quinta-feira, 5 de julho de 2018

O racismo do youtuber e a marca humana



Toda vez que ocorre um escândalo com um destes youtubers, eu descubro que estou ficando velho. Nunca ouvi falar de nenhum. Para falar a verdade, não sei nem muito bem o que eles fazem. Posso estar errado, mas a impressão que tenho é que eles fazem vídeos meios sobre qualquer coisa que, por algum motivo que desconheço, fazem sucesso. Júlio Cocielo é um deles. Depois do seu escândalo de racismo, ele atingiu a minha bolha. Fui assistir algum vídeo dele, consegui por um minuto. Ele tinha (acho que tem ainda) um trilhão de visualizadores e patrocínios de marcas gigantescas, tipo Coca-Cola e McDonalds. Vi outros tweets dele e, aparentemente, ele é uma pessoa muito escrota. Faz anos que ele é racista, e ninguém, acho, falava nada.
Na semana passada, terminei de ler A Marca Humana, de Philip Roth. Trata-se, a meu ver, de uma das melhores obras sobre o impacto do racismo na sociedade americana. Conta a história de Coleman Silk, renomado professor universitário de letras clássicas que vê a carreira entrar em colapso após uma acusação de racismo. Durante uma aula, ele usa o termo “spooks” para se referir a um aluno que não comparece com frequência às aulas. “Spooks”, descobri no livro, era um termo utilizado nos anos 60 como gíria para fantasma, mas que, no mesmo período, ganhou uma conotação racista no Sul dos EUA. Negando que tenha usado o termo com esta conotação, uma vez que não sabia a cor da pele do aluno que não aparecia nas aulas, Coleman é afastado da faculdade e vê sua esposa ter um ataque cardíaco e morrer durante o processo de expulsão. Envolve-se, então, com uma faxineira analfabeta da mesma universidade, causando um novo escândalo no meio universitário e perdendo o contato com os filhos. Um pouco antes da metade do livro, descobrimos que Coleman possui um segredo. Ele é negro. Com a pele mais clara do que o restante da família, resolve se definir como branco num formulário para ingresso na Marinha (à época ainda não integrada) e mantêm este segredo até o final da vida. No final do livro, quando uma irmã dele aparece para seu funeral (Ernestine), ficamos sabendo que a prática era comum entre pessoas negras de pele mais clara nos EUA antes do movimento pelos direitos civis. Perguntada pelo autor sobre qual o julgamento que ela faz da atitude do irmão, Ernestine diz que não era o momento de julgar. Uma personagem muito importante do livro é Delphine Roux, professora jovem cuja ação é fundamental no processo de expulsão de Coleman da universidade. Em um dado momento, esta professora começa a enviar cartas anônimas para Coleman o ameaçando em decorrência do relacionamento dele com a faxineira. Mais para a frente, Delphine, a jovem liberal, decide enviar uma carta para um jornal em busca de um namorado e tenta encontrar algum jeito de deixar claro de forma implícita que está procurando alguém branco. Como as marcas que hoje se afastam do youtuber, Delphine só combate o racismo quando isto é de alguma forma útil para sua carreira. O afastamento de Coleman foi fundamental para sua ascensão na universidade.

O youtuber Julio é racista e somos uma sociedade de Delphines. Somos expostos diariamente a situações racistas e nada fazemos. O racismo silencioso. A atual novela das oito se passa na Bahia, onde 80% da população é negra. Na novela, quase todos os atores são brancos. Em quase todos os bares que vou, os clientes são brancos e os atendentes são negros. Nos lugares em que trabalhei, a maioria absoluta dos funcionários eram brancos, ao mesmo tempo em que a inscrição na parede de uma delas era “valorizamos a diversidade”. Quase toda vez que eu tentava abordar este assunto com meus colegas de trabalho brancos, eu era rechaçado. “Estava viajando.” Na minha turma de faculdade (pré-cotas), se não me engano, havia um aluno negro, numa turma de noventa. A maioria absoluta dos meus colegas brancos é contra as cotas. Costumam usar o exemplo deste um colega negro para dizer que “é possível”.
Brancos em geral adoram o exemplo do “um negro que consegue” para justificar a ausência de políticas que diminuam a gigantesca e visível desigualdade racial no país. O sucesso de Fernando Holiday entre eleitores brancos reacionários está aí para provar isto. De certa forma, tentam naturalizar o fato de que uma pessoa deve se esforçar mais do que a outra para conseguir a mesma coisa. Um negro dizendo que racismo é “frescura” é fundamental para justificar a situação triste que vivemos e serve como um bom argumento de autoridade para quem defende a sua manutenção.
Várias personalidades já apareceram para defender o youtuber Júlio do que chamam de “linchamento”. Danilo Gentili e Rafinha Bastos são dois exemplos. Racismo é um crime inafiançável segundo nossa Constituição. A lei não pegou. O brasileiro em geral não reconhece o racismo como crime. “É uma brincadeira”. Ninguém pede prisão para William Waack. O máximo que acontece com pessoas que cometem este tipo de crime é perder emprego ou patrocinadores. A emissora que demitiu Waack é a mesma, aliás, que faz uma novela na Bahia com atores negros. E que possui atualmente apenas um apresentador negro em toda sua programação atual. Alexandre Garcia, um dos poucos jornalistas que, como Waack tinha, tem liberdade quase total de opinar nos telejornais da Globo, disse durante o ocaso do governo Dilma que a gestão petista havia “inventado” o conceito de raça no Brasil, através do sistema de cotas. Disse isto sobre um país que por mais de 300 anos conviveu diretamente com a escravidão. Não houve nenhuma retratação oficial da emissora. O sistema de cotas que permite que as universidades sejam hoje, felizmente, lugares muito mais diversos do que aquelas da época em que estudei.
Raças não existem biologicamente. Mas existem historicamente. A desigualdade racial no Brasil é gritante e visível. Para combatê-la, é fundamental que a parcela branca da população enxergue os privilégios históricos decorrentes de sua cor de pele. É necessário abrir os olhos e ser capaz de enxergar minimamente a sociedade que nos cerca. É fundamental que a sociedade esteja a disposta a corrigir no presente os erros do passado. Uma sociedade que não o faz, apenas perpetua seus erros. Para que isto ocorra, precisamos combater com força não apenas Júlio Cocielo, mas também Alexandre Garcia. Exigir que o crime inafiançável seja tratado como crime inafiançável. E nos esforçarmos para não sermos como Delphine Roux.

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