terça-feira, 29 de setembro de 2015

A transformação de Marta Suplicy e uma decepção política



Poucas pessoas têm a importância para a pauta progressista em SP nos últimos 30 anos de Marta Suplicy. Psicóloga e sexóloga, tornou-se famosa graças a um quadro revolucionário no programa TV Mulher da Rede Globo nos anos 80, em que falava sobre sexo do ponto de vista feminino. Num país retrógrado, ainda vivendo uma ditadura militar, poucas coisas foram tão progressistas quanto a imagem de uma mulher independente e confiante falando sobre sexo na televisão, sem culpa e de forma natural.
A entrada na política veio graças ao então marido, Eduardo Suplicy. Ganhou importância no PT e recebeu a possibilidade de concorrer ao governo do estado em 1998. De forma surpreendente, terminou na terceira colocação, ficando muito perto, mas muito perto mesmo, de tirar Mário Covas do segundo turno, onde este derrotaria Paulo Maluf. Aquela eleição serviu de trampolim para sua primeira e única vitória numa eleição para o Executivo e Marta foi eleita prefeita de São Paulo em 2000. Adotando uma postura de defesa das minorias e dos marginalizados, ela derrotou o mesmo Paulo Maluf e substitui Celso Pitta, que deixou a cidade quebrada.
Seu mandato foi em certa medida revolucionário. Fernando Haddad não poderia realizar as transformações que tem realizado no transporte público da cidade se não fosse o trabalho de Marta no começo do século. Ela criou o bilhete único e investiu como nenhum outro prefeito antes de Haddad no conceito de corredores de ônibus. Baseada no conceito do Cieps de Brizola, Marta criou o mais importante projeto de educação de base do Brasil neste século, o CEU, em que implantou na periferia da cidade super-escolas que levavam não apenas educação da forma mais “convencional”, mas também lazer, cultura e esporte. Não à toa é amada, de forma justa, nas regiões mais pobres da cidade. O PT deve a ela boa parte dos votos que recebe por lá até hoje. Em 2004, porém, foi derrotada por José Serra na eleição em que tentava um segundo mandato. Foi uma eleição tensa, em que a petista definitivamente não contou com a boa vontade da mídia, mais ou menos a mesma coisa que acontece com Fernando Haddad hoje. Foi estigmatizada com o termo “Martaxa” ao tentar criar um imposto sobre o lixo que possibilitaria um aumento de arrecadação numa cidade que vinha de um processo de destruição de finanças pela gestão anterior. Mas foi ali, com aquela derrota, que Marta começou a mudar sua postura e a colocar seus interesses pessoais à frente de interesses coletivos. Um pequeno e quase imperceptível gesto mostra isso. Marta não estava na cidade para transferir o poder a seu sucessor. Tinha ido passar o réveillon em Paris. Nada contra aproveitar o réveillon fora da cidade, porém uma das obrigações do seu cargo é esta transmissão de poder ao sucessor. É um símbolo da democracia e deve estar acima de qualquer chateação pessoal.
Quatro anos depois, Marta seguia como nome mais forte do PT na cidade e conseguiu mais uma vez a oportunidade de disputar a prefeitura de SP. Num segundo turno contra o então prefeito Gilberto Kassab, Marta protagonizou um dos momentos mais tristes da história da política brasileira, rivalizando com Collor levando a ex-namorada de Lula à TV em 1989. A campanha de Marta, histórica e incansável defensora dos direitos civis dos homossexuais no país, levou ao ar na última semana de campanha uma propaganda de televisão que deixava implícita a mensagem de que Kassab poderia ser homossexual (É casado? Tem filhos?). Aquilo pode ter ido ao ar sem que Marta soubesse, porém a então petista não pediu desculpas em nenhum momento. Ela perdia assim sua segunda eleição seguida para a prefeitura, dessa vez sem honra nenhuma. Era o segundo sinal de que algo estava se perdendo dentro dela.
Em 2010, Marta disputou venceu a disputa para o Senado, não assumindo seu cargo no ano seguinte ao receber da presidenta Dilma um convite para ser Ministra da Cultura. Ela já havia sido ministra do Turismo no governo Lula, em que se notabilizou pela infeliz frase “relaxa e goza” durante um período de caos aéreo. A frase foi apenas um momento de infelicidade, mas foi supervalorizada pela mídia e pelos setores descontentes com a figura ainda progressista que Marta representava. Em 2012, o ex-presidente Lula, notando a imagem desgastada de Marta em alguns setores da população paulistana, convenceu o partido a lançar uma figura nova, Fernando Haddad, para a disputa da prefeitura. A ex-prefeita ficou imensamente descontente, mas aceitou e até ajudou na eleição do colega de partido. Em constantes choques com a presidente Dilma, iniciou uma campanha interna para lançar Lula como candidato a presidente em 2014, ficando isolada na legenda após esta derrota. Sabendo que não tinha possibilidade alguma de conseguir a vaga para a disputa da prefeitura em 2016 pela legenda petista, resolveu chutar o balde.
Marta tornou-se uma grande crítica do único prefeito a ter uma gestão tão transformadora quanto ela. Mais do que isso, usando o argumento de que “não aguenta mais a corrupção”, passou a criticar o governo federal do qual foi ministra em 2 gestões por quase 7 anos e se filiou ao partido mais corrupto do Brasil, o PMDB. Em nome de uma ambição pessoal, Marta se esforça para jogar fora uma vida pública voltada para as transformações sociais e para o progresso, ligando-se a um partido que representa o que há de mais retrógrado na sociedade brasileira. Nada é mais decepcionante para uma pessoa que admira a história de Marta do que vê-la ao lado de Eduardo Cunha, homem que representa o oposto de tudo que ela se notabilizou por defender. Mais do que isso, ao entrar no PMDB dizendo que vai “combater a corrupção” tudo que a ex-prefeita conseguiu foi se tornar motivo de chacota.
O processo de transformação de Marta, motivado a meu ver por um ego pessoal gigantesco, chegou dessa forma ao seu fim. Para ter a tão sonhada candidatura própria, Marta jogou fora sua história e prejudicará a candidatura da pessoa que hoje mais representa o modernismo na cidade, Fernando Haddad. Marta tem e sempre terá seus méritos, mas hoje é um símbolo de como a ambição pessoal pode corroer e se sobrepor às ideologias de uma pessoa. Por enquanto, tudo que ela conseguiu foi decepcionar antigos eleitores.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

11 fatos sobre 11 anos de tênis masculino



Circula essa semana na internet uma notícia interessante, que sinceramente não sei se é verdadeira, mas é interessante. Um espanhol de nome Jesus Aparício, grande fã de Roger Federer, teria entrado em coma no final de 2004 e acordado apenas em 27 de agosto deste ano. Em um dado momento se lembrou de perguntar por Federer, querendo saber como tinha sido a carreira do suíço. Ficou muito surpreso ao descobrir que Federer não apenas ainda jogava como era número 2 do mundo. Jesus teria assistido à final do US Open entre o suíço e Novak Djokovic e teria ficado impressionado com a qualidade do jogo não só do suíço, mas como também do sérvio. Verdadeira ou não, você pode ler esta história no link a seguir http://bolamarela.pt/espanhol-acorda-do-coma-apos-11-anos-e-surpreende-se-com-a-longevidade-do-idolo-federer/ e, graças a essa história, fiz a lista dos 11 fatos ou momentos mais importantes do tênis masculino nos últimos 11 anos, que a meu ver foram os anos de ouro deste esporte graças aos 3 da foto acima. 

1 ) Apenas três tenistas foram número 1 do mundo neste período: Roger Federer, Novak Djokovic e Rafael Nadal. Para se ter uma ideia do que isto significa em domínio, apenas na temporada 1999 houve 4 tenistas que alcançaram este posto: Pete Sampras, Yevgeny Kafelnikov, Patrick Rafter e Andre Agassi.

2 ) Foram disputados 44 Grand Slams neste período, com oito vencedores diferentes: Nadal (14), Federer (13), Djokovic (10), Andy Murray (2), Stan Wawrinka (2), Juan Martin Del Potro (1), Marat Safin (1) e Marin Cilic (1). Para  se ter uma ideia do que isto significa em domínio, entre as temporadas 2002 e 2003 houve oito Grand Slams com oito vencedores diferentes: Thomas Johansson, Albert Costa, Lleyton Hewitt, Sampras, Agassi, Juan Carlos Ferrero, Federer e Andy Roddick.

3 ) Dos 44 Grand Slams do período, apenas 2 vezes não tivemos na final Federer, Nadal ou Djokovic: Aberto da Austrália de 2005, com Safin e Hewitt, e US Open de 2014, com Cilic e Kei Nishikori.


4 ) Roger Federer x Rafael Nadal é o único confronto da era aberta entre dois tenistas que já venceram os 4 Grand Slams. Novak Djokovic já venceu os dois ao menos uma vez em cada um dos quatro Slams.

5 ) O tenista que mais ameaçou os 3 foi Andy Murray. Escocês, tornou-se em 2013 o primeiro britânico a vencer Wimbledon na era aberta. Seu título foi motivo para grande festa, com a presença do príncipe e do primeiro-ministro em quadra. Um ano depois, porém, o amor acabou, quando Andy declarou apoio à independência da Escócia durante o plebiscito. Os ingleses estão meio putos com ele até hoje.


6 ) Rafael Nadal tem vantagem no confronto direto contra todos os tenistas que enfrentou ao menos 2 vezes, com exceção do alemão Dustin Brown. Está 2 x 0. *


7 ) Em 2006 aconteceu aquele que julgo o jogo de tênis mais bizarro da história. À época ninguém imaginava que Rafael Nadal, campeão de Roland Garros, pudesse um dia ganhar Wimbledon e alguém teve a brilhante ideia de colocá-lo para jogar contra Roger Federer, campeão na grama inglesa, numa quadra metade de saibro e metade de grama. Ofereceram um caminhão de dinheiro para os dois que, lógico, aceitaram. O que se viu foi um jogo esquisitíssimo, com os dois tenistas tendo que trocar de calçado a cada virada de lado. No final, Nadal ganhou.


8 ) Em 2012 o Masters 1000 de Madri foi realizado em saibro azul. A ideia da organização era de criar um certo marketing para o torneio, mas foi um fracasso. Grande parte dos tenistas reclamou que mal conseguia ficar de pé naquilo. Roger Federer foi o campeão e o saibro azul foi abolido.


9 ) Ainda no Masters 1000 de Madri, mas um ano antes, os 4 semifinalistas foram: Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer e... Thomaz Belucci !!!


10 ) Os EUA não ganham um Grand Slam há 12 anos. É o maior jejum da história do país mais dominantes do tênis masculino.

E finalmente, o fato que julgo ser o mais importante destes 11 anos de tênis:

11) O dominicano Victor Estrella Burgos venceu seu primeiro jogo de Grand Slam no US Open de 2014 aos 33 anos, tornando-se o jogador mais velho a vencer sua primeira partida de Grand Slam na história. * Um ano depois, Burgos venceria aos 34 anos o ATP de Quito, tornando-se o tenista mais velho a vencer seu primeiro título de ATP. Vida longa a Estrella Brugos !

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A BABAQUIZAÇÃO DO FUTEBOL


Como sempre eu venho aqui escrever textos mais fúteis que o meu amigo João Gabriel, mas os maiores exemplos da babaquice humana podem vir das futilidades.

Nesta última semana parte da torcida do Corinthians iniciou um processo de excomunhão do jornalista Milton Neves, conhecido por ironizar e atacar o Corinthians em seus programas de TV e rádio. A torcida pôs em prática um boicote ao jornalista e seus anunciantes fazendo até com que eles se manifestem publicamente.

A marca de sapatos Rafarillo diz em comunicado que também já apoiou os jornalista Neto e Ronaldo Giovanelli, notoriamente corinthianos, porém enviará a reclamação para o departamento de Marketing para análise. Apenas essa resposta da empresa mostra que o futebol, por incrível que pareça, ainda não atingiu o seu maior nível de idiotice.
Milton Neves é, antes mesmo que jornalista, um comunicador dos bons. Diria que ele é o Silvio Santos do esporte. Muitos entendem que o futebol é religião, outros entendem que é entretenimento, e eu fico no meio do caminho. Não assisto jogos do meu time como se fosse um filme ou uma novela, pois aquilo me move, me fascina, me traz tristeza e alegria, me faz gritar, xingar, perder o senso de justiça e da razão. Por outro lado, não posso colocar o futebol acima das milhares de coisas mais importantes na vida, como a liberdade.

Gosto de ver o Milton Neves falando asneiras que nem ele mesmo acredita. Gosto de ver o antagonismo nos debates esportivos. O que a torcida quer? Que todos os jornalistas defendam o Corinthians? Que sem graça, literalmente. Pense você se não é legal ver o Neto dizendo que o Corinthians deveria jogar a Champions League pouco antes de uma eliminação para o Guarani do Paraguai? E a Renata Fan chorando logo após o Grêmio golear o seu Internacional por 5 gols? Pois é, também é legal ver o Milton Neves levando caixão e apito do Corinthians para o estúdio.


Acordem! Boicotar um jornalista porque ele brinca com futebol é a babaquização máxima, além de ser um péssimo exemplo para os nossos filhos. Isso é uma espécie clara de opressão e intolerância. O trabalho do Milton Neves é esse, ele vive disso. Se ele irrita 30 milhões de corinthianos, não se esqueçam que existem mais 174 milhões de pessoas que se divertem. Pois é, existem outras pessoas além de corinthianos, você acredita?

Há quem diga que o torcedor também tem a sua liberdade de expressão e tem o direito de boicotar quem ele quiser. Isso é fato, é uma verdade. Eu não questiono o direito, mas os motivos. Quando uma grande massa se rebela contra uma injustiça ou um contra um ditador é bonito, inteligente e louvável, mas quando uma grande massa se volta contra um jornalista que faz piada com um determinado time isso se torna feio, burro e desprezível. Isso é, mais uma vez o retrato de uma sociedade que não aceita perder e ser contrariada, uma sociedade de mimados que sempre quer vitória e perde a glória de chorar.
O ponto mais preocupante dessa atitude é a censura imposta por um grande grupo e com motivos pra lá de questionáveis. Imaginemos que essa campanha dê certo e os patrocinadores abandonem Milton Neves, e que sem dinheiro de publicidade a Bandeirantes o abandone também, todos os jornalistas “antis” estão fadados ao desemprego? Que espécie de ditadura é essa? É o início do plano para que todos os brasileiros sejam corinthianos? Pelo jeito descobrimos que Pink e Cérebro são alvinegros.
O problema aqui não é se o Milton Neves vai perder o emprego e passar necessidades, ele é rico. O problema é como podemos moldar o comportamento da mídia nos utilizando do nosso poder de compra.

Pior que tudo isso acima, há a possibilidade de que Milton Neves comece a só falar bem do Corinthians para manter sua audiência, patrocino e emprego. Viveremos em um mundo de mais mentiras e seremos como aquelas celebridades as quais pessoas paparicam mas não suportam. A torcida do Corinthians, como a do Flamengo, tem muito poder e pode mudar muitas coisas, não usemos isso para o mal e para a repressão. Viva a diversidade de pensamento. Viva ao humor no futebol. Isso não é política, isso não é religião (não que, em muitas vezes, não utilizemos o fanatismo e a irracionalidade nesse 2 também).

Corinthians e Palmeiras deram o exemplo nos últimos 15 dias quando um parabenizou o outro pelo aniversário e enalteceu a maior rivalidade do estado. Falta agora os torcedores reconhecerem no adversário o combustível que move toda essa engrenagem. Se o futebol te move, te fascina, te traz tristeza e alegria, te faz gritar, xingar, perder o senso de justiça e da razão, é justamente por causa do seu rival. Sem rivais, sem derrotas e sem decepções não há motivação para evoluir. Aceite as derrotas, curta suas vitórias, brinque com os seus amigos, só não tente unir uma nação de torcedores-censores para destruir o futebol e a liberdade. Aprenda a perder, menino!


Texto de um corinthiano, com muito amor, até o fim.


Que horas ela volta, transformações sociais e um pequeno obituário do PT


Este texto contém informações sobre o filme. Se você não o viu, mas pretende ver e não quer saber o que acontece, não o leia.
Neste domingo venci minha forte resistência à Regina Casé e fui assistir ao filme "Que horas ela volta?", estrelado por ela, em cartaz nos cinemas e que vem recebendo excelentes críticas. Embora o foco do blog seja falar mal, não abordarei aqui minha rejeição à Regina, e sim falarei sobre o filme, que é excepcional. Valeu muito a pena vencer minha teimosia. O filme é a melhor crônica sobre as transformações sociais dos últimos 10 anos e expõe de forma brilhante os choques entre e a elite e a nova classe média através de uma das relações que mais a representa, a que ocorre entre patrão e empregada doméstica.
Enxergo nesta relação um dos grandes resquícios do período escravista em nosso país. Val, personagem interpretado de forma estupenda por Regina Casé, é a típica empregada doméstica de uma família abastada, sendo considerada por esta como alguém "da família", ao mesmo tempo em que precisa usar uniforme, não pode se sentar à mesa com os patrões, nem chegar perto da piscina, a não ser para limpá-la. Vive num quarto de empregada no melhor estilo senzala moderna, pequeno e sem ventilação. A casa possui um gigantesco e confortável quarto de hóspedes que está sempre vazio, enquanto Val, a pessoa "da família", vive em seu muquifo escondido e apertado, sem que isto cause nenhum tipo de desconforto aos patrões ou à doméstica. Uma relação de opressão só é possível de ocorrer de forma "perfeita" quando opressor e oprimido se reconheçam e não se sintam incomodados com os papéis que representam.
A situação de conforto acaba quando Jéssica, filha de Val, decide prestar vestibular em São Paulo, levando a mãe a pedir aos patrões que sua filha fique na casa deles por um tempo. Val deixou a filha ainda muito criança no Nordeste para tentar uma vida melhor em São Paulo, enviando mensalmente dinheiro para a criação dela. Elas não se vêem há 10 anos e a filha mantêm com a mãe um um relacionamento distante, ao contrário do que ocorre entre Val e Fabinho, filho dos patrões, que tem um carinho pela empregada maior do que o que possui pela mãe.
O filme é repleto de cenas antológicas e a primeira delas, a meu ver, é quando Val compra um presente de aniversário para a patroa, que finge gostar e logo em seguida o devolve para a empregada, para que esta o guarde. A relação funcionário x patrão no Brasil é, a meu ver, e não falando apenas da relação doméstica, muito marcada pela sensação de gratidão, não do empregador pelo empregado, mas sim o inverso. O funcionário tende a ser muito grato à pessoa que paga seu salário, quase como se o patrão estivesse fazendo um favor. É o caso clássico do patrão que doa suas roupas velhas para o filho da doméstica e em troca espera receber uma gratidão eterna.
A chegada de Jéssica causa imediatamente um estranhamento a todos os habitantes da casa, inclusive a Val. Os patrões ficam boquiabertos ao saber que Jéssica prestará o mesmo vestibular que Fabinho, reagindo quase que por inércia numa tentativa de desacreditá-la e diminuir sua chance, tomando como base a provável pouca qualidade do ensino obtido pela menina no Nordeste. Mas Jéssica é confiante e ao demonstrar esta confiança é vista especialmente pela casa como alguém arrogante, inclusive por Val? Onde já se viu filha de empregada ter nariz em pé? Vejo essa situação de "arrogância" na relação que existe hoje entre patrões e pedreiros. Quantas vezes não vi pessoas reclamando do valor cobrado por estes e mais, achando um absurdo quando o pedreiro recusa um trabalho por um salário. Poucas coisas incomodam mais um patrão do que um funcionário audacioso que ousa agir dessa forma. No filme, a chegada de Jéssica torna Val visível e isso incomoda a todos, inclusive à personagem principal.
O filme segue com esta relação tensa entre a casa e Jéssica. Após uma pequena e desnecessária história de amor não realizado entre o patrão e Jéssica, que deveria ser cortada do filme porque é uma perda de tempo, a tensão explode no momento em que Fabinho joga Jéssica na piscina, causando uma revolta tanto na patroa quanto em Val. Como já dito, para que uma relação deste tipo exista, é fundamental que opressor e oprimido a vejam com naturalidade e ao entrar na piscina a filha da empregada quebra esta relação. A piscina, símbolo de status e conforto, não é lugar de empregado, assim pensam opressor e oprimido. Após outros entreveros, Jéssica deixa a casa e assim faz Val começar a abrir os olhos para sua própria situação. O estopim para a abertura dos olhos de Val é o resultado de Jéssica e Fabinho vestibular. Como já esperado em todo o filme, não nos surpreendemos quando a esforçada Jéssica é aprovada na primeira fase, enquanto o playboy Fabinho fracassa. Val está no quarto do menino o acalmando junto à frustrada patroa quando recebe a ligação da filha informando o seu sucesso. A patroa e Fabinho ficam incrédulos e são simplesmente incapazes de parabenizar a empregada "da família" pelo sucesso da filha. Na mesma noite, Val entra pela primeira e última vez, num momento que representa um chega da empregada para a relação de invisibilidade que viver por todos aqueles anos. No dia seguinte Val pede demissão e vai morar com a filha. As transformações no país, especialmente no anos Lula, atingiram principalmente pessoas invisíveis como Val. Nos grandes centros urbanos, ninguém entende como a maioria da população brasileira foi capaz de votar no PT na eleição do ano passado, quando os casos de corrupção já eram claros e a crise econômica já se aproximava. Creditam o sucesso do PT no Nordeste ao Bolsa-Família, quando esquecem ou não sabem que um salário mínimo em 2002 comprava meia cesta básica e hoje compra 3. Por que não sabem? Porque isto atinge apenas pessoas invisíveis e que não interessam à mídia. Por isso não vemos reportagens sobre o efeito do salário mínimo na vida de boa parcela da população, mas sofremos uma enxurrada de notícias negativas sobre o aumento do dólar.
Muitas pessoas em manifestações criticam o estado da educação no país. Sempre digo a estas pessoas que conversem com os atuais ou antigos jovens aprendizes das empresas em que trabalham e vejam a quantidade de jovens de origem pobre fazendo faculdade graças ao Prouni. As universidades particulares são em grande número ruins, isto é claro, mas pergunte a uma mãe como Val o que significa ter um filho com diploma superior e o sonho que isto representa em sua vida. Mais um exemplo de como a mudança ocorreu com pessoas "invisíveis". Tendemos a olhar o que ocorre com nossos superiores, a conversar com eles quando queremos saber a situação do país, quase nunca com os que estão hierarquicamente abaixo de nós. Com estes as pessoas não querem conversa, querem apenas dar conselhos.
O governo do PT acabou e sucumbiu principalmente à corrupção. O partido que se julgava diferente e dono da moral e da ética no país hoje tem como único argumento neste campo dizer que faz o mesmo que todos fizeram. Não foram eleitos para isto e vão pagar caro pelos seus erros, mesmo que sua oposição esteja longe de ser exemplo neste assunto. Pelo contrário. Quando, porém, o PT deixar o poder em 2018, se olharmos e compararmos o Brasil de 2018 com o Brasil de 2002, veremos um país melhor. Isto é fato.
Um outro grande erro do PT foi não reconhecer o mérito das coisas boas feitas pelo governo anterior. Espero que o governo que o suceder não cometa o mesmo erro e siga este processo de mudanças. Nosso país precisa acabar urgentemente com os resquícios da escravidão nas relações trabalhistas e com a invisibilidade das classes mais pobres. O PT começou este processo e historicamente terá este mérito.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cameron, os refugiados e a opinião pública britânica



Uma semana após comparar os refugiados sírios a um enxame de insetos, o premiê britânico anunciou ontem que o Reino Unido fará parte do programa de recepção de refugiados da União Europeia. O número previsto é de aproximadamente 5.000 refugiados, ainda bem longe dos 400.000 refugiados que a Alemanha receberá apenas em 2015, e foi uma resposta à crescente pressão da opinião pública britânica que chegou ao ápice ontem, com a divulgação da impactante foto do corpo de uma criança refugiada em uma praia turca.
Cameron foi eleito e reeleito na Grã-Bretanha tendo como base uma política anti-imigrantes e contrária à União Europeia. Após a entrada de Romênia e Bulgária na União, por exemplo, o premiê iniciou uma campanha de publicidade negativa do Reino Unido nestes dois países. Placas com frases do tipo “Não venha para Londres, aqui só chove e as pessoas são antipáticas” foram espalhadas nestes dois países, placas estas patrocinadas pelo governo de Londres. A resposta do governo romeno foi brilhante. A Romênia comprou publicidade em Londres e espalhou placas do tipo “Na Inglaterra só chove e as pessoas são antipáticas? Pois então venham conhecer a Romênia, aqui o tempo é bonito e as pessoas te tratarão bem !”.
Como promessa de campanha, Cameron convocará até o final de 2017 um plebiscito para a saída do Reino Unido da União Europeia. Em sua opinião, a União hoje só traz custos ao contribuinte britânico. Cameron também é contra a entrada liberada para europeus de países pobres, como os habitantes do Leste Europeu. A União Europeia é possivelmente o mais importante acordo de paz hoje existente, mas isto não importa para Cameron. Ele não quer derrubar fronteiras, quer aumentá-las. A questão que importa para ele não é paz, é grana.
Poucos países têm tanta responsabilidade sobre o que ocorre hoje no mundo do que a Grã Bretanha. A questão dos refugiados africanos, por exemplo, está intimamente ligada à política colonial inglesa. Por séculos aquela região foi explorada por Londres, que levou toda a riqueza, deixando em resposta um rastro de destruição. Hoje os descendentes dos explorados correm em direção à metrópole, buscando melhores condições de vida. Cameron diz não, acredita que o Reino Unido não tem responsabilidade pelo que acontece. Não há um lugar do mundo que não tenha sofrido com o Império Britânico na história. A África foi dizimada em nome do desenvolvimento industrial inglês. A Ásia teve sua população viciada em ópio porque isto atendia aos interesses comerciais britânicos. O Paraguai foi dizimado por Brasil, Argentina e Uruguai armados pelos ingleses. Isto para citar 3 exemplos em 3 continentes distantes. Cameron deveria estudar história... Ou não, a educação na Inglaterra é muito boa, neste caso a questão é egoísmo mesmo... E má fé. Cameron e boa parte da população britânica não enxerga a responsabilidade histórica que possuem com estes povos. Ou até enxergam, simplesmente não se sentem incomodados com isso.
Para não dizer que o Reino Unido não tem interesse com nenhum tipo de refugiado, o governo britânico dá cidadania para qualquer pessoa que chegar lá disposta a investir 1 milhão de libras no seu território. Com isso, muitos russos mafiosos procurados em Moscou ou árabes milionários do petróleo são muito bem recebidos na terra da rainha.
Cameron representa hoje a ausência de humanidade em um governo. Deu uma entrevista em que se disse emocionado com a foto do menino morto. Duvido. Não há espaço para este tipo de coisa em seu governo. Ele quer apenas atender a um momento da opinião pública britânica, que muito provavelmente não está tão interessada nesta questão. Basta uma notícia de sua inútil família real para que o drama dos refugiados saia da mídia. Uma nova festa de Harry ou uma nova foto de Kate no mercado. E assim Cameron poderá se livrar do que há uma semana chamou de enxame...

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Alberto Saraiva e o mito do empresário bonzinho




Alberto Saraiva é um empresário bem sucedido. Não gosto de usar o termo sucesso para pessoas como ele, pelo simples motivo que se aplicarmos a palavra sucesso para casos como o dele devemos aplicar a palavra fracasso para todo mundo que não conseguiu o que ele conseguiu. Eu não acho que o pai de família que precisa de dois empregos para sustentar sua família seja um fracassado. Para mim este conceito está muito mais ligado à forma como você lida com a sua vida. Acho que o termo sucesso usado para pessoas que simplesmente enriqueceram cria uma sociedade doente. Mesmo assim, não posso negar que a história de vida de Alberto seja comovente. Começou absolutamente do nada. Primeiro com uma padaria com o pai, que foi assassinado em um assalto no estabelecimento 19 dias após a abertura. Não desistiu, abandonou a medicina e investiu no Habib’s. Hoje é um cara rico.
Há um texto circulando na internet cuja autoria é atribuída a Alberto e que está viralizando. Ainda não há confirmação se o texto é realmente dele e você pode vê-lo no link a seguir: http://www.jornaldoempreendedor.com.br/destaques/inspiracao/o-desabafo-do-presidente-do-grupo-habibs. É um dos piores e mais hipócritas textos que li nos últimos tempos.
O texto vangloria aquilo que chamo de “mito do empresário bonzinho”. Com o objetivo de inserir entre os trabalhadores a defesa dos interesses patronais, há uma campanha de marketing ideológico, em certa medida patrocinada por parte da mídia, para transformar o empreendedor em herói cujo objetivo principal é a criação de empregos. Boa parte (para não dizer todos) dos grandes empresários nacionais não se importa com a criação de empregos, o interesse está na margem de lucro. Para se obter lucro, contrata-se gente. O emprego, portanto, não é o fim e sim o meio para se chegar à melhor margem. Não há juízo de valor nisso. Não é errado querer lucrar. Apenas não posso mais aguentar a hipocrisia deste empresariado de querer vender a ideia de que eles fazem uma boa ação ao país ao contratar gente.
A base da criação de riqueza é o trabalho. É ele que transforma o nada em alguma coisa. Não há produção sem trabalho. Para usar o Habib’s como exemplo, Alberto é dono das máquinas e do estabelecimento, mas ele necessita de pessoas para gerar o produto final. Se Alberto contrata um atendente por R$ 1.000,00, significa que este atendente gera para Alberto, no final das contas, mais do que R$ 1.000,00. Se gerar apenas R$ 900,00, será demitido. A conta é simples, mas as pessoas se esqueceram do óbvio. O empregado de Alberto não deve ser grato a ele. Tudo que ele consegue é fruto do seu trabalho, que ajuda a enriquecer Alberto. É este que se apropria de parte da riqueza criada pelo funcionário, e não o contrário. Sem juízo de valor. A renda do trabalhador só depende de si próprio, enquanto a renda do patrão depende do trabalho do outro. Do ponto de vista lógico, quem deveria ser grato a quem?
O empresariado brasileiro, neste período de crise, tenta transformar seus interesses de classe em interesses nacionais e para isso tenta transformar o ato de criação de empregos em caridade, de tal forma que os seus empregados devem ser eternamente gratos àquele que os emprega. Para isso, usa o argumento batido e mentiroso de que “a última coisa que queremos fazer é demitir gente”. Mais uma hipocrisia. A última coisa que eles querem é diminuir a margem de lucro. Uma nova demissão é apenas “corte de gastos”.
A quantidade de trabalhadores que caiu neste engodo cresce. É assustador o número de pessoas remuneradas defendendo valores patronais e criticando a CLT. Que realmente acreditaram que os empresários querem pagar menos impostos para contratar mais gente. Eles não querem contratar mais ninguém, querem aumentar o lucro. Querem menos imposto para ter mais dinheiro no bolso. Só isso. Sem juízo de valor.
O empresariado trabalha em interesse próprio. Conseguiu convencer uma parcela significativa da classe média trabalhadora de que seus interesses representam os interesses nacionais. Aparecem na TV falando de quantos empregos geram e recebem elogios por isso. Sem juízo de valor, mas nossos valores estão invertidos. Na sociedade da aparência, não percebemos o lógico. O que gera riqueza não é o empresário de terno, mas sim o trabalhador de macacão, utilizando as ferramentas do empresário de terno. E cada um deveria defender seus interesses. Sem agradecimentos e sem hipocrisia. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

DISCRIMINAÇÃO - VOCÊ FINANCIA ESSA MERDA!



Comprar carteira de motorista, subornar o guarda, furar fila, pagar meia entrada indevidamente, transferir pontos para a carteira de habilitação de outra pessoa e selecionar frequentadores na porta de baladas são práticas comuns na sociedade brasileira, sendo que esta última está no foco do debate neste momento.

As hostess das baladas de classe alta de São Paulo existem somente para dizer quem pode e quem não tem o direito de se divertir. É função desse profissional deixar a balada bonita e elegante, pois o ideal é que o seu consumidor possua 3 características básicas: dinheiro, educação e beleza. A beleza é um critério subjetivo, já que se aplica apenas ao produto de qualquer casa noturna, que são as mulheres.
Essa é a hora em que feminista pula da janela, e não é para menos. A sociedade vergonhosamente machista ainda trata a mulher como um produto e para os proprietários de casas noturnas não é diferente. Como quem entra em uma revendedora de carros, os homens buscam entrar em casas que tenham os produtos mais novos, bonitos e conservados, e os promotores dos eventos vendem isso a todo momento, ou você nunca ouviu frases do tipo “Os melhores DJ’s e muita gente bonita!”?
Os homens pagam mais caro e as mulheres são VIP. Essa prática já coloca a mulher como um objeto pronto para ser consumido, caso você esteja disposto a pagar por isso. Imagine o quanto se pode cobrar em um estabelecimento em que o produto é de primeira. A entrada VIP é a maior agressão ao orgulho e ao poder feminino, e não pelo argumento simplório repetido à exaustão pelos machistas de que se os direitos são iguais os deveres também devem ser, mas pelo o fato de a própria mulher se colocar em uma prateleira para ser usada como forma de atrair um público com vocação para beber, ostentar e, principalmente, gastar.


A seleção social já é triste, é a primeira barreira que deve ser vencida no caminho da “night”. O alto preço faz a primeira seleção natural das baladas classe A, e mesmo que você faça uma poupança para poder um dia desfrutar desse mundo não é certo de que vá conseguir, pois terá sempre no seu caminho uma hostess ou um segurança para medir a sua capacidade de estar naquele lugar. É nesse momento que o brasileiro passa da vergonha moral de um país de extremos para um povo criminoso e discriminatório.


Agora não venha você dizer que não sabe que isso acontece. Todos sabemos e em muitos casos compactuamos com isso, principalmente quando frequentamos locais que notoriamente praticam esse tipo de discriminação. Se você sentiria vergonha de usar uma roupa que foi feita por escravos ou de comer em um restaurante que não aceita gays, por que consumir esse produto da balada bonita? Como na maioria das mazelas desse país, fazer a sua parte é a principal forma de acabar com o problema. Se o público parar de procurar pelo slogan “muita diversão e muita gente bonita” quem sabem um dia as casas noturnas começarão a separar o público de forma natural, apenas pelo o seu gosto musical.

A prova de que não são apenas as baladas que são escrotas, mas o seu público também, vem dos EUA. Sean O'Brien é um homem acima do peso que decidiu dançar e se divertir, porém a foto abaixo foi postada com a seguinte legenda "Vi esse espécime tentando dançar na semana passada. Ele parou quando nos viu rindo".


Sean era apenas mais um ser humano tentando se divertir, mas as pessoas que publicaram essa foto gostariam que ele estivesse ali?
Em resumo, Sean se tornou um ícone antibullying e ganhou uma festa ao som de ninguém menos que DJ Moby. A hashtag #dancingman explodiu.

A sociedade tem que entender a sua parcela de culpa, já que a balada classe A só é assim porque vende, porque tem público. Fazendo uma comparação exagerada, toda a culpa do Holocausto recaiu sobre o regime nazista e o seu mentor Adolf Hitler, mas as pessoas se esquecem que os judeus eram odiados por toda a Europa, seja pela população ou por seus governantes, mas apenas Hitler teve a covardia coragem de fazer o que fez. Será que você, frequentador das baladas de luxo – e não são apenas as sertanejas, hein! –, não está financiando o crime? Será que você também não discrimina indiretamente? Será que na verdade você gosta e aprova isso? Será que você não paga caro justamente para que alguém mantenha certas pessoas bem longe? Pense bem, a sociedade também é você.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A passeata por nada


            

A ligação de Eduardo Cunha com escândalos de corrupção vem de longe. Começou no governo Collor, quando  era o operador de PC Farias na Telerj, continuou pela quase falência do fundo de pensão Cedae (Companhia Estadual de Água e Esgoto do Rio de Janeiro) no governo Garotinho no RJ, passou a compra de ações superfaturadas pela Furnas, já no governo Lula, chegando finalmente à operação Lava-Jato, em que é um dos nomes mais citados.
Dia 16/08 teremos mais uma passeata contra o governo Dilma Rousseff. Em SP será organizada pelo Movimento “Vem pra Rua”, pedindo a saída da presidente, seja por impeachment ou por renúncia. Os líderes do movimento baterão na tecla da corrupção, mas já afirmaram que pretendem poupar Eduardo Cunha de críticas. Argumentam que ele hoje é personagem importante para conseguir o sonhado afastamento da presidente.
Uma boa parte dos brasileiros é corrupta. Compram-se carteiras de motorista, carteiras de estudante, entrega-se propina a policiais e funcionários públicos, ligam-se pontos de TV a cabo ilegal. A corrupção no dia-a-dia é tão grande que algumas empresas até adequaram seus serviços à pirataria. Ou ninguém estranha que a principal distribuidora de TV a cabo do país tivesse recebido, ao mesmo tempo, milhares de pedidos para redução de pacotes? Ou ninguém estranha a relação direta dos funcionários desta empresa com a pirataria?
Mas hoje eu acredito que o grande símbolo da corrupção do dia-a-dia seja a transmissão de pontos entre carteiras de motorista. Extrapola-se a pontuação permitida e se joga esta pontuação adicional na carteira de alguém. Muitos fazem, divulgam e não se sentem culpados ou intimidados fazê-lo. A revolta é muito maior em relação à quantidade de radares na cidade. Chama-se aquilo de “indústria da multa”. As mesmas pessoas que exigem policiamento e reclamam que as pessoas não cumprem as leis, falam mal destes radares que fiscalizam quem está seguindo as normas. Polícia é legal, desde que não esteja fiscalizando aquilo que eles fazem de errado.
Um número significativo destas pessoas estará na manifestação do dia 16. Vestirá sua camisa da seleção brasileira, pintará seu rosto e tirará selfies. Nem todos os manifestantes dessa passeata terão este perfil, mas uma parte significativa. Boa parte dos slogans será contra a corrupção, mas o foco, como mostrado no segundo parágrafo, não é este, quer-se simplesmente tirar a presidente. O argumento encontrado é a corrupção. Mas se precisarmos de um corrupto para substituí-la, sem problemas.
A rivalidade PT-PSDB destruiu nos últimos anos a capacidade de reflexão do grande público. Os dois lados têm culpa por jogar o nível da conversa no chão. Age-se por impulso e não há disposição para ouvir-se o lado oposto. Quando um lado fala, o outro grita e bate panela. Como uma criança que não quer ouvir o pai. Uma criança mimada.
A classe média, da qual faço parte, é geralmente mimada e individualista. Os últimos 21 anos representaram o período de entrada de muitas pessoas nesta classe. Fomos ensinados e doutrinados a perseguir o sucesso e a vitória. Mais do que isso, fomos doutrinados a “merecer” a glória, de tal forma que esperamos este sucesso como resultado de um esforço. Muitas das pessoas que estarão nesta passeata, vindas da classe média, esforçaram-se para evitar a derrota de Aécio na eleição do ano passado. Fizeram o que puderam. Perderam e junto com a derrota veio a dor de descobrir que nem sempre esforço gera resultado. Pela quarta vez seguida. A revolta gerou o ódio e estes movimentos como o “Vem pra Rua” estão trabalhando para transformar este ódio em algo.
A política econômica do segundo mandato de Dilma é uma tragédia. Reeleita, ela preferiu aplicar o projeto econômico do candidato derrotado. Resolveu enfrentar a crise da pior forma possível, aprofundando-a. As mesmas políticas de austeridade que não geraram nenhum resultado concreto na Europa estão sendo adotadas por aqui. Cortam-se gastos públicos, no entanto a política mais bem-sucedida que se conhece para a saída de uma crise foi adotada pelos EUA nos anos 30, o New Deal, em que se elevaram os gastos públicos. Se o governo não tem recursos para tal, a que se aumentar a arrecadação. Que tal um imposto sobre fortunas?
Um grande mérito da elite econômica brasileira foi embutir na classe média seus valores e princípios. Através da mídia, o imposto se tornou assunto proibido. Somos doutrinados a reclamar dos serviços públicos (que muitas vezes são realmente uma porcaria), mas não refletimos sobre a causa deles serem tão ruins. E o motivo é a desvalorização do público em relação ao individual. É ela que nos levou a buscar serviços privados ao invés de lutar como sociedade pela melhoria dos serviços públicos. Dando um exemplo, o que seria das grandes companhias de seguro de saúde se a saúde pública no Brasil fosse boa? Será que elas financiam congressistas? Como agem os congressistas por elas financiados? Por que a mídia não fala disso?
A classe média age e pensa como a elite que sonha ser. E enxerga como um problema sério quando algo a impede de ter a vida de riquezas e privilégios sonhada. E supervaloriza estes problemas através da mídia. Algumas reportagens de revistas semanais de informação nas últimas semanas comprovam isso. O tema é sempre a crise econômica. Uma das matérias falava sobre o “drama” de uma família que não tinha mais dinheiro para jantar fora no sábado à noite, e por isso estava comprando uma pizza. Outra era sobre uma família que não tinha mais condições de ir ao cinema no mesmo sábado à noite, e por isso teve que assinar o Netflx. No mesmo fim de semana, um grupo de haitianos sofreu um atentado no centro de São Paulo. O espaço para este assunto na mídia foi quase nulo? Por quê? A meu ver, a mídia tem interesses econômicos próprios e os defende. Cada um defende o seu lado, tentando transformar problemas individuais em problemas coletivos e dessa forma mobilizar pessoas.
As indústrias automobilísticas tiveram por anos um lucro irreal bancado dinheiro público, ora por subsídios ora por investimento direto. Este lucro foi por anos usado para bancar bônus milionários para diretores que se julgavam mestres cada competência, quando na verdade geravam empresas que sem o governo iriam a bancarrota. O governo e a sociedade bancaram estes diretores por ano, sem exigir nada como contrapartida. Quando a fonte governamental secou, qual a primeira coisa que foi feita? Demitiu-se. O dinheiro do lucro, que deveria ter sido usado para criar uma reserva para anos futuros, foi todo torrado. Muitos não concordam com a minha visão, mas acredito que uma empresa que recorre a recursos públicos tem certas responsabilidades. O lucro foi usado para premiar uma “boa gestão”. O prejuízo foi justificativa para demitir e culpar o governo. O empresariado brasileiro conseguiu criar a imagem de que a função deles é “criar empregos”. Na realidade, eles não estão nem aí para os empregos que criam. Eles só os criam porque ganham algo. Não acho isso errado, apenas não gosto do argumento de que eles não pensam no individual, e sim no coletivo. E mais do que isso, a incapacidade da sociedade de enxergá-los como parte significativa do problema que enfrentamos.
O Bradesco está muito preocupado com a crise econômica atual. Seus melhores economistas aparecem quase diariamente na televisão falando da gravidade da situação. O lucro do banco, no entanto, subiu 18% em relação ao ano passado. Os questionamentos a isso são inexistentes. O Bradesco lucra apesar ou por causa da crise? Por que cada vez mais bancos estrangeiros deixam o Brasil, como o HSBC neste mês ficando espaço apenas para Bradesco e Itaú? Estes lucros são reais ou são semelhantes àqueles do Pan-Americano? A ausência de questionamentos é simples, o Bradesco é um dos maiores patrocinadores de todos os órgãos da grande mídia. Você arrumaria briga com um cliente?
Os questionamentos são seletivos e graças à doutrina que nos impede de refletir, imperceptíveis. A bola da vez é a Petrobrás. Mas alguém viu algum questionamento sobre a verba de publicidade que a estatal gasta? Por que uma empresa monopolista investe em publicidade? Quanto de dinheiro público é repassado a empresas privadas desta forma?
O principal motivo da oposição à Dilma é financeiro. Pessoas que acreditam que poderiam estar ganhando mais dinheiro do que estão querem mudança. Para isso, estimulam um movimento de “combate” à corrupção sem discuti-la de forma mais complexa. Nossa sociedade é corrupta, nosso governo não tem porque não ser corrupto. Ele é um reflexo perfeito do que somos. As denúncias de corrupção são sérias, mas não há interesse em acabar com ela. Há interesse em usá-la para mover uma massa indisposta a discutir e a pensar. Dilma ainda não tem seu nome diretamente envolvido nos escândalos. Cunha tem. Ela o movimento quer derrubar. Ele será poupado. Há um interesse nisso. O interesse em mudar. Mas também em deixar tudo como está.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A televisão, a publicidade e a cultura da violência no Brasil

 

Até os anos 60, a violência no Brasil tinha uma cara diferente da que temos hoje. A desigualdade social e a pobreza eram ainda maiores naquele período, o que explica sermos hoje uma sociedade mais violenta? Vários aspectos, mas o objetivo aqui é abordar apenas um deles e refletir sobre seus impactos na violência urbana, o surgimento da televisão.
A televisão chegou ao Brasil ainda nos anos 50, mas foi na década seguinte que começou a se  popularizar, chegando à classe média. Este novo meio de comunicação, com um alcance maior do que tudo que existia antes, levou a um desenvolvimento da publicidade. A venda de anúncios era o que tornaria tudo aquilo possível e a televisão começou um trabalho de criação de “mitos”, seres incríveis e admiráveis que eram capazes de vender tudo aquilo que anunciassem. Não é à toa que nesta época surgiram os primeiros grandes “heróis” de massa do país: Pelé, Roberto Carlos e Wilson Simonal. Artistas e jogadores de futebol poderiam ser mostrados agora a todo país, não apenas ao eixo Sul-Sudeste, e havia muita gente disposta a lucrar a partir do fanatismo que estas pessoas causavam.
Mais do que produtos, a publicidade vende a felicidade, sempre a ligando a alguma mercadoria. Um número cada vez maior de pessoas tinha acesso a estas novas publicidades e isto gerou nelas uma série de “necessidades” que antes não existiam e que só poderiam ser supridas pela compra do produto e do sonho visto na televisão. Os sambistas antigos e os funkeiros atuais vêm do mesmo lugar. A felicidade para os primeiros estava relacionada a conceitos ligados a relacionamentos, já para os músicos atuais está no consumo. O que explica esta diferença é uma mudança de valores trazida pela publicidade. Pode ser chocante, mas faz sentido acreditar que se Cartola nascesse hoje, no mesmo lugar em que nasceu no começo do século passado, provavelmente estaria fazendo a mesma coisa que o MC Guimê.
O desenvolvimento da televisão, portanto, levou uma série de novos desejos a um grupo cada vez maior de pessoas, que nem sempre via suas vontades atendidas. Isto mudou o aspecto da violência, especialmente nas grandes cidades. Até aquele momento, a violência urbana estava muito mais ligada a Máfias do que a qualquer outra coisa. Relacionava-se em boa parte a relações quase patriarcais de grupos disputando mercados negros. A partir dos anos 70, desenvolveu-se um tipo de violência mais individual, de pessoas que não queriam um mercado, queriam apenas comprar. Pessoas incapazes de comprar o produto dos sonhos vendido pela publicidade e que encontravam no roubo a única saída para esta dita felicidade. Vivíamos uma ditadura militar truculenta que apostou na repressão e não na educação como forma de enfrentar esta nova epidemia. Ideia de repressão compartilhada hoje em dia pelas pessoas que defendem a redução da maioridade penal como solução para os problemas do país. Deu errado lá atrás, tem tudo para dar errado agora.
Já nos anos 80, a televisão já consolidada como grande entretenimento nacional descobriu um novo mercado consumidor, as crianças. Devidamente preparada, surgia a primeira grande apresentadora infantil do país, Xuxa. Loira e bonita, era o instrumento ideal para convencer crianças a pedirem seus produtos para pais já acostumados com a ligação produto – felicidade. Xuxa foi transformada em rainha, as crianças em súditas, sedentas pelo que ela vendia. É neste período também que encontramos os primeiros surtos de violência infantil no país, como os arrastões em praias cariocas.
Lembro que, obviamente, há outras explicações para as novas ondas de violências surgidas a partir dos anos 70. O êxodo rural, com uma quantidade cada vez maior de pessoas morando em situações degradantes em grandes cidades, o consumo maior de drogas pela classe média e alta e o surgimento de grupos nas camadas mais baixas dispostas a suprir o vício desses consumidores, destruição do aparato educacional de base, surgimento e disseminação do crack como droga barata entre pessoas sem esperanças, entre outros. Mas o objetivo é falar apenas sobre televisão e publicidade, sem esquecer, claro, dos outros componentes transformadores deste contexto. E lógico que todos estes componentes citados acima já existiam antes do surgimento da televisão. Já havia gente roubando carroça no Brasil Colônia. A reflexão é sobre o caráter epidêmico que ela tomou.
A partir dos anos 90, a televisão passou a enxergar a violência como um produto e o medo como um motivador. Programas jornalísticos do mundo cão se desenvolveram, sempre mostrando como o mundo é perigoso ao mesmo tempo em que anunciavam maravilhas que os telespectadores poderiam comprar. Surgia neste período uma série de empresas vendendo o novo produto que este consumidor mais desejava, a segurança. O programa mostrava uma reportagem sobre o roubo de carros. Em seguida, uma propaganda de carro, sempre com uma pessoa que havia encontrado a felicidade por tê-lo. Logo após, a propaganda de uma seguradora de carros. Fechava-se o ciclo. Queira o carro. Compre o carro. Proteja-se do perigo.
Os anos PSDB-PT foram acima de tudo um período de explosão do consumo. A estabilização econômica do PSDB permitiu um maior acesso a novos produtos por um número maior de pessoas, e isto se desenvolveu pelas políticas de distribuição de renda do PT. Mas note que o conceito de “felicidade” imposto pela publicidade televisiva já estava disseminado mesmo em nossas políticas governamentais. Melhorar o país seria permitir que um número maior de pessoas consumisse, pois é nisso que estaria a verdadeira felicidade. Mesmo a educação foi tratada como um bem de consumo. O valioso esforço petista para colocar um número cada vez maior de jovens de baixa renda na universidade visa muito mais a formação de mão-de-obra qualificada para a produção, e não o surgimento de uma geração capaz de refletir sobre a sociedade em que vivemos e como melhorá-la. O mesmo processo de descaso com as ciências humanas existente no regime militar existe hoje. Estas ciências não estão inseridas no programa de ciências sem fronteiras, por exemplo. Não discutimos se o país está bem pelo conhecimento criado, mas sim pelo PIB.
 A transformação da educação em um produto de consumo é, a meu ver, a etapa final de um processo alienante iniciado, entre outros motivos, com o desenvolvimento da publicidade a partir do surgimento da televisão. Assim como a violência, a educação mais do que qualquer coisa é pensada para vender. Mais do que qualquer coisa, as maiores causas da violência urbana hoje são o consumismo e o individualismo. Não há reflexão, há apenas respostas a instintos, e nada nos faz agir mais de forma instintiva do que o medo.
Ligue a TV. Queira o carro. Compre o carro. Proteja-se. Prenda. Reprima. Seja infeliz.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O fim da gestão Haddad


Foi divulgada ontem a primeira pesquisa para as eleições municipais de SP de 2016. O resultado foi catastrófico para o atual prefeito Fernando Haddad. Ele aparece em 4º com 9%, atrás dos televisivos Celso Russomano e José Luiz Datena, além da antiga aliada e agora rival Marta Suplicy. O candidato do PSDB, Bruno Covas ou Andrea Matarazzo, aparece em 5º lugar. Nomes desconhecidos, qualquer um dos dois tende a crescer com o apoio de Alckmin e os programas eleitorais, o que torna bem possível que Haddad fique em 5º lugar. Creio que seria algo inédito na história do mundo um candidato à reeleição ficar em 5º lugar. O que Haddad pode fazer para mudar este cenário? Em minha opinião, nada.
Haddad é um choque para SP. Um choque de modernismo para o qual a cidade não estava mentalmente preparada. Numa cidade em que se fala apenas do indivíduo, ele pensou no coletivo. Numa cidade em que as pessoas se enxergam como consumidores, ele nos tratou como cidadãos. Pagará o preço por isso no ano que vem.
Nunca um prefeito pensou tanto no coletivo sem fazer concessões. Marta, que também revolucionou o transporte coletivo em sua gestão, fazia concessões como a construção do túnel Rebouças, por exemplo. Haddad não. Fez aquilo que se faz em toda cidade grande de 1º mundo, criou dificuldades para os carros e investiu nas bicicletas. Mas como convencer pessoas que foram criadas com a ideia de o que carro simboliza o ápice do sucesso e que entram em prestações eternas para ter conforto e demonstrar algum tipo de ascensão social a andar de bicicleta? Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma bicicleta andando mais rápido do que um carro na Marginal Pinheiros. Em outros lugares do mundo, isso faria as pessoas largarem o carro. Aqui, muda-se de prefeito.
Nada simboliza mais a mentalidade de boa parte da população paulistana do que a polêmica em torno da redução de velocidade nas Marginais. Eu, sinceramente, não tenho opinião formada sobre o assunto. Ao mesmo tempo em que tendo a concordar com medidas que penalizem o uso de automóveis, concordo que a Marginal é uma via expressa e que é muito improvável um caso de atropelamento nela em que a culpa não seja do pedestre. Por isso, não acho nada sobre o assunto. Espanta-me, porém, o grau de polêmica que este assunto gerou. De repente ter que andar a 50 km/h na Marginal se tornou o maior problema da cidade. Esqueceu-se até da falta d’água. O Governador da Sabesp teve 49% dos votos na capital. O Prefeito que reduziu a velocidade nas Marginais tem 9%. Daí pode-se concluir que o paulistano, em geral, prioriza o carro à água.  
No combate ao crack, Haddad optou pelo caminho da cidadania. Seu programa de acolhimento aos usuários também gerou críticas e foi maldosamente apelidado de “bolsa-crack”. Dois anos depois, uma reportagem de um grande jornal traz como título que 40 % dos atendidos por este programa abandonaram o programa. Uma manchete mais otimista diria que 60% dos atendidos continuam no programa depois desse período. 60 % para este caso é muito, basta pensarmos na quantidade de celebridades que se internam em clínicas milionárias pelo mesmo problema e têm recaídas. Uma parcela significativa da população não quer seus impostos gastos nisso. Quando se pensa como consumidor, perde-se a noção de cidadania, perde-se a capacidade de enxergar o outro com algum grau de compaixão. Estimula-se toda uma retórica estimulando a competição e a meritocracia que faz com que as pessoas não reflitam, sendo contra o uso do seu suado imposto na reabilitação de pessoas a margem da sociedade. Não à toa o defensor dos consumidores está em primeiro.
Toda ação gera uma reação adversa de igual intensidade. A onda de rejeição a Haddad gerará um próximo governo que provavelmente será o seu oposto. O seu pensamento coletivo será substituído ou pelo já citado individualismo do consumidor de Russomano ou pelo individualismo do medo de Datena, que receberá os votos daqueles cuja prioridade é a sobrevivência na alardeada guerra urbana em que vivemos. A pessoa que tem medo pensa apenas em si. Quer seu imposto gasto em armas e polícias, não em parques e praças.
O candidato do PSDB deve crescer, mas creio todos se uniriam contra ele num provável segundo turno. Não vejo também chances para Marta. Sua candidatura é um tiro no pé para ela e para Haddad. Os dois têm o mesmo eleitorado, concentrado na periferia e na “esquerda Vila Madalena”. Aqueles vão de Marta e estes vão de Haddad, de tal forma que nenhum dos dois terá votos suficientes para ir ao segundo turno.
O que resta para Haddad? Para mim, ele deve esquecer a eleição do ano que vem e pensar em como a história se lembrará dele. Apenas o tempo e a mudança de mentalidade de uma nova geração serão capazes de reabilitá-lo. Paulo Maluf deixou a prefeitura de SP em 1996 com 92% de popularidade. Veja como sua gestão é avaliada quase 20 anos depois.
Haddad deve aproveitar este 1 ano e 5 meses que restam de mandato para aprofundar as transformações que vem realizando na cidade e aguentar a provável humilhação das urnas no ano que vem. Voltar atrás agora significaria prejudicar seu legado e não trará os votos necessários para um segundo mandato. Nenhuma concessão. Fechar o minhocão aos sábados e a Paulista aos domingos. Investir no Plano Diretor e no combate à especulação imobiliária. Estimular a ideia de que uma cidade não é apenas aquilo que está do lado de fora do vidro do carro no caminho entre a casa e o trabalho. A cidade também é algo para ser vivido. Hoje a maioria não valoriza isso. Quem sabe em 2036.