quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Temer e o voto do medo


Somos uma sociedade com medo. Esta palavra será o grande lema das eleições de 2018, caso elas realmente ocorram. Todos estão com medo de algo. Quem tem medo odeia. Queremos eliminar aquilo do que temos medo. Não à toa as pessoas que têm medo e ódio de Lula aplaudiram sua condenação sem provas. Não à toa uma parcela significativa da população aplaude a intervenção federal no Rio. Elas têm medo e querem eliminar aquilo do que têm medo. A qualquer custo. O medo é maior do que o respeito à lei ou ao próximo.
Somos uma sociedade consumista. A procura da felicidade se dá quase sempre pelo consumo de um bem ou de um serviço. Pagamos por privilégios. A real e principal causa da nossa violência é o consumismo. Mas ninguém fala sobre isto. Manter-nos sedentos por consumir sempre algo que ainda não temos é fundamental para manter a sociedade girando. Como em Admirável Mundo Novo, não reaproveite nada. A publicidade infantil nos ensinou desde pequeno a não gostarmos do que somos e a mudarmos isto comprando algo. É como uma doutrinação. Queira o melhor brinquedo, a melhor roupa. Depois o melhor carro, o melhor relógio. Comprar é ser bem-sucedido. Quem não tem é perdedor. É melhor viver uma vida curta desfrutando do que há de melhor ou viver uma vida longa se sentindo um perdedor. O Brasil melhorou muito seus dados sociais a partir de 1994 e especialmente após 2002. Esta melhora não resultou em diminuição da violência. Pelo contrário, a inclusão a partir da expansão do consumo da era Lula só viu aumentar os casos de violência. O Ceará, estado que mais evoluiu em educação na última década, tendo 77 das 100 melhores escolas públicas do país, passa por um surto de violência. Uma falha da esquerda é não enxergar que a violência brasileira não é totalmente fruto de questões sociais, embora, obviamente, ela tenha grande importância.
Somos uma sociedade desigual. Somos formados com uma forte herança escravista, com uma pequena elite preguiçosa e sanguessuga explorando uma grande massa acostumada a ser explorada. Muitos com pouco, poucos com muito. Aqueles, porém, não questionam o sistema que os explora, sonhando um dia assumir o papel de explorador. Como numa novela, em que a mocinha boazinha ganha como prêmio no final a riqueza. A mídia faz seu papel. Estimula o consumo e incentiva os valores de uma sociedade desigual. O programa da apresentadora loira e linda quase sempre tem em seu intervalo uma propaganda de tinta de cabelo ou de remédio para emagrecimento. O jornal que fala sobre as mazelas da saúde pública quase sempre tem alguma propaganda de plano de saúde. O mesmo com educação e outras coisas. Quem sustenta a mídia é a publicidade. Ela depende do nosso consumismo e nos faz violentos.
Somos uma sociedade dependente da violência. O sentimento de insegurança gera empregos. Seguradoras são hoje anunciantes importantes. O impacto, digamos, num estado quase utópico, do fim da violência seria gigantesco em nossa economia. É fundamental combate-la, ou ao menos fingir que se está combatendo, mas mantendo o cidadão comum com medo. Tanques na rua cumprem esta função. Melhoram a sensação de segurança. Mas ninguém vai deixar de pagar seguro do carro por causa disso.

Medo e consumismo. Intervenção militar e crescimento do PIB. O estado visto como alguém que nos protege daqueles que temos medo e que me ajuda a comprar mais bugiganga. Destrói-se a Previdência para agradar ao mercado financeiro. Temer consegue ler nossa sociedade como ninguém. Não duvidem de sua capacidade de fazer política. Sonha com a reeleição e sabe que o medo é das melhores armas para atrair a sociedade que hoje o detesta. Atrai os bolsonetes que querem sair matando todo mundo e os barões do mercado que temem Lula. Mesmo que para isto tenha que brincar com o pouco que nos resta de democracia. O fracasso do Exército significará uma vergonha para nossas Forças Armadas. O sucesso, a volta de uma ideia monstruosa de que o Exército é capaz de solucionar os problemas que a sociedade civil não soube resolver. O mesmo sentimento que gerou a sucessão de golpes militares que tivemos em nossa história. Sociedades com medo e ódio não se importam com a democracia. O Brasil normalmente é assim. O que vivemos entre 1994 e 2014 foi uma breve exceção em nossa história. Temer é a face medíocre de uma era medíocre. Não duvidem que o Fora, Temer seja respondido por um Fica, Temer em outubro.

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