domingo, 12 de agosto de 2018

Reflexões de uma vida medíocre



Decidi que não farei revisão neste texto. Peço já antecipadamente desculpas pelos erros de português. Não sei exatamente em qual momento da história a palavra medíocre ganhou a conotação negativa que possui hoje. Por puro achismo, acredito que tenha sido a partir dos séculos 18 e 19 e com o desenvolvimento do capitalismo. Acho que foi neste momento que a ideia de ser o melhor em algo passou a embutir algum mérito. Até este momento, seu destino estava basicamente traçado a partir do momento em que você nasceu. Não que seja muito diferente hoje em dia, mas pelo menos há alguma chance de mudança de status. O certo é que em algum momento da história ser mediano passou a ser algo ruim. Os dois personagens principais de dois dos mais importantes livros do século 19 estão em eterna luta contra a própria mediocridade. Julien de Sorel em O Vermelho e o Negro e Rodion Raskolnikov em Crime e Castigo têm em comum a obsessão por Napoleão, o homem do povo capaz de feitos incríveis e buscam, através de atos extremos, igualarem-se ao líder francês e escapar da mediocridade.
Considero-me uma pessoa medíocre, no que se refere à raiz média da palavra. Mas cada hora uso o termo com uma conotação. Vivo em ambientes compostos por pessoas medíocres. Conheço muito pouca gente que é realmente boa em algo e que ao mesmo tempo tenha alguma importância social. Quase todos que conheço nesta condição são médicos e professores, possivelmente duas das atividades mais importantes em nossa sociedade. Não tenho a honra de conhecer pessoas de outras profissões que realmente admiro muito e sem as quais nossa vida entraria em rápido colapso. Garis e bombeiros, por exemplo. Não sei o nome de nenhum dos bombeiros que tentou salvar vidas no prédio que desabou no Paissandú. A característica mais importante da mediocridade é a incapacidade de reconhecer os verdadeiros heróis.
Sou economista e quase todos os meus colegas de profissão são medíocres. Tenho amizade com vários e admiração apenas por dois, que nem meus amigos são. A principal característica da minha profissão é tentar colocar tudo em números e, a partir deles, julgar se as coisas estão melhorando. O PIB brasileiro cresceu 1% no último ano, logo estamos melhorando. O número de jovens abandonando as faculdades aumentou, mas estamos melhorando. A mortalidade infantil aumentou, mas estamos melhorando. Meio milhão de pessoas está presa sem julgamento por crimes muitas vezes ridículos, mas estamos melhorando. Li outro dia que brasileiros ricos estão desencanando do Brasil e se mudando para Portugal. Isto está criando uma nova necessidade entre os arquitetos portugueses, que é o desenho de prédios com elevador de serviço, uma vez que brasileiros ricos não se sentem bem dividindo o elevador com pessoas de um nível abaixo. É a exportação de mediocridade.
Trabalhei por doze anos numa editora de grande porte. Durante dez anos ficamos num mesmo prédio, que tinha quatro elevadores. Um era de serviço, dois eram para os funcionários e um quarto era exclusivo para o diretor geral da empresa. Ele só era acessível no subsolo e no sétimo andar, onde ficava a sala da diretoria. Este diretor geral tinha um cozinheiro exclusivo para ele, que víamos frequentemente utilizando o restaurante dos demais funcionários. Ele não podia comer a comida que cozinhava para o diretor geral e seus convidados. Toda vez que uma autoridade ia visita-lo, o elevador do subsolo era programado para atender o térreo. O único funcionário que podia parar o carro no subsolo era ele. Acho que talvez um ou outro diretor talvez parasse o carro lá também, mas não me lembro exatamente. Havia outros dois estacionamentos na empresa, um coberto, exclusivo para os outros diretores e gerentes, e um descoberto, liberado para os demais funcionários. Tinha umas poucas vagas cobertas neste estacionamento geral, as vagas eram basicamente de quem chegasse antes. Lembro-me de um caso interessante de um então coordenador que criticava bastante o diretor geral nas fofocas de café por causa do tal do elevador exclusivo. Quando foi promovido a gerente, parou o carro no novo estacionamento coberto a partir do primeiro dia. A mediocridade é contagiosa, afinal.
Facilmente nos acostumamos a privilégios, a ponto de rapidamente deixarmos de enxerga-los como tal. A maioria das pessoas que conheço tem vidas sem propósito ou sentido. Especialmente no que se refere à “vida profissional”. Odeio este termo. Passamos mais tempo no trabalho do que na “vida real”. Não acho que uma pessoa possa ser algo no trabalho e outra coisa fora dele. Mas enfim. Um fenômeno interessante de se observar em empresas é o dos funcionários que odeiam o trabalho e morrem de medo da demissão. Infelicidade com o presente e medo de que o futuro seja pior. A chave para entender o momento pelo qual o Brasil passa por estes dois sentimentos, infelicidade e medo. Numa eleição de sentimentos, talvez o único que possa enfrenta-los é a ideia de esperança, e aparentemente apenas uma candidatura percebeu isto. Mas não falarei mais de política hoje.
Queria ter algum tipo de dado para saber quantas pessoas conseguem chegar ao fim dos textos que escrevo. O que consigo saber a partir do que o Google fornece é que o título é fundamental para atrair leitores. Pensei em nomear este texto como “Suzanne von Richtofen sai da cadeia para aproveitar o dia dos pais”, mas mudei de ideia. Todo dia das mães e dos pais esta manchete ganha os grandes portais. Provavelmente gera muito clique. A mediocridade gosta de sensacionalismos, afinal.
A grande arma dos medíocres é arrumar alguma forma de justificar a própria infelicidade e os fracassos. Vivemos numa grande prisão de infelicidade e medo. A principal forma de nos manter nesta prisão vem com o consumismo. Trabalhos que não gostamos para comprar coisas que não precisamos, afinal. Nada como uma prestação de trinta anos para comprar um apartamento com varanda gourmet num bairro planejado para te tornar um eterno escravo. Trinta anos são basicamente o que há de melhor na vida, facilmente trocado por um imóvel. Comprar apartamento é a melhor forma que a classe média encontrou de foder com a própria vida. A segunda é o automóvel. O desespero para seguir devendo é tão grande que a maioria das pessoas que conheço corre para trocar de veículo assim que ele acaba de ser pago.
Conheço até hoje uma pessoa que rompeu verdadeiramente com o que chamo de ciclo da prisão consumista. É um ex-colega da empresa do elevador exclusivo do chefe. Até hoje, quando encontro o pessoal que trabalhava comigo lá, falamos sobre ele com uma mistura de deboche e inveja. O deboche é a grande arma do medíocre contra o que é diferente e questionador. O deboche não tem outra função que tentar humilhar alguém, não há nenhum convite à reflexão. Medíocres não gostam de refletir.  
Participei por muito tempo de aplicativos de relacionamentos pela internet. Depois do momento em que perguntamos se a outra pessoa está bem, normalmente perguntamos o que a pessoa faz da vida. A resposta é quase sempre a profissão. Não me lembro se no Happn ou no Tinder a profissão já vem abaixo da fotinho que você curte ou não. Comecei usando Tinder, até o momento em que um amigo meu me recomendou o Happn. Descobri que era para onde as “minas gatas” estavam indo. Uma das minhas paqueras disse que havia saído do Tinder porque estava muito “povão” e só tinha gente feia. Conheço muita gente, aliás, que ao elogiar um local em que vai à noite diz que lá só tem “gente bonita”. Os aplicativos levam para a internet a escrotização da vida real. Quando saí do Happn, aparentemente ele já estava ficando ultrapassado, segundo o mesmo amigo que o havia recomendado. As pessoas bonitas e ricas estavam cansando de lá e tinham criado um novo aplicativo, cujo nome não sei.
Foi mais ou menos assim com tudo em nossa história. Podemos utilizar a educação como exemplo. Ela era exclusiva da elite. Com o tempo, o povão começou a ter acesso às escolas públicas e a classe média e a elite buscaram o setor privado para se diferenciar. O governo, basicamente a serviço destas duas classes, pôde assim deixar de investir no setor. Buscando maior diferenciação, elite e classe média começaram a ingressar em universidades e diplomas passaram a ser o grande diferencial no mercado de trabalho. Os anos 2000 representaram o momento de grande acesso de uma parcela gigantesca de pessoas pobres às universidades. Foi o momento também de explosão dos cursos de MBA entre pessoas de classe média e ricas. Como o diploma deixou de ser o diferencial, criaram-se novos cursos, a maioria inútil, apenas para diferenciar aqueles que têm condições de pagá-los. Nada se desenvolve com base na inclusão, apenas na exclusão.
Na empresa do elevador exclusivo, estávamos no café das fofocas uma vez eu, um colega e nosso chefe, falando sobre alguma eleição que não lembro o ano. Disse nosso chefe que não conhecia nenhuma pessoa que havia estudado graças ao Prouni. O meu colega, que estava a frente do chefe, havia estudado graças a este programa. Por que o nosso chefe não sabia disso? É simples, porque nunca havia se interessado em ouvir o que seu funcionário tinha a dizer. Pessoas de uma hierarquia acima nunca se interessam em aprender com as experiências de quem está abaixo. Qualquer sociedade de caráter exclusivista como a nossa é assim. Lembro-me que este mesmo colega me disse uma vez se eu já tinha notado que sabíamos o nome de um diretor de outro andar com o qual não tínhamos nenhum contato, mas não sabíamos o nome da senhora que limpava o nosso andar todo dia.
No começo do texto, disse que não sabia o nome de nenhum gari. Digo isto porque sou medíocre. Estou dedicando 2018 a tentar sair da prisão. Está difícil. Dizia Nietzsche, mais ou menos desse jeito, não lembro a citação correta, que toda vez que você decidir fazer algo da sua vida, vá até o fim, pois a vida fará o possível para que você volte atrás. A hora é de seguir em frente.

2 comentários:

  1. "Queria ter algum tipo de dado para saber quantas pessoas conseguem chegar ao fim dos textos que escrevo." Eu costumo chegar ao fim da maioria. E gostei bastante desse.

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