quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O CPF, a demissão e o senhor M.



Eu realmente não aguento mais dizer o número do meu CPF. Não sei qual foi a última vez que passei um intervalo de três dias sem dizer a sequência de onze dígitos que basicamente define quem eu sou. A impressão paranoica que tenho é que existe algum supercomputador central em algum lugar em que todas as minhas informações estão registradas a partir deste número. Todos os meus inúmeros cadastros, senhas, compras, visitas, tudo. Durante uma semana resolvi tentar contar o número de vezes em que falava o meu CPF para comparar o número de vezes em que falava o meu nome. Bom, esqueci que estava fazendo isto no segundo dia. É difícil se concentrar numa missão besta como estas afinal. Mas sim, eu falo muito mais vezes o número 316 do que o meu nome.
Por um momento em minha vida eu era do tipo que falava o número do CPF para qualquer compra que fizesse. A nota fiscal paulista, com sua devolução de um centavo para uma compra de, sei lá, duzentos reais tocava fundo no coração de um jovem recém-formado em economia metido a sábio poupador. Ganhei também três sorteios no valor de dez reais nos últimos dez anos, o que quer dizer que falar o meu CPF em todas as compras que fazia me rendeu trinta reais.
Por algum motivo enjoei e parei de falar. A impressão que tenho é que isto aconteceu com muita gente, porque neste momento os supermercados começaram a criar descontos para quem tivesse cadastro. Faço parte do clube extra, sou cliente mais Carrefour e sei lá mais de onde e voltei a falar o meu CPF cada vez que comprava uma bolacha, cujo preço é uns trinta centavos mais barato se eu tiver a paciência de dizer os onze dígitos.
Nenhum estabelecimento é mais bem-sucedido na tarefa de me obrigar a dizer o número do CPF do que uma farmácia. Por motivos familiares, eu frequento este ambiente mais de uma vez por semana e a primeira coisa que perguntam, antes mesmo de saber o que eu quero, é se eu tenho cadastro e qual meu CPF. O atendente em seguida pega o remédio e me fala sempre de algum valor por algum valor. Ele sempre quer deixar bem claro o quanto economizei por me identificar com um número de onze dígitos. Como minha mãe tem convênio de saúde, este é o momento em que digo que quero passar a compra no CPF dela, que dá mais desconto. Ótimo, diz o atendente enquanto me ouve falar um novo código, dessa vez começado com 201. Saio para o caixa, que digita o número do CPF da minha mãe, registra o desconto e pergunto se quero manter este CPF na compra final. Digo que não, que ela deve ser registrada no meu CPF, para que eu ganhe “pontos” que em uma década podem me render um desodorante ou uma pasta de dente. Por que alguém se interessa tanto em registrar as porcarias que compro? Não sei, mas dizem que este tipo de informação dá algum poder. Para tudo que faço na internet tenho que registrar meu CPF. Lembro-me que no ano passado fui fazer a declaração de óbito de uma pessoa e, ao chegar em casa, começaram a pintar na tela do meu computador propagandas de advogados que cuidam de herança e de funerárias. O “supercomputador central” sabe o que o sr. 316 precisa.
A grande decisão do meu ano de 2018 foi sem dúvidas pedir demissão. Eu nunca tinha feito isto na vida. Pessoas enchem o saco quando você faz isto. Estamos em crise e você nunca mais vai arrumar um emprego na vida diziam uns. Foda-se que você está infeliz no tal emprego, alguém deposita um dinheiro na sua conta todo fim do mês, então está tudo bem. A pessoa que mais me influenciou nesta decisão foi um ex-colega que chamarei aqui de senhor M. O senhor M. odeia com todo vigor o trabalho que faz e a empresa em que trabalha. O senhor M. morre de medo de ser mandado embora e sempre chora e passa o dia fofocando quando cortes aparecem. O senhor M. leva este comportamento profissional para todas as áreas da vida. Uma coisa importante, aliás, é que as pessoas têm que parar com essa história de que uma pessoa é de um jeito no trabalho e de outro na vida “pessoal”. É tudo vida pessoal, ou você é legal ou é filha da puta ou está no meio termo, como acontece com quase todo mundo. O senhor M. odeia o casamento. Quando não está fofocando sobre o trabalho, reclama da esposa. Cada instante passado com a esposa é descrito com enorme infelicidade. O senhor M. morre de medo de se separar. Fica desesperado quando aparece algum indício de que a esposa pode deixa-lo. O senhor M é extremamente infeliz e faz o possível para manter a infelicidade. Tem um emprego que odeia para poder comprar coisas que não precisa e parcelar uma viagem anual. A engrenagem tem que continuar funcionando. Talvez o senhor M só continue assim porque sabe que muita gente vai encher o saco se ele resolver sair do ciclo. Um belo dia olhei em minha volta e só vi Senhores Ms. Hora de fazer algo a respeito.
Na nossa sociedade precisamos culpar os outros pelas nossas infelicidades. Quase sempre é assim. A última eleição presidencial se resolveu desta forma, afinal. Criou-se um bode expiatório responsável por todos os problemas do mundo. As críticas a este bode raramente apresentavam dados, o que havia era uma série de paranoias fantasiosas que ajudaram a levar um deputado insignificante e imbecil à presidência, num processo coordenado por um juiz jeca com fortes tendências autoritárias. Vai dar merda, mas no fundo quem votou nele só quer ver as outras pessoas sentindo as mesmas frustrações que sente no dia a dia. Quem votou no deputado insignificante não o fez por algo bom que ele possa fazer, mas sim porque quer ver outras pessoas se foderem. O senhor M odeia qualquer pessoa que tente sair do ciclo de infelicidade. Os senhores Ms escolheram o atual presidente. Somos um país de senhores Ms.
Aos 34 anos resolvi tentar transformar algo que gosto em profissão. Estou dando aulas de idiomas. Para conseguir um emprego, estou quase fazendo algo que havia prometido nunca fazer, abrir uma firma. Tornar-me uma empresa. A grande sacada de quem inventou essa baboseira de pessoas virarem PJ é que ela faz com que o trabalhador se sinta falsamente igualado àquele que o contrata. Deixa de ser uma relação patrão-trabalhador para se tornar uma relação empresa-empresa, em que ilusoriamente não há a ideia de ilusão. Este processo foi fundamental para que a sociedade enxergasse os direitos trabalhistas como supérfluos. Eu vou emitir nota e contratar um contador. É um completo absurdo que uma pessoa tenha que fazer isto. A sociedade nos engole, eu disse num texto passado. Sinto isto abrindo a firma e falando meu CPF. Mas resolvi ao menos ficar engasgado. Nunca me tornarei um senhor M.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Lula é um preso político



Antes de começar este texto, acho importante salientar que o objetivo aqui não é comentar as qualidades e defeitos do governo Lula. Foi o governo mais transformador de nossa história desde Vargas? Sim. Houve neste período casos de corrupção envolvendo membros do seu governo? Sim. Deixando claro que não há provas, aliás, de que em nenhum destes casos há comprovação da participação direta do ex-presidente. Não pretendo aqui colocar numa balança os erros e acertos de Lula durante sua presidência, mas apresentar as evidências claras de que o ex-presidente foi e é vítima de um julgamento de exceção. A opinião pessoal que temos sobre alguém é completamente indiferente numa situação destas. Lula é um prisioneiro político e é vergonhoso que a sociedade assista a isto calada, com boa parte dela batendo palmas, inclusive.
A denúncia contra Lula no caso do Triplex foi aberta em janeiro de 2016, um mês depois do processo de impeachment contra Dilma Rousseff ser aceito pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A acusação era e é de que a construtora OAS teria feito uma reforma num tríplex no Guarujá que pretendia vender a Lula e à sua esposa, Marisa Letícia, e que em troca receberia apoio do ex-presidente em contratos envolvendo a Petrobrás. Lula e Marisa visitaram o imóvel, mas não quiseram compra-lo. Segundo o ex-presidente, não havia lógica em um senhor à época com quase 70 anos que tinha acabado de passar por um câncer passar a velhice num apartamento de três andares. A denúncia era extremamente mal feita, apresentada num Power Point tosco e sem nenhuma prova, apenas com indícios. Mas foi aceita pelo juiz Sérgio Moro.
Para o dia 15/03/2016 havia sido marcada uma gigantesca manifestação de apoio ao processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. O sucesso desta manifestação seria fundamental para pressionar o Congresso a votar favoravelmente ao afastamento e havia grande incentivo à participação popular nesta passeata. No dia 06/03/2016, nove dias antes desta passeata, portanto, ocorreu a condução coercitiva de Lula. Sem que o ex-presidente houvesse se negado a participar de algum interrogatório, premissa obrigatória da condução coercitiva, Lula foi levado à força para depor para o juiz Sérgio Moro enquanto sua casa e seu instituto eram revistados pela Polícia Federal. Nada foi encontrado, mas a imagem de Lula sendo levado à força pela Polícia já havia cumprido seu papel de inflar o sentimento antipetista fundamental para o sucesso da passeata. Na mesma semana, temendo a forma como Sérgio Moro começava a se mostrar arbitrariamente acima da lei e partidário, Dilma resolveu nomear Lula para Ministro da Casa Civil. Os objetivos eram tentar salvar seu governo, utilizando a força de Lula no Congresso para evitar o impeachment, e mudar o foro de Lula, que passaria a ser julgado pelo STF e não mais por Moro. No mesmo dia, o juiz, contrariado com a perda do processo, liberou na mídia de forma ilegal conversas telefônicas que haviam sido grampeadas envolvendo o ex-presidente. Em nenhuma delas há nada que incrimine Lula, mas foi o suficiente para que a mídia fizesse a festa. Uma das conversas envolvia a então presidenta em exercício e que só poderia ter o sigilo quebrado com autorização do Supremo, o que não aconteceu. Esta mesma conversa, aliás, ocorreu após Lula ser nomeado ministro, o que torna portanto sua gravação duplamente ilegal.
Após a nomeação de Lula, uma verdadeira chuva de ações de juízes de primeira instância tentou anular a posse do ex-presidente. Era a primeira vez em nossa história que o Judiciário intervinha na nomeação de um ministro. Pela Constituição, a prerrogativa de escolha de um ministro cabe exclusivamente à pessoa que exercita o cargo de Presidente da República, podendo ser ocupado por quem ela indicar sem necessidade de maiores explicações. O Supremo atendeu aos pedidos ilegais dos juízes de primeira instância e impediu a posse. A manifestação bombou e todos sabem o que aconteceu na sessão de impeachment, com Deus, família e torturadores derrubando a presidenta.
Em outubro de 2016, o Supremo confirmou uma mudança na interpretação da Constituição que passou a permitir a prisão após condenação em segunda instância, contrariando o texto constitucional que diz que uma pessoa só é considerada culpada após trânsito em julgado, ou seja, após o fim da possibilidade de recursos. Em nome de uma vontade punitivista, decidiu-se que uma pessoa pode ser presa mesmo que a Constituição diga que ela ainda não é considerada culpada, sendo, portanto, inocente. É importante notar que esta mudança de interpretação ocorreu com o processo de Lula já em andamento, ou seja, a regra para o caso dele mudou durante o jogo.
A condenação de Lula em primeira instância aconteceu em julho de 2017, após um processo marcado pelo circo midiático. A função de um juiz deveria ser marcada pela imparcialidade, mas Moro em nenhum momento escondeu o seu papel de acusador. Pelo contrário, o juiz fazia questão e era elogiado por ajudar e se mostrar conivente com a acusação. Foram notórios os bate-bocas de Moro com a defesa de Lula, quase sempre terminando com o juiz impedindo de forma arbitrária que o advogado de defesa se expressasse. Em diversos momentos o direito à defesa foi cortado, como por exemplo na proibição de que a defesa realizasse uma vistoria no imóvel supostamente reformado. Um ano após este julgamento em primeira instância, por exemplo, uma ocupação do MTST no imóvel descobriu que não havia lá um elevador. A construção deste elevador era, segundo a acusação, um dos maiores indícios de que a reforma era destinada a Lula, pois, como dito no primeiro parágrafo, ele era à época um senhor de quase 70 anos sobrevivente de um câncer.
Léo Pinheiro havia negado diversas vezes nos primeiros depoimentos que a reforma se dedicava a Lula. Passou a afirma-lo após um longo período de prisão preventiva, realizada de forma arbitrária e sem que nenhum indício das três causas que a justifiquem (a saber, flagrante, obstrução de justiça ou ocultação de provas). Assim como aconteceu com outros, Pinheiro só foi solto após confirmar a história já escrita pela acusação. Foi assim também com Marcelo Oderbrecht e Antonio Palocci, os dois condenados e soltos após confirmarem a tese do Ministério Público que diversas vezes haviam negado.
O imóvel em nenhum momento pertenceu documentalmente a Lula ou à sua esposa. Não podemos conceder a posse de um imóvel a uma pessoa com base em testemunhos, pois isto criaria uma situação absurda. Se podemos dizer que um imóvel pertence a alguém porque muita gente está dizendo isto, podemos também dizer que um imóvel não pertence a alguém pelo mesmo motivo. A premissa criada no caso que condenou Lula permitiria, por exemplo, que eu juntasse um grupo de pessoas e testemunhasse que a casa em que você leitor ou leitora mora não pertence a você, mas sim a mim. Não importa se você tem o papel comprovando a sua propriedade, os testemunhos valem mais do que o documento. Muitas pessoas tentam comparar este caso de Lula ao de Elisa Samúdio ao dizer que a condenação se justifica com base apenas em indícios e não em provas (cadê o corpo?). Os casos, porém, são diferentes. No caso de Samúdio, todos os indícios demonstram que ela está morta. No caso de Lula, há um documento oficial provando que ele não era o proprietário do imóvel.
Toda a condenação de Lula se baseou em frases feitas no futuro do pretérito. A reforma aconteceria, o apartamento seria comprado e Lula iria atuar a favor da OAS em contratos da Petrobrás. Nada aconteceu, é tudo presunção. Lula, portanto, foi condenado por algo que não aconteceu.
Segundo a lei da Ficha Limpa, Lula só seria considerado inelegível se ocorresse uma condenação também em segunda instância. Era necessário, portanto, correr contra o tempo para primeiramente impedir Lula de ser candidato. Um processo, em média, demora 84 dias para mudar de instâncias. O da Oderbrecht, por exemplo, demorou 154 dias. O de Lula demorou 42. Foi o caso mais rápido a ser registrado.
Em 24/01/2018, Lula foi condenado em segunda instância. Neste julgamento, qualquer divergência entre os três juízes que o julgavam permitira um novo recurso que adiaria o processo. Qualquer divergência inclui não apenas a questão da culpa ou não do réu, mas qualquer divergência mesmo na pena. Pois eis que os três juízes concordaram não apenas na culpa do réu, mas também na pena, que foi de 13 anos e 1 mês. Não 13 anos, mas 13 anos e um mês, deixando bem claro que houve uma espécie de combinação por parte dos três para impedir que a defesa de Lula ganhasse tempo no processo. Lula, porém, não foi preso imediatamente, pois o Supremo havia adiado a possibilidade de prisão em segunda instância para após uma nova votação, que aconteceria em abril. Lula, porém, já estava inelegível, mas ainda não se sabia se seria preso.
Na mesma semana desta votação, o juiz Sérgio Moro concedeu a sua primeira entrevista coletiva para a imprensa brasileira, no Roda Viva. Durante o programa, falou-se quase que exclusivamente da prisão em segunda instância, com Moro citando diversas vezes o nome da juíza Rosa Weber, cujo voto era considerado aquele que iria decidir a questão. Disse também que se o Supremo não mantivesse a nova interpretação, iria convocar a sociedade para realizar uma PEC, alterando a Constituição para que uma pessoa já fosse considerada culpada após a segunda instância. Enquanto assumia desta forma que a prisão em segunda instância era inconstitucional, Moro era basicamente bajulado pela roda de jornalistas composta apenas por pessoas que o adoram.
A mídia fez seu papel no circo ao transformar uma discussão que envolve toda a sociedade num simples debate “Lula vai ser preso?”. Graças ao voto de Rosa Weber, a nova interpretação se manteve numa votação de 6 a 5. Apenas 17 minutos após receber a autorização do Supremo, repito, 17 minutos, Moro decretou a prisão de Lula. Conseguia, desta forma, tirar Lula não apenas da eleição, mas garantir que ele não participasse de forma alguma da campanha.
O PT insistiu na candidatura de Lula, mas o objetivo aqui não é discutir isto. É fato, porém, que Lula liderava com folga as pesquisas e que seu afastamento da campanha foi fundamental no processo que levou à vitória de Jair Bolsonaro. Não podemos afirmar que Bolsonaro ganharia ou não com Lula na parada, mas é muito provável que não. Durante todo o processo eleitoral, especialmente no segundo turno, a esposa de Sérgio Moro, Rosangela Moro, utilizou as redes sociais para fazer campanha aberta para Jair Bolsonaro. Uma semana antes do primeiro turno, quando começou a se desenhar um cenário que quase garantiu a Bolsonaro a vitória já no primeiro turno, Moro tirou o sigilo da delação premiada de Antonio Paloci. Qual a importância disto para o processo? Nenhuma, Moro só quis interferir na eleição mesmo.
O ápice do circo aconteceria depois da eleição, com Moro aceitando ser Ministro de Bolsonaro. O juiz que tirou Lula da eleição aceitando participar do governo de seu grande rival político seria suficiente para suspender o processo chefiado por ele em qualquer democracia séria do mundo, mas não por aqui. Mais do que isto, Paulo Guedes, futuro ministro da fazenda de Bolsonaro, disse que ele, Moro e Bolsonaro já haviam se reunido para tratar deste assunto antes da eleição. Moro inicialmente disse que só iria se exonerar do cargo de juiz em 31/12, mas adiantou sua exoneração quando o Conselho Nacional de Juízes abriu um processo para investiga-lo. Este Conselho não pode investigar um ex-juiz, afinal.
A opinião pessoal que temos sobre alguém é indiferente para definir se uma pessoa deve ser presa ou não. Lula está preso atualmente por uma condenação sem provas, feitas às pressas e comandada por um juiz que se mostrou ser aliado de seu grande rival político. Lula é vítima de uma grande injustiça e o maior sinal de que vivemos numa sociedade doente é que ela permite e até comemora que um senhor de 73 anos sobrevivente de um câncer esteja trancado numa cela num processo completamente farsesco. A simples existência de um processo, aliás, não é suficiente para, como dizem alguns, provar a limpeza do processo. Nelson Mandela também teve direito a um julgamento antes de ser condenado. Defender Lula neste momento é fundamental. Não importa o que você acha dele. Sua prisão é uma vergonha. Ele é a primeira vítima de um regime que provavelmente utilizará a arbitrariedade e o autoritarismo para perseguir todo tipo de opositor. O primeiro é ele. Os próximos provavelmente serão os movimentos sociais. Em algum momento chegará a nossa vez.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O Palmeiras é o símbolo do Brasil de 2018





O futebol é hoje um dos principais e mais bem-sucedidos instrumentos de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Não apenas no Brasil, mas principalmente no futebol europeu. Dos principais times da Europa atualmente, creio que apenas Manchester United e Liverpool estejam de alguma forma mais ou menos limpos. Barcelona e Real Madrid são dois instrumentos de governos locais numa rivalidade nacional, recebendo todo tipo de isenção fiscal possível. O Atlético de Madrid é financiado pela ditadura que governa a ex-república soviética do Azerbaijão. A Juventus é um instrumento de manipulação financeira da FIAT. O Bayern de Munique teve seu último presidente preso por fraudes fiscais. O PSG é usado para lavar o dinheiro de grupos ligados à ditadura que controla o Qatar. Todo mundo sabe. Todo mundo finge que não sabe.
Nenhuma liga no mundo é hoje mais dominada pelo dinheiro sujo ou mal explicado do que a Liga Inglesa. “O melhor campeonato do mundo”, como gosta de alardear a mídia. Os três últimos campeões são sustentados por mutreteiros. O Chelsea é financiado pelo bilionário russo Roman Abramovitch, banido de seu país natal por ter praticado diversos crimes financeiros. O Leicester é financiado por um milionário tailandês e o Manchester City por dinheiro árabe, numa situação semelhante à do PSG. O Reino Unido é hoje um dos principais paraísos fiscais do mundo. A regra britânica é que qualquer pessoa que estiver disposta a investir um milhão de libras em território britânico ganha automaticamente a cidadania, sendo prometido sigilo bancário e proteção. É por isso que o país é destino de todo tipo de mafioso vindo das mais diversas partes do mundo, especialmente Rússia, China, Turquia e países árabes. Um dos maiores descontentamentos que a terra da rainha tinha e ainda tem com a União Europeia é que de alguma forma o continente europeu queria barrar a farra britânica. Algo semelhante começa a ocorrer agora na Itália. Os dois times de Milão, Inter e Milan, foram vendidos para grupos chineses.
Na temporada passada, um pouco antes de uma partida de quartas-de-final de Copa dos Campeões entre Monaco e Borussia Dortmund, uma bomba explodiu perto do ônibus que levava o time alemão para a partida. No dia seguinte, descobriu-se que a bomba havia sido instalada por um investidor. O Borussia tem sua ações negociadas na Bolsa de Valores e o investidor havia apostado no dia anterior que o Borussia sofreria uma grande desvalorização. Foi preso, mas ganhou alguma grana. Apostas. Emissoras de TV, atletas e clubes são hoje financiados por sites de apostas. O maior patrocinador do Hertha Berlin é um site de apostas. A ESPN Brasil tem uma propaganda de site de apostas a cada intervalo. Alguns garotos propagandas são comentaristas esportivos. Cristiano Ronaldo é a estrela de um dos sites. Isto não se aplica apenas a futebol, aliás. Rafael Nadal também é patrocinado por um site de apostas esportivas. Isto é antiético? Sim, muito. Mas muita gente ganha muito dinheiro com isso. Então deixa quieto. Todo mundo sabe, todo mundo finge que não sabe.
A maior participação de grupos internacionais de lavagem de dinheiro no futebol estão inflacionando os valores dos jogadores. Há poucas formas melhores para se lavar dinheiro do que contratar um jovem jogador de futebol brasileiro por mais de R$ 1 bilhão de reais. Ele vale isso? A resposta para a pergunta é indiferente. O objetivo não é pagar o quanto ele vale. É lavar o máximo de dinheiro possível, contando para isto com o silêncio da mídia, interessada em fazer parte do ciclo.
O primeiro processo deste tipo a ter acontecido no futebol brasileiro foi sem dúvida o Palmeiras da Parmalat. Interessada em “apresentar seus produtos” no Brasil, a Parmalat basicamente comprou o futebol palmeirense e começou a formar esquadrões. Alguns anos depois, descobriu-se que era basicamente uma fraude voltada para lavar o dinheiro da empresa. “Descobriu-se”? Todo mundo já sabia. Todo mundo fingia que não sabia. Outras parcerias parecidas aconteceram nos anos seguintes, sempre resultando em craques, títulos e numa posterior falência, com a empresa midas quebrando ou passando dificuldade. Flamengo – ISL. Fluminense-Unimed, Corinthians-Hicks. O caso mais clássico de todos, sem dúvida alguma, é Corinthians-MSI. A sociedade agiu passivamente à aparição de um iraniano morando na Inglaterra que trazia dinheiro russo para contratar um craque argentino para o Corinthians. A verdadeira globalização da picaretagem. Título, lavagem de dinheiro e quebradeira se seguiram.
A nova etapa deste processo no Brasil é a parceria Palmeiras-Crefisa. Sem querer afirmar absolutamente nada, mas ela é no mínimo esquisita. Uma empresa sem nenhum vínculo esportivo começa a, do nada, torrar um dinheiro absurdo num clube de futebol, aparentemente sem receber um retorno. Leila diz que “ama o Palmeiras”. Como nos casos anteriores, a ação da mídia é baseada em silêncio e elogios. O Palmeiras como um exemplo de “gestão”. Em 2018, o Palmeiras-Crefisa ganhou seu segundo título brasileiro, graças a um elenco milionário e desequilibrado do restante do campeonato. A mídia comemora a esquisitice, passando propagandas da Crefisa e da Faculdade das Américas no intervalo das partidas.
A palavra que define o ano de 2018 no Brasil é cinismo. Jair Bolsonaro venceu uma eleição tendo como base a mentira. Todas as pessoas que o apoiam e votaram nele sabem que boa parte do que ele diz é mentira. Repetem as mentiras sabendo que estão mentindo. Não importa. A eleição foi decidida graças a uma canetada de um juiz, que prendeu de forma arbitrária e sem provas a pessoa que provavelmente venceria Bolsonaro. Como prêmio, este juiz foi chamado para ser ministro por Bolsonaro, com a garantia que será indicado pelo Supremo. A situação é absurda? É. Está mais do que claro que o juiz agiu politicamente? Sim. Para justificar, basta ser cínico. Moro agiu de forma imparcial, diz o cínico. Bolsonaro venceu de forma limpa, diz o cínico. Temos que torcer pelo seu sucesso, diz o cínico. A relação Palmeiras-Crefisa é normal, diz o cínico. Bolsonaro recebendo a taça pelo Palmeiras-Crefisa é o símbolo que faltava por ano. Os dois se reconhecem. Ambos são fruto do cinismo. O Palmeiras-Crefisa puxa o saco do novo líder. Bate continência. O novo líder se aproveita disso. O Palmeiras é o símbolo do Brasil de 2018. Sua conquista é fruto de relações econômicas controversas. Seu principal ídolo Dudu é condenado por agressão a mulheres. Seu segundo maior ídolo, Felipe Melo, tem como principal "mérito" o uso da violência. Corrupção e agressividade. Todos que estão em silêncio sabem, mas preferem calar. O futuro será implacável com os que hoje se calam. Quer apostar?

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Sobre Uber, Whatsapp e Piscinas



Durante muito tempo trabalhei numa editora de grande porte e fui obrigado a ir para Brasília profissionalmente alguma vezes. Umas sete ou oito, acho, entre 2010 e 2012. A Stora Enso, empresa finlandesa de papel, era (ou ainda é, não sei) dona da única fábrica no Brasil que possui um tipo específico de papel e havia entrado com um processo de acusação de dumping basicamente contra todas as fábricas estrangeiras que vendiam este papel ao Brasil, com exceção das que ficavam na França e na Itália. Eu e mais um grupinho de engravatados íamos para Brasília para fazer lobby contra este pedido da Stora Enso. Encontrávamo-nos um senador da região Norte, que foi ministro em um monte de governos, que era o contato direto entre o lobby das editoras e o governo central. Nas duas últimas vezes que fomos encontra-lo, o tal senador não apareceu. Mau sinal. A Stora Enso ganhou o processo e foi imposta uma sobre taxa de importação ao papel vindo de todos os países dos quais importávamos, a exceção de França e Itália. A mídia impressa e seus parceiros começaram uma verdadeira guerra contra o senador da região Norte, que passou a ter seus escândalos não mais acobertados. A sangria, no caso dele, não foi mais estancada. A Stora Enso era dona da única fábrica deste tipo de papel na França e passou a vender de lá para o Brasil. O então presidente da Stora Enso no Brasil pediu as contas e passou a representar uma fábrica italiana aqui no Brasil. Lembro-me da sua reação uma vez em que alguém havia deixado implícito que ele já estava negociando com a fábrica italiana e por isso a havia deixado fora do pedido de antidumping. Ele ficou transtornado e ameaçou processar e agredir quem disse isto. Se tivéssemos filmado aquilo e colocado na TV, o cara ganharia um Emmy de melhor ator. Acho um desperdício alguém com um talento tão grande para a interpretação passar a vida vendendo papel. Mas bom, o que me fez lembrar isto não é a picaretagem do empresário do setor privado, nem a relação entre mídia e política. E sim o fato de que eu achava bizarro que em Brasília era necessário ter telefone para chamar táxi.
Eu não uso Uber. Já escrevi um texto sobre isto. Numa época eu era chato e tentava convencer as pessoas a fazer o mesmo. Percebi que era chato e não faço mais. O que me fez mudar a minha atitude foi exatamente o texto que escrevi. Não tenho a maior autoestima do mundo, mas acho que aquele texto está bem escrito e bem argumentado. Uma amiga minha no dia seguinte ao texto me veio dizer que havia gostado e que a partir dele havia decidido não mais usar Uber, pagar mais caro no táxi e foda-se. Aquilo fez muito bem para o meu ego, eu a acho inteligente. Dois dias depois, recebo uma nova mensagem dela. Ela havia sido assaltada por um taxista.
Embora não tenha o aplicativo, não me oponho a entrar num Uber quando outra pessoa o chama. Não quero ser chato. E gosto do mecanismo. Acho fascinante que eles saibam onde estamos e que vejamos o desenho do carrinho se movimentando. Também acho legal a forma como o carro nunca nos acha, mesmo com este desenho. Quase sempre rio quando vejo o carrinho passando reto. A minha grande objeção ao Uber hoje é que está cada vez mais difícil conseguir um táxi em SP sem o uso de aplicativos. Sou um cara à moda antiga, para mim o jeito correto de chamar um táxi é parar em algum ponto na rua, ver o táxi vindo, esticar a mão e pronto. Sinto que sou a única pessoa que está percebendo que está se tornando um parto conseguir táxi assim em SP. Se você não está, sei lá, na Avenida Paulista, não vai aparecer uma porra de um táxi pra você pegar. Nada.
Sempre fui ruim de tecnologia. Dentre as pessoas da minha bolha, sou quase sempre a última a ter as coisas. Em geral acho chato. No começo da faculdade, nos anos 2000, não tinha celular. Fui a última pessoa que eu conheço a trocar o celular analógico por um com chip. Era motivo de chacota no trabalho por isto. Certa vez, a caminho casa, fui assaltado e levaram meu celular. Já do outro lado da rua, o ladrão me perguntou quanto dinheiro eu tinha. Eu respondi dez reais. Ele me propôs que eu desse estes dez reais e recebesse meu celular de volta. Eu aceitei. Minha vida começou a mudar quando o meu antigo chefe me deu um smatphone que um outro diretor havia devolvido porque estava velho. Comecei a usar, mas ainda não havia instalado Whatsapp. Era divertido ver as pessoas reclamando porque eu havia mandado um SMS. Isto foi mais ou menos em 2013. Eu achava todo mundo meu zumbi. Achava até meio bizarro minha namorada à época ficar o dia todo no whatsapp. Ela me contava que diversas amigas haviam feito grupos e falavam sobre tudo neles. A minha vida voltou a mudar em 2015. Eu ia passar um tempo viajando e resolvi instalar o tal do whatsapp para que elas pudessem me encontrar mesmo eu estando longe. Virei zumbi. Estou até hoje vendo esta merda toda hora, mesmo tendo em mente que quase nada importante acontece por lá. É um novo tipo de comunicação, estamos cada vez mais distantes, recebendo cada vez mais informações que significam cada vez menos.
Mais ou menos na época em que ganhei o smatphone que mudou minha vida, tive outra decisão que impactaria minha existência. Decidi que era hora de realizar o sonho de toda pessoa de classe média e comprar um apartamento. Eu estava feliz no meu relacionamento, tinha 29 anos, tinha um emprego que me permitia fazer lobby engravatado em Brasília, havia chegado o momento de ter um teto, dois filhos e um cachorro. Meu primeiro passo foi procurar um amigo meu que é extremamente burro, mas muito bom quando o assunto é dinheiro. E quando eu digo que ele é extremamente burro, estou dizendo muito muito burro. Ele é incapaz de interpretar um texto, fez dez anos de Cultura Inglesa e não sabia conjugar o verbo to be, passou a vida tomando pastorzinho de mim no xadrez. Sério, eu passei uns dez anos fazendo a mesma jogada e o cérebro dele era incapaz de reconhecer aquilo. Mas quando o assunto é dinheiro, o cara vira um Einstein. É um verdadeiro fenômeno da natureza. Alguma coisa entra em ação no seu cérebro quando ele ouve a falar em dinheiro e tudo se transforma. Enquanto eu recebia as dicas, ele me disse que o seu sobrinho estava trabalhando como corretor de imóveis e marcou um encontro entre nós. Fomos numa padaria, ele me pagou um pão de queijo e começamos o papo. Ele queria me vender um imóvel na Vila Anastácio. Não lembro ao certo o porquê, mas eu conhecia aquela região em que o prédio seria construído. Não tem nada. A impressão que tenho é que é a única região do planeta que está intocada desde que a Terra surgiu. É outro conceito de nada. Segundo ele, o fato de lá não ter nada era um coisa boa, porque era um sinal de que algo iria ser feito por lá. Sim, o fato de não ter nada era uma qualidade. O preço do apartamento era algo do tipo R$ 400 mil. Um valor que eu, como engravatado que ia de vez em quando para Brasília fazer lobby a favor de uma mídia bandida, iria demorar tipo uns 30 anos para pagar. Ao ouvir isto, o sobrinho corretor riu e disse que todo mundo ficava assustado, mas que a maioria das pessoas conseguia pagar em 20 anos.
Vinte anos. Eu tinha 29 anos na época. Arredondei para 30. Terminaria de pagar aos 49. Arredondei para 50. Após a conversa com o sobrinho corretor, fui falar com o amigo burro gênio com dinheiro. Ele começou a me falar que valia a pena a compra e como, após terminar de pagar o imóvel, eu poderia usá-lo como entrada na compra de um outro imóvel. Na minha cabeça eu estava pensando, bom, se eu termino este aos 50, acabo o outro aos 70, é isto? Homem na minha família vive até, em média, uns 65 anos, então daqui pra frente minha vida vai se dedicar a isto? Pagar um imóvel? Eu tinha 29, arredondando 30. Então já acabou? Enquanto ele falava sobre o investimento que viria com o investimento e geraria mais investimento, comecei a me sentir pela primeira vez ao lado dele burro. Perguntei-me se ele não se sentia da mesma forma quando tomava um pastorzinho. Até que ponto, aliás, o fato de passar uma vida tomando pastorzinhos não o preparou para aquilo?
Mas bom, não desisti. Seguindo o conselho do meu amigo burro e gênio dos negócios, fui atrás de imóveis novos. Todos custariam ao menos 20 anos da minha vida. Mas todos deixaram claro que eu estaria tranquilo aos 50 anos. Uma coisa que me impressionou nesta época é que é impossível achar um apartamento simples nestes novos empreendimentos em SP. Quando digo simples, não me refiro a tamanho, porque eles são cada vez menores. Refiro-me ao fato de que eu queria simplesmente um apartamento para deixar minhas coisas e ficar lendo e ouvindo música. Só isto. Mas todos têm sauna, salão de jogos, quadra e piscina.
Piscina. Aí está a palavra que define a forma como classe média enxerga o que é sucesso na vida. Não há nada que dê mais status na vida do que desperdiçar dinheiro. “Veja, eu tenho tanto dinheiro que posso simplesmente jogá-lo pela janela”. Não há desperdício de dinheiro maior do que uma piscina. As pessoas que têm muito dinheiro têm tanto dinheiro que em algum momento da vida elas pensam que vale a pena abrir um buraco na terra e encher de água com cloro. E mais, elas têm tanto dinheiro que até contratam alguém só pra cuidar do buraco na terra cheio de água e cloro. Lembro-me que na escola eu tinha um colega rico e todo mundo sabia que ele era rico porque ele tinha uma piscina. Lembro-me que um dia ele marcou uma festa e estávamos todos animados porque seria na piscina. Pus uma sunga por baixo do short, passei protetor 50 na pele e fui animado. Chegando lá, vi que ninguém estava na piscina. Foi uma descoberta para mim perceber que a maior parte das pessoas que vão para piscinas nestas situações não entram na água. A festa era basicamente um monte de jovens brancos em torno da piscina conversando.
Fui a algumas outras festas em piscinas na vida e quase todas elas foram meio assim. Muito pouca gente entra na água. A piscina é apenas um cenário, quase o altar de um culto. Um buraco na terra cheio de água e cloro. O sonho da classe média é ser rica, afinal. O que estes condomínios novos fazem é permitir à classe média realizar o maior sonho que ela tem, desperdiçar dinheiro enchendo um buraco na terra com água e cloro. Como a maioria das pessoas não tem grana suficiente para isto, as pessoas de classe média se juntam numa comunidade de pessoas de classe média em que elas se unem para sustentar o buraco na terra cheio de água e cloro. Piscinas de condomínio estão quase sempre vazias. A maioria das pessoas que a frequentam não entram na água. Ficam do lado de fora tomando Sol, lendo, existindo. Coisas que poderiam fazer num gramado. Mas fazem na borda do buraco na terra cheio de água e cloro. Uma coisa que acho curiosa sobre pessoas que moram em condomínios com piscina é que ir à piscina significa algo. Tipo, o que você fez ontem? Resposta: fui na piscina. Então você não fez nada, certo?
Acabei não comprando o apartamento. Mas descobri coisas interessantes. Descobri que kitnet agora se chama Studio. Descobri também que vaga de garagem tem escritura. Lembro-me que achei isto bizarro quando fiquei sabendo. Sim, existe um documento dizendo que um pedaço de chão marcado com uma tinta amarela em que cabe um carro é seu. Descobri que você tem que declarar a vaga de garagem no Imposto de Renda. É que as pessoas acham isto normal.
 “A gente se habitua a tudo, até a não se habituar”. É uma das frases mais repetidas no meu livro favorito, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Não acho que possa julgar as pessoas que passam vinte anos pagando pelo seu apartamento com um buraco na terra cheio de água e cloro ou com sua escritura de vaga de garagem. Também não me julgo por ter passado tanto tempo fazendo lobby em favor dos interesses financeiros de uma mídia podre. Como mostra o exemplo da minha amiga assaltada no táxi, as coisas não são tão fáceis. A sociedade nos engole. Enquanto escrevia este texto que boa parte das pessoas não lerá até o fim (é o texto mais longo deste blog) olhei duas vezes para o Whatsapp. Nada importante aconteceu.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O Bolsonaro soft



Uma chave para tentar entender o funcionamento da futura gestão federal de Bolsonaro talvez esteja na análise da gestão Doria em SP. Deixando bem claro que, obviamente, há diferenças entre os dois. Considero Bolsonaro uma figura mais ideologicamente formada do que Doria. Enquanto o futuro presidente realmente acredita no que diz, o futuro governador me parece ser do tipo que se adapta à vontade refletida em pesquisas. Ele está lá para dizer o que a maioria quer ouvir. E, obviamente, Doria nunca se disse abertamente machista, racista e homofóbico, nunca defendeu a tortura, embora esteja estimulando o lado psicopata da população ao propor que policial atire para matar.
As quatro principais características da gestão Doria em SP foram manipulação dos dados, controle da informação da mídia, uso excessivo de redes sociais e estímulo ao antipetismo. Nunca um gestor mentiu tanto e de forma tão consciente. A principal sacada de Doria foi perceber que as pessoas se informam mal e não perdem tempo para saber se a informação que lhes foi passada era ou não verdadeira. E mais, ele percebeu que, caso diga uma mentira na segunda, ela será descoberta apenas na terça ou na quarta, dias em que o ex-prefeito já havia criado um novo assunto, deixando a revelação da mentira em segundo plano. Há exemplos claros da forma como Doria usou a falta de memória e de interesse da população pela questão pública em seu interesse. Logo no começo de seu governo, Doria inaugurou um banheiro público no centro de SP e fez uma basta festa para isto. Criou até um nome para um programa de instalação de banheiros públicos em SP, com um nome do tipo “Tiramos você do aperto”. Após a festa, nenhum outro banheiro foi instalado e depois de alguns meses o único banheiro que tinha também foi desativado. Um outro caso claro foi o dos chamados “muros verdes” nas regiões em que grafites haviam sido apagados. Após a repercussão ruim da destruição dos grafites, Doria apareceu com um super projeto de criar estes muros verdes onde antes havia arte, que seriam segundo ele os maiores muros verdes do mundo. Viralizou entre seus seguidores. Um ano e meio depois, ninguém mais lembra deste projeto. Não importa, o ganho já havia acontecido.
Uma boa publicidade suplanta qualquer dado. O corujão da saúde foi um sucesso pela forma como foi divulgado, e não pelos dados. Ninguém quer saber muito de dados, afinal, e esta talvez tenha sido a grande sacada de Doria na Prefeitura. As pessoas não têm o menor interesse em se informar de verdade, o que torna o ambiente propício para a manipulação. Doria falsificou até a própria história na vida política. Sua fortuna é basicamente fruto de herança, seu pai era o maior publicitário do país. Mas Doria convenceu a população de que conseguiu sua riqueza trabalhando. Quando seu pai voltou do exílio e não podia ser registrado como trabalhador, seus amigos “empregaram” seu filho como forma de contratar na realidade o pai. Doria transformou isto em prova de que havia começado a trabalhar na adolescência. Sua vida profissional é um grande fracasso. Sua passagem na Embratur foi uma vergonha, seus programas de TV não chegavam a um ponto de audiência. Suas edições apresentando O Aprendiz foram as mais mal sucedidas. Conseguiu espaço no PSDB graças a uma empresa de lobby que aproximava empresários de políticos e ganhou a vaga para disputar a prefeitura de SP comprando votos nas prévias do partido e pagando a dívida que Geraldo Alckmin havia deixado em sua campanha para governador em 2014. Na Prefeitura, repetiu na gestão pública sua vida de fracassos na esfera privada. Não conseguiu privatizar nada que havia prometido, não resolveu as filas na saúde, não “resolveu” a cracolândia, nada.
Caso a simples propaganda não funcione para fazer a população acreditar naquilo que não foi feito ou não existe, Doria parte para o último subterfúgio, culpar o PT. Foi assim quando o seu “brilhante” plano de distribuir ração para alunos de escolas públicas naufragou. A culpa não era da tosquice da ideia, mas da esquerda que não o deixou vingar. A mesma coisa aconteceu na fracassada ação da cracolândia, que Doria disse que havia acabado no próprio dia da ação. Doria é totalmente incapaz de executar alguma ação. Não sabe, fruto de pura incompetência e afobação. Mas sabe fazer propaganda do que não fez como ninguém. Na sua campanha eleitoral, chamou até Paulo Skaf de comunista.
Doria fez sua gestão toda contrariando a opinião de especialistas. Percebeu que a população vê especialistas como “chatos que não conhecem a vida real”. A incapacidade e preguiça de procurar e analisar dados criou na população média a raiva a quem obtém e divulga estes dados. Logo nos primeiros meses do mandato, Doria disse que não fazia seu governo para istas, no que incluiu ativistas, especialistas e petistas. É a mesma coisa que Bolsonaro já anda dizendo, aliás.
Ainda está difícil imaginar o tamanho dos estragos que Bolsonaro fará em sua gestão. Embora completamente tosco e ignorante, já ficou claro que o presidente eleito não é burro. A forma como neutralizou Moro e trouxe para si a popularidade do “juiz super homem” mostra que ele tem uma capacidade grande de analisar o cenário político. Com certeza conseguirá fazer “mais” do que Doria, o que é ruim pela sua visão de mundo e também não é muito difícil, pois qualquer pessoa consegue fazer mais do que Doria. É aí que mora o perigo. O presidente eleito tem realmente um plano de poder, que já está incorporado aos interesses de igrejas evangélicas e das camadas mais reacionários do Exército e do Poder Judiciário. As duas instituições que poderiam controlar as ânsias autoritárias do presidente são parceiras dele na visão de mundo. As táticas utilizadas para distração e propagação de mentiras, porém, serão as mesmas de Doria. E são parte fundamental no avanço do projeto de poder. Afinal, como convencer trabalhadores que o fim do Ministério do Trabalho é algo bom? Gravando um vídeo falando mal do PT e falando bem da família. Vamos rezar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

As razões de usarmos o termo fascista para Bolsonaro



Dediquei uma parte deste último fim de semana para tentar observar a forma como os bolsonaristas com os quais ainda tenho contato se comunicam sobre política em redes sociais. Na grande maioria das vezes, as opiniões são dadas através de memes ou de frases feitas com o objetivo de “lacrar”. Há muito espaço também para vídeos editados. É muito muito rara a existência de textos minimamente complexos ou que façam qualquer convite a reflexões. O site favorito de “jornalismo” deles é o Antagonista, que soube perfeitamente encontrar a forma de comunicação com este público. As “notícias” do site são compostas basicamente por um título sensacionalista, um parágrafo curto e uma conclusão “lacrando”, quase sempre de forma debochada. O contraditório deve ser ridicularizado e humilhado. Nas poucas vezes em que há debate, o objetivo é quase sempre deslegitimar quem dá a opinião e não a opinião em si. Por exemplo, se a Folha de São Paulo publica uma critica sobre Bolsonaro, a resposta dos bolsonaristas é criticar o jornal e não rebater de alguma forma a opinião que lá foi dada. Outra coisa que encontrei nesta busca é uma tentativa de ridicularizar quem usa o termo fascista para se referir a Bolsonaro e ao que acontece no Brasil atualmente. O objetivo deste texto é mostrar porque, na minha opinião, o uso do termo é aplicável ao governo eleito e refletir sobre isto.
Antes de tudo, é fundamental dizermos que é óbvio que teremos algumas características do fascismo europeu dos anos 30 que não encontraremos no fascismo tupiniquim do séc. XXI. Uma delas é o antissemitismo, característica básica do fascismo do séc. XX que foi substituído de certa forma pela islamofobia no fascismo do séc. XXI. Os muçulmanos representam a “minoria perigosa” deste momento nos países de primeiro mundo e de certa forma isto está contagiando o Brasil. Estas diferenças, porém, não são suficientes a meu ver para impedir que o termo seja usado com eficácia para determinar o que ocorre por aqui.
Algumas das características fascistas quem podemos encontrar em Bolsonaro são militarismo, glorificação da violência, obsessão por punitivismo, ideia de que a função da minoria é se adequar às vontades da maioria, ataques à imprensa livre, descrédito das instituições, autoritarismo, machismo e nacionalismo. Este último, porém, de uma forma inegavelmente mais vazia do que no século passado. Enquanto o nacionalismo do fascismo europeu era realizado através também da valorização cultural e histórica da pátria, o nacionalismo bolsonarista é muito mais bocó, baseado basicamente na ideia de hastear a bandeira do país e cantar o hino. É uma coisa muito mais ligada a símbolos, se tem uma coisa que Bolsonaro e seu séquito rejeitam é cultura.
Uma característica importante do fascismo é a forma como eles aplicam no governo aquilo que sempre criticavam. Por anos, por exemplo, disseram que o Brasil deveria evitar que ideologias interferissem em questões de relações internacionais. Antes mesmo de assumir o governo, Bolsonaro já disse que pretender romper relações diplomáticas com Cuba, mudar a embaixada brasileira para Jerusalém, provocando nossos parceiros árabes que são importantíssimos como compradores de produtos agrícolas e de carne daqui, e ameaçando a Venezuela, país com o qual temos superávit na balança comercial. Também criticavam paranoicamente as supostas tentativas petistas de aparelhar o Judiciário, mas eis que na semana da eleição Bolsonaro já atraiu Sérgio Moro para seu governo, controlando assim a Lava Jato e acabando com a independência do Ministério Público e da Polícia Federal, enquanto a mídia aplaude a entrada do juiz justiceiro no governo. Outra característica importante é a forma como o fascismo consegue se adaptar dizendo aquilo que um determinado grupo quer ouvir. Conseguem ser vistos como defensores dos trabalhadores pelos que trabalham e dos patrões para quem chefia, basicamente por dizer uma coisa para um e outra para o outro.
O avanço do fascismo no Brasil teve duas caras. A mais tosca e truculenta, representada por Bolsonaro, e a mais educada e bem vestida, representada por Moro. Não é à toa que as duas se encontram e veem na outra a possibilidade de implantar suas visões autoritárias no país. Bolsonaro precisa de Moro para que o Poder Judiciário legitime seus projetos autoritários, que é o que Poderes Judiciários fazem em todas as ditaduras no mundo, aliás. Não conheço nenhum caso em que Justiças tenham agido de outra forma. Moro vê em Bolsonaro a chance de colocar em prática para o país as medidas autoritárias que usou na Lava Jato, como abuso no uso de prisões preventivas, usadas como instrumento para obtenção forçada de delações muitas vezes sem provas e espetacularização do processo judicial. Não à toa a Lava Jato é dona do assustador projeto das “Dez medidas contra a corrupção”, algumas de tendência claramente fascistas, como o fim do habeas corpus, ampliação das possibilidades legais de prisão preventiva sem julgamento previsto e a legalização da ideia de “prova plantada” em delações. Com Moro, Bolsonaro controla a única força capaz de um dia suplantá-lo entre o eleitorado fascista e domina a Justiça, colocando os instrumentos do Poder Judiciário abaixo de alguém que é seu funcionário.
A minha leitura do momento é Psicologia das Massas do Fascismo, de Wilhelm Reich. O objetivo do autor do livro é uma análise da atração psicológica que o fascismo exerceu sobre a sociedade alemã e que o levou ao poder. Diz o autor que a principal ideia usada pelo nazismo para chegar ao topo foi a família. A instituição familiar, diz o autor, é a principal e mais querida instituição autoritária que conhecemos. A mais sagrada. O que o nazismo fez foi convencer a população a levar ao poder central uma organização governamental que lembraria muito o funcionamento de uma família, com um pai forte e truculento que movesse a família alemã em frente, conservando seus princípios e valores. Diz Reich que o principal mecanismo que faz o autoritarismo familiar funcionar é a opressão sexual feminina. É a forma como a sociedade e a própria mulher enxergam a sexualidade feminina como algo errado e pecaminoso, que deve ser combatido, que faz com que as próprias mulheres aceitem um papel submisso em relação ao homem na família tradicional. Trazendo para o Brasil, não é à toa que o nosso movimento fascista tenha verdadeira ojeriza pelo movimento feminista. Uma coisa inegavelmente diferente entre a família descrita por Reich e a atual família brasileira é que o autor descreve a família alemã dos anos 1920/30 como uma família numerosa que estava sempre em competição com as demais famílias da região. Através de riqueza e casamentos, uma família fagocitava a outra e o que Hitler fez, segundo o autor, foi levar este movimento de conquista de uma família sobre a outra para o cenário mundial. Foi o reconhecimento familiar deste movimento que fez com que a família tradicional alemã aprovasse os movimentos imperiais do seu ditador. Para quem tiver interesse em saber como isto ocorria na família alemã, recomendo o livro Os Buddenbrooks, de Thomas Mann, que mostra a ascensão e queda de uma família através dos mecanismos que seriam descritos posteriormente por Reich. Não acho que a família brasileira tenha esta característica atualmente. Talvez isto explique a ausência de imperialismos no projeto bolsonarista. Mas é fato que a tara de Bolsonaro em se apresentar como “defensor da família” mostra que o jogo psicológico é o mesmo. Mais do que isto, esta ideia talvez seja o foco da sua campanha. Como convencer um trabalhador a abrir mão de direitos como décimo terceiro, por exemplo? Convencendo-o de que o outro lado ameaça o laço social mais sagrado, a família.
Debater com fascistas é algo que beira o impossível. Fazemos uma análise e uma reflexão com base em clássicos das mais diversas disciplinas e recebemos como resposta um meme. É foda. Mas só nos resta tentar. Espero que algum deles consiga chegar ao final do texto. Acho difícil. Outra característica deles é a total mediocrização dos debates. Refletir e pensar já estão quase se tornando símbolos de resistência.

domingo, 4 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody e a morte do rock



Apesar do título, este texto falará muito pouco sobre o filme Bohemian Rhapsody, que retrata a vida de Freddie Mercury, vocalista do Queen. Como fã da banda, adorei o filme e recomendo a todos. Os realizadores do filme tiveram a brilhante e bem-sucedida ideia de focar mais no filme do que na vida pessoal de Mercury, causando uma verdadeira apoteose com a encenação quase total da lendária apresentação da banda no Live Aid. Uma banda como o Queen não teria menor espaço no rock hoje em dia. O motivo é simples, não apenas no Brasil, mas no mundo, o rock se tornou o som dos reacionários.
Não há público mais coxinha no mundo hoje, em geral, do que o roqueiro. Principalmente o fã de clássicos e de metal. No Brasil, o rock antigo, aliás, se tornou um escudo de arrogância e de sexualidade mal resolvida. Não há ser mais machista e homofóbico do que fã de Iron Maiden (deixando claro que é óbvio que há exceções), por exemplo. Não há no mundo hoje nenhum espaço para a experimentação musical ou para transgressões reais no rock. Com exceção do Radiohead, não creio haver neste instante nenhuma banda que experimente algo obtendo sucesso comercial. Bandas como Brian Jonestown Massacre, Kikagaku Moyo ou Jesus on Heroine estão completamente restritas a públicos minúsculos. O sucesso vem com bandas medíocres sem nenhuma espontaneidade como Killers ou Coldplay. Bandas que fazem músicas perfeitas para propagandas de margarinas ou de tênis. Que sabem fazer um show que sirva como bom pano de fundo para uma selfie.
Não que Queen não gostasse de fazer sucesso. Ou que não gostasse de ter músicas em comerciais de margarina e tênis. We will rock you que o diga. Mas também é a banda que fazia músicas de seis minutos que dificilmente tocaria em rádios e também era a banda que colocava todos os integrantes vestidos de mulher para tocar na MTV americana da era Reagan. O rock atual se tornou basicamente uma coisa de brancos ricos ou de classe média cantando sobre a vida vazia de brancos de classe média que têm como maior dilema a infelicidade com o emprego. Todo espaço para a real criação artística, para a experimentação e para a criatividade migrou para outros sons. O hip hop nos EUA, o eletrônico na Europa e o funk no Brasil. Do ponto de vista artístico, a Pablo Vittar é muito melhor do que qualquer banda de rock surgida no Brasil nesta década. É transgressora, provocadora e criativa. Já o rock brasileiro é medíocre e sem sal.
Nem sempre foi assim. Tirando os anos 80, a história do rock no Brasil foi brilhante. Um começo nos anos 50 com Cauby Peixoto seria a pré-história de um som que explodiria popularmente com a Jovem Guarda. Jovens que inicialmente se limitavam a copiar o Iê-Iê-Iê criariam a grande geração que comporia no futuro alguns dos maiores discos de nossa história, como Ronnie Von e Erasmo Carlos. Do lado menos popular e mais intelectual, surgiam nos anos 60 os Mutantes, talvez a mais experimental banda brasileira. Os anos 70 veriam surgir o que considero o melhor álbum da nossa história, Secos e Molhados e o maior nome do nosso rock, Raul Seixas. O final da década ainda veria aparecer o punk em SP. A onda criativa deu uma parada nos anos 80, com o surgimento de uma onda medíocre de bandas baseadas principalmente nas praias da zona sul carioca e da diplomacia brasiliense. Uma geração formada por jovens ricos que estimulavam o sentimento de vira-latas nacional, com péssimos letristas e instrumentistas ganhando tostões para agradar aqueles que basicamente gostavam de falar mal de tudo. Não há música mais vazia na nossa história do que Que País é Este, da Legião Urbana. O objetivo destas bandas era tirar qualquer componente nacional do nosso rock e fazer algo que ficasse o mais parecido e copiado possível das bandas internacionais. Deu bem errado, mas foi sem dúvida o início da centralização do rock na classe média branca privilegiada das grandes cidades. Nos anos 90, felizmente, o rock ganhou uma sobrevida, com uma geração brilhante de artistas e bandas que voltaram a tentar mesclar o rock com sons nacionais, enaltecendo as origens e criando algo verdadeiramente original. Para citar três nomes, falo de Raimundos, Planet Hemp e, principalmente, de Chico Science.
Não é à toa que no nosso momento atual, com o Brasil invadido por uma onda reacionária, as bandas mais populares do quase falecido estilo sejam as dos anos 80. É inacreditável imaginar que alguém ainda saia de casa e se disponha a pagar um ingresso para assistir a um show do Capital Inicial. Mas tem. Querem cantar algo que os impeça de pensar. Quando algo faz pensar, roqueiro chia. Não é à toa que parte do público vaiou Roger Waters porque ele disse não ao fascismo. Como que alguém que diz gostar de Pink Floyd pode ser fascista?
O rock envelheceu. Está quase morto. Perdeu espaço. Vive de lembranças de uma era gloriosa. Já foi vanguarda. Hoje é o que há de atraso. Coisa de jovens publicitários metidos a empreendedores. De quem vai em bares caros cantar Jota Quest bêbado com uma banda ruim. Poucas coisas são tão simbólicas disso quanto Florence que dá o nome à banda Florence and the Machine na capa da Vogue. Acabou. Quer procurar o espírito que antes era do rock? Está na hora de começar a ouvir funk.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A queda do avião




“A eleição de Jair Bolsonaro é comparável à queda de um avião. Você não pode justifica-la apenas com uma razão”. Li esta frase em algum lugar e não me lembro quem a escreveu. Peço desculpas por não citar a fonte. O objetivo aqui é entender alguns motivos para a “queda do avião”. Já aviso aqui que quem se dispuser a ler esta análise não encontrará por aqui respostas clichês como “falta de autocrítica do PT”, “Ciro ter ido pra Paris” ou “busca pelo novo”. Resumir a eleição de Bolsonaro ao antipetismo é uma tentativa de, mais uma vez, reduzir o debate a esta verdadeira obsessão positiva ou negativa em relação ao PT. Havia várias opções não petistas nesta eleição, a única que era racista, machista e homofóbica era Bolsonaro. Ele venceu porque de certa forma conseguiu “libertar” essas pessoas, que por anos tiveram que esconder seus preconceitos e agora puseram livremente expor suas escrotices. Também não acho que sua vitória tenha sido a busca por algo novo, referindo-me exclusivamente à eleição presidencial. Bolsonaro é o que há de mais velho e tosco na política, tendo sido um deputado irrelevante por 28 anos e passado por diversos partidos corruptos. O objetivo aqui é fugir do clichê.
Algo como Bolsonaro não aparece do nada. É fruto de diversas mudanças, algumas imperceptíveis, que acontecem em nossa sociedade às vezes com o passar de muito tempo. A primeira destas mudanças, que eu enxergo como ganhando força já a partir dos anos 1990, é o crescimento da glamourização da violência. A partir dos anos 2000, ligar a TV à tarde basicamente é ver gente se matando. O discurso destes programas é quase sempre marcado por uma junção entre o incentivo à violência policial e o desrespeito à ideia de direitos humanos, interrompidos por propagandas de todo tipo, desde sistemas de proteção ao automóvel até pílulas que prometem a cura do câncer. Apresentadores charlatões ganharam fama e dinheiro mantendo um telespectador preso em frente à TV com medo, criando nele a percepção de que vivemos no mundo cão. Este processo explica a tara por segurança pública nas eleições estaduais deste ano. Doria ganhou em SP prometendo que, a partir do dia um do seu governo, policiais só atirariam para matar. Também disse que pagaria os melhores advogados para policiais que matassem bandidos. Witzel venceu no Rio colocando em seu plano de governo que a polícia teria o direito de “abater” qualquer pessoa suspeita, sem especificar suspeita de quê. No dia seguinte à eleição, apareceu com um projeto de contratar snipers para matar suspeitos, mesmo que estes não estejam oferecendo riscos à segurança pública no momento do “abate”. O uso deste verbo é importante para mostrar a tentativa clara de desumanizar o outro lado, de forma a ganhar apoio do cidadão de bem. Doria e Witzel propõe um estado psicopata, cuja principal função é matar bandidos. O que deveria ser a última opção do policial se torna a primeira, num processo que não leva em conta nem a segurança da vida do policial. Este processo não se reduz a SP e a RJ. Em SC, por exemplo, foi eleito um coronel da PM que parece com um xerife do Velho Oeste dos desenhos do Pica-Pau.
O processo de glamourização da violência sem dúvidas encontrou o seu símbolo máximo na figura de Capitão Nascimento. O personagem de Tropa de Elite é um psicopata que caiu nos gostos do público. É ele que está no subconsciente popular no momento em que Doria e Witzel fazem propostas que em qualquer lugar decente e civilizado do mundo seriam tratadas como apologia ao crime e que provavelmente seriam suficientes para colocar os dois na cadeia. Nascimento é o cara que resolve problemas matando, desrespeitando direitos humanos e a lei. Uma mistura de Bolsonaro com Sérgio Moro.
Um segundo ponto que indico é a espetacularização do tratamento midiático na Operação Lava Jato. A cobertura da operação para o grande pública foi feita de forma novelesca, dividindo claramente a história entre mocinhos e bandidos. Sérgio Moro descumpriu diversas vezes a lei e agiu de forma política, sem que houvesse quase nenhum tipo de crítica da grande mídia. Tudo valia para colocar “os bandidos na cadeia”. A parte mais tosca deste processo é a forma como condenação virou sinônimo de justiça e absolvição de impunidade. Toda vez que Gilmar Mendes mandava soltar alguém o objetivo era simplesmente ridicularizá-lo, sem que ninguém se preocupasse minimamente em entender os motivos que levaram o juiz a libertar o réu. Expedientes moralmente questionáveis como o abuso de prisões preventivas e de delações premiadas sem provas foram aplaudidas. Não tenho dúvidas de que as delações premiadas da Lava Jato estão incentivando a população a aceitar a forma como deputados bolsonaristas e o próprio presidente eleito estão incitando crianças a filmarem professores na sala de aula. Governos autoritários tendem a transformar a população civil em vigilantes. A mídia especializada preferiu defender um combate à corrupção seletivo feito de forma ilegal ao invés de defender as instituições que garantem o funcionamento da democracia.
Um terceiro ponto é a degradação do debate político e a transformação do político profissional em alvo de chacota. Neste processo julgo como fundamental a ação do programa CQC, que abordava políticos de forma agressiva e editava as matérias de forma a fazê-los parecer o mais ridículo possível. O argumento é que somos nós que pagamos os salários dos políticos, desta forma podemos trata-los mal. O que está por trás desta “ideia” é que basicamente o patrão pode tratar o empregado como bosta. As perguntas-ataques eram feita de forma a impedir qualquer chance de resposta do político, de forma que o repórter sempre “lacrasse”. O que o CQC fazia era basicamente o que o MBL passou a fazer, uma operação em que o político servia de escada para o herói-repórter, que saia como herói do conflito. Numa situação em que a mídia busca tratar políticos como idiotas, nada mais natural que se destaque o que é mais verdadeiramente idiota, no caso Bolsonaro. Ele sabia e sabe lidar bem em situações em que não tem tempo para falar nada porque não tem nada para falar. Bastava xingar alguém e aparecer como “mito” para a parcela da população que odeia tudo. Bolsonaro soube usar como ninguém o espaço dado por programas de subcelebridades dispostos a qualquer polêmica em troca de algum ponto de audiência.
O quarto ponto que eu destaco é um apontado por Wilhelm Reich em Psicologia de Massas do Fascismo que é a economicidade da vida. As pessoas passaram a ter como únicas preocupações na vida o emprego e a renda. Tudo vale para ter algum emprego e um salário. Usando a eleição americana como exemplo, o “cidadão de bem” americano não se importa em saber que uma família imigrante vai ser separada e destruída como uma expulsão do país desde que isto o ajude a arrumar um emprego. Economistas em geral não se envergonharam ao se juntar com um político com as características de Bolsonaro que, para conquistar ao mercado, adotou ideias neoliberais. Os possíveis ataques a gays, movimentos sociais e minorias em geral são coadjuvantes perto dos ganhos que eles podem obter com as privatizações de estatais. Parte desta enorme decadência moral é fruto da forma como a educação sempre foi vista no Brasil. A função da educação sempre foi mais formar mão-de-obra do que formar cidadãos pensantes. Desta forma, o brasileiro médio com diploma só acha que ele faz sentido se conseguir um emprego melhor e mais dinheiro com ele. O brasileiro com diploma e desempregado acha que a faculdade foi uma perda de tempo, uma vez que não cresceu absolutamente nada como pessoa. O governo do PT, embora tenha trazido avanços gigantescos nesta área, de certa forma incentivou esta ideia. O Ciência sem Fronteiras, por exemplo, abarcava apenas matérias de ciências exatas. O processo de desvalorização das ciências humanas ajuda a explicar a facilidade com que as pessoas desvalorizam a vida humana e buscam explicações simplistas para problemas complexos. O Brasil passa, a meu ver, por uma espécie meio tosca de Reforma Protestante, com o crescimento das Igrejas Evangélicas. Não há dúvida de que elas fazem sim um trabalho importante em dar um sentido à vida de muitas pessoas e em agir em regiões em que o estado está completamente ausente. É fato também, que elas têm um claro projeto de poder, especialmente a Igreja Universal. Não à toa, a TV Record já assumiu o papel de TV Oficial do novo regime. O que está versão tosca de reforma está trazendo de mais importante, porém, é a ideia de que o trabalho é o valor máximo, o único meio de se demonstrar caráter e importância social. Não à toa um dos xingamentos favoritos de todo bolsonete a seus adversários é "vagabundo".
Um quinto ponto que eu enxergo é a forma como todas as enormes evoluções sociais que passamos nos anos 2000 foram caracterizadas por uma maioria como “politicamente correto” e como o combate a este “politicamente correto” se tornou a prioridade, especialmente entre homens, brancos, héteros e ricos / classe média. Numa sociedade com uma quantidade enorme de problemas, uma parcela da população com muito espaço na opinião pública transformou o combate a uma ideia que tem no nome a palavra “correto” em prioridade. Deu certo. Tudo que tentou ou tenta combater desigualdades passou a ser visto como coitadismo.
Outros motivos podem existir, claro. Ainda estou, por exemplo, tentando pensar de forma mais clara numa teoria da infelicidade e do ódio que atinge atualmente pessoas de uma certa faixa etária, que não tiveram seus sonhos realizados na vida e que por isso querem basicamente que tudo se foda. Outro motivo é a forma como as redes sociais uniram pessoas idiotas, que anteriormente tinham suas opiniões absurdas refutadas e que agora veem seus egos aumentados a cada curtida em posts com preconceitos.  O fato é que o avião caiu. Os possíveis estragos são enormes. Cabe a quem enxerga isto tentar diminuí-los. E isto exigirá uma participação política e social que não pode mais ficar restrita apenas às eleições. Política, mais do que nunca, tem que ser feita no dia-a-dia.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Lições da mais dura derrota



“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

A definição acima de Darcy Ribeiro define bem o meu sentimento no dia seguinte à vitória de Jair Bolsonaro. A semana da eleição foi basicamente uma contagem de tempo para um salto no abismo. Já era certo que o país optaria por eleger aquele que considero a pior pessoa já eleita para qualquer cargo público em qualquer lugar do mundo desde o fim da Segunda Guerra. Pode ser desconhecimento, mas se alguém souber de algo semelhante a esta eleição de Bolsonaro no período pós-45, me avise. Bolsonaro é um deputado completamente insignificante, sem nenhum projeto minimamente importante realizado em três décadas de mandato. Conquistou fama graças a aparições polêmicas em programas de subcelebridades, dispostos simplesmente a criar polêmicas em troca de um ou dois pontos de audiência. Obteve fama única e exclusivamente graças a ofensas e agressões. Estimulou preconceitos, revisionismos históricos e enalteceu torturadores. Muito se falará sobre quem é o culpado por isto. A culpa é simplesmente de quem votou nele. De mais ninguém. Não foi falta de informação que levou a maioria da população a eleger uma pessoa com este histórico. Todo mundo sabia em quem estava votando.
A grande lição que tiro desta eleição é como o excesso de privilégios em que fui criado fez com que eu criasse uma espécie de bolha interna que me tornasse incapaz de enxergar a verdadeira natureza da sociedade brasileira. Passei boa parte da eleição acreditando que qualquer um que fosse para o segundo turno contra Bolsonaro venceria. Imaginei que um candidato racista, machista e homofóbico jamais teria alguma condição de receber mais da metade dos votos e que a população seria capaz de reconhecer que preconceitos como este e tortura são coisas piores do que corrupção. Eu estava tremendamente enganado. Bolsonaro ganhou exatamente porque é assim e conseguiu de certa forma “libertar” os preconceitos que a maioria da população possui e deixou de se envergonhar. O Brasil é o país que é, desigual em todos os sentidos, porque há uma forte conivência da maior parte da sociedade. Somos uma sociedade formada por seres extremamente individualistas, que são basicamente incapazes de sentir qualquer tipo de verdadeira empatia com sofrimentos e preocupações alheias.
Desfiz amizades que não serão refeitas após as eleições. Acredito que não há espaço para pessoas que se dispuseram a ser cúmplices da ascensão de uma pessoa como Bolsonaro na minha vida. Vi pessoas que eu amava relativizando tortura e fazendo piadas preconceituosas. Decepcionei-me com parentes. Mas também vi muita gente com quem tenho enormes divergências políticas deixando diferenças de lado para lutar pela democracia. Pessoas que, com motivos, detestam o PT, mas que se puseram na luta pela democracia e pelos direitos humanos. Vi o quanto estas pessoas eram criticadas por pessoas próximas a elas, sem que desistissem. Dizem que às vezes são nos piores momentos que atos heroicos são capazes de aparecer. Se perdi amigos e sofri ao ver familiares escancararem seus preconceitos, pude também ver surgir em mim um sentimento de admiração por pessoas com as quais tinha apenas contato e pelas quais hoje tenho um grande respeito.
Supervalorizei o Brasil. Nossa história é basicamente composta de sangue e exploração. De escravidão e desigualdade. A nossa realidade é esta, o que vivemos entre 1994 e 2014 não passou de um breve sonho. Um breve sonho que melhorou a vida de muitas pessoas. Mas que incomodou outras. Bolsonaro e seus adoradores dizem sempre que queriam “tomar o Brasil de volta”. Conseguiram. Uma longa noite nos espera. Mas resistiremos. Ainda somos muitos. Já aviso, será difícil nos varrer. Em sua primeira entrevista, Bolsonaro já propôs um genocídio a movimentos sociais, do qual tratarei melhor no parágrafo seguinte e ameaçou a mídia livre com corte nas verbas públicas. Isto porque está “pegando leve”.
O momento exigirá reflexão e muita cooperação. Para começar a enfrentar isto, ajude. Converse. As primeiras vítimas de Bolsonaro, muito provavelmente, serão os movimentos sociais. Bolsonaro já deixou claro que os tratará como “terroristas”, numa clara tentativa de desumanizar as pessoas que fazem parte destes movimentos, garantindo assim o apoio da massa acéfala ao já presumível massacre. É o que todo regime autoritário faz. Por isso, a melhor resistência é fazer parte de algum. Minha indicação para quem mora em SP é o MTST. Moro no centro da cidade e vejo o trabalho maravilhoso que esta turma faz, ocupando prédios abandonados na maioria das vezes por algum playboy vagabundo, que tem o prédio como herança e não pode derrubá-lo, por ser tombado, e basicamente deixa o imóvel vazio e descuidado à espera que ele caia.
O mar da história é agitado. A minha geração ainda não havia passado por nenhuma grande privação ou teste histórico. A hora chegou.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O tio burro




Daqui a uma semana é muito provável que Jair Bolsonaro já tenha sido eleito presidente do país que representa a nona economia do mundo. Falando apenas de termos técnicos inicialmente, deixando as gravíssimas questões morais para o decorrer da análise, não lembro de na história do planeta alguma pessoa tão despreparada e ignorante assumir um cargo tão importante. Bolsonaro está sendo eleito para o cargo mais importante do país sem ter apresentado nenhuma proposta realmente boa sobre nenhum termo e sem ter nenhum especialista, à exceção de Paulo Guedes, participando da criação de um plano de governo. Também será eleito se recusando a participar de debates ou de entrevistas no segundo turno, ameaçando a imprensa que “ousa” questioná-lo. Foi deputado por 28 anos, tendo um desempenho medíocre baseado na defesa dos interesses da classe militar. Conquistou fama graças a participações polêmicas em programas de subcelebridades, onde saia falando merda e ofendendo pessoas com base em achismos preconceituosos. Uma pessoa completamente insignificante. Bolsonaro é mais ou menos como aquele tio lunático que quase todos têm na família, aquele que é extremamente burro e não sabe, que só fala merda baseado em nada e cuja solução para quase todos os problemas do planeta costumam incluir assassinatos e prisões. Basicamente um cara como o tio burro vai ser eleito presidente.
A principal discussão da semana que vem será de quem é a culpa pela vitória de Bolsonaro. Muitos falarão que a culpa é do PT, que seria o “responsável” pelo surgimento de Bolsonaro. Outros falarão que é de Ciro, que foi passear na Europa ao invés de ajudar Haddad. Whatsapp, mídia, twitter também estarão entre os responsáveis. Pouco se falará, porém, sobre aquela que deveria ser a constatação mais óbvia desta eleição. A culpa pela vitória de Bolsonaro terá sido de quem votou nele. E mais, Bolsonaro terá ganho porque a maioria do país é exatamente como ele. Racista, homofóbica, machista e guarda dentro de si a mais perigosa união que existe, a da ignorância com a arrogância.
Fomos incapazes de enxergar que somos uma sociedade formada em sua maioria por tios burros da família. Sou um homem branco, de classe média e privilegiado. Esta eleição é a prova de como fui cego para a sociedade que me ronda. Passei boa parte da eleição calmo, achando que era impossível que uma pessoa como Bolsonaro recebesse mais da metade dos votos. Em boa parte do tempo, inclusive, acreditava que Bolsonaro não fosse capaz nem de chegar ao segundo turno. Pensava eu que a galera estava dizendo que ia votar nele por estar puta, mas que, ao ser confrontada com as coisas que ele já disse, com suas propostas de genocídio contra minorias, suas falas contra homossexuais, sua visão sobre mulheres etc, suas intenções de voto iriam cair e o PSDB chegaria ao segundo turno. O que aconteceu foi exatamente o contrário. Bolsonaro apenas subiu com a aparição de vídeos em que ele diz que crianças homossexuais devem apanhar, que quilombolas pesam “arroubas”, que fraquejou ao ter uma filha mulher. Também cresceu quando seu vice disse que o Brasil havia herdado “a malandragem dos negros e a indolência dos índios”. Bolsonaro tirou a máscara de todas estas pessoas, que puderam graças a ele expor seus ódios e preconceitos sem nenhuma vegonha. Lembro-me que conversava com um amigo negro na época em que eu supervalorizava a decência da sociedade brasileira e ele me dizia que eu estava errado, que a sociedade era uma merda e que Bolsonaro tinha chance. Ele estava certo. Ele sente na pele o que esta sociedade de merda é capaz de fazer.
A vitória de Bolsonaro não tem nada a ver com o que chamam de sentimento antipetista. O candidato já deixou bem claro que vai repetir todos os erros cometidos durante a era petista. Recebeu caixa dois, apoiou corruptos e já está partilhando ministérios entre os bandidos de sempre. O que as pessoas que votam em Bolsonaro odeiam no PT não são os erros, e sim os acertos da era petista. Odeiam o Bolsa Família, o desenvolvimento do Nordeste, as cotas racias, a inclusão de homossexuais. Odeiam qualquer tipo de avanço. Querem que o Brasil, como diz seu candidato, volte 50 anos no tempo. Uma época em que o Brasil era mais pobre, mais desigual, menos inclusivo e praticava tortura.
O típico eleitor de Bolsonaro é completamente incapaz de defender seu candidato com base em algum tipo de dado. A “defesa” é sempre feita com base em ataques, mentiras, deboches e, principalmente, aquilo que chamo de “vitimismo dos privilegiados”. São pessoas que têm as melhores condições de vida possível, mas reclamam porque continuam achando a vida uma bosta. Como acham a própria vida uma bosta, incomodam-se muito com o fato de que a dos outros não esteja tão bosta e sonham com o dia em que todos se sentirem tão bostas. Por isso ficam tão felizes quando imaginam a vida de outros piorando na gestão Bolsonaro. "Ele “vai acabar com as mamatas”, diz o publicitário paulistano que mora em Miami e só vem ao Brasil para passar férias no final do ano.
É inacreditável o grau de concessões morais que estas pessoas se mostram dispostas a fazer, com um sorriso no rosto, para “se livrar do PT”. Ontem, por exemplo, Bolsonaro disse que vai expulsar ou prender aqueles que ousarem discordar do seu governo. Dentre estas pessoas que ele vai expulsar ou prender, queridos conhecidos que vão votar no coiso, não está apenas a Gleisi, o Lindbergh ou a grande tara de vocês, o Lula. Estão pessoas como aquele seu amigo esquerdista do facebook, que você acha chato e que tá viajando, aquele amigo gay, do qual você diz ser amigo, mas que não se importa com o fato de que ele pode ser agredido nas ruas em função do discurso do seu candidato. Estou eu.
Vivemos numa sociedade que se mostra intolerante. Que aprova tortura. Que aprova homofobia. Que aprova machismo. Que aprova o racismo. Uma sociedade que quer massacrar minorias. Assim como seu tio burro. Houve uma época em que eu achava as merdas que o meu tio burro falava engraçadinhas e inconsequentes. Não eram. Nunca foram. Eu era alienado. Nós éramos alienados. Fomos extremamente condescendentes com os absurdos e preconceitos de pessoas que amamos. Como o tio burro. O tio burro que não se importa com a vida de ninguém. Só com a dele. O tio burro está muito próximo de triunfar. A principal "proposta" de Bolsonaro para educação é o Escola sem Partidos, projeto que pretende praticamente extinguir o ensino de ciências humanas na escola. O tio burro gosta deste projeto, assim seus sobrinhos ficarão mais parecidos com ele. Esta eleição nada mais é do que isto, o triunfo do tio burro.