sociedade dominada por este tipo de pensamento, casos como estes se repetirão. Dr. Bumbum será preso. E caso ele tenha agido de má fé neste caso, espero que continue preso. Mas a sociedade continuará sendo oprimida pelo assunto. Quem sabe não veremos ainda nesta década alguma matéria comemorando que o Brasil assumiu a primeira colocação neste triste ranking?