sexta-feira, 14 de junho de 2019

A numerada bajulando o camarote e a submissão da classe média ao poder da elite




Poucas imagens são tão marcantes para demonstrar as relações de poder entre elite e classe média e a submissão desta em relação àquela quanto a obtida na última quarta-feira na partida entre CSA x Flamengo em Brasília. Buscando apoio após os vazamentos que comprovam os crimes que cometeu durante a Operação Lava Jato que o alçou à fama, Sérgio Moro foi com o presidente que se beneficiou dos seus crimes ao jogo do time de maior torcida do Brasil na capital. Constrangido, pois definitivamente lidar com pessoas não é sua maior habilidade, Moro vestiu uma camisa do Flamengo no camarote, para delírio do público da numerada que estava abaixo do ministro. A numerada sonha em ser o camarote e morre de medo de voltar a ser arquibancada. A classe média sonha em ser elite e morre de medo de ser confundida com povo. É através deste medo e deste sonho que ela é facilmente manipulada pela elite, que impõe a ela os valores que justificam sua exploração e sua infelicidade.
O Flamengo é atualmente o time mais rico do país. Sua folha de pagamento de salário para jogadores ultrapassa os R$ 3 milhões mensais, gastou aproximadamente R$ 50 milhões para a temporada e quer títulos. No começo deste ano, um grupo de garotos buscando o sonho de jogar profissionalmente na equipe morreu num incêndio nas categorias de base do clube. Dez garotos entre 14 e 16 anos perderam suas vidas enquanto dormiam em containers sem condições e sem alvará. A primeira proposta que o Flamengo fez para as famílias de cada um dos meninos mortos foi de R$ 400 mil por vida, provavelmente algo próximo do salário mensal do técnico português Jorge Luz, que acabou de contratar. As famílias que não aceitassem teriam que enfrentar o clube na justiça, onde a situação duraria anos. Algumas famílias aceitaram, outras não. O clube não sofreu nenhuma punição desportiva pela morte dos garotos e na semana passada o seu presidente foi indiciado criminalmente pelas mortes. Não sei se ele estava no camarote com Bolsonaro e Moro na partida. Acredito que não, mas também acredito que ninguém veria problemas na situação. Afinal, o que são dez vidas adolescentes perdidas perto do “Mengão”?
O apoio do pessoal do camarote foi fundamental para que Bolsonaro e Moro chegassem ao poder. Foram anos de revolta vendo pessoas “diferentes” saindo das arquibancadas e chegando ao camarote e aquilo precisava ser derrotado. Anos de frustração e infelicidade que encontraram sua voz numa pessoa frustrada e infeliz, o “mito”. Bolsonaro é a voz da classe média do camarote, que enxerga nele as mesmas características toscas que vê em si. Assim, como ela, o “mito” é ignorante, arrogante, preconceituoso, paranoico e mentiroso. Preguiçoso intelectualmente, rejeita qualquer tipo de conhecimento que julgue “inútil”, como a arte e as ciências humanas. O pensamento e a reflexão incomodam, o que vale mesmo é falar merda com base em nada. A falta de capacidade do atual presidente em falar por mais de um minuto sobre o mesmo assunto é plenamente compartilhada por esta turma. Bolsonaro chegou ao poder da mesma forma como a classe média do camarote vive a vida.
Defender os crimes de Sérgio Moro está longe de ser algo difícil para a classe média do camarote. Estas pessoas cometem delitos diariamente. Não pagam direitos trabalhistas, sonegam impostos, pagam outras pessoas para que assumam seus pontos na carteira etc. Descobrir que Moro é um criminoso que forjou um processo contra o cara da arquibancada que ousou pôr pessoas como ele no camarote apenas aumentou a admiração que esta turma tem por ele.
Para que uma pessoa enxergue a gravidade que é um juiz e um advogado de defesa atuam em conluio é necessário que ela tenha algum apego pelo estado democrático de direito e este definitivamente não é o caso da classe média do camarote. A tirania é a base da vida e da infelicidade destas pessoas que, incapazes de refletir, dedicam-se ao trabalho de defender até a morte o sistema que as mantêm aprisionadas. Não à toa, a maior defesa das elites é a transformação do setor público em setor privado, que é tirânico por natureza. “Precisamos de gestão”, repete o cara da classe média do camarote, que não percebe que a sua relação de trabalho é o que causa sua infelicidade.
Em geral, as pessoas da classe média do camarote odeiam quase todos os aspectos da sua vida. Odeiam o trabalho, odeiam o chefe. Odeiam o carro, odeiam o trânsito. Odeiam pagar contas, odeiam tudo. Estão dispostas a tudo para manter o emprego, adoram bajular o chefe. Entram na prestação de um novo carro assim que acabam de pagar o antigo, não cogitam usar transporte público. Não cogitam a ideia de defender que o serviço público funcione, contentam-se em buscar no setor privado a “solução” para tudo e assim a vida se resume a pagar contas. A frustração leva ao desespero, gerando medo e violência. O cidadão com medo e com raiva é facilmente manipulado. A elite do camarote está lá para fazer isto.
As revelações sobre os crimes de Moro dificilmente gerarão algo. No fundo, todo mundo já sabia que Moro havia cometido crimes na Lava Jato. Isto apenas está provado. Mas para a classe média do camarote, isto é o de menos. Quem aplaudiu uma condenação sem provas não terá problemas em aplaudir a absolvição do criminoso no caso em que há provas. Desde que o pessoal da arquibancada fique cada vez mais longe. “Força, Mengão”.

terça-feira, 11 de junho de 2019

A televisão sem som



A existência de televisores sem som em ambientes públicos é para mim um grande mistério. Nunca entendi muito bem a função deles. Outro dia fui numa UBS aqui no centro por um problema besta. Ouvido entupido de cera. Fui uma pessoa criada com todos os privilégios imagináveis e é um choque cair na real. Meu plano de saúde foi para o saco junto com meu emprego e chegou a hora de conhecer o SUS. A classe média em geral se apavora quando perde seus privilégios e não nego que foi um pouco assim comigo. Somos doutrinados a achar que vamos, sei lá, morrer se perdemos os privilégios. Basta falar com algum motorista que fica sem carro para ver o drama que ele faz. A primeira lição de vida que o SUS te dá é que você não é prioridade. As pessoas na vida real têm problemas mais sérios do que um ouvido entupido de cera e você vai ser atendido só quando essas pessoas com problemas de verdade forem atendidas. Não adianta surtar. No dia em que fui tentar desentupir meu ouvido, enquanto eu esperava, aconteceu um acidente perto da região e os feridos foram para lá. O médico que iria me atender foi deslocado para atender as vítimas deste acidente e tive que voltar no dia seguinte. Justo. Enquanto eu esperava, lidei com a televisão sem som. Eu e mais algumas pessoas assistíamos o programa da Ana Maria Braga. Muitas risadas, comidas, cores, mas nada de som. Mesmo assim, ficamos vidrados na tela. Em quase todo local público ela existe. A impressão que tenho é que as pessoas simplesmente precisam de algo para ficar olhando enquanto esperam. Uma distração qualquer. O celular provavelmente impactou muito o mundo da televisão sem som, mas ficou claro para mim naquele dia que nada superava a tal da televisão sem som.
Uma distração enquanto as pessoas vivem. Algo que ocupe nosso cérebro enquanto não pensamos. A Lava Jato sempre soube se apresentar como uma boa distração. Soube muito bem ler a linguagem do entretenimento. Eu demorei muito tempo para assistir a alguma entrevista com Sérgio Moro. Por muito tempo ele existiu só em foto ou em voz. As poucas entrevistas dele aconteciam ou em premiações ou para órgãos estrangeiros. Não conheço nenhuma pessoa que tenha ganho tantos prêmios fajutos num período tão curto de tempo como o ex-juiz. Em 2018, por exemplo, Moro ganhou da Isto É o prêmio de “juiz do ano”. Que porra de competição é essa? No mesmo ano, ele ganhou da empresa de João Doria Jr. o prêmio de “brasileiro do ano”. Duas coisas me chamaram a atenção neste prêmio. A primeira é que o prêmio de “brasileiro do ano” é entregue em Nova York. O segundo é que o vencedor do prêmio no ano anterior foi João Doria Jr. Basicamente João Doria Jr. se elegeu “brasileiro do ano” em 2017. Fora estes prêmios, o que existia de Moro eram as fotos de braços cruzados e a voz. A câmera em seus julgamentos estava sempre apontada para o réu e Moro surgia como quase uma figura divina, uma voz do além. Perfeito do ponto de vista do espetáculo.
Na época assisti a uma entrevista de Moro para a CNN. Moro não dava entrevistas para a mídia brasileira, mas estava todo felizão de apresentar a “Car Wash” nos EUA. Na época, achei a entrevista bizarra. Moro, num inglês sofrível, deu como principal fonte para sua forma de ação o filme “Os Imperdoáveis”. Anderson Cooper, o entrevistador, tratou o entrevistado como uma bizarrice típica de Terceiro Mundo, mas Moro não foi muito capaz de perceber isto. A primeira entrevista de Moro para a grande mídia brasileira aconteceu apenas em abril do ano passado. O então juiz aceitou participar do Roda Viva de despedida de Augusto Nunes, colunista de Veja e da rádio Jovem Pan, um ícone da extrema-direita. O foco de Moro naquela entrevista era o julgamento da prisão a partir da segunda instância, que seria julgado no Supremo naquela semana. O juiz aproveitou todo o momento para demonstrar sua visão um tanto quanto tosca de justiça e para pressionar Rosa Weber, juíza que estava indecisa e cujo voto iria decidir a questão. Justiça significa punição, deixou ele claro, para deleite dos jornalistas puxa-sacos que cumpriam a função de escada para a grande estrela da noite.
Sérgio Moro soube criar um espetáculo moderno. Eu ainda acho que em algum momento vamos descobrir que a Lava-Jato surgiu a partir de uma pesquisa de mercado. O que o público quer neste grande entretenimento? Assim como Moro, a maior parte da população brasileira teve um conceito de certo e errado criado a partir de obras televisivas e cinematográficas ruins. Se Moro vive citando filmes de heróis como base para seus julgamentos, a população brasileira em geral faz isso a partir de novelas, que tem quase sempre o mesmo enredo. Um homem rico, bom e trabalhado está noivo de uma mulher rica e vilã. Um pouco antes de casar, ele conhece uma mulher pobre, boa e trabalhadora e eles se apaixonam, mas são vítimas da mulher rica e vilã, que apronta horrores contra o casal, sempre com um aliado que tem como amante. No final, a vilã é desmascarada e tem como punição a morte ou a pobreza. Já a mulher pobre, boa e trabalhadora ganha como prêmio pela bondade a riqueza. A noção de justiça do brasileiro médio é essa. Não é, sei lá, a vilã indo para um julgamento justo com direito a defesa. Isto não tem graça no entretenimento.
“A fama e a riqueza são como a sede quando se bebe água do mar, quanto mais se bebe mais fome se tem”, disse o pensador alemão Arthur Schopenhauer. Duvido que Moro tenha lido algo deste tipo na vida. Talvez ele se interesse se sair um filme. Também não acho que ele tenha lido nada destes pensadores clássicos alemães, mas Moro inegavelmente entende de dialética. Ele sem dúvida percebeu que a lógica do sistema exigia a existência de um vilão para o surgimento de um herói. E quanto mais o vilão fosse derrubado, mais o herói subiria. A classe média e os privilegiados já tinham um vilão, aquele que odiavam desde sempre. O metalúrgico que virou presidente. O “analfabeto” que colocou pobres nas universidades públicas. O torneiro mecânico que ousou pôr pobre para andar de avião. Para estas pessoas Lula sempre foi “ladrão”. Você já viu onde o Lula mora? Pergunta a pessoa de classe média privilegiada revoltada porque o homem que presidiu o Brasil por oito anos tem um apartamento normal em São Bernardo e visitou um apartamento no Guarujá. Foi fácil se tornar o herói de uma parcela da população que já tinha o vilão.
Moro soube conduzir o espetáculo com apoio midiático. A cada ação circense da PF, sempre uma câmera ligada. Uma informação vazada aqui, outra lá. Pessoas sendo presas preventivamente de forma indevida e torturadas psicologicamente. “O Brasileiro do ano”. Delações sem provas sendo vazadas como verdades absolutas, destruindo reputações e gerando até mesmo suicídios. “Juiz do Ano”. Virou personagem de filme e de série. A prisão sem prova de Lula o transformou no herói que aquela parcela da população precisava. “Ganhar roubado é mais gostoso”, dizem na outra paixão nacional. Bolsonaro ganhou a eleição roubada de Lula e, como prêmio, chamou o herói para um ministério. O “herói” não se choca tanto com os defeitos do “mito”. A defesa da tortura, o machismo, a homofobia, os elogios à ditadura. Nada disso incomoda o “herói”.
A imprensa que serviu de escada para Moro na Lava Jato tentou servir de escada novamente no ministério. Apresentou-o como especialista na área de segurança pública. Curioso, fui procurar qual contribuição de qualquer tipo que o já ex-juiz havia dado na área, seja como ação ou como produção intelectual. Não existia nada. Tudo que a imprensa sabia dizer era que o agora ministro iria levar para o governo as táticas usadas na Lava Jato. Inegavelmente, prisões preventivas absurdas, tortura psicológica e desrespeito à lei são “qualidades” que agradam muito a alguém como Bolsonaro. Como ministro, porém, Moro não pôde mais ser apenas a foto ou a voz divina. Teve que começar a aparecer e a participar de entrevistas minimamente verdadeiras. O resultado foi assustador. O herói da classe média e da elite tosca e medíocre surgiu como alguém que, afinal, é tosco e medíocre. Moro é incapaz de passar mais de um minuto falando sobre qualquer assunto e muito raramente consegue desenvolver uma frase com início, meio e fim. Gagueja e não consegue olhar no olho de quem fez a pergunta. Não consegue citar um livro que leu. Como ministro, mostra-se incapaz de dialogar com a classe política que demonizou. Tudo que conseguiu até agora foi assinar o decreto que flexibilizou a posse de armas, iniciar um estudo para diminuir os impostos sobre o cigarro e lançar um pacote anticrimes de inclinação fascista, que basicamente libera o assassinato de pessoas suspeitas (quase sempre pobres e negras) por forças policiais.
Aparentemente a mídia tradicional vai até o fim com o herói que ajudou a construir. O site The Intercept divulgou uma série de conversas vazadas do “herói” em que fica basicamente claro que ele manipulou todo o processo que gerou seu “heroísmo”. Foi tudo uma farsa. Transformar o “herói” em vilão, no entanto, significará transformar o “vilão” em herói, e isto é tudo que a parcela da população que clama por Moro não quer. As conversas do Intercept mostram as relações mais do que indevidas que Moro tem com membros da imprensa. Os cúmplices do espetáculo. Mesmo a Globo, com sua postura crítica a Bolsonaro e em guerra com a Record, porta-voz oficial do capitão fracassado, segue idealizando o ministro. Evitam entrevista-lo ou perguntar coisas difícoeis. Já perceberam as limitações do “herói”. Hoje passei meia hora assistindo a Glbo News. O assunto era a dificuldade que a classe média carioca está encontrando para manter o ar condicionado. Um assunto leve num dia tenso. Algo que permite desligar o som da TV.
A Lava Jato é uma farsa. As eleições de 2018 foram uma farsa. As pessoas vivem farsas e se identificam com elas. O mal seduz com tolices para depois enganar. É uma frase de Macbeth. Em quase todas as obras de Shakespeare são os vilões que se apegam ao moralismo. Moro é clichê. Basta abrir um livro. Ou ligar o som da TV.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bolsonaro, o trânsito e a sociedade de patetas malucos




O paulistano médio tem algumas paixões. As padarias com catraca, as academias espelhadas e a selfie no elevador estão entre elas. Mas nenhuma delas supera o carro e todo tipo de infelicidade e reclamações que ele permite. Nada no planeta, por exemplo, é mais chato do que paulistano falando sobre trânsito. As lamentações sobre a demora de duas horas para chegar ao trabalho, quase sempre causada pela “imprudência de algum motoqueiro”, o grande inimigo do motorista paulistano médio na guerra do trânsito. É lá também que o paulistano gosta de mostrar sua “esperteza”. Ver paulistanos falando sobre qual caminho fizeram para fugir do trânsito é um verdadeiro teste para qualquer tipo de paciência. “Ao invés de pegar, sei lá, a Marginal, eu entrei à direita na rua tal, virei à esquerda na avenida outra, segui reto num beco lá e consegui chegar... ufa, se não fosse isso, não sei que horas que eu chegaria”. O colega que seguiu na Marginal demorou mais cinco minutos.
O carro de certa forma simboliza e incentiva tudo que há de pior na nossa sociedade. É um símbolo da prisão em uma vida infeliz, abastecida através de stress, consumismo e status. Em geral, o motorista de carro é individualista, estressado, egoísta, irresponsável e incapaz de fazer uma autocrítica. Isto fica claro quando assistimos ou ouvimos a mídia voltada para o trânsito. Não sei como é em outros lugares, mas as informações da manhã do paulistano se resumem ao trânsito. “Marginal Pinheiros parada para resgate de um motoqueiro”. O foco não é na perda da vida, e sim no fato de que o trânsito está parado. Tem sempre um helicóptero voando e mostrando o trânsito parado do alto. Nas rádios são constantes aqueles barulhos da hélice de helicóptero noticiando a mesma notícia todo dia. Os repórteres sempre falam com pressa, sem que eu saiba muito bem a razão. Os seus ouvintes estão parados e a notícia é sempre a mesma. De certa forma eles incorporam o stress dos ouvintes e tem como função estimulá-lo. Stress vicia e um cidadão estressado é mais facilmente manipulado, especialmente para o consumo e para o ódio.
Para uma parcela significativa da população paulistana, a vida gira em torno do carro. O stress do trânsito no dia da semana se converte em stress procurando vaga de estacionamento no shopping no fim de semana, passando pela fuga das batidas policiais que procuram motoristas bêbados aos sábados à noite. Sim, o paulistano criou um aplicativo em que se compartilham informações sobre onde estão as blitz e fala sobre isto abertamente. O motorista paulistano está sempre certo. Há algum tempo, a mídia do trânsito cunhou o termo “indústria da multa” para falar sobre a ação “covarde e arbitrária” dos governantes que, olha só, buscavam punir os “bravos e valentes” motoristas que praticam infrações no trânsito. O mesmo cidadão “de bem” que reclama que a polícia não faz nada e pede leis mais duras contra todos os crimes enxerga de outra forma a situação quando a infração é cometida por ele. Numa situação bizarra, um motorista em alta velocidade diz que a culpa pela sua infração não é dele, e sim do radar que captou o momento. “Ele estava escondido”, “argumenta” o motorista, com o uso das aspas na palavra argumenta mais do que justificado. O mesmo paulistano que pede cadeia para tudo e para todos quer destruir o sistema que no trânsito pega e pune os infratores. Há na cidade um verdadeiro comércio de transferência de pontos entre motoristas. O mesmo cidadão de “bem” que pede responsabilidade aos crimes não pensa duas vezes antes de pagar alguém que aceite ficar com os pontos da infração.
O motorista paulistano é uma versão moderna do Pateta maluco. Neste episódio, o Pateta simplesmente se transforma ao entrar dentro de um automóvel, deixando de se tornar um dócil cidadão comum para se transformar num fera quando está atrás do volante. Mas na vida moderna a versão maluca do Pateta venceu. Ao ser uma das principais fontes de infelicidade na vida do paulistano médio, é também uma das suas maiores paixões e este cidadão está disposto a passar por cima de tudo para manter-se parado no trânsito e surtando. O primeiro político a perceber isto com maestria foi João Doria Jr. Nas eleições de 2016, Doria tinha como principal promessa de campanha o aumento da velocidade nas Marginais e a desinstalação de radares de velocidade. Seu antecessor, Fernando Haddad, havia reduzido de 90 para 70 km/h a velocidade permitida nestas vias e instalou radares para pegar quem não cumprisse a nova lei. As medidas de Haddad resultaram numa queda no número de acidentes, com redução no número de mortos e impacto positivo no trânsito. Embora a velocidade máxima tenha sido reduzida, a redução no trânsito em razão da queda no número de acidentes elevou a velocidade média da via, isto não segundo a gestão Haddad, mas segundo o órgão fiscalizador do governo do Estado, gerido pelo partido de Doria. Este não quis saber destes dados, disse que sua impressão era outra e, com base neste “argumento” maravilhoso, conquistou os corações dos paulistanos médios, sendo eleito no primeiro turno. Sua primeira ação no governo foi, como prometido, rever as medidas. Como resposta ao aumento no número de acidentes e mortes na via, a gestão Doria apostou na distribuição de panfletos e na colocação de duas ambulâncias no acostamento da via para, segundo palavras do prefeito, “atender as vítimas com maior agilidade e liberar o trânsito o mais rápido possível”.
O carro se sobrepõe à vida no conceito tosco de existência do paulistano médio. Durante as eleições de 2016, era quase impossível convencer motoristas paulistanos de que a redução de velocidade era algo bom com base no argumento da redução do número de mortos. Ninguém estava nem aí para isto. Passei a notar então que todas as campanhas de conscientização sobre o assunto não se baseiam na ideia de empatia pura e simples com o outro, e sim em fazer com que o “cidadão de bem” enxergue que ele pode ser a vítima que hoje ele despreza. Só há efeito se o motorista enxergar a “si” como vítima, enquanto for o “outro” a possibilidade de conscientização é mínima. Durante a mesma eleição, li uma análise que mostrava que um paulistano a velocidade de 90 km/h demoraria aproximadamente 2 minutos a menos para percorrer a Marginal se comparado a um paulistano a 70 km/h. Entre dois minutos e a vida de “outro”, o paulistano optou pelos dois minutos. “Acelera, São Paulo”.
O eleitor de Doria em 2016 votou em Bolsonaro em 2018. Os números dos dois na capital paulista são bem parecidos, embora eu ache que a comparação entre os dois não deve ser tão radical. Bolsonaro consegue ser muito pior do que Doria. Mas em alguns aspectos a gestão Bolsonaro leva ao país métodos que Doria tentou implantar na gestão paulistana e um deles é, sem dúvida, a completa ausência de preocupação com dados e com a opinião de analistas no momento da implantação de políticas públicas. Assim como Doria privilegiou seus achismos frente aos dados que comprovavam a eficácia da redução de velocidades na Marginal, Bolsonaro os ignorou completamente na sua nova empreitada a favor da matança nas estradas. Ignorar o conhecimento, aliás, é uma das marcas desta nova gestão. É assim no pacote anticrime do ministro Moro, nas “ideias” educacionais etc. Contrariando qualquer lógica e bom senso, Bolsonaro quer, entre outras coisas, aumentar o número de pontos na carteira que proíbem um motorista de continuar conduzindo, tirar a obrigatoriedade da cadeirinha de criança no banco de trás e acabar com a necessidade de exame toxicológico para motoristas profissionais. De verdade, basta pensar um pouco, bem pouquinho mesmo. Refiro-me com isto a pessoas que não são apoiadoras do atual governo, seria impossível exigir de quem ainda apoia algo tão difícil quanto o pensamento. Quem se beneficia com este tipo de medidas? Aumentar o número de pontos, os únicos beneficiados são aqueles que cometem muitas infrações e poderão cometer mais, certo? Retirar a obrigatoriedade do exame toxicológico só beneficia quem não passaria neste exame, certo? Mas podemos ficar “tranquilos”, uma vez que o caminhoneiro que não passaria neste exame também poderá portar uma arma.
Não há espaço para empatia na “nova política” de Doria e Bolsonaro. Nenhum de seus eleitores está preocupado com o óbvio aumento no número de acidentes e de mortes que as novas medidas do presidente vão ocasionar. Isto porque a morte e os acidentes impactam o “outro”, enquanto o benefício aparente é individual. “Posso tomar mais multa”, pensa o paulistano médio que, indiscutivelmente, conseguiu expandir sua visão de mundo para o restante do país. A “nova política” representa a ausência de empatia. Toda a sua plataforma é baseada no incentivo ao individualismo, algumas vezes travestido da palavra empreendedorismo, e na rejeição a qualquer coisa que pense no coletivo. O exemplo mais extremo é o do Rio de Janeiro, em que a sociedade aceita com um silêncio aprovador a matança que vem sido organizada pelo governador Wilson Witzel nas regiões mais pobres do estado. São Paulo “acelerou” e deixou alguns mortos no caminho. Agora é o Brasil que “acelera”. Em marcha ré.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

As neuras da classe média, a Vivo e o boi a caminho do matadouro




Ficar desempregado é algo ruim, claro. Mas como tudo na vida, tem seu lado bom. Poucas vezes comecei um texto com um clichê tão grande, mas o pior é que é verdade. A principal qualidade do desemprego para uma pessoa de classe média como eu é a oportunidade que ele dá para que a pessoa consiga se livrar de coisas supérfluas. Perdi coisas importantes, claro. Confesso que tenho medo às vezes de estar sem plano de saúde e de não estar contribuindo para a previdência. Mas, em geral, tenho lidado bem com isso.
Uma coisa que aprendi com o desemprego é que a classe média da qual faço parte perdeu completamente a capacidade de discernir o que é necessário e o que é privilégio. “Não dá pra viver sem plano de saúde”, diz um amigo bancário, mesmo vivendo num país em que a maioria das pessoas não tem este privilégio. Tanto dá pra viver que a maioria vive, afinal. A crise começada em 2015 foi a primeira crise de classe média da nossa história. Quando digo de classe média, refiro-me ao fato de que é a primeira vez que vivemos um período de crise em que uma boa parte da população está inserida na classe média, ou seja, em que boa parte da população enxerga a vida através dos olhos da classe média. Não é à toa que foi ela quem, majoritariamente, foi às ruas protestar com camisa da seleção pedindo impeachment em 2015. Como pessoa inserida dentro da classe média posso dizer, é uma classe composta por pessoas dramáticas. Lembro-me de uma matéria hilária (neste caso de humor involuntário) da revista Época neste contexto das manifestações do impeachment com o título “Os dramas da classe média”. Dois depoimentos me marcaram. Um era de um analista de TI, na foto com cara de muito puto e sofrido, vestindo calça e camisa social, contando da tristeza de sua família que costumava sair todo sábado para jantar num restaurante e, devido à crise, começou a ter que dividir uma pizza neste dia. O outro era de uma mulher, gerente de loja, trajando um vestido longo, com cara de poucos amigos e braços cruzados, relatando o drama de ter que trocar o cinema semanal com os filhos pelo Netflix.
Nada é mais fácil do que converter privilégio em direito e supérfluo em necessidade. Basta, sei lá, um mês convivendo com o supérfluo e você já acha que não dá pra viver sem aquilo. Usuários de Uber que o digam, “é muito sofrido pegar ônibus, afinal”. Comigo não foi diferente. Não tenho plano de saúde e nem contribuo para a previdência. Mas mantive a TV a cabo. “Não dá pra viver sem”, pensei eu à época. Faz mais ou menos um mês que minha ficha caiu. “Por que eu ainda tenho esta merda?”, pensei eu. “Chegou a hora de cancelar”, veio-me à mente logo em seguida. É aí que aparece a Vivo no texto.
Não há na história do planeta empresa pior do que a Vivo. Talvez apenas as outras empresas de telefonia. Com seu serviço ruim e seu atendimento lamentável, a Vivo tem revolucionado o capitalismo. Talvez num futuro não tão distante vamos estudar o “vivismo” da mesma forma que estudamos o fordismo e o toyotismo. Ligar para a Vivo por qualquer motivo é um verdadeiro teste para a paciência. E isto inclui não apenas reclamações e cancelamentos, mas também a contratação de serviços. A grande sacada da Vivo foi perceber que ela vende um serviço supérfluo e cada vez mais desnecessário para um público extremamente disposto a se acostumar com estas porcarias. A má qualidade do seu serviço faz com que uma grande parte dos clientes mantenha o serviço não apenas pela necessidade, mas para evitar a dor de cabeça que o contato traz. Na minha primeira ligação, consegui falar com um atendente após mais ou menos dez minutos, tendo clicado um sem número de dígitos “disque um para falar sobre problemas, dois para comprar ... trinta e cinco para recitar um poema”. Em algum momento, tive que digitar meu CPF para, em seguida, quando finalmente falei com uma pessoa de verdade, tive que responder qual meu CPF. Eis que meu cadastro não era encontrado no sistema e a mulher ficou de me ligar para terminar o cancelamento. Dois dias depois, recebi uma ligação da Vivo. Era uma outra pessoa me perguntando se eu tinha interesse em fechar um pacote de 300 milhões de gigas para o meu celular. Disse que não e perguntei do cancelamento. Outra área da Vivo cuidava disso, respondeu-me a atendente. Dois dias depois, outra ligação da Vivo. Era um homem, perguntando se eu tinha interesse em fechar um pacote de 300 milhões de gigas para o meu celular. Não tenho notícias do meu cancelamento há uma semana. Não sei se ele foi feito ou não. Ainda não tive forças para me dedicar a resolver isto.
Um supérfluo de classe média ao qual não me rendi na época em que eu tinha carteira assinada é o celular pós-pago. A TIM nunca aceitou isto muito bem. Há cada dois ou três dias, alguém da TIM me liga para dizer que tem uma promoção de um pacote de 300 milhões de gigas para o meu celular. Apenas uma vez respondi a verdade nestes contatos. Eu disse que no fundo não queria ter mais um boleto para pagar. Não quero mais uma conta física chegando em casa. Acho chato. O atendente me respondeu que não teria problema, pois a TIM poderia mandar a conta por email. Fiquei um cinco segundos quieto refletindo sobre a conversa e disse que mesmo assim não ia querer. Dois dias depois, a TIM me ligou de novo.
A grande promessa da TIM nas suas tentativas de me vender um plano de pós-pago é o acesso ilimitado ao Whatsapp. Após a eleição, ainda num momento de tensão pós-eleitoral, resolvi sair de todos os grupos de Whatsapp. Minha vida ficou mais leve por alguns meses. Eles foram mais do que suficientes para mostrar que grupos de Whatsapp não servem para nada. Sua grande função é basicamente espalhar boatos, notícias falsas e estimular a ansiedade. Os grupos de Whatsapp não significam nada de real na vida das pessoas. Nada. Fui voltando aos poucos este ano. Na semana passada, lá estava eu vidrado no aplicativo vendo o que os grupos falavam sobre assuntos diversos. Meu pacote de dados acabou enquanto um grupo mandava vídeos do ministro da educação falando bosta. Ainda bem que a TIM não me ligou naquela hora.
A classe média é formada, em geral, por pessoas infelizes, que utilizam o dinheiro ganho em empregos de merda para comprar produtos, serviços e experiências supérfluas. A grande paixão da classe média nos últimos anos, depois do celular, foi sem dúvida nenhuma a viagem. Esta passou a ser, inclusive, a grande meta das pessoas. Digo por experiência própria, fui assim aproximadamente entre 2011 e 2015. Onze meses de trabalho de merda e um mês viajando. Viagens que na maioria das vezes não representam nada, acabam sendo uma experiência vazia. O que dizer, afinal, sobre a classe média viajante que ama as bicicletas de Amsterdã e Berlim, mas que odiaram as ciclovias de Haddad em SP? Pessoas de classe média adoram falar sobre viagens, sempre citando onde foram. Na maioria das vezes são incapazes de dizer o que aprenderam.
A grande sustentação para esta vida de merda é sem dúvida o emprego. É ele que sustenta a Vivo, a TIM, as viagens, a prestação do carro, o plano de saúde, a escola dos filhos etc. A perda do emprego significa basicamente perder tudo. A defesa do emprego está acima de tudo. Se o mercado acha que eleger um cara que, entre outras coisas, acha que homossexual deve apanhar na rua, que defende a volta da tortura e representa um grupo de policiais criminosos que formou uma milícia, tudo bem. É ele quem vai manter o emprego, disse o mercado. Qualquer valor moral e humano é desvalorizado na classe média atual frente ao número de empregos. A ascensão da extrema-direita no mundo tem muito a ver com a decadência do mundo da classe média, incapaz de encontrar uma felicidade real nas experiências supérfluas que o consumo lhe permite, mas também incapaz de enxergar que o problema está nas falsas necessidades que possui. É este sentimento de frustração que tem alavancado líderes que conseguem explorar esta frustração e convertê-la em ódio contra aqueles que se recusam de certa forma a fazer parte deste círculo vicioso moderno. Trump, Le Pen, Bolsonaro, entre outros, todos bradando contra os “vagabundos”, todos aqueles que de certa forma não se adequam e questionam esta destruição. Numa tentativa de sair da bolha, algumas vezes tento conversar com algumas pessoas que votaram em Bolsonaro para entender sua visão de mundo. Elas estão ansiosas e continuam infelizes. Continuam putas. Isto não vai passar nunca, afinal.
É bem provável que eu nunca mais vá ter carteira assinada. Como dito no começo, lido pessoalmente bem com isso, mas não é o que acontece com a maioria. De certa forma sinto que consegui uma libertação parcial que a maioria não conseguiu. “O medo dá origem ao mal”, diz a música de Chico Science. Cada vez mais a classe média tem sido empurrada para a terceirização, que se tornou basicamente uma política governamental desde a gestão Temer. A primeira reforma que o mercado julgava necessária era a trabalhista. Facilitou-se a terceirização, que no longo prazo representará uma queda gigantesca na receita que financia a previdência, uma vez que a maior parte das entradas deste sistema vem do trabalho formal. Agora os “jênios” querem reformar a previdência, afinal, o sistema não se paga. O argumento principal é a geração de empregos. Emprego é a palavra-chave que mantem a cela da prisão fechada. Não lembro o nome do filme em que um grupo de veganos se unia para libertar os bois de uma fazenda. Chegavam lá, cortavam as cercas, mas nenhum boi fugia. Ficaram parados olhando. “Eles já não sabem viver de outro jeito”, dizia o personagem principal antes de ir embora. Tiveram que sair correndo porque, após o susto, os bois começaram a avançar sobre eles. Poucos dias depois caminharam para o matadouro. É o que a classe média tem feito, basicamente.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Como a incompetência de Doria se transformou em sua maior qualidade




João Doria Jr. levou para sua carreira no setor público a principal característica que marcou sua vida no setor privado: a incompetência. Doria não possui nenhum trabalho bem-sucedido no setor privado. Filho de um importante deputado e publicitário, Doria Jr. conseguiu, graças ao prestígio e a riqueza do pai, empregos importantes nos setores privado e público já em sua juventude nos anos 1980. Passou despercebido como diretor de publicidade da Bandeirantes e foi demitido do cargo de presidente da Embratur no governo Sarney após uma malsucedida campanha publicitária para incentivar o turismo sexual no Brasil e uma infeliz (para não dizer babaca) ideia de criar um “turismo da seca”. Passou os anos 1990 e 2000, graças ao dinheiro do papai, comprando horários noturnos em canais de televisão para fazer um fracassado programa de entrevistas, que muito raramente chegavam a um ponto de audiência. A grande chance televisiva veio com a apresentação do programa O Aprendiz, substituindo Roberto Justus em algumas temporadas, também sem sucesso.
Neste meio tempo, ainda usando a influência positiva do pai, Doria Jr. fundou uma empresa chamada Lide que basicamente não produz nada. A principal função desta empresa é juntar empresários a políticos, principalmente do PSDB, para realização de lobby. Foi provavelmente desta proximidade que surgiu a ideia de entrar na política. Em 2016 tivemos a primeira eleição sem financiamento privado de empresas da nova República, o que abriu espaço para os seguintes profissionais na nossa política: profissionais de mídia, de esportes, de religião, do crime organizado e diversos milionários excêntricos puderam comprar vagas como candidatos em grandes partidos. Não à toa as três principais cidades do país naquela eleição elegeram um milionário excêntrico, um pastor de igreja evangélica e um ex-presidente de clube de futebol. Doria Jr. basicamente comprou a vaga de candidato no PSDB, subornando delegados do partido nas prévias e pagando as dívidas que a campanha ao governo do estado de Alckmin havia deixado em 2014. Toda a incompetência demonstrada em sua vida nos setores público e privado até aquele momento foram compensadas pela capacidade de Doria de entender qual o discurso que mais se adequava à população naquele momento. Surfando na onda antipetista, Doria conseguiu ser eleito no primeiro turno. Doria soube ler a mediocridade do eleitorado paulistano e se transformou em seu símbolo.
Sua gestão na prefeitura de SP foi marcada pela ineficiência, pela ineficácia, pela paralisia e pela pirotecnia. Doria soube como ninguém ler o que significa a tal da “nova política”, registrando tudo que fazia, quase como num reality show, e transformando intenções em realizações. Uma festa para inaugurar um banheiro público no centro da cidade e outra para receber duas ambulâncias que ficariam no acostamento da Marginal. Controle da notícia, o lançamento de uma pauta após a outra para chamar a atenção e, principalmente, para que ninguém notasse que a pauta anterior fracassou. O banheiro público foi fechado. As ambulâncias não estão na Marginal.
Doria é simplesmente incapaz de transformar algo em ato. Não consegue produzir nada. Prometeu vender tudo e não conseguiu vender nada, por exemplo. Simplesmente não consegue. Todo mundo que mora em SP sabe que foi só ele sair e, de certa forma, a gestão municipal começou a andar. Goste-se ou não de Bruno Covas, o fato é que ele já conseguiu neste pouco mais de um ano de gestão fazer mais do que Doria, até porque isto não é difícil. Bastaria, sei lá, pintar uma rua e isto já seria mais do que Doria. Goste-se ou não, foi só Bruno Covas assumir e ciclovias voltaram a ser planejadas, o Parque Minhocão começou a sair do papel, assim como o Parque Augusta, a Virada Cultural voltou a existir etc.
O principal motivo para Doria sair da prefeitura foi, além de saciar sua sede por poder pessoal, que quanto mais rápido ele saísse, maior era a possibilidade de esconder sua incompetência e continuar vendendo o personagem que encontrou no setor público algum sucesso. Deu certo. Puxando ao máximo o saco de Sérgio Moro e de Jair Bolsonaro, Doria conseguiu eleger se apresentando como soldado na guerra contra o “comunismo”. Não deixa de ser curioso que o pai de Doria, a quem ele deve sua carreira, foi expulso do Brasil em 1964 por pessoas com o mesmo tipo de argumento de Doria Jr. Na gestão estadual, Doria segue apresentando os mesmos “resultados” que apresentou na gestão municipal. Não há nada acontecendo. E, no atual momento, esta é a principal qualidade de Doria.
Vivemos a era mais terrível desde a redemocratização. Nada representa mais isto do que o assustador vídeo do governador do Rio, Wilson Witzel, sobrevoando uma comunidade pobre do estado apontando uma metralhadora e atirando a esmo. O aumento assustador do número de mortos em ações policiais no Rio mostra que, ao contrário de Doria, Witzel é “competente”. Prometeu matar e está matando. Doria também foi eleito com esta promessa e, embora os números mostrem também um aumento em mortes em confrontos policiais em SP, não é nada que se compara ao que acontece no Rio. Também não há nada indicando que vá conseguir tocar em frente as outras promessas de campanha. Ia vender tudo, mas provavelmente não vai conseguir vender nada, falou que ia fazer um super trem ligando SP e Campinas, mas ninguém se lembra disso direito. É bizarro, mas ainda bem que Doria é incompetente.
A incompetência de Doria o torna o político menos perigoso entre os quatro líderes mais importantes do país hoje. Não tem a capacidade de destruição da psicopatia de Bolsonaro e Witzel e da tosquice de Zema. Doria nem tenta mais fazer algo. Enquanto na prefeitura ele pelo menos fingia que estava limpando as ruas, na gestão estadual ele nem se preocupa com isso. Está viajando o mundo tentando defender as reformas de Paulo Guedes para um público que já concorda com elas. Doria quer se apresentar como opção para o mercado, abandonando completamente qualquer vontade de fingir que faz algo para apostar na autopromoção pura e simples. Só precisa achar o saco certo para puxar. Na eleição municipal, puxou o saco de Alckmin. Na eleição estadual, puxou o saco de Bolsonaro e Moro. Resta saber numa possível eleição em 2022 quem será o dono do saco a ser puxado. Tudo indica que vai ser Paulo Guedes. Mas Doria sabe adequar às pesquisas de opinião.

Bolsonaro, Moro e a nova forma de autoritarismo




Numa escola de idiomas em que trabalho, um professor foi chamado pela diretoria para uma conversa. A mãe de um adolescente com quem ele tem aula havia reclamado que o professor postava coisas esquerdistas e contra o presidente em redes sociais. A escola, ao invés de defender o professor, chamara-o para pedir que ele “maneirasse” nas redes sociais. Ele se viu obrigado a trancar sua rede social e deletou os alunos que tinha como amigos.
Na mesma semana em que vi isto acontecer com o colega professor, uma notícia chocante não teve o destaque merecido. As editoras que participam dos editoriais para venda de livros ao governo federal já estão “adaptando” seus materiais para que eles agradem ao novo governo. Os editais ainda não existem e o governo ainda não oficializou as novas exigências. As editoras, porém, já estão se mexendo para atender as exigências que ainda não existem.
Para entender a forma como funcionam os novos regimes antidemocráticos é necessário entender que eles não funcionam como as ditaduras clássicas dos anos 1960, em que, caso você dissesse algo que desagradasse o governo oficial, basicamente um guarda iria para sua casa te prender. Os novos regimes atuam de forma diferente. Basta ver como as coisa funcionam na Rússia, por exemplo. Não tenho a menor dúvida em dizer que, utilizando o simples conceito clássico, há liberdade de expressão por lá de uma forma que nunca houvera antes. Ninguém será preso apenas por dizer algo contra Putin. Mas há uma boa chance de que você enfrente problemas diversos em sua vida pessoal pela sua opinião.
Basicamente o que Bolsonaro e a Lava Jato estão montando é um regime de exceção que mantenha a aparência democrática. Fazem isso com a formação de um verdadeiro exército de seguidores dispostos a fazer o papel de fiscais da vida alheia. É a própria sociedade civil que terá o papel de pôr na linha aqueles que ousarem criticar os “salvadores”. No longo prazo, os anos de incentivo à delação premiada vai de certa forma transformar nossa sociedade em delatores. A punição, porém, não é a perda da liberdade, mas a perda do emprego.
A maior invenção da dupla Bolsonaro e Moro até o momento é o nacionalismo bocó. É um novo tipo de patriotismo que se baseia, basicamente, em cantar o hino errado a cada cinco minutos e ficar hasteando bandeiras. Ao contrário do nacionalismo clássico, não há a busca de símbolos culturais que justifiquem este nacionalismo. Bolsonaro, Moro e seu séquito sentem verdadeiro desprezo pela cultura nacional. Também não há apreço pelas empresas ou pelo patrimônio público em geral. O patriotismo é justificado da forma mais infantil possível, com cores, uniformes que são quase fantasias e slogans que lembram gritos de torcidas de futebol, tudo para manter qualquer profundidade longe do debate. O que Bolsonaro e Moro conseguem desta forma é basicamente criar em seu séquito a ideia de que eles defendem o Brasil e que todos os que estão do outro lado, portanto, não são apenas adversários políticos, mas inimigos da pátria. Está nisso a base da formação de um exército fiscalizador, pronto para denunciar e prejudicar aqueles que se proponham a enfrentar de alguma forma o regime.
A expansão das táticas da Lava Jato para as mais diversas áreas da vida é, não à toa, um dos projetos deste novo governo. A primeira medida do novo governo na área educacional, por exemplo, foi a criação de uma Lava Jato da Educação, para investigar e punir possíveis erros na área. Note que eles querem criar uma investigação para um crime que não sabem qual é e do qual não tem indícios, pretendem descobrir durante a investigação. Algo típico de um regime autoritário e paranoico. Outra medida que Moro defendeu nas últimas semanas é a criação de "delações premiadas" dentro das empresas privadas. Os funcionários receberiam bônus para denunciar o que acontece de errado na firma, um incentivo econômico à delação. Quase algo do tipo, "tive mais despesas neste mês, acho que vou fazer uma denúncia". O denuncismo se tornando política oficial.
A economicidade da vida nos transformou em pessoas medíocres. E, por incrível que pareça, faço isto com menos juízo de valor do que parece. Há uma frase numa música de Raul Seixas que acho a melhor definição de como funciona o choque entre o coletivo e o individual em nossas vidas: “Dois problemas se misturam, a verdade do universo e a prestação que vai vencer”. Todos pagamos contas, afinal. A questão é que cada vez mais pagar as contas se tornou basicamente a única preocupação da vida. Cada vez mais a prestação que vai vencer, cada vez menos a verdade do universo. Muitas pessoas já estão silenciando e sendo, portanto, coniventes com os abusos da gestão Bolsonaro-Moro antes mesmo que exista alguma imposição legal para isto, apenas com medo de que isto possa prejudicar seu emprego. Às vésperas da eleição, participei de um jantar com jornalistas descolados de diferentes meios de informação. Todos votaram em Haddad, nenhum deles fazia campanha abertamente. O motivo era o medo de que isto pudesse significar broncas no trabalho.
Esta economicidade é o maior instrumento que os novos regimes autoritários utilizam no processo de controle social. Forma-se um séquito disposto a investigar e denunciar pessoas que enfrentem o regime, mas não ao governo, e sim ao chefe. É muito provável, por exemplo, que é isto que tenha acontecido por exemplo no caso de Marco Antônio Villa. Duvido que tenha havido alguma ação oficial do governo solicitando sua demissão da rádio Jovem Pan. A rádio, contudo, deve ter recebido inúmeras reclamações de ouvintes do séquito, ameaçando diferentes tipos de boicote caso a rádio seguisse permitindo que Villa ousasse criticar Bolsonaro. O mesmo aconteceu no passado com Reinaldo Azevedo e vem acontecendo com Rachel Sheherazade, antigos ícones do antipetismo que agora lidam com o monstro que criaram. Todos cresceram e ganharam destaque acusando uma falsa perseguição petista e estão provando agora o que é uma verdadeira perseguição, realizada pelos monstrinhos que por anos foram seus ouvintes. SBT, Record, Rede TV e Bandeirantes já estão totalmente alinhadas com o novo governo em troca de patrocínios milionários. Qualquer crítica nestas redes já está, desta forma, proibida. A proibição vem da grana, e não do tanque.
Pense na sua vida pessoal. Reflita se você tem amigos ou conhecidos que resolveram maneirar nas redes sociais ou simplesmente saíram dela por “não aguentarem mais”. Pois é, a nova ditadura de certa forma já começou. Dessa vez quem cala não é o tanque. É o medo de perder o emprego. O alinhamento ao novo regime é para muitos uma questão financeira e quem quiser ser a resistência de verdade deve ter isto em mente. As coisas acontecem sem que nos demos conta. Muitos já silenciaram.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mentindo no currículo



Há poucas atividades no mundo que eu ache tão chatas quanto elaborar um currículo. Percebi isto logo na primeira vez em que fui fazê-lo. Inscrevi-me para uma vaga de instrutor de crianças num cursinho voltado para a colônia coreana no bairro do Bom Retiro. Sem saber ao certo o que escrever, procurei à época algum site que me falasse o que escrever. Na época ainda não existia o Youtube, hoje devem ter milhões de tutoriais sobre o assunto. Deve ser até profissão. Mas bom, segui a dica e coloquei meu nome, endereço, estado civil, número de filhos etc. Estas eram as respostas que eu sabia ao menos dar. Em todas as outras, inventei e enrolei. Sempre fui uma negação quando o assunto é informática. Sou da última geração em que apenas crianças ricas tinham computador e acesso à rede. Comecei a usar computador já na adolescência e meus conhecimentos se baseavam basicamente em passar tempo nas salas de bate-papo do Uol ou no ICQ tentando matar o tédio. Internet avançado, escrevi eu no currículo. Já sobre o Word, eu havia feito alguns trabalhinhos de escola e minha irmã me havia ensinado a alinhar a página. Word avançado, portanto. Eu já sabia abrir o Excel. Não sabia, porém, importar um arquivo de Excel. Não sabia clicar em arquivo, abrir etc. Fui aprender isto no trabalho e lembro que anotei num papel para não esquecer o passo-a-passo. Mas já sabia que se eu escrevesse numa célula =2+2 apareceria o número 4. Ou seja, Excel avançado. Descobri que era muito importante para quem estava começando na época ter conhecimentos em Access. Eu até hoje não sei o que o Access faz. Access intermediário é o que pus no meu currículo. O único programa que na época eu dominava era o Paint, mas já não davam muito valor para ele na época. Nada consta sobre este meu conhecimento no meu primeiro currículo. Eu já tinha um bom conhecimento de inglês na época, sempre foi algo que me interessou. Conseguia ler um livro de dificuldade média em inglês. Inglês intermediário. Por que escrevi só intermediário? Por que igualei meu conhecimento de inglês ao conhecimento de Access, programa que eu nem sabia (e sigo sem saber) para que serve? Talvez o ser humano tenha uma característica de supervalorizar o que não sabe e desvalorizar o que sabe. Ao menos eu tenho. Não vou mentir na única coisa em que podia dizer a verdade, afinal. Aí veio a parte mais bizarra, a dos adjetivos. Descrevi-me como dinâmico, proativo, cativante. Eu era um pós-adolescente extremamente molenga e medroso na verdade. Quando comecei a trabalhar em escritório, descobri que male mal conseguia atender um telefone. No ápice da tosquice, eu disse que “vestia a camisa da empresa”. Como eu podia saber isso se era meu primeiro emprego, afinal? Do mesmo jeito que pus que sabia Access. O site dizia que eu deveria no fim dizer quais eram meus objetivos e como via meu futuro na empresa. A realidade é que eu queria uma grana pra ajudar em casa e comprar camisetas de time de futebol (com meu primeiro salário comprei uma camisa do Boca). Eu disse que me identificava com os valores da empresa e queria começar lá. O que é exatamente se identificar com os valores de uma empresa é algo que até hoje não sei. Trabalhei, por exemplo, numa editora que tinha como valor pintado na parede a defesa da liberdade de expressão, mas que controlava o que funcionários postavam em redes sociais. Disse também que almejava um crescimento na empresa que, lembrando, nada mais fazia do que contratar jovens para dar aulas de reforço a jovens coreanos no Bom Retiro.
Surpreendentemente passei na vaga e trabalhei apenas por um mês na escola. Foi uma experiência extremamente enriquecedora pois, entre outras coisas, eu tinha que dar aula de história do Brasil a alunos que não sabia falar português ou inglês. Entrei em novembro, em dezembro vieram as férias e em fevereiro o dono fechou aa escola e abriu um restaurante no local. Por um tempo, achei que o meu sucesso no processo seletivo era fruto do meu currículo e dos meus “conhecimentos” de Access. Só depois caiu a ficha de que provavelmente eu devo ter sido a única pessoa que se candidatou para a vaga.
O Access me acompanhou no currículo até 2010. Foi meu companheiro de luta em inúmeras rejeições e em algumas aprovações. Ele sempre estava lá comigo em cada uma das dinâmicas de grupo insuportáveis que tive que enfrentar em busca de um estágio. O mundo deu voltas e um belo dia eu passei a ser a pessoa que contratava. Ao analisar currículos, eu sempre gostava de ver qual era o conhecimento que a pessoa tinha de Access.
A forma como elaboramos currículos não deixa de representar bem a maneira como enxergamos a vida. Uma experiência de cinco anos muitas vezes resumida a uma linha. “2003-2008 – Faculdade de economia”. Muitas coisas aconteceram nestes cinco anos. Experiências que realmente mudaram a minha vida. Mas o que importa no currículo é este grande vazio “2003-2008 – Faculdade de economia”. Trabalhei por doze anos no mesmo local e uma quantidade tremenda de experiências vivi naquele ambiente. Chorei, ri, briguei, fiz as pazes, conheci pessoas, despedi-me de pessoas, fiz merda, consertei algumas, mandei pessoas tomar no cu, pessoas me mandaram tomar no cu, uma quantidade de coisas que não conseguimos às vezes nem expressar, basicamente desenvolvi a minha vida. “2005-2017 – Editora X – área de compras”. O currículo não se preocupa com o caminho, apenas com o final. Um resumo tosco de algo que não pode ser resumido.
Na minha experiência com currículos conclui que, na maior parte das vezes, quanto mais picareta a pessoa, maior a probabilidade do currículo dela se destacar. Pessoas vazias têm uma capacidade maior de expressão através de um instrumento vazio. Recebia currículos que eram verdadeiras obras-primas da picaretagem. Jovens ricos contando sobre intercâmbios ao Canadá aos dezesseis anos onde puderam “lidar com as diferenças”. Nada como jovens ricos e cheios de privilégios saindo do Brasil, um dos locais mais heterogêneos e complexos do mundo, para ir para um país rico “lidar com diferenças”. Cada um tem seu Access, afinal.
O Access do governador Witzel é uma pós-graduação em Harvard. Do mesmo jeito que eu inventava que sabia usar o Access, Witzel inventou que fez uma pós-graduação em Harvard. Ao ser pego na mentira, Witzel inventou uma resposta que nem o jovem João no ápice da picaretagem seria capaz de inventar: “Eu pretendia fazer o curso”. Esta resposta mostra ainda mais o tamanho do vazio pessoal de Witzel. Há tantas coisas melhores para se pretender na vida, afinal. Na mesma semana, o procurador da Lava-Jato Deltan Dallagnol apagou de seu Twitter a referência que fazia a uma pós-graduação na mesma universidade. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, diz ter feito um curso na mesma universidade, mesmo tendo um nível de inglês macarrônico. A turma da Lava-Jato enxerga o mundo da mesma forma, afinal. Eles pretendem a mesma coisa.
Um dos ramos educacionais que mais cresce no Brasil é o de MBA picaretas de escolas privadas. Cursos curtos, que pouco ou nada ensinam, voltados para profissionais ricos, com preguiça de estudar de verdade, mas que querem colocar o nome de uma instituição renomada no currículo. Pessoas que não se importam em ter uma experiência enriquecedora e que baseiam a vida em preencher mais uma linha deste famigerado documento. “MBA em Marketing com foco em Gestão de Novos Projetos”. As universidades estrangeiras renomadas perceberam o enorme mercado que existe para isto por aqui e investem pesado. Profissionais picaretas de classe média alta de países em desenvolvimento são o público-alvo destes cursos. Brasil, Rússia, Índia e China lotam os cursos de MBA de Harvard, do MIT, de Yale e de outras universidades americanas e britânicas.
Inventar que fez Harvard é o menor dos erros de Witzel e na grande mentira que ele representa. Isto não é nada comparado com o uso do extermínio como política de Estado e com o silêncio geral que a sociedade está fazendo frente aos crimes de sua gestão no Rio. Mas faz sentido sem dúvida que uma pessoa que não respeita a vida dos outros seja incapaz de reconhecer que a real importância de uma experiência está na sua vivência, e não na sua conclusão. Foda-se Harvard. Foda-se o Access. Foda-se o currículo. A vida vale mais a pena quando o foco são as experiências que não podem ser colocadas neste documento.

sábado, 18 de maio de 2019

A vida real por trás de cada meme e a função da comunicação




A imagem deste post vem de um cartaz que, supostamente, uma jovem levou a uma das passeatas que levaram mais de um milhão de pessoas às ruas contra o “governo” Bolsonaro e seus “projetos” educacionais. O uso das aspas neste caso serve para dar uma ideia do absurdo que é chamar o atual “governo” de governo e um “projeto” de destruição das universidades públicas de projeto. A imagem e o erro de português da garota fez sucesso na rede bolsonarista, sempre expondo a imagem da menina que ergueu o cartaz com o argumento de que os erros de português são suficientes para desqualificar a causa pela qual a garota havia se decidido por lutar.
Por trás de cada meme há uma pessoa de verdade. Uma vida que muitas vezes pode estar sendo simplesmente destruída pela simples vontade que o internauta tem de dar risada e debochar de alguém. Não faço ideia de quem é a jovem que segurava o cartaz, mas é bem possível que ela tenha sido vítima de todo tipo de humilhação nestes últimos dias. Acho bem improvável que alguém que fez parte da divulgação da imagem e que tenha espalhado este meme se importa com isto, principalmente porque neste caso estamos falando de pessoas que fazem parte da base bolsonarista, e definitivamente não dá para esperar nenhum tipo de empatia deste tipo de gente. A criação de memes envolvendo pessoas reais e não públicas, porém, não é exclusividade desta turma com a qual é impossível manter qualquer tipo de diálogo que exija empatia. De certa forma, a internet transformou-nos, basicamente, em seres insensíveis. As pessoas são em geral incapazes ao menos de mexer na foto para impedir que a pessoa seja exposta. Não, o deboche nesta nova era só funciona se houver alguém humilhado, de preferência alguém que já é fraco.
A garota do meme é vítima das enormes falhas educacionais do nosso país. É bem provável que tenha passado por um sistema público pobre e que não incentiva a leitura. Isto, porém, não é exclusividade do setor público. Todos cometem erros de português. Nos textos que escrevo, volta e meia me assusto com os erros que cometo na revisão. E mesmo após a revisão, alguns passam. Nosso ministro da justiça, por exemplo, filho de escolas particulares, universidades públicas e MBAs no exterior, fala “conje” e não sabe a diferença entre rugas e rusgas. O ministro da educação, que estudou na mesma universidade que eu, confundiu Kafta e kafka e escreveu incitar com S. Acontece. A diferença é que eles são pessoas públicas e estão abertas a críticas. A garota não. A rede bolsonarista, aliás, faz vistas grossas para as tosquices do seu ministro da Justiça, mas não tem problema em humilhar a desconhecida humilde. É a covardia à la Danilo Gentilli, aliás.
Nenhuma sociedade é tão escrota quando o assunto é erro gramatical quanto a brasileira. Tenho trabalhado como professor de idiomas e a maior dificuldade que tenho é convencer os alunos a falarem, mesmo que seja “errado”. Se eu te entendi, está certo, digo eu toda vez que sinto esta vergonha. A gramática lapidamos depois. Por aqui, como quase tudo, a linguagem é um tipo de opressão. A principal função da linguagem é a comunicação. O objetivo da comunicação é alcançado quando a pessoa que fala ou escreve é capaz de ser entendida por aquela que escuta ou lê. Do ponto de vista comunicativo, por exemplo, o “trazerá” cumpriu plenamente sua função, uma vez que todos que leram o cartaz compreenderam o que era dito. No Brasil, porém, a linguagem tem como objetivo muitas vezes não a comunicação, mas a demonstração de um possível conhecimento daquele que fala, que deixa claro inclusive que não tem nenhuma preocupação em ser compreendido por quem escuta. Em nenhum local de nossa sociedade isto é tão claro quanto nas sessões do Supremo. Ninguém entende aquilo. Os juízes se esforçam em falar da forma mais incompreensível possível. É isto que lhes garante o poder. Forma-se desta forma um grupo de intermediários cuja função é traduzir aquilo que o juiz disse para a linguagem da massa. Este intermediário ganha o poder de um tradutor, divide  o domínio com o juiz.
A educação universitária no Brasil foi desenhada como um privilégio para poucos. “Formar uma elite” era o slogan da USP em sua fundação. A situação começou a mudar nos anos 2000, e não apenas graças ao trabalho do PT no governo federal. Houve uma espécie de consenso na nossa classe política de que era necessário dar um gigantesco passo que atraísse pessoas de baixa renda e origem humilde para as universidades. Para citar duas ações não petistas que mostram isto, podemos citar a criação da USP Leste pelo PSDB em SP e a implantação da política de cotas, que deve seu pioneirismo à gestão de Anthony Garotinho no RJ (sabe lá Deus de que partido ele era nessa época, acho que PDT ou PMDB ou PP ou PR, sei lá). O fato é que havia um consenso coroado com as medidas do governo federal, que expandiu o número de vagas, de cursos, construiu novas universidades e expandiu o programa de cotas cariocas para o restante do país. Investindo não apenas no público, o governo federal petista expandiu a rede de financiamentos para estudantes de baixa renda que conseguissem vagas apenas em instituições privadas. O conceito de universidade, que era exclusivo, passou a ser inclusivo. A sociedade de certa forma entendeu que era necessário que a universidade abrisse suas portas para todos. E é exatamente isto que incomoda Bolsonaro e sua trupe de memes.
Neste último mês, o atual governo declarou guerra à educação e a questão desta guerra não é apenas o corte de gastos, mas a falta de respeito. Bolsonaro faz tudo que pode para desrespeitar os trabalhadores da educação. E é muito importante notar que o ódio que Bolsonaro e seu séquito têm da educação não se restringe ao setor público. Abraham Weintraub, ministro da Educação, já chamou o FIES de tragédia. Ter um ministro da educação que se diz “liberal”, mas que critica um programa de incentivo ao ingresso de jovens de baixa renda em universidades privadas mostra bem o tipo de capitalista que temos.
A eleição de Bolsonaro é fruto, a meu ver, principalmente da falta de memória e consideração que a nossa sociedade demonstrou com os avanços que tivemos na última década. Chama-se de “velha política” tudo, sem levar-se em conta que no período da “velha política” melhoramos todos os nossos dados sociais, aumentamos significativamente a expectativa de vida, crescemos distribuindo renda e colocamos jovens nas universidades. É óbvio que a situação é ruim ainda, mas melhoramos muito. Saia um pouco da sua bolha, leitor, e pergunte às pessoas mais jovens quantas gerações anteriores a ela tiveram acesso à universidade. É bem provável que a resposta seja “sou a primeira pessoa da minha família”. Veio a “nova política” que quer destruir tudo isto. A menina do cartaz quer impedir isto.
A função da educação é, ou deveria ser, combater opressões e incluir. Na linguagem, isto significa que é quem fala que tem que fazer o possível para ser entendido por quem escuto. Se for necessário, corte o plural, coma os Rs, não importa. Isto não é errar, é acertar. O que mais me entristece na situação é, além da humilhação a que a menina foi exposta por algo que ela é vítima, o fato de que as pessoas são incapazes de reconhecer que ela está defendendo o certo. Foda-se a forma, o que importa é o conteúdo. Para a garota, se pudesse falar com ela, falaria do orgulho que senti ao ver jovens como ela saindo às ruas para lutar pela educação e para combater o governo psicopata eleito pelas pessoas mais velhas. E diria a ela que não se importe com pessoas escrotas. Todo mundo entendeu o que você disse. Isto é o mais importante. Você é uma heroína.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A Fórmula 1 e os autódromos como símbolos de uma sociedade pirada




Eu perdi o emprego no cada vez mais longínquo ano de 2017. Com muito tempo livre, senti que era hora de colocar em prática o que estava aprendendo no curso de pós-graduação de Ciências Políticas que fazia na época. Resolvi que era hora de participar das sessões abertas de debate da Câmara dos Vereadores de São Paulo e o tema da primeira sessão marcada era a privatização do Autódromo de Interlagos. Sou uma pessoa que não tem opinião formada sobre o assunto privatização. O motivo é simples, para mim se trata de um assunto que não existe. Não faz sentido uma pessoa se dizer a favor ou contra privatizações sem que ela saiba o quê estão querendo privatizar. O impacto social da privatização do Parque do Ibirapuera é totalmente diferente do impacto social da privatização do Sambódromo, por exemplo. A grande farsa do debate geral é que ele cria a ideia de que alguém deve ser a favor da privatização de tudo ou contra privatizar tudo, esvaziando o debate.
Disposto a contribuir e com tempo, estudei um pouco o assunto para a sessão. Descobri, por exemplo, que em 2017, dos vinte autódromos que recebiam corridas da Fórmula 1, dezessete eram públicos. As exceções eram o autódromo dos EUA, que pertence a um milionário do petróleo texano, o autódromo de Suzuka, que pertence a Honda, e mais um que não me lembro. A Fórmula 1, devido aos gigantescos custos que exige, tornou-se basicamente uma categoria “estatal”. É por isso que cada vez mais surgem na categoria corridas em países sem tradição no esporte que usam o evento para divulgar o local, quase como um projeto estatal. Bahrein, Turquia, Rússia, Malásia, Azerbaijão, Emirados Árabes, entre outros. Uma semana antes da sessão, o então prefeito João Doria foi a Abu Dhabi para divulgar seus projetos de privatização na cidade e foi passear no autódromo da cidade, que, segundo ele, era o grande modelo a ser seguido na privatização de Interlagos. Estudando o assunto, fiquei surpreso ao descobrir que o autódromo de Abu Dhabi é 100% público e dá um prejuízo gigantesco para o país. O motivo é simples, ele não foi feito para ter lucro, trata-se de um meio para gerar publicidade. Doria, portanto, quis usar como exemplo um autódromo que representa o oposto daquilo que ele dizia querer. Digo dizia porquê no fundo ele não queria nada. O único objetivo de Doria na prefeitura era autopromoção que o levasse a cargos mais altos, e ele foi bem-sucedido em seu projeto pessoal.
Sou contra a privatização de Interlagos, mas também sou contra a manutenção do autódromo como ele é hoje. Acho que faria muito mais sentido socialmente transformar aquela região em parque aberto ao público. Apenas minha opinião pessoal e que pode e deve ser debatida. Interlagos, sem a Fórmula 1, tem resultado financeiro positivo, basicamente com o aluguel do local para milionários que querem brincar de corrida aos fins de semana ou com eventos como o Lollapalooza. O que dá prejuízo ao autódromo é exatamente a Fórmula 1. Segundo especialistas, porém, o prejuízo gerado ao autódromo pela Fórmula 1 é mais do que bancado pelo lucro que o evento gera ao setor de turismo da cidade. A corrida é o maior evento turístico da cidade no que se refere a dinheiro gasto (perde para a Parada Gay em número absoluto de turistas). O verdadeiro debate sobre este assunto deveria ser se a cidade está disposta a bancar esta espécie de subsídio ao setor de turismo da cidade, o que acho um debate válido, aliás.
Pois bem, chegando preparado à sessão, sentei-me e esperei. Com uma hora e meia de atraso, chegou o vereador Milton Leite, presidente da Casa e escolhido por Doria para defender o projeto no debate. Se colocarmos a quantidade de asneiras sobre o assunto que Milton Leite disse naquele dia num papel, teríamos um livro maior do que Guerra e Paz. O vereador não se deu ao trabalho de estudar por cinco minutos o assunto. Disse, entre outras coisas, que se o autódromo não fosse privatizado a cidade perderia a Fórmula 1 e que TODAS, repito, TODAS as corridas atualmente acontecem em circuitos privados. Pura e simples mentira. Disse também que a própria Fórmula 1 estava investindo e se mostrava interessada em comprar o autódromo. A Fórmula 1, porém, nunca demonstrou nenhum interesse em adquirir nenhum autódromo no mundo. Por último, respondendo a uma pergunta minha, Milton Leite que o principal atrativo para o possível comprador de Interlagos era a construção de um hotel dentro do circuito. Qual a chance, diga-me leitor e leitora, de alguém vir pra São Paulo e se hospedar no meio do autódromo de Interlagos?
Dois anos depois, sem estardalhaço, o processo de privatização do autódromo foi suspenso. O motivo é simples, ninguém se interessou em comprar. A “brilhante” ideia de construir um hotel no meio do autódromo não atraiu procura. Não apenas este, mas por enquanto quase nenhum dos projetos de privatização alardeados por Doria em sua campanha saiu do papel. Fruto em parte da incapacidade de Doria em fazer qualquer coisa, em outra parte do fato de que ele e sua turma se esqueceram de procurar saber se alguém queria comprar o que ele queria vender. Doria foi passear na China, nos Emirados Árabes, fez um tour no mundo e nada. Durante a campanha para prefeito, o ápice da maluquice de Doria neste assunto foi sem dúvida a “ideia” de privatizar as ciclovias da cidade. Seria uma coisa inédita no planeta privatizar uma faixa das ruas da cidade. Também não achou quem comprasse, possivelmente.
Na mesma semana em que a privatização do autódromo de Interlagos foi suspensa, o presidente Jair Bolsonaro e o governador do Rio, Wilson Witzel, conseguiram superar Doria quando o assunto é ideia esdrúxula. Antes de falar sobre a questão do autódromo do Rio, é importante notar que há vários conflitos se desenhando dentro da extrema-direita brasileira. Hoje ela é liderada por Bolsonaro, o maluco-mor, mas há várias guerrinhas sendo armadas dentro desta turma. Uma delas é entre Witzel e Doria, ambos dispostos a tentar substituir o maluco-mor na presidência algum dia. É isto que explica, por exemplo, a exposição psicopática que Witzel e Doria estão realizando das mortes relacionadas a ações policiais nos dois estados. Eles estão numa corrida para ver quem mata mais, saciando o desejo de uma sociedade psicopata representada pelo maluco-mor e que teve um ápice no bizarro vídeo de Witzel voando de helicóptero numa região pobre do Rio apontando uma metralhadora. Na maluquice em que vivemos, Witzel é hoje um dos representantes da ala judiciária dos lunáticos da Lava-Jato, enquanto Doria tenta se destacar como maluco de “centro”, o tipo de maluco que viaja o mundo defendendo o livre mercado enquanto saí matando internamente. Por trás do autódromo do Rio, há Witzel querendo chamar a atenção nacional e passar a perna em Doria.
A grande lição da gestão Doria em SP é que se deve fazer uma grande festa no anúncio de obras irrealizáveis. Ninguém vai lembrar quando não der certo. O fracasso do processo de privatização de Interlagos teve espaço quase nulo na mídia e Doria já pôde aproveitar os benefícios políticos do projeto que não aconteceu. A mesma coisa acontece agora com o autódromo do Rio. A quantidade de absurdos do projeto é inumerável e o anúncio de construção do autódromo poderia estar no roteiro de um filme surreal de Buñuel. Num primeiro momento, Bolsonaro diz que o autódromo será construído num terreno do Exército e será todo bancado pela iniciativa privada, “com custo zero para os cofres públicos”. A primeira questão básica é, se o terreno é público, logo há um custo na doação deste terreno, certo? É algo público que deixará de ser público por um valor de zero reais, logo???? A segunda parte é quem exatamente na iniciativa privada vai bancar o projeto? As mesmas empresas interessadas nos projetos de Doria em SP? Bolsonaro e Witzel anunciaram um custo de de R$ 850 milhões para o projeto. Quem calculou este valor? Uma vez que ainda não há interessados, quem achou este valor? Diz Bolsonaro ainda que o tempo de construção do autódromo é de oito meses e que ele já será usado na corrida do Brasil em 2020. Fora a impossibilidade de construção de um autódromo num prazo tão curto, a Fórmula 1 tem contrato com SP até 2020. Quem pagará a multa pela mudança no local da corrida? A Fórmula 1 aceitará correr sem testes num autódromo novo?
O autódromo do Rio provavelmente não sairá. Se sair, será de uma forma totalmente diferente da anunciada pelo maluco-mor e pelo juiz psicopata. Para eles, isto não importa. Ninguém se lembrará deste assunto daqui a alguns meses. O maluco e o psicopata já conseguiram o espaço que queriam. Aprenderam com Doria a manipular uma população sem memória e que não presta atenção em nada. Para dar apenas um exemplo, a Reforma Trabalhista geraria milhões de empregos. Não gerou. Agora é a Reforma da Previdência que gerará milhões de empregos. Não se dão nem ao trabalho de mudar de argumento. O futuro destes empregos gerados pelas Reformas é o mesmo do autódromo de Bolsonaro e Witzel e das privatizações de Doria...

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Faustão é o brasileiro do ano



Aproximadamente doze horas se passaram e as imagens de Di Ferrero imitando Kurt Cobain no último programa do Faustão ainda não me saíram da mente. Nos últimos trinta anos, o apresentador Fausto Silva proporcionou ao povo brasileiro momentos inesquecíveis de entretenimento televisivo, mas poucos se comparam ao que aconteceu ontem. Numa representação do clássico clipe de Smells Like Teen Spirit, o cantor que embalou a classe média dos anos 2000 aproveitou com maestria a chance que o veterano apresentador dá a subcelebridades decadentes dispostas a qualquer coisa para ter mais quinze minutos de fama.
Poucas pessoas têm tanta influência na sociedade brasileira desde o ano de 1989 quanto Fausto Silva. Se houvesse alguma justiça na vida terrena, ele provavelmente seria eleito o brasileiro do ano em todos os anos desde esta data. A empresa Lide, de João Doria Jr., que organiza o prêmio de brasileiro do ano na cidade de Nova Iorque, deveria aproveitar que a cidade americana se recusou a receber e premiar o presidente brasileiro fascista e fazer justiça a Faustão. Resolver a injustiça de 2017, por exemplo, ano em que a empresa de João Doria premiou João Doria como brasileiro do ano, numa versão tupiniquim da autoproclamação que veríamos dois anos mais tarde na Venezuela.
Faustão tem muitas qualidades, mas a mais importante no momento é a capacidade de explorar o gigantesco potencial de subcelebridades decadentes desesperadas em recuperar seu lugar ao Sol. A fama e a riqueza são como a água do mar, quanto mais se bebe, mais sede se tem, disse Schopenhauer. Nas últimas décadas, o apresentador global nada mais fez do que provar na prática a sabedoria da frase do filósofo alemão. Subcelebridades se revezam em quadros como “Dança dos Famosos”, “Circo dos Famosos”, “Show dos Famosos” e o meu favorito “Patinação dos Famosos”. Não me lembro se este último tinha este nome realmente ou se o nome era “Dança do gelo dos famosos”. Bom, o importante é saber que neste quadro os famosos iam fazer todo tipo de peripécia enquanto patinavam no gelo. Uma das participantes do quadro era a atriz Suzana Vieira, apresentada por Faustão como a guerreira que ia provar que não tinha limites ao topar o desafio de patinar dançando no gelo aos setenta anos. Duas semanas depois, Suzana deixava a atração com uma costela quebrada, fruto de um previsível acidente ocorrido durante os treinamentos.
A influência de Faustão na realidade política brasileira é gigantesca. Poucas pessoas tiveram a importância na generalização do uso de bordões vazios e frases sem real sentido na política quanto o apresentador. Afinal, “urna não é penico, bicho”. São anos falando obviedades como “temos que investir em saúde e educação” ou “temos que votar direito” e depoimentos forjados de subcelebridades fajutas repetindo que “sim, é isso mesmo Fausto, temos que investir em saúde e educação e aprender a votar direito”. Junho de 2013 nada mais foi do que os bordões de Faustão indo às ruas. Uma multidão de jovens com pouca ou nenhuma formação política indo às ruas dizer que “urna não é penico”. O discurso de Faustão nada mais é do que o cerne da política brasileira atual, seja no tipo de milícia fascista montada pelo MBL ou na paixonete aguda que a parte mais light da esquerda começa a sentir por Tábata Amaral. Seja você um jovem da direita histérica ou da esquerda suave, toda pessoa com menos de 45 anos viva nesta país carrega dentro de si os ensinamentos políticos de Faustão.
Há alguns anos, Faustão surpreendeu o país com o lançamento do quadro Ding Dong. Trata-se de uma ideia genial, um quadro musical em que o telespectador não sabe qual será a atração musical. Um sucesso de audiência, com o qual Faustão conseguiu provar que a atração musical não tem importância alguma no programa. As pessoas vão assistir qualquer coisa que esteja passando naquele momento, seja Anita ou Moacyr Franco. A TV de domingo nada mais é do que algo que fica ligado como um som ao fundo, algo para escaparmos da solidão. Ninguém está interessado em saber com antecedência o que vai passar. TV é quase um penico, bicho.
São inúmeras as contribuições de Faustão para a sociedade brasileira. A churrasqueira pegando fogo, o lançamento das Scheilas, os Los Hermanos se despedindo de Ana Júlia. Di Ferrero de Kurt Cobain foi uma das cerejas no bolo neste ano em que celebramos trinta anos do programa que mudou o país. Que João Doria faça justiça e premie Faustão.