segunda-feira, 12 de abril de 2021

O noticiário do fim do mundo

 


1 de maio: O mercado recebeu com preocupação a notícia dada pela Nasa e confirmada pela Agência Russa hoje de que um asteroide atingirá a Terra dentro de trinta dias, acabando com a possibilidade de vida humana no planeta caso nada seja feito. O índice Ibovespa despencou mais de 10% até que as operações fossem interrompidas.  Horas mais tarde, o governo norte-americano anunciou a produção de tendas especiais para abrigar as pessoas no momento do apocalipse, descoberta da ciência que possibilitará salvar a vida de todos aqueles que estiverem abrigados nelas. A tendência, segundo o governo americano, é que em quinze dias já estejam prontas tendas suficientes para atender toda sua população e que em um mês já estejam disponíveis tendas para atender quatro vezes a população mundial. Os EUA, porém, anunciaram que não farão exportações de tendas antes do apocalipse. As tendas serão enviadas para lugares mais pobres apenas após o fim do mundo, mas o governo de Washington afirmou que fornecerá tendas aos turistas brancos e ricos que visitarem o país durante o apocalipse. O Reino Unido anunciou o mesmo. China e Rússia, os dois outros lugares com capacidade para produção das tendas, anunciaram que poderão exportar algumas tendas para outros países. Alguns países emergentes anunciaram um grande acordo para produção em conjunto de tendas, mas o Brasil já anunciou que não fará parte destes acordos.

Em pronunciamento à nação, o presidente Jair Bolsonaro disse em uma live que não acreditava em meteoros, que aquilo era tudo um mimimi, um plano dos comunistas para dominar o mundo e que a verdadeira proteção para o apocalipse era a crença em Deus. Disse também que os verdadeiros abrigos eram as igrejas e convocou a população a rezar no momento da tragédia. Também aproveitou a live para criticar o governador de SP, que está tentando negociar com a China a compra de tendas. Entre xingamentos homofóbicos e xenofóbicos, o presidente diz que as tendas chinesas virão com um chinês escondido que implantará um chip em todos que estiverem lá dentro. Também anunciou uma visita aos EUA que começará no dia 28/05 e que durará uma semana, onde receberá o prêmio de brasileiro do ano de um grupo de empresários brasileiros que moram nos EUA. O prêmio será entregue dentro de uma tenda anti-apocalíptica pintada de verde e amarelo.

3 de maio: O ministro da Economia, Paulo Guedes, deu uma entrevista à Globo News para tentar acalmar o mercado. Disse que que o brasileiro deveria ver o apocalipse como uma oportunidade e pediu ao Congresso maior pressa na aprovação das reformas, para que cheguemos ao fim do mundo com um estado mais enxuto. Disse também que irá com o presidente Bolsonaro para a viagem de estado aos Estados Unidos e que aproveitará o passeio para vender o Brasil pós-apocalipse como terra das possibilidades. Investidor estrangeiro, completou ele, adora um lugar destruído em que tudo precisará ser reconstruído e é este novo Brasil que ele mostrará por lá.

5 de maio: O ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, morando nos EUA, onde ministra o curso de “como destruir democracias em países emergentes” no MIT, curso que tem sido muito procurado por membros do judiciário do México e da Argentina, afirmou que a população deveria pressionar o Congresso para aprovar a lei de prisão em segunda instância antes do apocalipse. Não foi muito fácil entender exatamente o que o ex-ministro estava dizendo, mas aparentemente ele disse que sonhava com um país chegando ao fim do mundo livre da corrupção. Disse também que via com bons olhos a possibilidade de uso de armas para antecipar o apocalipse de alguns presidiários, no que foi aplaudido pelo time de jornalistas do canal.

6 de maio: Um consórcio de governadores do Nordeste, desesperado com a proximidade do fim do mundo, anunciou um acordo com o governo russo para comprar tendas que atenderiam toda a população. Esta compra, porém, está parada na Anvisa. A agência pede pelo menos 45 dias para inspeção e aprovação das tendas, não tendo funcionários suficientes para uma operação com tanta urgência. Assim que recebeu a notícia do apocalipse, o ministro Guedes tentou demitir 80% do quadro de funcionários públicos, buscando melhorar as contas do país antes do apocalipse. Apenas 40% dos funcionários, porém, foram demitidos. Isto aconteceu porque, mais uma vez, Guedes demitiu todas as pessoas que sabiam fazer as demissões. Tentou recontratá-las, mas já havia também demitido todas as pessoas que faziam as contratações.

Os jornalistas da Globonews se mostraram incomodados com o projeto do consórcio do Nordeste. Falando dos EUA, para onde toda a redação se mudou após a confusão com as tendas, criticaram o que chamaram de “dois extremos”. Não devemos, segundo eles, apoiar nem o presidente Bolsonaro, que quer que todo mundo morra, nem os líderes de esquerda, que querem que todo mundo sobreviva. Deve-se, segundo eles, buscar um meio termo, em que apenas alguns sobrevivem e alguns morrem. Pensando nisso, os jornalistas de NY se mostraram simpáticos à ideia de um grupo de empresários do setor privado que quer comprar tendas apenas para seus funcionários e amigos. A Anvisa já se mostrou simpática à ideia de liberar com urgência a compra destas tendas privadas. Continuou a Globonews alertando a população de que partidos de esquerda poderiam aproveitar o apocalipse para seduzir com “populismo” e que não podíamos esquecer que gastos excessivos em tendas agora poderiam prejudicar as contas no pós-apocalipse, o que diminuiria a confiança dos investidores estrangeiros no país. Lembraram que todos estes investidores sobreviveriam à tragédia e que seriam mais cuidadosos com o seu dinheiro neste novo normal. A prioridade, disseram eles, é a recuperação econômica no pós-apocalipse.

10 de maio: A Bolsa de Valores já se recuperou do tombo. Passado o susto, boa parte da elite empresarial brasileira já se sente segura nos EUA e na Europa. Subiram muito as ações das empresas aéreas e de turismo, com a elite voando para fugir da destruição. Outro setor que animou o mercado foi o do agronegócio, com o aumento de demanda por alimentos nos países ricos e com o meteoro sendo visto como uma forma de resolver o problema da luta por terra no país. Em uma conferência realizada na Disney, os deputados do Partido Novo apresentaram um projeto que zera os impostos daqueles que saíram ao Brasil para sobreviver ao apocalipse e se mostraram bem animados com o novo país que surgirá da destruição. Outra notícia que animou o mercado foi a nova prisão de Lula. Após sobreviver a tudo, o mercado tinha medo de que ele sobrevivesse também ao apocalipse e que atrapalhasse todos os negócios que a tragédia proporciona.

12 de maio: A notícia do dia é a de uma verdadeira explosão na emissão de passaportes europeus para brasileiros bisnetos ou tataranetos de europeus. Um deles, Enzo Marcos Giovaneli, disse que deixava o país para relaxar um pouco a mente e que estava um pouco cansado de ouvir as reclamações daqueles que morreriam no apocalipse. Disse também que não tinha culpa de ter “sorte” e que tinha o passaporte porque merecia. Disse também que via no apocalipse uma grande chance de recomeçar e que pessoas como ele não se curvavam a qualquer dificuldade. Perguntado sobre o que faria após sair da tenda, disse que iria relaxar um pouco na Tailândia, que precisava surfar e curtir a natureza, e que em seguida faria um MBA em Londres sobre gestão com foco em países destruídos por meteoros.

13 de maio: O pastor Silas Malafaia, morando nos EUA, disse que o apocalipse era culpa daqueles que não tinham seguido Deus. Convocou seus seguidores a realizarem testamentos deixando tudo em nome da Igreja e criou o evento “Apocalipse com Cristo”, em que fiéis iriam para a Igreja rezar com o pastor, em teleconferência, enquanto o meteoro destrói tudo que estiver foram da tenda. Outros pastores abraçaram a ideia e estão fazendo o mesmo, no que já é chamado de “grande corrente de encontro com Deus”.

15 de maio: Preocupado com o grande número de faltas entre os trabalhadores neste período pré-apocalíptico, o governo federal lançou o programa “apocalipse patriótico”. Nele, o trabalhador é incentivado a trabalhar mais e produzir mais até o apocalipse, recebendo aqueles que conseguirem aumentar o lucro do patrão, que normalmente já chegou nos EUA, uma placa de herói do Brasil caso conseguisse. Também foi criado um sorteio em que o melhor trabalhador ganharia uma tenda para sobreviver, o que foi muito elogiado pelo especialistas econômicos, por incentivar a competição. O governo também cancelou as férias daqueles que tinham descanso programado para este período e adiou o pagamento dos salários para o segundo dia após o apocalipse, tendo o patrão direito a este dinheiro caso o funcionário não o saque. O Congresso aprovou em sessão extraordinária um projeto de lei que permite que a polícia atire na cabeça de funcionários que se recusarem a trabalhar. A deputada Joice Hasselmann, que se reconciliou com o presidente Bolsonaro em sua chegada aos EUA, elogiou o projeto, dizendo que já que os vagabundos esquerdistas não querem trabalhar antes do apocalipse, a polícia entrega a morte para esta turma antes. A Globonews elogiou a medida e disse que ela garante estabilidade econômica e confiança ao investidor, pois ele vê que tudo está sendo feito dentro da lei.

20 de maio: Como forma de garantir um último entretenimento à nação antes da destruição total, Palmeiras e Flamengo marcaram um supercampeonato para o dia do apocalipse, em partida a ser disputada na Arena Supertenda em Miami. O campeão receberá o título de supercampeão. Os jogadores já anunciaram que farão um minuto de silêncio pelas vítimas um minuto antes da bola rolar. O presidente Bolsonaro anunciou que estará na partida e fará a entrega da taça.

27 de maio: Faltando menos de uma semana para o apocalipse, tudo vai caminhando normal no Brasil. Funcionários de empresas privadas, das forças armadas, do judiciário e policiais já puderam baixar o aplicativo “tenda produtiva”, onde poderão receber uma senha que os permite retirar uma tenda. O restante vaga por aí. A eles, só resta esperar o fim.


domingo, 11 de abril de 2021

Em nome de Deus

 

Boa parte dos maiores crimes da história da humanidade foram cometidos em nome de Deus. E digo este boa parte ao invés de todos para não correr o risco de que tenha tido um ou outro em que Seu nome não tenha sido citado. Não generalizar, um pequeno passo na minha busca por escrever melhor. O próximo será ser capaz de escrever textos opinativos que não sejam em primeira pessoa. Ainda não sou capaz.

Deus está sempre lá. Onipresente. Cristãos matando judeus, judeus matando árabes, árabes matando hindus, hindus matando sei lá mais quem. E assim vai indo. Os índios escravizados em nome de Deus, negros escravizados em nome de Deus. Judeus em câmaras de gás em nome de Deus. Avião explodindo uma torre em nome de Deus. Bombas inteligentes “errando” os alvos e acertando hospitais em nome de Deus.

Não acredito que Deus tenha criado os homens à sua imagem e semelhança. Mas não tenho dúvidas de que o homem criou Deus à sua imagem e semelhança. É muito provável que no começo o homem tenha imaginado que Deus era uma força da natureza. Faz todo sentido, aliás. Imaginar no Sol uma divindade faz muito mais sentido do que imaginá-lo como um homem velho que mora no céu. A evolução fez com que o homem precisasse de um novo Deus, capaz de servir a seus interesses. Um Deus autoritário e punitivo. O Velho Testamento nos apresenta um Deus mesquinho, egoísta e infantil, do tipo que obriga um pai a sacrificar um filho por capricho e que é capaz de espalhar pragas que destroem cidades e matam milhares caso seus habitantes se recusem a obedecer às dez regras que ele ditou a um outro homem velho em cima de uma montanha. Gregos e outras civilizações ainda colocavam um espaço entre os homens e os deuses. Embora todo tipo de atrocidade fosse justificado como uma honra às divindades, ainda não nos igualávamos a ela. Os egípcios e outros povos escolhiam uma pessoa para ser chamada de Deus. Embora isto já mostrasse uma vontade de igualar o homem ao Deus, Este era sempre o outro, não o eu. Foi o judaísmo e depois o cristianismo que trouxeram a ideia de que Deus é um homem como nós e que, por ser onipresente, está sempre conosco. Se Deus está comigo e eu creio Nele, Ele sou eu. Eu posso me sentir Deus. A minha vontade é a vontade Dele.

O pior tipo de pessoa má é aquele que acredita em Deus. Esta pessoa O usará como justificativa para todos os seus crimes. Não há um certo e um errado baseado em nenhum tipo de valor moral real, o certo e o errado é baseado exclusivamente na vontade e no desejo individual, uma vez que Deus está com esta pessoa. A realização do seu desejo pessoal é a realização do desejo divino. Bombardear, escravizar, torturar. Está tudo no livro sagrado.

Deus esteve com Bolsonaro o tempo todo. No seu histórico voto na sessão que marcou o início do fim, o “em nome de Deus” se seguiu ao louvor ao torturador. Não só ele, mas todos justificaram seus votos usando Deus. Não duvido que eles acreditassem realmente nisto. É realmente fácil se sentir um Deus. Não tenho a menor dúvida de que os militares que torturavam a jovem Dilma Rousseff se sentissem deuses nos momentos em que torturavam e matavam jovens como ela. Imagine a quantidade de poder que um ser humano deve sentir ao ter outra completamente submissa. Saber que você pode matar uma pessoa por um capricho qualquer, quase um sacrifício, e saber que nada nem ninguém vai te punir por isso. Nem Deus, pois Ele está ao seu lado. É muito vantajoso crer num Deus psicopata que justifique a própria psicopatia.

Quem crê no Velho Testamento não é tolerante. Tolerância não é a marca registrada deste livro e de quase nenhuma religião que eu conheça. Novamente evitando a generalização. Lá estão as dez regras e quem não cumprir as vontades de Deus será jogado no inferno pela eternidade, onde o pecador conviverá com o calor do fogo, o cheiro do enxofre e a escravidão pelo todo sempre, amém. Mas este Deus nos ama. É esta a visão de amor de quase toda religião. O Deus que te ama é o Deus que te domina. Aquele que não é dominado deve ser punido. Amor e punição andando juntos, se complementando. Urros quando Bolsonaro promete expulsar ou matar os opositores do país. Um pai nosso logo em seguida para abençoar a guerra santa em busca da Terra Prometida.

Não há a menor chance de convencer Bolsonaro e seus seguidores de que o que estamos vivendo é o horror, é a catástrofe. A ideia de horror e catástrofe para eles é muito mais ligada à vontade e ao prazer pessoal do que há qualquer outra coisa. O fechamento da academia incomoda muito mais do que os 350.000 mortos por Covid. Se Deus está comigo e a minha vontade é a Dele, a minha prosperidade é a Dele. A minha vontade é a academia aberta, qualquer pessoa que lute contra isto luta contra Deus. A minha vontade é a vontade suprema. E neste cenário de pequenos deuses psicopatas surge um grande Deus psicopata, o psicopata-mor, aquele que vai fazer tudo voltar a ser o que era. O que é exatamente o tudo voltar a ser como era? Algo ainda pior do que a distopia que vivemos. Lembremos, afinal, que estamos apenas no começo. Ou alguém realmente acha que isto vai acabar pacificamente?

Bolsonaro e seus seguidores estão numa guerra santa e exigem submissão completa. Notem que a exigência é pelo que chamo de idiotice completa. Qualquer pessoa que não se mostre 100% imbecil é logo rechaçada e se torna o alvo. João Doria Jr., por exemplo, é um idiota. Passou basicamente toda a sua vida fazendo idiotices, no que foi apoiado pela seita. Bastou um passo falso, um em que fez a coisa certa, no caso a vacina, e pronto. Tornou-se o inimigo. A mesma coisa com outras figuras bizarras e toscas, como os MBLs da vida. Não há mais lugar para eles na terra prometida.

Morrer numa guerra santa é o ápice. Surge o mártir, o lugar no céu está garantido. E é muito fácil acreditar que se vá chegar lá quando a vontade de Deus e a sua são uma só. E quando você encontra um grupo de pessoas que pensa exatamente igual a você e que se mostra disposto aos mesmos sacrifícios. Os bolsominions estão dispostos a morrer pela loucura em que acreditam. Morrer defendendo a própria maluquice. Morrer defendendo o templo do pastor bandido, os lucros do picareta da Havan. Normalmente quem está disposto a morrer por Deus também está disposto a matar por Ele. Bolsonaro não está disposto a morrer por nada. Mas encontrou um exército disposto a morrer por ele. Não terá dúvida em mandá-los para as trincheiras. Eles estão se armando. E vão rezar o pai nosso antes do primeiro tiro. Deus acima de todos.


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Palmeiras x Flamengo - o jogo mais imbecil da história

 




Palmeiras e Flamengo protagonizarão neste próximo domingo aquele que é possivelmente o mais inútil e irresponsável evento esportivo da história do país. Já peço perdão pelo erro que todo exagero pode produzir, mas em 11/04 as duas equipes entrarão em campo num domingo de manhã num campo neutro durante a maior pandemia dos últimos cem anos para disputar o título da Supercopa do Brasil, um torneio caça-níquel que não serve para nada. No pior momento da maior tragédia da nossa geração, Palmeiras e Flamengo colocarão suas delegações em aviões para ir à capital do país jogar uma partida que não significa nada. Não deixa, porém, de ser simbólico. Os dois times que mais representam a era Bolsonaro jogando num estádio vazio por um campeonato que não vale nada enquanto batemos recordes de mortos.

Palmeiras e Flamengo são as duas equipes que mais buscaram a aproximação com o genocida que nos governa. São as duas equipes que simbolizam a decadência do país. Antes mesmo do dia um. Alguns dias após a trágica eleição, o Palmeiras colocou o capitão que à época tinha “apenas” um discurso genocida para erguer a taça do campeonato brasileiro, num dos eventos mais vergonhosos de sua história. Praticamente entregue à Crefisa, o Palmeiras foi usado pela instituição financeira para se aproximar do grupo que chegava ao poder, que entre militares fracassados e lunáticos frustrados, conta também com o apoio de empresários e rentistas picaretas, liderados por Paulo Guedes, que usam o poder para aplicar diversos golpes financeiros. Basta um “A” de Bolsonaro para que, por exemplo, ações da Petrobrás desvalorizem de um dia para o outro, possibilitando que aqueles que possuem informação privilegiada ganhem milhões de um dia para o outro. Também em busca dos milhões que esta aliança pode trazer, o Flamengo logo buscou a aliança com o genocida, aproveitando todas as situações possíveis para puxar o seu saco. O Flamengo foi premiado por isto no ano passado. Enquanto já vivíamos a maior tragédia da nossa geração, o Flamengo convenceu o governo federal que o momento exigia que o assunto a ser priorizado fosse direito de transmissão de jogo de futebol na televisão. Foi assim que o “Mengão” conseguiu que o governo editasse uma MP, sem passar pelo Congresso, mudando as regras que então existiam para favorecer os interesses do clube. As finanças não são o único interesse do Flamengo nesta aproximação. O clube conta com o apoio do governo federal para impedir qualquer punição ao crime cometido nas instalações do clube e que resultou na morte de dez adolescentes que dormiam em containers improvisados.

Palmeiras e Flamengo são possivelmente os dois clubes que mais agem de forma irresponsável durante a pandemia. O Palmeiras, por exemplo, é o único dos três grandes da cidade de SP que não cedeu seu estádio para o programa de vacinação. O pior caso, porém, veio nesta semana. O jogador Luiz Adriano, afastado do elenco por estar com Covid, atropelou uma pessoa na saída de um shopping em que havia levado sua mãe. Ele foi ao shopping SABENDO que estava com Covid, no momento em que a doença mata mais de quatro mil pessoas por dia no país. O Palmeiras o “puniu” com o pagamento de cestas básicas. Já o Flamengo nem se preocupou em punir de qualquer forma o jogador Gabriel, detido há algumas semanas numa operação que fechou um cassino clandestino. Não lembro de nenhuma ação dos milionários clubes para ajudar hospitais em dificuldade, nada. Absolutamente nada.

Palmeiras e Flamengo são símbolos de uma parcela da sociedade que ligou o foda-se. Uma parcela sociedade que assiste a um genocídio, mas que tem como única preocupação a alienação. Uma parcela da sociedade que defende a continuação do futebol porque diz precisar de algo para “aliviar a mente”. Não precisamos de porra nenhuma que alivie nossa mente. Estamos vivendo uma merda gigantesca e as partidas de futebol só estão servindo para espalhar o vírus e para que este bando de imbecil siga ganhando dinheiro enquanto pessoas não param de morrer. O Brasil é hoje o centro da doença no mundo, surgiu por aqui uma nova variante mais contagiosa e o futebol está sendo um instrumento usado para espalhá-la pelo continente. É fato que em semanas veremos uma explosão de casos nos nossos países vizinhos, em parte porque o Brasil e o futebol não fazem absolutamente nada para impedir que a nova variante se espalhe entre nossos vizinhos. É surreal que a Libertadores continue acontecendo e que pessoas viajem do Brasil para outros países enquanto a situação está descontrolada por aqui.

Palmeiras e Flamengo simbolizam uma sociedade que não está aí. Uma sociedade que inventou um protocolo mequetrefe que já deu claras demonstrações que não funciona. TODOS os times da série A, TODOS, já tiveram algum surto de Covid e continuaram jogando, afastando apenas os contaminados, mas mantendo em campo aqueles que tiveram contato com os doentes. E mesmo todos os times já tendo tido surtos, estes times seguem defendendo estes protocolos para justificar a continuação do futebol.

Palmeiras e Flamengo não estão nem aí. Aproximadamente 200 pessoas morrerão no país enquanto as duas equipes decidem o campeonato que não vale nada no próximo domingo. Espero sinceramente que Bolsonaro compareça ao jogo. Palmeiras, Flamengo e Bolsonaro se merecem. No dia em que isto acabar, ninguém lembrará quem foi o campeão da Supercopa do Brasil de 2020. É possível que ninguém nem lembre que este torneio existiu. Mas a história lembrará que Palmeiras e Flamengo foram cúmplices do maior horror da nossa história recente.


domingo, 14 de março de 2021

A estranha mania de ter fé na vida

 


Onze horas da manhã. O senhor sobe no palco do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo. O local onde tudo começou ficará marcado também como o local do novo recomeço. Mais um dos vários recomeços. Mais do que por vitórias ou derrotas, a vida daquele senhor no palco é marcada por recomeços.

O senhor se chama Luiz e ele está cercado por um grupo de apoiadores leais, daqueles que o acompanharam nos momentos mais difíceis. Entre 2018 e 2019, Luiz passou 580 dias presos. 580. Para se ter uma ideia, a pandemia completa amanhã 365 dias. Coloque mais 215 dias e teremos o tempo em que Luiz passou preso dentro de uma cela em Curitiba. Tudo por causa de uma reforma que não foi feita em um apartamento que ele não quis comprar. O caso clássico de processo que começa com um culpado e em que promotor e juízes vão em busca de um crime. E trabalharam juntos estes dois. Como trabalharam. Enriqueceram e ganharam fama às custas do sofrimento de Luiz. Um pouco antes de ser preso, Luiz já tinha perdido sua esposa, vítima de um AVC provavelmente causado pelo sofrimento do marido. Já preso, Luiz perdeu o irmão e um neto de sete anos. Foi proibido de ir ao enterro do irmão, pôde ir ao enterro do neto, onde permaneceu isolado. Em mensagens descobertas um poucos depois, descobriu-se que juiz e promotor que prenderam Luiz participavam de grupos que caçoavam e comemoravam cada desgraça vivida por Luiz.

Após 6 anos de tragédias pessoais, perda da liberdade, perseguições e humilhações, Luiz estava novamente lá. De cabeça erguida. Forte. Sendo o sopro de esperança num país arrasado econômica, sanitária e moralmente. Entre 2016 e 10/03/2020, todo o discurso político no Brasil focou nas seguintes ideias: prender, matar e cortar direitos. A isto se deu o nome de “modernidade”. A isto boa parte da imprensa chamou de “competitividade” e de “combate à impunidade”. O atual presidente controla o andamento da política brasileira desde a trágica sessão de impeachment em 2016. Desde o momento em que, em rede nacional, louvou um torturador e a ditadura militar, consolidou-se como o anti-Luiz entre aqueles que odiavam Luiz. A eleição de 2018 não foi apenas a eleição de Bolsonaro. Em SP, a principal promessa do governador eleito era que em seu governo a polícia iria atirar para matar e que ele pagaria do próprio bolso a defesa de policiais que matassem em “serviço”. No final de 2019, nove jovens foram mortos pela polícia de SP em baile funk em Paraisópolis, ninguém foi punido. No RJ, o governador eleito, um ex-juiz muito próximo ao grupo que prendeu Luiz, disse que em seu governo a polícia atiraria na “cabecinha” de qualquer suspeito. E assim foi em seu primeiro (e único) ano de governo. Sobrevoou favelas apontando metralhadoras contra a população civil. Foi assim em outros lugares. SC elegeu uma vice-governadora abertamente racista, que se recusa a criticar o pai que era adorador do nazismo. O grande ídolo do país se tornou o juiz que prendeu Luiz, que, após interferir no processo eleitoral de 2018, tornou-se ministro do presidente eleito e criou um decreto que, assim como os governadores de SP e RJ, visava a afastar a punição a policiais que matassem em serviço. Praticamente todos os estados do país, à exceção do Nordeste, elegeram propostas de governo psicopatas. A psicopatia era o tema que mais gerava votos. Era uma verdadeira competição para saber quem conquista o voto prometendo matar e prender.

Veio a pandemia. E eis que boa parte da população que apoiou a eleição do psicopata descobriu que o desprezo dele à vida não era apenas à vida dos “outros”, mas à deles também. O desprezo à vida foi o trampolim da carreira de Bolsonaro. Tortura, assassinato, genocídio indígena, escravidão, desprezo ao meio-ambiente. Tudo isto foi defendido pelo candidato Bolsonaro. Uma parte do eleitorado, que não se incomodou quando o candidato prometeu em campanha que iria matar ou expulsar seus opositores, ficou chocada ao vê-lo desprezar os milhares de mortos pela Covid. Mais do que isto, fez chacota daqueles que sofrem pela perda de entes queridos na pandemia. Esta parte dos eleitores, que não se importou em votar num candidato torturador e que ameaçou vizinhos inofensivos de guerra porque ele se aliou a “um projeto econômico moderno”, estranhou vê-lo ser indiferente à vida para manter o comércio funcionando. No modelo de governo de Bolsonaro, a vida dos idosos atrapalha a tal da “competitividade” do mesmo jeito que os direitos trabalhistas. O Brasil desde 2016 escolheu o caminho do “eu” em detrimento do “nós”. E o problema do “eu” é que ele enxerga todo mundo como “eles”, o adversário, o inimigo a ser combatido. Deixamos de ser um país que se une para enfrentar problemas e ajudar aqueles que têm mais dificuldades para se tornar o país do cada um por si. Não que historicamente não tenhamos sido isto. Mas vivemos um breve hiato no governo de Luiz. Bolsonaro, Dória, Witzel, Moro foram os heróis do “eu” num momento em que o mundo redescobria que a humanidade era um grande “nós”. De repente, na maior tragédia da nossa geração, estávamos entregues ao cada um por si e Bolsonaro seguiu na sua lógica psicopata. Ele saiu de deputado insignificante e subcelebridade do CQC a presidente da república incentivando a morte, não iria mudar após alcançar o auge.

E em 10/03/21 veio Luiz. De repente, lá estava alguém falando sobre vida. Falando sobre inclusão, sobre direitos, sobre o trabalhador, sobre a vida. Sobre nós. Tentando refazer os laços do país destruído. Disposto a olhar para o futuro. Disposto a recomeçar. A vida de Luiz corria ao lado da vida do Brasil. Enquanto Luiz era destruído por mentiras e passava por sofrimentos pessoais inimagináveis, o país era destruído. Vivemos hoje sob os escombros do que fomos nos anos 2000, uma terra arrasada acumulando corpos enquanto somos jogados para um grande cada um por si, com direitos sendo minados. O recomeço de Luiz pode ser o nosso recomeço. A verdade é que a simples presença dele, a simples possibilidade de que ele pode voltar já foi suficiente para provocar uma mudança nos discursos políticos. A simples existência de alguém forte falando sobre vida e união já foi um sopro de esperança. Lembramos que o país que hoje é comandado por um capitão miliciano que investe na morte como capital político já foi o país do metalúrgico que colocou jovens pobres e negros na universidade, que tinha um modelo de vacinação que era exemplo para o mundo, que investiu na distribuição de renda e que tirou milhões de pessoas do mapa da fome, que levou eletricidade a regiões outrora esquecidas pelo poder público, que reduziu drasticamente os efeitos trágicos dos períodos de seca no Nordeste, que tornou o Brasil um país respeitado internacionalmente. Em uma hora e quarenta minutos voltamos a sorrir. Descobrimos que a solução está em “nós”. Assim com as Marias de Milton Nascimento, não podemos perder "a estranha mania de ter fé na vida". Se aquele senhor de 75 anos consegue manter a fé, nós também temos que conseguir.

Ainda é cedo para saber se Luiz voltará. Hoje ele é nossa maior esperança de tirar no curto prazo o genocida do poder. Não será fácil. O exército, que já ameaçou um golpe de estado quando Luiz quase foi solto durante a eleição de 2018, já deixou claro que está com o genocida até o fim. O baixo clero do Judiciário, aquele que gerou figuras toscas como Moro, Dallagnol, Janaína e toda esta turma incapaz de ter empatia por um avô que perdia um neto, também está com o capitão. O mercado também não parece muito incomodado em acumular corpos enquanto o governo estiver comprometido em tornar a mão-de-obra por aqui mais barata e mais fácil de ser explorada. Qualquer coisa, eles usam o passaporte europeu e vão curtir a vida na Itália e em Portugal enquanto o país explode. Mas Luiz já sabe o que fará se for derrotado. Ele recomeçará. É isto que fez, que faz e que sempre fará. E este é o maior exemplo que Luiz pode nos dar. Uma esperança e uma força que são eternas. E uma crença infinita no “nós”. A nossa única salvação. A vida é um ciclo. O começo foi no Sindicato, mesmo lugar do recomeço. Quem sabe isto não termine no Palácio do Planalto, como foi da primeira vez. Tomara.

“Triunfar na vida não é ganhar, é se levantar e começar de novo cada vez que cai”. José Mujica.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Bolsonaro, caminhoneiros, mercado e Petrobrás

 




Jair Bolsonaro é a pior pessoa a já ter comandado o Brasil na história. Ele possui quase todos os defeitos que um ser humano pode possuir. Para dar alguns exemplos, ele é um sociopata, lunático, maníaco, imbecil, torturador, racista, homofóbico, racista, para citar apenas alguns. Um destes defeitos, porém, não é a burrice. Bolsonaro é inteligente. Ele é ignorante e culturalmente vazio, mas é inteligente. Poucas pessoas no Brasil são tão capazes de enxergar o cenário político quanto Bolsonaro, e é por isso que ele saiu de deputado insignificante de baixo clero para presidente da República. Ele foi o único que percebeu que o caminho para a presidência não estava nas colunas políticas dos jornais ou em debates acadêmicos sobre “Qual o futuro do Brasil”, estava nas redes sociais, nos palcos do Superpop e nas participações semanais no CQC. Bolsonaro sabe que há apenas uma pessoa no Brasil que pode impedir sua reeleição e sua consequente perpetuação no poder que a eleição de 2022 pode significar. Reeleito em 2022, Bolsonaro poderá formar maioria no Supremo, a única instituição ainda capaz de o segurar em seu projeto. Não há motivo, por exemplo, para arrumar uma briga agora com o Supremo para salvar um deputado sendo que em três ou quatro aninhos esta instituição já poderá estar tomada de forma “legal”.

Parcela significativa da mídia divide o Brasil em três grupos: Os que amam Bolsonaro e odeiam Lula, o que amam Lula e odeiam Bolsonaro e os que odeiam os dois. Há, porém, um quarto grupo, muito grande, composto por pessoas que gostam dos dois e são estas pessoas que decidirão a eleição de 2022. Não, não acho que comparações entre Bolsonaro e Lula sejam possíveis, assim como não acho que comparações entre Bolsonaro com qualquer outra pessoa sejam cabíveis. Como já dito na primeira frase do texto, Bolsonaro é a pior pessoa possível. Não dá para compará-lo com nada que já tenha acontecido ou possa acontecer, inclusive a ditadura militar. Ele é mais psicopata do que os presidentes militares, já tendo afirmado por exemplo que o principal erro do regime foi não ter matado uns 30 mil. Bolsonaro não pode ser comparado a Lula, a Dilma, a Temer, a FHC, a Collor, a Sarney, a ninguém, e qualquer comparação deste tipo é uma falta de respeito à história do país e ao comparado. Mas é fato que as pessoas que gostam de Bolsonaro e de Lula existem e que são completamente ignoradas nas análises políticas. Lula possuía 50% contra 29% de Bolsonaro nas pesquisas quando foi afastado do processo eleitoral pelo futuro ministro da Justiça de Bolsonaro, que venceu o primeiro turno com 46%. Já em 2018 houve migração de votos de Lula para Bolsonaro e precisamos entender as razões disto.

O principal motivo, a meu ver, é a capacidade de comunicação que ambos possuem. De formas diferentes, Lula e Bolsonaro são as pessoas que conseguem ser compreendidas por quase toda a população, e as pessoas tendem a se identificar com quem fala a mesma língua que elas. Lula fala a “língua do povo”, basta entregar um microfone para ele que o entretenimento está garantido. Lula pode passar horas em cima de um palco falando sobre qualquer assunto. Já Bolsonaro muito raramente consegue falar mais do que dois minutos sobre qualquer assunto, comunica-se verbalmente da mesma forma que se comunica no Twitter. É incapaz de elaborar pensamentos com mais de 250 caracteres, mas fala frases feitas e bordões de fácil compreensão que rapidamente entram na cabeça do ouvinte. É quase um personagem da Praça é Nossa. E repito, isto não é burrice. Bolsonaro sabe que os eleitores que vão decidir a eleição são estes. Como foi em 2018.

Bolsonaro reuniu em torno de si grupos que trabalharam e que tornaram possível sua eleição naquele pleito bizarro. Militares, baixo clero de Judiciário, igrejas evangélicas, ruralistas, caminhoneiros e, por último, o mercado. Esta instituição foi a última a embarcar na última etapa da psicose coletiva, embora já tivesse financiado todas as etapas anteriores da piração iniciada em 2015. Todos estes grupos estão tendo o que querem na tragédia chamada Brasil. Militares incompetentes, como aquele que ameaçou dar um golpe de Estado caso o Supremo não confirmasse a prisão de Lula, ocuparam cargos-chaves do poder federal. O baixo clero do Judiciário, embora tenha perdido sua grande estrela, que fugiu para os EUA, tem todos os seus privilégios garantidos e se mostra parceiro do presidente durante o genocídio, não o incomodando enquanto milhares morrem devido às ações do governo federal durante a pandemia. Igrejas Evangélicas ganham cada vez mais espaço na área educacional e recebem verbas milionárias desta área. Ruralistas veem o Brasil se transformar cada vez mais numa enorme plantação de soja mecanizada, enquanto compram armas mais baratas para matar índios e se livrar de movimentos sociais. Quem ainda não estava recebendo sua parte eram os caminhoneiros.

A chegada de Bolsonaro ao poder é como a queda de um avião. Um evento deste tipo nunca acontece por um motivo só. Há trocentas razões para que isto tenha acontecido: glorificação da violência policial na grande mídia, transformação de processos judiciais em circo,  incapacidade de PT e PSDB de enxergar que algo pior do que o opositor democrático estava aparecendo, crescimento do fanatismo religioso a partir da expansão de igrejas evangélicas em regiões periféricas, ocorrido sobretudo graças ao abandono do Estado. Isto para citar alguns. Mas há quatro eventos cruciais a meu ver. O impeachment de Dilma, com Bolsonaro sendo ovacionado ao exaltar um torturador na tribuna que deveria condená-lo, a prisão de Lula, as gravações da JBS com Aécio e Temer, que inviabilizaram os dois principais nomes fora Bolsonaro do campo antipetista, e a greve dos caminhoneiros. Se o baixo clero do Judiciário e os militares foram a parte “intelectual” do golpe bolsonarista, os caminhoneiros foram a parte “braçal”.

Os caminhoneiros são mais importantes para o projeto bolsonarista do que o mercado. Eles podem em duas semanas acabar com este governo. A grande maioria da população está cagando para o mercado de ações, e possui certa razão nisto. Quem está na merda vai continuar na merda independente do que acontecer com a ação da Petrobrás. Bolsonaro sabe disso. Mostrou compromisso com a galera que fechou estrada para ajudá-lo ao chegar ao poder e ainda vendeu a uma parcela da população a ideia de que ele “enfrenta poderosos”.

Parte significativa do mercado no Brasil é formada por pessoas burras. E é o pior tipo de pessoa burra que existe, que é o burro rico. Uma pessoa rica nunca vai perceber que é burra porque ela acha que o dinheiro funciona como uma espécie de comprovante de inteligência. Mais do que isto, a o burro rico tende a fugir das ciências humanas, principalmente porque ela questiona o processo que permite ao burro rico ser rico. Esta galera realmente acredita que é ela que garante e permite a presidência de Bolsonaro enquanto ele agradar seus interesses. O que acontece desde 2016 é o oposto. O mercado no governo Bolsonaro é o coadjuvante que acha que é protagonista. Como forma de tentar aliviar o voto no genocida, racista, homofóbico, machista e torturador, muitos agentes do mercado justificaram o voto em 2018 dizendo que Bolsonaro era apenas um “poste”, quem iria governar mesmo era Paulo Guedes. Pouco mais de dois anos depois, já está claro que Paulo Guedes é que é o poste.

Bolsonaro não se preocupa tanto com o mercado porque sabe também que na hora do “vamos ver”, esta galera vai votar nele de novo. Realizando-se o processo mais do que provável de segundo turno entre ele e o candidato de Lula, o mercado vai votar de novo nele. O principal trunfo da elite brasileira é a miséria. É esta que permite lucros milionários e garante à elite e à classe média brasileira uma vida repleta de luxos. É esta miséria que garantirá a esbórnia no período pós-pandemia, quando a maior parte da população tentará refazer vidas ainda mais arrebentadas depois da maior tragédia da nossa história enquanto a elite se divertirá em férias na Europa e viagens para comprar nos EUA. Intervir na Petrobrás é um mal menor comparado com medidas que combatam esta miséria. Não à toa eles acham que o presidente que tirou o país do mapa da fome, que permitiu que negros entrassem nas universidades federais, que levou o mínimo de dignidade a uma parcela gigante da população é o pior presidente da nossa história. Pior do que o presidente que correu atrás de uma ema com uma caixa de remédio durante a maior tragédia de nossa história recente. O mercado pode estar puto agora porque perdeu uma grana na Petrobrás, mas recupera comprando ações de armas e se sente feliz podendo pagar menos para o pedreiro e para a empregada doméstica. Depois Bolsonaro inventa qualquer coisa para acalmar este mercado, tipo “autonomia do Banco Central”. Promete que vai privatizar qualquer coisa e pronto. Esta galera vive de expectativas. O mercado fica feliz e se algum dia Bolsonaro tiver que intervir no Banco Central, simplesmente vai lá e intervém. A lei nunca foi um problema para Bolsonaro. Assim como o mercado não é. Os caminhoneiros podem ser. Estes podem mudar o voto. Bolsonaro é contra qualquer medida de inclusão social e distribuição de renda. Mas sabe que o povo fica puto quando a gasolina está cara. Intervindo na Petrobrás, consegue se vender para uma parcela da população como o “homem que enfrenta os poderosos”, sem efetivamente combater as causas da nossa miséria. Os caminhoneiros gostam disso. E o mercado também. Pode estar puto agora, mas passa. Em duas semanas eles já se acostumam e voltam a fazer sinal de arminha.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O bloco de carnaval que não aconteceu e o ano sem fim



Na terça-feira de carnaval de 2020, após uma séria análise, cheguei à conclusão de que fecharia o meu carnaval em um bloco no Bixiga, na Praça Dom Orione. O Bixiga é provavelmente meu lugar preferido de SP. É um dos poucos lugares do centro da cidade que ainda não estão sendo completamente tomados pela gentrificação, embora já comecemos a ver mesmo por lá barbearias chamadas de barber shop e padarias com o nome de boulangerie. Após atravessar um bloco de reggae que havia no caminho e que me deixou doidão por alguns minutos, cheguei à Praça Dom Orione. Tudo que havia lá eram umas cinco mulheres mexendo no celular, dois ambulantes vendendo cerveja e duas crianças jogando bola. O bloco havia mudado para a Vila Madalena.

Na época eu morava no centro de SP e a minha relação com o Carnaval era sempre a mesma. Animação extrema na sexta, saco cheio absoluto na terça. As minhas últimas sextas de carnaval foram marcadas pela empolgação com o bloco Ilú Oba de Min, que é provavelmente junto com o bloco Unidos do Swing um dos poucos que eu realmente gosto. Ver este bloco de carnaval me fez perceber que SEMPRE chove na sexta de carnaval. Sempre. Espero que chova hoje para que eu me sinta menos depressivo, aliás. O pior fim de semana possível para se morar no centro de SP é o fim de semana seguinte ao carnaval, o do pós-carnaval. O Bloco da Daniela Mercury desce a Consolação com trocentos trilhões de pessoas dispostas a chutar o balde porque o próximo carnaval só virá depois de um ano. Neste ano sinto saudade até disto. Outro dia me vi pensando que talvez até neste bloco eu iria no ano que vem. Mas no fundo sei que não irei porra nenhuma. Provavelmente estarei reclamando, mas não sei. A perspectiva mudou.

Naquela mesma terça-feira de carnaval recebi uma mensagem de uma amiga que havia me visto no bloco que não aconteceu me convidando para um café no dia seguinte. Nos encontramos na frente da Primeira Leitura do Shopping Light, onde eu havia ido para trocar um livro. Almoçamos num quilo hiper barato na Galeria Metrópole e demos uma volta por lá. Conversamos sobre o Faustão, chamamos o Moro de filho da puta e exaltamos o Lula. Sair com pessoas que gostam do Lula é a melhor coisa do mundo. Há sempre um momento na conversa, sempre, em que falamos como seria se um dia o Lula voltasse à presidência. Nem tanto o dia em que ele voltasse, mas o dia em que ele ganhasse a eleição. Eu costumo dizer que eu desceria a Rua Augusta rolando de bêbado. Mas sei que provavelmente não faria nada. Do mesmo jeito que não vou no Bloco da Daniela Mercury no ano que vem. A cada dia me parece mais claro que a volta de Lula é um sonho impossível. Se ainda não anularam o julgamento dele depois que mensagens mostram o juiz combinando com a acusação, não vão anular por nada. Mas às vezes acho que os sonhos mais legais são os impossíveis. Outro dia vi uma entrevista do Neymar dizendo, após comprar uma Ferrari, que havia realizado o sonho da sua vida. Achei um sonho besta. Acho besta sonhar em comprar algo. Eu particularmente acho mais legais estes sonhos mais subjetivos. Tipo melhorar o mundo, sei lá. Mas respeito pessoas que fazem sacrifícios extremos para realizar desejos como comprar uma casa. É uma sociedade de merda em que ter um lar é para muitos um sonho impossível, aliás. Ter uma casa não deveria ser sonho pelo fato de que todos deveriam ter uma. Bom, depois de umas duas horas de almoço, minha amiga foi trabalhar e eu também, tinha um aluno particular que atendia no Sesc 24 de maio. Aquela foi a última vez que saí com um amigo ou com uma amiga. Aquela foi a última aula particular presencial que dei. Aquela foi a última vez que fui no Sesc 24 de maio. Na manhã daquele mesmo dia, a quarta-feira de Cinzas, acordei com a notícia de que o primeiro caso de Covid havia sido confirmado no Brasil.

O livro que eu havia ido trocar era A Falência, de Júlia Lopes de Almeida. Eu fui trocar o livro porque eu o havia comprado e chegando em casa descobri que já o tinha. É extremamente vergonhoso quando isto acontece. Resolvi comprar aquele livro porque havia entrado em um cursinho popular em Itaquera onde seria responsável pelas aulas de inglês e seria o professor substituto de literatura. Eu estava comprando os livros de literatura que ainda não tinha da Fuvest e da Unicamp para fazer tipo uma bibliotequinha do cursinho em que eu iria controlar entrada e saída. O cursinho ficaria num prédio da Unifesp em Itaquera que eu sinceramente não sabia até aquele momento que existia. As gerações mais jovens talvez não saibam, mas houve um momento não tão distante da história do Brasil em que o país era governado por seres humanos. Embora não fosse perfeito, este governo de seres humanos tratava seres humanos como seres humanos e fazia alguns investimentos para que estes seres humanos se tornassem seres humanos com mais oportunidades. Ampliou o número de vagas em universidades públicas e criou um sistema que permitiu que o sonho de milhares de seres humanos se tornasse realidade. Acho este, por exemplo, um sonho bem mais legal do que o sonho do Neymar, aliás. Um grupo de seres não tão humanos (de filhos da puta), porém, assumiu o governo e resolveu acabar com aquilo. Este campus da Unifesp de Itaquera estava quase completamente abandonado e a universidade resolveu que tentaria usar o prédio para alguma coisa para impedir que, sei lá, aparecesse um grupo de babacas por lá fazendo um vídeo dizendo que aquilo era “dinheiro jogado fora”. Mandaram para lá o curso de graduação de geografia e aceitaram emprestar o prédio para o cursinho popular aos sábados. O sábado seguinte ao carnaval foi o primeiro e seria também o penúltimo dia de aulas. Eram umas 60 pessoas tendo a aula de inglês às 8 da manhã. Eu e a outra professora nos olhamos e não fazíamos ideia de como dar aula para 60 pessoas, não tínhamos esta experiência. Demos um jeito. Passaria, aliás, 2020 inteiro dando jeitos para fazer as coisas funcionarem de algum jeito. O cursinho em geral não deu certo. A galera que organizava brigou, os 60 alunos de inglês da aula inicial se transformaram em três combatentes que seguem tendo as aulas de forma virtual até hoje. Dois dos alunos perderam o emprego durante o ano. Uma delas entrou na faculdade e resolveu estudar letras. Foi uma das melhores notícias do meu 2020.

No dia seguinte ao início das aulas do cursinho eu comprei uma bicicleta. 2020 foi o ano em que voltei à faculdade e toda minha vida estava planejada em torno deste recomeço. O Brasil é um lugar em que a maioria das pessoas ainda não tem nem a oportunidade de começar, recomeçar então é o privilégio dos privilégios. Apesar do excelente trabalho dos governo dos seres humanos, ainda são poucos que podem efetivamente ter o poder de escolher o que farão das vidas. Programas como o Bolsa Família e um auxílio permanente são importantes por isto. Democratizaria o poder da escolha sobre o que fazer com a própria vida. Eu nunca fui muito feliz com a escolha que fiz de economia. Mas em 2018 não consegui mais aguentar. Boa parte dos meus colegas de faculdade se mostraram nazistinhas filhos da puta dispostos a “comprar” um capitão genocida que prometera expulsar e matar opositores porque ele dissera que iria vender as estatais. Duvido que algum deles leia este texto, mas se algum deles ler, saiba que eu quero que você se foda. Os maiores responsáveis por esta merda que vivemos são estas pessoas, as “bem informadas” que enxergaram neste genocida uma oportunidade de negócios. Vão se foder de novo. Voltando a 2018, também estava muito infeliz com a vida de escritório. Passava cinco dias por semana, das 8 às 18, na frente de um computador, bem vestido sem nenhuma razão, ouvindo pessoas brancas de classe média falando todo tipo de barbaridade entre conversas sobre trânsito. Eu acho que boa parte da tragédia que vivemos vem deste estilo que a classe média escolheu para viver. Ou que não escolheu, sei lá. Meus colegas eram basicamente pessoas que passavam uma hora num trânsito ouvindo a galera da jovem pan falar muita, mas muita merda, chegavam ao trabalho já pilhados, passavam dez horas fazendo planilhas de excel pelas quais seriam humilhados pelo chefe quando este descobrisse um errinho de fórmula, voltavam para casa com mais trânsito e jovem pan, deitavam na cama e dormiam. O dia nestes escritórios me pareceram naquele momento uma grande prisão das quais as pessoas tinham enorme medo de sair. Este estilo de vida cria um cidadão ansioso, com medo e com raiva, que não à toa cai no papo furado de um picareta que soube explorar a ansiedade, o medo e a raiva das pessoas não para questionar o sistema, mas para intensificá-lo. O sistema de certa forma é desenhado para que as pessoas enxerguem esta enorme infelicidade como algo normal e aqueles que tentam fugir disto como loucos a serem combatidos. O capitão genocida e o juiz picareta souberam explorar este povo como ninguém. Voltando à narração, resolvi em 2018 abandonar este emprego e tentar trabalhar com educação, desenvolvi há uma década um gosto por idiomas e comecei a tentar arrumar algo com isto. Deu até que certo e no mesmo ano decidi prestar ENEM para voltar à faculdade. Deu errado, caguei na redação. Sim, se por acaso você gosta dos meus textos, saiba que eu tirei 480 na redação do ENEM de 2018, o valor mínimo para entrar em boa parte das federais é de 500. Fui arrogante, não me dei ao trabalho de ler o manual da prova e não sabia que era necessário apresentar uma solução para o problema apresentado. Achei que bastava ficar divagando e falando que está tudo errado, como faço na vida. Aprendi razoavelmente a lição e fiz a Fuvest em 2019. Passei, mas fui meio mal na redação de novo, tirei um pouco mais do que 5. “Talvez eu escreva mal”, disse eu para um amigo. “E daí?”, ele respondeu. “Pode crê”, eu pensei.

Nem lembrava mais que o parágrafo anterior tinha começado com o lance da bicicleta. Mas bom, comprei a bicicleta porque tive a ideia de fazer o trajeto entre o metrô Butantã e a FFLCH de bike. Tem um bicicletário do lado da estação, show de bola. As pedaladas duraram duas semanas. Após a segunda semana de aula, a reitoria da universidade decidiu suspender as aulas por duas semanas, voltaríamos em abril. Um ano depois ainda não voltamos. No meu segundo dia de aula vi alguma intercambista asiática indo assistir às aulas de máscara. “Nossa, que histeria”, pensei eu. Ela estava certa.

Na segunda em que começaram as aulas, minha mãe foi internada. Ela estava com uma veia meia entupida no coração e precisava fazer uma cirurgia para colocar uma pecinha que iria desobstruir esta veia. Esta cirurgia, normalmente, exigiria abrir o peito da pessoa, o que por sua vez, em caso de sucesso, exigiria pelo menos um mês de UTI. Desenvolveu-se, porém, um novo método para realização desta operação sem a necessidade de abrir o peito da pessoa. Não entendo porra nenhuma de medicina e ter uma irmã médica me tornou uma pessoa extremamente relapsa sobre o assunto. Sei que na hora do vamos ver ela vai entender tudo e me explicar, mas acho isto ruim. Uma das muitas coisas em que preciso melhorar. Mas bom, esta cirurgia era mais cara, porém o tempo de recuperação era de 3 dias. Um mês na UTI se transformaria em 3 dias no quarto. A operação mais moderna, embora mais cara, sairia mais barata para o convênio de saúde privado dela, uma vez que não teríamos o mês de UTI gerando enormes custos para a empresa. Em razão disto, achávamos que não teríamos grande problema, apesar deste novo método ainda não ter sido cadastrado no SUS. O SUS cadastra este tipo de coisa apenas uma vez por ano, não sei em que mês, mas se for, sei lá, em abril e alguém desenvolver algo em maio, a autorização só virá depois de 11 meses. Mas é mais barato no total, não estávamos tão preocupados. O funcionário de classe média do convênio, porém, que passa o dia inteiro na frente de um computador e que chega no trabalho com raiva ouvindo Jovem Pan não conseguiu chegar a esta conclusão. Se uma cirurgia custa 20 e a outra custa 100, não importa que a de 20 gera 200 de custo depois. 20 é menos do que 100, então é esta que o convênio deve aprovar. Com minha mãe internada, entramos na justiça com um pedido de liminar para que ela fizesse a cirurgia mais moderna. A juíza negou e ainda nos deu uma lição de moral no patamar, quis nos dar uma aula de economia. Uma filha da puta imbecil e arrogante.

Enquanto tudo isto acontecia, o INCOR, onde minha mãe estava internada, começava a se preparar para uma operação de guerra. O hospital começava a se preparar para a tragédia que se anunciava. Minha ficha caiu mais firme quando, descendo as escadas para fumar, encontramos um colega dela. No meio do bate-papo, um olhou para o outro e falou “estamos fodidos”. Um detalhe besta que me veio à cabeça é que aquele foi o último cigarro que fumei, aliás. Já que o texto é sobre última vez das coisas. Mas bom, começou a rolar um desespero. Precisávamos tirar nossa mãe de lá o mais rápido possível e a porra do convênio queria deixá-la um mês na UTI de um hospital que se preparava para receber doentes de uma doença extremamente contagiosa e que se mostrava especialmente fatal para pessoas mais velhas, como é o caso da minha mãe. Enquanto minha irmã se juntava a outros médicos para montar um parecer na tentativa de um último recurso na justiça, eu começava a montar planilhas para mostrar para os imbecis do convênio que era mais barato três dias no quarto do que um mês na UTI. Não precisamos, a juíza concedeu a liminar autorizando a cirurgia e obrigando o convênio a bancar. O convênio entrou com recurso e o caso está parado no STF. Mas minha mãe fez a cirurgia, então foda-se. Minha mãe deixou o hospital na segunda-feira em que começou a quarentena em SP.

A pandemia mudou a relação como eu lido com o tempo. Coisas que aconteceram há um ano parecem que foram há um século. Parece que faz tempo, por exemplo, que o então ministro Sérgio Moro quis isolar presos com sintomas de Covid dentro de containers ou que o presidente genocida saiu correndo atrás de uma ema com uma caixa de remédio que não serve para esta doença. Parece que faz um século também que fiquei com o cu na mão porque não achava a cloroquina que minha mãe usa para uma doença para a qual o remédio faz efeito em farmácia nenhuma. Rodei boa parte do centro de SP para achar uma caixa pelo dobro do preço porque esta coisa que nos preside convenceu o bando de sei lá o quê que o segue a comprar este remédio como prevenção à doença. O mais assustador, porém, é a forma como nos acostumamos a ver mais de 1000 pessoas morrendo por dia. Ontem, 11 de fevereiro de 2021, 1400 pessoas morreram de Covid no Brasil. E isto não é nem assunto. Nada. A coisa que atualmente nos preside inclusive disse que não é hora de ficar chorando. É hora de chorar sim. É hora de chorar para caralho. Procuramos distrações para não ficar triste. Mas o que temos é que ficar tristes. E putos. Muito tristes. E muito putos.

Perdemos muita coisa em 2020. O bloco não aconteceu. E continua não acontecendo em 2021. 236.201 mortos até o dia 12/02/21, momento em que escrevo o texto. Algumas pessoas querem voltar ao chamado “normal”. O que tínhamos não era um normal. Bolsonaro já era o cara que corria atrás de ema antes de correr atrás da ema. Apenas achou a possibilidade ideal para correr atrás de uma ema. Somos a sociedade que elegeu como governador um cara que prometeu em campanha autorizar policiais a atirar na cabeça de suspeitos, sem chance. “Mandar para o cemitério”, segundo suas palavras. Este filho da puta não foi preso quando disse isto. Deveria. Flagrante por incentivo a prática de crime por agentes públicos. Menos de um ano depois, nove jovens eram assassinados em Paraisópolis e este filho da puta está aí. Não há porquê querer voltar para este normal. Para o normal da vida preso no escritório.

Vejo a vida não como algo que temos, mas algo do qual fazemos parte. Boa parte das transformações pelas quais lutamos não veremos. Acontece. A maioria das pessoas que lutaram pela inclusão de jovens pobres nas universidades públicas não viram esta transformação, afinal. É assim que encaro meu futuro sombrio frente a uma sociedade que priorizou compras de Natal e festa de fim de ano à saúde dos demais. É isso ou pirar. Continuar fazendo algo, mesmo que não dê em nada.

Falamos muito pouco sobre aqueles que salvaram vida. Não falo apenas dos médicos e dos enfermeiros, mas daqueles que procuraram ficar em casa este tempo todo. Óbvio que nem todos podem e que há situações em que é impossível criticar quem saiu. Cada um tem sua realidade, cada um viveu a pandemia do seu jeito. Mas sou eternamente grato àqueles que transformaram este período num momento de sacrifício, que não participaram de aglomerações e de viagens desnecessárias, que verdadeiramente se sacrificaram pela vida dos outros. Nunca saberemos quantas vidas foram salvas graças a este ato de heroísmo. Ninguém está batendo palmas para você, mas eu bato. Muito obrigado. Uma destas vidas salvas pode ter sido a da minha mãe. A sociedade não vai te reconhecer, ela desaprendeu a reconhecer os verdadeiros heróis.

Continua um dia...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O Hino Nacional e o Gênero Neutro

 


Quinta era dia de Hino Nacional na escola onde eu estudava. Todxs xs jovens enfileiradxs de acordo com a turma e o tamanho cantavam a plenos pulmões o “Ouviram do Ipiranga”. Era possivelmente o momento mais chato da semana. Eu era o nerd da turma e ser nerd nos anos 1990 significava ser impopular e disciplinado. Eu seguia todas as regras possíveis da escola católica em que estudava e possivelmente sabia cantar todo o Hino Nacional certinho, coisa que provavelmente não sei mais fazer. Não sei se hoje é assim, uma vez que ser nerd meio que entrou na moda, mas nos anos 1990 o sonho de todx nerd era em algum momento se rebelar. Tinha até um filme que passava na Sessão da Tarde, A Revolta dos Nerds. As escolas naquela época valorizavam muito a decoreba e eu passava muito tempo em casa decorando coisas para ser o melhor aluno da turma. Este é um dos motivos, aliás, para ter tanta gente na minha geração formada, com mestrado e sei lá mais o que, mas que é extremamente burra, tipo o Abraham Weintraub. Deu certo, decorei muita coisa, mas às vezes sobrava tempo para pensar e bastava cinco segundos de reflexão mínima para perceber que aquilo de cantar o hino nacional era uma enorme besteira. Na minha vida de ginásio, houve dois momentos em que tentei me rebelar. Um foi na educação física. Embora eu fosse nerd, eu não era tão ruim assim em educação física, eu era mediano. Algumas vezes, a aula consistia numa corrida em torno da escola. Se não me engano eram dez voltas, os alunos bons as faziam em 8 minutos, eu fazia em 10, os alunos ruins não completavam. O motivo era um ponto cego que havia atrás da quadra. Os alunos ruins davam uma ou duas voltas e depois paravam lá para fazer um piquenique.  Presunto, queijo e guaraná Bacana de abacaxi. Um belo dia resolvi me juntar a eles. Aquela corrida era uma merda, afinal. Preparei-me uma semana para o ato de arrojo. Não dormi à noite. No dia eu estava ansioso e tremia ao olhar para o sanduíche embrulhado em papel laminado que havia preparado para a ocasião. Escondi-o dentro do casaco e comecei a corrida encapotado, mesmo com uma temperatura beirando os trinta graus. Dei uma, duas voltas, na terceira parei. Os alunos que realizavam o piquenique me olharam com cara de surpresa. “O que você quer?”. Respondi tremendo que queria me juntar a eles, com medo de não ser aceito. “Ah, senta aí” foi a resposta de um deles enquanto servia meu copo de guaraná Bacana. Fiquei por cinco minutos que pareceram meia hora. O tempo passa realmente devagar para um nerd cometendo indisciplina. Depois que comi metade do sanduíche voltei a correr. Ao completar a volta, o professor me olhou com cara de desgosto. Nada era pior para um nerd dos anos 1990 do que a cara descontente da autoridade. Alguns não escaparam disto até hoje. Fiz faculdade de economia nos anos 2000 com um grupo de pessoas que eram como eu e elas são assim até hoje. Na corrida seguinte fiz o meu melhor tempo, nove minutos e quarenta e cinco segundos. Foi a única vez que corri abaixo dos dez minutos. A segunda rebelião foi num dia de Hino Nacional. Um grupo de alunxs se escondia na sala de aula na hora do hino e um dia resolvi me juntar a elxs. Sim, aquilo era tão, mas tão chato que xs alunxs ruins IAM para a sala de aula mais cedo para escapar. A impressão que eu tinha é que se houvesse apenas duas opções no mundo, estudar ou cantar o hino, todo mundo ia querer estudar e teríamos a melhor turma do planeta. Fiz uma vez e ninguém percebeu. Era a mesma coisa, presunto, queijo e guaraná Bacana de abacaxi. Fiquei feliz, me senti um cara malvado. Na segunda semana, enquanto traçava um belo sanduíche de mortadela, a casa caiu. A inspetora chegou e acabou com a festa. Como castigo, na semana seguinte eu tive que fazer a coisa mais chata dentre as mais chatas do mundo, ser o aluno que hasteava a bandeira. A escola inteira ficava olhando para você e, mais do que isto, você tinha que cantar realmente o hino certinho. A coordenadora dava olhares feios a cada erro.

Eu acho que sei cantar certinho só a primeira parte do hino nacional, que é a que toca nos jogos de futebol. A partir do “Deitado eternamente em berço esplêndido” eu já não sei mais direito como é. Acho que quase todo mundo é assim, percebi isto no dia em que tive que fui dispensado do exército. Um grande silêncio se fez na hora do “Deitado eternamente em berço esplêndido”. O esporte é o único espaço em que o hino nacional ainda faz algum sentido. Esta história de levar hino, bandeira e o escambau a sério já causou muita tragédia. Eu era fascinado por futebol na infância e na adolescência, isto me levou a estudar hinos nacionais e posso afirmar que, com exceção talvez do hino da Dinamarca, o Brasil tem o pior hino nacional entre os países que disputam competições futebolísticas. O hino da independência é bem mais legal. Eu ainda acho que o Brasil teria ganho a Copa de 1998 se os jogadores cantassem “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” ao invés de “fulguras o Brasil florão da América”. Que porra é fulguras? Eu nunca usei esta palavra na vida e deduzo que quase ninguém a tenha usado também. Hoje em dia, embora eu ache legal xs jogadorxs perfiladxs cantando o hino, mesmo em eventos esportivos acho meio bizarro, não pelxs jogadorxs, mas pela torcida. Lembro-me que assisti a um jogo do Brasil na copa de 2010 na firma e na hora do hino um colega que respeito muito colocou a mão no coração e berrou a plenos pulmões o “Ouviram do Ipiranga”, olhando feio e criticando o desrespeito daquelxs que não faziam o mesmo. Que coisa estranha um marmanjo colocando a mão no peito para cantar. Normalmente quando isto acontece alguma enorme merda se aproxima. Vejamos as manifestações de 2015 e 2016, por exemplo.

A principal razão de detestar o nosso hino nacional é que ele foi feito por uma elite para ser repetido, mas não para ser compreendido. Quase ninguém faz a menor ideia do que está sendo cantado, a composição foi feita pensando quase exclusivamente na forma e não no conteúdo. Fiz um vestibular em que o exercício da prova de português era colocar o hino nacional na ordem direta e isto mostra o quanto ele é errado. Fazendo este exercício fiquei com a impressão de que o hino é daquele jeito exatamente porque se a galera prestar atenção vai ver que é uma porcaria. Ele é como a linguagem do mundo jurídico. Uma elite a criou para que a população ficasse completamente afastada do processo, não a compreendesse e assim ela mantivesse seu poder. Algumas vezes eu assisto processos judiciais nos EUA, por exemplo, e mesmo longe de ter o conhecimento linguístico do inglês que tenho do português, sinto que entendo mais o que é dito lá do que o que é dito aqui. A elite brasileira não se esforça em nada para ser entendida, criou uma espécie de mundo próprio em que a linguagem é usada para a dominação e o hino nacional é de certa forma um símbolo disto. É uma vergonha completa que umx juizx condene uma pessoa sem que esta entenda o que elx está dizendo. E a vergonha é para quem condena e não para o condenado.

Detestar o hino não me faz detestar o Brasil, pelo contrário. O país tem MUITA coisa boa e não podemos nos esquecer disto, por mais difícil que isto seja quando uma coisa como a que temos atualmente nos presidindo chega ao poder com a anuência de 60% da população (contando os que votaram nele e os que votaram nulo). Há algumas coisas no Brasil que são tão boas que às vezes eu até acredito que são resultado de alguma força superior, sei lá. A literatura brasileira entre os anos 1920 e 1960 é uma delas. Drummond, Graciliano, Manuel Bandeira, Clarice, Rachel de Queiroz, Guimarães, João Cabral, entre outrxs, todxs elxs existiram na mesma região do planeta meio que ao mesmo tempo. Acho que, sei lá, em 1950 todxs estavam vivos e produzindo ao mesmo tempo. Acho isto surreal, é tão bom que não dá para acreditar que é verdade. Uma outra pessoa que me faz sentir isto é um cara chamado Herbert Caro. Ele foi o tradutor das obras do Thomas Mann para o português. Judeu alemão, ele fugiu da Alemanha com a ascensão dos nazistas ao poder, aprendeu português e se tornou tradutor. As traduções que ele fez da Montanha Mágica e de Doutor Fausto são surreais. As pessoas que dominam os dois idiomas com as quais já conversei sobre o assunto dizem que ele melhorou o texto original. É maravilhoso. Um terceiro exemplo é o Cartola. Às vezes fico uns seis meses sem escutar Preciso me Encontrar e quando escuto tenho a impressão de que foram os dois minutos mais bonitos da história. Eu sei que a letra não é dele, é do Candeia, mas mesmo assim, puta que pariu, que coisa linda essa músico com ele cantando. O último exemplo é a seleção brasileira feminina de basquete dos anos 1980-90. É realmente inacreditável que Hortência, Paula e Janeth tenham jogado ao mesmo tempo e no mesmo time. Poucas coisas no mundo esportivo são tão bonitas quanto o movimento de arremesso da Hortência. Lembro apenas do controle de bola do Maradona e do movimento de pernas do Ali como coisas tão belas. Uma coisa legal destes exemplos que dei é que provavelmente só a gente sabe ou pode saber que isto existe. Só a gente é capaz de ler e realmente entender Drummond e Bandeira ou de entender o quanto a obra do Cartola é bonita. Claro que todo país tem isto. Mas lembrar disto me torna menos angustiado com relação ao nosso presente. Bolsonaro em algum momento vai para a lata de lixo, como Médici foi. A Rachel de Queiroz vai ficar. Isto me alivia um pouco.

A principal função da linguagem é a comunicação. Entender e ser entendido. A elite, em geral, é extremamente conservadora em relação à linguagem, como é em relação a tudo, porque a linguagem funciona para ela como uma forma de dominação. O que ela chama de “português correto” é aquele que permite que esta relação siga funcionando. É ela que impõe o que chamo de “ditadura da gramática”, em que uma série de regras tenta definir como as pessoas devem se comunicar em determinada língua. Isto funciona em certos ambientes, é óbvio, mas não no cotidiano. O português correto sem aspas é aquele em que todxs xs participantes da conversa são capazes de compreender e participar. Se você é capaz de ser compreendidx por uma pessoa, mas quer falar “bonito” e desta forma é incompreendidx, o problema é você e não a outra pessoa. Por isso não há nada mais errado do que uma sessão do Supremo. Aquilo é o português mais errado possível, porque boa parte dxs envolvidxs não consegue entender um caralho do que é dito. A língua é um ser vivo em eterna transformação e isto é lindo. O pretérito mais que perfeito simples, por exemplo, morreu. Ninguém, à exceção talvez dxs juízxs do Supremo, diz “eu falara”. O certo na realidade é “eu tinha falado”. “Eu tinha falado” está sempre certo, “eu falara” pode até estar certo em situações específicas, mas é provável que esteja errado. Parto do pressuposto que numa conversa informal se algo não é compreendido a culpa é sempre do falante, e não do ouvinte. É apenas uma opinião pessoal. 

Linguagem também é arte e neste caso tudo vale. Para mim, tudo que se propõe a ser arte deve ser encarado como arte. Nenhum argumento é mais escroto do que “isto não é arte”. Podemos falar que tal coisa é boa ou ruim, de acordo com gostos pessoais, mas nunca falar que algo não é arte. Ler Drummond é descobrir algo novo a cada leitura. Já li A Um Hotel em Demolição, meu poema favorito dele, uma quinhentas mil vezes e cada vez que leio percebo algo novo em ritmo, em rima ou em referência. Dxs poetas brasileirxs o que mais me encanta no momento é João Cabral de Melo Neto, porque ele consegue fazer algo que julgo sublime, que é escrever textos profundos de forma simples. Vejam esta coisa linda que se segue:


A educação pela pedra, 1965

Uma educação pela pedra: por lições;

Para aprender da pedra, frequentá-la;

Captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

Ao que flui e a fluir, a ser maleada;

A de poética, sua carnadura concreta;

A de economia, seu adensar-se compacta:

Lições da pedra (de fora para dentro,

Cartilha muda), para quem soletrá-la.

 

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

E se lecionasse, não ensinaria nada;

Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

Uma pedra de nascença, entranha a alma.


Olha que coisa linda ! A quantidade de coisas que ele consegue passar usando palavras simples. Pedra, por exemplo, oito vezes nas dezesseis linhas do poema, cada uma com um significado diferente. Nada é mais lindo do que o sublime alcançado pela simplicidade. E nada é mais feio do que o feio alcançado na tentativa de ser complexo. Um hino, afinal, é arte ou comunicação? Pode ser as duas coisas. O hino nacional brasileiro falha nas duas.

Já na linguagem para comunicação, o meu conceito de beleza é diferente. O bonito é aquilo que alcança x ouvintx. Não há nada pior no mundo do que uma pessoa que corrige as outras em conversas informais. Elas são tão chatas quanto o nosso hino nacional. Uma coisa que eu acho maravilhosa que vem acontecendo no português de São Paulo é a morte da conjugação no presente. Você fala, ele fala, nós falamos, vocês falam, eles falam. Todas estas conjugações estão sendo substituídas por “fala”. Você fala, ele fala, nós fala, vocês fala, eles fala. Eu acho lindo como a evolução de uma língua é incontrolável e leva sempre à maior facilidade. A única conjugação que está sobrevivendo no presente é a da primeira pessoa. A gente não pode falar “eu fala”, para todas as outras pessoas isto funciona. Já No pretérito imperfeito a morte da conjugação está acontecendo em todas as pessoas. Eu falava, você falava, ele falava, nós falava, vocês falava, eles falava. E sim, repito, isto é lindo. É lindo porque facilita a comunicação. Isto vai chegar na língua escrita algum dia? Não faço ideia. Provavelmente não. A língua escrita tem a função de conectar pessoas que falam “idiomas diferentes”. Mas é libertário falar nós falava. Porque o “mos” não serve para nada. O “nós” já especifica qual a pessoa que estamos utilizando afinal.

Vivemos numa sociedade opressora em que a linguagem é usada para dominar e está inserida num todo opressor. E parte desta opressão está ligada à ideia dos gêneros. Em português (e em todas as línguas latinas, que eu saiba), o pronome do plural em situações que não sejam exclusivamente femininas é o masculino. Como disse Paulo Freire, se numa sala tivermos 100 pessoas, sendo 99 mulheres e 1 homem, usaremos o pronome masculino “eles”. Isto quer dizer algo? Sim, quer ! Pelo simples motivo de que tudo quer dizer algo. Por que usamos o termo “denegrir” como ofensa? Porque somos uma sociedade racista e a língua reflete o nosso racismo. A luta contra o racismo pede sim mudanças na língua. Sociedades se transformam e línguas não são dados fixos. Elas não apenas podem como devem seguir transformações sociais. O “o” e o “a” podem não mais serem capazes de atender todas as necessidades sociais e faz todo sentido imaginar que surja um “e” ou um “x”. E mais do que isto, se isto ocorrer, é função da pessoa que fala se adequar ao desejo da pessoa que não mais se reconhece como “o” ou “a”. Uma pessoa tem o direito de escolher qual artigo a define. As mudanças na língua acontecem não apenas para facilitar, mas também para incluir e para libertar. O gênero neutro é uma libertação. Se a pessoa que ser “x”, chame-a de “x”. O nome disto é educação. Todos temos um papel na sociedade de opressores e oprimidos. Cabe a quem herda os privilégios de séculos de opressão ouvir e se adequar as demandas dos oprimidos. E não reclame de como isto será difícil. Perceba o quanto para você tudo é mais fácil. É assim que criaremos uma sociedade melhor. Vida longa ao X.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A capa da Isto É e a sociedade psicopata

 


Em 28/10/2018 um psicopata foi eleito presidente do Brasil. Já tivemos outros psicopatas ocupando este cargo em nossa história, Médici talvez seja o principal exemplo. Mas nunca havíamos tido um psicopata chegando ao poder através do voto popular, com a chancela da maior parte da população. Aproximadamente 60% da população votou no psicopata ou então anulou o voto. Mais do que ser psicopata, Bolsonaro chegou ao poder com uma trajetória e uma campanha psicopatas. Até aquele momento, nossa sociedade tinha eleito apenas seres humanos sem esta patologia, com qualidades e defeitos, para o cargo mais alto da nação. Todos somos assim, afinal. Alardeamos nossas qualidades e tentamos esconder nossos defeitos. Políticos são como nós. Bolsonaro foi o primeiro a, sem ter qualidades para apresentar, converteu o que qualquer sociedade não psicopata considera ser defeitos inaceitáveis em qualidades. Não, Bolsonaro não tem qualidades de verdade. Nem mesmo aquelas qualidades de classe média, tipo ser “trabalhador, bom pai e bom marido”. Ele é um vagabundo, criou filhos vagabundos e já afirmou em entrevista que tinha um apartamento em Brasília exclusivamente para “comer mulher”. Em sua campanha presidencial, Bolsonaro fez o que havia feito a vida toda como deputado: prometeu metralhar a oposição, destruir reservas indígenas, exaltou torturadores, foi machista, racista, homofóbico. Apresentou uma visão de mundo paranoica, prometeu tirar o Brasil da ONU e do Mercosul, criou uma rede de notícias falsas que transformou a vida de seus adversários num inferno. Não há justificativa para o voto em Bolsonaro. Sim, houve diversos casos de corrupção no governo petista, não vou entrar no mérito da veracidade ou não das acusações. Mesmo que a pessoa assumisse que Haddad, Alckmin, Ciro e os outros fossem corruptos, entre um corrupto e um psicopata qualquer pessoa que não tenha perdido a humanidade vota no corrupto. “Ah, mas Bolsonaro se aliou a projetos econômicos liberais e eu defendo privatização, votei no Paulo Guedes !”. Não importa, entre um psicopata e um não-psicopata, o voto deve ser no não-psicopata. Sempre que há uma eleição, o que uma sociedade razoável faz é separar psicopatas de não-psicopatas, excluindo-se inicialmente a possibilidade de voto nos psicopatas, analisando a partir daí as propostas dos não-psicopatas. Um pouco mais de dois anos depois, principalmente após a pandemia, vemos o fenômeno do arrependimento de uma parte das pessoas que votaram no psicopata. O psicopata, afinal, agiu neste período de pandemia como um psicopata. Uma parcela das população não se importava com a psicopatia do psicopata quando a vítima eram os “outros”. Negros, pobres, índios, movimentos sociais, enquanto estas eram as vítimas, não importava. Temos diversos monumentos espalhados por SP que homenageiam assassinos de índios pela cidade, mas isto não incomoda a sociedade. Os arrependidos começaram a se importar quando viram que eles também não importavam para o psicopata. Ele não se importa também com a sua mãe de 70 anos ou com o seu avô de 90 anos. “Todos temos que morrer”, disse o psicopata. Ele vai pescar, tira férias e promove aglomerações enquanto vivemos a maior tragédia da nossa geração. De repente, uma parcela da população aliada ao psicopata descobriu que do mesmo jeito que a economia importa mais do que a vida do indígena, do negro, do operário, do camponês, ela também importa mais do que a vida do parente idoso e doente. A economia não pode parar, mas seu parente pode morrer. As lojas não vão fechar porque sua mãe pode morrer. As pessoas continuam querendo ir para a balada mesmo com 200 mil mortos na pandemia, com o incentivo do presidente. “Temos que entender que a vida não tem valor infinito”, disse certa vez Nelson Teich, um dos ex-ministros da Saúde durante este caos. Para eles não importa. Realmente não importa.

Antes do triunfo do psicopata nas urnas em 2018, tivemos o triunfo de um psicopata nas telonas dos cinemas nacionais em 2007. A sociedade vibrou com o Capitão Nascimento. Víamos em tela grande um homem branco vestindo farda botando terror na “bandidagem”. Nascimento torturava, mentia, matava, mas foi visto pela sociedade como o herói. Não revi o filme para este texto, mas acredito que todas as suas vítimas eram negras e pobres. Nenhuma delas tinha chance de defesa ou direito a um julgamento justo. A nenhuma delas era dada oportunidade de recuperação. Nascimento chegava e matava. Duas cenas ficam na memória. Na primeira, Nascimento e sua gangue invadem a casa de uma pessoa de forma ilegal, começam a revirar sua casa e encontram um par de tênis caro. Mesmo sem nunca ter conversado com o investigado, sem saber o que ele fazia e quem ele era, isto já é suficiente para que Nascimento deduza que ele é “bandido”. O mesmo que acontece com os diversos relatos de pessoas negras que foram abordadas por policiais na rua que desconfiaram porque ela estava em um carro. Festa no cinema da classe média. “Como Nascimento é esperto”. Na cena seguinte, o “bandido” é levado para um canto, Nascimento e sua gangue colocam um saco em sua cabeça e vemos as veias do nariz do negro pobre e favelado explodindo na tela grande. Nascimento consegue desta forma a informação que precisava e larga o jovem torturado em qualquer canto. Como se abandona um saco de lixo. Nascimento não enxerga naquela pessoa um ser humano. No enredo do filme, Nascimento quer procurar uma nova pessoa para substituí-lo no cargo de psicopata-mor no BOPE. O escolhido é o jovem Matias, mas antes Nascimento precisa realizar o processo de desumanizá-lo. É isto que passamos duas horas vendo na tela. Na cena seguinte à descrita anteriormente, Nascimento e Matias encontram o traficante graças à informação do jovem torturado e o encurralam. Com a arma de Matias apontada para sua cabeça, o traficante pede ao policial que ele não atire na cabeça, “para não estragar o enterro”. O filme acaba com Matias atirando na cabeça. O processo de desumanização de Matias termina. O processo de desumanização do público segue. Nascimento é o "herói". Abre-se espaço para o surgimento de um “Nascimento da vida real”.

No mesmo ano de 2007, em outubro, o apresentador Luciano Huck foi assaltado em SP. Os assaltantes levaram seu relógio de R$ 48 mil. Eis o que escreveu o apresentador em sua coluna no jornal Folha de São Paulo no dia seguinte: "Onde está a polícia? Onde está a 'Elite da tropa'? Quem sabe até a 'Tropa de elite'! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade". Nascimento era a solução. Segundo o global, ele recuperaria o relógio. Isto é, segundo ele, “discutir segurança pública de verdade”. Como Nascimento o recuperaria? Todos sabem, enfiaria um saco de plástico na cabeça do assaltante ou simplesmente daria um tiro na sua cabeça. Huck estava disposto a ver algumas pessoas morrerem para poder andar em “paz”. A vida dos assaltantes valia menos que este relógio. É óbvio que os assaltantes deveriam ser presos pelo roubo cometido, mas não era exatamente isto que Huck queria ao clamar por Nascimento. Não lembro se Nascimento realiza alguma prisão no filme, aliás. Se em 2007 Huck pedia que um psicopata matasse o ladrão de seu relógio, em 2018 apoiou o psicopata-candidato no segundo turno. Viu no homem que exaltava torturadores a chance de “ressignificar a política”. Bom, a política foi ressignificada.

Em dezembro de 2019, a revista Isto É elegeu o governador João Doria Jr como brasileiro do ano na política. Na semana anterior ao prêmio, a polícia militar chefiada por Doria havia matado nove jovens negros durante um baile funk na favela de Paraisópolis. Doria foi eleito governador em 2018 surfando na onda da psicopatia. Tendo uma gestão mal avaliada na capital, onde era prefeito, ele se transformou durante a campanha numa versão Daslu do psicopata que liderava a corrida presidencial. Chamou seu adversário, que foi vice do governo do seu padrinho político, de comunista, disse que este iria transformar SP na “Venezuela” e que em seu governo a polícia mandaria os bandidos para o cemitério. Prometeu autorizar policiais a atirarem para matar, na cabeça. Disse também que pagaria de seu próprio bolso os melhores advogados para defender policiais que fossem processados por crimes cometidos enquanto “trabalhassem”. Os policiais de Paraisópolis acreditaram na promessa. Não sei se Doria cumpriu a promessa de pagar os melhores advogados aos policiais, só sei que um ano após o massacre nenhum deles foi punido. Assim falou João Doria Jr na entrega do prêmio: ““Queria começar homenageando os familiares das nove pessoas que faleceram nessa tragédia em Paraisópolis e também a minha solidariedade aos amigos e familiares como governador de São Paulo. Iremos apurar tudo o que aconteceu para que não haja impunidade”. Um ano depois, Doria se recusou a receber um grupo de familiares que o procurou para cobrar punição aos envolvidos no crime.

A mesma Isto É havia criado o prêmio de juiz do ano em 2017. O premiado foi Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça do psicopata. Disse ele na premiação: ““Em 2018, devemos rever em quem vamos votar. Isso será um ponto decisivo na mudança do nosso País”. Assim como Huck, Moro queria ressignificar a política. Para dar uma forcinha neste processo de “ressignificação”, prendeu o candidato que liderava a corrida eleitoral e que representava o maior risco à eleição do psicopata. No segundo turno da eleição, tornou pública uma série de delações sem provas com acusações contra o adversário do psicopata, delações que viriam a ser consideradas falsas posteriormente. Nesta época, disse o atual ministro da Economia, Moro já havia se encontrado com o psicopata e combinado com ele que assumiria o ministério da Justiça do novo governo, cuja eleição já era dada como certa. Como ministro, Moro se desentendeu com o psicopata quando este não quis deixá-lo escolher o chefe da Polícia Federal. Exaltação à tortura, racismo, homofobia, machismo, ameaças físicas a opositores, nada disso incomodou Moro. O que o incomodou foi não poder escolher o chefe da Polícia Federal. Como último ato em sua atuação como ministro, Moro trabalhou para que presos com pouco periculosidade ou com problemas de saúde tivessem direito à prisão preventiva durante a pandemia. A solução apresentada pelo ex-ministro era o aluguel de containers para colocar estes presos caso eles ficassem doentes.  

Doria, Moro, Huck. Todos eles agora querem criar uma frente ampla para enfrentar o psicopata que puseram no poder em 2022. A Isto É desta semana traz na capa uma foto em que Capitão Nascimento segura o colarinho de Bolsonaro e grita “pede pra sair!”. O “político do ano”, o “juiz do ano”, o “apresentador de TV do ano”. Todos juntos com o “herói” fictício tão real na nossa tragédia diária. Uma ressignificação da ressignificação. Sem abandonar o componente principal desta loucura que vivemos, a psicopatia.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O prédio do Jaguaré

 


A sexta-feira que antecedia o Natal era dia de festa no prédio do Jaguaré. Aquele dia começava a ser o assunto do mundo em que eu fazia parte na empresa pelo menos um mês antes. Eu trabalhava em compras e fornecedores nos enchiam de bebidas como brinde de fim de ano, numa relação que hoje considero um tanto quanto estranha. Eles adoravam nos dar uísques, que eu basicamente acho a pior bebida do mundo. Acho meio de mau gosto, provavelmente por causa de um tio viciado em bingo que eu tinha quando era criança. A imagem dele com um copo de uísque e um cigarro na mão enquanto esperava o número 32 ficou sempre associada a esta bebida para mim. Boa parte dos fornecedores lembrava este meu tio, aliás. Homens de classe média de terno, barrigudos e falando merda. Pareciam tão inofensivos à época. Era extremamente libertário poder encher a cara uma vez por ano no ambiente repressor de trabalho.

A festa da Editora era extremamente tosca. Eu trabalhava no setor editorial e ele está em crise pelo menos desde 2005, o que significava que nunca havia dinheiro para gastar nesta festa. Na verdade o evento ainda existia apenas porque o diretor geral da empresa era um péssimo DJ e tinha nesta festa um dos poucos eventos em que podia obrigar pessoas a escutá-lo. Sua seleção de músicas era tudo que havia de pior. Tenho pavor de gente que gosta de Jota Quest. A alimentação da festa lembrava uma festa de criança de 7 anos. Carne louca e cachorro quente na bisnaguinha. A cerveja era a que tinha sobrado de uma outra festa que a Editora organizava em outubro para celebrar uma revista de celebridades. Normalmente alguma marca ruim patrocinava o evento, isto quer dizer que tínhamos Bavaria e 1808 chocas animando a noite. Como tínhamos todo aquele arsenal de bebida dado pelos fornecedores, conseguíamos escapar da sobra de outubro. E naquele dia tínhamos muito síndrome do pequeno poder. Éramos todos fodidos de um departamento completamente negligenciado pela empresa, mas naquele dia tínhamos as bebidas no porta-malas. “Só vamos dividir com quem é gente fina com a gente”, pensávamos nós enquanto andávamos poderosos pelos corredores da firma.

A festa tinha dois momentos. O primeiro começava às 19 horas. Era o momento da obrigação. Espero que a descrição inicial tenha mostrado o quão tosca a festa era. Isto significava que a parte mais chique da empresa odiava o evento e não via a hora de ir embora. Gerentes, diretores, publicitários, jornalistas, todos odiavam aquela palhaçada. Mas tinham que ficar para serem vistos pelo chefe mais próximo e pelo diretor-geral DJ. Ele fazia um discurso anual que deveria acontecer às 20.30, mas que atrasava pelo menos uma hora. Este discurso era uma coisa surreal que já de certa forma previa o que seria o Brasil a partir de 2016. Todo ano começava com a frase “Boa noite, primeiramente peço desculpas pelo atraso” e a isto se seguia uma série de paranoias, mentiras e autobajulação. A empresa tinha, mais uma vez, calado todos os críticos que queriam vê-la no chão, iria valorizar os funcionários no ano seguinte e era um ótimo lugar para trabalhar. Ninguém queria derrubar a empresa, janeiro teria corte e todo mundo estava meio deprimido, mas mesmo assim cada palavrão e xingamento causava júbilo na elite da empresa, formada, como já dito, por gerentes, diretores, publicitários e jornalistas. Ao fim do discurso, seguia-se o DJ, mas isto era demais até para esta elite. A obrigação já estava cumprida, agora era hora de ir para casa ou aproveitar a noite para encontrar o/a amante. Na frente da editora tinha um motel que bombava nesta noite.

Para nós que ficávamos, a noite começava neste momento. Já estávamos alegres, mas a partir de agora ninguém é de ninguém. A moça do planejamento vai sair carregada, o rapaz do jurídico vai vomitar, o casal de jovens aprendizes vai se pegar no sofá. Era libertário. A isto se seguiam os outros 364 dias do ano...

Eu entrei pela primeira vez no prédio do Jaguaré aos 20 anos, no longínquo ano de 2004. O prédio era extremamente diferente dos locais em que eu fazia entrevistas de estágio. Na época fui direto para o processo de seleção que era num galpão caindo aos pedaços depois do estacionamento. Devia ter umas 300 pessoas naquele dia disputando umas 15 vagas de estágio. Seria o meu primeiro contato com o que há de pior no mundo, o departamento de RH. Sairia deste prédio apenas em 2015.

Por 11 anos, este prédio foi um dos centros da minha vida. Foi provavelmente o lugar que mais frequentei na vida depois das minhas casas. A beleza das festas da Editora é que elas conseguiam ser tão toscas quanto o prédio. Era tudo tosco e meio caindo aos pedaços. Quando entrávamos no prédio a primeira coisa que víamos era a entrada e de cara já tínhamos um galpão abandonado convertido em estacionamento. À direita tínhamos o restaurante e a lanchonete, à esquerda o prédio principal e ao fundo diversos galpões, alguns abandonados, outros convertidos em centros de treinamento e convenção, num deles aconteciam as festas. No meio deles, vários outros estacionamentos. A principal característica da empresa era a verticalização. Era uma empresa extremamente hierarquizada. Gerentes e diretores tinham direito a um estacionamento coberto (volta e meia caia uma telha lá, aliás), o resto da empresa guerreava por uma vaguinha mais perto do prédio. O coordenador promovido a gerente ganhava um adesivo novo no carro, dando a ele acesso a este novo estacionamento. Foda-se que era uma porra de um galpão abandonado que podia cair a qualquer momento, já era o suficiente para diferenciá-lo do restante. Havia, além disso, uma vaga de estacionamento que era a hiper especial, a do diretor-geral DJ. Ele era o único que podia parar o carro dentro do subsolo e tinha, pasmem, um elevador exclusivo. Dos quatro elevadores do prédio, um parava exclusivamente no subsolo e no último andar, porque o diretor-geral não queria correr o risco de encontrar nos outros 364 dias do ano o seu público da festa de fim de ano. Este elevador era liberado para o térreo quando algum político importante vinha visitá-lo. Lembro-me de Marta Suplicy e Sérgio Cabral visitando a editora e tendo a honra de pegar este elevador. Diz a lenda que era um elevador maior aliás, mas isto não posso confirmar. Li uma vez em algum lugar que empresas em que o diretor-geral costuma ficar no último andar são uma merda, são locais em que este costuma se enxergar como um “Deus” que está acima de tudo controlando. Faz sentido.

O transporte público era bastante escasso. O que nos restava era a estação de trem separada do prédio por uma ponte, que era tipo o lugar mais perigoso do mundo. Não há uma pessoa que fizesse aquele caminho que não tenha sido assaltada ao menos uma vez. Para escapar disso, tínhamos que pegar um ônibus para atravessar a ponte. Basicamente pagávamos uma passagem para descer no ponto seguinte. Uma destas pessoas assaltadas foi esta que escreve. Levaram o rádio da motorola que a empresa havia fornecido aos funcionários e por isso tive que abrir um BO. Chegando na delegacia mais próxima, o delegado disse que eu tinha que abrir o BO na delegacia mais perto da minha casa. Isto era uma sexta à noite. No sábado tentei ir na delegacia da Santa Cecília, mas BO eles só abriam de segunda. Na segunda lá fui eu. No caminho de ida, vi um carro sendo roubado na frente da delegacia. Lá chegando, quando passei meu endereço, o delegado disse que eu deveria abrir o BO na delegacia da Sé, que era mais próxima do meu endereço do que a da Santa Cecília. Na delegacia da Sé, por sua vez, o delegado me perguntou onde tinha sido o assalto. Eu respondi que foi na Ponte do Jaguaré e ele me disse que então eu deveria abrir o BO lá. Eu repliquei que o delegado de lá havia me dito na sexta que eu deveria abrir o BO na delegacia mais próxima da minha casa. “Ele disse isto porque é um filho da puta”, disse o delegado da Sé. Voltando para a delegacia do Jaguaré, encontrei um plantonista que aceitou fazer o meu BO, após o seguinte diálogo:

- Onde você foi assaltado?

- Na ponte do Jaguaré.

- Puta, lá é foda. Não sei por que vocês insistem em atravessar aquela porra a pé.

- É foda mesmo...

- Quando foi o assalto?

- Na sexta.

- E porque você não fez o BO na sexta, caralho?

Não havia nada na região do prédio do Jaguaré. Tudo que havia era o motel que bombava na sexta que antecedia o Natal e uma churrascaria, que era o único lugar em que era possível fazer uma confraternização entre colegas e onde os fornecedores nos levavam para almoçar. Ìamos tanto lá que conhecíamos a personalidade dos garçons. O cara que cortava a picanha era mal humorado. Uma certa vez não quis me servir carne porque eu ainda tinha um pedaço no prato. No dia fiquei contrariado, mas hoje com a sabedoria que a distância do tempo dá, percebo que ele estava certo. Nós adorávamos o cara que servia carne de cordeiro. Ele era tão bonzinho que dava vontade de pedir a carne de cordeiro só por causa dele. Mas ao mesmo tempo, aprendemos depois que a pior coisa do mundo era pedir este cordeiro, porque ele começaria a aparecer a cada cinco minutos oferecendo a carne.

Em 2015 saímos do prédio do Jaguaré. A negociação pela renovação do aluguel ia bem, até o momento em que por algum motivo o ego do diretor-geral foi ferido. Mudamos para o Itaim. Uma nova realidade nos esperava. Bares de cerveja artesanal, restaurantes com comidas naturais etc. A maluquice em que entrou o Brasil a partir daquele ano, porém, logo me fez começar a ter saudade do isolamento no Jaguaré. Ter que ir todo dia para o Itaim naquela época era saber que o pior estava por vir. Lembro-me de uma época em que não podíamos usar vermelho para ir trabalhar porque corríamos risco de ser xingados. E isto é sério, aconteceu mesmo. O dia em que Sérgio Moro liberou as conversas grampeadas ilegalmente de Dilma e Lula foi o mais bizarro. Eu estava na rua indo encontrar uns amigos neste dia. De repente, do nada, um monte de homem branco e velho começa a sair na varanda de casa e a gritar com camisas e bandeiras do Brasil. Entro num bar para ver o que aconteceu e vejo um plantão da Globo ao vivo com o palácio do planalto cercado por gente branca com ódio. Ainda não tinha ouvido as conversas, mas naquele dia pensei: “fodeu”. Encontrei em seguida um futuro ex-amigo animado e revoltado com a novidade.

- Acho que o Lula se fodeu, hahahaha, disse ele.

- Você já ouviu as conversas?

- Já sim, vou te mandar.

Após ouvir, eu disse:

- Não tem nada nesta porra.

- Eu também achei que não.

- Então por que você tá tão feliz?

- Porque ninguém tá percebendo que não tem nada e o Lula vai se foder hahahahaha

Ele estava certo. Não só Lula se fodeu. Moro continuou atropelando a lei, prendeu Lula ajudou a eleger um capitão fascista, virou ministro dele e hoje temos 200.000 mortos na pandemia.

O prédio do Jaguaré representa na minha vida tudo que é anterior a isto. O prédio do Jaguaré é o Brasil do metalúrgico e da guerrilheira que focavam na distribuição de renda. O prédio do Itaim é o Brasil do cinismo. O prédio do Jaguaré é o local em que muitos jovens de Osasco tiveram sua primeira oportunidade profissional. O prédio do Itaim é este Brasil sendo descontruído, mas se achando mais chique. A Editora entrou na merda após a mudança. Revistas foram fechadas, funcionários demitidos, tudo deu errado. Mas com mais glamour.

Entrei no prédio do Jaguaré aos 20 anos. Saí de lá aos 31. Muita coisa aconteceu na minha vida tendo lá como pano de fundo. Me formei, me apaixonei, fiz merda, algumas consertei, outras não, vivi. A maior parte das pessoas do meu mundo atual conheci no prédio do Jaguaré. Há algumas semanas um amigo passou lá e o prédio está basicamente abandonado. Ninguém quis o ponto após a saída da Editora e o prédio que foi por onze anos um dos centros da minha vida é hoje um episódio de “A Terra sem Ninguém”. Simboliza uma parte da minha vida que se foi. Aquele prédio das festas de fim de ano. Saudades das bisnaguinhas de cachorro quente e das Bavarias. Saudade do país do metalúrgico. Podia até ser meio tosco e ter defeitos. Mas funcionava do seu jeito.