domingo, 9 de janeiro de 2022

A Reforma Trabalhista foi uma bosta

 


É muito fácil encontrar uma pessoa e responsabilizá-la por todas as nossas mazelas. Jair Bolsonaro é a pior pessoa do mundo, mas é fruto de uma sociedade doente, uma sociedade em que mais da metade dos eleitores topou ser cúmplice de um projeto de governo lunático e assassino. Mais do que isto, uma sociedade que fez tudo que pôde para permitir que esta pessoa chegasse ao poder, prendendo num processo completamente fajuto aquele que impediria este maníaco de chegar ao poder. Sim, a prisão de Lula custou vidas. Bolsonaro é sem dúvida o maior responsável pelo fracasso brasileiro na contenção da Covid. Fez o inferno para atrapalhar qualquer medida que impedisse a propagação do vírus e salvasse vidas. Boicotou as medidas de distanciamento social, incentivou aglomerações, atrasou o máximo que pôde o pagamento do auxílio que permitiria aos autônomos fazer algum tipo quarentena por algum período com alguma estabilidade financeira, caçoou dos doentes, atrapalhou a compra de vacinas, espalhou notícias falsas sobre as mesmas, incentivou o uso de um remédio ineficaz. Fez o diabo e não foi afastado. Em qualquer país minimamente decente, a classe política e a sociedade teriam se unido para tirar este maníaco do poder quando ficasse claro que a sua loucura significaria a morte de milhares de pessoas. Mas o país que fez impeachment por causa de um Fiat Elba e que inventou um crime chamado “pedalada fiscal” foi incapaz de realizar este impeachment. Como dito, Bolsonaro é fruto de uma sociedade doente.

Isto dito, uma outra causa importantíssima do nosso fracasso em salvar vidas foi a precariedade do trabalho. Quase a metade da população ativa brasileira trabalha na informalidade (40,6%). Temos um sistema de proteção social montado para proteger apenas os trabalhadores formais. Previdência, seguro-desemprego e auxílio-doença, apenas quem tem carteira assinada tem estes direitos. Estes 40,6% inicialmente tiveram sua renda reduzida basicamente a zero no começo da pandemia e a um pouco mais de metade de um salário mínimo após o auxílio emergencial que chegou atrasado. R$ 600 ou R$ 1200 ajudaram, mas não dá para um pai ou para uma mãe de família ficar em casa com este valor. Uma lição que a sociedade deveria retirar disto é que precisamos urgentemente trazer esta multidão para o sistema de proteção social, e isto se faz expandindo-o para os sem carteira assinada ou incentivando a contratação com carteira assinada.

Antes de falar mal desta bosta de Reforma, é importante dizer que a precarização do trabalho não é fruto da Reforma Trabalhista. Sempre fomos um lugar de trabalho precarizado. Não há nada mais insano do ponto de vista lógico, por exemplo, do que esta maluquice de MEI. Pare para pensar, por favor. Uma pessoa se cadastra como uma empresa, tendo a si mesma como proprietária e única funcionária, trabalha muitas vezes para uma única empresa e é tratada como uma fornecedora, e não como uma trabalhadora. A relação trabalhador x empresa se transforma em uma relação empresa x empresa, e o trabalhador-empresa que jogou pela janela todos os seus direitos em nome disto é enganado pela ideia de que vai pagar menos imposto. Se você acredita realmente que ter MEI é melhor para você, você está sendo enganado. Simplesmente não é. Chegamos ao ponto em que empresas simplesmente não aceitam mais contratar trabalhadores sem que eles sejam MEI. A MEI que ficou em casa durante a pandemia faliu. E o ministro da Fazenda maníaco do governo maníaco disse que não ia fazer nada para ajudar pequenas empresas porque elas não geram emprego. Vai se foder. O Brasil passou anos estimulando a ideia de que o trabalhador deve ser individualizado e qualquer tipo de união entre eles foi demonizada. Os sindicatos foram basicamente demolidos. Uma boa parte dos trabalhadores, os de classe média principalmente, foram convencidos da ideia de que qualquer dinheiro que seja gasto por alguma coletividade era roubo. Taxa sindical e imposto. Ele foi acostumado a lutar por si e se afastar destas coisas. Foi despolitizado. O grande problema da Reforma de 2017, fora o fato de que ela foi feita por um governo sem legitimidade e por um vice que foi eleito numa chapa que prometera o contrário, foi que com ela o Estado deu um gigante passo para reconhecer que esta realidade é “moderna” e que o problema não está na ausência de direitos trabalhistas deste mundo de pessoas, mas nos direitos daqueles que os têm. Não só nada é feito para incluir aqueles que não têm direitos como parte do sistema de proteção social, como ainda estimula que mais pessoas saiam deste sistema. Incentivou terceirização e prometeu empregos fictícios enquanto facilitou e barateou as demissões. Os empregos não vieram, o crescimento não veio, e isto me parece meio óbvio. O país não vai crescer tornando a vida das pessoas uma bosta.

Não gosto de dizer que deveríamos tirar um ensinamento da pandemia. Acho que às vezes isto acaba servindo para romantizar a tragédia. Mas é fato que a pandemia deveria ter servido para mostrar que nenhum ser humano é uma ilha. A saída para a pandemia era, e ainda é, coletiva. Não adiantava (e não adianta) apenas você ficar em casa do mesmo jeito que não adianta apenas você tomar vacina. É necessário que todos façam a sua parte para que a solução seja alcançada. Não há sucesso individual, apenas coletivo. Não adianta se fechar numa porra de um condomínio, morar no último andar, colocar 5 trancas na porta, contratar seguranças armados, viajar duas vezes por ano, pagar um plano de saúde, trocar de carro uma vez por ano, pôr o filho para aprender inglês. Uma hora a conta pelo seu egoísmo vai chegar. E vai chegar na forma de medo. E vai chegar na forma de demissão e falência. Vai chegar na forma de violência. Sua vida não ficará melhor enquanto você não pensar no coletivo e não entender que este individualismo nos leva a barbárie. A pandemia não vai acabar com você ficando em casa, mas com o garoto precarizado rodando a cidade de bicicleta para trazer o seu hambúrguer. A sociedade não vai melhorar enquanto este garoto não estiver recebendo o suficiente para ter uma vida decente e tendo um Estado que garanta a sua proteção caso algo o impeça de trabalhar.

Vivemos em uma sociedade em que o último presidente eleito recebeu mais de 50% dos votos prometendo prender e matar oponentes. Pessoas que votam em alguém assim perderam qualquer capacidade de enxergar o outro, e por isto é fundamental restabelecer os laços de comunidade. E o mundo do trabalho é um dos focos disto. O outro trabalhador deve ser visto como colega e não como concorrente. O coletivo precisa estar preparado para ajudar os mais carentes e falhamos fortemente nesta missão durante a pandemia. Uma possível revogação da Reforma Trabalhista seria um passo fundamental para iniciar uma nova era no Brasil. Um país que precisa ser reconciliado e reconstruído. O Brasil precisa de paz, e a paz só é obtida compartilhando.

E na boa, a Reforma foi uma bosta. Está tudo uma bosta. Se você acha que ela foi um avanço, na boa, não foi avanço porra nenhuma. Acorda e olha para o que está ao seu redor.

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