sábado, 6 de outubro de 2018

Tropa de Elite e os indícios do fascismo



Antes de começar o texto em sim, acho importante afirmar que não acho nunca que uma obra de arte seja de alguma forma responsável por algo. Acho que ela é sempre importante principalmente pela forma como consegue representar a sociedade. Acredito também que seja a arte a melhor forma de entender a história. Poucas coisas são melhores para entender a contracultura americana dos anos 60 do que ouvir Jefferson Airplane. Ou compreender a Revolução Russa a partir de Maiakovski. Nada é melhor para entender a culpa alemã do pós-guerra do que ler Dr. Fausto de Thomas Mann. Ou, nos últimos tempos, o funk ostentação como símbolo da era Lula. Jovens que enxergavam em bens de consumo o caminho para a felicidade e queriam ostentá-los. A ideia de que a felicidade e o valor estavam basicamente no consumo. Note que o objetivo aqui não é discutir qualidade. É discutir o papel fundamental que a arte tem de representar sociedades ou de funcionar como previsão de algo.
O fascismo já triunfou na sociedade brasileira. Ele não surgiu do nada de agora. É fruto de uma construção temporal. Fruto do hábito. O maior símbolo disto é a aceitação. Primeiro aceitamos que Bolsonaro teria 20% dos votos. Lembro-me da época em que eu dizia que achava um absurdo que um quinto do país votasse num fascista. Depois nos habituamos a achar que era normal ele ir para o segundo turno. Pois bem, ele pode ganhar no primeiro, coisa que não acho que vai acontecer, mas...
Em 2007 era lançado o filme Tropa de Elite. Foi possivelmente o maior sucesso do cinema nacional neste século. Posso estar errado, talvez Cidade de Deus ou aquelas farofadas da Globo Filmes tenham feito mais sucesso. Mas sinceramente não lembro de nenhum filme com mais repercussão do que Tropa de Elite. O herói do filme é Capitão Nascimento, um policial do Bope que procura alguém para substituí-lo. Uma pessoa com enormes problemas psicológicos, um pirado, ou um “cidadão de bem”. Nascimento considera-se numa missão nobre, combate bandidos. E no combate aos bandidos, vale tudo. O capitão tortura, agride e mata, tudo para deleite do público. Faz isto em nome do seu conceito de “bem”. O personagem principal do filme, a meu ver, na verdade é Mathias. Uma pessoa que tenta unir o estudo do direito à atividade policial. O filme mostra como Mathias vai abandonando a lei e se tornando cada vez mais como Nascimento até a cena final, em que o futuro capitão atira na cabeça do bandido, encontrado graças à prática da tortura, com a câmera na posição do bandido. O filme termina e o cinema composto por pessoas brancas de classe média em que eu assistia o filme delirou.
A grande sacada do diretor José Padilha neste filme foi, a meu ver, a ideia de ter um locutor que narrava o filme o tempo todo, impedindo assim que o espectador de realizar algum tipo de reflexão ou interpretação enquanto assistia ao filme. Não à toa Padilha repetiu este instrumento nas outras porcarias que fez dali pra frente. Em Narcos, da qual consegui assistir a um episódio inteiro, e em Mecanismo, no qual desisti na metade do primeiro episódio. A primeira função deste instrumento é, como já dito, impedir que o espectador tenha o apoio do silêncio para a reflexão e interpretação. As pessoas não têm tempo e nem saco para isto. Elas vão ao cinema hoje em dia, em geral, para comer pipoca e passar o tempo. A segunda é colocar o personagem principal numa situação quase divina. A voz que narra é a dele, que parece ser onisciente, onipresente e onipotente. Nascimento está em todo lugar ao mesmo tempo e é capaz de sabe quem merece a punição ou não. A lei é um detalhe. Há algo acima da lei que se pode chamar de, sei lá, “bem”, que justifica tudo. A tortura era aplaudida nas telas. Se em Tropa de Elite era o policial que era endeusado por desrespeitar a lei, em Mecanismo era o juiz. Entendeu a relação?
A grande sacada da campanha de Bolsonaro até agora é apresenta-lo da mesma forma como Padilha apresentava Nascimento. Não há nenhum espaço para reflexão e interpretação. Visões mentirosas e agressivas da sociedade são repetidas impedindo qualquer espaço para pensamento. Como os “maconheiros da PUC”, que são apresentados como hipócritas pela voz divina de nascimento, a “esquerda caviar” é o inimigo que tenta impedir Bolsonaro Nascimento de fazer o “bem” matando. Como “esquerda caviar” eles conseguem encaixar basicamente tudo que não os representa. Mulheres feministas, movimentos negros, gays. Todos são vistos como inimigos hipócritas.
Assim como Mathias, os eleitores de Bolsonaro abandonaram o conhecimento como a forma de encontro de soluções. Mathias larga Foucault e vai resolver no fuzil. Os eleitores de Bolsonaro quase gozam imaginando o corte que seu presidente fascista pretende fazer nos gastos com cultura. Ela não serve para nada e não resolve nada, pensam eles. A queima de livros não faria diferença em suas vidas, a maior forma de comunicação deste público é o Whatsapp, afinal.
Os comandantes da campanha Bolsonaro souberam ler seu público da mesma forma que Padilha. É um público incapaz de pensar, que precisa de alguém dizendo o que está acontecendo, se possível de forma simples, através de memes. Uma sociedade que glorifica a violência e quer a morte do que é diferente e incomoda. Que desvaloriza direitos humanos. Vejo uma câmera no papel do traficante morto na última cena de Tropa de Elite. Vejo Bolsonaro chegando com uma arma e matando a democracia, aquela que “não soube resolver nossos problemas”, mesmo que o período de 1994 a 2014 tenha sido o melhor da nossa história. A luz se apaga e o público aplaude. O filme só fez sucesso por causa do público. O problema é o público.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A distopia



Não é raro que fotografias consigam de forma tão perfeita captar o espírito de um momento. O casal se beijando na Times Square virou um símbolo da vitória aliada na Segunda Guerra. A criança vietnamita correndo com o corpo queimado é a maior lembrança dos horrores da Guerra do Vietnã. Sem dúvida a foto que melhor simboliza a distopia que vivemos no Brasil é a que inicia este texto. Funcionários da Havan, uniformizados, coagidos por um chefe lunático, obrigados a participarem de um vídeo ridículo em que ele declara apoio ao candidato Jair Bolsonaro. Olhe para os olhos de cada uma destas pessoas. Veja o grau de submissão e humilhação a que elas são impostas por um chefe incapaz de respeitar qualquer tipo de opinião individual. Repito, olhe para a cara destas pessoas, submetendo-se ao papel de números.
O trabalho embrutece, dizia Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro. No vídeo que gerou esta foto, Luciano Hang ameaça seus funcionários que não estão dispostos a votar em seu candidato. Diz que tirará seu investimento e gerará desemprego se outro candidato ganhar. Em seguida, aparece num palco, numa posição que lembra a de um pastor numa igreja evangélica, onde seus funcionários uniformizados são obrigados a cantar o hino nacional.
A campanha de Bolsonaro e seus adeptos criou algo que considero um fenômeno novo na história do planeta, que é o nacionalismo bocó. Regimes que se propõe a serem nacionalistas costumam valorizar predominantemente a cultura nacional. Afinal, não há riqueza maior para um país do que sua cultura. A França, por exemplo, é mais conhecida por sua cultura do que por qualquer outra coisa. Os milhões de visitantes de Roma, além de ver o papa, vão pra lá atrás da cultura que o lugar oferece. Os EUA se tornaram a potência que se tornaram não apenas pela força econômica, mas pela forma que impuseram sua cultura ao redor do mundo. Isto é diferente no nacionalismo bocó bolsonarista. O desrespeito que eles têm pela cultura brasileira é gigantesco. Para eles, artista é tudo “vagabundo, preguiçoso e maconheiro” e toda verba pública tem que ser cortada para eles. O mesmo acontece com o conhecimento em geral. Bolsonaro foi completamente indiferente ao incêndio do Museu Nacional, por exemplo. Desqualificam todo conhecimento histórico, tentando reescrever a história com base em achismos e preconceitos. À exceção de Paulo Guedes, não há nenhum especialista em absolutamente nada que apõe qualquer coisa na campanha Bolsonaro. Nenhum educador apoia suas sandices. Não há proposta alguma para saúde pública. Suas ideias de segurança pública são rechaçadas por quem estuda o assunto, atendendo basicamente a um lobby da indústria de armas que sonha em lucrar com a generalização do porte de armas no país.
A campanha de Bolsonaro é um grande nada repleto de preconceitos e ódio. Uma mistura de antipetismo, machismo, homofobia, glorificação da violência e ignorância, repleto de símbolos nacionais que por si só não significam nada e com a anuência criminosa de setores da economia, que não se importam em promover um verdadeiro genocídio desde que isto signifique ganhos na Bolsa de Valores. A elite econômica usa a onda Bolsonaro para realizar alguns sonhos. Não querem perder esta chance única de eleger um candidato que se dispõe a acabar com o 13º salário e com os direitos trabalhistas, tudo isto com a legitimidade das urnas. A campanha de Bolsonaro é uma grande negação do conhecimento. Não à toa se baseia basicamente em informações falsas e visões de mundo paranóicas. Verdade e conhecimento andam lado a lado, quem não se preocupa com um não se preocupa com o outro.
Bolsonaro propõe uma tirania das maiorias. “As minorias devem se submeter à vontade das maiorias”, diz ele em vídeo. A tirania das maiorias é o grande risco da democracia, algo previsto tanto na Antiguidade Clássica por Aristóteles quanto na democracia moderna, por Tocqueville, por exemplo. Foi por este motivo que Montesquieu concebeu a ideia de separação dos poderes. Executivo, Legislativo e Judiciário funcionariam de forma independente, se vigiariam e impediriam que as minorias fossem massacradas pelos interesses da maioria. Pois bem, imaginemos um Executivo de Bolsonaro. A previsão para 2018 é que mais da metade do nosso Legislativo será composto por integrantes de três bancadas: agronegócio, lobby das armas e igrejas evangélicas. As três categorias apoiam Bolsonaro. O Judiciário, nesta semana, deixou muito claro quem é seu candidato. Após prender e impedir a única pessoa que derrotaria este candidato nas eleições, o juiz Sérgio Moro liberou, a uma semana da eleição, uma delação ainda sem provas com diversas acusações contra o partido que o enfrentará no segundo turno. Sua esposa usa redes sociais para declarar apoio implícito a Bolsonaro. Juiz Marcelo Bretas, chefão da Lava Jato no Rio de Janeiro, faz o mesmo. O presidente do Supremo, Dias Toffoli, declarou que o Golpe Militar de 1964 deve ser chamado de Movimento e proibiu uma entrevista porque ela poderia ajudar o concorrente de Bolsonaro. Brasil acima de todos e Deus acima de tudo, diz Jair Bolsonaro. Mas a frase poderia tranquilamente ser de Deltan Dallagnol, o procurador da Lava Jato que propõe o fim do habeas corpus e das limitações à prisão preventiva. Nenhum dos outros dois poderes parará as loucuras de Bolsonaro no Executivo. Pelo contrário.
Brasilien über alles, diz a versão brasileira do fascismo. Olhe mais uma vez para a foto que deu início a este blog. É isto que estamos nos tornado. Um horror inimaginável nos espera. Quem se abstém disto é cúmplice. Lembro-me da história de um conhecido meu, que trabalha em um banco no Itaim. Contava ele que em 2014, um amigo dele havia ameaçado e por fim pago a empregada doméstica para que ela prometesse votar em Aécio em 2014. Ele e seus amigos riram da história. Vivemos uma grande distopia. Que pode estar apenas começando.


terça-feira, 2 de outubro de 2018

MÁRTIR


Previsões catastróficas são escritas por dois tipos de pessoas: as que desejam que aquilo não ocorra de jeito nenhum e as colocam o bem estar social abaixo do seu próprio ego e torcem para estarem certas. Porém as previsões catastróficas somente são publicadas com o discurso do desejo de que elas não se realizem. A minha premissa sobre escritores apocalípticos me coloca em descrédito, porém eu não desejo que o Brasil eleja Jair Bolsonaro.

Ao contrário do que pensa o Cabo Daciolo, a união das esquerdas é impossível. Se na Ursal derrubaremos unidos as fronteiras da América Latina e criaremos um grande país comunista, na vida real não conseguimos nem fechar questão em torno de uma candidatura presidencial brasileira. O grande culpado é o PT e o resultado de tudo isso conheceremos em até 1 mês, data em que, tomara, esse texto seja finalmente um punhado de análises infantis de um blog.

A candidatura de Lula é parte da defesa do presidente. Gleisi Hoffman já disse que a possibilidade de não ter Lula na cabeça de chapa seria como abandoná-lo e endossar o golpe, que só restava ao partido seguir com a candidatura até o limite. O limite chegou em 11 de setembro, quando Haddad assumiu a dianteira da campanha.

O partido de 38 anos e qualquer brasileiro de 12 sempre souberam que o poder judiciário brasileiro é o golpe, custa imaginar que alguém dentro do PT acreditasse cegamente que a apelação surtiria efeito e em um simples passe de mágica o TSE aprovasse o barbudo na urna. O ministro Barroso do STF, inclusive, tentou cercear de todas as formas o uso da imagem de Lula pela campanha de Haddad. Sergio Moro retirou o sigilo da delação de Palocci restando 6 dias para o pleito, além da mais recente guerra de togas no STF em torno da entrevista de Lula à Folha de São Paulo, absurdos totalmente previsíveis já que, como dizem, “de onde não se espera nada, daí é que não vem nada mesmo”.
Lula é o maior presidente da história brasileira. Há quem diga que ele é o maior presidente mundial do século 21, concordo com as duas teorias. Lula tem competência para erradicar a fome, melhorar a economia, impulsionar o consumo (muitas ressalvas aqui), fazer política externa como poucos, estreitando relações tanto com os países vizinhos quanto com o G8. Lula só não tem vocação para ser mártir.

Ninguém pode exigir sacrifícios do outro. Não podemos pedir que Lula seja Mandela. Retirar-se do cenário eleitoral em 2018 seria retirar dos autos mais arbitrariedades judiciárias necessárias para a argumentação internacional de prisão política. O fato é que a indissociável imagem de Lula e do PT gerou uma relação de gratidão e dependência. Se alguns pensavam que a indicação petista de Lula e, principalmente, a manutenção dessa indicação às portas da eleição, tenha sido a visão egoísta de um partido que tudo faz pelo poder se enganou, a candidatura é uma recompensa ao militante mais importante do partido. O PT colocou Lula à frente do Brasil.

Mais claro do que o golpe era a forma de acabar com ele agora em 2018. A união dos dois principais partidos de esquerda do país era vista por todos como a maneira mais fácil de barrar o processo de destruição social imposta pelo impeachment e o desgoverno dos últimos 4 anos. Ciro/ Haddad soava como música aos ouvidos de grande parte da fragmentada esquerda, seria o descanso do PT, a oportunidade do experiente Ciro e a projeção de Fernando Haddad, o futuro do Partido dos Trabalhadores.

Em uma análise pragmática, com o objetivo de barrar a ofensiva do golpe, essa seria realmente a melhor opção. Um candidato conhecido no país inteiro, com reputação ilibada, que fez do nordeste o seu reduto político e com pouca rejeição. Tudo isso com o apoio de Lula formaria a equação básica da eleição, quem sabe em primeiro turno. O PT não quis assim e preferiu seguir a agenda da defesa de Lula.

Com essa estratégia o PT decidiu arriscar e como disse Ciro "é a estratégia que leva o país a dançar na beira do abismo".
Estamos a 5 dias das eleições. Estranhamente Bolsonaro subiu após as manifestações do #elenão e hoje há um empate técnico entre Bolsonaro e Haddad no segundo turno. O duelo de rejeições será a temática e por mais incrível que pareça não sei se o Brasil ficará com o antipetismo ou com o antifascismo. É hora de salvar o primeiro turno e acreditar na máxima de que o segundo é outra eleição.

Esse post está longe de ser uma ode ao Ciro Gomes. Admiro a coragem de Fernando Haddad, que ignorou a reeleição para poder fazer na capital paulista o que era necessário à população, o prefeito que enfrentou a divindade automotora paulistana para fazer prevalecer o transporte público e as bicicletas. Sou o típico Haddiro e voto 12,5. Meu voto será útil, baseado nas pesquisas de boca de urna.

Justamente por esse pensamento de “tanto faz” queria vê-los juntos, mas unidade é um sentimento que não existe na Ursal. Outra coisa que eu gostaria de ver era o PT diminuir o campo gravitacional em torno dele, gostaria de ver o principal partido político do país pensar primeiro no que fazer para erradicar o fascismo. Lula teria o poder para mudar, uns dizem que não o fez por ser narcisista, mas eu acredito que simplesmente escolheu não ser o mártir, e nem tem a obrigação disso. Costumo dizer que o PT foi para o ALL IN, e com as nossas fichas.


Digressões sobre a Lava Jato, o fascismo, a barbárie e o hábito



A Lava Jato perdeu totalmente a vergonha de deixar claro qual seu candidato nesta eleição. Após anos de bajulação e de aprovação incondicional de boa parte da grande mídia e da opinião pública, a Operação não sente mais necessidade nenhuma de esconder seu caráter fascista. São anos de abusos e arbitrariedades que culminaram na situação tosca que vivemos atualmente. Apenas nos últimos três dias, vimos o juiz Marcelo Bretas, chefe da Operação no Rio, deixar implícito em suas redes sociais seu apoio ao candidato fascista. O mesmo ocorreu com Rosangela Moro, esposa do “sub-Deus” da Lava Jato, que postou em seu Instagram uma mensagem desrespeitosa às mulheres que participaram do protesto do #elenão. Uma semana antes, havia postado fotos de pessoas apoiando o impeachment com a frase “tudo aquilo não foi para nada”. Após dedicar o mês de setembro a ações cinematográficas contra políticos do PSDB do PR e de SP, com prisões desnecessárias, Moro decidiu, faltando seis dias para a eleição, que era hora de tornar públicas as delações realizadas por Antônio Palocci, delações que não haviam sido aprovadas pelo próprio Ministério Público por falta de provas, aliás.
Palocci está preso há dois anos. Pelo acordo de delação, terá sua pena reduzida em dois terços caso prove o que diz. Você sabe qual a pena de Palocci? Darei um tempo para pensar. Não sabe? Sim, a pena ainda não existe. Palocci está HÁ DOIS ANOS em prisão preventiva. A prática mais comum usada pela Operação Lava Jato é esta. O uso abusivo da prisão preventiva, de forma não prevista nos preceitos constitucionais, como instrumento de tortura psicológica a fim de obter as informações que julgue necessárias, com ou sem provas. A grande “contribuição” que a Operação Lava Jato deu a esta onda fascista foi sem dúvida esta. A forma como conseguiu convencer a maior parte da opinião pública que o desrespeito à lei e a noções básicas de direitos humanos é aceitável em busca de algo que considere um “bem maior”, no caso o combate à corrupção. Todo discurso bolsonarista tem isto como base. Matar pessoas vale a pena se elas forem cometer crimes, derrubar a democracia é válido para impedir que viremos uma Venezuela etc.
Uma onda fascista como a que vivemos não surge por acaso. A barbárie é fruto de anos de preparação. Para quem se interessa pelo tema, os meus dois livros favoritos sobre este assunto são Gostaríamos de informa-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias, de Philip Gourevitch, e Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt, o primeiro tratando do genocídio dos tutsis praticado pelos hutus em Ruanda no ano de 1994, e o segundo tratando sobre os séculos de perseguição aos judeus na Europa que culminaram com o Holocausto. Mostra Arendt que os séculos de perseguição aos judeus fizeram com que a sociedade em geral se acostumasse com a ideia de tirar direitos daquela parte da população, até o momento em que o único direito que ainda restava para ser tirado era a vida. Gourevitch parte desta mesma ideia para explicar a forma como o genocídio em Ruanda foi de certa forma quase normalizado pela população local. Tanto o Holocausto quanto o genocídio de Ruanda, argumenta brilhantemente os autores, foram praticados por pessoas “normais”, daquelas cuja única preocupação na vida é pagar as contas. A barbárie se torna um hábito.
A barbárie já é um hábito. Moro no centro de São Paulo. Basta descer na estação Sé do metrô e vir até a estação República, onde moro. Pessoas completamente abandonadas pelo poder público e pelo resto da sociedade de classe média, que vai tocando a vida se trancando em condomínios-presídios. Acostumamo-nos. A Prefeitura de SP apresentou um projeto para tirar a cracolândia da região da Luz e manda-la para Zona Norte. A justificativa é que isto irá valorizar a região. Construtoras já anunciam empreendimentos para a classe média naquela região. Estúdios de 1 dormitório, com áreas de lazer e metrô perto. Na borda da Sala São Paulo. A preocupação é com o lugar, não com as pessoas. Tirá-las de lá é o foco, se possível para um lugar onde elas não sejam vistas. Simplesmente nos acostumamos.
A principal atração que Bolsonaro pratica sobre seu eleitorado é a ideia de que ele vai matar bandido. E na classificação de bandido desta gente entra todo mundo que pode ser visto como diferente. Gays, feministas e petistas, principalmente. Gays devem apanhar na infância, feministas são pouco higiênicas (Rosangela Moro concorda) e petistas devem ser metralhados. Presidiários devem ser obrigados a trabalhar, numa versão moderna de escravidão. A tortura é um instrumento válido e deve ser aplicado na obtenção de informações importantes. Uma próxima etapa do que já faz Moro com sua tortura psicológica. Como um candidato destes está em primeiro? É simples, costume.
Ligando a TV ontem, pude assistir um debate sobre “como o governo Bolsonaro fará para criar empregos”. Tortura, homofobia, racismo, machismo. Tudo isto está em segundo plano para o objetivo supremo de “criar empregos”. A Bolsa sobre com Bolsonaro. Mudando de canal, cheguei num programa que mostrava uma operação policial bem sucedida, com bandidos mortos e policiais sendo premiados. Corte para uma propaganda política, em que João Doria Jr. diz que policial deve ter licença irrestrita para matar. Corte para outra propaganda, com Márcio França condecorando a policial que matou o bandido na frente da escola. Corte para outra propaganda, a policial que matou o bandido concorrendo a deputada federal dizendo que merece o voto do eleitor porque matou o bandido. Volta o jornal, dizendo que foram provavelmente policiais que mataram a vereadora Marielle Franco no RJ. A causa do crime é porque ela denunciava torturas e assassinatos cometidos por milícias policiais em favelas na cidade. Marielle. Negra, lésbica, mulher. Bolsonaro. Tortura, homofobia, racismo e machismo. Marielle é tudo que Bolsonaro persegue. 2018 é o ano em que Marielle foi assassinada e Bolsonaro pode ser alçado à presidência da República. Os assassinos de Marielle estão soltos. Enquanto debatemos empregos. Parece que as ações das empresas fabricantes de armas estão subindo, aliás. É um bom investimento, diz um analista econômico.
Simplesmente nos acostumamos. O que a candidatura que lidera a campanha presidencial é basicamente a formação de um Estado psicopata, que elimina aqueles que causam “problemas e mal-estar”. Basta um passo para que o outro seja dado. Estamos caminhando na barbárie faz muito tempo. Sérgio Moro é só uma etapa. Bolsonaro é a próxima. Já nos acostumamos a Moro.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A Falsa Polarização entre PT e Bolsonaro



A palavra “verdade” vem tendo uma definição extremamente frágil nesta eleição. A impressão que tenho é que cada um tem uma. Tenho uma conhecida que é eleitora do Bolsonaro, por exemplo, que vive claramente num mundo paralelo. Entrar no facebook dela significa ver a paranoia mentirosa em que este tipo de eleitor vive. Com a grande mídia não é diferente. Para tentar ajudar Geraldo Alckmin, criaram a fantasia de que PT e Bolsonaro são “extremos” comparáveis. O objetivo deste texto é tentar mostrar o tamanho desta mentira.
O governo do PT teve inúmeros defeitos. Para citar alguns, posso dizer que sem dúvidas as alianças com partidos inescrupulosos levaram a diversos casos de corrupção. O governo Dilma foi inegavelmente infeliz na condução da política econômica. Não podemos, porém, negar o óbvio: o PT SEMPRE, repito, SEMPRE, respeitou as regras do jogo. SEMPRE tomou suas atitudes de forma a se adequar e tentar vencer de acordo com estas regras. Mesmo em suas derrotas. Aceitou o resultado das urnas nas derrotas de 1989, 1994 e 1998 sem contestação. Tentou reverter o impeachment de Dilma dentro das regras estabelecidas. Tenta reverter a prisão de Lula também dentro destas regras, mesmo com o ex-presidente tendo uma facilidade gigantesca para obter asilo político em outro país. Tenta mobilizar a opinião pública mundial, mas em nenhum momento tentou derrubar as regras válidas. Um exemplo clássico para mim disto é a derrota de Fernando Haddad nas eleições municipais de 2016. Nenhuma pesquisa previa a vitória de seu oponente João Doria em primeiro turno. Quando esta aconteceu, Haddad em nenhum momento tentou contestá-la. Parabenizou seu oponente, montou no dia seguinte um gabinete de transição e participou da cerimônia de posse de seu sucessor. Lula, no final de seu segundo mandato, possuía 80% de aprovação. Isto não foi suficiente para fazê-lo sucumbir à tentação de um terceiro mandato. Recusou-se a alterar as regras. Também não utilizou o instrumento válido do plebiscito para nenhuma mudança constitucional. Ao contrário do que adora dizer a grande mídia, não aparelhou o Judiciário, sendo a perseguição que sofre deste Poder a maior prova disso. Foi Lula quem indicou, por exemplo, Joaquim Barbosa, carrasco petista no processo do mensalão.
A chapa Bolsonaro – Mourão, pelo contrário, já deixou claro que está, com o perdão do termo, cagando para as regras. Bolsonaro já contesta uma possível derrota que ainda não aconteceu, alegando fraude. Já está claro que não aceitará outro resultado que não a vitória. Já disse também que pretende alterar o número de juízes do Supremo de 11 para 21, podendo assim ter um Supremo cuja maioria fosse indicado por ele. Defende o Regime Civil-Militar de 1964 como modelo a ser seguido. General Mourão já disse também que defende uma intervenção militar. Os dois defendem a prática da tortura, incapaz de ser aceita num ambiente democrático, e já avisaram que tirarão o Brasil do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Diz Bolsonaro, entre outras coisas, o grande erro do Regime Militar foi ter matado “pouca gente”.
Outra tentativa que setores da grande mídia faz é de igualar comparar o “fanatismo” do eleitor lulista com o do eleitor bolsonarista.
O eleitor lulista adora Lula basicamente porque ele fez algo que melhorou a sua vida ou a de outras pessoas. O Bolsa-Família tirou o Brasil do mapa da fome. Milhares de famílias humildes viram seus membros mais jovens ingressarem na universidade, realizando um sonho que parecia impossível. A seca no Nordeste deixou de ter o impacto gigantesco que possuía até os anos 1990 graças a programas de apoio governamental. O salário mínimo, que comprava meia cesta básica ao final de 2002, comprava três cestas básicas e meia ao final de 2010. Milhões, desta forma, foram incluídos no “maravilhoso” mundo do consumo, que a publicidade tanto propagandeia como caminho para a felicidade. Cotas raciais foram adotadas na universidades federais, na primeira tentativa real em nossa história de reparar o grande erro histórico formador de nossa sociedade, a escravidão. É totalmente compreensível, portanto, o fato de uma senhora no semi-árido nordestino, que teve graças ao governo Lula, pela primeira vez, acesso a coisas que aqui em SP consideramos básicas, como tratamento dentário, tenha um enorme sentimento de gratidão a este líder. Podemos questionar sim o uso que o PT talvez faça disso, mas não podemos nunca, repito, NUNCA, deixar de respeitar o sentimento destas pessoas, que votam por gratidão a quem os ajudou.
Se a palavra que explica o “fanatismo” por Lula é gratidão, a palavra que explica o “fanatismo” por Bolsonaro é rancor. Se o eleitor de Lula vota no PT porque a vida de muitas pessoas melhorou durante seu governo, o eleitor típico de Bolsonaro vota no fascista porque quer ver a vida destas mesmas pessoas piorar. Em outras palavras, eles querem que as minorias que representem tudo aquilo que eles não são se fodam. No fundo eles querem que gays se fodam, por isso aplaudem quando seu candidato diz que crianças gays devem apanhar. Querem que negros se fodam, por isso não se importam quando o candidato é racista e faz piadas sobre quilombolas. Querem que mulheres se fodam, por isso não se importam quando seu candidato diz que uma deputada não é estuprada porque não merece. Simulam um ódio ao PT pelos defeitos do seu governo, principalmente a corrupção, mas não se importam em andar ao lado de gente como Eduardo Cunha quando possuem um objetivo em comum. Também simulam que são contra a criminalidade, mas aplaudem quando seu candidato faz apologia ao assassinato, ao estupro, ao racismo etc. Todos estes são crimes muito mais graves que corrupção, mas isto não importa. No fundo o que eles querem é um estado psicopata que elimine tudo que é diferente e que externalize todo o ódio e rancor que eles sentem por uma existência infeliz. Basicamente o eleitorado de Bolsonaro é composto por gente que leva uma vida de merda e odeia qualquer tipo de diversidade. O que explica sua opção por este candidato não é nada de bom que possa ser feito a alguém, mas o que pode acontecer de ruim a outras pessoas. Seres que nunca fizeram nada de ruim a estes eleitores aliás, mas cuja simples existência os incomoda, por serem "diferentes". São pessoas que, no fundo, só sabem desejar o mal e por isso um candidato como Bolsonaro as representa.
O segundo turno que se desenha será entre os dois “extremos” fabricados pela grande mídia Por mais que se fale em economia, a base da disputa será entre sentimentos. De um lado um eleitorado que vota por gratidão, amor, respeito e compreensão, com um partido que sempre respeitou as regras do jogo e a democracia. Do outro, um candidato que representa rancor, ódio, agressividade e julgamento, com um candidato que já deixou claro diversas vezes que não está nem aí para as regras democráticas. Minha dica é, de verdade, afaste-se das pessoas que tem alguma dúvida de que lado escolher no segundo turno. Elas não têm nada a te acrescentar. Aproveite que a eleição está tirando a máscara desta gente e escolha melhor quem faz parte da sua vida.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

O imbecil



General Mourão é um imbecil. É a definição de imbecil. Quando procurarmos a palavra imbecil no dicionário deveríamos encontrar como sinônimo General Mourão. Toda sua retórica é baseada única e exclusivamente em preconceitos e ignorâncias. É uma pessoa que tem ojeriza do conhecimento. Um preguiçoso.
A família “tradicional” brasileira, que imbecis como Mourão dizem defender, não passa de uma invenção fajuta. Este conceito familiar de família composta por pai e mãe criando uma criança nunca foi tradição no Brasil. O que verdadeiramente é tradição no nosso país é a criação sendo tocada por uma mulher, seja ela no papel de mãe, de avó, de empregada doméstica ou de escrava. Esconder isto é esconder o papel covarde e relapso que homens sempre tiveram neste tema. Basta conversar com as pessoas e ver como é difícil encontrar pessoas que tenham duas gerações de famílias como estas que os que se dizem “tradicionais” argumentam defender. Este argumento só serve para que imbecis como Mourão impeçam a sociedade de enxergar a enorme culpa masculina nesta situação trágica e levar a masculinidade a questionar o papel tosco que representou em nossa história.
Segundo o IBGE, aproximadamente hoje temos 26,25 milhões de famílias que hoje não possuem figura masculina, chefiadas única e exclusivamente por mulheres. Isto desconsiderando aquelas em que os pais estão ausentes mesmo sendo presentes. Mulheres que com muita luta e garra se desdobram para manter seus filhos ou netos alimentados. Verdadeiras heroínas. Pessoas que deveriam ser enaltecidas pela sociedade. É completamente inaceitável que um imbecil como Mourão diga que estes lares são “antros de formação de traficantes” e ainda seja aplaudido por uma plateia provavelmente formada por homens. Minha formação foi quase totalmente responsabilidade de duas mulheres, minha mãe e minha irmã. Sinto-me numa sociedade de merda que não valoriza o trabalho surreal que foi para as duas me educar.
Na mesma palestra, o imbecil disse que a política externa brasileira deve deixar de privilegiar a “mulambada da África e da América Latina”. Os imbecis não sabem, mas o Brasil FAZ PARTE disso que o imbecil-mor chamou de mulambada. América Latina e África são nossos irmãos, nossa história é extremamente parecida com a deles. É assim que somos tratados pelo restante do mundo. Deixe-me explicar uma coisa, brasileiros imbecis que concordam com o general imbecil, sabe quando o Trump fala absurdos sobre latinos, sabe de quem ele está falando? Ele está falando de NÓS ! Mais do que nunca é hora de nos unirmos com a “mulambada”, uma vez que sofremos dos mesmos preconceitos e temos os mesmos interesses do que ela. Quando você, brasileiro imbecil, vai passear na Europa e descobrem que você é brasileiro, eles te acham “mulambada”. Pare de querer se identificar com que te trata desta forma e respeite seus irmãos, com quem pode crescer junto.
Se a família não é tradição, sabe o que é tradição neste país? A escravidão, por exemplo. Acho que podemos chamar uma instituição que foi legal por 388 dos 518 anos da nossa história de tradição, o que acha? O genocídio indígena, também é uma tradição. São Paulo é uma cidade que até hoje se orgulha dos genocidas. Basta ver o monumento a eles na entrada do principal parque da cidade. Sabe porque não conhecemos quase nenhum índio? Porque eles foram mortos quase todos. O Brasil tem que é que ter vergonha das suas verdadeiras tradições.
Mourão tem orgulho da palavra tradição. Porque é um imbecil. Imbecil não se preocupa com conhecimento, vai apenas repetindo merdas. Disse o imbecil-mor que “o Brasil herdou a malemolência do índio e a malandragem do negro”. Não é verdade. O que o Brasil herdou foi a arrogância do branco genocida e escravizador. Mas imbecis como Mourão não ligam para história. Querem inclusive tirá-la do currículo escolar. Não ligam, aliás, para especialista algum. Os especialistas em violência pública dizem, por exemplo, que a generalização do porte de armas iria aumentar a violência no Brasil. Mas foda-se. O imbecil vai responder ao especialista com algum meme.
O general imbecil vai para o segundo turno como vice do capitão imbecil. Enfrentará Fernando Haddad, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin ou Marina Silva. Todos com projetos políticos que, discordemos ou não, não são imbecis. A obrigação de quem não é imbecil é votar em qualquer um dos quatro contra a República da Imbecilidade. Será humanidade contra barbárie.

domingo, 16 de setembro de 2018

O Poste



Fernando Haddad é bacharel em direito, com mestrado em economia e doutorado em filosofia. Integrou o Ministério do Planejamento por dois anos e foi Ministro da Educação por sete anos. Durante sua gestão, implantou o Prouni, que permitiu que milhões de jovens brasileiros realizassem o sonho de realizar uma universidade, e realizou a maior expansão do número de universidades federais da nossa história. Saiu do ministério para concorrer à Prefeitura de São Paulo. Exerceu o cargo de prefeito da maior cidade do país por quatro anos. Com experiência de sete anos como ministro e quatro como prefeito, foi lançado como candidato à presidência pelo PT na última semana, após a confirmação da invalidação da candidatura do ex-presidente Lula. É este Haddad, sete anos ministro e quatro anos prefeito, que a mídia apelida de “poste”.
O principal objetivo da adjetivação “poste” é impedir que qualquer debate de qualidade se faça em torno da candidatura Haddad. Um simples desrespeito pejorativo. Dos atuais candidatos à presidência, considero que apenas Ciro Gomes e Geraldo Alckmin possuam mais experiência administrativa do que o petista. Mas tanto faz. O importante é repetir a palavra poste na função de adjetivo para causar o maior dano possível.
Em 2010, dizem os “especialistas”, o “poste” foi Dilma. Ela havia sido a ministra mais importante do país durante seis anos e Lula a escolheu para tentar sucedê-lo. A mídia a acusava de ser “desconhecida”. Um sinal de que ninguém acompanha as “importantes” análises midiáticas afinal, uma vez que a ministra mais importante do país por seis anos era tratada como uma desconhecida. Ganhou, governou e foi reeleita em 2014.
Lula é o principal nome político do país há pelo menos 29 anos. Desde 1989 o cenário que temos é dele contra alguém. Venceu em 2002 e foi reeleito em 2006 basicamente porque praticou a maior distribuição de renda com crescimento econômico da nossa história. Realizou, como já dito no primeiro parágrafo, com a ajuda de Haddad, o maior programa de inclusão de jovens de baixa renda no ensino superior. Aumento o salário mínimo real de meia cesta básica para três cestas básicas e meia. Tirou o Brasil do mapa da fome graças ao Bolsa Família, programa que passou a ser copiado em outros países do mundo, inclusive a Itália. Reduziu drasticamente os efeitos que as estiagens de períodos de seca causam na região Nordeste. Já percebeu como matérias televisivas sobre este assunto escassearam nos últimos anos? Conseguiu tudo isto graças a algumas alianças duvidosas com gente que não presta, é fato, mas é necessária muita ausência de empatia e de humanidade para não compreender e respeitar o amor que uma parcela significativa da nossa população tem pelo ex-presidente. Mais do que isto, a palavra certa talvez seja respeito.
Não há respeito na cobertura eleitoral da grande mídia. Quem assistiu às sabatinas do Jornal Nacional com os candidatos percebeu isto. Os jornalistas se esforçavam para deixar bem claro que eles não respeitavam os candidatos e que fariam o possível não para saber algo sobre propostas, mas para tirá-los do sério. Quase como o CQC ou o Pânico. Marina não teve espaço para fazer nenhuma proposta sobre meio ambiente. Alckmin foi cortado quando tentou falar sobre reforma política. Ciro foi ridicularizado quando tentou explicar seu programa de ajudar pessoas a limparem seus nomes. Tudo que pôde fazer foi pedir às pessoas que entrassem no seu site para descobrir, enquanto os jornalistas o cortavam para perguntar sobre seu temperamento. No momento que eu julguei mais bizarro, Bonner chamou Marina Silva de líder fraca. Marina teve mais de 20 milhões de votos na última eleição. Quem é Bonner para chamar uma pessoa como Marina de “líder fraca”?
Já na primeira fala da sabatina, Bonner chamou Haddad de “poste”. Esta postura deve se repetir nas próximas sabatinas. Haddad não foi perguntado sobre educação ou sobre a revolução que produziu na mobilidade urbana na cidade de São Paulo. Passou os 30 minutos falando, basicamente, sobre casos de corrupção da gestão petista.
Quem acompanha o blog sabe que eu considero Fernando Haddad o melhor prefeito que SP já teve. Produziu, a meu ver, uma verdadeira revolução na cidade. Foi o primeiro a enfrentar verdadeiramente a ditadura do carro, priorizando totalmente o transporte público e a implantação de ciclovias. Priorizou a vida, reduzindo a velocidade nas Marginais, diminuindo o número de mortos na via e aumentando a velocidade média da circulação. Enfrentou a especulação imobiliária com um Plano Diretor extremamente elogiado por arquitetos. Geriu bem as finanças da cidade, tanto que elevou o grau de investimento da capital paulista mesmo durante a crise econômica. Liberou a Avenida Paulista para pedestres aos domingos, criando um verdadeiro parque de concreto aproveitado por milhares de pessoas semanalmente. Redefiniu a forma como o espaço público deve ser ocupado. Criou um programa de acolhimento a usuários de crack, que tiveram chance de tentar um recomeço profissional. Acolheu transexuais com o Programa Transcidadania, que deu cursos e empregos para pessoas que tantos preconceitos sofrem na nossa sociedade.
A população de SP não concordou comigo. Haddad perdeu sua reeleição para um candidato com discurso vazio e oportunista já no primeiro turno. Claramente a maioria das pessoas não compartilha minha visão. Em parte porque a eleição aconteceu durante o ápice do antipetismo, momento em que havia uma percepção de que a corrupção era praticamente exclusividade petista, em parte porque a população da cidade não enxerga com bons olhos as prioridades que Haddad escolheu. Não soube se comunicar com a maior parte da população. Tudo isto é fato. Mas debates políticos devem ser feitos com fatos e não com termos desrespeitosos. Haddad não é o poste de Lula. É o candidato apoiado por Lula. É extremamente capacitado e tem um trabalho pelo qual pode ser julgado positiva ou negativamente. Basta ter respeito.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A beleza de uma partida de futebol horrorosa



Flamengo e Corinthians empataram ontem por 0 a 0 no Maracanã pela primeira partida da semifinal da Copa do Brasil. Foi possivelmente o pior jogo de todos os tempos. Não digo que foi o pior evento esportivo de todos os tempos porque de vez em quando ainda assisto a corridas de Fórmula 1. Num exercício matinal de masoquismo em alguns domingos, fico vendo jovens milionários dando voltas em circuitos desinteressantes em veículos feios, única e exclusivamente porque isto me traz uma nostalgia gostosa da infância, de fazer isto quando criança estando junto do meu pai. Sobre Flamengo e Corinthians, foi horroroso e de uma beleza que apenas quem enxerga no futebol uma metáfora da vida foi capaz de compreender.
Assim como a vida, um jogo de futebol é um grande tédio, marcado por pouquíssimos momentos de emoção em que algo efetivamente acontece. Não importa o quanto uma partida seja boa, ela sempre poderá ser resumida em um compacto de três minutos. Isto quando o jogo é bom. Este Flamengo e Corinthians acho que dá pra reduzir em, sei lá, uns quarenta segundos. Do mesmo jeito que não importa o quão agitada tenha sido uma vida, sempre podemos reduzir 70 anos de experiência num livro de 600 páginas, isto no caso de uma vida realmente agitada.
No futebol, assim como na vida, ficamos um grande tempo parados esperando algo acontecer para que saiamos da mesmice. Este algo, quase sempre, é fruto de mero acaso. Por mais que especialistas, que entendem muito mais do assunto do que eu, fiquem falando na TV sobre esquemas táticos, desenhando aqueles quadrados imaginários no gramado, não consigo tirar da cabeça a impressão de que a maioria dos gols é fruto de puro acaso. É jogar a bola na área e ver o que acontece. É esperar o que o adversário erre e que o jogador do seu time fique de frente para o goleiro. É esperar um frango. Claro que há o componente treino e talento. Mas a maior parte dos gols é fruto de puro acaso, de sorte ou azar.
Poucas coisas são mais legais a meu ver do que assistir um jogo de futebol entre amigos e um deles ir ao banheiro no momento que sai um gol. O desespero desta pessoa saindo do toalete querendo saber o que aconteceu é hilário. Aquele sentimento de “fiquei uma hora assistindo esta bosta e bem quando eu saio acontece algo”. Eu muito raramente vou ao banheiro em jogos do meu time. Tenho sempre a expectativa, muito raramente atendida, de que algo pode acontecer neste exato momento em que eu estiver fora. Então lá fico eu, apertado e assistindo o grande nada.
Assim como na vida, os momentos em que o jogo de futebol sai do tédio são raros e exatamente por isso ficam marcados. Lembro-me exatamente do que estava fazendo em quase todos os gols importantes que o Palmeiras fez e levou desde 1992. Lembro-me de correr pela casa com o Marcos pegando o pênalti do Marcelinho e do silêncio que tomou conta do meu corpo enquanto um amigo corintiano berrava no meu ouvido depois da final do Paulista deste ano.
A principal lição que o futebol brasileiro nos dá é que, não importa o quão grande e “vencedor” seja o seu time, quase sempre o final será uma derrota. No campeonato brasileiro, um ganha e os outros dezenove perdem, por mais que, é claro, existam diferentes graus de derrotas. As vitórias virão bem de vez em quando e as aproveite ao máximo. Nas frequentes derrotas, aceite a zombaria e recomece. Não há nada diferente disto que possa ser feito. Uma graça do futebol brasileiro é o grande sobe-e-desce dos times. O Palmeiras estava na série B em 2013 e foi campeão brasileiro três anos depois. O Corinthians disputou a série B em 2008 e conquistava o mundo apenas quatro anos depois. Do inferno ao céu em um ciclo eleitoral, tudo isto movido a uma sucessão de tédios que duram 90 minutos.
Estou numa fase da vida em que acho que a verdadeira emoção vem do acaso. As melhores e as piores. O encontro inesperado e aquelas peças inexplicáveis que o destino impõe. Bola na área. Seja a favor ou contra o seu time. Isto que talvez tenha tornado a partida horrorosa entre Flamengo e Corinthians uma experiência tão prazerosa.
Na outra partida da rodada, o meu time Palmeiras era roubado em casa pelo Cruzeiro e perdia de 1 a 0. Os tediosos 90 minutos desta partida foram marcados por este erro da autoridade suprema. Reclamações, choros e xingamentos. Mas não há nada a ser feito. Quer algo mais simbólico da vida do que isto? A vida exige certo conformismo afinal. Levanta e tenta novamente, não há nada que corrija o passado.
Assistir a uma partida de futebol num estádio é uma experiência quase divina. Somos oniscientes e onipresentes. Só não somos onipotentes e por isso xingamos aqueles “desgraçados” que não passam a bola na hora certa ou que não conseguem acertar a esfera naquele retângulo enorme. É um grande sofrimento num evento tedioso, marcado por emoções em que a vitória significa quase sempre alivio e a derrota raiva. Quase como um dia de trabalho.
Em duas semanas, Corinthians, Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro voltam a campo para as partidas de volta das semifinais. Estejamos preparados para mais 90 minutos de quase puro tédio, com explosões de alegria, tristeza, alívio, dor, felicidade e raiva de poucos segundos. Estejamos também preparados para mais duas semanas de quase puro tédio, com explosões de alegria, tristeza, alívio, dor, felicidade e raiva de poucos segundos.  Aprenda a lidar com o tédio. A vida é bela. O futebol também é. Não supervalorize as vitórias ou as derrotas. Não humilhe o derrotado nem se humilhe na frente do vencedor. Apenas aprenda e aproveite as experiências. Vitórias e derrotas são apenas momentos de um grande tédio.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Deus e o diabo na terra dos urubus



Adelio Bispo de Oliveira acredita em Deus. Na primeira declaração após sua prisão ocorrida após o ataque que marcará sua pobre existência, Adelio disse que foi Deus quem o ordenou a esfaquear o candidato à presidência Jair Bolsonaro na cidade de Juiz de Fora. O agressor saiu de Montes Claros, cidade em que mora, para realizar o ataque em outro município, o que mostra que ele e “Deus” premeditaram por algum tempo o ato que o tornaria de certa forma ilustre.
Jair Bolsonaro acredita em Deus. Cita-O sempre que possível, sem nem precisar marcar na mão junto com Lula, pesquisas e armas. Citou Deus, por exemplo, em seu célebre voto na sessão de impeachment de Dilma Rousseff, poucos segundos depois de homenagear um torturador que dizia ser “o terror” da vítima. Também O cita em todas as entrevistas, logo depois de defender a prática de tortura, a generalização do porte de armas, a agressões a homossexuais, a desvalorização da mulher etc. Alguns dias antes de ser esfaqueado, disse que estava na hora de "metralhar a petralhada", enquanto simulava uma metralhadora com um microfone. Brasil acima de tudo (Brasilien über alles, a versão tupiniquim do Deutschland über alles de Hitler) e Deus acima de todos são seus lemas.
A crença na existência de uma entidade divina é quase uma necessidade humana. Eu pelo menos desconheço que exista alguma civilização que em dado momento não tenha procurado explicações no sobrenatural. Uma grande sacada foi o momento em que a figura divina foi humanizada. “Deus nos fez a sua imagem e semelhança”. Ao equiparar o homem a Deus, considerou-se o ser humano como o ser superior, aquele que possui os mesmos dons do criador do universo. “Deus está sempre ao meu lado”, costumam dizer aqueles que têm grande fé em sua existência. Se Deus está sempre ao meu lado, estou sempre certo, é o que está por trás desta frase. Deus funciona como um argumento de autoridade para tudo aquilo que é feito por quem acredita Nele, independente disto ser algo moralmente bom ou ruim.
A humanidade tem diversos exemplos históricos de atos bárbaros cometidos em nome de Deus. As Cruzadas, feitas para devolver a Terra Santa ao Deus cristão. A Inquisição, não à toa chamada de Santa, que queimava o corpo e purificava a alma dos pecadores. O Holocausto, realizado por cristãos que queriam punir os herdeiros do povo que responsabilizavam pela crucificação de Cristo. Os ataques terroristas de 11 de setembro. Todas as guerras patrocinadas pelo governo americano. A grande sacada da crença em Deus é esta justificação. Em nome de um Ser invisível, que mora num universo paralelo e vê tudo que fazemos, vale tudo. Matar, torturar e dizer que uma concorrente “merece ser estuprada”.
Janaina Paschoal acredita em Deus. Sua imagem no Twitter é dela segurando uma imagem de santo. Citou Deus várias vezes durante o processo de impeachment, do qual foi a advogada de acusação. Silas Malafaia também acredita em Deus. Enriqueceu graças a ele. O Senador Magno Malta também acredita em Deus. Fez sua carreira política graças a ele. Os três têm em comum que, logo após o ataque, sem nenhum tipo de prova material, acusaram o PT pelo ocorrido. Nenhum dos três pediu desculpas e provavelmente nem pedirá uma vez que já está provado que Adelio é um desequilibrado que agiu sozinho. Pelo contrário, o que farão será espalhar notícias falsas. A verdade não é nada perto da “vontade de Deus”. A verdade não passa de um detalhe insignificante na "Guerra Santa" em que os três vivem. Isto não só para pessoas do lado representado por estas três figuras, aliás. Até agora vejo em minha timeline pessoas de "esquerda" espalhando notícias de que o atentado teria sido uma farsa e que “não saiu sangue” depois da facada. A era das teorias da conspiração.
Jair Bolsonaro creditou a Deus sua recuperação. No lugar dele, eu seria mais grato aos médicos do SUS, profissionais que trabalham em condições precárias e que salvam vidas diariamente. Verdadeiros heróis. Não vi em nenhum lugar o nome deles sendo citados por nenhum membro da sua crente família. O procedimento que salvou Bolsonaro custo ao SUS R$ 347,00. As Santas Casas das cidades de interior estão quebradas, seria interessante aproveitar o momento para falar sobre o papel do poder público no socorro a elas. Mas isto não acontecerá. Também poderia agradecer ao fato de que temos uma legislação que dificulta o acesso a armas de fogo para uma pessoa como Adélio. Numa sociedade como a defendida por Bolsonaro, provavelmente Adélio realizaria seu ataque com uma arma de fogo e provavelmente o “trabalho de Deus” ficaria mais complicado para Bolsonaro e mais fácil para Adélio. Aparentemente o candidato não concorda com esta visão. Sua primeira imagem no hospital após o ataque foi fazendo o gesto de uma arma.
Andar por São Paulo tem sido uma experiência extremamente assustadora neste período pré-eleitoral. Está muito claro que Bolsonaro representa a simbolização de uma fascistização da sociedade, de pessoas que acreditam basicamente na violência como instrumento de solução para todos os problemas. Pessoas paranoicas que enxergam a expansão da ignorância como fator “educacional” e que se sentem livres para espalhar todo tipo de mentiras e preconceitos. Fazem-no sem a menor vergonha. Estão com ódio nos olhos, “em nome de Deus”.
Os momentos que seguiram o ataque contra Jair Bolsonaro foram de euforia no mercado financeiro. Acreditam os investidores que a vitória do candidato fascista se tornou mais próxima agora que ele poderá usar o discurso de vítima. Os urubus pressentem a morte e se aproximam do moribundo enquanto ele convalesce. A democracia brasileira convalesce. “Em nome de Deus”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A política e a ode à barbárie



Tudo aconteceu no dia 12 de maio deste ano, véspera do dia das mães. A policial Kátia da Silva Sartre participava de um evento em uma escola quando um bandido puxou uma arma anunciando um assalto. Kátia então puxou uma e atirou no bandido, que morreria um pouco depois. Não há dúvidas de que a policial fez o certo naquele momento, uma vez que agiu em legítima defesa. Isto, porém, não diminui o fato de que o que ocorreu foi uma tragédia.
Sociedades decentes tratam da forma mais decente possível mesmo as pessoas que agem da forma mais indecente. Mesmo cometendo um erro muito grave, o bandido morto ainda era um ser humano. O que se assistiu após sua morte foi um show de horrores. A mídia transmitia sem parar a imagem de sua morte, glorificando a atitude da policial que, segundo alguns apresentadores, deveria ser repetida e servir como exemplo para outros policiais. “Mate!”. No dia seguinte ao ato, da forma mais irresponsável possível, o governador Márcio França tentou obter ganhos políticos da tragédia. Foi até o Batalhão onde Kátia trabalha para realizar uma homenagem à policial. Chamou a mídia para isto e propôs uma bonificação à profissional. Expôs não apenas a policial a uma possível vingança, mas também falou onde ela trabalhava, indicando quem ela era áte onde trabalhava. Também incentivou mais policiais a agirem da mesma forma. Um verdadeiro urubu buscando ganhos pessoais numa tragédia que terminou com uma vida.
Pois bem, assistia eu o horário político na última quarta-feira quando me surpreendi com a imagem da tragédia. O PR, mesmo partido que tem como trunfo a candidatura de Tiririca, transmitiu sem cortes o momento em que uma vida era perdida. Em seguida, a policial Kátia apareceu, apresentando sua candidatura à deputada federal, dizendo basicamente que faria tudo novamente. O áudio do vídeo em que Kátia age contra o bandido havia sido refeito, de forma que a policial deixa mais claro o que falou ou lembra que falou no fatídico momento.
Sociedades caminham para a barbárie quando perdem gradualmente a humanidade. Vivemos um momento de glorificação da morte. Policiais não são mais vistos como agentes públicos que devem defender a ordem e usar a força apenas quando necessário (O que Kátia fez, aliás. Deixo mais uma vez claro que a policial agiu corretamente naquele caso, o problema é o que veio depois). Toda morte é uma tragédia, mesmo a daqueles que cometeram graves erros. Uma sociedade que se vangloria de uma morte como estas e repete à exaustão o vídeo em que ela ocorre, tendo algum tipo de prazer em assistir este tipo de coisa, tem sérios problemas. Kátia não chega perto de fazer nenhum tipo de proposta durante seu tempo no horário político. O objetivo é simplesmente obter ganho político da morte do bandido numa sociedade com medo e sedenta por sangue. Ganho para ela e para os outros políticos do PR, que pensam em chegar ao Congresso puxados pelos votos da tragédia. A propaganda de Kátia será intercalada com a de Tiririca nos próximos dias. Piada e tragédia andam juntos na sociedade do espetáculo. Paródia e sangue. Escárnio e barbárie.
Dois dos três principais candidatos ao governo do Estado têm policiais militares como vices. Policiais são provavelmente a classe mais vitimada pelo estado de guerra que vivemos. Pessoas em sua grande maioria que vem das classes com menor renda, enviadas para uma falsa guerra contra pessoas que normalmente são também de baixa renda para proteção de um Estado que não dá nenhum valor à vida destas pessoas. Os mesmos governadores que continuarão a pagar salários pífios para pessoas que arriscam suas vidas trazem postes fardados para simular preocupação com o que ocorre. No primeiro debate ao governo estadual, o mesmo Márcio França citou a homenagem que fez à policial como prova do compromisso que tem com segurança. À época, não citou o nome da profissional, provavelmente porque o esqueceu.
A exploração e glorificação da violência é um dos principais motivos da onda fascista que leva um candidato como Jair Bolsonaro a ter chances de vitória. O candidato segue ensinando crianças a fazerem sinais de armas com os dedos. Em carreata nesta semana, simulou estar com uma metralhadora dizendo que era necessário “metralhar a petralhada”. Um quarto dos brasileiros se mostra disposta a votar num candidato que diz isto. Que acha tortura algo admissível e que propõe um bônus financeiro para policiais que matem bandidos em confrontos. Vivemos um momento de ode à morte e de estímulo ao ódio.  Esta ode saiu das telinhas, onde a anos vem sendo estimulada por figuras como Datena, para as urnas. Não à toa, os partidos políticos sonham tanto em trazer o apresentador sedento por sangue para a política. Kátia é fruto de um país que se transformou numa tragédia e caminha rumo à barbárie. Fruto da espetacularização da violência. Fruto da falta de debate e reflexão sobre o assunto. Uma sociedade que glorifica a tragédia.