sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Como o PSDB se tornou refém do atraso


Fundado por intelectuais de centro-esquerda descontentes com o PMDB durante o governo Sarney em 1988, o PSDB hoje quebra a cabeça para saber como conseguirá manter a extrema-direita em seu eleitorado, atraído pelas ideias reacionárias de Jair Bolsonaro. Ao invés de renegar este tipo de gente, quer continuar os atraindo. O objetivo deste texto é analisar como, num espaço de 30 anos, um partido de intelectuais de ideologia social-democrata se tornou dependente de um eleitorado boçal e odioso, identificado com o MBL.
O PSDB nacional é basicamente o PSDB paulista. É a cúpula paulista do partido que basicamente decide os rumos que o partido tomará nacionalmente. Não à toa, nas sete eleições presidenciais disputadas desde a redemocratização, em seis o candidato havia feito a carreira em SP (Covas em 1989, FHC em 1994 e 1998, Serra em 2002 e 2010 e Alckmin em 2006. A exceção é Aécio Neves em 2014). À época, a política paulistana era basicamente polarizada entre PT à esquerda e Maluf e Jânio à direita, com PSDB e PMDB como opções de centro, um mais à esquerda e outro mais à direita. A direita paulistana sempre se identificou mais com pessoas do que com partidos, desde a época de Adhemar de Barros. Naquele momento, Maluf representava a direita “tocadora de obras”, enquanto Jânio representava a “direita fiscalizadora e dos bons costumes”. Com a saída de Jânio da política e sua morte em 1992, o eleitorado direitista de SP se uniu em Maluf e o levou à sua primeira, e única, vitória em eleição majoritária no mesmo ano. Disputando o segundo turno contra Eduardo Suplicy, Maluf venceu sem o apoio tucano, que ficou do lado petista neste embate. O mesmo ocorrera nas eleições presidenciais de 1989, quando o PSDB apoiou Lula contra Covas. É importante citar, aliás, que depois de Lula, Mario Covas era a pessoa mais odiada pelo eleitorado malufista e seu grande rival desde o período universitário.
A cisão entre PT e PSDB viria em 1994. Graças ao Plano Real, o PSDB, que chegara até a cogitar uma chapa com Lula nas eleições daquele ano, ganhou força nacionalmente e passou a rivalizar com o PT. Neste momento, a atração exercida pelo PSDB no eleitorado se dava por razões basicamente econômicas, com o sucesso do plano em combater aquela que era encarada como o grande problema do Brasil no momento, a inflação. Embora o PT já fosse em todo governo FHC o maior partido de oposição, sempre se aliava aos tucanos em SP no segundo turno contra o malufismo. Foi assim nas eleições municipais de 1996, em que o PSDB apoiou Luiza Erundina contra Celso Pitta, em 1998, quando o PT apoiou Mario Covas contra Maluf na disputa pelo governo de SP, e em 2000, quando o PSDB apoiou Marta Suplicy contra o mesmo Maluf na disputa municipal. A foto de Mario Covas saindo do hospital para votar em Marta e ganhando um beijo da petista, aliás, representa o último momento de amizade e união entre tucanos e petistas em SP.
Já em 1998, a popularidade de Paulo Maluf começou a cair em SP, devido a inúmeros escândalos de corrupção e principalmente devido ao fracasso da gestão Celso Pitta. Poucos políticos devem se arrepender tanto de uma frase quanto Maluf de “Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim”. Já era claro naquele momento que qualquer candidato que fosse para o segundo turno contra Maluf venceria, sempre com a união entre PT e PSDB. A partir das eleições estaduais de 2002, Maluf perdeu a força para chegar ao segundo turno e, pela primeira vez em SP, PT e PSDB passaram a rivalizar. O eleitorado malufista foi em massa para o PSDB. Covas já estava morto e Alckmin, seu sucessor, embora não representasse o ideal “tocador de obras” de Maluf, era uma opção mais aceitável para eles do que o PT.
A rivalidade PT e PSDB se acirrou na década de 2000 e o eleitorado de extrema-direita, inicialmente por pura rejeição a petistas e a Lula, aliou-se ao tucanato, uma vez que não possuía nenhum nome que a representasse. Nenhum estado rejeitou tanto a gestão Lula como SP e, durante um certo tempo, ser oposição a Lula bastava. Com o tempo, porém, o PSDB começou a se transformar para agradar este novo eleitorado. Pautas moralistas passaram a fazer parte dos programas tucanos. Alianças com evangélicos se tornaram comuns e aquelas pessoas que inicialmente estavam no PSDB apenas por rejeição ao PT começaram a mudar o partido. A sigla de intelectuais passou a ser representada por gente como Coronel Telhada, deputado estadual mais votado do partido em SP em 2010 e 2014.
A derrota em 2014 e o acirramento da polarização política fez com que o movimento de extrema-direita interno do PSDB explodisse. A juventude do partido buscou alianças com o MBL, uma milícia de tendências fascistas formada por jovens lunáticos metidos a empreendedores, o partido embarcou de cabeça na maluquice do impeachment, com seus deputados votando por “Deus e pela família” e Geraldo Alckmin inventou João Doria Jr para a cidade de São Paulo. Com Doria, o PSDB finalmente passou a ter um líder que se encaixa no perfil do eleitorado direitista paulistano, com um discurso janista de culto ao trabalho exagerado e lunático e a aprovação de um eleitorado que se identifica com isto. A sua história, aliás, mostra bem a transformação do partido. Entrou no partido apenas em 2001, apenas buscando uma oposição viável ao PT. Ganhou força com o tempo e agora domina.
Doria é o candidato do PSDB mais competitivo para a disputa do Planalto. E não é porque ele é o “novo” ou porque quer “vender tudo”. O motivo principal para Doria ser o tucano mais competitivo é que ele tem o perfil que mais agrada à extrema-direita e se houvesse alguma capacidade de reflexão dentro do ninho tucano as pessoas seriam capazes de enxergar o horror que isto representa. O outrora partido de intelectuais da social-democracia tornou-se dependente de gente que possui o ódio como grande forma de mobilização. Os eleitores de Bolsonaro adoram Doria pelo seu discurso vazio e seu antipetismo doente e obsessivo, não ligam muito para a total ineficiência do "gestor".

Ao inventar Doria, Alckmin criou um nome que hoje é mais forte do que o PSDB em SP. O eleitorado conservador paulistano sempre foi muito mais ligado a nomes do que a siglas e o discurso vazio de Doria se encaixa perfeitamente a estas pessoas. Assim como o prefeito, que provavelmente deixará o partido caso este não se curve a suas vontades, este eleitorado nunca teve identificação com a sigla e não pestanejará ao deixa-lo agora que possui duas opções que agradam mais suas “visões” políticas, Bolsonaro e Doria. Caberá agora ao PSDB decidir se quer perder e continuar existindo ou ganhar e ser dominado pelo reacionarismo do MBL. Os anos aceitando silenciosamente alianças com a extrema-direita para tentar chegar ao poder destruíram o partido original. O PSDB como oposição em nada contribuiu para algum avanço na qualidade do debate político no país, contentando-se em aliar a qualquer um que surgisse para tentar derrotar o PT. Em 1994, o PSDB tinha o apoio de Bresser-Pereira. Em 2014, tinha o apoio de Frota. O PSDB passou anos se contentando em ter o apoio dos medíocres. Agora, resta saber se aceitará ser comandado por estes.

domingo, 8 de outubro de 2017

O fim da gestão Doria


Nove meses após tomar posse, João Doria Jr. Se prepara para deixar a prefeitura de SP enquanto seus números de popularidade começam a cair. Em 31/03/18, Doria provavelmente fará aquilo que aparentemente já queria desde o primeiro dia de sua gestão: sair do cargo de prefeito para se candidatar a algo maior. Como um carreirista do setor privado. Caso consiga completar o chapéu em seu padrinho político Geraldo Alckmin, será candidato a presidente, para alegria dos rentistas do mercado financeiro e da extrema-direita representada pelo MBL. Caso não, sairá candidato a governador. A cidade já de São Paulo só tem a agradecer a saída precoce do prefeito, cuja gestão relâmpago foi um desastre quase que completo.
A eleição de Doria em 2016 foi um dos grandes símbolos dos efeitos que a histeria antipetista teve sobre a sociedade paulistana. Num momento de rejeição completa a qualquer coisa apresentada pelo PT, seja boa ou ruim, Doria se lançou como candidato a prefeitura sem se dar ao trabalho de ter sequer um projeto de governo minimamente consistente. Suas promessas eram basicamente o projeto Corujão da Saúde, a privatização de tudo que fosse possível, que na campanha incluía inclusive uma esdrúxula ideia de privatizar faixas de ônibus e ciclovias, e criticar o PT sempre que foi possível. Não havia desde a campanha nenhuma proposta para mobilidade urbana, moradia, educação, saneamento etc. Para uma sociedade cega de ódio pelo PT, porém, a criação do personagem “João trabalhador” e os xingamentos repetidos a Lula foram suficientes para garantir uma vitória esmagadora.
O investimento maciço em marketing e o uso obsessivo das redes sociais foram duas das características mais marcantes da quase ultrapassada gestão. Isto ficou claro já no início da administração, com o lançamento da operação Cidade Linda. Fantasiando-se de gari, a tática do prefeito para se destacar já era clara. Doria começa seus vídeos falando qual o plano mirabolante da vez, apresentando números falsos para justificar um sucesso inexistente, agradecendo a algum amigo empresário por ter doado algo “sem querer nada em troca” e terminava chamando Lula de safado ou vagabundo, para delírio da extrema-direita. Imitando seu colega americano de Aprendiz, Donald Trump, buscou o choque com a imprensa toda vez que esta apresentava contestações a seus números falsos, primeiro expondo ele mesmo jornalistas que faziam tal ousadia, depois usando seu braço-direito do MBL para realizar o trabalho sujo, investigando a vida pessoal destes profissionais  e acusando-os quase sempre de serem de “extrema-esquerda”. Não há como negar que neste ponto Doria provou que realmente trouxe métodos do setor privado para o setor público, onde críticas a gestores não costumam ser bem aceitas.
Os números do Programa Cidade Linda mostram que a cidade está mais suja e mais mal cuidada hoje do que em 2016. As filas para exames voltaram praticamente ao mesmo patamar de um ano após o fim do Corujão da Saúde. O número de mortos no trânsito subiu após o absurdo aumento de velocidade nas Marginais. O trânsito piorou. Empresários que doam para a prefeitura “sem esperar nada em troca” têm sido repetidamente beneficiados por contratos sem licitações. Acusações de que vendas de patrimônios públicos já tem vencedores decididos antes de acontecer se repetem. O principal evento cultural da cidade, a Virada Cultural, foi destruído. O premiado Plano Diretor apresentado pela gestão anterior vem aos poucos sendo substituído por um plano desenvolvido pelos amigos do setor imobiliário do prefeito, visando estimular a especulação imobiliária. Ciclovias foram desativadas.vA distribuição de merendas nas escolas foi diminuída. A tática de Doria para lidar com o resultado ruim é quase sempre a mesma. Contestação dos fatos, apresentação de uma versão alternativa e confronto com a pessoa que apresenta os números reais. Quase nunca há autocrítica. Dentre as versões alternativas apresentadas pelo prefeito, destaca-se a meu ver aquela em que ele disse que a diminuição na distribuição de merendas era uma tentativa de diminuir a obesidade infantil e aquela em que ele diz que o aumento do número de mortes na Marginal não é fruto do aumento de velocidade, e sim da recuperação econômica.
A frase mais icônica desta gestão foi, a meu ver, aquela em que ele disse que não ligava para a opinião de “istas”, citando petistas, ciclistas, ativistas e jornalistas. Podia ter citado também especialistas, que quase sempre discordam dos planos mirabolantes do gestor. Basta ver como exemplo a opinião contrária quase unânime de quem entende de urbanismo sobre as mudanças no Plano Diretor ou de quem entende de arte urbana sobre a retirada dos grafites na Avenida 23 de maio.
Incentivado por setores do mercado, animado com seu discurso pró-privatizações, e pela ala jovem da extrema-direita do MBL, Doria passou boa parte do seu mandato viajando, seja tentando vender o patrimônio público para empresas estrangeiras, seja passeando pelo país para tornar-se conhecido fora de SP. Neste momento está em Belém para um evento religioso. Diz que pode governar a cidade estando longe, uma vez que pode dar ordens a seus secretários usando o celular. Essa é a visão que o gestor que se apresentou como moderno tem de gestão, ele dando ordens de longe. A principal consequência disso até o momento é a implosão do PSDB, cada vez mais rachado pela figura pitoresca do prefeito. Alberto Goldman, vice-presidente do partido, foi chamado de fracassado pelo prefeito ao dizer que sua gestão não começou.

São Paulo só tem a agradecer o prefeito pelo fato dele querer sair logo da prefeitura. Bruno Covas, que assumirá em seu lugar, dificilmente conseguirá ser pior. A cidade, ao menos, voltará a ter um prefeito. A ideia de Doria ser presidente assusta, claro. Imagine o que seria alguém com a proximidade que ele tem com o MBL chegando ao poder. O que seria o Ministério da Educação nessa hipotética gestão, por exemplo. São Paulo tentará levar ao restante do país o grande símbolo de sua histeria. Mas não vamos sofrer por antecipação. Daqui um pouco menos de seis meses Doria abandona o cargo que claramente nunca quis. Até janeiro de 2018 não terá cargo público. Numa era de retrocessos, qualquer pequeno alívio já deve ser comemorado.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O papel de Moro e da Lava Jato no avanço do autoritarismo


Um general defende publicamente uma possível intervenção militar. Pesquisa indica que mais de quarenta por cento dos jovens também a defendem. O jornal O Estado de São Paulo diz que esta intervenção poderia ser boa “dependendo do cenário”. Aquelas pessoas que estavam nas passeatas de 2015 com faixas pedindo “Intervenção Militar Já” parecem, afinal, não serem tão minoria quanto a grande mídia adorava alardear no período. O MBL, movimento que liderou aquelas passeatas midiáticas, passou a perseguir jornalistas e exposições de arte. Bolsonaro já tem 20% das opções de voto e lidera entre os mais ricos. O objetivo deste texto é refletir sobre o papel que a Operação Lava Jato no avanço desta onda autoritária no país.
Todo grande regime autoritário surge em momentos de “limpeza”. A rejeição à corrupção faz com que sociedades de “pessoas de bem” aceitem qualquer coisa para combatê-la. Ou ao menos a usem como justificativa para se livrar daqueles que consideram indesejados. Em nome do que diz ser a lei e a moral, o juiz Sérgio Moro e o restante da Operação fazem coisas ilegais e moralmente questionáveis, para dizer pouco. Abaixo alguns exemplos:
- Pessoas estão há mais de dois anos em prisão preventiva sendo chantageadas para delatar o que o juiz deseja ouvir;
 - Delações são tornadas públicas antes de investigadas;
- Conduções coercitivas são realizadas sem que tenha havido tentativa de intimação;
- Estas conduções e prisões são transformadas em espetáculos midiáticos;
- Condenações acontecem sem provas;
- O juiz age como acusador, quase unido à promotoria;
- O juiz exige que as provas sejam apresentadas pela defesa, invertendo a lógica de que é a acusação que deve apresenta-las e não o inverso;
- O juiz grampeia e divulga uma conversa telefônica de uma presidenta, algo explicitamente proibido pela Constituição.
Moro e os procuradores da Lava Jato se colocam acima da lei e não se sentem incomodados por isto. Nem eles nem a mídia que os bajulam. Moro praticamente nunca deu entrevistas a meios de comunicação nacionais. Não sente necessidade de explicar nada à sociedade. Quase todas as suas entrevistas foram dadas a órgãos estrangeiros, em que ele já disse que foi influenciado por heróis de quadrinhos. As únicas vezes em que conversou com órgãos nacionais foi para receber prêmios, na maioria das vezes inventados por revistas ou associações que basicamente querem bajula-lo. Um destes prêmios foi o da Revista IstoÉ, que o premiou como “juiz do ano”, na primeira e provavelmente única edição desta premiação. Esta revista foi a mesma que antecipou sua edição e bateu recordes quando vazou a delação de Delcídio Amaral, uma semana antes da passeata dos patos verde-amarelos. Aquelas em que as pessoas que pediam intervenção eram “minoria”. Dois anos depois, esta delação foi anulada porque o delator não conseguiu provar praticamente nada que havia delatado. O estrago já estava feito.
Nada é mais perigoso para uma sociedade democrática do que juízes e outros membros do Poder Judiciário que se consideram acima da lei. Um crime cometido por aquele que julga é mais grave do que aquele cometido pelo julgado. Todas as infrações cometidas pela Lava Jato são mais graves, inclusive, do que a corrupção que julgam. Uma das principais influências da Operação no avanço do autoritarismo no país é a legitimação do senso de que pode se passar por cima da lei para derrotar algo “maior”.
Outra influência marcante é a ideia de que justiça necessariamente significa punição. Moro raramente absolve. Quase todas as absolvições da Operação vieram na segunda instância, por falta de provas. Praticamente não há questionamentos a Moro do porquê ele ter condenado alguém sem provas, há sim descontentamento da sociedade com os juízes que absolvem, que estariam sendo “permissivos com a corrupção”.
Daltan Dallagnol, talvez o mais famoso e midiático dos procuradores da Operação, autor do já lendário Power Point, criou e divulgou dez medidas contra a corrupção. Entre elas, estão a praticamente extinção do habeas corpus e o quase fim de qualquer obstáculo à prisão preventiva. Coisas típicas de uma sociedade autoritária. Quase não houve questionamentos a ele sobre isto.
A Lava Jato virou filme antes mesmo da Operação acabar. Financiado por “patrocinadores ocultos”, o filme teve acesso a filmagens de prisões e conduções. Quase ninguém achou isto estranho. Moro foi à pré-estreia, onde foi tratado como herói. Seus fãs o consideram acima da lei. Quase todo fã de Bolsonaro é fã de Moro. Enxergam nos dois a capacidade de sobreposição a leis que “protegem bandidos”.

Moro nada faz para negar o personagem que lhe foi criado pela mídia. Pelo contrário, parece gostar de ser um herói como os que ele citou de quadrinhos. O juiz que não cumpre a lei e é amado por isso. Todo autoritarismo começa assim. O juiz dá indícios de estar cansado e querer sair da Lava Jato. Sairá provavelmente ovacionado por bolsonetes, mídia e MBL. Como dito anteriormente, o estrago já foi feito.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A Aliança Doria-MBL e ascensão da extrema-direita no Brasil

A ascensão da AfD na Alemanha foi um dos assuntos da semana nos noticiários políticos brasileiros. Com uma retórica xenófoba, a extrema direita obteve o terceiro lugar nas eleições alemãs e chocou a quase totalidade dos analistas políticos brasileiros. A reação destes analistas à ascensão da extrema direita nos países de primeiro mundo, porém, não se repete quando estes mesmos analistas discutem o cenário brasileiro. 
Todas as características encontradas no discurso político de Trump, Le Pen ou AfD são encontradas no discurso do MBL. A origem deste movimento no Brasil, aliás, é semelhante à origem da AfD na Alemanha. Empresários e jovens conservadores defendendo inicialmente ideias liberais economicamente, mas que com o tempo perderam a vergonha de demonstrar ideias reacionárias quanto a direitos civis e sociais.
Com o intuito de derrubar Dilma Rousseff, parte da grande mídia alimentou e deu força ao MBL, grupo que há tempos age como uma milícia fascista. Eles se infiltram em manifestações de grupos contrários com o objetivo de causar confusões. Defendem que o Brasil deixe de aceitar imigrantes de países muçulmanos com base exclusivamente em preconceito religioso e numa paranoia terrorista. Perseguem jornalistas e celebridades que ousam criticá-los, basta ver a guerra virtual que realizaram contra Ricardo Boechat e Monica Waldvogel nesta semana. Visitam escolas com o objetivo de censurar e pressionar professores, dentro de seu ambiente de trabalho. Defenderam o juiz que liberou psicólogos a tratarem a "cura gay", com o argumento de que ninguém entendeu, só eles, esta liberação. Lideram cruzadas contra exposições de arte. Comandam dois dos sites responsáveis por boa parte da divulgação de notícias falsas na internet, o Jornal Livre e o Reacionario. O mais preocupante, porém, é a forma como este grupo formado basicamente por jovens arrogantes e lunáticos tem se aproximado do poder, especialmente graças ao prefeito de SP, João Doria Jr.
O MBL tem funcionado como espécie de "braço direito virtual" de Doria, realizando todo tipo de trabalho sujo para esta gestão. É o MBL, por exemplo, que tem feito boa parte da perseguição a jornalistas que criticam a gestão paulistana, invadindo os perfis destes e expondo suas vidas pessoais, tentando sempre desqualificar o autor da notícia e não a notícia em si, quase sempre com um argumento paranoico anticomunista.
Pessoas do MBL já fazem parte da gestão Doria diretamente. Paulo Mathias, prefeito regional da sub-prefeitura de Pinheiros, é membro do grupo. Cauê del Valle, editor do site Reacionário, foi contratado por esta mesma sub-prefeitura. MBL e Juventude Tucana já anunciaram uma possível união de forças para as eleições de 2018, o que completa a bizarra guinada do outrora partido social-democrata rumo à extrema direita.
O quase silêncio midiático sobre a ascensão deste grupo através de Doria é a demonstração da hipocrisia de boa parte da grande mídia brasileira. O mesmo choque que possuem na análise da conjuntura internacional não demonstram na cobertura nacional. Doria e Bolsonaro não são tão diferentes, com a diferença de que o segundo é mais caricato. Todo bolsonete adora a gestão do prefeito de SP, pois enxerga nele três características que adoram no seu líder, antipetismo paranoico, patriotismo fajuto e autoritarismo. Nenhum questionamento é feito ao prefeito em relação à sua proximidade com algo tão assustador como o MBL.
A aliança Doria-MBL virá com força em 2018. É bem provável que a mídia não mude sua postura até lá, em nome dos interesses do mercado. O triste papel da grande mídia em nossa história, dessa forma, repete-se.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

A humilhação de Soninha e as mentiras de Doria


Duas coisas marcam, sem dúvida, este começo já não tão começo assim da gestão Doria. Considerando que ele claramente já está desesperado para virar governador ou presidente, esta gestão deve durar apenas até março de 2018. Já se cumpriu, portanto, um quarto desta gestão. Marketing e pós-verdade são as duas características principais que em pouco tempo transformou Doria num fenômeno nacional, com forte apoio midiático. Num primeiro momento, filma-se absolutamente tudo, usando as redes sociais como nunca antes um prefeito fez. Em seguida, divulgam-se dados que quase nunca representam a realidade dos fatos, apostando no fato de que um bom marketing é capaz de se sobrepor ao ultrapassado conceito de verdade.
Nesta semana, Doria chegou ao cúmulo de filmar uma demissão. Relembrando os tempos do Aprendiz, o prefeito registrou em câmera e divulgou nas redes sociais o desligamento de Soninha da Secretaria da Assistência Social. O vídeo é constrangedor. Nele é possível ver uma pessoa acuada e constrangida, ouvindo um gestor repetir um discurso feito que creio que todos que já passaram por um momento deste entendem. Doria tentou usar um momento de tristeza de uma agora ex-secretária para promoção pessoal, e num sintoma assustador do que acontece em nossa sociedade, foi elogiado por boa parte dos seus seguidores. Vejo pessoas que conheço que já passaram pelo que Soninha passou e que não conseguem sentir por ela nenhuma empatia, divertindo-se com a humilhação pública perpetrada pelo chefe que eles acham que os representam. 
Nunca que eu lembre um gestor público mentiu tanto na divulgação de dados em tão pouco tempo. Abaixo, alguns exemplos de mentiras contadas por Doria em sua gestão:

- Doria divulgou que, como prometido em campanha, zerou a fila de exames na saúde através do Corujão da Saúde. A verdade é que Doria zerou em abril as filas de 2016, as pessoas que passaram por exames em janeiro não haviam sido atendidas até o início do mês. Fora isto, mais de um quarto das pessoas que estavam na fila foram obrigadas a refazer a consulta e não fizeram os exames. Independente disto, houve uma queda grande na fila, mas a verdade aparentemente não foi suficiente para esta gestão;
- Doria prometeu durante a campanha que não aumentaria as passagens de ônibus em seu primeiro ano de gestão. Manteve os R$ 3,80, mas, junto com o governo do Estado, aumentou em valores bem acima da inflação os valores das tarifas diária e mensal, além dos valores de integração ônibus-metrô. Quando questionado sobre o assunto, diz que só prometeu manter os R$ 3,80;
- Doria transformou a limpeza pública em seu grande lema no início de gestão. Vestiu-se de gari e fez uma verdadeira festa cada vez que se varria uma grande avenida. Dados da própria prefeitura, porém, mostram que a varrição de ruas no primeiro trimestre de 2017 foi menor do que no mesmo período de 2016. Questionado sobre o assunto, o prefeito diz que por causa da crise econômica, a cidade está produzindo menos lixo;
- No começo de fevereiro, a prefeitura divulgou um dado que o número de acidentes na Marginal foi menor em janeiro de 2017 do que no mesmo período de 2016. Doria se apressou para mostrar que aqueles dados demonstravam que o aumento de velocidade na via, criticado por todos os especialistas no assunto, não havia causado impacto no número de acidentes. Não disse, claro, que a velocidade só foi alterada no dia 25/01, não se podendo analisar nada, portanto, no mês de janeiro;
- Os dados de fevereiro e março demonstram que houve um grande crescimento no número de acidentes nesta via após este aumento de velocidade. Crescimento de assustadores 180%. Doria diz que o que houve foi aumento no registro, decorrente do aumento no número de guardas na região. Como se anteriormente acidentes não fossem registrados. O número de atendimentos do Samu triplicaram na região. A explicação do prefeito é a mesma;
- Doria divulgou que a prefeitura recebeu mais de R$ 280 milhões em doações nestes quase quatro primeiros meses. Apenas 6% deste valor, porém, estão declarados oficialmente na prefeitura. Irritado com as críticas, o prefeito divulgou pelo Facebook (sempre lá) uma planilha com o que ele diz serem todas as doações. Há no relatório coisas bizarras, como uma série de móveis que possuem o mesmo preço, R$ 2.000,00. Abaixo uma foto do relatório que comprova isto;

- Doria reduziu em 53% o número de estudantes que recebem o Leve Leite, dizendo que a partir dos 7 anos já é baixa a necessidade do leite com complemento alimentar. Não consultou nenhum especialista ao afirmar isto;
- Doria fez sua tradicional festa para realizar, no final do primeiro mês de gestão, a doação do seu primeiro salário para uma entidade beneficente. O valor do salário é de R$ 17.948,00. Neste mesmo período, porém, a revista do grupo Lide teve um aumento de mais de 50% em sua publicidade, deixando de ser bimestral para ser mensal;
- Doria anunciou o início do processo de privatização do Autódromo de Interlagos, colocando o chefe da Fórmula 1 Bernie Ecclestone como um dos interessados na compra. Ecclestone já negou diversas vezes este interesse.

Estes são alguns dos exemplos de desapego de Doria com o conceito de verdade. Não há um anúncio feito por esta gestão que não tenha algum "segredo" escondido. Isto desde a eleição, em que o então candidato chegou a mentir sobre a própria biografia. Entre outras coisas, disse não ser político, mesmo já tendo presidido a Embratur. Numa era de forte polarização, Doria encontrou na rejeição ao PT e no fato de que quase ninguém presta atenção em nada os dois caminhos para se promover nacionalmente. Aproveita qualquer oportunidade, pública ou não, para ofender Lula e seus eleitores, para deleite dos membros da República de Curitiba. Divulga vídeos de tudo que faz ou diz fazer, aproveitando do fato de que quase nenhum dos seus seguidores "perderá tempo" para ler as matérias com as contradições do que foi dito nos dias seguintes. Uma notícia na era das redes sociais dura pouco, um dia na maioria das vezes. Quando pintam matérias apontando as inconsistências dos dados divulgados por Doria, a notícia já é antiga e o prefeito já colheu os frutos. Este é João Doria Jr., o gestor que o empresariado nacional quer na presidência. Para isto, é fundamental que haja uma inversão de valores, que a maioria que trabalhe como funcionária se identifique com os valores do patrão. O deleite de muitos com a demissão de Soninha mostra que está dando certo. Numa época de crise e aumento do desemprego, cresce a popularidade de um político que se popularizou por demitir. Tempos difíceis nos aguardam.

domingo, 16 de abril de 2017

Chegou a hora, macaquinha querida !


Antes de começar este texto, quero deixar bem claro que é sem dúvida o texto menos racional que já escrevi na minha vida. Não há espaço para razão quando o assunto é Ponte Preta. Se você não suporta textos emotivos e exagerados, pare por aqui.
Eu sabia muito pouco sobre a Ponte Preta quando comecei a me interessar pelo time. Foi num jogo contra o Cruzeiro em 1999, pelo Campeonato Brasileiro. Por algum motivo besta, sempre gostei muito de jogos em estádios em que a câmera treme quando sai um gol. Naquela época, isto acontecia com dois times, com a Ponte e com o Paysandu. Cada gol parecia um terremoto transmitido ao vivo. A Ponte, que disputava uma vaga no G8 para as quartas de final (saudade do mata-mata) perdia o tal jogo por 2x0. Fez dois gols em dois minutos, acho que aos 36 e aos 37 do segundo tempo, causando uma hecatombe no estádio. Lembro que rolou até da galera colocar fogo no estádio. O meu jogador favorito daquele time era o Régis Pitbull. Famoso depois por uma passagem desastrosa pelo Corinthians, em que fez uns 10 jogos sem marcar nenhum gol, eu cheguei a afirmar para um amigo meu que Régis era o melhor jogador do mundo naquela época. Eu gostava do estilo dele. Ele basicamente pegava a bola, olhava pro chão e saia em linha reta. Chegando na linha de fundo, chutava a bola pro meio da área, na maioria das vezes sem encontrar ninguém. Eu achava divertido. Umas duas semanas depois do jogo contra o Cruzeiro, a Ponte enfrentaria o São Paulo no Morumbi. Por algum motivo que hoje não lembro, a diretoria do São Paulo colocou o ingresso desse jogo a R$ 1,00 a arquibancada. Não lembro se o time estava ruim ou se tinha alguma coisa a ver com o rolo do Sandro Hiroshi. Só sei que um amigo meu são paulino me arrumou um ingresso para este jogo na torcida da Ponte e eu armei um esquema para ir. Era uma quinta-feira às 19:30. Eu nunca havia ido a um jogo sozinho e armei um esquema louco para ir sem que minha mãe e minha irmã soubessem. Elas nunca me deixariam, aos 15 anos, ir a um jogo sozinho, ainda mais na torcida adversária. Inventei uma festinha no prédio de um amigo que elas conheciam e fiquei torcendo para que elas não achassem estranho uma festa de adolescentes numa quinta-feira. Deu certo e lembro que peguei o Jardim Colombo, que passava na Praça da República, junto à torcida do São Paulo para ir ao jogo. Dei umas voltas e consegui achar o setor da torcida da Ponte, sem falar com ninguém por medo. Entrei atrasado e no momento em que consegui ver o estádio, o ídolo Régis Pitbull entrava na cara de Rogério para fazer o gol, o jogo estava 0x0. Já entrei pulando, mas Régis perdeu o gol mais feito da história do universo. O jogo terminaria 1x0 para o São Paulo, mas me recordo daquele dia que, não faço ideia até hoje de como, um torcedor pontepretano conseguiu entrar com um macaco de verdade para ver o jogo. E o pior é que o macaco assistia ao jogo, colocando a mão na boca cada vez que a Ponte era ameaçada e aplaudindo cada vez que a Ponte ia para o ataque. A Ponte chegaria nas quartas daquele mesmo campeonato, enfrentando o mesmo São Paulo. No primeiro jogo, a Ponte abriu 2x0, mas o SP virou para 3x2 com três gols do Marcelinho Paraíba. Nunca xinguei tanto um jogador na vida. Na partida seguinte, a Ponte ganhou em Campinas por 2x1, com um gol do Adrianinho aos 45 do segundo tempo, gerando uma nova hecatombe com direito a câmera tremendo. A Ponte perderia o terceiro jogo em casa, mas aquela série de jogos me marcou.
A Ponte Preta foi o primeiro clube de futebol da história do Brasil, fundada em 1900. Sofrendo forte preconceito por sua origem popular, era chamada de "time dos macacos" pelos rivais, devido à grande quantidade de negros entre a sua torcida. Foi um dos primeiros times do Brasil a aceitar negros no seu plantel e com o tempo a torcida acabou adotando a macaca como mascote, enfrentando de forma corajosa o forte racismo da época. A Ponte sempre esteve do lado certo da história. Transformou o que era símbolo de racismo em símbolo de resistência. No final dos anos 1940, uma união da torcida conseguiu construir, praticamente em forma de mutirão, o estádio que até hoje usa, Moisés Lucarelli. São paulinos costumam ter orgulho de um estádio construído graças a um governador biônico da ditadura militar. Palmeirenses costumam ter orgulho de um estádio que mais parece uma casa de eventos e cujo nome é de uma seguradora. Corintianos se orgulham de um estádio construído com dinheiro que não se sabe de onde veio. Nenhum deles tem uma história que chega tão perto da beleza da história da construção do estádio da Ponte, construído com tijolos doados pela torcida, com a mão-de-obra da mesma.
A história da Ponte é gloriosa, linda, time guerreiro e que sempre apostou na inclusão. Falta, porém, um detalhe, o título. Por mais que isto seja pouco perto do que a Ponte representa em paixão e história, fica esta lacuna. Lembro-me de ter ido à final da Ponte contra o Lanus pela Copa Sulamericana e poucas vezes senti tanta emoção na vida. Era muita gente com brilho nos olhos. Aquele foi o jogo mais importante da história do clube e a diretoria não cobrou ingresso de sócios torcedores, inclusive pagando o ônibus que os levaria até o Pacaembu. Uma derrota especialmente dolorosa foi em 1977 para o Corinthians, num jogo que todo pontepretano sabe que teve mutreta. Quarenta anos depois, a Ponte provavelmente terá sua chance de revanche. Nenhuma torcida merece tanto. Os chamados "grandes" de São Paulo são arrogantes quanto ao Estadual, dizem não ligar. Para os pontepretanos, seria um dia inesquecível. A torcida da Ponte ama o time de forma incondicional, sem esperar nada em troca. Não há torcida mais linda no Brasil. Chegou a hora desta torcida viver o seu sonho. São 117 anos de espera. Algo me diz que a hora chegou !

Huck, Justus e a ascensão do egocentrismo vazio


"Chegou a hora da minha geração ocupar espaços de poder", disse o apresentador Luciano Huck em uma entrevista para a Folha de São Paulo em 30/03/17. "Deixarei o Brasil se Lula voltar à presidência", disse o publicitário Roberto Justus em entrevista para um órgão de imprensa que não me recordo qual neste fim de semana. Os dois têm deixado implícito que almejam um dia, não se sabe quando, concorrer à presidência, ganhando com isto um pouco de mídia e de massagem de ego. Num período de total descrédito da classe política e de mediocrização do debate, é muito possível imaginar que algum dos dois tente dividir este espaço com o atual prefeito de São Paulo, João Doria Jr., que tem sabido ler e se apresentar como opção aos medíocres como ninguém.
Na entrevista de Huck à Folha, há apenas um momento em que ele use a primeira pessoa do plural. Toda vez em que ele propõe alguma "solução" ou "ideia", o uso dos pronomes é na primeira pessoal do singular. "Tenho", "sou", "quero". Toda vez que ele aponta problemas, usa terceira pessoal. Resumindo, ele se enxerga como a solução para problemas que os outros criaram. Não há também nada que remeta a algum tipo de projeto de desenvolvimento nacional, apenas um egocentrismo querendo ser bajulado. O tempo inteiro o foco é ele e sobre como ele pode ser a solução de tudo.
Vindo de família rica, Luciano Huck era desconhecido para o grande público quando começou a apresentar o programa H na Bandeirantes. Começou a ter sucesso com a criação de personagens femininos submissos, que ficavam seminuas no palco aos gritos fetichistas de adolescentes punheteiros. A exploração de mulheres como objetos levou Huck à fama e, muito bem relacionado, chegou à Globo, mesmo sem ter tanta audiência na Band. Na nova emissora, trocou o fetiche sexual pelo assistencialismo, em quadros em que ajuda pessoas tendo sempre como foco não a pessoa que foi ajudada, mas a "superioridade" dele no papel de provedor. Algo como a patrão bonzinho que dá roupa que não quer mais para a empregada. Como todo rico fã de meritocracia, nesses quadros é sempre necessário que o pobre faça algo para "merecer" a bondade do milionário, seja aprender a dançar algo, a fazer embaixadinhas ou simplesmente ficar um tempo fazendo um malabarismo qualquer. "Não temos que dar o peixe, e sim ensinar a pescar" é o lema de 10 em cada 10 jovens ricos de direita que fizeram intercâmbio na adolescência e começaram a trabalhar depois dos 20. Ao final do quadro, o momento principal, em que Huck recebe os agradecimentos da pessoa ajudada, faz cara de foda, agradece a chance de ajudar e corre para fazer a propaganda de alguma bugiganga.
Roberto Justus também já nasceu rico e aumentou sua fortuna fazendo propaganda de bugigangas. Seu pai foi um dos construtores de Brasília. Trabalhou com papai até os 25 anos, quando resolveu usar o dinheiro dele para abrir uma agência de publicidade. Deu certo. Em algum momento, porém, o dinheiro não lhe bastou mais, começando a busca pela fama. Inicialmente isto se deu com relacionamentos com mulheres famosas, sempre loiras e jovens, lá em meados dos anos 1990. As capas de revistas de celebridades, em que ele sempre aparecia ostentando bens materiais e mulheres, deram certo e nos anos 2000 ele foi convidado para apresentar a versão brasileira do Aprendiz de Donald Trump. Neste programa, uma dinâmica de grupos gigante, jovens se matavam em gincanas empresarias, tendo sempre Justus como juiz supremo, aquele que faria tudo diferente e certo. Estes jovens passavam o tempo todo tendo que massagear o ego do apresentador, sempre impassível e gerando o deleite do público a cada demissão. Em um dado momento, Justus saiu do programa e em seu lugar entrou João Doria Jr. Já sabemos no que isto deu.
Ao dizer que deixará o Brasil caso Lula seja eleito novamente, Justus chega ao ápice do egocentrismo. Ele acredita que sua presença no país é um prêmio à nação e que, caso se faça aquilo que ele não quer, este país deixa de merecer a presença de alguém tão foda quanto ele. Age como uma criança mimada. É um exemplo clássico da ausência de senso democrático da nossa elite, disposta a tudo para "corrigir" o que considera erros cometidos pela maioria. Foi a justificativa para o golpe de 1964, foi a justificativa para o impeachment tosco de 2016. "Não importa se foi ou não golpe", disse Luciano Huck na entrevista citada no início do texto. Não há senso ético no egocentrismo. Certo e errado é definido apenas por vontades individuais.
Mídia, esporte e religião. A crise política levará, muito possivelmente, a ascensão de pessoas destes três meios. Nas eleições municipais de 2016, os três vencedores nas três maiores cidades do Brasil foram um apresentador de reality show, um bispo evangélico e um ex-presidente de clube. Os três sem absolutamente nenhum projeto de longo prazo para o desenvolvimento urbano de suas cidades. Como dito no início, o sucesso deste tipo de figura grotesca é fruto do descrédito da classe política e da mediocridade. O público quer uma solução fácil e o egocentrismo de figuras como Huck e Justus entregam o que este público quer ouvir. Com eles ou com alguém semelhante a eles ocupando este espaço, a eleição de 2018 tem tudo para ser uma grande gincana.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O que um episódio de BBB tem a dizer sobre a sociedade atual


Por muito tempo da minha vida assisti ao BBB. Acho que até a edição 8, sei lá. Não sei se arrumei outras coisas para fazer ou se simplesmente enjoei, mas passei muito tempo sem assistir ao programa. Não sou do tipo, porém, que o critica. Acho uma forma interessante de divertimento. Mais do que dizer algo sobre os participantes, este tipo de programa diz muito sobre quem o assiste. O maior entretenimento não está em analisar as reações dos participantes, mas sim a do público. O programa dá ao público o direito, de certa forma, de "brincar de divindade". O público é de certa forma onipotente, onipresente, onisciente, podendo premiar àquele que agir da forma que gosta e punir aquele que cometer erros. É uma boa ferramente para analisar os tipos de comportamento que são aceitos pela maioria da sociedade.
Vivemos em uma era de bolhas. A minha é a da classe média descolada. Quase todas as pessoas que convivo são esquerdistas progressistas. Amam ciclovias e o Marcelo Freixo. Todo dia vejo minha rede social repleta de frases criticando o machismo, elogiando programas sociais e a diversidade. Uma exceção ou outra compartilha coisas com as quais não compactuo. Se são muito violentas, deleto a pessoa. Os bolsonetes, por exemplo. Minha bolha é legal, sem dúvida, mas tem defeitos. Volta e meia alguém desta bolha compartilha, por exemplo, textos que não enxergam que viagens são privilégios, que acham que largar tudo e sair o mundo é uma opção viável para todos, apenas para dar um exemplo. Minha bolha, como todas aliás, servem para nos afastar da realidade. Lembro-me da surpresa coletiva no meu mundinho, por exemplo, quando descobrimos que a periferia votou em peso em Doria e não em Haddad.
Nos últimos dias, minha bolha começou a compartilhar em peso textos sobre machismo no BBB. Um cara mais velho estaria namorando uma garota mais nova no programa e abusando física e psicologicamente dela. Resolvi então, depois de sei lá quanto tempo, assistir a um episódio. Foi no último domingo 9/4. Foi possivelmente das coisas mais assustadores e dos maiores choques de realidade que tive nos últimos tempos.
O programa começou com o apresentador Tiago Leifert dizendo que todos na produção estavam preocupados e "observando" o que vinha acontecendo com o casal. Em seguida, começaram as cenas. Não lembro exatamente a ordem. Em uma, Marcos (o agressor) gritava com Emily (a agredida) com o dedo na cara dela. Em outra, ao não ter um pedido de desculpas atendido, jogou a menina no chão e a imobilizou até que ela o ouvisse. Em mais uma, segurou o braço da menina, não parando após ela dizer que estava doendo. Outras três participantes assistiam àquilo em choque. Uma que tentou intervir foi expulsa da conversa por Marcos aos gritos de "não é da sua conta". Na manhã seguinte, a produção do programa chamou Emily para uma conversa e disse que ela podia procurá-los caso se sentisse agredida. A TV Globo assistiu às agressões, mas simplesmente se omitiu. Pior que a omissão, jogou nos ombros da vítima a responsabilidade de fazer algo. A emissora não fez nada, mas quis fingir que estava fazendo. Como boa parte das vítimas, Emily nada fez. No mesmo dia, o agressor foi para o paredão contra uma outra menina que não lembro o nome. Ele ficou com 77% dos votos. Três em cada quatro espectadores do programa votaram para o agressor ficar. A Globo reconheceu a agressão, mas não teve coragem de contrariar seu público. O capitalismo ensina que o cliente tem sempre a razão, não? 
Vivemos numa país agressivo e atrasado. Casos de agressão contra mulheres e contra minorias se repetem. O BBB, de certa forma, dá voz ao Brasil e não a uma bolha específica. E a maioria não se importa com agressões deste tipo. Pelo contrário, acha que de certa forma o agressor é um "perseguido" por aqueles que o acusam e saem na sua defesa. Ver um episódio de BBB foi abrir os olhos e sair da minha bolha, ter contato com o Brasil real. 
Vivemos uma era triste. Cada vez mais por aqui as pessoas estão com raiva e rancorosas, expondo preconceitos e ignorâncias. É um momento de explosão do ódio, inflado por redes sociais. Do mesmo jeito que tem a minha bolha, formada pela classe média descolada, há bolhas formadas basicamente por gente que odeia, que passa o dia inteiro espalhando mensagens odiosas na rede, humilhando e denegrindo tudo que seja diferente. E isto não tem nada a ver com classes sociais, basta ver que o fascista Bolsonaro está em primeiro nas pesquisas entre pessoas de alta renda e de diploma superior. Foi aplaudido na Hebraica. Um número cada vez maior de pessoas tem como prioridade política ver as outras se fodendo. A vida é difícil e na maioria das vezes não conseguimos fazer nada de muito bem sucedido dela, ao menos no que o capitalismo nos ensina de sucesso. Para cada caso de sucesso amplamente divulgado, há trocentos de fracassos gerando rancor. Ao chegar o momento de constatação do próprio insucesso, a maioria dos fracassados tende a culpar o outro. Mais do que isso, não há empatia alguma por qualquer outra pessoa que sofra agressão ou preconceito. Tudo é "frescura" e fruto de falta de esforço. Todos têm que se foder. O sistema depende dos conceitos de sucesso e fracasso para vender e lucrar. E estes conceitos estão nos levando ao abismo.
O Brasil real não é o país da minha bolha. Àqueles que fazem parte desta minha bolha, agradeço muito. Vocês fazem minha vida melhor e mais esperançosa. Mas para analisar nossa realidade, temos que sair dela. O Brasil real não é o país que critica José Mayer em seu abuso, é o país que aceita e defende o agressor no BBB. Quer conhecer o grau de agressividade, rancor e abuso do país, assista ao que a maioria também assiste. Veja a homofobia em jogos de futebol e perceba o silêncio ensurdecedor daqueles que participam da transmissão quanto a este assunto. Assista à agressividade de Datena pedindo sangue toda tarde. Mesmo que por um dia. Você, parceiro de bolha ou membro de outras bolhas que por algum motivo veio parar aqui, ainda acha que não há risco de um cara como o Bolsonaro triunfar em 2018? Deveria assistir mais ao BBB.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Brasil 2017 - Autoritarismo, agressividade e paranoia


Fernando Holiday, membro do MBL e vereador em São Paulo pelo DEM, fez um tour por escolas públicas na semana passada. Adotando um discurso muito semelhante ao de grupos de extrema direita do período pré Segunda Guerra, Holiday disse que estava fiscalizando o que era ensinado nas escolas, prometendo pressionar os professores que estivessem realizando a tal "doutrinação" que ele diz combater. Secretário de Educação da gestão Doria, Alexandre Schneider repudiou a ação do vereador Holiday, dizendo, acertadamente, que o vereador não pode usar seu mandato para intimidar professores e que a função dele não é fazer esta fiscalização. Revoltado, o MBL passou a realizar diariamente posts pedindo a cabeça do secretário, além de divulgar dados pessoais de vereadores que são contrários ao projeto "Escola sem Partido" para que estes sejam pressionados por seus seguidores. Schneider, sentindo-se sem respaldo pela prefeitura, chegou a pedir demissão, situação que foi momentaneamente contornada por Doria que, dependente do respaldo do MBL, um dos grandes apoiadores e divulgadores das "ideias" do prefeito, encontra-se numa sinuca de bico. A situação descrita, a meu ver, ilustra bem as três características principais do momento que vivemos no Brasil e de forma mais clara em São Paulo: autoritarismo, agressividade e paranoia

1) A principal forma como o autoritarismo aparece hoje em nossa vida pública está na ideia, comprada por boa parte da população, de que a solução para os problemas da gestão pública está na sua substituição pela gestão privada, tirânica por natureza. No meio privado não há espaço para debate, grande característica da administração pública. Existe uma pessoa, ou no máximo um pequeno grupo, tomando decisões levando em consideração apenas a margem de lucro e os bônus pessoais que receberão no começo do ano anterior, cabendo à maioria a simples função de obedecer e executar. É exatamente isto que vem acontecendo desde a chegada dessas tais técnicas de gestão aos cargos executivos. Em comunicados sobre a possível privatização sobre o Parque do Ibirapuera, por exemplo, verifica-se a preocupação quase que exclusiva na apresentação de números sobre quanto o parque "custa" à cidade, quanto sai dos cofres públicos. Quase nada é dito sobre os impactos sociais desta venda. O mesmo ocorre quando o assunto é a venda do Autódromo de Interlagos, em que o prefeito chega até a citar o interesse de pessoas que já disseram não ter interesse algum na compra do espaço. A grande característica deste tipo de gestão é a quase destruição do espaço público, que para ela não faz sentido algum. O espaço público só passa a fazer algum sentido nesta concepção quando transformado em espaço privado. Nesta concepção, a opinião de especialistas só é válida quando eles vêm do mercado financeiro. Nenhum urbanista é convidado para debater, por exemplo, os impactos destas privatizações. O MBL, entidade símbolo na defesa da administração pública transformada em gestão privada, não se interessa na opinião de especialistas em educação sobre o tal do projeto de "Escola sem Partido", por exemplo, apressando-se em desqualificar com argumentos quase infantis qualquer pessoa que apresente discordância.

2) A agressividade se manifesta principalmente no esforço em transformar qualquer pessoa que discorde da sua ideia em inimigo a ser combatido e no uso de táticas de intimidação pessoal para forçar membros do Legislativo ou da imprensa a votar ou opinar a favor ou contra uma causa. Note-se que não há nada de errado em formas de pressão social, como passeatas ou a realização de um abaixo-assinado, para o convencimento a algo. Isto, porém, é muito diferente da divulgação de dados pessoais, como número de telefone ou endereço do legislador, para que exista uma coerção que em algum momento pode chegar a uma ameaça física. O caso de SP não é novo e já é claro que o MBL e outros membros da direita o usam sem puder. Durante os protestos pelo impeachment em 2015, membros do MBL foram pressionar o ex-ministro Cid Gomes na frente da sua casa em Fortaleza. Nas semanas anteriores à votação deste processo de cassação na Câmara, o site o Antagonista realizou pressões e chantagens diárias ao deputado federal Tiririca, com telefonemas e até encontros no Congresso com ameaças de uma campanha contrária sistemática caso o deputado votasse pela manutenção de Dilma na presidência. O MBL escolheu como símbolos tudo que representa de alguma forma a nação. As cores, a bandeira, o hino, deixando claro que considera que todos que discordam de suas ideias estão de alguma forma lutando contra o Brasil. Uma versão moderna de "Brasil, ame-o ou deixe-o". Continua nesta semana sua campanha incessante contra o secretário que "ousou" discordar da ação de Holiday, pressionando o prefeito aliado. Já deixou claro que não medirá esforços para alcançar este novo objetivo.

3) A principal demonstração de paranoia vem com a guerra travada contra um inimigo que sequer possui grande força, o tal do "comunismo". A Guerra Fria acabou junto com a URSS em 1991, mas grupos como o MBL continuam usando este conflito para estimular o caos. Qualquer pessoa que se recuse a achar que a solução para tudo está na iniciativa privada e que defenda que o estado deva ter algum papel na gestão da economia é logo tratado como comunista. Foi assim com Lula. O presidente que mais incentivou o consumismo na história do país, trazendo uma grande massa de pessoas para o mercado consumidor, é tratado como comunista porque se importou com uma distribuição mínima de renda. Neste mundo paranoico contra um inimigo que não existe, é fundamental criar exemplos de como o Brasil ficaria se fosse governado da forma como a paranoia acha que é. Estes exemplos atualmente são Venezuela e Cuba, sendo a primeira uma economia 80% dependente de um produto só que sofreu uma gigantesca desvalorização nos últimos anos, sem ter capacidade próxima da do Brasil de suprir suas necessidades internas, e a segunda uma ilha que hoje se abre inclusive para o seu arquirrival EUA. A Guerra Fria acabou até para os irmãos Castro, mas não para o MBL. Não conheço quase nenhum jovem que tenha lido o Manifesto Comunista ou qualquer obra de Marx na escola, o que é uma pena aliás. Trata-se de um dos mais importantes pensadores da história da humanidade e seria importante estudar não apenas sua obra, mas também a de pensadores liberais como Stuart Mill e Tocqueville já nas escolas. Mas isto não acontece. Mas não importa, eles "lutam" contra isto porque na cabeça deles isto existe. É fundamental que eles controlem o que é ensinado nas escolas, uma vez que quem sabe o que deve ser ensinado são eles, não os especialistas e estudiosos da área. Querer controlar isto é autoritarismo. Controlar com intimidação é agressividade. Contra um "inimigo" que não existe é paranoia. Em tempos sombrios como os nossos, nada atrai mais do que um inimigo, seja ele imaginário ou não. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre Doria, Bolsonaro e o autoritarismo


Há algo muito grave ocorrendo no Brasil. Mais sério do que crise econômica, desemprego ou até mesmo corrupção. O país vive uma verdadeira onda autoritária, que possui atualmente duas correntes. Há uma corrente mais truculenta, grosseira, representada por Jair Bolsonaro, e outra mais "refinada", bem entre aspas, composta principalmente por empresários, que querem expandir a forma tirânica com que conduzem suas empresas à esfera pública, e por jovens que usam uma definição pobre de meritocracia para justificar seus privilégios. Esta segunda corrente encontrou no prefeito de São Paulo, João Doria Jr., sua grande estrela. Doria e Bolsonaro se encontraram no último dia 31/03, aniversário do golpe militar, num evento festivo organizado pelas Forças Armadas. A data não foi coincidência, assim como a presença dos dois políticos. Eles disputam o mesmo tipo de eleitor e sabem disso. 
Primeiramente, falaremos sobre a corrente representada por Doria, "apolítico" em ascensão, cujo nome vem sendo cogitado para uma possível disputa presidencial. Como dito no parágrafo anterior, este tipo de autoritarismo tem origem empresarial, no gestor que sabe tudo e não aceita sugestão de subalternos. Quem sabe é ele e mais ninguém. A opinião de especialistas não importa, apenas o que o gestor acha. Não importa se todos os especialistas acreditam que a redução de velocidade nas marginais significa redução no número de mortos e aumento na velocidade da via. Doria acha que não. Não importa se os especialistas em urbanismo elogiam o plano diretor da gestão Haddad. Doria quer revê-lo. Não importa se estes mesmos especialistas acreditam que uma cidade moderna deve investir em ciclovias. Doria não gosta delas. Tudo com base em achismos. 
Em uma empresa, não há espaço para contestação nem debate. Por isso, Doria se esforça para humilhar e desacreditar todos aqueles que ousam discordar de sua gestão. "Vá para Curitiba" é o que diz o prefeito, seja para um folião no carnaval da Vila Madalena, um morador na entrega do Minha Casa Minha Vida, um cientista político renomado como André Singer ou uma empresa que faz uma propaganda que ele não gosta. Especialistas e debatedores não têm espaço na gestão empresarial autoritária, apenas bajuladores. Doria teve uma interessante ideia de criar uma espécie de talk show, transmitido no facebook, em que o prefeito aborda os problemas da cidade. Seria interessante ver o prefeito conversando sobre urbanismo com um urbanista, sobre política com um cientista político, sobre transporte público com um especialista no assunto, sobre arte com um artista etc. O que tivemos até o momento foram conversas circenses com Roger, Lobão, Marco Antônio Villa e José Luiz Datena. O autoritarismo empresarial não gosta de reflexão, afinal. Gosta de frases feitas e autoajuda. A gestão Doria apresentou um vergonhoso Plano de Metas com muito menos metas do que as gestões anteriores. O prefeito não ficou na Câmara dos Vereadores para debatê-lo por mais do que 30 minutos. Gestor não debate. Não à toa Doria atraiu o MBL, grupo de jovens de classe média fascistas com pouco apego à verdade e adeptos de táticas de intimidação, como ameaças àqueles que não compartilham suas ideias.
Sobre o autoritarismo truculento, é uma herança dos militares. Não há muito de novo nele. Bolsonaro foi convidado esta semana para uma "palestra" no clube Hebraica do Rio de Janeiro. No final deste texto, encontra-se alguns dos absurdos ditos pelo deputado apenas nesta palestra. É assustador imaginar que uma pessoa como Bolsonaro esteja atualmente em segundo lugar (empate técnico com Marina Silva) numa pesquisa para eleição presidencial. Mais assustador é ver que a opinião pública não enxerga que isto é um grave sintoma de psicopatia social e não trata o assunto com a devida seriedade. O prefeito da maior cidade do país aceitou participar de um evento com um cara destes. Cumprimentou-o, tirou fotos e não o mandou ir para Curitiba. O empresário se enxerga no fascista.
Abaixo, as frases de Bolsonaro na Hebraica. Lembro, ele está em segundo. Como disse um ex-deputado hoje preso por corrupção, parabenizado por Bolsonaro por ter guiado o processo farsesco de impeachment, "que Deus tenha misericórdia desta nação"...

Bolsonaro na Hebraica:


“Eu tenho 5 filhos. Foram 4 homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher.”
“O pessoal aí embaixo (jovens de movimentos juvenis, torturados da ditadura militar, ativistas dos direitos humanos), eu chamo de cérebro de ovo cozido. Não adianta botar a galinha, que não vai sair pinto nenhum. Não sai nada daquele pessoal.”
“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem pra procriador ele serve mais”.
“Alguém já viu um japonês pedindo esmola por aí? Não, porque é uma raça que tem vergonha na cara. Não é igual a essa raça que tá aí embaixo, ou como uma minoria que tá ruminando aqui do lado”
“Pedi prum assessor meu dar um pulo ali no bar, comprar um sanduíche de mortadela que eu vou jogar pela janela.”
“Se eu chegar lá não vai ter dinheiro pra ONG. Esses vagabundos vão ter que trabalhar. Pode ter certeza que se eu chegar lá (Presidência), no que depender de mim, todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola."
“Tínhamos na presidência um energúmeno que são sabia contar até 10 porque não tinha um dedo”
“Se um idiota num debate comigo falar sobre misoginia, homofobia, racismo, baitolismo, eu não vou responder sobre isso”
“Eu não tenho nada a ver com homossexual. Se bigodudo quer dormir com careca, vai ser feliz.”