sábado, 20 de janeiro de 2018

O governo Lula e o voto em Ciro


Antes de começar a defesa ao voto em Ciro Gomes, acho importante explicitar minha opinião sobre o governo Lula. Para mim, Lula foi o segundo maior presidente da história do Brasil, ficando atrás apenas de Getúlio. Foi responsável pelas maiores transformações sociais vividas neste país desde a era Vargas e o país nunca teve uma força no cenário geopolítico tão grande quanto em seu governo. O país saiu do mapa da fome. Paramos de ver repetidas matérias tratando da tragédia da seca no Nordeste. Para fazer isto, é fato, teve que se aliar ao que há de pior na elite empresarial e política, gente corrupta e mesquinha totalmente indiferente ao interesse nacional. Não vou, neste texto, focar nos efeitos negativos desta aliança. A grande mídia já alardeia isto o suficiente. Temos que tratar como fato histórico que ela existiu e que muito provavelmente as conquistas do governo Lula não seriam possíveis sem esta junção. Realpolitik na veia. A mesma coisa aconteceu no governo Juscelino, aliás. Não à toa, JK recebeu basicamente as mesmas acusações que Lula sofre agora quando a elite se cansou dele. As três vezes em nossa história republicana em que presidentes tentaram investir no social enfrentando esta turma resultaram em tragédias. O suicídio de Getúlio em 1954, o golpe militar contra João Goulart em 1964 e o golpe jurídico-parlamentar contra Dilma em 2016. O fato mais importante do desespero da elite corrupta em se livrar de Dilma é pouco falado, aliás. A Oderbrecht deu dinheiro a Pastor Everaldo para que ele ajudasse Aécio num debate em 2014. Aécio era um candidato tão ruim que precisava de ajuda para enfrentar Dilma, uma pessoa extremamente inteligente, mas com pouquíssima habilidade retórica, num debate.
Lula focou seu governo na inclusão de uma parcela significativa das pessoas no mercado de consumo. Isto inclusive na área educacional. Sem dúvida o país avançou gigantescamente nesta área. Pegando a minha bolha como exemplo, é enorme o número de pessoas que conheço que são da primeira geração de suas famílias a conseguirem fazer curso superior. Não acho que tenha sido feito da forma correta, com o Prouni funcionando quase como um seguro público para o desenvolvimento de faculdades particulares. Mas é inegável que isto foi um avanço dos maiores. Em qualquer outro lugar do mundo, um político que realizasse isto seria amado pela elite capitalista. Mais consumidores igual a mais lucro e sem dúvida os mais ricos ganharam muito dinheiro neste período. Isto não ocorre no Brasil, em que temos uma elite exclusivista, sem nenhuma visão de desenvolvimento nacional, e uma classe média que prefere se matar de trabalhar para garantir a si o prazer do que sobra desta elite do que lutar por algo maior. A elite corrupta se cansou de dividir qualquer coisa com o resto da sociedade e não quer mais saber de Lula. Como justificativa, usam o mais elitista dos poderes para combater de forma seletiva a corrupção. Num processo farsesco, provavelmente condenarão Lula e vão torna-lo inelegível para 2018 graças à reforma de um apartamento que nunca foi dele.
Lula tem todo direito de ser candidato. Uma eleição em que o primeiro colocado se torna inelegível desta forma bizarra não pode ser levada a sério. Lula, porém, não deveria querer ser candidato, por vontade própria. O momento histórico para a esquerda sair da lulodependência é agora. Lula goza de boa saúde, felizmente, mas já tem 74 anos e não vejo preocupação alguma nele e no PT em criar algum tipo de sucessor ao ex-presidente. Não que seja possível alguém ter o grau quase “mítico” que Lula possui, fruto não apenas das transformações de seu governo, mas de sua incrível história de vida, mas é chegada a hora de Lula transferir este patrimônio político a alguém.
A direita no Brasil é golpista e burra e está se dividindo em zilhões de candidaturas para 2018. Até Fernando Collor está querendo sair candidato. No momento, Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Paulo Rabello (presidente do BNDS) e agora Collor já declararam intenção de candidatura. Há ainda a candidatura circense de Luciano Huck, uma espécie de Dr. Rey mais apresentável e, claro, a candidatura fascista de Bolsonaro.
Vivemos num momento em que 1/5 da população brasileira se dispõe a votar num candidato fascista. Mesmo que este número caia até a eleição, o que é bem provável, pois este candidato começou a ser bombardeado pela mídia, que sempre se silenciou em relação às barbaridades ditas por Bolsonaro, mas que agora precisa fazer com que os fascistas voltem a apoiar o PSDB, qualquer pessoa que em algum momento já se mostrou disposta a votar num candidato destes merece ser chamada de fascista. Um grupo de jovens fascistas já participa diretamente da gestão de duas das cinco maiores cidades brasileiras, São Paulo e Porto Alegre. Enfrentar esta onda de ódio direitista deve ser a maior prioridade do momento e qualquer divergência programática entre grupos de esquerda deve ser desconsiderada numa aliança, neste momento. A candidatura Lula, neste cenário atual, só serviria de motor a estes grupos fascistas. Ser anti-Lula é tudo que eles sabem fazer. O que os incomoda não são os erros do governo Lula, e sim os acertos.

Neste cenário, o candidato de centro-esquerda que me parece ser o nome mais competitivo e ideal é Ciro Gomes. Político experiente, esteve do lado certo da história nos três momentos mais cruciais que nosso país viveu desde o fim do Regime Militar. Foi Ministro da Fazenda do Plano Real, fez parte do ministério do primeiro governo Lula, possivelmente o melhor ministério que o país já teve, e esteve sempre contra o impeachment de Dilma Rousseff, mesmo nos momentos em que havia uma grande pressão midiática sobre este assunto. Sempre denunciou os erros do governo Lula, reconhecendo também seus grandes acertos e a evolução do país neste período. Mas, mais importante de tudo, é o único nome competitivo a criticar o modelo de desenvolvimento baseado no consumo. A mídia esconde, mas em qualquer sondagem sem o nome de Lula, Ciro aparece em segundo, empatado com Marina Silva. Outras candidaturas de esquerda podem surgir. Manuela D’Avila já anunciou seu interesse. É fundamental, porém, que a esquerda não se divida neste momento em que algo muito sério está para acontecer. A onda fascista unida ao esforço do mercado em desmontar o estado brasileiro exige pragmatismo. Lula, vítima de uma perseguição nojenta, enalteceria ainda mais sua já gloriosa biografia se o apoiasse. O mesmo acontece com os demais partidos de esquerda.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O Bolsa-Família libertou pessoas


Presidente da Câmara, o deputado Rodrigo Maia expressou hoje um sentimento que há muito tempo toma conta de boa parte da classe média e da elite brasileira e, por mais que se tente negar, é uma das bases da rejeição a Lula e ao governo petista. Segundo Maia, o Bolsa-Família “escraviza” pessoas. A ignorância e o preconceito de pessoas como Maia contra o programa e contra as pessoas beneficiadas por ele estão explícitos nesta frase, que tem tido menos repercussão do que deveria.
O Bolsa-Família libertou pessoas. É sem dúvida a maior conquista brasileira do séc. XXI. Deveria ser o grande orgulho da nossa geração. Fora o fundamental fato de que tirou milhões da miséria e tirou o Brasil do mapa da fome extrema no mundo, o programa deu a milhões de pessoas uma possibilidade libertadora, a possibilidade de dizer não a trabalhos extenuantes e mal-remunerados. Antes do programa, a população mais pobre era obrigada a aceitar basicamente qualquer migalha para não morrer de fome, recebendo uma baixíssima remuneração por trabalhos duríssimos. Tendo uma renda básica garantida mensalmente, que permite resolver suas necessidades básicas, os beneficiados puderam ter a chance de dizer não a condições exploratórias. O Bolsa-Família foi um dos principais motivos para o aumento na remuneração de serviços aos quais a classe média e a elite estavam acostumadas a pagar merrecas. O programa deu alguma capacidade de negociação a estes trabalhadores. Quantas pessoas das classes mais abastadas não ouvimos nos últimos 15 anos reclamando que “um pedreiro ganha muito” ou que “está impossível pagar uma empregada” e, principalmente, “não sei quem não quer sair de casa para trabalhar não”?
O Brasil foi um país fundado tendo como base a escravidão e carrega desta época inúmeras e gigantescas consequências. Disse Joaquim Nabuco em O Abolicionista que após a abolição o Brasil entraria numa nova fase, ainda terrível e que duraria pelo menos trezentos anos, a fase das consequências da escravidão. Uma destas consequências é a incapacidade de nossa elite e de nossa classe média, louca para se sentir elite, de valorizar o trabalho, principalmente o braçal. Paga-se muito em supérfluos e pouco em trabalho. O Bolsa-Família obrigou esta turma a pagar mais para manter certos privilégios. Isto gerou revolta numa turma que não está acostumada a ser contrariada.

Rodrigo Maia nunca fez nada na vida. Filho de Cesar Maia, prefeito do Rio duas vezes, arrumou um emprego num banco de um amigo do papai aos 20 anos. Aos 26, arrumou um cargo de Secretário de Governo da Prefeitura do Rio com o sucessor de papai, Luiz Paulo Conde, na época em que eles ainda eram amigos. Aos 28 anos, em 1998, começou a parasitar na Câmara dos Deputados, graças ao apoio do ainda popular papai. Vinte anos depois segue no mesmo lugar, sem nenhum projeto importante. Assumiu a presidência da Câmara após o impeachment fajuto de 2016, o qual apoiou. Quase virou presidente em 2017, sonha em virar presidente em 2018. Candidato a prefeito do Rio de Janeiro em 2012, teve magníficos 4% dos votos na capital fluminense. Repetindo, Rodrigo Maia nunca fez nada na vida. Pessoas como ele são contra o Bolsa-Família. Querem continuar pagando pouco para as pessoas que fazem tudo, podendo assim continuar a fazer nada pagando pouco. Maia é herdeiro do pensamento escravista que moldou o país e que faz com que um programa como o Bolsa-Família, premiado mundialmente e que serviu como exemplo e inspiração em outros lugares do mundo, seja absurdamente contestado internamente. Maia disse a frase sobre o Bolsa-Família a empresários brasileiros em Washington. Pessoas como ele. Continuou seu discurso falando mal também do Projeto “Minha Casa Minha Vida” e falando aquele blábláblá de sempre sobre carga tributária, que rico adora ouvir. Falou também sobre combate à corrupção. O Botafogo.  A elite corrupta finge se preocupar com a corrupção. Mas só a usa como argumento para manter seus domínios. Ela só quer pagar menos para a empregada, para a babá e para o pedreiro. Assim sobrará mais dinheiro para gastar com as férias da família na Disney.

domingo, 14 de janeiro de 2018

O racismo e arrogância de William Waack


William Waack escreveu um texto em sua própria defesa para a Folha de São Paulo. Acusado de racismo após a divulgação de um vídeo em que faz uma “piada” que hoje julga “infeliz”, o texto de Waack é quase um clichê de pessoas infratoras que tentam a todo custo se transformar em vítima. Waack se considera vítima de tudo e de todos. Acusa os rapazes que divulgaram o vídeo e cria quase uma teoria da conspiração sobre o papel das redes sociais sobre a grande mídia para justificar a pressão que resultou em seu afastamento. Em um dado momento, inclusive usa, fingindo não usar, a frase mais clichê de pessoas racistas tentando provar que não são racistas: “Eu até tenho amigos negros”.
Sim, a partir da “piada” é possível se concluir que William Waack é racista. Verbo no presente. As pessoas que o fazem não estão erradas. A única possibilidade de mudar o tempo verbal para uma pessoa que disse o que Waack disse seria o reconhecimento total do erro e um sincero pedido de desculpas. Waack o faz de forma quase envergonhada no final apenas para tentar se enaltecer, sempre tentando minimizar o peso da chacota. “Vejam a minha carreira”, diz ele. Não há nada em sua carreira que diga que ele não é racista.
A “piada” de Waack é a definição de racismo. Num momento histérico, afinal o que justifica alguém ficar tão nervosinho apenas porque alguém buzinou na rua, o jornalista solta uma série de impropérios contra uma pessoa que não conhece, culminando com a “piada” fatal e as risadinhas. Waack deixa claro no vídeo que julga um comportamento inadequado como sendo típico de pessoas de uma determinada cor de pele. “Coisa de preto”. Repito, isto é a definição de racismo. Waack deveria estar feliz por ter sido apenas demitido. Cometeu um crime e deveria estar respondendo a um processo criminal, embora eu sinceramente não saiba quais são as determinações da Constituição Brasileira (se é que ela existe ainda) para um caso de racismo cometido fora do território brasileiro.
Waack se consagrou nos últimos anos como porta-voz da classe média e da elite corrupta que foram às ruas de verde-e-amarelo bradar contra a corrupção. Defensor do punitivismo e do moralismo, mostra-se extremamente leniente quando o assunto é o crime que ele mesmo cometeu. Sempre elogiando o mecanismo das delações premiadas, mostra-se revoltado contra a delação da qual foi vítima. Típico dos seus telespectadores, afinal.
Na sua defesa fajuta à Folha de SP, Waack diz que a sua demissão é fruto da “covardia” da grande mídia em lidar com a pressão de “grupelhos” de redes sociais. Mais uma vez erra. Sua demissão se deu porque ele foi racista. Apenas por isto. Ele não é vítima de ninguém, senão de si mesmo. Como tudo na televisão, Waack era um produto. Valia a pena para a TV Globo porque vendia, tinha credibilidade junto ao público de classe média e de elite. Era o jornalista cuja palestra era a mais cara. Perdeu esta credibilidade ao se mostrar racista, levando anunciantes a temerem a possibilidade de verem suas marcas associadas a um nome manchado como o dele. Acredito que boa parte de seu público inclusive o perdoou, se é que enxergou algum erro na piada, uma vez que muito provavelmente se identificam com o jornalista até nisso. Os números de Bolsonaro entre os mais ricos, alcançando mais de 30% das intenções de voto, mostram isto.

Por último, o fato de Waack enxergar a própria demissão como símbolo de algo “maior” é um grande sinal de arrogância. Waack não faz falta alguma. A audiência dos programas que apresentava segue sendo a mesma. Há algum tempo, a jornalista Rachel Sheherazade foi proibida de dar comentários pessoais no SBT após defender o linchamento de um jovem contraventor no Rio de Janeiro. Foi contratada pela rádio Jovem Pan de São Paulo para dar suas opiniões. A mesma rádio já se mostra interessada pelo ex-global. Waack supervaloriza sua própria importância. Não passa de uma Rachel Sheherazade com grife.

sábado, 6 de janeiro de 2018

O pastor Meirelles, as ovelhas e as eleições de 2018


Henrique Meirelles sonha ser presidente da República. Ex-presidente do Banco Central durante a gestão Lula, tendo assumido este cargo três meses após ser eleito senador pelo PSDB em Goiás, mostra-se desde sempre uma pessoa maleável do ponto de vista político. Presidente da J&F, dona da JBS, durante boa parte do período de crescimento financiado pelo poder público da empresa, tem sido poupado pelo Poder Judiciário inquisidor até o momento. O ex-senador do PSDB que se tornou ministro da gestão petista aceitou em 2016 ser ministro da gestão do PMDB, que era vice na chapa do PT, mas se aliou ao PSDB para chegar ao poder através de um impeachment mal explicado. Meirelles, aliás, hoje é do PSD, partido cujo lema é “O Partido sem Ideologias”.
Meirelles tenta agora obter apoio da camada evangélica para realizar seu grande sonho. Para isto, tem feito diversas reuniões com lideranças religiosas e frequentado cultos, onde às vezes até cria coragem para pregar. Não é tão difícil para uma pessoa como Meirelles chegar a um discurso que agrade pessoas que se consideram fiéis a uma entidade superior. Os evangélicos acreditam em Deus, uma pessoa ou instituição invisível, que mora no céu, que enxerga tudo que você faz e está com você o tempo todo, que te beneficiará se você fizer aquilo que ela gosta e te punirá caso você faça algo em desacordo com suas leis (estou quase copiando um texto de George Carlin aqui, aliás). Henrique Meirelles é neoliberal e acredita no mercado, uma instituição invisível, que enxerga tudo que você faz e está com você o tempo todo, que te beneficiará se você fizer aquilo que ele gosta e te punirá caso você faça algo em desacordo com suas ideias. Basta a Meirelles dizer nestes templos aquilo em que acredita, substituindo a palavra mercado pela palavra Deus, e ele arrebatará os fieis.
Uma tônica da próxima eleição será a união entre forças religiosas e conservadoras e o mercado. Um precisa do outro para conseguir ir ao segundo turno enfrentar provavelmente o candidato de Lula. Por isso, Bolsonaro tem se reunido com líderes do mercado, até contratou uns economistas para lhe dizer exatamente o que ele deve falar nestes encontros, e os candidatos de mercado têm ido atrás de líderes religiosos. O discurso é quase sempre o mesmo, o estado não deve interferir na economia, mas pode interferir em outros aspectos, como em questões de opções sexuais, por exemplo. Liberdade para o dinheiro, encheção de saco para as pessoas, este é o lema.  Aplausos são ouvidos cada vez que o termo “redução de impostos” é dito. Ricos e Igrejas odeiam pagar impostos, afinal.

Se conseguir fazer vingar sua candidatura, Meirelles tentará dizer que a gestão petista “destruiu o Brasil”, ao mesmo tempo em que dirá que o período em que foi ministro, durante a era petista, foi um período maravilhoso. Precisará chegar ao segundo turno e obter 50% dos votos. Em todas as pesquisas, até o momento, aparece com 2 ou 3%. Tem como grandes marcas na sua gestão como Ministro da Fazenda as Reformas Trabalhista e da Previdência, ambas rejeitadas pela maior parte da população e que só foram possíveis porque foram realizadas por um governo que não passou pelas urnas. Mesmo assim, Meirelles acredita que será eleito. Haja fé !

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada


O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada. Esta é a tese que apresento neste texto e antes de explica-la acho importante fazer algumas introduções. A primeira é sobre o que será considerado como “gestor do setor privado” durante as próximas linhas. Não me refiro àquele pequeno empresário, que começou de baixo e hoje é dono de um pequeno empreendimento qualquer. O termo será usado especificamente para os gestores de grandes empresas, os CEOs, pessoas de cabelo cortadinho, que adoram usar termos em inglês mesmo existindo palavras em português que representem a mesma coisa e que fazem MBA na FGV de “Gestão de Negócios”. A segunda, e não menos importante, é que quando me refiro a “fazer nada” não estou me referindo ao fato de que estas pessoas não saem de um lugar para outro dizendo que vão trabalhar. Pelo contrário, estes gestores inclusive acreditam muitas vezes que trabalham muito, o que será abordado futuramente. Chamo de fazer algo a produção de qualquer coisa, uma mercadoria ou um serviço, do mais simples ao mais complexo. Isto dito, creio que posso começar o texto propriamente dito.
O típico gestor do setor privado não sabe fazer nada. No parágrafo anterior, esqueci-me de mencionar que este texto fará generalizações. Provavelmente existem por aí um ou outro gestor do setor privado que saiba fazer algo na vida, mas creio que não erro tanto afirmando que são poucos, permitindo-me, portanto, a elaboração deste tipo ideal. Este típico gestor privado é incapaz de produzir qualquer coisa. Nada. Nadinha. Tudo que ele consegue é mandar alguém fazer. Pelo próprio esforço, não sabe fazer nada. É por isso que estão sempre com um telefone funcionando por perto, a qualquer momento alguém pode precisar que eles façam algo e, como não sabem, terão que recorrer a alguém que saiba. No ápice da incapacidade de fazer algo, inclusive, contratam até alguém para atender telefones ou fazer uma ligação. Possuem dependência total de outras pessoas para a realização de qualquer tarefa profissional ou pessoal. Normalmente não sabem realizar as atividades domésticas e nem cuidar dos filhos, por exemplo.
A parte mais bizarra do comportamento deste típico gestor do setor privado é que na maioria das vezes eles não sabem que não sabem fazer nada. A mentira é tão bem contada que muitas vezes a própria pessoa que a vive acredita nela. Este gestor passa a maior parte da sua vida fazendo algo que chama de trabalho, ou pelo menos pensando nele. Estão o tempo todo correndo de um lado para outro com um telefone na mão, sempre ligando ou importunando uma pessoa que saiba fazer algo que ele é incapaz de fazer. As conversas com estes gestores quase sempre são mais longas do que deveriam ser. Como ele na verdade não tem nada para fazer, tem tempo para importunar a pessoa que faz algo. As reuniões destes gestores costumam ser eternas, principalmente quando estas reuniões envolvem apenas pessoas deste seleto grupo dos que não sabem fazer nada. Podem passar horas discutindo quem fará o que, uma vez que eles mesmos não têm nada para fazer. Almoços longos de negócios em que nada é feito também dão à tônica disto que se tornou praticamente um estilo de vida.
Gestores normalmente não gostam tanto de tirar férias. Estas servem para não fazer nada, no entanto não faz sentido para eles saírem do lugar em que não fazem nada para não fazer nada. Também estão quase sempre descansados. Dormem pouco. Faz sentido, uma vez que cansaço é típico apenas de pessoas que fazem algo. Não percebem quase nunca que esta “qualidade” nada mais é do que uma demonstração de que não sabem fazer nada.
Gestores do setor privado que não fazem nada são hoje quase como uma casta fechada. Quase toda semana eles têm algum tipo de evento. São festinhas particulares em que estas pessoas que não fazem nada se encontram e passam a noite celebrando o fato de não fazer nada, discutindo o nada que fizeram em suas vidas nos últimos tempos. São extremamente cordiais e educados entre si, podendo relaxar do stress do dia-a-dia, normalmente causado pelas pessoas que fazem algo. Como não fazem nada e deixam sempre a realização de algo para outra pessoa, estes gestores acham que fazer algo é uma coisa fácil. Por isso são sempre impacientes e arrogantes. Tudo que os outros fazem é mais fácil do que o que fazemos aos nossos olhos, isto é humanamente compreensível. Para estes gestores, portanto, não fazer nada é algo mais difícil do que fazer algo.
Eles estão sempre bem vestidos e limpos. Não fazer nada não suja nem cansa e boa aparência é fundamental para ser inútil e respeitado. A preocupação com a aparência surge como um algo nesta ausência do que fazer. Fazer algo cansa e suja, afinal. Outro motivo para que eles não gostem tanto de férias, é que é neste período que mais fica clara a ausência de utilidade deles no mundo corporativo. Quem cobre férias do gestor? Normalmente ninguém, uma vez que não há nada para fazer. O medo das férias surge como uma espécie de autodefesa quase que inconsciente destes seres que, talvez no fundo, saibam que não fazem nada. Talvez, naõ tenho conclusão a respeito disso. Também não conhecem profundamente nenhum assunto. Decoram duas ou três frases soltas sobre a maioria dos assuntos e conduzem as conversas dessa maneira, quase sempre arrumando um jeito de enfiar um termo em inglês em alguma frase.
Em 2016, a maior cidade do país escolheu pela primeira vez ser governada por uma pessoa que não sabe fazer nada. SP teve prefeitos de diferentes ideologias na história, mas, goste-se ou não deles, acho que todos efetivamente sabiam fazer algo, sejam eles engenheiros ou professores. João Doria Jr. Nunca fez nada na vida. Vindo de uma família rica, seu pai foi deputado cassado pelo regime militar. Voltou anos depois e, contando com a simpatia dos intelectuais anistiados que formariam o PSDB, arrumou uns empregos para o filho. Com o tempo, Doria Jr. Fundou uma empresa chamada Lide, que ninguém sabe direito se realmete existe, que patrocina eventos entre gestores que não sabem fazer nada e políticos do PSDB. Este grupo talvez fictício fundou também algumas revistas, voltadas para gestores que não sabem fazer nada, que só lucram porque recebem verbas públicas de governos tucanos. Comprou horários noturnos em redes de TV quase falidas para apresentar um programa de entrevistas que ninguém assistia, em que conversava quase sempre com outros gestores que não fazem nada ou com políticos tucanos. Também apresentou as edições mais mal-sucedidas do programa O Aprendiz, em que jovens que sonhavam em entrar para a casta dos gestores que não fazem nada se sujeitavam a serem humilhados por gestores que não fazem nada. Em seu primeiro ano na gestão pública, Doria cumpriu sua principal promessa, levar suas habilidades de gestor do setor público ao setor privado. Em um ano, não fez nada. Viajou bastante e, de verdade, não fez nada. Ficou feliz ao dizer que dormia pouco, indício de que realmente não faz nada.

A ascensão da figura deste tipo de gestor, que ocorre não apenas no Brasil, é um sintoma grave de um problema social que vivemos, em que a aparência se sobrepôs à essência. Um número cada vez maior de jovens de diferentes grupos sociais admira este tipo de figura que nada produz de relevante. Notícias sobre queda no mercado de ações, por exemplo, geram mais impactos muitas vezes na cabeça de trabalhadores de classe média do que questões de previdência, mesmo que estes não tenham nenhuma ação de empresa alguma. A vitória de Doria em 2016 em todas as regiões da maior cidade do país mostra isto com clareza. É a principal inversão que explica o momento atual do capitalismo, em que a inutilidade é remunerada e respeitada. E anda sempre bem vestida.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Os não-candidatos, a não-notícia e o futuro da democracia


“O Brasil usou LSD e o efeito não passa”. Li essa frase em algum momento durante o processo de hipnose coletiva que culminou com o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff. Procurei, mas não encontrei de quem é a citação com que começo este texto. Desde já peço desculpas por este erro. Nesta verdadeira “era do alucinógeno”, tivemos em dois dias a “notícia” e a repercussão de “notícia” que, a meu ver, conseguiram superar qualquer obra possível de ficção. Nem a mente mais criativa poderia chegar a isso, a um momento em que a "notícia" da semana seria uma não-notícia.
A “notícia” é: “Luciano Huck anuncia que não será candidato à presidência”. O uso de aspas para o termo “notícia” é porque tenho dúvidas reais se isto é uma notícia. Huck nunca anunciou que seria candidato. Podemos chamar então esta “notícia” de não-notícia, sem aspas. A não-notícia de Huck foi capa do principal jornal da principal cidade do país. O texto, escrito pelo próprio não-candidato (ou que ao menos assinou a matéria, sabe-se lá se ele a escreveu mesmo), baseia-se basicamente no egocentrismo. O não-candidato da vez passa o texto todo se elogiando.  Começa o não-anúncio com uma introdução sobre a Odisséia de Homero de três parágrafos que não tem relação nenhuma com o restante do texto, basicamente pra tentar mostrar que já leu esse livro, sabe-se lá o porquê. No restante, começa a mostrar tudo que enxerga como sendo as suas qualidades. O não-candidato é, segundo o texto que ele diz ter escrito, curioso, apaixonado, corajoso, andarilho, gente boa, intuitivo e obcecado. Se ele escreve tudo isto em um texto em que se declara não-candidato, fico imaginando como ele se descreveria num texto em que se declarasse candidato. Ao final, o não-candidato diz que quer “continuar” contribuindo com o Brasil, sem explicar muito bem como contribuiu até agora. Explorando o fetiche adolescente com personagens que transformam mulheres em objetos? Invadindo terrenos públicos para criar uma espécie de quintal para sua mansão na praia? Explorando o assistencialismo televisivo? Servindo de papagaio de pirata para celebridades estrangeiras?
A não-notícia aconteceu na segunda-feira. Na sexta-feira anterior, a terceira revista semanal de maior circulação trazia na capa o mesmo não-candidato. Chamava sua ascensão de “meteórica” e dizia que mesmo não sendo candidato, o não-candidato já havia mudado o eixo do debate. O lado curioso dessa mudança de eixo que a revista apregoa é que as pesquisas antes e depois da cogitação da candidatura do não-candidato apresentavam os mesmíssimos números. Antes, Lula liderava com Bolsonaro e Marina empatados em segundo. Hoje, Lula lidera com Bolsonaro e Marina empatados em segundo. Um dia depois de anunciar a não-candidatura, o não-candidato foi entrevistado com pompa pela revista semanal de maior circulação. A não-notícia segue sendo a “notícia” da semana.
Há quase um ano, o não-candidato daquele momento era o publicitário Roberto Justus. Desesperados com o fato de que a eleição do ano que vem pode destruir o “projeto” que chegou ao poder com ascensão de Temer através de um golpe parlamentar, a elite e o mercado se esforçam para criar um candidato que mantenha as reformas impopulares do atual governo golpista e, mais do que isto, que consiga a legitimidade das urnas que este governo não tem. Após a vitória de um apresentador do Aprendiz na eleição americana e de um apresentador do mesmo reality show na eleição para prefeitura paulistana, o nome de Justus animou o mercado. A leitura é que a população está disposta a comprar um político que se apresente como mudança e nada melhor para o mercado financeiro que esta “mudança” venha com alguém homem, branco, de elite e disposto a manter tudo que o atual governo tem feito. O não-candidato de janeiro anunciou a sua não candidatura no mesmo jornal que o não-candidato de novembro. Sua não-candidatura, porém, não teve a enorme repercussão da não-candidatura atual, talvez porque agora o desespero seja maior. A carta daquele não-candidato é, aliás, bem parecida com a do atual não-candidato, com exceção do começo bizarro com a Odisseia da carta atual. Muito egocentrismo, autoelogios e finalizando com a ideia de que ele vai “continuar ajudando o Brasil”. Após anunciar a sua não candidatura, o não-candidato de janeiro começou a preparação para a apresentação do reality show a Fazenda, da Record, que traz como principal atração o participante que foi afastado do programa da concorrente Globo por assédio sexual. Seria esta a ajuda?

Entre as duas não candidaturas televisivas, houve ainda a não-candidatura do prefeito de São Paulo, João Doria Jr., que ainda sonha em ser candidato. O mercado se animou inicialmente com esta não-candidatura, mas a péssima gestão do prefeito e sua queda de popularidade esfriaram os ânimos. Enquanto caça novos não-candidatos midiáticos que talvez queiram ser candidatos, preocupa-me a possibilidade do mercado cansar de fingir que liga para a democracia. Começou, por exemplo, a pipocar notícias sobre um possível impacto que a eleição de Lula teria sobre o câmbio, tática que não foi bem-sucedida em 2002. O candidato fascista Jair Bolsonaro já começa a buscar uma aproximação com nomes do mercado, tentando preencher o espaço dos não-candidatos. Historicamente, o mercado já deu demonstrações de que não se opõe a figuras deste tipo. A mesma revista que na sexta disse que o não-candidato Huck havia “mudado tudo” com sua não-candidatura tem uma versão de “Negócios”. A capa dessa semana fala sobre uma economia em “franca recuperação” e sobre como o “populismo eleitoral de 2018 pode acabar com essa recuperação”. Até onde o mercado está disposto a ir para segurar as reformas de Temer ainda é incerto, mas já é claro que é uma turma que não tem nenhum apego à democracia. Qual o plano B?

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A assustadora liderança do fascismo entre os que têm curso superior


Bolsonaro lidera entre as pessoas com curso superior. Ele possui 25% das intenções de  voto entre estes. Obcecada pela liderança de Lula, a grande mídia deixa passar em branco aquela que é a informação mais importante que as atuais pesquisas eleitorais mostram sobre a sociedade brasileira. Entre as pessoas mais “instruídas”, lidera um candidato fascista e cujo grande lema é o incentivo à violência. O objetivo deste texto é tentar entender como a educação superior forma tantos bolsonetes.
Os últimos governos brasileiros, e isto inclui a gestão Lula, que sem dúvida foi o período de maior investimento no social em nossa história, sempre enxergaram o sistema superior mais como um formador de mão-de-obra do que como um formador de cidadãos. A universidade é vista por muitos mais como um curso técnico do que como um lugar que estimule a reflexão e o debate sobre a sociedade. Nas duas últimas décadas, vivemos um verdadeiro boom na criação de vagas de cursos como administração, publicidade e marketing, por exemplo, que, com todo respeito aos profissionais da área, são mais voltados para pessoas que querem simplesmente um diploma para ganhar um salário maior do que para qualquer outra coisa. No mesmo período, passamos por um processo de destruição dos cursos de ciências humanas, cada vez menos importantes para uma sociedade interessada quase que exclusivamente com a formação de “mão-de-obra qualificada”. Isto explica, a meu ver, porque o Programa Ciências sem Fronteiras, destruído pelo governo golpista, não oferecia vagas a estudantes de humanas. O interesse governamental era fornecer a experiência de viver fora para profissionais de engenharia, que são vistos como aqueles que “construirão um novo Brasil”, mas não para um estudante de história.
A expansão do ensino superior no Brasil, portanto, foi feita seguindo uma lógica de mercado e individualista. Focou-se na ideia de que o diploma universitário serve basicamente para fornecer mão-de-obra mais qualificada para o mercado e não na formação de cidadãos pensantes. Estimulou-se o individualismo.
A lógica do ensino superior no Brasil foi corrompida pela lógica do consumo e os governos compraram esta ideia. A faculdade passou a ser um produto consumido, com celebridades fazendo propagandas de cursos como se estivessem vendendo carros. Estas propagandas sempre tentam expor como é mais fácil conseguir um emprego depois de terminar o curso de administração de empresas com foco em marketing e novos negócios da Universidade Tabajara. Melhor emprego é igual a mais consumo. Consuma nosso curso para consumir mais no futuro, esta é lógica. Educação como investimento monetário.
O Brasil é um país dividido em castas. A faculdade, como tudo num país criado tendo como base a ideia de senhor-escravo, é vista como um trunfo social. Nada é mais simbólico disso do que a prisão especial para pessoas com diplomas. Isto não é um “incentivo” para o estudo e sim uma forma que a elite encontrou de, na época em que só ela era capaz de entrar no ensino superior, manter seus privilégios até quando pisasse na bola. O período de explosão do número de vagas em universidades seguindo uma lógica de mercado foi também um período de explosão na criação de cursos de MBA. A elite, incapaz de manter sua posição usando apenas o diploma como argumento, criou a necessidade de outro tipo de curso para gestores, extremamente caros, e em que nada se aprende de fato. Basicamente gente bem-vestida comprando um diferencial. Os empresários do setor educacional agradecem.
Assim, a expansão do ensino superior feita seguindo a lógica de mercado estimulou a criação de uma geração de formados individualista, que só vê propósito na educação como meio de alcançar um melhor emprego, para assim consumir mais e fazer parte de uma casta de privilegiados. O sonho de boa parte dos diplomados é fazer parte desta casta. Não à toa, o termo utilizado para pessoas que fazem faculdade é “nível superior”. A linguagem utilizada diz tudo. O objetivo deste texto não é dizer que esta expansão foi toda ruim. É óbvio que há méritos gigantescos neste processo. O grande problema, a meu ver, é a lógica que ela seguiu.
A recessão econômica a partir de 2015, fez com que um grande número de pessoas destas da qual o texto fala perdessem o emprego ou desenvolvessem um grande medo de perdê-lo. Como a única função do diploma universitário nesta lógica é a obtenção de um emprego que pague mais e permita consumir mais, este diploma perdeu a função. É muito fácil para este trabalhador diplomado sentir que ele perdeu tudo que conquistou. Ao obter um diploma, esperava-se exclusivamente consumo e status social, coisas que desapareceram com a crise.
Entre pessoas diplomadas, portanto, encontram-se as características típicas de um eleitor de Bolsonaro. Individualismo, medo, rancor, arrogância e ódio. A universidade da forma como é vista hoje, em geral, nada faz para combater esta ideia. Se Paulo Freire criou o termo “educação libertadora”, o Brasil, ao invés de investir no que pregava um dos educadores mais premiados do mundo, criou a seu jeito uma “educação comercial”, em que quanto mais a pessoa estuda, mais ela se torna consumista e com pensamentos elitistas.

O Brasil paga o preço pelo descaso histórico em relação aos cursos de ciências humanas. As pessoas, em geral, não sabem o que foi o fascismo, por isso não se importam em serem chamadas de fascista quando apoiam um candidato como Bolsonaro. Ele liderar entre pessoas com diploma superior é grave. Ninguém estar disposto a falar disso é tão grave quanto.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ives Gandra Martins e a luta da elite pela manutenção de privilégios


“Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?”. É assim que Ives Gandra Martins, importante jurista, começa sua deprimente coluna divulgada nesta semana pelo jornal cearense O Povo. O texto foi escrito em 2013, quando a onda de ódio que tomaria conta do Brasil, levando a um golpe de Estado e ao surgimento de movimentos de extrema-direita como o MBL estava apenas no começo, mas a coluna de Gandra ajuda a entender bem o ódio que boa parte da elite em relação aos avanços sociais vividos no Brasil nos últimos anos e como esta elite usou o artifício da corrupção, da qual sempre se beneficiou, para seduzir uma parcela alienada da classe média e destruir os projetos e garantias sociais obtidos historicamente com muita luta.
Ives Gandra Martins é da Opus Dei. Advogado, pôde pagar as melhores escolas para seu filhinho, Ives Gandra Martins Filho, que hoje é presidente do Tribunal Superior do Trabalho. É muito comum no Poder Judiciário, aliás, ver pai “doutor” gerando filho “doutor”. Isto não incomoda os Gandra. A versão Filho deu declarações defendendo a Reforma Trabalhista, utilizando o argumento favorito dos empresários sedentos por maior margem de lucro: “A flexibilização criará empregos”. Converse a sós com algum empresário e veja se ele tem realmente algum interesse em criar emprego. Funcionário é visto como custo. Deu também declarações contra a legalização do casamento entre homossexuais e, para se ter uma ideia do grau de reacionarismo do magistrado, já se disse contra o fato do divórcio ser legalizado. Também já disse que a mulher deve ser submissa ao marido e, como o pai, é  membro da Opus Dei. Quem o nomeou para o cargo de ministro do TST foi FHC, o que mostra que o PSDB já flerta com o reacionarismo desde então. Gandra Filho, aliás, esteve muito perto de chegar ao Supremo durante a gestão Temer, seu nome era um dos favoritos na indicação que foi para Alexandre de Moraes. É o próximo da lista. Pense num cara destes no Supremo por quase trinta anos. Falta pouco.
O irmão de Gandra Martins Pai é João Carlos Martins, hoje maestro e famoso por suas interpretações de Bach ao piano. O maestro era dono de uma empresa chamada Pau Brasil, fechada nos anos 2000 sob acusação de realizar operações financeiras irregulares para as candidaturas de Paulo Maluf nos anos 1990. Martins chegou a ser condenado à prisão pelas falcatruas nas campanhas malufistas, mas teve a pena trocada por prestações de serviço. Nada como ser irmão e tio de gente importante.
A elite brasileira adora ter privilégios e é capaz de tudo para mantê-los. Mais do que os erros, foram os acertos da gestão petista que fizeram com que essa elite a odiasse. A corrupção nunca os incomodou. Eles odeiam mesmo são as cotas e qualquer medida que vise diminuir as desigualdades das quais famílias como a dos Gandra Martins são as grandes beneficiadas. Em sua coluna, Gandra pai tenta se colocar como “vítima” de um sistema do qual é o grande beneficiado, que permite que a riqueza e o status sejam hereditários e em que a corrupção de seu grupo não seja punida. Se existir um Gandras Neto, deve estar em alguma escola particular para milionários se preparando para entrar em direito no Largo São Francisco. Não à toa, esta elite nem finge mais se incomodar com a corrupção praticada pelo governo Temer. O que eles queriam mesmo era redução dos programas sociais e combate ao aparato de proteção ao trabalhador. Conseguiram. Ainda precisam da Reforma da Previdência, que este governo não parece capaz de entregar. Num futuro próximo, provavelmente o alvo será o programa de cotas raciais nas universidades federais. O argumento da vez possivelmente será “meritocracia”. Famílias ricas adoram este termo. Depois será o Bolsa-Família. "Dê a vara ao invés do peixe", adoram dizer aqueles cujos filhos estão destinados a serem "doutores" desde o nascimento.
Não há no Brasil nada mais elitista do que o Poder Judiciário. Não à toa, este Poder teve participação tão fundamental no processo político que resultou na ascensão de Temer à Presidência. Não à toa lutam tanto para manter seus privilégios. No último depoimento de Lula ao grande ídolo desta elite que comandou o golpe de Estado e lucra com suas consequências, o juiz Sérgio Moro, este deu uma bronca no ex-presidente quando aquele se referiu a uma promotora como “querida”, e não “doutora”. A tal “doutora”, porém, não tinha doutorado. A elite se regozijou de alegria ao ver o juiz moralista colocar o ex-torneiro mecânico em seu “devido lugar”. Eles querem continuar sendo tratados como “doutores”. O golpe não foi contra a corrupção. Ela está aí, ocorrendo quase normalmente. Foi para manter privilégios. Os golpistas estão sendo bem sucedidos, enquanto os patos que berravam hoje silenciam. A classe média que sustentou o golpe sonha em ser como os Martins e aceita passivelmente ser submissa a eles. O oprimido que sonha em ser opressor. Os Martins agradecem.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Os 50 melhores dos 50 anos da Era Aberta no tênis


Em 2018, o tênis celebra os 50 anos da “Era Aberta”. Até 1968, apenas jogadores amadores podiam disputar os torneios de Grand Slams que, por esta razão, estavam quase sempre desfalcados das principais estrelas. Imaginar atualmente que os principais torneios não tinham os melhores tenistas parece loucura, mas esta era a realidade há meio século. A pressão da televisão, interessada em ter os melhores jogando nos eventos que começavam a receber transmissões ao vivo, e o medo de ver seus principais torneios ruírem com a concorrência de outras competições que premiavam financeiramente os jogadores fizeram a ITF tomar a decisão de permitir a entrada dos profissionais em seus torneios. Em homenagem ao aniversário de 50 anos desta mudança, fiz uma lista daqueles que eu considero os 50 melhores tenistas deste período, sem distinção de gênero. Lembro que a lista trata apenas da Era Aberta, por isso Maria Bueno, a melhor tenista brasileira de todos os tempos, não está presente.

1)      Steffi Graf (ALE)
2)      Serena Williams (EUA)
3)      Rod Laver (AUS)
4)      Martina Navratilova (TCH / EUA)
5)      Roger Federer (SUI)
6)      Billie Jean King (EUA)
7)      Rafael Nadal (ESP)
8)      Bjorn Borg (SUE)
9)      Novak Djokovic (SER)
10)   Monica Seles (IUG / EUA)
11)   Pete Sampras (EUA)
12)   Chris Evert (EUA)
13)   Jimmy Connors (EUA)
14)   Ken Rosewall (AUS)
15)   Margareth Court (AUS)
16)   Andre Agassi (EUA)
17)   Ivan Lendl (TCH / EUA)
18)   John McEnroe (EUA)
19)   Evone Goolagong (AUS)
20)   Martina Hingis (SUI)
21)   John Newcombe (AUS)
22)   Stefan Edberg (SUE)
23)   Justine Henin (BEL)
24)   Andy Murray (GBR)
25)   Boris Becker (ALE)
26)   Mats Wilander (SUE)
27)   Venus Williams (EUA)
28)   Maria Sharapova (RUS)
29)   Guillermo Villas (ARG)
30)   Arthur Ashe (EUA)
31)   Manuel Orantes (ESP)
32)   Hana Mandlikova (TCH)
33)   Lleyton Hewitt (AUS)
34)   Ilie Nastase (ROM)
35)   Jennifer Capriati (EUA)
36)   Jim Courier (EUA)
37)   Michael Chang (EUA)
38)   Lindsay Davenport (EUA)
39)   Gustavo Kuerten (BRA)
40)   Kim Clijsters (BEL)
41)   Marat Safin (RUS)
42)   Virginia Wade (GBR)
43)  Stanislaw Wawinka (SUI)
44)   Mary Pierce (FRA)
45)   Patrick Rafter (AUS)
46)   Amelie Mauresmo (FRA)
47)   Jana Novotna (TCH)
48)   Yevgeny Kafelnikov (RUS)
49)   Arantxa Sanchez (ESP)
50)   Andy Roddick (EUA)




quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A mídia e o racismo


William Waack foi afastado do Jornal da Globo após o vazamento de um vídeo em que ele aparece cometendo um ato racista. Waack foi nos últimos anos, junto com Alexandre Garcia, o mais influente jornalista de pautas direitistas da maior emissora do país. Possuía em seu telejornal liberdade editorial quase completa para opinar e foi uma das vozes mais fortes do movimento que chamo de paranoia antipetista, formado por jornalistas que basearam suas opiniões na defesa do que chamam de livre mercado e na crítica a programas sociais dos governos petistas, especialmente o Bolsa Família e as cotas raciais. Segundo Alexandre Garcia, aliás, em um editorial do Bom Dia Brasil, o governo petista era responsável pelo surgimento do racismo no Brasil ao adotar a política de cotas nas universidades. Talvez o comportamento do seu agora quase ex-coleguinha Waack o prove do contrário.
Não é a primeira vez que algo deste tipo acontece na grande mídia brasileira, mas nunca havia envolvido alguém com o poder de influência de Waack. Boris Casoy foi filmado num intervalo fazendo chacota de um grupo de garis que sonhava em comprar um celular. Como uma representação da elite que não se conformava com o acesso a novos produtos que pessoas de origem humilde estavam obtendo na era Lula, Casoy gargalhava e humilhava profissionais que realizam um trabalho fundamental para o nosso dia-a-dia. Pediu desculpas no ar e não recebeu nenhuma punição da Bandeirantes. Hoje está na Rede TV. Rachel Sheerazade, ícone da extrema-direita lunática, causou polêmica ao defender o linchamento de um jovem contraventor que havia sido amarrado numa árvore. Como “punição” do SBT, foi proibida de opinar no telejornal e recebeu um contrato da maior emissora de rádio de São Paulo para dar exatamente o tipo de opinião que gerou a polêmica. O mesmo SBT, aliás, contratou Marcão do Povo, demitido da Record após usar xingamentos racistas contra uma cantora de funk. Talvez o SBT seja o mesmo destino de William Waack, pois aparentemente Silvio Santos aprova este tipo de comportamento entre seus jornalistas.
A punição a Waack mostra que nossa sociedade ao menos está evoluindo um pouco quanto a este assunto. Não há mais espaço para racismo explícito na maior emissora do país e a postura da Globo mostra ao menos que ela sentiu necessidade de agir dessa forma. Isto é importante, mas muito ainda deve ser feito, especialmente para criar alguma diversidade nas redações. Praticamente todos os apresentadores de telejornais, seja nas TVs abertas ou fechadas, são brancos. São eles que decidem a forma como as informações chegam aos telespectadores. Não há nenhum espaço para debates, há basicamente pessoas brancas expondo paranoias e moralismos de classe média, sem nenhum questionamento real sobre nossas desigualdades e desafios, incentivando uma alienação cada vez maior entre seus telespectadores. Uma reportagem sobre aumento de gasolina ou atraso em aeroportos tem mais destaque e tempo do que uma matéria sobre miséria ou combate à desigualdade. O Brasil real segue invisível na grande mídia. A maior parcela da população segue com pouquíssima representação em emissoras que, afinal, são concessões públicas e, portanto, devem satisfação por sua programação à sociedade.

A mídia tem uma responsabilidade gigantesca neste grande movimento de falso moralismo, ódio e paranoia que gerou o impeachment de Dilma e que agora evoluiu para uma assustadora onda de extrema-direita que persegue artistas e professores. A grande mídia claramente não se mostra preocupada ou interessada em fazer alguma autocrítica sobre seu papel em todo momento caótico que o Brasil vive. Não vimos e creio que não veremos nenhuma investigação sobre gastos de estatais, algumas com monopólio, em publicidade nestes grandes meios, ou no silêncio de todos para as grandes obras olímpicas no Rio enquanto elas eram construídas. O afastamento de Waack, porém, mostra que em todo este caos trágico que vivemos, houve alguma evolução social. Ao menos vivemos num período em que a emissora sente necessidade de dar alguma satisfação a seu público quando algo deste tipo acontece. Diferentemente do que houve com Casoy, há pouco tempo. Que figuras racistas como Waack desapareçam. E que levem seus falsos moralismos, preconceitos e paranoias juntos. Mas que fique claro que seu afastamento é apenas um pequeno passo. Uma pequena e simbólica vitória num período trágico de derrotas para todos que defendem uma sociedade mais igual e sem preconceitos.