segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O último ano

 


O último ano chegou. Pelo menos não consigo imaginar uma situação diferente. Uma vez tentei imaginar como será se eu acordar na última segunda de outubro e descobrir que isto vai continuar. Não vai. Não é possível.

O Brasil passou desde 2016 por um processo de auto implosão que eu sinceramente  não conheço igual. Era inimaginável. Tá, houve sim papel americano na Lava Jato. Mas todo o processo de destruição foi praticado por agentes nacionais. Foi a grande mídia nacional, o Judiciário nacional, a classe média nacional e, principalmente, o eleitorado nacional. Não conheço nenhum caso em que uma pessoa tão abjeta como Bolsonaro tenha chegado ao poder com mais da metade dos votos da população. Foi o Brasil que fodeu o Brasil. Ok, houve toda a fraude para tirar Lula do páreo, mas ok, mesmo assim, é inacreditável que a saída de uma pessoa do processo tenha sido suficiente para que a pior pessoa do mundo se tornasse presidente. Nos últimos seis anos assistimos a destruição do sistema democrático, de quase todo o aparato público, da proteção social, da presunção de inocência, do direito à defesa, do sentimento de sociedade. Sim, porque uma sociedade que escolhe um candidato que ameaça matar ou expulsar seus opositores não existe mais. Uma sociedade que não tira do poder uma pessoa que caçoa das vítimas da maior tragédia da geração não existe mais. Uma sociedade que sucumbiu, em que a relação com o outro não é marcada pela empatia e pela solidariedade, mas pelo medo e pela desconfiança.

01/01/23 será um dia de festa. Mas não se engane, o que acontecerá neste ano de 22 é algo inimaginável. Com base em antecedentes históricos, podemos perceber que o último ano de governos de pessoas como Bolsonaro costumam ser o pior. O que será pior do que o que vivemos desde 2016? Algo que ainda não sabemos. Mas quanto mais Bolsonaro e sua turma perceberem que a casa deles está caindo, maiores serão as loucuras e maiores serão as radicalizações? O que é mais radical do que atrapalhar vacinação de criança? Não sei. Bolsonaro joga com o inimaginável. Ele é o “diferente”. Será o “diferente” até o fim.

2022 será bem foda. Os dois nomes de 2016 farão o possível para que o último ano não seja o último ano. Vão fazer o possível para não perderem o que “conquistaram”. Sim, eles veem o Brasil atual como fruto de uma “conquista”. Em algum momento o juiz e o capitão vão se unir novamente. Falando de lei e de ordem. Falando de prender e matar. Fustigando o caos. Dê uma olhada na rede social do juiz. É apenas caos disfarçado por slogans de algum marqueteiro especialista em autoajuda. Tentarão repetir 2018. Mas desta vez vão perder. E se esta turma só soube semear o caos enquanto estava ganhando, você vai ver o que farão quando perderem. Imagine o que serão os dois meses entre a vitória e a posse do Lula? Com Bolsonaro presidente... Não dá para imaginar. 

A reconstrução exige paz. E a paz não se faz conversando com os amigos, e sim com os adversários. O metalúrgico e o médico entenderam isto. Quando duas pessoas minimamente civilizadas, dá para imaginar o que vai acontecer. A reconstrução passa por este gesto. Mas até lá, teremos que viver o último ano do Horror. E ele será mais horroroso do que nunca. Inimaginável até para quem o viveu até agora. 2023 será o ano da paz. Mas 2022 será o último da guerra. O pior.


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