quarta-feira, 7 de março de 2018

O fim da gestão Doria parte 2 - O ex-prefeito em atividade



Falta um pouco menos de um mês para aquela que deve ser possivelmente a melhor notícia política do ano: João Doria Jr. deixará de ser prefeito de SP. Pinta como favorito ao governo de SP, mas o certo é que ao menos passaremos um pouco mais de oito meses sem que Doria ocupe nenhum cargo público. Na atual situação que vivemos, qualquer alívio de curto prazo deve ser comemorado.
O último mês da gestão Doria começou com alguns exemplos que mostram as grandes características desta curta e polêmica gestão. Nunca tivemos um administrador municipal que usasse tanto o cargo para atender seus interesses pessoais. Um dos seus últimos atos como prefeito demonstra isso. Doria assinou um decreto que garante segurança especial paga pelo município aos ex-prefeitos. Não quer perder a mordomia, afinal. (P.S.: No dia seguinte à publicação deste texto, graças à forte pressão da opinião pública, Doria alterou o decreto, decidindo que a segurança bancada pelo município passaria a valer apenas para o próximo ex-prefeito).
No último domingo, Doria esteve no Pacaembu acompanhando o jogo entre Santos e Corinthians. No momento em que houve a queda de luz durante a partida, Doria saiu fugindo da imprensa, não queria nenhum tipo de questionamento. Recusou-se a realizar uma entrevista para falar sobre o assunto e no dia seguinte divulgou uma nota, em que dizia que as frequentes quedas de energia no estádio (foram três neste ano) eram uma prova de que ele deve ser privatizado. Sem entrar por enquanto no mérito de questionar se a privatização é correta ou não, acho que posso afirmar que é fato que enquanto o estádio pertencer à Prefeitura, ela possui a obrigação de garantir que o seu funcionamento ocorra com qualidade. Foi uma tentativa patética de tentar transformar um erro de sua administração em argumento para a venda do bem público e uma incapacidade completa de assumir seu erro.
Doria não possui respeito algum pelo conceito de bem público. O seu plano de privatizações mostra isto. O prefeito colocou tudo num grande “pacote” e tratou da mesma forma a venda de um bem como o Anhembi e de um bem como o Ibirapuera, que têm significados e importâncias completamente diferentes para a vida da cidade. Ele é incapaz de tratar cada caso de forma específica porque para ele bem público é, no fundo, a mesma coisa, tendo que ser simplesmente repassado para o setor privado para “gerar lucro”. Lazer e qualidade de vida não significam nada na forma como o prefeito enxerga as coisas. No caso do Ibirapuera, Doria disse na mesma entrevista, na mesma, que o parque continuaria sendo um espaço para uso livre e que muitos amigos seus donos de restaurantes importantes já o haviam procurado para construir filiais de seus estabelecimentos dentro do parque, tornando o ambiente um local mais exclusivo. Outro caso em que Doria apresenta uma argumentação absurda atrás da outra é na venda de Interlagos. A principal “ameaça” do prefeito é que se o autódromo não for vendido, São Paulo poderá perder a Fórmula 1, e que o modelo de autódromo público está acabando no mundo. Dezesseis das vinte corridas de Fórmula 1 do ano, porém, ocorrem em autódromos públicos. Mais do que isto, o prefeito foi até Abu Dhabi gravar um vídeo para mostrar como uma gestão diferente e privada poderia trazer melhores resultados. O autódromo de Abu Dhabi é estatal. Além disso, o governo de lá não tem a preocupação que há por aqui, uma vez que a corrida serve muito mais como propaganda da riqueza local do que como evento esportivo. No ápice da sandice, Doria propõe a construção de um hotel no meio do autódromo de Interlagos. Por fim, o prefeito diz que a privatização permitiria que o autódromo fosse alugado para grupos de milionários que quisessem disputar corridas entre si, coisa que já acontece hoje. Num só vídeo, Doria demonstrou arrogância e desconhecimento tanto do lugar que administra quanto do lugar que visita. Eu, particularmente, sou contra a realização da Fórmula 1 em SP. Não acho que a cidade deva fornecer um subsídio tão grande ao setor hoteleiro. Sou também contra a privatização, acredito que o lugar deveria ser aberto ao público e transformado num parque. Mas o que mais me incomoda é a falta de debate, estimulada pelo tratamento de “pacotão” dado por Doria sobre o assunto. O prefeito chegou também a ir à China para oferecer os bens públicos paulistanos por lá. A maioria das empresas que o recebeu por lá é estatal.
Neste final de gestão também, Doria está apresentando uma das mais destrutivas mudanças de itinerários do transporte público da história da cidade, com o fim de um grande número de linhas, especialmente na periferia. Junto com a extinção do bilhete único semanal e com a quase extinção do bilhete único mensal, serão seus grandes legados nesta área. 
Aumento da velocidade nas marginais que resultou em aumento no número de mortos. Ação desastrada e mal planejada na cracolândia, contrariando a opinião de especialistas, espalhando os usuários pela cidade e dificultando seu tratamento. Fim do projeto da gestão anterior de incorporação de usuários de crack ao mercado de trabalho, colocando no lugar um mal sucedido projeto em parceria com o setor privado, que resultou em zero contratações após o período de experiência. Fim da Virada Cultural. Mudanças no premiado Plano Diretor de Haddad para agradar à especulação imobiliária. Redução de ciclovias. Queda no número de ações de zeladoria urbana. Nenhum projeto significativo na área educacional. Não cumprimento da promessa de contratação de mil médicos. Tudo isso em um ano e três meses.
Viagens. Doria já entrou na prefeitura sem vontade de ser prefeito. Queria usá-la apenas como um trampolim. Embarcando na onda antipetista, Doria tentou aproveitar o momento e saiu passeando pelo país e pelo mundo, tentando emplacar uma candidatura presidencial. Recebeu apoio entusiasmado dos seus amigos do setor empresarial, mas no fim não rolou. Sua incapacidade de gerar resultados derrubou sua jornada. Vai ter que se contentar com o governo do estado por um tempo. Vai apostar no marketing e na rejeição a Lula para tentar chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Slogans fáceis e que não representam absolutamente nada, tipo "Cidade Linda". Em SP isto é suficiente, o eleitor paulista continua medíocre, muito provavelmente vai embarcar novamente na aventura Doria. Esta gestão entrará para a história como um momento triste em que um milionário improdutivo e egocêntrico foi capaz de manipular uma massa rancorosa em nome dos seus interesses pessoais. Resta aproveitar estes oito meses. 

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