segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Brasil queima sua própria história



Na última terça-feira, o candidato Jair Bolsonaro foi entrevistado pela bancada do JN. Questionado pelo âncora William Bonner sobre a negação que faz do termo golpe para se referir ao Golpe de 1964, Bolsonaro citou o apoio que o dono da emissora em que era entrevistado deu ao mesmo golpe. O âncora não o rebateu, com medo de manchar a imagem fictícia de democrata criada para o ex-patrão já falecido. O Brasil, em geral, é indiferente à sua própria história e incapaz de analisar de forma mais ampla seus próprios erros, para desta forma corrigi-los. A imagem da tragédia do Museu Nacional do Rio sendo destruído pelas chamas é extremamente simbólica disto. Nossa história é queimada diariamente pela indiferença.
“Uma sociedade que não conhece sua história tende a repetir seus erros”. A frase, que sinceramente não sei se está descrita aqui ao pé da letra, está escrita no Memorial de Auschwitz. Impedir a repetição de erros é a principal função do trabalho histórico. O grande evento da história do Brasil é, sem dúvida, a escravidão. Nenhum outro evento foi tão importante na definição do funcionamento da nossa sociedade quanto ela. A origem das nossas desigualdades e de como as nossas relações de trabalhos foram desenvolvidas. Não há em SP nenhum museu dedicado exclusivamente a este assunto. Dizia Joaquim Nabuco no final do séc. XIX que cada brasileiro carregaria em sua pele as marcas deste período histórico, seja por ter feito parte do grupo que escravizou, seja por fazer parte do grupo escravizado. Completava ele que ao final da escravidão seria seguido um período de ainda maior duração e de igual dificuldade, que seria o das consequências dela. Uma sociedade hierarquizada e com pouquíssimas chances de ascensão social, que ocorre basicamente através do esporte e da arte. A inumanidade terminou com a Lei Áurea em 13/11/1888, mas foi substituída por outra, a do esquecimento. A elite brasileira daquele momento, formada basicamente por grandes proprietários de terra escravistas, cujos herdeiros representam boa parte da nossa elite até hoje, passou a trazer brancos europeus para a realização das atividades braçais, com o objetivo de embranquecer a população. Tratavam-os, porém, de forma semelhante ao que estavam acostumados durante a escravidão. Uma elite preguiçosa, cuja riqueza vem exclusivamente da posse e criada com a mentalidade escravista de que o trabalho só poderia ser obtido com o uso da força. Foi para combater isto que surgiu a CLT, no final dos anos 1940. Um país recém-saído da escravidão e tentando, pela primeira vez, dignificar minimamente as relações de trabalho e botar algum tipo de coibição na forma como uma elite ainda tratava aqueles responsáveis pelo trabalho. A mesma CLT que no ano passado foi achincalhada por “especialistas” e “modernizada”. Hoje vemos candidatos propondo a destruição final da CLT, opondo basicamente direitos e empregos. Menos direitos para mais empregos, diz Bolsonaro. Coisa semelhante diz Amoedo, do Partido “Novo”. Um país sem memória aceita propostas que tirem do Estado sua função primordial, reconhecer e reparar injustiças e desigualdades.
A história oficial do Brasil basicamente apagou a questão negra após a Abolição. Abra qualquer livro de história escolar e talvez o único momento em que ela é abordada será na Revolta da Chibata. Poucos trabalhos históricos sobre este período saem do meio acadêmico e chegam ao grande público. Tenho 34 anos e a primeira vez em que visitei uma réplica de Senzala foi aos 32 anos, numa viagem para Ouro Preto. É uma experiência duríssima e fundamental para entender o que aconteceu neste país em boa parte da nossa história.
Além da escravidão, outro evento que marca de forma inapagável nossa história é o genocídio. Não apenas contra o povo negro, mas também contra o povo indígena, que foi basicamente exterminado do nosso território. Temos em SP um gigantesco monumento em homenagem aos genocidas em frente ao principal parque da cidade. Na véspera da última eleição municipal, um grupo fez uma manifestação lembrando isto, pintando o monumento de vermelho. Foram tachados de “depredadores do patrimônio público”. O palácio onde mora o governador do Estado tem seu nome como uma referência ao grupo de pessoas que praticaram este genocídio. Nenhum monumento às vítimas na cidade, ao menos que eu conheça, de forma a lembrar que a nossa história foi feita à base de assassinatos e correntes. O que existe é a uma tentativa de glorificar os assassinos.
O Brasil queima sua história. General Mourão, vice de Bolsonaro, disse que o brasileiro herdou “a indolência do índio e a malandragem do africano”. É a mentalidade do assassino. Porque ao não tratarmos o período de forma séria e ao não nos esforçarmos para corrigir os enormes problemas sociais que estes erros causam, estamos sendo cúmplices dos assassinatos.
O Brasil não teve uma comissão da verdade para tratar dos crimes cometidos pelo Estado durante o Regime Militar, tão defendido por Bolsonaro e Mourão. Nossa população é extremamente ignorante sobre o assunto e cai em ladainhas do tipo “seu pai foi torturado?” para diminuir o tamanho do estrago que foi aquilo. O mesmo General Mourão ameaçou um golpe de Estado quando o Supremo julgava a legalidade da prisão em segunda instância, cuja negação poderia soltar o ex-presidente Lula.
O maior inimigo da sociedade atual é o fascismo. A forma como ele simplifica os problemas, dando soluções fáceis e autoritárias para problemas complicados. O Brasil é um país que historicamente lida mal com conflitos e acaba optando por uma via autoritária todas as vezes em que eles são impostos. Os governos petistas foram os primeiros, desde Vargas, a tratar com alguma seriedade as injustiças históricas cometidas contra negros e índios. A política de cotas foi um primeiro e importante passo. Uma boa parcela da elite não as aceita, considerando que o governo petista “inventou” o conflito. Inventou o “nós contra eles”. A falta de conhecimento histórico permite este tipo de discurso. Também permite chamar a crise atual de "pior crise da história". Em um país que teve escravidão, NADA será a maior crise da história, porque NADA foi pior do que aquilo.
Enfrentar o fascismo é a principal missão da nossa geração. E a melhor forma de fazê-lo é através da propagação de conhecimento. Através da verdade. A verdade é que a história do Brasil é feita de exploração e sangue e todos somos frutos disto. O incêndio do Museu no Rio é uma tragédia sem tamanhos. E é um símbolo de uma sociedade que renega sua própria história.

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